Ontem arrisquei carregar 10 meias alças que tinha crestado uns dia antes e rumar ao apiário onde convivem castanheiros e azinheiras. A esperança de ainda as encherem com a melada dos azinhos é pequena, mas suficiente para me ter motivado. Feita a inspecção às 16 colónias Langstroth em produção lá estacionadas, acabei por decidir colocar meias-alças em 5 colónias.
Contando as colónias onde coloquei as meias-alças.
É neste apiário que se encontra a colónia que passou pelo processo Demaree para controlar a enxameação — ver aqui e aqui. Ontem o seu sobreninho apresentava estes quadros:
Aproveitei a deslocação para iniciar o terceiro e último tratamento do ano nos núcleos presentes.
Procedi à recolha de abelhas adultas para efectuar o cálculo da taxa de infestação por varroa neste apiário.
Em casa e de acordo com os procedimentos descritos na publicação anterior encontrei 3 varroas numa amostra de cerca de 550 abelhas.
0,5 % de taxa de infestação de acordo com a amostra de abelhas recolhidas. Noto que as abelhas foram retiradas de duas colónias estabelecidas com mais de uma ano e de duas outras colónias novas onde foram introduzidas rainhas virgens em abril. Deste aspecto decorre um período de cerca de 12 dias sem postura, período durante o qual se interrompe a fase reprodutiva na população de varroas.
Hoje, com minha esposa, realizei os procedimentos necessários e adequados — assim o espero — para obter uma ideia precisa da taxa de infestação das abelhas adultas num dos apiários onde pretendo iniciar nos próximos dias o tratamento de verão da varroose, com recurso às tiras de Apivar.
Tendo efectuado neste ano, e até à data, dois tratamentos, o primeiro com recurso a tiras de Apivar, colocadas na última semana de janeiro, o segundo com recurso a tiras com ácido oxálico colocadas em finais de junho, pretendo iniciar este terceiro e último tratamento com uma taxa de infestação das abelhas adultas abaixo dos 3%. Sei por intermédio de leituras e observações pessoais que todos os medicamentos, ou quase, são muito menos eficazes quando a taxa de infestação ultrapassa esta percentagem. Sei também que o medicamento deve ser colocado em agosto para garantir que as abelhas de inverno, que vão começar a ser criadas nas duas a três semanas seguintes, devem ser nutridas num ambiente saudável, com poucas varroas e poucos vírus.
Assim sendo, munidos dos conhecimentos e equipamentos para fazer este teste à infestação por varroa, a minha esposa e eu passámos à acção.
Em baixo fica o foto-filme das etapas, procedimentos e equipamentos utilizados para este propósito.
Preparação do líquido e recipiente que vai ser utilizado para proceder à lavagem de abelhas.
No apiário, identifiquei 6 colónias que ao longo da época estiveram fortes, com muita criação ao longo dos últimos 4 meses. Nessas 6 colónias sacudi abelhas dos quadros com criação, isto depois de ter posto de lado o quadro onde andava a rainha.
Localização do quadro onde andava rainha.
Abelhas a serem sacudidas.
Um pequeno número destas abelhas foram sacrificadas para o bem maior de cerca de um milhão de abelhas que habitam as colónias deste apiário.
Uma etapa emocionalmente difícil!
De regresso a casa, procedi à lavagem e coagem de abelhas e ácaros.
Abelhas recolhidas do ninho de 6 colónias diferentes num apiário com 27 colónias.
Abelhas num coador de mel com duas malhas e lavagem com água da torneira.
5 varroas recolhidas na malha fina do coador
5 varroas recolhidas em quantas abelhas?
Contagem das abelhas em montes de 10.
45 grupos de 10 abelhas + 2 abelhas
Taxa média de infestação nas 6 colónias: 1,1%
Análise retrospectiva e análise prospectiva: Com uma taxa de 1,1% de infestação pelo ácaro varroa olho para trás e confirmo a validade e adequação da estratégia de tratamentos que estou a seguir este ano. Por outro lado, e olhando agora para a frente, esta taxa permite-me estar muito confiante, pois antevejo que o tratamento de verão tem tudo para correr bem, uma vez que a taxa de infestação está bem abaixo dos 2 a 3%. Este é o limiar máximo que os mais conhecedores e mais cuidadosos apicultores que conheço recomendam para iniciar o tratamento. Isto se os apicultores meus vizinhos também estiverem a fazer o que devem fazer e na altura em que o devem fazer. Quando os ouriços se começam a formar nos castanheiros, pode ser a mnemónica?
Ontem continuei, com a ajuda do Frederico Passas, a cresta dos meis claros no apiário das Langstroth a 600m de altitude.
Hoje, com a ajuda de minha mulher, voltei ao apiário das Lusitanas, para continuar a cresta iniciada a 3 de julho.
Apiário que combina três tipos de colónias: colónias novas só no ninho, colónias com grelha excluidora que serviram aos desdobramentos pela técnica Doolittle e colónias dedicadas exclusivamente à produção, as mais altas.
As colónias que serviram aos desdobramentos, às quais já crestei um sobreninho, hoje crestei-lhes uma meia-alça (alça) como a da foto em baixo.
Depois de tantas malfeitorias, a pior delas obrigar a rainha a manter-se no ninho desde praticamente o início de março, estas colónias acabam a produzir cerca de 40 kgs de mel.
Saídos de casa com algum sol por detrás de nuvens altas, chegámos a casa com névoa e um borrifo. Melhor para a melada!
Nota: Fred poderá haver quem pense “bo bem mou finto”, apesar de ontem teres testemunhado o mesmo no apiário das Langstroth.
Ontem, com a ajuda do Pedro Miguel, continuei a cresta das colmeias situadas no território das marcavalas e dos castanheiros. Verifiquei que coexistiam quadros em três estágios de progressão: quadros maduros, com mel operculado de travessão a travessão (os que trouxe para a extracção), quadros com mel verde por opercular e que pingavam néctar quando sacudidos e quadros com parcelas de criação operculada (os que ficaram nas colmeias para cresta futura, dentro de duas a três semanas).
Assim como os quadros nas colmeias, também os castanheiros estão em estádios diferentes de maturação da sua floração: o mais distante apresenta as candeias abertas e bem floridas, o mais próximo apresenta as candeias semi-secas.
Hoje, com a ajuda de minha mulher, terminei a primeira fase da cresta deste apiário. Como habitualmente, surgem favos adventícios entre as meias-alças, utilizados frequentemente para criação de zângãos. Nestes casos aproveito para trazer alguns para casa para fazer uma análise mais atenta da presença/ausência de varroa.
Exemplo de um favo adventício com criação de zângão.
Recolha de pupas de zângão.
Ajuda de minha mulher.
O mais indicado é efectuar a recolha de pupas de zângão no estádio olhos violeta.
Foram recolhidas 30 pupas de zângão.
Este tipo de análise é meramente indicativo, muito falível e porventura enganador acerca do nível de infestação por varroose. Contudo, o facto de em 30 pupas de zângãos não ter encontrado uma única varroa indica que alguma coisa estarei a fazer bem no que ao tratamento da varroose concerne. Convém-me, mesmo assim, manter os pés bem assentes no chão e não desrespeitar os timings de verão para o tratamento principal e o mais crítico da varroose. Na esperança que o relativo fracasso do ano passado no controlo da varroose me tenha ensinado o que de substantivo tinha que aprender para fazer melhor este ano. Até ao momento, os sinais são encorajadores, na luta contra o pior e mais previsível inimigo das abelhas — previsível porque a varroa não faz prisioneiros, ou a controlamos a tempo e horas ou ela massacra os seus hospedeiros.
Um enxame de abelhas pode ser analisado a diversos níveis, os mais usuais são o nível do indivíduo e o nível do super-organismo. Como cada abelha per si não tem potencial de sobrevivência, uma boa parte das análises são feitas ao nível do enxame — super-organismo. O nível do enxame é também onde, como apicultor, me coloco na observação e maneio das minhas colónias.
Chega a altura este ano de tirar as grelhas de entrada das minhas colónias a 900m de altitude. Até cerca dos 25-27 ºC de temperatura máxima por norma deixo estar as grelhas. Sobre a ventilação das colónias sei muito pouco, e creio que a ignorância é geral, apesar de todos termos opiniões e preferências — é dos temas mais complexos da apicultura mobilista. Se no inverno estas grelhas são essenciais para evitar que os ratinhos do campo entrem nas minhas colmeias, até as temperaturas rondarem 13-15ºC nocturnos e os 25-27ºC diurnos (e as temperaturas mínimas mandam muito no meu maneio, num território com grandes amplitudes térmicas) tenho observado que contribuem frequentemente para ter criação até ao fundo dos quadros, por comparação com colmeias sem as grelhas, onde observava pouca criação na parte inferior dos quadros.
Sobre a ventilação superior tenho optado por esta solução na última meia-dúzia de anos. Tapo 2/3 do óculo da prancheta. O ar quente vindo debaixo sai na mesma e, ao mesmo tempo, as abelhas têm possibilidade de tapar esta pequena fresta se assim o desejarem. Elas, melhor que eu, sabem o que fazer. Tenho verificado que há colónias que propolizam totalmente o terço de abertura que fica, outras pouco propolizam, e outras deixam um pequeno buraco do tamanho de corpo de uma abelha no meio de uma massa de própolis por onde vejo sair uma ou outra abelha. Que concluir desta diversidade comportamental? Para já apenas isso, que é diversa, que não há uma e melhor solução igual para todas as colmeias, mesmo estando no mesmo apiário!
Colocação das redes de captura do própolis — o produto da colmeia mais nobre, ideia que cresceu em mim neste ano de Covid.
Verificação da quantidade de geleia de obreira disponibilizada às larvas.
Quadro com algumas reservas, à esquerda — mel e pão de abelha —, substitui um quadro seco numa jovem colónia. Numa colónia madura, já estabelecida, estaria muito provavelmente a fazer o contrário.
Com tanta abelha para nascer e tanta larva para nutrir este cuidado faz muito sentido para mim numa colónia jovem, com pouco tempo de vida para apresentar um nível confortável de reservas de mel e pão-de-abelha .
A colónia que foi sujeita à técnica Demaree, observada ontem à entrada do verão.
Mel no sobreninho da colónia submetida à técnica Demaree, muito provavelmente de Erica arborea. Falta ainda o fluxo do castanheiro e a melada da azinheira para se lhe juntar. O produto final é complexo e raro! Esta colónia que esteve à beira de enxamear, que por essa razão foi sujeita a uma abordagem diferente, prepara-se para produzir 25-30 kgs de mel.
Compacidade na postura de uma rainha de uma linha precoce (há quem lhes chame linha de enxameação). Estas, pelas suas características mais explosivas, precisam de ser drenadas de quadros com criação um pouco mais frequentemente. Este quadro foi transferido para uma colónia em produção. As linhas precoces a produzirem mel, ainda que indirectamente, pela grande quantidade de abelhas prestes a nascer que dão às colónias em modo de produção! Este quadro tem perto de 6 mil abelhas para nascer.
Tratar de forma igual o que é igual, tratar de forma diferente o que é diferente, é um principio orientador no maneio que vou fazendo por estes dias, assim como também noutras épocas do ano.
Em abril deste ano foi publicado na revista científica Scientific Reports o artigo Pupal cannibalism by worker honey bees contributes to the spread of deformed wing virus, já referenciado aqui em fevereiro, antes da sua revisão. Volto nesta publicação, de forma sumária, ao seu conteúdo para apresentar uma sugestão de maneio.
Um vírus (VAD) que deixa as abelhas com asas atrofiadas e inúteis, abdómen inchado e cérebro lento antes de as matar aproveita-se de um dos hábitos dos polinizadores – a tendência de canibalizar a sua criação, descobriu um novo estudo.
O comportamento de canibalismo.
O vírus das asas deformadas (VAD) esconde-se no interior dos ácaros que parasitam as larvas e pupas das abelhas; as operárias são infectados quando se alimentam destas, concluiu recentemente uma equipe de pesquisadores.
Esta descoberta pode explicar a razão de o VAD se ter tornado muito mais catastrófico, muitas vezes levando ao colapso das colónias, em comparação com o passado. Esta pesquisa conclui que o aumento da virulência do VAD é devido, em parte, ao comportamento de canibalismo das abelhas.
Sugestão de maneio: Uma maneira de interromper a reinfecção viral por meio da canibalização da criação é fazer um enxame nu, retirando toda a criação presente. As abelhas recuperam muito rapidamente num bom fluxo de néctar ou quando são alimentadas, tão rapidamente que, segundo alguns apicultores experimentados, elas não perdem terreno a longo prazo. Por alguma razão, percebendo que estão sem criação na nova configuração, elas vão empenhar-se quase freneticamente na construção de favos novos e criando novas abelhas a uma velocidade muito superior à que apresentavam no seu ninho estabelecido.
As abelhas, como nós, gostam de desafios, acreditam nas suas possibilidades e, a partir daí, agem tendo o céu como limite.
As organizações procuram com as ferramentas de “gestão do conhecimento”, que os seus empregados mais experientes de saída da empresa, por reforma ou mudança para outro local de trabalho, por exemplo, capturar o conhecimento tácito destes para o transmitir aos mais novos. Entre outras medidas, como o recurso a entrevistas, gravações do desempenho no terreno, umas das mais utilizadas passa por colocar o aprendiz ao lado do seu colega mais experiente acompanhando-o no desempenho da suas funções. Esta experiência visa dar oportunidade a que um conjunto de detalhes do modo de fazer, do momento de o fazer e do contexto em que os fazer, não escritos e capturados nos manuais dos descritivos de funções e de procedimentos, sejam apreendidos pela observação “natural”, em local, pelo aprendiz.
Vem isto a propósito da mais recente visita do meu amigo Marcelo Murta, que me acompanhou e ajudou na realização de diversas operações de maneio em dois dos meus apiários. Tendo o Marcelo lido boa parte do que escrevo no blog, o local onde verto o meu conhecimento explícito, achei por bem que viesse ver como trabalho, para que pudesse aceder a uma parcela do conhecimento tácito que uso no maneio das colónias e das diversas componentes que o envolvem.
O Marcelo Murta à minha esquerda.
Para terminar o Marcelo, que tem idade para ser meu filho, também partilhou comigo os seus conhecimentos, opiniões e sugestões. Julgo que tal se originou na boa relação que temos os dois, por não o oprimir com as minhas opções e narrativas, por me manter disponível e receptivo aos seus contributos e saberes.
O encontro de gerações não sendo uma impossibilidade metafísica, exige uma escuta atenta, uma apreciação justa, uma atitude equilibrada de ambas as partes. Relevam-se os pontos comuns e analisam-se tranquilamente as divergências. Assim se estabelece uma relação serena e produtiva.
Que a diferença de idades seja um motivo para as diferentes gerações erguerem pontes, não muros. Que o conhecimento tácito flua como o néctar flui entre as plantas e as abelhas…
Esta colónia, que habita uma colmeia do modelo Langstroth, recebeu o sobreninho a 21-03. A rainha foi confinada ao ninho em 27-03 por uma grelha excluidora, portanto há pouco mais de um mês.
Quando se menciona grelhas excluidoras de rainhas surge inexoravelmente a questão se limita ou não a postura das rainhas. Vamos por partes!
Esta é uma lâmina de cera que costumo utilizar nos ninhos das Langstroth. Tem 19,5 cm por 42 cm.
Ontem, depois do jantar comedido que fiz, decidi contar os alvéolos desta lâmina de cera.
Tinha 41 alvéolos na altura e 78 na largura. Multiplicando estes dois números fiquei a saber com rigor que estão presentes 3198 alvéolos em cada face desta lâmina de cera. Nas duas faces são 6396. Como incrusto a cera mais próximo do travessão do fundo dos quadros, estimei a altura com mais três filas de alvéolos, neste caso 44 em altura. Fazendo novamente as contas para esta alternativa obtenho um total de 3432 alvéolos em cada face, perto dos 7000 nas duas faces.
Outra questão que importa esclarecer: uma rainha põe exactamente quantos ovos por dia? Eu não sei! Julgo que varia de acordo com vários factores. Contudo na literatura são referidos valores médios a variarem entre 1000-2000 ovos/dia. Muito bem, se assim é 8 quadros do ninho bem desbloqueados dão espaço de sobra a uma rainha com uma postura média de 2000 ovos/dia durante 20 dias. Sim, porque ao fim do vigésimo dia começam a emergir as abelhas geradas a partir dos ovos postos 20-21 dias antes. E de novo esses alvéolos ficam disponíveis para um novo ciclo de postura — de facto o reverendo Langstroth não andava sob o efeito de psicotrópicos quando idealizou as dimensões dos quadros da sua colmeia.
Em conclusão, a grelha excluidora limita o espaço de postura de uma rainha ao ninho, mas não tem forçosamente de limitar a postura em si mesma. Bem desbloqueados os 10 quadros do ninho no modelo Langstroth — e também os da Lusitana, que têm um número de alvéolos muito próximo — não limitam a postura das minhas rainhas. No período de 20 dias permitem a oviposição de 40 mil ovos. Sabendo que a população máxima de uma colónia iberisiensis ronda as 45 mil abelhas, parece-me que não é “contra-natura” a utilização da grelha excluidora nas condições que descrevo. Não noto, nestas colónias, atraso nenhum no seu desenvolvimento.
Tirei umas fotos para me convencer que também não ando sob o efeito de psicotrópicos quando trabalho nos meus apiários — desde que anteontem uma raposa se aproximou de mim, a menos de 10 metros, enquanto eu trabalhava silenciosamente no meu apiário como é meu hábito, e ambos ficámos admirados de nos vermos ali tão inesperadamente próximos, que já não sei aos certo se o que vejo existe ou se vejo o que quero ver. Se calhar é um pouco das duas coisas!
Quadros do ninho da colónia 1, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 2, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 3, com rainha confinada ao ninho.
Mas como a apicultura é feita de imprevistos e de singularidades, se alguém desejar ensaiar não deixe de ir fazendo as suas observações e os ajustamentos que achar adequados. Nem sempre tudo sai como o planeado!
Como não saiu como planeado o meu primeiro ensaio na utilização da técnica de translarve.
A minha amiga Filipa Almeida e os meus amigos David Marques, João Gomes e Francisco Rogão já me deram umas dicas preciosas para evitar este colossal fracasso na próxima vez que tentar de novo.
Com os dias a sucederem-se numa miscelânea de aguaceiros, sol, chuva, alguns mais frescos e outros um pouco mais quentes, as abelhas andam a 200 à hora. Eu vou procurando dar resposta a esta vertigem pois a idade, a saúde e a vontade permitem-me trabalhar a bom ritmo. Depois do dia de anteontem, em que não parei para ver este por do sol — mas a Filipa Almeida viu por mim! —, ontem as tarefas a realizar exigiram-me que o nascer do dia me fosse encontrar já no apiário.
Apesar de começar cedo, as horas e os dias passam tão ligeiros que há sempre alguma coisa a ficar para trás. Neste caso foi uma colmeia, que por ter o estrado estragado no dia de ser transumada com as outras para uma cota cerca de 300m mais baixa, acabou por se manter solitariamente no apiário onde estava. E tornou-se num daqueles projectos “amanhã tenho de a ir buscar”, só que o amanhã demorou mais de um mês a chegar e, durante esse mês, o seu maneio foi nenhum.
O estado do estrado. A colónia que vão ver em baixo passou um dos invernos mais frios que tenho memória, numa das zonas mais frias do país, nesta casa esburacada. Quando me dizem que os enxames de A, B ou C morreram de frio… tenham paciência pela minha falta de paciência para essa conversa..
Visão geral, ontem, da colónia que passou o inverno numa casa pouco aconchegante, aos nossos olhos.
Vejamos a colónia quadro a quadro.
Vista do quadro 10.
Vista do quadro 8.
Pormenor do quadro 7.
Sim, esta colónia enxameou… o enxame primário foi meter-se numa caixa com 8 quadros, que tinha a 30 metros a aguardar utilização num outro assento. Assim sendo, e uma vez que até aqui a fortuna não permitiu que perdesse abelhas deste enxame, decidi fazer o necessário para não vir ainda a perder abelhas — sabendo que o processo de enxameação ainda só tinha jogado a sua primeira parte —, desta feita por via de um aspecto muito negligenciado ou até desconhecido por alguns de nós: os enxames secundários ou garfos.
Vista de frente da colmeia que continha a colónia que enxameou e quatro caixas-núcleo de transporte. Sim, dividi-a em quatro!
A primeira divisão que fiz.
Última divisão que fiz.
E foi só porque me apeteceu fazer 4 enxames de um que fiz quatro enxames de um? Não, a razão foi esta…
Virgem 1… se apurarem o olhar vão vê-la!
Virgem 2.
Virgem 3.
Aqui, se não me engano estão três visíveis!
Desfeito o mito que a primeira rainha a nascer mata as outras? Se as abelhas deixassem e se a primeira nascesse/emergisse com um desfasamento temporal que lhe permitisse localizar as irmãs-rivais — já vi várias vezes rainhas romperem os mestreiros e emergirem com um minuto e menos entre si —, vontade para o fazer não lhe faltaria. Mas vontade apenas não chega!
Uma colónia que enxameou e continua cheia que nem um ovo? Só se o enxame primário tiver saído com meia-dúzia de abelhas, pensarão alguns. Pois nem isso também corresponde à realidade, neste caso e, muito provavelmente, na grande maioria dos casos. O enxame primário foi enfiar-se numa caixa a 30 metros de distância e ocupava cerca de 5 a 6 quadros.
As tiras de apivar coloquei-as antes de saber a proveniência do enxame… coisa que vim a saber poucos minutos depois.
Em conclusão, que o caso já vai longo e tenho que descansar que amanhã o dia vai começar cedo de novo: o grande desperdiçador de abelhas não é apenas o enxame primário; os enxames secundários ou garfos são os maiores responsáveis por chegarmos a uma altura em que na nossa colónia resta pouco mais que as abelhas que cobrem um a dois quadros.
Não estou a dizer nada de novo, Doolittle já o disse há quase 120 anos: o processo de cisão natural do enxame não termina com a enxameação primária. Para não vermos a população daquela nossa colónia, que estava pujante duas semanas antes e a prometer cinco meias-alças de mel, reduzida a 1/10 do que foi, vejo duas alternativas apenas, cada uma em função do estado em que encontremos o enxame: no caso de as rainhas virgens não terem emergido ainda, há que destruir todos os mestreiros com excepção de um; no caso de as rainhas já terem emergido há que fazer múltiplas divisões ou eliminar todas as rainhas virgens com excepção de uma.
Tenho falado com alguma regularidade da cera, como não poderia deixar de acontecer, pela sua importância para o bom desenvolvimento dos enxames. Nesta publicação antiga fiz algumas considerações acerca do que se supõe ser a influência do fluxo de néctar na conversão de abelhas não qualificadas em abelhas especializadas na produção de cera.
Com o passar dos anos tenho adquirido cada vez mais consciência da importância de ter cera puxada ao dispor para apoiar os enxames à saída do inverno (fevereiro e março).
No mês de abril e maio, com a conformação das minhas colónias à regra “não mais de seis“, as necessidades de cera laminada crescem exponencialmente.
Esta colónia foi conformada à regra “não mais de 6”. Os dois dois quadros novos com cera laminada, com a indicação JV21, foram colocados na semana passada.
Ontem verifiquei que estes quadros tinham sido bem aceites pelas abelhas que os puxaram de forma uniforme e pela rainha, que já os tinha aproveitado para a sua sementeira.
Sempre que experimento a moldagem de um novo companheiro/empresa cerieiro tenho por hábito marcar os quadros com uma sigla que o identifique, para depois verificar facilmente, com objectividade e rigor, a apreciação que as abelhas fizeram dessa cera.
A nova cera na caixa.
No momento da incrustação.
A identificação dos quadros com a cera laminada.
21 identifica o ano, JV identifica o cerieiro, o Apicultor José Vicente, residente ali próximo da bela Nisa, concelho onde comprei os meus primeiros enxames, em setembro de 2009.