desinfecção por maçarico de colmeias com esporos de loque americana: o contexto, a reflexão, os dados

As colmeias com loque americanadevem ser
queimadas devido aos esporos que permanecem
viáveis por até 40 anos.

O contexto: Quando deparamos com uma colónia com loque americana, uma das questões que se coloca é como podemos desinfectar a caixa-colmeia. Vários apicultores, senão a maioria, opta por queimar os quadros e desinfectar com recurso ao maçarico a superfície de madeira da caixa-colmeia, isto é, o seu estrado, corpo e prancheta de agasalho. Quem o faz garante que este procedimento é suficiente, afirmando que não teve problemas de novas infestações.

A reflexão: Estou convicto que para cada um dos testemunhos que refere esse bom resultado, provavelmente haverá outros com resultados negativos. Contudo é próprio da nossa natureza humana apresentar os bons resultados, e deixar em privado aquilo que não correu bem. Por outro lado, como uma equipa de futebol que ganhe dez jogos seguidos não garante que ganhará os dez seguintes, também ser bem sucedido dez vezes com a desinfecção com maçarico de caixas contaminadas pelos esporos de loque não garante que o mesmo volte a acontecer ao desinfectar a décima primeira.

Os dados: A desinfecção com maçarico não garante a eliminação de todos os esporos. Esta afirmação não resulta de uma noite mal dormida ou de uma imaginação fértil. É uma afirmação sustentada nos dados que conheço de um ensaio controlado, bastante claro a este respeito, do qual traduzo pequenos excertos bastante elucidativos.

A queima [com maçarico] deu uma descontaminação superficial completa, enquanto um número substancial de esporos permaneceram viáveis nas camada mais internas da madeira.

A desinfecção das colmeias [com maçarico] não pode ser recomendada.” 

Em conclusão, a descontaminação de estruturas de madeira, como colmeias, continua a ser um problema. Isso parece dever-se principalmente à estrutura da madeira, e não à natureza dos esporos.

fonte: https://sfamjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1046/j.1365-2672.2001.01376.x

Nota: sobre a loque americana escrevi em 2017: “Para quem quer impedir o alastramento do contágio e assim preservar as suas colmeias e as colmeias dos vizinhos só tem um caminho: eliminar pelo fogo as fontes de loque americana. Isso implica matar as abelhas e queimar tudo: abelhas, quadros e caixas num buraco aberto no solo que depois deve ser bem coberto com terra para evitar que as abelhas nas redondezas se infectem em alguns restos mal queimados.” O artigo em cima aponta outros caminhos, mas pouco viáveis para muitos apicultores.

a questão apícola mais premente para 2021

Sinais na criação e nas abelhas do
Parasitic Mite Syndrome (PMS)

Nos onze anos da minha actividade apícola como apicultor profissional, tenho verificado que os resultados dos tratamentos contra a varroose apresentam taxas de eficácia aparentemente diferentes, quando comparo os resultados entre os tratamentos de final de inverno e os tratamentos de final de verão. Encontro mais regularmente colónias com PMS após os tratamentos de verão (por ex. nos anos de 2014, 2016 e 2020) do que após os tratamentos de final de inverno. E porquê? Esta é a questão apícola mais premente na minha cabeça, decorrente do que observo e considerando as minhas opções por medicamentos não dependentes da temperatura ambiente, não voláteis*, com alguma rotação de princípios activos ao longo destes anos e, sobretudo, com o que considero um bom ajustamento do calendário de tratamentos realizado a partir de 2015/2016**.

As hipóteses explicativas que confluem todas (com que peso cada uma?) para a maior dificuldade em manter as taxas de infestação abaixo do dano ao nível da colónia são, na minha opinião, basicamente as três que apresento em baixo:

  • a interacção entre a dinâmica populacional das abelhas e a dinâmica populacional dos varroas, ao longo de um ano, provoca mais pressão parasitária no final do verão do que no final do inverno/início da primavera (tive oportunidade de explicar este fenómeno numa palestra que fiz em 2019, na Guarda);
  • a hipótese dos ácaros no final do verão serem mais resistentes que os do final do inverno, hipótese ainda não testada pelo que sei, e aqui apresentada por Frank Rinkevich uma das referências mundiais actuais neste domínio;
  • o fenómeno de multi-infestação, isto é, a parasitação de uma larva de abelha por 2 ou mais ácaros muito mais frequente no final do verão do que no final do inverno, fenómeno pouco considerado por muitos apicultores, apesar de já conhecido e referido na literatura científica desde a década 90 do século passado. A multi-infestação contribui de forma importante para o aumento da carga viral em cada uma das futuras abelhas e as asas deformadas são a expressão mais visível desta maior carga viral.

* o amitraz do Apivar, o tau-fluvalinato do Apistan, a flumetrina do Bayvarol, os princípios activos até agora utilizados por mim, não são voláteis;

** tenho recebido testemunhos de amigos apicultores da minha zona, que decidiram experimentar o meu calendário de final de verão, isto é, antecipar o segundo tratamento para agosto. Fico naturalmente satisfeito com o feedback que me têm dado da melhoria notável dos resultados, quando comparados com os resultados que obtinham quando medicavam em setembro ou até em outubro.

as abelhas estão lutando contra sua própria pandemia

Os pontos comuns são muitos entre as abelhas e nós: somos seres sociais que vivemos em comunidades densas; colonizamos ubiquamente vastos territórios; apesar de uma boa memória imunitária somos sujeitos a patógenos exóticos para os quais não possuímos resistência ou tolerância; vivemos num planeta globalizado que faz circular entre continentes e à velocidade de barco ou de avião essas ameaças. Não é, por estas razões, surpreendente que tanto as abelhas como nós estejamos sujeitos a pandemias e soframos os seus efeitos cada vez mais frequentemente. A propósito deste fado comum traduzo excertos de um artigo que apreciei, escrito por Alison McAfee, entomologista norte-americano, e publicado há poucos meses no blogs.scientificamerican.com..

“Como a pandemia COVID-19 deixa claro, as cidades são indiscutivelmente a maior invenção da humanidade, mas metrópoles densamente povoadas também nos tornam vulneráveis à rápida propagação de doenças. No entanto, os humanos não são a única espécie que enfrenta este problema. As abelhas têm levado uma vida social durante dezenas de milhões de anos, o que as torna algumas das mais velhas veteranas na batalha contra o contágio. E, com o tempo, a seleção natural deu-lhes um conjunto impressionante de estratégias para mitigar a transmissão dentro das colónias. Sofisticadas como são, no entanto, essas estratégias não são suficientes para afastar todas as ameaças. As abelhas estão lutando contra sua própria pandemia global, para a qual estavam totalmente despreparadas. Um ácaro parasita, apropriadamente denominado Varroa destructor, originalmente infestava apenas colónias de abelhas melíferas asiáticas, Apis cerana, mas saltou de espécie para infectar as abelhas melíferas ocidentais, Apis mellifera, a espécie que domina a polinização comercial moderna em todo o mundo.

Varroa destructor: vista ao microscópio electrónico

O ácaro provavelmente saltou das abelhas asiáticas para as ocidentais algures na década de 1950, com os primeiros relatos surgidos em 1957 no Japão, depois em 1963 em Hong Kong. Os humanos facilitaram o salto entre os hospedeiros mantendo A. cerana e A. mellifera em proximidade artificial dentro dos apiários, transportando depois colónias recém-infestadas dentro e entre os países. E o V. destructor está fazendo jus ao seu nome. Hoje, espalhou-se para todas as regiões onde as abelhas são mantidas, exceto Austrália e um conjunto de ilhas remotas, rapidamente se tornando uma pandemia global e a maior ameaça patológica à saúde das abelhas. […] Os apicultores [nos EUA] conseguiram aumentar lentamente o número de colónias que mantêm, em média, mas a um custo substancialmente maior. E este aumento de colónias está sendo superados pela crescente demanda de polinização. As abelhas melíferas ocidentais não coevoluíram com o V. destructor, e as abelhas ocidentais não possuem os traços comportamentais que as abelhas asiáticas têm, como sepultar permanentemente criação infestada pelos ácaros e, talvez a estratégia mais extrema, apoptose social**, onde a criação é tão sensível à parasitização que morre imediatamente após a infestação, sacrificando-se para evitar que o ácaro se reproduza. As características de combate a ácaros também existem em populações de abelhas ocidentais, mas não são suficientes para conferir resistência adequada sem reprodução seletiva intensa. […]

Tropilaelaps à esquerda e V. destructor à direita.

Até agora, as aplicações rotineiras de acaricidas são suficientes para mitigar esse problema. Mas, como acontece com o uso sustentado de qualquer biocida, os ácaros estão tornando-se resistentes aos tratamentos dos apicultores. E se isso não bastasse, outro género de ácaro parasita, chamado Tropilaelaps, está prestes a iniciar outra pandemia. Ele também saltou recentemente de outra espécie de abelha melífera, a abelha gigante asiática [Apis dorsata], para a abelha ocidental. Identificado pela primeira vez em ratos perto de colónias de abelhas nas Filipinas, tem-se expandido para regiões mais frias da Ásia continental, onde os climas são muito semelhantes aos dos EUA. Onde o Varroa e o Tropilaelaps coexistem em colónias, o Tropilaelaps supera Varroa, causando danos e deformidades ainda maiores.

Larvas de apis melífera a serem
parasitadas por ácaros Tropilaelaps e
uma pupa deformada pela doença
tropilaelapsose

Até agora, os ácaros Tropilaelaps não se espalharam para outros continentes, mas sua dispersão global é provavelmente apenas uma questão de tempo. Não é tão incomum colónias inteiras de abelhas apanharem boleia no exterior fazendo ninhos em cargas ou em navios, carregando patógenos e parasitas com elas. Outras pragas invasivas provavelmente também alcançaram a América do Norte por esta rota: a vespa gigante asiática, Vespa mandarinia, foi recentemente avistada na Colúmbia Britânica e em Washington, com pelo menos um ninho estabelecido sendo identificado e erradicado. O Canadá importa dezenas de milhares de pacotes de abelhas (colónias iniciais) de países como Austrália, Nova Zelândia e Chile, então o Tropilaelaps também pode entrar na América do Norte por qualquer um desses países. Uma economia globalizada e nossa destruição sistemática do mundo natural criam as condições perfeitas para patógenos e parasitas estabelecerem novos hospedeiros e se espalharem rapidamente no exterior. Devemos estar mais bem preparados para que as doenças emergentes sejam o principal risco no mundo moderno. Eles são uma ameaça persistente para a nossa própria saúde, a saúde do nosso gado e da vida selvagem, podendo espalhar-se inadvertidamente. Como testemunhamos tragicamente com COVID-19, doenças emergentes estão nos matando e estão matando nossas abelhas também.”

fonte: https://blogs.scientificamerican.com/observations/honey-bees-are-struggling-with-their-own-pandemic/

** Para os investigadores, entre os vários mecanismos de resistência e ou tolerância da A. cerana relativamente ao V. destructor, a apoptose social tem vindo a adquirir relevância.

pms: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência

Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.

Nas 41 das 42 colónias assentes neste apiário à data de hoje verifico uma expansão da área de criação em boa parte delas e um padrão e compaticidade que me deixaram satisfeito.

Foto representativa do padrão de postura e compaticidade encontrado nas 41 das 42 colónias deste apiário.

E na 42ª?

Na 42ª foi isto o que vi:

Colónia pouco povoada! Medicada com duas tiras de Apivar, e tratamento iniciado em meados de julho, de acordo com o calendário afinado nos últimos anos.
Criação em mosaico, abelhas com asas deformadas, abelhas com varroas, larvas distorcidas…
… abelhas moribundas a emergir com o probóscide/língua estirado.

Tudo sinais muito claros de PMS. Isto numa colónia com reservas de mel e pão-de-abelha suficientes para a altura.

Olhando para o tecto da colmeia, onde fui anotando os aspectos críticos desta colónia ao longo da estação, ajudou-me a tornar compreensível este desfecho.

Esta colónia, prematuramente forte, tinha a rainha já em postura no sobreninho a 16.03.

Sendo uma colónia forte e tendo eu colocado o sobreninho cedo na temporada, reforcei-a com alguns quadros com criação retirados de outras colónias dedicadas à produção para conformar estas à regra “não mais de 6”. Apesar de na altura esta colónia ter as duas tiras de Apivar no ninho (tratamento de final do inverno), este suplemento de quadros com criação deveria ter sido acompanhado com a colocação de mais uma ou duas tiras de Apivar no sobreninho para respeitar o que o fabricante preconiza: uma tira de Apivar por cada cinco quadros de abelhas. Sabendo isto há anos, não o tendo feito é inequivocamente uma incompetência minha no maneio desta colónia sobrepovoada.

A 16.05 coloquei uma excluidora entre o ninho e o sobreninho, com a rainha confinada ao ninho. Hoje vi sinais muito evidentes de PMS.

PMS identificado hoje, e hoje ainda ou amanhã cedo, o mais tardar, vou dar os passos que se exigem para solucionar esta situação. Tema para uma próxima publicação.

epidemia pelo vírus da paralisia crónica das abelhas no Reino Unido

Publiquei no passado dia 27.04 um post sobre o síndrome provocado pelo vírus da paralisia crónica das abelhas. O blog The Apiarist, do qual sou subscritor, publicou ontem, dia 08.05, um post sobre este mesmo síndrome, a propósito da crescente mortalidade de colónias verificada na Grã-Bretanha nos últimos anos por esta causa.

Como se vê no gráfico o número de apiários que registam casos de paralisia crónica das abelhas tem aumentado, em especial a partir de 2013 (2017 é o último ano registado).
O Sun Reporter publicou, no passado dia 02.05, um artigo sobre este vírus. E os comentários incluíram estas referências à atual pandemia do Covid-19 e à tecnologia 5G:
“Acho que é beevid – 19. Eu não acho surpreendente”
“É a radiação de 5g..google it”
“O mel local supostamente carrega anticorpos de vírus e constipações locais – ajuda os seres humanos se comer este produto, ou é o que dizem. Portanto, pode ser que as abelhas estejam realmente infectadas por covid. Não é brincadeira.”

Radiação 5 G, oh my god!!? Este síndrome foi documentada há mais 2300 anos por Aristóteles e não consta que há época, na Grécia, existissem antenas e radiações 5G. Enfim, a “realidade” é o que quisermos!!

Deixando estes “cientistas” conspirativos e alucinados, que se multiplicam exponencialmente nas redes sociais, atentemos sobre o que nos dizem os cientistas (os autênticos) que trabalham no campo, que observam de forma controlada e medem com o melhor rigor possível para depois, com humildade científica, retirarem conclusões circunstanciadas, verificáveis e refutáveis.

Fatores de risco da síndrome ao nível do apiário

“Os metadados associados aos registros do Beebase são relativamente esparsos. Detalhes de métodos específicos de gerenciamento de colónias não são registrados. Fatores ambientais locais – OSR, borragem, gap de junho etc. – também estão ausentes. Inevitavelmente, alguns dos fatores que podem estar associados ao aumento do risco não são registrados.

Uma doença relativamente rara que está agrupada espacialmente, mas não temporalmente, é um problema complicado para definir fatores de risco. Steve Rushton, o autor sénior do artigo, fez um excelente trabalho ao analisar os dados disponíveis.

Os dois fatores mais importantes ao nível apiário que contribuíram para o risco da doença foram:

  • Apicultura comercial/profissional – os apiários geridos por apicultores comerciais/profissionais tinham um risco 1,5 vezes maior de registrar a síndrome.
  • Importação de abelhas – os apiários que tinham importado abelhas nos dois anos anteriores tinham um risco 1,8 vezes maior de registrar a doença.” (ver o artigo aqui: https://www.nature.com/articles/s41467-020-15919-0)
Artigo do The Times com o título ” Rainhas exóticas provocam uma epidemia às abelhas”.

Importação de abelhas não significa importação de doenças

Há bons registros de abelhas importadas pelos canais oficiais. Isso inclui rainhas, pacotes e colónias em núcleos. Entre 2007 e 2017, houve mais de 130.000 importações, 90% das quais foram rainhas.

Um risco aumentado deste síndrome em apiários com abelhas importadas não significa que as abelhas importadas foram a fonte da doença.

Com os dados disponíveis, não é possível distinguir entre as duas hipóteses a seguir:

  • as abelhas importadas são portadoras do vírus da paralisia crónica ou a fonte de uma nova (s) estirpe (s) mais virulenta (s) do vírus, ou
  • as abelhas importadas são suscetíveis à (s) estirpe (s) de vírus da paralisia crónica endémica no Reino Unido às quais não foram expostas em seu país de origem.

Existem maneiras de separar essas duas possibilidades … o que obviamente é algo que queremos concluir.” fonte: https://theapiarist.org/aristotles-hairless-black-thieves/

vírus da paralisia crónica

A infecção/síndrome do vírus da paralisia crónica da abelha (VPCA), que não deve ser confundido com o vírus de paralisia lenta ou vírus da paralisia aguda, afeta geralmente as abelhas adultas da Apis mellifera e causa uma paralisia crónica que se pode espalhar facilmente entre os membros da uma colónia. As abelhas infectadas com VPCA começam a apresentar sintomas após 5 dias e morrem alguns dias após. A infecção pelo vírus da paralisia crónica das abelhas é um fator que pode contribuir ou causar o colapso repentino das colónias de abelhas, e por vezes é confundida com a intoxicação por envenenamento.


Embora o VPCA infecte principalmente abelhas adultas, o vírus também pode infectar abelhas em estágios mais precoces de desenvolvimento, embora as abelhas mais novas tenham cargas virais significativamente mais baixas em comparação com suas companheiras mais velhas.


As abelhas que foram infectadas com VPCA podem abrigar milhões de partículas virais. O vírus possui atividade neurotrópica, isto, é afecta o processamento sensorial, memória, aprendizagem, o controle motor, a locomoção, a orientação corporal e excitação.

A infecção apresenta-se de duas maneiras distintas: a infecção/síndrome tipo I e a infecção/síndrome tipo II, a mais frequente na Europa.

Uma abelha infectada tipo I apresenta um abdómen inchado devido ao saco de mel estar cheio de líquido e asas fracas ou trémulas. As abelhas infectadas do tipo I tendem a gatinhar no chão ou aglomeram-se perto da entrada da colmeia, pois suas asas enfraquecidas levam à incapacidade de voar.

Uma abelha infectada tipo II apresenta uma completa perda do pêlo (alopécia), fazendo com que pareça preta e oleosa. Essas abelhas ainda conseguem voar 2-3 dias após o aparecimento dos sintomas, mas perdem a capacidade de voar pouco antes de sucumbir à doença.

As abelhas doentes são consideradas intrusas na colmeia e são atacadas pelas abelhas saudáveis da colónia. Em poucos dias, ficam incapazes de voar, apresentam tremores e acabam por morrer, alguns dias após o início da infecção. Embora estas duas síndromes sejam descritas, elas não são exclusivas porque podem estar presentes na mesma colónia.
Portanto, uma síndrome geral foi definida, agrupando os principais sintomas dos 2 tipos. A síndrome é caracterizada pela presença de abelhas trémulas, incapazes de voar, rastejando, algumas são negras e depiladas; finalmente, essas abelhas às vezes são rejeitadas da colónia e são encontradas moribundas ou mortas à entrada da colmeia.

Pequeno vídeo que mostra uma abelha com infecção tipo II a ser agredida pelas suas irmãs, com vista à sua expulsão da colmeia.

Actualmente não há tratamento conhecido para a doença. Frequentemente, as abelhas infectadas pelo vírus da paralisia crónica morrem por si próprias, mas as abelhas infectadas, se detectadas, devem ser removidas da colmeia imediatamente para diminuir as chances de o vírus se espalhar através da trofalaxia ou do atrito com abelhas saudáveis. A suplementação de uma colmeia enfraquecida, que foi severamente afetada pelo vírus, com abelhas saudáveis de outra colónia pode impedir o seu colapso.

Fotografia do vírus

fontes: https://www.semanticscholar.org/paper/Le-virus-de-la-paralysie-chronique-de-l’abeille-%3A-à-Chevin/5113959269f1929356593da1d3dd69e3d8b39c04; https://en.wikipedia.org/wiki/Chronic_bee_paralysis_virus

Randy Oliver animado com o evoluir das suas linhas resistentes

“… nós criadores de abelhas e rainhas, aqui na Califórnia, continuamos nosso trabalho diário no campo [em tempos da Covid 19].

Estamos a fazer várias centenas de núcleos por semana, e estamos em plena produção de rainhas.
Estou a dividir a um ritmo louco as nossas colmeias criadoras de rainhas para as impedir de enxamear.

A boa notícia é que a nossa criação de linhas selectivas resistentes ao ácaro varroa parece estar a ganhar força.
Começámos em 2017 com uma rainha resistente a servir de matriarca (juntamente com algumas colmeias com contagens baixas de ácaros).
Em 2018, cerca de 20 colónias atingiram uma boa classificação (mantendo menos de 1% de taxa de infestação em 5 amostragens com lavagem com álcool e ao longo do ano; permitimos um aumento até 3% na lavagem de novembro quando elas param a criação, mas devem baixar de novo para 1% ou menos até março).

Em 2019, 30 tiveram uma boa classificação. Nesta primavera e até agora, 56 atingiram uma boa classificação (depois de excluir colónias que apresentavam resistência mas que não estavam à altura por outras razões), com mais 25 colónias ainda para serem submetidas à lavagem com álcool quando retornarem da polinização das amendoeiras.

Sete colónias estão a desenvolver-se bem sem nenhum tratamento contra a varroa durante dois anos completos.

Todos os anos, renovamos as rainhas de todas as nossas colónias apenas com filhas de mães resistentes. O progresso é lento, mas é muito emocionante ver
colónias bonitas e fortes com contagem de ácaros a zeros após um ano inteiro sem tratamento.

Nesta temporada, irei utilizar um número maior de rainhas matriarcas para evitar um excessivo afunilamento da diversidade genética.
Estou ansioso para ver se a nossa porcentagem de colónias resistentes continua a aumentar.”

Randy Oliver
Grass Valley, CA
www.ScientificBeekeeping.com (Bee-L, 02.04.2020)

autópsia de uma colmeia morta no inverno

Neste blog http://blog.exometeofraiture.net/blog/2018/12/09/autopsie-ruche-morte-hivernage/ Fred l’apiculteur faz um conjunto de observações e apresenta um grupo de fotos que me parecem muito didácticos, em especial para a época invernal em que estamos a entrar. A todos, ou quase todos nós nos irão morrer colmeias neste período. Em muitos casos o enigma da causa da morte poderá ser resolvido com uma observação simples mas competente e qualificada dos quadros dos ninhos dessas colmeias. A identificação correcta da causa de mortalidade das colónias durante o inverno é uma boa parte do caminho para evitar que o mesmo volte a acontecer no ano seguinte. E, para mim, o mais importante objectivo que me coloco como apicultor é manter as minhas colónias vivas durante o inverno.

O inverno é um período sombrio para o apicultor; a maioria das perdas de colónias ocorre durante o inverno.

O cenário é sempre o mesmo: colmeias dinâmicas e populosas durante o verão, reservas suficientes e… em novembro / dezembro, é o desastre, essas mesmas colmeias ficam vazias de abelhas. Às vezes, encontramos uma pequena bola de abelhas com a rainha, e muitas vezes permanece alguma criação. Também existem quadros bem fornecidos de mel, mas em muitos casos, o apicultor não consegue fornecer dados sobre a eficácia do tratamento contra o Varroa.

Nesse tipo de situação, todos têm a sua teoria para explicar o desastre: pesticidas aplicados no final da temporada, falta de qualidade das rainhas, alimento artificial de inverno de baixa qualidade, ambiente degradado, envenenamento, ondas electromagnéticas GSM,”teríamos que alimentar com mel “,” é uma pulverização do agricultor local “, … mas nunca a varroa é mencionado como causa plausível; “Tenho muito poucas varroas nas colmeias, não as vi sobre as abelhas! »….

Afinal o que matou realmente a colónia? Quais os elementos objetivos que ajudam a esclarecer qual a causa plausível? O que o apicultor pode fazer para analisar objetivamente o problema e mudar o que for necessário para parar de ter essas mortalidades na temporada seguinte?

No início do inverno de 2018 e 2019 Renaud Lavend’homme, palestrante apícola conhecido pelo seu envolvimento no projeto Arista Beeresearch, ofereceu-se para fazer a “autópsia” de uma colónia vítima desta doença de inverno. Com o equipamento necessário para realizar essa operação, ele oferece-nos uma série de documentos, fotos e vídeos, a fim de solucionar o enigma.

Uma descrição do estado geral dos quadros da colónia morta no início do inverno: criação operculada esparsa, bastante mel e pólen, poucas abelhas mortas encontradas na colmeia. A declaração típica do dono da colmeia:
Intrigado com a total ausência de abelhas na entrada de uma das minhas colmeias, eu olhei para dentro e… o ninho estava vazio. Ainda cheio de reservas e muito ativo durante a minha última visita do outono. Estou extremamente chateado e triste. Alguém tem uma explicação? Obrigado

As imagens em baixo foram tiradas com um simples telemóvel. Vemos imediatamente pequenos pontos brancos nas paredes da grande maioria dos alvéolos, o olho inexperiente concluirá erradamente que são cristais de açúcar. Na verdade, são cristais de guanina**, que nada mais são do que excrementos do ácaro Varroa !!!


Então, a criação restante é desoperculada para confirmar as nossas primeiras suspeitas. O suspense é de curta duração! Neste caso, Renaud encontrou apenas 3 pupas não infestadas em cerca de 30 alvéolos com criação operculada, ou seja, cerca de 90% da criação infestada …

A língua da pupa estirada é um dos sintomas de uma mortalidade por infestação maciça de Varroa. E a presença de cristais de guanina indica claramente que há “companhia” no alvéolo …”


Nota: Também este apicultor chegou à conclusão que o mês de agosto é crítico para o controlo da varroose com tratamentos de longo prazo, 10 a 12 semanas, como resposta às reinfestações (ver caixa de comentários). Conclusões que estão alinhadas com as que tirei de há uns anos para cá e que vou relembrando por aqui com alguma regularidade.

** Guanina: “O que diabos é a guanina?” Muito simplesmente, a guanina é uma das quatro bases que contêm nitrogénio encontradas no DNA. Provavelmente já viu sequências de letras representando a estrutura do DNA que se parecem com isto: ATGGATGTCGACGGT e assim por diante. As quatro letras representam as quatro bases: adenina, citosina, guanina e timina. Acontece que o excremento dos ácaros Varroa contém cerca de 95% de guanina. Guanina tão pura que aparece como um globo branco brilhante – um depósito que os ácaros deixam no interior dos alvéolos. Afinal, não há “WC” para serem usadas enquanto estão fechados sob uma tampa, espremidos entre uma pupa de abelha e uma parede de cera, de modo que os deixam onde estão.

vírus e abelhas: crónica de uma morte anunciada

Em baixo fica o relato muito impressivo de uma apicultora norte-americana, R. Z., apresentado hoje no fórum Bee-L, a propósito do tratamento contra a varroose com ácido oxalico sublimado numa colmeia de observação. Para lá do interesse nos dados das suas observações acerca do que viu no dia e dias seguintes à aplicação do tratamento, trouxe este relato para o meu blog para uma vez mais enfatizar a enorme importância de tratar as colónias atempadamente, muito antes de elas apresentarem sintomas claros de PMS. A partir de um certo nível de infestação (no meu caderno de bordo acima de 3%) mais preocupante que as varroas são os vírus por elas veiculados, e mais adiante veiculados entre as abelhas, e entre elas e a rainha. Origina-se uma cadeia de eventos muito difícil de controlar que muitas vezes só se encerra com a morte em sofrimento das abelhas da colónia. O relato pungente fica traduzido em baixo.

PMS= abelhas com asas deformadas; opérculos furados; abelhas semi-mortas a emergir do alvéolo com a língua estirada; excrementos brancos das varroas no fundo e paredes dos alvéolos; larvas deformadas; padrão de criação operculada irregular ou em mosaico.

“Há dois anos, coloquei um pequeno enxame que estava debilitado na minha colmeia de observação num esforço para salvar a rainha durante o inverno.

Encontrei as abelhas cobertas de ácaros, com o vírus das asas deformadas e sinais progressivos de virose da paralisia aguda. Então usei meu sublimador para vaporizar a colónia com ácido oxalico. Tentei com pequenas quantidades no começo, mas isso não criou pressão suficiente para originar o vapor. Então, usei a dose de 1 grama na minha colmeia de observação de 3 quadros. Essas abelhas receberam pelo menos três vezes a dose recomendada.

Coisas que observei:

  1. As abelhas perto do vaporizador afastaram-se a bater as asas, mas as restantes continuaram como se nada se tivesse passado.
  2. A rainha não parou na postura dos ovos.
  3. Pequenos cristais formaram-se sobre as abelhas, nos quadros e na criação por toda a colmeia.
  4. 4 horas depois, todas as larvas que flutuavam em geleia foram removidas, exceto algumas larvas quase operculadas. A criação operculada e os ovos permaneceram.
  5. Após 6 horas, nos alvéolos recentemente limpos vi ovos novos.
  6. Os ácaros caíram durante cerca de 3 dias. E depois de os limpar do fundo da colmeia, não vi outro ácaro naquela colmeia (era inverno).
  7. A colmeia continuou “mancando” por mais alguns meses, fui alimentando-a com mel, e a criação operculada e os ovos que ficaram cobertos com cristais de oxálico na altura da aplicação desenvolveram-se normalmente.
  8. Mesmo depois que todos os ácaros terem sido eliminados, as doenças/viroses permaneceram e a rainha provavelmente apanhou o vírus da paralisia. No começo, ela começou a parecer desajeitada ao depositar os ovos nos alvéolos; depois, dois dias depois, ela parecia tropeçar e escorregar um pouco no quadro. Alguns dias depois, ela caiu no chão de costas, mexendo apenas a cabeça e a língua. Nas operárias, a paralisia parecia começar nas pernas traseiras e avançar pelo corpo. Foi horrível.

Minha aprendizagem:

  1. com 3x a dose de vapor de oxálico, larvas de 3-6 dias foram sacrificadas, mas substituídas por ovos em poucas horas.
  2. Mesmo depois de todos os ácaros morrerem e desaparecerem, os vírus persistiram e pareceu terem sido transferidos de irmã para irmã e de irmã para a mãe.
  3. A debilitação de uma colmeia com PMS é brutal de acompanhar de perto. O que eu observei com abelhas sofrendo (caídas de costas com paralisia progressiva) parecia intolerável na minha sala de estar. E, como a analogia canina de Randy Oliver, parece cruel não fazer nada para impedir esse destino. Agora sou uma defensora de tratamentos precoces e eficazes.
  4. Manter os vírus em baixo precocemente é muito, muito melhor do que tratar tardiamente. Mesmo se sua colmeia sobreviver, pode levar um ano inteiro para eliminar os vírus, se eles forem totalmente eliminados.”

varroa: qual o local onde se alimentam

O estudo de Samuel Ramsey veio re-equacionar uma verdade científica que vinha do início dos anos 70 do sec. XX: o parasita externo varroa alimenta-se predominantemente do corpo gordo da abelha e não da hemolinfa. Para termos uma noção mais clara do local da abelha onde os varroas se alimentam é necessário conhecer alguns detalhes da investigação. Samuel Ramsey e os colegas recolheram abelhas de uma colmeia infestada de ácaros e registraram a localização na abelha à qual os ácaros estavam fixados.

Verficaram que a maioria estava presa à parte inferior esquerda do abdómen. Mais especificamente, o ácaro estava encravado sob o terceiro tergito abdominal.

Fig.1 : A maior parte dos ácaros (60%) estava localizado na zona indicada pelo ponto vermelho

Ramsey e seus colegas removeram alguns dos ácaros e usaram um microscópio eletrónico para examinar este ponto de fixação do ácaro na abelha. Por baixo do tergito existe uma membrana mole. A impressão do corpo do ácaro era claramente visível na membrana.

Fig.2 : Imagem ampliada por microscópio electrónico do ponto de fixação do ácaro na abelha

Nas imagens em cima podemos ver: as patas almofadadas do ácaro foram deixadas presas à membrana (imagem esquerda, setas brancas), abrangendo uma ferida óbvia onde os aparelhos bucais perfuraram a membrana (seta preta). Entre eles, a forma de W invertido é presumivelmente a impressão da carapaça inferior do ácaro.

A imagem em close-up à direita mostra os sulcos no local da ferida consistentes com as partes bucais do ácaro.

Estes ácaros estavam a alimentar-se do corpo gordo da abelha.

Fig.3 : Vista ao microscópio electrónico do corpo gordo de uma abelha

fonte: https://theapiarist.org/pedantically-not-phoresy/

Espero escrever mais um ou dois posts com mais alguns detalhes da investigação de Samuel Ramsey, para depois retirarmos algumas novas implicações para a prática apícola e, em simultâneo, reforçarmos a importância de efectuar o tratamento de final de verão de forma atempada.

Nota: a investigação deste jovem mostra as virtualidades do processo científico, um processo de construção suportado pelo que já é conhecido mas, paralelamente, um teste e reteste empírico do conhecimento já construído, uma construção nova, sustentado em novas reflexões e observações, novas técnicas e novas medições, que resultam algumas vezes em propostas de novas relações para as variáveis em estudo. Quando se trata de propor uma alternativa de explicação há uma comunidade de pares para convencer, comunidade muito exigente quanto à qualidade da investigação e robustez dos factos apresentados. Como este jovem fez afirmações extraordinárias foi obrigado por essa comunidade a apresentar evidências também elas extraordinárias. Parece-me que o tem conseguido e abriu um novo paradigma com muitas implicações práticas e teóricas. Mais uma vez a ciência mostra que se não é o espaço dos meros opinadores, também não é um espaço de dogmas inquestionáveis.