o fenómeno da multi-infestação: alguns dados que nos ajudam a compreender a tempestade perfeita

Há cerca de 5 anos atrás li num pequeno excerto escrito por Mel Disselkoen, conhecido apicultor norte-americano, referido que os efeitos do vírus das asas deformadas se tornavam visíveis — emergência de abelhas com asas deformadas — quando as larvas eram infestadas e parasitadas por mais que uma varroa fundadora. Na altura achei este dado da grande importância, mas nas pesquisas que fiz não consegui confirmar a afirmação em fontes externas. Recentemente tenho lido bastante acerca do fenómeno de multi-infestação pelo varroa, e acho que a tese de Mel Disselkoen tem pernas para andar.

O abrandamento da postura das abelhas-mãe — este período inicia-se a partir de meados de maio nos apiários a 600 m de altitude e a partir de meados de junho nos apiários a 900 m de altitude — favorece o fenómeno de multi-infestação pelos ácaros varroa. De forma simples, a multi-infestação é um fenómeno que se dá sempre que uma larva é infestada e parasitada por mais que uma varroa mãe/fundadora. Não é incomum encontrar alvéolos com larvas de abelha infestadas por dois, três ou mais ácaros fêmeas fundadoras, enquanto muitos outros alvéolos permanecem não infestadas. Este comportamento sugere que a distribuição do ácaro entre os alvéolos com criação não é aleatória — tese que não está solidamente confirmada por enquanto. Mais sólida é a observação que este fenómeno de multi-infestação ocorre mais frequentemente nas colónias com níveis elevados de infestação associado ao abrandamento da postura das rainhas.

A nós apicultores interessa-nos conhecer em mais detalhe os efeitos da multi-infestação que:

  • reduz a fiabilidade de algumas técnicas de monitorização da infestação, em especial as que utilizam a desoperculação de cria de obreira e/ou zângão;
  • reduz em cerca de 20% a longevidade das futuras abelhas;
  • aumenta a exogamia* do ácaro, fenómeno que pode estar na origem de uma maior resistência aos acaricidas — tese que não está solidamente confirmada por enquanto.
  • aumenta a carga viral nas abelhas;
  • aumenta a fertilidade das varroas.

* Exogamia: reprodução com baixa frequência de cruzamento entre indivíduos que apresentam consanguinidade.

Conhecendo este fenómeno da multi-infestação estou em melhores condições para compreender a tempestade perfeita que previsivelmente ocorrerá mais adiante em colónias muito fortes, após o fluxo de néctar, e que vê a sua existência em risco 45 -60 dias após o pico de postura, entre agosto e setembro.

Colónias fortes até junho/julho e que em agosto/setembro correm o risco de colapsar, se o tratamento for tardio e/ou ineficaz.

fontes: https://www.researchgate.net/publication/344354277_How_the_Infestation_Level_of_Varroa_destructor_Affects_the_Distribution_Pattern_of_Multi-Infested_Cells_in_Worker_Brood_of_Apis_mellifera

Varroa destructor: A Complex Parasite, Crippling Honey Bees Worldwide

Nota: quantas e quantas vezes se ouve testemunhos de apicultores a jurarem que colmeias muito fortes ficaram sem abelhas mais adiante. Vários acreditam na tese que as abelhas terão abandonado a colmeia — sabemos que este fenómeno é muito raro nas abelhas europeias, ainda que relativamente frequente nas abelhas africanizadas e em ambiente tropical —, mas deverão procurar a resposta na infestação por varroa se desejarem e tiverem coragem para olhar de frente a causa mais provável.

o ciclo de vida do ácaro Varroa: uma actualização

Se, por uma razão qualquer, estivesse limitado a aprender o conhecimento produzido de apenas duas doenças das abelhas escolheria a criação pútrida americana — mais conhecida por Loque americana — e a varroose. A primeira pela sua contagiosidade a colónias vizinhas; a segunda pela sua prevalência e ubiquidade; ambas pela sua letalidade. Como apicultor auto-didacta que não gosta de ver sofrer as suas abelhas procuro, com as minhas limitações, acompanhar de perto os progressos no conhecimento em torno destas duas doenças. Tenho escrito com alguma frequência sobre a varroose, e esta tarefa obriga-me a ler e a aprender. Os ganhos que retiro deste labor, entre outros, é ser capaz de, com algum rigor, prognosticar a evolução da infestação e aplicar esta aprendizagem à minha realidade enquanto apicultor — ver um exemplo nesta publicação de 2016.

Excrementos (guanina) de varroas visíveis nas paredes dos alvéolos, um sinal que aponta para a morte da colónia por varroose e viroses associadas.

A publicação de hoje visa actualizar alguns conhecimentos sobre o ciclo de vida da varroa, e tem como fonte o artigo de revisão da literatura mais relevante que li nos últimos anos.

O ciclo de vida é dividido em duas fases distintas:

  • A fase reprodutiva que ocorre dentro dos alvéolos de criação das abelhas, onde um ácaro fundador fêmea cria a sua prole;
  • A fase de dispersão – frequentemente denominada incorretamente de fase forética — na qual os ácaros fêmeas maduros viajam e se alimentam nas abelhas adultas.

Fase Reprodutiva
Na A. mellifera, a varroa normalmente produz 0,7-1,45 filhas fêmeas maduras em alvéolos de larvas de operárias e 1,6-2,5 filhas em alvéolos de larvas de zângãos (Figura A). Os ácaros Varroa usam cairomonas*, uma forma de ‘espionagem química’ para invadir alvéolos onde se desenvolvem larvas com a idade adequada, exibindo uma preferência oito vezes superior por cria de zângãos, onde têm um potencial reprodutivo aumentado. A quantidade de criação de operárias e zângãos disponíveis muda ao longo da época, com impacto na proporção de varroa na criação versus nas abelhas adultas (Figura B). Ao invadir o alvéolo com larva, a varroa fundadora esconde-se, imóvel, na papa larval depositada na base do alvéolo, respirando através do seu peritreme que se estende acima do alimento líquido como um canudo. Esta imobilidade pode ser uma adaptação para minimizar a sua remoção pelas abelhas operárias, uma vez que, antes e durante o selamento do alvéolo, as abelhas-nutrizes inspecionam frequentemente o alvéolo. Após o selamento do alvéolo, a larva da abelha finaliza a sua alimentação, estende-se ao longo do comprimento do mesmo e forma um casulo. Durante esta fase, o ácaro fundador deixa a papa larval, sobe para a pré-pupa da abelha e perfura, com um orifício relativamente grande (100 μm), a cutícula da abelha que se está a criar, um local de alimentação para ela e sua futura prole. Este local de alimentação permanece aberto devido aos anticoagulantes presentes na saliva do ácaro e supressão da cicatrização de feridas do hospedeiro.

(A) Reprodução individual de varroa através da invasão de um alvéolo. Embora a varroa transmita vírus para pupas de abelhas e adultos (setas vermelhas), existem muitas outras rotas de transmissão do vírus, como transmissão sexual e vertical via óvulos e esperma (setas azuis), ou transmissão oral e fecal horizontal via alimentação, limpeza dos alvéolos, canibalismo (setas verdes), transmissão de contato entre adultos (setas pretas) e interações ecológicas com o meio ambiente e outros insetos (setas laranja). (B) Crescimento teórico de uma colónia saudável sem tratamentos para o ácaro Varroa com um inverno de 3 meses. As colónias no inverno normalmente consistem em abelhas adultas de inverno (azul escuro) com muito pouca criação de operárias (castanho claro) e baixas populações de varroa. Conforme surgem novas abelhas, a colónia expande-se rapidamente com abelhas adultas (amarelo) e criação. No início da primavera, a colónia começa a criar larvas de zângãos (castanho escuro), que são preferencialmente invadidas por varroa (pontos vermelhos). Após a temporada de enxameação, as abelhas param de criar zângãos, forçando a varroa a reproduzir-se na criação de operárias. À medida que os níveis de ácaros aumentam, um único alvéolo é co-infestada por várias fundadoras, circunstância onde a taxa de reprodução de cada uma é reduzida, mas a taxa de produção de crias femininas de varroas fertilizadas aumenta. No final do verão, tanto a população de abelhas quanto a área de criação contraem-se, e as infestações de varroa aumentam acima dos limites de eficácia dos medicamentos na população de abelhas adultas. As colónias criam simultaneamente criação de inverno (azul claro) que se tornam as abelhas de inverno de vida longa (azul) com uma camada extra de corpo gordo, no qual varroa se alimenta. Como a colónia pára de criar larvas, a varroa não tem lugar para se reproduzir e sua população diminui.

Alimentar-se com a gordura do corpo larval é um pré-requisito para a reprodução da varroa. Os sinais da larva da abelha desencadeiam a reprodução do ácaro e influenciam o sexo do ovo do ácaro. A determinação do sexo na varroa é por via da partenogénese arrenótoca**: os machos são haploides com sete cromossomas, enquanto as fêmeas são diplóides com 14 cromossomas. No entanto, o mecanismo genético exato (por exemplo, a existência e identidade de um locus de determinação de sexo genético distinto) permanece desconhecido.

Iniciando a oviposição
Iniciar a oviposição é uma tarefa que exige muita energia, e as varroas fundadoras obtêm essa energia metabolizando o tecido consumido das abelhas. A fundadora também requer algumas proteínas larvais e hormonas (por exemplo, a ecdisona***) para iniciar a postura de ovos. Julgamos que as fundadoras sequestram as moléculas do hospedeiro nos seus ovos, e o pico da abundância enzimática antes e depois da oviposição abastece as necessidades energéticas para a produção de ovos. Estas observações formam um quadro complexo de transporte e sequestro de nutrientes do tecido da abelha, do ácaro fundador até aos ovos.

Da direita para a esquerda: ovo; protoninfa; deutoninfa masculina (em baixo); deutoninfa feminina (em cima); macho adulto (em baixo); fêmea adulta (em cima).

A fundadora deposita o primeiro ovo haplóide aproximadamente 60-70 h após a invasão do alvéolo e dedica-se ao cuidado parental cuidadoso, colando este ovo na parede superior do alvéolo (o local mais seguro durante a pupação da abelha) para garantir que a protoninfa masculina possa circular no interior após a sua eclosão. Os ácaros machos frequentemente morrem durante a pupação do hospedeiro, devido ao movimento da pupa que bloqueia o seu acesso ao local de alimentação. A fundadora então põe um ovo diplóide a cada 30 h , depositando-os mais abaixo na parede do alvéolo. Quando a primeira fêmea amadurece, ela acasala com seu irmão na pilha fecal (guanina) comunitária. Os machos acasalam quase exclusivamente com fêmeas mais novas à medida que surgem e param de acasalar com as fêmeas mais velhas. Se o macho é desalojado ou morre, as fêmeas emergem sem acasalar. Anteriormente, acreditava-se que estas varroas não fertilizados eram incapazes de acasalar logo que saissem do alvéolo, portanto nunca produziriam descendentes viáveis, nem mesmo machos haplóides. Uma nova pesquisa demonstra que as fêmeas varroa virgens podem colocar ovos haplóides partenogénicos e depois acasalar com seu filho, produzindo filhas viáveis ​​em condições de laboratório. Os ácaros nem sempre iniciam a oviposição após a invasão do alvéolo, provavelmente devido à interrupção na comunicação química. De fato, a oviposição pode ser interrompida experimentalmente pela aplicação de (Z) -8-heptadeceno aos alvéolos de criação antes do seu selamento, e outros compostos podem interromper o comportamento de busca de hospedeiro.

Em condições de laboratório, um ácaro fêmea pode ter até sete ciclos reprodutivos durante sua vida e colocar até 30 ovos. No momento em que ela amadurece pela primeira vez, ela recebe de 30 a 40 espermatóforos**** por meio de acasalamentos múltiplos com o (s) macho (s) presentes no alvéolo, que ela armazena e usa durante sua vida. Na criação de operária de A. mellifera, uma fundadora com sete ciclos reprodutivos teoricamente produziria ~ 5-10 filhas maduras, ou ~ 10-17 filhas maduras em criação de zângão. No entanto, em condições de campo, cada ácaro tem apenas ~ 1,5 a 3 ciclos reprodutivos.

Fase de Dispersão
Quando uma abelha melífera parasitada emerge do seu alvéolo, ela carrega os ácaros fêmeas maduros (mãe e filhas). As filhas frequentemente mudam para uma abelha em idade de ama/nutriz para ativar seus ovários, permitir que os espermatóforos amadureçam e, nesta fase, vão alimentando-se nestas abelhas adultas. Por muito tempo, acreditou-se que varroa era um parasita semelhante a um carrapato, que se alimentava da hemolinfa. No entanto, o aparelho bucal e o sistema digestivo da Varroa são estruturados como os dos organismos que se alimentam de tecido semissólido por meio de digestão extraoral. Os resíduos/dejectos da Varroa consistem predominantemente de guanina com traços de hipoxantina, ácido úrico e cafeína, sugerindo uma dieta rica em proteínas com pouca água. Uma pesquisa recente derrubou a crença de décadas de que Varroa se alimenta exclusivamente de hemolinfa, demonstrando que a alimentação no corpo gordo (ver aqui publicação) é necessária para a produção de ovos de varroa e que o tecido do corpo gordo foi detectado consistentemente dentro do intestino de ácaros quando se alimentam nas abelhas adultas. A inspeção dos locais de alimentação de varroa revelou orifícios de alimentação entre as placas abdominais sobrepostas da abelha e células degradadas do corpo gordo abaixo da membrana intersegmentar, provavelmente devido à digestão extraoral pela saliva do ácaro.

Vista ao microscópio electrónico do corpo gordo de uma abelha.

fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S147149222030101X#bb0450

Notas:

* Cairomona: composto semioquímico (que comunica algo), emitido por um organismo, que funciona como mediador de interações interespecíficas de forma a beneficiar um indivíduo de outra espécie que o recebe (neste caso o ácaro varroa) e prejudica o emissor (neste caso a larva da abelha/zângão).

** Partenogénese arrenótoca: origina apenas machos, como por ex. os zângãos na espécie Apis mellifera.

*** Ecdisona: hormona esteroide, que estimula a muda e as metamorfoses, segregada por duas glândulas do tórax dos insetos.

**** Espermatóforo: é uma cápsula ou massa produzida pelos machos de várias espécies de invertebrados que contém espermatozoides sendo integralmente transferida para o oviporo da fêmea durante a cópula.

o canibalismo pupal por abelhas operárias contribui para a propagação do vírus das asas deformadas

Em consequência de muitas das nossas acções existem os chamados “efeitos/ danos colaterais”. Uma das poucas certezas que tenho acerca do maneio apícola é a de que provocamos frequentes danos colaterais, muitos deles de pouca monta e compensados pelos benefícios trazidos. Contudo alguns têm um impacto grave de difícil observação e quantificação e diferidos no tempo — ver o caso do maneio de troca de quadros com criação/reservas entre colónias, com uma delas num estádio de doença contagiosa. O resumo de um estudo recentemente publicado* dá-nos a conhecer os danos colaterais decorrentes do comportamento VSH presente em linhagens de abelhas resistentes ao ácaro Varroa.

Resumo: As rotas de transmissão afetam a virulência e a genética do patógeno, portanto, o conhecimento abrangente dessas rotas e sua contribuição para a circulação do patógeno é essencial para compreender as interações patógeno-hospedeiro e desenvolver estratégias de controle. O vírus das asas deformadas (VAD), o principal patógeno viral das abelhas associado ao aumento da mortalidade das abelhas e à perda de colónias, tornou-se altamente virulento com a disseminação de seu vetor, o ácaro ectoparasitário Varroa destructor. A reprodução dos ácaros Varroa ocorre no interior dos alvéolos de criação operculada e pupas infestadas por ácaros no interior dos alvéolos geralmente têm altos níveis de VAD. A remoção de pupas infestadas por ácaros por abelhas operárias, designado comportamento Varroa Sensitive Hygiene (VSH), leva à canibalização de pupas com altas cargas de VAD, oferecendo uma via alternativa para a transmissão do vírus. Usamos VAD geneticamente marcado para investigar a transmissão do vírus para e entre as abelhas operárias após a canibalização da pupa em condições experimentais. Demonstramos que a canibalização de pupas infectadas com VAD resultou em níveis elevados desse vírus em abelhas operárias e que o vírus adquirido foi então transmitido entre as abelhas via trofalaxia, permitindo a circulação de variantes VAD inicialmente transmitidos por Varroa mesmo após a eliminação dos ácaros. Apesar dos benefícios conhecidos do comportamento higiénico, é possível que níveis mais elevados de atividade do comportamento VSH possam resultar no aumento da transmissão de VAD via canibalismo e trofalaxia.

(a) Canibalização de pupas de abelhas por abelhas operárias. (b) Cargas médias de RNA de VAD em pupas de abelhas operculadas sem varroa [coluna à esquerda] e cargas médias de RNA de VAD em pupas de abelhas desoperculadase e parcialmente canibalizadas por abelhas com comportamento VSH.

fonte: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.11.25.396259v1.full

Ocorrem-me duas reflexões de natureza práticas a propósito dos dados recolhidos por este estudo:

  • A primeira tem a ver com os possíveis danos colaterais da prática da “raspagem de criação de obreira”, técnica relativamente em voga no país vizinho, utilizada para controlar a infestação por varroa, em particular no final do verão. Sobre este aspecto faço minhas as palavras de Randy Oliver, o apicultor que popularizou a técnica, mas que depressa a abandonou: “As descobertas deste excelente conjunto de experiências confirmam o que observei no campo quando experimentámos raspar a criação operculada em colónias infestadas de ácaros para criar uma paragem artificial de criação para o controlo da varroa. As colónias diminuíram rapidamente a sua força, e suspeito ter sido a transmissão do VAD quando as abelhas adultas canibalizaram / limparam as pupas estropiadas dos favos pelo processo de raspagem da criação.” Randy Oliver
  • A segunda está associada aos possíveis danos colaterais da prática da raspagem da criação de zângãos nos quadros-armadilha preparados para a sua criação intensiva, quando o apicultor opta por recolocá-los na colónia logo após a raspagem ou após um período prévio de congelação. Sobre os danos colaterais da primeira alternativa a explicação está dada no ponto prévio. A respeito da alternativa, a da congelação do quadro e posterior re-colocação na colónia para as abelhas o limparem, tanto quanto sei não há uma garantia credível que os vírus sejam eliminados, ou mais precisamente, definitivamente desactivados pelo processo de congelação — conhecem-se vírus que não são desactivados por congelação. Supondo que a congelação também não desactiva o VAD, ao re-colocarmos os quadros nas colónias para serem limpos pelas abelhas, estas no processo de limpeza vão morder e despedaçar as larvas mortas com ziliões de vírus no seu interior. Esta carga viral vai entrar nas abelhas e re-iniciar o seu processo de sua replicação. Que fique claro que não estou a dizer que aconteça, estou a colocar a hipótese de acontecer. Parece-me portanto que a questão que importa para quem utiliza este processo é: este vírus fica definitivamente inactivado pelo processo de congelação?

* dada a sua recenticidade esta publicação ainda não foi submetida à revisão pelos pares.

desinfecção por maçarico de colmeias com esporos de loque americana: o contexto, a reflexão, os dados

As colmeias com loque americanadevem ser
queimadas devido aos esporos que permanecem
viáveis por até 40 anos.

O contexto: Quando deparamos com uma colónia com loque americana, uma das questões que se coloca é como podemos desinfectar a caixa-colmeia. Vários apicultores, senão a maioria, opta por queimar os quadros e desinfectar com recurso ao maçarico a superfície de madeira da caixa-colmeia, isto é, o seu estrado, corpo e prancheta de agasalho. Quem o faz garante que este procedimento é suficiente, afirmando que não teve problemas de novas infestações.

A reflexão: Estou convicto que para cada um dos testemunhos que refere esse bom resultado, provavelmente haverá outros com resultados negativos. Contudo é próprio da nossa natureza humana apresentar os bons resultados, e deixar em privado aquilo que não correu bem. Por outro lado, como uma equipa de futebol que ganhe dez jogos seguidos não garante que ganhará os dez seguintes, também ser bem sucedido dez vezes com a desinfecção com maçarico de caixas contaminadas pelos esporos de loque não garante que o mesmo volte a acontecer ao desinfectar a décima primeira.

Os dados: A desinfecção com maçarico não garante a eliminação de todos os esporos. Esta afirmação não resulta de uma noite mal dormida ou de uma imaginação fértil. É uma afirmação sustentada nos dados que conheço de um ensaio controlado, bastante claro a este respeito, do qual traduzo pequenos excertos bastante elucidativos.

A queima [com maçarico] deu uma descontaminação superficial completa, enquanto um número substancial de esporos permaneceram viáveis nas camada mais internas da madeira.

A desinfecção das colmeias [com maçarico] não pode ser recomendada.” 

Em conclusão, a descontaminação de estruturas de madeira, como colmeias, continua a ser um problema. Isso parece dever-se principalmente à estrutura da madeira, e não à natureza dos esporos.

fonte: https://sfamjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1046/j.1365-2672.2001.01376.x

Nota: sobre a loque americana escrevi em 2017: “Para quem quer impedir o alastramento do contágio e assim preservar as suas colmeias e as colmeias dos vizinhos só tem um caminho: eliminar pelo fogo as fontes de loque americana. Isso implica matar as abelhas e queimar tudo: abelhas, quadros e caixas num buraco aberto no solo que depois deve ser bem coberto com terra para evitar que as abelhas nas redondezas se infectem em alguns restos mal queimados.” O artigo em cima aponta outros caminhos, mas pouco viáveis para muitos apicultores.

a questão apícola mais premente para 2021

Sinais na criação e nas abelhas do
Parasitic Mite Syndrome (PMS)

Nos onze anos da minha actividade apícola como apicultor profissional, tenho verificado que os resultados dos tratamentos contra a varroose apresentam taxas de eficácia aparentemente diferentes, quando comparo os resultados entre os tratamentos de final de inverno e os tratamentos de final de verão. Encontro mais regularmente colónias com PMS após os tratamentos de verão (por ex. nos anos de 2014, 2016 e 2020) do que após os tratamentos de final de inverno. E porquê? Esta é a questão apícola mais premente na minha cabeça, decorrente do que observo e considerando as minhas opções por medicamentos não dependentes da temperatura ambiente, não voláteis*, com alguma rotação de princípios activos ao longo destes anos e, sobretudo, com o que considero um bom ajustamento do calendário de tratamentos realizado a partir de 2015/2016**.

As hipóteses explicativas que confluem todas (com que peso cada uma?) para a maior dificuldade em manter as taxas de infestação abaixo do dano ao nível da colónia são, na minha opinião, basicamente as três que apresento em baixo:

  • a interacção entre a dinâmica populacional das abelhas e a dinâmica populacional dos varroas, ao longo de um ano, provoca mais pressão parasitária no final do verão do que no final do inverno/início da primavera (tive oportunidade de explicar este fenómeno numa palestra que fiz em 2019, na Guarda);
  • a hipótese dos ácaros no final do verão serem mais resistentes que os do final do inverno, hipótese ainda não testada pelo que sei, e aqui apresentada por Frank Rinkevich uma das referências mundiais actuais neste domínio;
  • o fenómeno de multi-infestação, isto é, a parasitação de uma larva de abelha por 2 ou mais ácaros muito mais frequente no final do verão do que no final do inverno, fenómeno pouco considerado por muitos apicultores, apesar de já conhecido e referido na literatura científica desde a década 90 do século passado. A multi-infestação contribui de forma importante para o aumento da carga viral em cada uma das futuras abelhas e as asas deformadas são a expressão mais visível desta maior carga viral.

* o amitraz do Apivar, o tau-fluvalinato do Apistan, a flumetrina do Bayvarol, os princípios activos até agora utilizados por mim, não são voláteis;

** tenho recebido testemunhos de amigos apicultores da minha zona, que decidiram experimentar o meu calendário de final de verão, isto é, antecipar o segundo tratamento para agosto. Fico naturalmente satisfeito com o feedback que me têm dado da melhoria notável dos resultados, quando comparados com os resultados que obtinham quando medicavam em setembro ou até em outubro.

as abelhas estão lutando contra sua própria pandemia

Os pontos comuns são muitos entre as abelhas e nós: somos seres sociais que vivemos em comunidades densas; colonizamos ubiquamente vastos territórios; apesar de uma boa memória imunitária somos sujeitos a patógenos exóticos para os quais não possuímos resistência ou tolerância; vivemos num planeta globalizado que faz circular entre continentes e à velocidade de barco ou de avião essas ameaças. Não é, por estas razões, surpreendente que tanto as abelhas como nós estejamos sujeitos a pandemias e soframos os seus efeitos cada vez mais frequentemente. A propósito deste fado comum traduzo excertos de um artigo que apreciei, escrito por Alison McAfee, entomologista norte-americano, e publicado há poucos meses no blogs.scientificamerican.com..

“Como a pandemia COVID-19 deixa claro, as cidades são indiscutivelmente a maior invenção da humanidade, mas metrópoles densamente povoadas também nos tornam vulneráveis à rápida propagação de doenças. No entanto, os humanos não são a única espécie que enfrenta este problema. As abelhas têm levado uma vida social durante dezenas de milhões de anos, o que as torna algumas das mais velhas veteranas na batalha contra o contágio. E, com o tempo, a seleção natural deu-lhes um conjunto impressionante de estratégias para mitigar a transmissão dentro das colónias. Sofisticadas como são, no entanto, essas estratégias não são suficientes para afastar todas as ameaças. As abelhas estão lutando contra sua própria pandemia global, para a qual estavam totalmente despreparadas. Um ácaro parasita, apropriadamente denominado Varroa destructor, originalmente infestava apenas colónias de abelhas melíferas asiáticas, Apis cerana, mas saltou de espécie para infectar as abelhas melíferas ocidentais, Apis mellifera, a espécie que domina a polinização comercial moderna em todo o mundo.

Varroa destructor: vista ao microscópio electrónico

O ácaro provavelmente saltou das abelhas asiáticas para as ocidentais algures na década de 1950, com os primeiros relatos surgidos em 1957 no Japão, depois em 1963 em Hong Kong. Os humanos facilitaram o salto entre os hospedeiros mantendo A. cerana e A. mellifera em proximidade artificial dentro dos apiários, transportando depois colónias recém-infestadas dentro e entre os países. E o V. destructor está fazendo jus ao seu nome. Hoje, espalhou-se para todas as regiões onde as abelhas são mantidas, exceto Austrália e um conjunto de ilhas remotas, rapidamente se tornando uma pandemia global e a maior ameaça patológica à saúde das abelhas. […] Os apicultores [nos EUA] conseguiram aumentar lentamente o número de colónias que mantêm, em média, mas a um custo substancialmente maior. E este aumento de colónias está sendo superados pela crescente demanda de polinização. As abelhas melíferas ocidentais não coevoluíram com o V. destructor, e as abelhas ocidentais não possuem os traços comportamentais que as abelhas asiáticas têm, como sepultar permanentemente criação infestada pelos ácaros e, talvez a estratégia mais extrema, apoptose social**, onde a criação é tão sensível à parasitização que morre imediatamente após a infestação, sacrificando-se para evitar que o ácaro se reproduza. As características de combate a ácaros também existem em populações de abelhas ocidentais, mas não são suficientes para conferir resistência adequada sem reprodução seletiva intensa. […]

Tropilaelaps à esquerda e V. destructor à direita.

Até agora, as aplicações rotineiras de acaricidas são suficientes para mitigar esse problema. Mas, como acontece com o uso sustentado de qualquer biocida, os ácaros estão tornando-se resistentes aos tratamentos dos apicultores. E se isso não bastasse, outro género de ácaro parasita, chamado Tropilaelaps, está prestes a iniciar outra pandemia. Ele também saltou recentemente de outra espécie de abelha melífera, a abelha gigante asiática [Apis dorsata], para a abelha ocidental. Identificado pela primeira vez em ratos perto de colónias de abelhas nas Filipinas, tem-se expandido para regiões mais frias da Ásia continental, onde os climas são muito semelhantes aos dos EUA. Onde o Varroa e o Tropilaelaps coexistem em colónias, o Tropilaelaps supera Varroa, causando danos e deformidades ainda maiores.

Larvas de apis melífera a serem
parasitadas por ácaros Tropilaelaps e
uma pupa deformada pela doença
tropilaelapsose

Até agora, os ácaros Tropilaelaps não se espalharam para outros continentes, mas sua dispersão global é provavelmente apenas uma questão de tempo. Não é tão incomum colónias inteiras de abelhas apanharem boleia no exterior fazendo ninhos em cargas ou em navios, carregando patógenos e parasitas com elas. Outras pragas invasivas provavelmente também alcançaram a América do Norte por esta rota: a vespa gigante asiática, Vespa mandarinia, foi recentemente avistada na Colúmbia Britânica e em Washington, com pelo menos um ninho estabelecido sendo identificado e erradicado. O Canadá importa dezenas de milhares de pacotes de abelhas (colónias iniciais) de países como Austrália, Nova Zelândia e Chile, então o Tropilaelaps também pode entrar na América do Norte por qualquer um desses países. Uma economia globalizada e nossa destruição sistemática do mundo natural criam as condições perfeitas para patógenos e parasitas estabelecerem novos hospedeiros e se espalharem rapidamente no exterior. Devemos estar mais bem preparados para que as doenças emergentes sejam o principal risco no mundo moderno. Eles são uma ameaça persistente para a nossa própria saúde, a saúde do nosso gado e da vida selvagem, podendo espalhar-se inadvertidamente. Como testemunhamos tragicamente com COVID-19, doenças emergentes estão nos matando e estão matando nossas abelhas também.”

fonte: https://blogs.scientificamerican.com/observations/honey-bees-are-struggling-with-their-own-pandemic/

** Para os investigadores, entre os vários mecanismos de resistência e ou tolerância da A. cerana relativamente ao V. destructor, a apoptose social tem vindo a adquirir relevância.

pms: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência

Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.

Nas 41 das 42 colónias assentes neste apiário à data de hoje verifico uma expansão da área de criação em boa parte delas e um padrão e compaticidade que me deixaram satisfeito.

Foto representativa do padrão de postura e compaticidade encontrado nas 41 das 42 colónias deste apiário.

E na 42ª?

Na 42ª foi isto o que vi:

Colónia pouco povoada! Medicada com duas tiras de Apivar, e tratamento iniciado em meados de julho, de acordo com o calendário afinado nos últimos anos.
Criação em mosaico, abelhas com asas deformadas, abelhas com varroas, larvas distorcidas…
… abelhas moribundas a emergir com o probóscide/língua estirado.

Tudo sinais muito claros de PMS. Isto numa colónia com reservas de mel e pão-de-abelha suficientes para a altura.

Olhando para o tecto da colmeia, onde fui anotando os aspectos críticos desta colónia ao longo da estação, ajudou-me a tornar compreensível este desfecho.

Esta colónia, prematuramente forte, tinha a rainha já em postura no sobreninho a 16.03.

Sendo uma colónia forte e tendo eu colocado o sobreninho cedo na temporada, reforcei-a com alguns quadros com criação retirados de outras colónias dedicadas à produção para conformar estas à regra “não mais de 6”. Apesar de na altura esta colónia ter as duas tiras de Apivar no ninho (tratamento de final do inverno), este suplemento de quadros com criação deveria ter sido acompanhado com a colocação de mais uma ou duas tiras de Apivar no sobreninho para respeitar o que o fabricante preconiza: uma tira de Apivar por cada cinco quadros de abelhas. Sabendo isto há anos, não o tendo feito é inequivocamente uma incompetência minha no maneio desta colónia sobrepovoada.

A 16.05 coloquei uma excluidora entre o ninho e o sobreninho, com a rainha confinada ao ninho. Hoje vi sinais muito evidentes de PMS.

PMS identificado hoje, e hoje ainda ou amanhã cedo, o mais tardar, vou dar os passos que se exigem para solucionar esta situação. Tema para uma próxima publicação.

epidemia pelo vírus da paralisia crónica das abelhas no Reino Unido

Publiquei no passado dia 27.04 um post sobre o síndrome provocado pelo vírus da paralisia crónica das abelhas. O blog The Apiarist, do qual sou subscritor, publicou ontem, dia 08.05, um post sobre este mesmo síndrome, a propósito da crescente mortalidade de colónias verificada na Grã-Bretanha nos últimos anos por esta causa.

Como se vê no gráfico o número de apiários que registam casos de paralisia crónica das abelhas tem aumentado, em especial a partir de 2013 (2017 é o último ano registado).
O Sun Reporter publicou, no passado dia 02.05, um artigo sobre este vírus. E os comentários incluíram estas referências à atual pandemia do Covid-19 e à tecnologia 5G:
“Acho que é beevid – 19. Eu não acho surpreendente”
“É a radiação de 5g..google it”
“O mel local supostamente carrega anticorpos de vírus e constipações locais – ajuda os seres humanos se comer este produto, ou é o que dizem. Portanto, pode ser que as abelhas estejam realmente infectadas por covid. Não é brincadeira.”

Radiação 5 G, oh my god!!? Este síndrome foi documentada há mais 2300 anos por Aristóteles e não consta que há época, na Grécia, existissem antenas e radiações 5G. Enfim, a “realidade” é o que quisermos!!

Deixando estes “cientistas” conspirativos e alucinados, que se multiplicam exponencialmente nas redes sociais, atentemos sobre o que nos dizem os cientistas (os autênticos) que trabalham no campo, que observam de forma controlada e medem com o melhor rigor possível para depois, com humildade científica, retirarem conclusões circunstanciadas, verificáveis e refutáveis.

Fatores de risco da síndrome ao nível do apiário

“Os metadados associados aos registros do Beebase são relativamente esparsos. Detalhes de métodos específicos de gerenciamento de colónias não são registrados. Fatores ambientais locais – OSR, borragem, gap de junho etc. – também estão ausentes. Inevitavelmente, alguns dos fatores que podem estar associados ao aumento do risco não são registrados.

Uma doença relativamente rara que está agrupada espacialmente, mas não temporalmente, é um problema complicado para definir fatores de risco. Steve Rushton, o autor sénior do artigo, fez um excelente trabalho ao analisar os dados disponíveis.

Os dois fatores mais importantes ao nível apiário que contribuíram para o risco da doença foram:

  • Apicultura comercial/profissional – os apiários geridos por apicultores comerciais/profissionais tinham um risco 1,5 vezes maior de registrar a síndrome.
  • Importação de abelhas – os apiários que tinham importado abelhas nos dois anos anteriores tinham um risco 1,8 vezes maior de registrar a doença.” (ver o artigo aqui: https://www.nature.com/articles/s41467-020-15919-0)
Artigo do The Times com o título ” Rainhas exóticas provocam uma epidemia às abelhas”.

Importação de abelhas não significa importação de doenças

Há bons registros de abelhas importadas pelos canais oficiais. Isso inclui rainhas, pacotes e colónias em núcleos. Entre 2007 e 2017, houve mais de 130.000 importações, 90% das quais foram rainhas.

Um risco aumentado deste síndrome em apiários com abelhas importadas não significa que as abelhas importadas foram a fonte da doença.

Com os dados disponíveis, não é possível distinguir entre as duas hipóteses a seguir:

  • as abelhas importadas são portadoras do vírus da paralisia crónica ou a fonte de uma nova (s) estirpe (s) mais virulenta (s) do vírus, ou
  • as abelhas importadas são suscetíveis à (s) estirpe (s) de vírus da paralisia crónica endémica no Reino Unido às quais não foram expostas em seu país de origem.

Existem maneiras de separar essas duas possibilidades … o que obviamente é algo que queremos concluir.” fonte: https://theapiarist.org/aristotles-hairless-black-thieves/

vírus da paralisia crónica

A infecção/síndrome do vírus da paralisia crónica da abelha (VPCA), que não deve ser confundido com o vírus de paralisia lenta ou vírus da paralisia aguda, afeta geralmente as abelhas adultas da Apis mellifera e causa uma paralisia crónica que se pode espalhar facilmente entre os membros da uma colónia. As abelhas infectadas com VPCA começam a apresentar sintomas após 5 dias e morrem alguns dias após. A infecção pelo vírus da paralisia crónica das abelhas é um fator que pode contribuir ou causar o colapso repentino das colónias de abelhas, e por vezes é confundida com a intoxicação por envenenamento.


Embora o VPCA infecte principalmente abelhas adultas, o vírus também pode infectar abelhas em estágios mais precoces de desenvolvimento, embora as abelhas mais novas tenham cargas virais significativamente mais baixas em comparação com suas companheiras mais velhas.


As abelhas que foram infectadas com VPCA podem abrigar milhões de partículas virais. O vírus possui atividade neurotrópica, isto, é afecta o processamento sensorial, memória, aprendizagem, o controle motor, a locomoção, a orientação corporal e excitação.

A infecção apresenta-se de duas maneiras distintas: a infecção/síndrome tipo I e a infecção/síndrome tipo II, a mais frequente na Europa.

Uma abelha infectada tipo I apresenta um abdómen inchado devido ao saco de mel estar cheio de líquido e asas fracas ou trémulas. As abelhas infectadas do tipo I tendem a gatinhar no chão ou aglomeram-se perto da entrada da colmeia, pois suas asas enfraquecidas levam à incapacidade de voar.

Uma abelha infectada tipo II apresenta uma completa perda do pêlo (alopécia), fazendo com que pareça preta e oleosa. Essas abelhas ainda conseguem voar 2-3 dias após o aparecimento dos sintomas, mas perdem a capacidade de voar pouco antes de sucumbir à doença.

As abelhas doentes são consideradas intrusas na colmeia e são atacadas pelas abelhas saudáveis da colónia. Em poucos dias, ficam incapazes de voar, apresentam tremores e acabam por morrer, alguns dias após o início da infecção. Embora estas duas síndromes sejam descritas, elas não são exclusivas porque podem estar presentes na mesma colónia.
Portanto, uma síndrome geral foi definida, agrupando os principais sintomas dos 2 tipos. A síndrome é caracterizada pela presença de abelhas trémulas, incapazes de voar, rastejando, algumas são negras e depiladas; finalmente, essas abelhas às vezes são rejeitadas da colónia e são encontradas moribundas ou mortas à entrada da colmeia.

Pequeno vídeo que mostra uma abelha com infecção tipo II a ser agredida pelas suas irmãs, com vista à sua expulsão da colmeia.

Actualmente não há tratamento conhecido para a doença. Frequentemente, as abelhas infectadas pelo vírus da paralisia crónica morrem por si próprias, mas as abelhas infectadas, se detectadas, devem ser removidas da colmeia imediatamente para diminuir as chances de o vírus se espalhar através da trofalaxia ou do atrito com abelhas saudáveis. A suplementação de uma colmeia enfraquecida, que foi severamente afetada pelo vírus, com abelhas saudáveis de outra colónia pode impedir o seu colapso.

Fotografia do vírus

fontes: https://www.semanticscholar.org/paper/Le-virus-de-la-paralysie-chronique-de-l’abeille-%3A-à-Chevin/5113959269f1929356593da1d3dd69e3d8b39c04; https://en.wikipedia.org/wiki/Chronic_bee_paralysis_virus

Randy Oliver animado com o evoluir das suas linhas resistentes

“… nós criadores de abelhas e rainhas, aqui na Califórnia, continuamos nosso trabalho diário no campo [em tempos da Covid 19].

Estamos a fazer várias centenas de núcleos por semana, e estamos em plena produção de rainhas.
Estou a dividir a um ritmo louco as nossas colmeias criadoras de rainhas para as impedir de enxamear.

A boa notícia é que a nossa criação de linhas selectivas resistentes ao ácaro varroa parece estar a ganhar força.
Começámos em 2017 com uma rainha resistente a servir de matriarca (juntamente com algumas colmeias com contagens baixas de ácaros).
Em 2018, cerca de 20 colónias atingiram uma boa classificação (mantendo menos de 1% de taxa de infestação em 5 amostragens com lavagem com álcool e ao longo do ano; permitimos um aumento até 3% na lavagem de novembro quando elas param a criação, mas devem baixar de novo para 1% ou menos até março).

Em 2019, 30 tiveram uma boa classificação. Nesta primavera e até agora, 56 atingiram uma boa classificação (depois de excluir colónias que apresentavam resistência mas que não estavam à altura por outras razões), com mais 25 colónias ainda para serem submetidas à lavagem com álcool quando retornarem da polinização das amendoeiras.

Sete colónias estão a desenvolver-se bem sem nenhum tratamento contra a varroa durante dois anos completos.

Todos os anos, renovamos as rainhas de todas as nossas colónias apenas com filhas de mães resistentes. O progresso é lento, mas é muito emocionante ver
colónias bonitas e fortes com contagem de ácaros a zeros após um ano inteiro sem tratamento.

Nesta temporada, irei utilizar um número maior de rainhas matriarcas para evitar um excessivo afunilamento da diversidade genética.
Estou ansioso para ver se a nossa porcentagem de colónias resistentes continua a aumentar.”

Randy Oliver
Grass Valley, CA
www.ScientificBeekeeping.com (Bee-L, 02.04.2020)