apicultura no início da primavera: o maneio de John Gaut, mestre apicultor

Na newsletter de março/abril de 2021 da New Jersey Beekeepers Association, John A. Gaut, Mestre Apicultor, deixa um conjunto de linhas orientadoras para o maneio de primavera que traduzo em baixo. Muitas, se não todas, das suas propostas coincidem com as minhas práticas, na grande maioria já descritas e explicadas em publicações anteriores. Decidi publicar este tema na entrada do outono para variar do tema “velutina” e a pensar em todos nós que lutamos contra a asiática com os poucos meios de que dispomos mas com a perseverança de guerreiros. Que o nosso combate nesta estação permita que muitas das nossas colónias entrem na próxima primavera.

John Gaut, Mestre Apicultor norte-americano.

Foi um longo inverno! Estou realmente ansioso para trabalhar novamente nas colmeias nos dias ensolarados da primavera!
Utilizei o tempo neste inverno para continuar a aprender sobre a apicultura, especialmente como manter as colónias saudáveis. Houve muitas apresentações online; muitas foram muito boas e algumas foram fantásticas!

Todos nós sabemos que precisamos manter os níveis de ácaros varroa baixos. A informação mais importante que aprendi no ano passado é que os níveis de ácaros devem ser mantidos muito baixos na primavera ou eles serão muito difíceis de controlar no final do ano. Vi isso nas minhas colónias, e esta crença é reforçada por outros apicultores com dados fidedignos (efectuam testes em abelhas adultas com lavagens de ácaros/abelhas antes e depois dos tratamentos). Idealmente, não deverá haver mais do que um ácaro numa lavagem de 300 abelhas com álcool (infestação inferior a 0,3%) em abril. Mesmo se não houver ácaros na lavagem, ainda há ácaros na criação, pois a maioria deles está a reproduzir-se na criação operculada! As populações de ácaros duplicam a cada mês durante abril, maio e junho, meses em que as colónias apresentam muita criação. Se a população de ácaros for alta em abril, a população de ácaros explodirá durante o verão e a colónia pode entrar em colapso no outono. [ver dinâmica populacional das colónias de abelhas e da população dos ácaros e timing dos tratamentos em várias publicações mais antigas]

[Uma pequena nota à parte do texto sobre um dos sinais precoces de uma taxa de infestação que já está alta e a exigir uma intervenção imediata por parte do apicultor: a criação calva.

[Criação calva (bald brood), um dos primeiros sinais que nos indica estarmos na presença de uma colónia com uma taxa já elevada de infestação por varroa. Ainda que alguns apicultores possam estar iludidos, acreditando que têm uma linha de abelhas com um comportamento resistente do tipo VSH, em 99,9% das vezes o que têm é uma alta, preocupante e prosaica taxa de infestação por varroa. Texto meu!]

Voltando novamente ao texto de John Gaut.]

Os vírus são transmitidos pelos ácaros varroa, que podem iniciar uma epidemia de vírus. Os vírus também são transmitidos de abelha para abelha, de operária para a rainha e da rainha para os ovos. Quando os ácaros infectam algumas das abelhas da colónia, os vírus espalham-se entre as abelhas, mesmo sem a ajuda dos ácaros. Portanto, o tratamento de ácaros depois dos vírus já estarem em grande circulação numa colónia costuma ser tarde demais. Os vírus podem conduzir ao colapso da colónia, mesmo que a maioria dos ácaros já tenha sido eliminada. [ver PMS e vírus das asas deformadas em várias publicações mais antigas]

Também passei algum tempo neste inverno a preparar o equipamento para a nova temporada.


A próxima tarefa no apiário é remover as tiras de Apivar. Em meados de janeiro, geralmente coloco duas tiras de Apivar no ninho, que normalmente é de 6 a 10 quadros de abelhas. Em meados de fevereiro, raspo as tiras recoloco-as, pois o aglomerado de abelhas deve estar em contato com as tiras para que o Apivar seja eficaz. Em meados de março, retiro as tiras. No início de abril, inspeciono as colónias, verifico os níveis de ácaros e coloco meias-alças com cera puxada para reduzir o impulso de enxameação, dando mais espaço à colónia em crescimento.

Em março e abril, avalio o mel presente na colmeia. A maioria das colónias normalmente tem muito mel e não precisa de ser alimentada com açúcar/fondant. À medida que a criação aumenta, a rainha precisa de mais espaço para fazer a oviposição. Descobri que as colónias que são superalimentadas com açúcar tendem a enxamear mais rapidamente porque a colónia não consumiu uma parte do mel presente nos alvéolos e, assim, não há espaço para a postura da rainha! Alguns apicultores colocam açúcar nas colónias como “segurança”, mas isso pode ter consequências indesejadas – especificamente a enxameação – se a colónia consumir a ração suplementar e não libertar o espaço suficiente no ninho para a postura da rainha. O impulso para enxamear da colónia aumenta porque o ninho está cheio de criação operculada e há muito mel na colmeia. Parte do maneio do enxame requer a monitorização das reservas de alimentos e favos vazios no ninho. Um bom apicultor antecipa a progressão natural da colónia. Apenas as colónias que precisam ser alimentadas devem ser alimentadas com açúcar ou fondant. Devemos equilibrar as necessidades de alimentos da colónia enquanto minimizamos o impulso de enxameação. [ver alimentação e nutrição de colónias e prevenção da enxameação em várias publicações mais antigas]

Este é um quadro típico de criação à entrada/saída do outono [foto minha tirada no início de Dezembro do ano passado]. Este quadro apresenta criação operculada neste lado e uma mistura de ovos, larvas e criação operculada no outro lado. Um bom quadro de criação nesta altura do ano terá ambos os lados cerca de 2/3 preenchidos com criação e o 1/3 restante com mel e pólen.

Minha meta até o final de abril é que todas as colónias tenham pelo menos quatro quadros com criação, mas não mais do que seis quadros com criação. Em maio, o alvo aumenta para 6-8 quadros de criação. Na maioria das vezes, preciso estimar os quadros equivalentes de criação. Por exemplo, dois quadros com apenas 1/3 coberto com criação será contabilizado como um quadro de criação. [ver regra não mais de 6 em várias publicações mais antigas]

Uma das minhas técnicas de gestão de enxames é equalizar as colónias em abril. Colónias fortes em abril terão 5-6 quadros de criação (conforme definido acima). As colónias que estão ficando para trás terão apenas 1-2 quadros de criação. Se a colónia mais atrasada for saudável, adicionarei um ou dois quadros de criação e abelhas de uma colónia forte e saudável. Certifico-me de que a rainha não está no quadro que estou transferindo! Adiciono um quadro com cera puxada para substituir o quadro de criação que tirei da colónia forte. Coloco o quadro com cera puxada adjacente ao último quadro com criação da colónia, não entre quadros com criação, porque a colónia precisa manter a câmara de criação compacta, contínua e aquecida. Colocar um quadro vazio entre os quadros de criação pode resultar em criação arrefecida, o que pode atrasar a colónia. Frequentemente, este impulso adicional de abelhas e criação é tudo que a colónia mais fraca precisa para alcançar as mais fortes; no entanto, ambas as colónias devem ser saudáveis. A transferência de criação, abelhas e favos vazios entre colónias que sofrem de doenças só criará mais colónias doentes. [ver equalização de colóniasem várias publicações mais antigas]

Da mesma forma, combinar uma colónia fraca com uma colónia forte e saudável pode resultar na perda de ambas as colónias devido a doenças. Combinar colónias já foi uma prática comum, mas actualmente existem muitos mais vírus circulando, incluindo aqueles que não apresentam sintomas externos. Por exemplo, embora possa não haver sinais visíveis do vírus das asas deformadas numa colmeia, muitas das abelhas podem estar infectadas e enfraquecidas pelo vírus. Evito juntar colónias por esse motivo. Se eu não conseguir encontrar um motivo específico para a fraqueza da colónia, suspeito de vírus. Uma colónia às vezes pode superar um surto de vírus. Se a colónia for pequena, eu coloco-a em numa caixa de 5 quadros. Adicionar cria e abelhas de uma colónia forte pode ajudar. Eu não gosto de adicionar quaisquer abelhas ou quadros de colónias fracas a colónias fortes se houver suspeita de vírus.

Efeito fenotipico do Vírus das Asas Deformadas



Espero que as suas colónias sobrevivam ao inverno. Ainda melhor se estiverem prosperando! A primavera chegará em breve, então agora é a hora de se preparar.

Muito obrigado John, por esta aula magistral de apicultura! É muito reconfortante saber que tenho a sua companhia em inúmeras opções de maneio.

fonte: https://www.njbeekeepers.org/Site_Docs/Newsletters/Volume35Issue2.pdf

vespa velutina: módulo protector de alvado

Deixo em baixo o vídeo e a tradução de um texto informativo sobre o módulo protector de alvado ApiAvant, da empresa Serpa. A intenção é dar ideias a todos nós sobre certos pormenores e como todos eles poderão ser importantes para aumentar a eficácia deste tipo de protectores de alvado. O meu agradecimento ao José Sá que me chamou a tenção para ele.

“Este módulo de proteção foi testado por 3 anos pela empresa SERPA, empresa dedicada à erradicação da vespa velutina. É 100% compatível com colmeias Dadant e Langstroth (também transumância).

  1. Impede a entrada da vespa asiática na colmeia, e também impede a entrada de vespas, bombus terrestres (potenciais portadores de varroa) e outros insetos e animais, gerando um ambiente de segurança e não de intimidação (o enxame funciona com fluidez normal mesmo que a vespa asiática esteja voando no exterior).
  1. Permite uma grande aceleração da abelha ao sair e entrar na colmeia, enquanto a vespa asiática continua em voo flutuante estático do lado de fora. Nesta situação, é muito mais difícil para a vespa asiática caçar as abelhas.
    .
  2. Mimetismo: as cores e a forma de pintar o filtro frontal evitam que a vespa asiática veja a tempo de onde as abelhas saem, aumentando grandemente as possibilidades de as abelhas escaparem com sucesso.
  1. Efeito sónico: ao instalar o módulo, o efeito “caixa de ressonância” é criado, fazendo as vespas acreditarem que estão na frente de um grande enxame de abelhas e manter as vespas do lado de fora com um voo flutuante estático e ineficiente para a vespa (a vespa normalmente não se atreve a entrar no módulo por medo de ser atacada pelo que pensa ser um grande enxame de abelhas).
  1. Efeito térmico: o módulo exerce um efeito regulador da temperatura muito positivo para a colmeia, especialmente no outono e no inverno. No verão, os dois painéis laterais ajudam a ventilar e aclimatar o módulo (além da vibração exercida pelas abelhas que vai ajudar a baixar a temperatura do módulo e o efeito sónico como uma caixa de ressonância que espantará as vespas).
  1. Ajuda a prevenir a varroa: o módulo impede a entrada de bombus terrestre (considerado um potencial portador de varroa). Recomenda-se que o módulo seja deixado instalado até o início da primavera. No início da primavera, o módulo será desinstalado, pois é quando os zângãos devem sair para acasalar com a rainha (após o que ela será reinstalada em julho).
  1. As abelhas entram e saem com o pólen com total fluidez.”

Nota: a intenção desta publicação é unicamente informativa, nomeadamente pretendo realçar como certos detalhes poderão ter um efeito importante na eficácia global deste tipo de dispositivos protectores de alvado. Não tenho experiência para poder fazer uma avaliação do mesmo.

diminuir a pressão das velutinas à entrada do alvado: os dados preliminares de um amigo apicultor

Depois desta publicação de fevereiro de 2020 alguns apicultores, eventualmente inspirados pelo seu conteúdo, começaram a ensaiar as muselière no nosso país (focinhos, em tradução literal).

O Sr. Anibal Caratão teve a amabilidade de me relatar os dados preliminares que observa assim como me enviou fotos destes dispositivos, que passarei a denominar “gaiola anti pressão”, segundo sugestão do André Gonçalo.

“Este tipo de gaiola está em experiência, tira um pouco a pressão, não obstante por aquilo que hoje observei a vespa entra até à rampa de voo agarra na abelha mas não consegue passar c/ela pela rede largando-a. Penso que não deve ser colocada com a vespa a pressionar para que as abelhas se adaptem a passar na rede com naturalidade” (Anibal Caratão).
“Esta gaiola que se acopla à colmeia com 2 garrafas na lateral que levam agua c/sabão ou detergente de louça, embora esta se encontre neste momento em experiências, dos dados preliminares que observo têm algum significado na pressão provocada pelas vespas. Têm ainda a função de captura das mesmas.” (Anibal Caratão)
“Este é o resultado ao fim de uma semana. Pela análise feita fico satisfeito com o resultado, embora me pareça que a colocação da mesma deve ser feito mais cedo na época, que não seja quando as abelhas já estão pressionadas pela velutina.” (Anibal Caratão)

estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia

Praticamente desde a sua publicação, em 2017, que conheço a magnífica tese de doutoramento de Juliette Poidatz em torno da biologia dos elementos reprodutores da espécie Vespa velutina (fundadoras e machos) e da colecta e distribuição de alimento nos ninhos das mesmas.

O estudo da distribuição de alimentos no interior dos ninhos das velutinas tem diversas implicações práticas, nomeadamente na afinação da estratégia de controlo das suas populações com recurso aos designados Cavalos de Tróia.

A autora escreve (pg. 116 e segs.) “Atualmente, nenhuma prática de controle eficiente pode ser aplicada contra V. velutina, exceto a destruição de seu ninho, que é demorada e bastante cara (Monceau et al. 2014a). O estudo da distribuição de alimentos entre os membros da colónia de V. velutina poderia, assim, permitir uma aplicação posterior, por exemplo, no auxílio ao desenvolvimento de estratégias de Cavalo de Tróia, que consiste em oferecer comida para forrageadoras como isca, contaminada com agentes de controle biológico (por exemplo, fungos entomopatogénicos, toxinas biológicas, ou parasitas (Naug & Camazine 2001)), ou agentes inseticidas (por exemplo, reguladores de crescimento, inibidores da síntese de quitina …), embora tais estratégias tenham que ser primeiro verificadas quanto à ausência de efeitos colaterais inaceitáveis ​​para o ambiente. Tal estratégia foi proposta contra a invasora Vespula germanica na Nova Zelândia, e até o momento é a única eficaz (Beggs et al. 2011).
No presente trabalho, analisámos como as operárias distribuíram os alimentos que coletaram entre os membros de suas colónias, utilizando colónias de diferentes de tamanho e estrutura variáveis, usando dois tipos de marcadores de alimentos não radioativos: rubídio (Rb) para proteínas e césio (Cs) para açúcares.”

“Cada operária do controle positivo, libertada no seu ninho, distribuiu alimento a um número muito variável de indivíduos (considerando todas as castas), com uma média ± desvio padrão de 7,85 ± 6,71 [2-21] indivíduos para proteínas marcadas e 11 ± 9,73 [2-27] indivíduos para o açúcar marcado.[…] Em comparação com as formigas, o número de indivíduos alimentados por uma operária parece ser muito pequeno tanto para açúcar quanto para proteínas, em média 10 para as vespas […] Ovos e larvas receberam proteínas com mais frequência do que açúcar, enquanto as operárias receberam açúcar com mais frequência do que proteínas, como esperado (Montagner 1963).”

fonte: https://tel.archives-ouvertes.fr/tel-01758929/document

Proposta quantitativa para a preparação de Cavalos de Tróia: Operando com esta média de distribuição de alimento por cada operária V. velutina, e sabendo que no pico de desenvolvimento dos ninhos existem cerca de 2000 a 4000 indivíduos adultos presentes, teremos que preparar entre 50 e 100 vespas se pretendemos eliminar 25% da população do ninho, entre 100 e 200 se o objectivo é eliminar 5o% da população do ninho, entre 200 e 400 se o objectivo é eliminar 100% da população do ninho.

rastrear vespas asiáticas no retorno aos seus ninhos: a técnica de radiotelemetria

Um dos meios para controlar as populações de Vespa velutina consiste na localização e eliminação dos seus ninhos. Estas operações devem acontecer tão cedo quanto possível, antes da criação das futuras fundadoras. A maior limitação desta estratégia consiste na localização dos ninhos. Para ultrapassar este enorme obstáculo algumas equipas de investigação estão a testar e aperfeiçoar dois tipos de técnicas: i) recurso ao radar harmónico; ii) recurso à radiotelemetria.

Se numa publicação recente sobre a utilização do radar harmónico para a localização de ninhos, enunciei as suas virtualidades e limitações, chega agora a hora de fazer o mesmo acerca da utilização de equipamentos de radiotelemetria. Para isso, recorro à tradução de um texto de divulgação científica.

“A vespa asiática Vespa velutina é uma espécie invasora que chegou a França em 2004 e desde então tem causado grandes danos à apicultura. O desafio atual é tentar controlar seus níveis populacionais e, assim, reduzir a pressão que exercem sobre as colónias de abelhas. A medida mais eficiente no momento é a destruição o mais precoce possível de seus ninhos, mas o problema é como localizá-los. Cientistas do INRA [França] e seus colegas da Universidade de Exeter, no Reino Unido, desenvolveram uma técnica original de radiotelemetria que, rastreando estes insetos no seu voo de retorno ao ninho (homing), permite uma rápida detecção de seus ninhos. Este trabalho acaba de ser publicado [2018] e oferece um método promissor para o controle de vespas asiáticas.

Vespa velutina nigrithorax em voo.

O vespão asiático é um perigoso predador das abelhas. Desde sua chegada a França em 2004, sua frente de invasão estendeu-se gradualmente a Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido, Bélgica e Luxemburgo. Os possíveis fatores que podem restringir sua propagação são a ausência de água que esses insetos precisam para construir seus ninhos e a altitude. Os recursos alimentares não são limitantes, porque além de predar os insetos, as vespas podem alimentar suas larvas usando outras fontes de proteína (carne ou peixe de barracas de mercado, resíduos de pesca, carcaças de gado). A única possibilidade crível de controlar essa praga invasora é limitar suas populações, e duas técnicas são usadas no momento: i) a instalação de armadilhas com isca para capturar e eliminar as fundadoras, e ii) destruir os ninhos o mais cedo possível.

Cientistas do INRA e seus colegas britânicos, especialistas no uso de radiotelemetria em insetos, desenvolveram uma técnica original que envolve equipar vespas asiáticas com tags/transponders de rádio para que possam ser rastreadas de volta aos seus ninhos.

Vespa na qual foi colocado um tag/transponder na zona ventral com um peso de 0, 28gr.

Os cientistas do INRA capturaram vespas que buscavam alimentos perto de colmeias. Em seguida, equiparam-nos com um tag/transponder suspenso ventralmente, amarrado com um fio de algodão. Após longos testes, os cientistas selecionaram vespas com um peso mínimo de 0,35 g para carregar uma tag/transponder de 0,28 g com alcance de 800 m. Na verdade, tinham observado anteriormente que 80% destas vespas podiam carregar até 80% de seu peso corporal.

As vespas marcadas foram treinadas para voar com o tag/tranponder numa gaiola antes de serem soltas e os cientistas puderam segui-los à distância até ao seu ninho. Assim, foi possível detectar ninhos até 1,33 km do ponto de partida da operária.”

fonte: https://www.inrae.fr/en/news/tracking-asian-hornets-they-return-their-nests-method-control-these-dangerous-honeybee-predators

Notas: 1) O equipamento de radiotelemetria tem um custo (valores de 2018) para o receptor e antena de £ 2.000 (libras inglesas) e cerca de £ 140 por tag/transponder. (fonte: https://www.nature.com/articles/s42003-018-0092-9);

2) como fica claro das duas publicações sobre o rastreamento das velutinas “tagar” ou “chipar” as velutinas não é nem barato nem simples. Não é exactamente como ir ao veterinário chipar o cãozinho ou o gatinho. “Chipar” velutinas que mal pesam 0,35 gr. com micro-chips que pesam… 8 gr. (como já li nas redes sociais) é demasiada carga para a mula!

vespas velutinas: chegaram e agora?

Vi pela primeira vez, na semana que passou, colónias de um apiário meu a serem predadas com alguma pressão pelas Vespas velutinas. O que fiz de imediato foi tirar as rampas de voo e colocar as grelhas de alvado na posição invernal, apanhar algumas com uma raquete eléctrica e, finalmente esmagá-las contra a parede frontal do corpo do ninho.

A primeira!!!
Esmagada contra a parede frontal da colmeia.

Chegaram! E agora?

Desde 2016 que escrevo sobre este animal exótico neste blog (e antes de terem entrado em Portugal, já em 2011 escrevia sobre elas no fórum “As Abelhas”). Tenho alguma informação sobre o que poderá resultar, tendo em conta vários factores, sendo estes os que mais considero neste momento:

  • a eficácia e eficiência das minhas acções, enquadradas num conceito de minimização dos impactos na entomofauna e outros animais não-alvo;
  • o tempo que pretendo passar a controlar este invasor;
  • a factura (€€€) que estou disposto a pagar por dispositivos que seja necessário adquirir;
  • a disposição espacial das colónias em cada apiário.

Por tudo o que tenho lido e considerando os factores atrás referidos vou privilegiar estas duas armas no próximo ano:

O JabeProde, apresentado por D. Jaffré, o seu inventor.
O desinsectizador, ou harpa activa.

Serão as melhores soluções? Como referi vou dar-lhes prioridade, que não significa exclusividade, tendo em conta as minhas circunstâncias e os meus conhecimentos actuais. Não irei deitar a toalha ao chão, depois de tantos de nós, com uma enorme resiliência e de forma exemplar, terem mostrado que é possível manter as colónias vivas e produtivas. Acredito que serei capaz de pertencer a este grupo de excelentes cuidadores.

vespa velutina: o comportamento das novas fundadoras nos meses de outubro a dezembro e medidas a tomar

Depois do pico de pressão das velutinas obreiras sobre as colónias (em geral de início de agosto a meados de outubro), a ameaça não termina. Há que adaptar a estratégia de luta, assim como os equipamentos, à presença de uma nova casta de velutinas: as novas fundadoras. Deixo em baixo a tradução de um boletim informativo, da empresa espanhola Sanve, acerca desta invasão silenciosa.

No outono e no inverno, quando as velutinas fundadoras deixam seus ninhos, tornam-se verdadeiros predadores das reservas de mel de nossas abelhas.

No outono, observamos que as vespas se desinteressam pelas abelhas e vemos que tentam entrar nos alvados das colmeias, em alguns casos vemo-las entrar e depois de algum um tempo saem e pensamos que as abelhas as expulsaram. Nada está mais longe da realidade.

As velutinas procuram as colmeias mais frágeis, assim que a encontram fazem repetidas viagens transportando o mel da colmeia para os seus ninhos. O mais seguro é que a velutina que observamos a sair não é a que acaba de entrar mas uma outra que sai já carregada para o ninho.

As abelhas nas colónias, à medida que o frio se aproxima, formam um cacho para se manterem aquecidas e acabam por expor parte das reservas de mel. Mesmo colónias fortes quando aglomeradas em cacho expõem parte das reservas essenciais para um bom início da colónia na primavera. Sem percebermos, as velutinas saem das colmeias com o mel, causando uma dificuldade acrescida à sobrevivência da colónia.

O que se preconiza é uma redução do alvado com uma dupla função:

Exemplo de um redutor de alvado.
  • Por um lado, evitamos que as velutinas entrem nas colmeias;
  • Nas colmeias mais fracas, que serão preferidas pelos velutinas devido à pouca resistência que as abelhas oferecerão, deve ser colocada uma armadilha que permitirá a entrada das velutinas mas só poderão sair da colmeia para a armadilha que a espere cá fora. Assim evitamos que sejam saqueados e ao mesmo tempo eliminamos parte das velutinas que hibernam nas proximidades dos nossos apiários.”
Armadilha de alvado para velutinas.

fonte: https://sanve.weebly.com/trampa-de-piquera.html

Notas: 1) mesmo tendo a opinião que esta empresa espanhola está a desenvolver um muito bom trabalho, não tenho experiência com os seus produtos. Esta publicação não tem um intuito comercial ou de marketing, apenas tem uma intenção informativa;

2) Para levar para casa: no combate as nossas estratégias e equipamentos devem ir-se ajustando à evolução do ciclo de vida das colónias, tanto o das velutinas como o das nossas abelhas. Que tenhamos uma luta bem sucedida, porque informada, adaptada e afinada aos momentos e locais.

finalmente provado: a eficiência de capturar as vespas asiáticas fundadoras

Entre a comunidade científica francesa, apicultores e restantes cidadãos tem havido um debate, com longos anos, acerca da eficiência no controle da proliferação da vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax), em territórios em que ela se encontra já estabelecida, por meio das armadilhas de captura das fundadoras após a sua saída de hibernação.

Num artigo de divulgação científica, publicado em abril deste ano, surgem finalmente dados científicos que dão suporte à tese de que uma rede adequada de armadilhas devidamente selectivas para a captura de fundadoras desta espécie exótica diminui de forma significativa a proliferação de seus ninhos. Em baixo traduzo alguns excertos do artigo.

Ninho de vespas asiáticas (Vespa velutina nigrithorax).

“Embora utilizado no campo por algumas redes locais de controle, esse método de controle nunca foi oficialmente recomendado porque os estudos científicos existentes sobre o assunto não mostraram, até então, qualquer efetividade real. Além disso, destacaram um impacto sobre os insetos não visados ​​por esse método, devido à baixa seletividade das armadilhas e iscas disponíveis. O Ministério da Agricultura mandatou o ITSAP-Institut de l’Abeille e o Museu Nacional de História Natural (MNHN) completar esses dados e permitir que os efeitos deste método de controle sejam medidos, numa escala sem precedentes.

Para a realização deste estudo, contámos com dados da ciência cidadã, combinados com os obtidos por meio de um protocolo rigoroso. Esses dados incluem a contagem e localização dos ninhos de vespas asiáticas, as armadilhas usadas e o número de fundadoras capturadas. Estes censos foram repetidos ao longo de quatro anos consecutivos (2016-2019) e realizados em três departamentos (Morbihan, Vendée e Pyrénées-Atlantiques).

As relações estatísticas entre a densidade de ninhos e o esforço de captura foram analisadas através de estudos espaço-temporais realizados pela unidade BioSP (BioStatistics and Spatial Processes) do INRAE ​​d’Avignon.

Eficaz, desde que as velutinas sejam o alvo
Como esperado, as análises revelaram a eficiência da instalação de armadilhas preferencialmente em locais onde houve ninhos no ano anterior. A análise da dinâmica espaço-temporal da captura mostrou que a presença de armadilhas é acompanhada por uma diminuição no número de ninhos ao longo do tempo. O principal fator para essa redução é a presença localizada de armadilhas e não a quantidade de armadilhas ou fundadoras capturadas. O efeito desaparece quando se afasta as armadilhas para lá dos 400 m. O efeito sobre os ninhos é tanto mais importante quanto a captura é repetida em vários anos sucessivos. Por exemplo, aplicando as armadilhas ao longo de quatro anos em vez de três, pode multiplicar por cerca de 2 o seu efeito na redução do número de ninhos.

Em contraste, colocar várias armadilhas num mesmo lugar não tem um impacto significativo. Isso parece comprovar que a eficácia deste método depende do estabelecimento de uma malha densa e regular de armadilhas, centrada na área a ser protegida, respeitando um espaçamento de algumas centenas de metros entre dois dispositivos. Na ausência de armadilhas e iscas seletivas, a captura de primavera deve ser realizada em torno dos apiários que experimentaram uma mortalidade excessiva de colónias atribuída ao vespão asiático no inverno anterior.

Não se trata, portanto, da aplicação de armadilhas generalizadas em todos os territórios, mas sim de armadilhas direccionadas para proteger os apiários afectados. Os dados disponíveis sobre a seletividade das armadilhas indicam que deve ser proibido o uso de armadilhas com garrafas, iscas líquidas e favorecido o uso de armadilhas com cestos com cones de entrada do tipo “JabeProde”.

( fonte: http://blog-itsap.fr/efficacite-piegeage-fondatrices-frelon-asiatique/?fbclid=IwAR0RzYzEVsUsLkoraVQBJQsXSHNj-l7IHUJEeAnxbd-Xwuz8wJxnaXNVBJE )

Notas: Sobre o Jabeprode (julgo ter sido o primeiro a escrever em Portugal sobre este dispositivo) escrevi recentemente: “O JABEPRODE é um dispositivo que poderia facilmente ser produzido industrialmente, numa qualquer empresa de moldes, assim as entidades oficiais camarárias e outras patrocinassem o seu fabrico, promovessem o que de melhor se vai fazendo nesta área, e as entregassem gratuitamente aos apicultores. Estou certo que muitos de nós iriam aderir ao projecto. Uma vez mais os apicultores desejam ser referência na protecção da entomofauna e biodiversidade e contribuir para a diminuição da tremenda mortandade que as V. velutinas e as armadilhas não selectivas, colocadas um pouco por todo o lado e ao longo de todo o ano, causam em insectos polinizadores não-alvo.”

Sobre a planificação de uma rede de colocação de armadilhas, deve ser um trabalho coordenado pelos nossos representantes locais (câmaras e seus serviços de protecção civil). A sua execução poderá contar com munícipes que formarão uma rede de voluntários, apicultores e demais, para a realização de algumas das tarefas no terreno, mas sempre com a supervisão e responsabilidade das câmaras e seus serviços de protecção civil na indicação dos locais preferenciais para a instalação das armadilhas, assim como o fornecimento de armadilhas efectivamente selectivas. Está na altura de dar este passo em frente, com vista a uma luta planeada, coordenada, eficiente e selectiva.

probióticos: ensaio de campo por Randy Oliver

Nos EUA, começa a tornar-se moda alimentar as colónias de abelhas com probióticos. Será que esta prática é custo-efectiva? As colónias ficarão mais fortes e produzirão mais? Como não sou apicultor-investigador de campo, leio boas fontes para saber onde vale de facto a pena gastar o dinheiro que tanto custa a amealhar. E Randy Oliver é uma fonte inesgotável de informação pertinente, informada e devidamente controlada para as minhas questões mais práticas. Assim, deixo em baixo a tradução de excertos de uma sua publicação muito recente acerca dos efeitos dos probióticos na força e desempenho nas colónias que testou.

Nos últimos anos, aprendemos que o intestino da abelha hospeda um microbioma que consiste em vários grupos principais de bactérias (Figura em baixo), que, se modificado/perturbardo, pode ter efeitos prejudiciais sobre a saúde das abelhas. Muitos apicultores, na esperança de melhorar a saúde da colónia, especialmente quando são alimentadas com dietas artificiais ou após a aplicação de antibióticos, perguntaram-me se há algum benefício em dar um suplemento de probióticos. Então, fiz dois testes de campo para descobrir.

Principais bactérias intestinais da abelha melífera.

Perguntas práticas: Já que as abelhas operárias obtêm facilmente as suas principais bactérias intestinais dos favos, precisarão ser alimentadas com um produto probiótico? Isso faz alguma diferença?

Este teste de campo foi projetado para determinar se a alimentação mensal de qualquer uma das duas formulações probióticas comerciais especificamente comercializadas para abelhas melíferas proporcionaria um benefício para a força da colónia (medida pelo tamanho do cacho de abelhas) ou desempenho (medida pelo ganho de peso).

Gosto de usar estas duas métricas por dois motivos:

  • Ambos refletem o cálculo final de cada aspecto da saúde da colónia e da sobrevivência adulta, e
  • São as duas únicas métricas que colocam dinheiro no bolso do apicultor.

Fiz dois testes simples, combinando medições de campo com biologia molecular de alta tecnologia (sequenciamento de “próxima geração”), para primeiro ver se o probiótico afetava a força da colónia ou o ganho de peso, e (a ser publicado mais tarde) para saber se o a alimentação dos probióticos resultou em quaisquer outros benefícios biológicos.

Duas formulações probióticas comerciais utilizadas no ensaio.

Discussão
Os dados coletados, infelizmente, não apoiam a alegação de que a alimentação mensal de qualquer um dos probióticos testados resultou num benefício mensurável na força da colónia ou no ganho de peso, em comparação com a aplicação mensal do controle de açúcar em pó.

Aplicação prática: Os dados deste ensaio, infelizmente, não suportam a alegação de que a alimentação de qualquer um dos probióticos resultou em colónias mais fortes.

fonte: https://scientificbeekeeping.com/a-field-trial-of-probiotics/

Nota: sobre os probióticos ver mais aqui.

localização de ninhos de V. velutina: comparação de técnicas de rastreamento

Em baixo deixo a tradução de excertos de um artigo recente, publicado por uma equipa de investigadores italianos, em torno das vantagens e limites na utilização do radar harmónico para rastreamento do voo de V. velutinas no seu trajecto de e para o seu ninho, e comparação desta técnica com duas outras técnicas de rastreamento: a) rastreamento visual com triangulação; b) rastreamento tecnológico com utilização de radio-telemetria.

No cenário da invasão de Maiorca pela V. velutina, os investigadores foram capazes de detectar e remover 30 ninhos de V. velutina nos anos 2015–2017 por rastreamento visual e triangulação de direções de voo; esta atividade exigia uma média de 19,2 ± 18,9 dias de trabalho por ninho (mín = 0 dias, máx = 63 dias). Com o rastreamento por radar harmónico, fomos capazes de localizar ninhos na Itália com uma média de 2,5 ± 1,0 dias úteis (min = 2 dias, máx = 5 dias) e 11 ± 4 h de uso efetivo do radar. Com a técnica de rádio- telemetria os investigadores conseguiram detectar ninhos de V. velutina em 92 ± 37 min. Porém, um aspecto que deve ser levado em consideração para a utilização desta última técnica: o peso das etiquetas/tags, que pode variar de 150 a 312 mg (10–21 vezes mais pesado do que a etiqueta/tag usada para a técnica de radar harmónico) ou mais. Este peso maior pode afetar a capacidade de voo das vespas [só os indivíduos mais fortes conseguem voar com estes tags], principalmente na primavera ou início do verão, quando o peso das operárias de V. velutina é menor.

Vespas marcadas com tags executando seu comportamento predatório usual. V. velutinas marcadas pairando em frente de colónias de abelhas para atacar abelhas forrageiras (a, b). Uma vespa marcada que está despedaçando uma abelha para recolher o tórax (parte mais energética de sua presa), que será trazida de volta ao ninho para alimentar a ninhada (c). Duas vespas marcadas à entrada do ninho (d).

Outro aspecto que deve ser considerado na comparação das técnicas de rastreamento são os custos associados (pessoal e equipamentos). Todas as técnicas acima mencionadas poderiam ser facilmente realizadas por uma equipe de duas pessoas treinadas, embora a técnica de rastreamento visual exija, em geral, um maior número de dias de trabalho e, portanto, maiores custos de pessoal. No que diz respeito às técnicas tecnológicas, os custos do equipamento inicial são mais elevados para o rastreio por radar harmónico (cerca de 100 mil euros por unidade). Por outro lado, o rastreamento por rádio-telemetria tem custos iniciais de equipamento mais baixos do que o rastreamento por radar harmónico, mas um custo mais alto associado às etiquetas/tags para rastreamento de insetos.

Portanto, a seleção de uma técnica de rastreamento para localização de ninhos de V. velutina requer uma análise das vantagens e limites em relação aos recursos disponíveis, as características das paisagens e a urgência de encontrar os ninhos em relação ao cenário invasor. O uso de câmaras de imagem térmica, em associação com a técnica de rastreamento selecionada, também pode facilitar a localização do ninho uma vez que a área de presença tenha sido definida.

Nota suplementar: Os ninhos de V. velutina detectados com o rastreamento por radar harmónico foram localizados a uma distância média de 395 ± 208 m (M ± SD, n = 10) dos apiários onde as vespas atacavam as abelhas (min = 72 m, max = 786 m). Estes dados são consistentes com informações anteriores sobre a possível faixa de forrageamento de V. velutina, que está provavelmente num raio ao redor do ninho de 500-700 m (ver esta publicação, de outubro de 2018).

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-91541-4#Tab1