crescimento da população de abelhas e da população de varroas no hemisfério norte

A animação em baixo representa o crescimento teórico de uma colónia de abelhas saudável sem tratamentos para os ácaros varroa em regiões do hemisfério norte com um inverno de 3 meses. Deixo a descrição desta animação, um excelente instrumento didáctico que nos permite observar, numa perspectiva anual e global, as interacções que se estabelecem entre o crescimento destas duas populações.

Nas colónias de abelhas a população no inverno é composta predominantemente por abelhas adultas de inverno (população representada a azul escuro na animação) com muito pouca criação de operárias (representada a castanho claro na animação) e baixas populações de varroa (representadas pelos pontos vermelhos).

No final do inverno/início da primavera, à medida que novas abelhas vão surgindo, a colónia aumenta rapidamente a sua população de abelhas adultas (representada a amarelo) e criação. No final do inverno/início da primavera a colónia inicia a criação de zângãos* (representada a castanho escuro) que, sendo preferida pela varroa, permite um aumento rápido da população do parasita.

No final da primavera/início do verão, após a época de enxameação, as abelhas param de criar zângãos, forçando a varroa a reproduzir-se na criação de abelhas. À medida que os níveis de ácaros aumentam, uma única larva é co-infestada por várias varroas fundadoras. Neste casos de co-infestação a taxa de reprodução de cada varroa é menor, mas a taxa de produção de descendentes femininos fertilizados aumenta. Por outro lado esta co-infestação permite acasalamentos cruzados, isto é a hibridação entre diferentes famílias de varroas, ao qual está associada a potencial disseminação de resistência a acaricidas.

No final do verão, tanto a população de abelhas quanto a área de criação contrai-se, e as infestações de varroa tem um aumento proporcional súbito e dramático na população de abelhas adultas, podendo ultrapassar rapidamente os limites de acção dos tratamentos acaricidas que, desejavelmente, devem fazer regredir a população de varroas para um patamar abaixo das 50 por colónia**.

No final de verão/início do outono as colónias iniciam a criação de abelhas de inverno (representada a azul claro), de vida longa (representada a azul) com uma camada extra de gordura corporal, da qual a varroa se alimenta.

No outono/inverno, à medida que a colónia pára de criar novas abelhas, a varroa não tem onde se reproduzir e sua população diminui — isto no caso de a colónia não ter sucumbido à entrada do outono/inverno pelos danos causados pelas varroas e pelos vírus que veiculam, em particular os vírus das asas deformadas e os vírus da paralisia aguda.

Crescimento teórico de uma colónia saudável sem tratamentos de ácaros varroa em regiões do hemisférios norte com um inverno de 3 meses (clima temperado).

fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S147149222030101X#bb0500

* Este ano, em algumas colónias mais fortes encontrei nesta semana alguma criação de zângãos! Este facto, muito atípico neste território, promete tornar a luta contra a varoose um enorme desafio este ano.

** Foi o que não consegui obter na colónia em baixo, que morreu esta semana devido aos efeitos de um controlo insuficiente da população dos ácaros com o tratamento de verão que efectuei no ano passado. Até à data, no inverno 2021-2022 e nos meus apiários morreram duas colónias por efeitos diferidos da varroose (um pouco acima de 1%).

Colónia a ser pilhada no dia 10-01-2022.
Neste quadro vi alguns ovos, o que significa que a pilhagem se terá iniciado neste dia ou um ou dois dias antes.

estudo de sensibilidade/resistência de Varroa destructor ao amitraz

Li, não me recordo onde, que alguém assumiu que tinha varroas resistentes porque uma vez viu uma varroa a passear sobre as tiras de Apivar. Esta afirmação ou era uma piadola ou, se era a sério, mostra muito desconhecimento — o desconhecimento em si mesmo não é questionável, mas é questionável fazer uma parangona/soundbite a partir de uma afirmação ignorante como se fosse uma evidência sólida. Esta publicação tem sobretudo como objectivo elucidar-nos sobre a complexidade e rigor do método de testagem da sensibilidade/resistência preconizado pelo The COLOSS BEEBOOK, Volume I e II: standard methods for Apis mellifera research, e elucidar-nos que se nem tudo tem a complexidade da investigação espacial, da mesma forma muito na apicultura não tem o simplismo de colocar o nariz fora da porta para ver se faz frio. Os resultados e as conclusões, que também aproveito para apresentar, devem ser lidas com alguma prudência sabendo que este teste foi realizado em 2016 em França (ver aqui um estudo mais recente).

“Desde 2007, a FNOSAD realiza testes anuais de eficácia em duzentas a trezentas colónias com o objetivo de verificar o percentual de eficácia da maioria desses medicamentos, sua velocidade de ação e o número de varroa residual após o tratamento. No entanto, o que acontece à eficácia de uma droga se a população de parasitas desenvolve resistência à substância acaricida que entra na sua composição? Recordamos os fenómenos de resistência observados ao Apistan (Tau-fluvalinato). Em relação ao Apivar, o feedback de observações de campo por apicultores experientes pode sugerir, para certos lotes de medicamentos, falta de eficácia ou fenómenos de resistência sem que nenhum estudo possa invalidar ou confirmar estas impressões.

O Apivar é hoje o fármaco homologado mais utilizado na França, porém poucos estudos com o objetivo de testar a sensibilidade/resistência de populações de varroa ao amitraz foram realizados. Para suprir essa carência, a FNOSAD coordenou um estudo realizado pelo Laboratório Departamental de Análises do Jura, cujos resultados estão aqui resumidos.

Apresentação do método
O estudo de resistência consiste em determinar a concentração letal para 50% (CL50) de uma população de ácaros varroa suspeitos de serem resistentes e compará-la com uma CL50 de referência determinada para uma população de ácaros não resistentes ou sensíveis. O método utilizado neste estudo é o recomendado pelo Coloss Beebook para moléculas lipossolúveis agindo por contato. O amitraz é incorporado em diferentes concentrações em cápsulas de parafina. O intervalo de concentrações utilizado é de 0,1 ppm (partes por milhão) a 5.000 ppm. Os ácaros são então postos em contato com a parafina tratada e, após um determinado período de tempo, a mortalidade de ácaros é quantificada.

Os ácaros Varroa foram retirados de quadros de criação (o equivalente a dois quadros de ninhada por apicultor, dando preferência à criação de zângão) fornecidos por apicultores voluntários de 18 apiários espalhados pelo território.

Localização dos diferentes apiários que forneceram amostras de criação.

As amostras, foram colhidas entre 21 de maio de 2016 e 2 de agosto de 2016. Os ácaros varroa foram colhidos com uma escova e com uma pinça fina após desoperculaçao dos alvéolos. Dos 18 apiários amostrados, 17 receberam tratamento de final de verão (2015) com amitraz e um com tau-fluvalinato. Apenas três apiários receberam um tratamento adicional de inverno (2015/2016) à base de ácido oxálico. Apenas indivíduos/ácaros do sexo feminino maduros foram recolhidos para o estudo. Dez ácaros foram colocados em cada cápsula (correspondente a cada concentração de amitraz a ser testada) durante quatro horas: esta é a fase de contaminação durante a qual os ácaros varroa são colocados em contato com parafina impregnada de amitraz. Eles são depois observados com uma lupa binocular antes de serem transferidos para placas de Petri. Quando observados com uma lupa binocular, os Varroa foram classificados em três categorias: móveis, paralisados ​​ou mortos. As observações foram repetidas após 24 h e 48 h. Os ácaros Varroa foram alimentados com larvas/pupas de abelhas durante toda a experiência. Para cada concentração testada, o efeito percentual do acaricida é calculado da seguinte forma: (número de ácaros paralisados ​​+ número de ácaros mortos – número de ácaros perdidos ou mortos acidentalmente) / (número de ácaros iniciais – número de ácaros perdidos ou mortos acidentalmente) .

Resultados
Das 18 amostras recebidas, os resultados dos testes realizados só puderam ser considerados em 13 delas. Para todas as populações de varroa, o efeito (paralisia ou mortalidade) é total em t0 + 4h para todas as concentrações maiores ou iguais a 100 ppm [partes por milhão]. E após 24 horas, o efeito é completo para todas as concentrações maiores ou iguais a 10 ppm. Para as 13 populações estudadas, as CL50s obtidas variam entre 0,08 e 1,66 ppm, sendo a média de 0,49 ppm. Os 13 Intervalos de Confiança sobrepõem-se e, portanto, não há diferença significativa na sensibilidade ao amitraz nestas 13 populações de ácaros testadas.

Discussão – Conclusão
Embora originárias de colónias de abelhas com diferentes níveis de infestação, as 13 populações de varroa testadas não apresentaram diferença marcante na suscetibilidade ao amitraz.
O resultado obtido para todas as 13 amostras pode constituir uma referência LC50 para uma população de ácaros sensíveis em torno de 0,5 ppm, ou 15,5 ng/cm2 de parafina. Como indicação, as tiras comerciais de Apivar têm um teor de amitraz entre 4,2 e 6,4 x106 ng/cm2, (ou seja, cerca de 30.000 vezes mais do que o valor de CL50 para uma população de ácaros varroa suscetíveis determinada por este estudo).
Para tornar este valor de LC50 ainda mais robusto, seria necessário multiplicar estes testes na zona de 0,5 ppm. Mas para isso precisamos de mais ácaros varroa. Se o método de coleta favos com criação e sua entrega por correio ao laboratório se mostraram satisfatórios, a coleta de ácaros varroa dentro dos alvéolos é entediosa e muito demorada …
Este é o primeiro estudo para pesquisar a possível resistência dos ácaros varroa ao amitraz realizado usando um dos métodos recomendados pelo Coloss Beebook. Assim, é possível obter pela primeira vez um valor de referência LC50 para uma população de ácaros varroa suscetíveis.

Esses resultados interessantes, apesar do número relativamente pequeno de amostras estudadas, levantam questões sobre as falhas de eficácia por vezes observadas com as tiras do medicamento Apivar. É certo que o método de teste de sensibilidade/resistência foi realizado aqui por contacto com a substância amitraz e não após contato direto com as tiras de Apivar. Estes vários elementos tenderiam a nos levar a pensar que as falhas de eficiência observadas estariam antes ligadas a questões de formulação do medicamento (galénica*), um medicamento que, como vimos, teoricamente contém substância ativa suficiente.”

fonte: https://www.apiservices.biz/documents/articles-fr/etude_sensibilite_resistance_amitraz_varroa.pdf

* Galénica é o processo que transforma uma substância activa num medicamento pronto a administrar, que pode ser doseado conforme necessário. O medicamento compreenderá um contentor da substância ativa (comprimido, creme, suspensão, solução), excipientes (ingredientes inativos como a lactose), e embalagem/dispositivo de administração (blister, frasco, inalador, frasco para injetáveis seringa pré-cheia).

Reflexão: Como sempre disse uma coisa é o amitraz, o princípio activo, outra coisa é o Apivar, o medicamento. Uma possibilidade forte que coloco actualmente é que a galénica do Apivar não é a mais eficaz para responder a alguns ganhos eventuais de resistência das varroas nas minhas colónias, para as relações que se estabelecem entre as dinâmicas populacionais das minha colónias de abelhas e populações de ácaros que hospedam e para o influxo de ácaros de colónias vizinhas. Por essa razão este ano vai para o banco de suplentes como afirmei aqui e vou substituí-lo, no tratamento de verão, por um outro medicamento baseado no amitraz mas com uma galénica diferente: o Amicel.

medicamentos contra o Varroa: resultados dos testes de eficácia em 2020

Escrevia em 2016, nesta publicação: “Em França verificar a eficácia dos medicamentos utilizados na luta contra o ácaro varroa é, desde 2007, uma atribuição coordenada pela FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) que reúne a grande maioria dos OSAD (Organisations Sanitaires Apicoles Départementales), representando mais de 30.000 apicultores, profissionais e amadores.

Estes tratamentos/acaricidas que beneficiam de homologação são testadas anualmente por forma a mostrarem que garantias dão no controle da infestação pelo ácaro varroa abaixo dos limites considerados  prejudiciais às colónias de abelhas. Os principais parâmetros avaliados por estes testes são a eficácia global, avaliado através dos ácaros residuais encontrados após os tratamentos, assim como a velocidade de ação desses mesmos tratamentos sobre os ácaros.”

Em 2020, e como habitual, a mesma Federação testou novamente um grupo de medicamentos acaricidas: o Apivar, o Apitraz, o Apistan, o Apiguard e o Oxybee, este último um medicamento recente baseado em ácido oxálico.

Protocolo de teste de eficácia de 2020.

Eficácia dos medicamentos testados

Sabendo que para os medicamentos sintéticos (neste caso o Apivar, o Apitraz, o Apistan) se considera atingirem o limiar de eficácia desejável acima dos 95% de mortalidade das varroas, enquanto para os medicamentos não sintéticos (neste caso o Apiguard e o Oxybee) se considera atingirem o limiar de eficácia desejável acima dos 90% de mortalidade das varroas, apresento em baixo os resultados de 2020, tendo como referência estes critérios:

  • Para o Apivar e Apistan, o limiar de eficácia de 95% é alcançado apenas em 49% e 45% das colónias, respectivamente. Isto significa que em mais da metade das colónias estes dois medicamentos não apresentam a eficácia desejável .
  • Para o Apitraz, a percentagem de colónias nas quais o limiar de 95% é atingido é de 67%, portanto em mais de um terço das colónias a eficácia é insuficiente.
  • Nota: com uma aplicação de apenas seis semanas o Apitraz (duração prevista na Autorização de Introdução no Mercado francês, portanto a bula submetida a homologação), o percentual de eficácia foi satisfatório em apenas 7% das colónias.
  • Em relação aos medicamentos à base de substâncias de origem natural, os resultados também não são satisfatórios.
  • Com o Apiguard, o limiar de 90% de eficácia não foi atingido em nenhuma das 20 colmeias testadas. Em 2019, o limiar de 90% de eficácia foi atingido em 26% das colónias.
  • Com o medicamento Oxybee, o limiar de 90% de eficácia só é atingido por 39% das colónias. Na medida em que este fármaco foi aplicado após o enjaulamento da rainha por vinte e cinco dias, portanto a aplicação deste medicamento foi realizada na ausência de cria. É surpreendente obter esta percentagem baixa, longe dos valores alcançados em 2015, 2016 e 2017 com o mesmo método, mas com outro medicamento ((o Api-Bioxal) com a mesma substância ativa (o ácido oxálico).

Velocidade média de acção dos medicamentos testados sobre a mortalidade de varroas

Uma vez mais os dados deste ano confirmam que a velocidade média de acção sobre a varroa difere entre os diversos medicamentos. Julgo ter sido este blog a trazer, em primeira mão, para a língua portuguesa o conceito de acaricidas lentos e acaricidas rápidos.

Gráfico com a velocidade de queda de varroas ao longo dos dias de aplicação do medicamento
  • Em termos médios, o medicamento mais rápido deste teste é o Oxybee, com aplicação por gotejamento e com rainha previamente enjaulada para criar uma condição de criação ausente, tão necessária para aumentar a eficácia deste método. Quatro dias após o gotejamento, quase 50% dos ácaros varroa caíram e foram contados. Esta velocidade de ação também se caracteriza pela sua brevidade, já que uma semana depois a percentagem de varroa caída atingirá um total de 56%, patamar que não ultrapassará nas semanas seguintes.
  • Quatro dias após a aplicação das tiras Apivar, Apitraz e Apistan, a percentagem de ácaros caídos é de apenas 21, 11 e 27%, respectivamente, do total de ácaros (que caíram durante todo o tratamento — tratamento teste e tratamento de controle).
  • Após quatro semanas de aplicação, esse percentual sobe para 57%, 53% e 74%, respectivamente.
  • Para ultrapassar uma queda de 80% dos ácaros Varroa, temos que esperar oito semanas com Apivar, sete semanas com Apitraz e seis semanas com Apistan.
  • Notemos que com o medicamento Apitraz, após seis semanas (tempo de aplicação previsto na Autorização de Introdução no Mercado francês, isto é o período de tempo de utilização recomendado na bula do medicamento), a mortalidade média é de 77%.
  • Esses resultados confirmam que a libertação do ingrediente ativo é lenta e prolongada, seja nos medicamentos com base de amitraz ou tau-fluvalinato.
  • No caso do medicamento Apitraz, estes testes mostram que o tempo de aplicação previsto, seis semanas, é insuficiente no contexto dos testes.

Maior volatilidade dos resultados

Os resultados de 2020 confirmam que os níveis de eficácia são muito heterogéneos entre as colónias, mas sobretudo que uma alta percentagem delas não está devidamente protegida após o final dos tratamentos de verão.
Notamos também a grande volatilidade dos resultados de um ano para o outro, conforme ilustrado pela eficácia do Apivar, por exemplo. Na tabela em baixo, podemos observar que 94% das colónias testadas em 2016 ultrapassaram o limiar de 95% de eficácia. Nos quatro anos seguintes, esta percentagem tem descido, ainda que de uma forma irregular.

fonte: https://www.sante-de-labeille.com/docs/resultats_tests_efficacite_varroa_2020.pdf

porquê é tão difícil criar abelhas melhores? parte 2.

Já estava em dívida com esta publicação há demasiado tempo. Nesta publicação referi: “Existem três bloqueios principais na estrada para manter populações bem controladas – haplodiploidiapoliandria e panmixia – além de algumas outras pequenas complicações.” A poliandria e a panmixia foram aí abordadas. Nesta publicação vou abordar a haplodiploidia, um fenómeno mais complexo de descrever. Vou procurar ser claro e simplificar o mais possível e, ao mesmo tempo, procurar evitar o simplismo e reducionismo.

Os cromossomas, a diploidia e a haploidia

Os cromossomas são as estruturas que contêm os genes de um organismo. As abelhas têm cerca de 15.000 genes. A maioria dos animais normalmente possui dois conjuntos de cromossomas. Um conjunto vem da mãe e outro do pai. São chamados de diplóides. Di significa dois e plóide significa cromossoma. Nas pessoas, temos 46 cromossomas, 23 do óvulo da mãe e 23 do esperma do pai. As abelhas têm um número diferente de cromossomas. As fêmeas, operárias e rainhas têm 32, 16 provêem dos óvulos da rainha e 16 vêm dos espermatozoides dos zângãos. São, por esta razão, diplóides . Como os zângãos nascem de ovos não fertilizados, eles têm apenas os 16 cromossomas que estavam no óvulo. Os zângãos são haplóides porque possuem apenas um conjunto de cromossomas.

Partenogénese

Partenogénese refere-se ao crescimento e desenvolvimento de um embrião sem fertilização. Na sociedade das abelhas ocorre este fato curioso: tanto os óvulos fecundados como os não fecundados podem originar novos indivíduos. As rainhas e as operárias resultam do desenvolvimento de óvulos fecundados, sendo, portanto, diploides.

Os zângãos são haploides, uma vez que resultam do desenvolvimento de óvulos não fecundados. Os zângãos, originando-se de óvulos não fecundados, herdam todos os genes que possuem da “mãe”(rainha), uma vez que não têm “pai”. Geneticamente os zângãos apenas têm avós paternos, isto é, temos de recuar uma geração para encontrarmos a ascendência genética masculina directa. O esquema em baixo é um pouco simplista, mas ilustra este fenómeno de forma clara.

A rainha (Queen), herdou um dos cromossomos de sua mãe (Queen mother) e um do companheiro de sua mãe (Queen father). Os zângãos (drones), podem ser uma cópia de seu avô ou uma metade dos cromossomas de sua avó.

Implicação: Se desejamos escolher os zângãos a selecionar para o nosso programa de alegado melhoramento de abelhas será mais avisado considerar a colónia avó/avô daqueles zângãos. Dito de outra maneira, o valor genético desses zângãos no que respeita, por exemplo, ao comportamento higiénico, observa-se melhor na colónia avó, mais semelhante geneticamente aos zângãos, do que na colónia mãe.

A recombinação genética: os zângãos de uma colónia não são clones da rainha sua mãe

Apesar de os zângãos receberem exclusivamente os seus cromossomas de sua mãe, isto não faz deles um clone (indivíduo geneticamente igual) da mãe. A razão está no processo de recombinação genética que ocorre na produção de gâmetas (espermatozoides e óvulos).

Na recombinação genética ocorrem quebras nos cromossomos e trocas de pedaços entre os seus filamentosEstas quebras podem ocorrer em qualquer ponto do cromossoma e com igual probabilidade. O resultado é que os genes de cada pai podem aparecer no organismo haplóide (o zângão neste caso) de uma forma bastante aleatória. Os ovos, dos quais resultam os zângãos, são resultado da “mistura” aleatória de genes, mistura esta que não é idêntica à mistura genética de sua mãe.

Controlar o lado paterno não acelera necessariamente o processo de melhoramento de rainhas

Dada a natureza haplodiploide dos acasalamentos no mundo das abelhas podemos ser levados a pensar que uma vez que cada rainha obtém apenas 50% do material genético de sua mãe e 100% do material de seu pai, ela será “basicamente” 75% como seu pai. Em consequência, podemos ser levados a pensar que ao controlar a paternidade das rainhas, podemos ver um aumento mais rápido dos traços que desejamos. É melhor não apostar.

Mesmos que através da inseminação instrumental controlemos os outros dois fenómenos que introduzem aleatoriedade no processo de melhoramento, a panmixia e a poliandria, os zângãos doadores de esperma filhos de uma mesma rainha não são gémeos idênticos. Assim como os zângãos não podem ser clones da rainha, cada zângão não é necessariamente idêntico a seus irmãos devido aos eventos de recombinação e segregação genética aleatória que ocorre na produção dos gâmetas. Ainda assim pode pensar-se que as probabilidades de obter uma genética muito semelhante aumentam se trabalharmos com zângãos irmãos enquanto doadores de esperma para o nosso processo de inseminação instrumental. Sim aumentamos, mas em que medida? Sabendo que a intensidade/frequência da recombinação genética nas abelhas é cerca de 100 vezes superior à de muitos outros animais, as garantias de estarmos a trabalhar com “material” genético quase idêntico descem muito.

A possibilidade de estarmos a fazer tudo ao contrário ou a deitar fora ouro

Finalmente os nossos bem intencionados esforços de melhoramento podem ter um final infeliz. A maior parte dos traços que interessam ao apicultor (produtividade, comportamento higiénico, baixa enxameação, prolificidade, frugalidade, mansidão, …) são geneticamente multideterminados. Sabemos que ao seleccionar para dois traços, apenas cerca de 2% das colónias os irão apresentar na população original (tema a desenvolver em breve, espero eu!). Portanto no afã de seleccionar para melhorar isto e aquilo podemos ser tentados a “deitar fora” 98% da variabilidade genética nos nossos apiários. Ora todos estes três mecanismos naturais, panmixia, poliandria e haplodiploidia, foram desenvolvidos pelas abelhas, ao longo de milhões de anos, para aumentar a diversidade genética, não para a restringir. É altura de perguntar se sabemos mesmo o que estamos a fazer e com que consequências no futuro. Outro ponto: a rainha “ranhosa” de uma colónia insatisfatória, pode ter uma genética de ouro. Não nos precipitemos a esmagá-la. Pode, por exemplo, vir a ser uma excelente rainha-mãe de zângãos, e assim que estes acasalem com uma linha em que os seus genes raros e de natureza recessiva, aditiva e epistática, não observáveis até aí, se combinem em boa harmonia com os genes de uma rainha e aquela genética rara e escondida emirja e brilhe, como ouro num campo florido.

Esta publicação foi muito trabalhosa de fazer. Mas se for útil para alguns de nós não caírem no canto de sereia dos marketeers de rainhas ou enxames que da elevada produção à frugalidade, passando por um excelente comportamento higiénico e baixa enxameação, tudo anunciam ter alcançado, controlado e estabilizado, já valeu a pena.

fontes: https://www.perfectbee.com/learn-about-bees/the-science-of-bees/honey-bee-genetics; http://www.glenn-apiaries.com/principles.html; https://pt.wikipedia.org/wiki/Partenogénese; https://www.beesource.com/threads/why-arent-drones-clones.316929/page-2; https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/biologia/cromossomos-homologos

inquérito BIP: perdas de colónias de abelhas nos Estados Unidos em 2020-2021

Bons velhos hábitos são para manter e, assim sendo, continuo a ler os relatórios anuais sobre perdas de colónias. Escrevi há um ano atrás nesta publicação “Sou um leitor ávido e habitual de relatórios anuais publicados por algumas associações/institutos de apicultura, tendo já publicado um ou outro pelo interesse que encontro nos seus dados (ver por ex. aqui). Acho os relatórios extremamente didácticos pela visão macroscópica que me permitem elaborar, pelo sentido que dão às observações mais fragmentares que vou fazendo nos meus apiários e pelo reforço que dão a algumas das acções basilares no maneio das minhas colónias.” Este esforço de pesquisa — que se traduz em mais conhecimento para mim e que vou partilhando com os leitores —, associado a trabalho, proactividade, mudança e reflexão, contribuem para que a mortalidade de colónias por varroose neste verão/outono de 2021 tenha sido um redondo zero nos meus apiários. Não foi fácil… nunca é com este inimigo!

Na sequência deste velho hábito não pude deixar de ler os dados preliminares obtidos pelo inquérito conduzido pelo The Bee Informed Partnership a perdas de colónias de abelhas nos Estados Unidos em 2020-2021. Vejamos alguns números globais:

  • forneceram respostas validadas ao inquérito 3.347 apicultores com 192.384 colónias;
  • o inquérito cobriu o período de um ano, entre abril de 2020 e abril de 2021;
  • durante o inverno de 2020-2021 (1 de outubro de 2020 – 1 de abril de 2021), cerca de 32,2% das colónias nos Estados Unidos foram perdidas (Fig. 1);
  • durante o verão de 2020 (1 de abril de 2020 – 1 de outubro de 2020), cerca de 31,1% das colónias foram perdidas nos Estados Unidos (Fig. 1);
  • durante todo o ano (1 de abril de 2020 – 1 de abril de 2021), os apicultores nos Estados Unidos perderam cerca de 45,5% de suas colónias de abelhas (Fig. 1). Esta é a segunda maior perda anual já registada, 1,8% maior do que a perda anual estimada do ano passado (43,7%), e um aumento de 6,1% sobre a taxa média de perda (39,4%) nos últimos 10 anos.
Fig. 1: a amarelo as perdas de verão; a azul as perdas de inverno; a vermelho as perdas anuais totais.

Os apicultores que responderam foram solicitados a identificar até às três principais causas da perda de colónias nas suas operações. Apicultores de todos os tipos de operação relataram que o ácaro parasita Varroa destructor foi a principal causa da perda de colónias durante o inverno (Fig. 2), com os apicultores “comerciais” (com mais de 500 colónias) a referirem problemas com as rainhas em segundo lugar. As razões relatadas para as perdas de verão foram ligeiramente diferentes, com problemas de rainha, seguido pelo ácaro varroa, listado como o mais e o segundo mais importante em todos os tipos de operação de apicultura, respectivamente. A nosemose é a causa menos referida.

Fig.2 : Causas de mortalidade identificadas pelos apicultores que responderam ao inquérito. A primeira e segunda causa mais identificadas são, respectivamente, varroose e problemas com rainhas. A nosemose é a causa menos referida, o que de alguma forma confirma os dados de um estudo controlado que podem ver aqui. ( Backyard, apicultor com até 50 colónias; Sideliner, apicultor com mais de 50 colónias até 500 colónias; Commercial, apicultor com mais de 500 colónias).

Um outro grupo de dados que chamou a minha atenção: apenas metade dos apicultores de quintal (backyard) entrevistados substituíram rainhas nas suas colónias durante o verão de 2020 (49,9%; n = 3.019). Em contraste, a maioria dos “sideliner” (89,3%; n = 84) e virtualmente todos os apicultores comerciais (97,1%; n = 35) introduziram novas rainhas durante este período (Fig. 3).

Fig. 3: Proporção de apicultores que introduziram uma nova rainha (Sim) nas suas colónias durante o verão de 2020 de acordo com o tipo de operação de apicultura.

Interrogações: sabendo que são os apicultores “comerciais” que substituem na totalidade, ou perto disso, as rainhas com 1 ano de vida, como se explica que seja este mesmo grupo a identificar mais problemas com as rainhas durante o verão? Será pelo desgaste rápido das rainhas que decorre da extensão dos períodos de postura por força dos contratos de polinização que este grupo de apicultores assina ano após ano, ou pelos impactos sub-letais causados pelas longas viagens até aos pomares da Califórnia nestes indivíduos mais longevos da colónia, ou… ? Se o desejarem, podem deixar as vossas propostas de explicação na caixa de comentários.

fonte: https://beeinformed.org/wp-content/uploads/2021/06/BIP_2020_21_Losses_Abstract_2021.06.14_FINAL_R1.pdf

o que mata mais colónias de abelhas: varroa, nosema, imidacloprida, ou tudo isto junto?

O estudo “Single and interactive effects of Varroa destructor,Nosema spp., and imidacloprid on honey bee colonies (Apis mellifera)” [Efeitos únicos e interativos de Varroa destructor, Nosema spp. e imidacloprid em colónias de abelhas (Apis mellifera)] descreve uma experiência, levada a cabo durante dois anos, para avaliar os efeitos isolados e em sinergia na mortalidade de colónias de abelhas por Varroa destructor, Nosema spp. e e imidacloprida (um insecticida da família dos neonicotinóides). Deixo a tradução do sumário:

“As grandes perdas de colónias de abelhas nas últimas décadas são uma grande preocupação social e económica e são vistas como um sinal da vulnerabilidade do meio ambiente, incluindo o serviço de polinização nas lavouras, e do setor apícola. Não há uma causa única para as perdas da colónia, mas muitos setressores contribuintes podem agir em conjunto. A infestação por Varroa destructor é reconhecida como uma importante causa dessas perdas. Os papéis da infestação por Nosema ceranae ou exposição a inseticidas são controversos. Interações entre a exposição a pesticidas e V. destructor ou Nosema spp. já foram implicados. Em dois anos de experimentação de campo, estudámos os efeitos e as possíveis interações entre os setressores infestação por V. destructor, infestação por Nosema spp. e exposição subletal crónica a uma dose realista do inseticida imidacloprida no desempenho e sobrevivência de colónias de abelhas. As colónias altamente infestadas por V. destructor eram 13% menores em tamanho e apresentaram 59,1 vezes mais probabilidade de morrer do que as colónias infestadas com baixos níveis de V. destructor. Infestação com altos níveis de Nosema spp. levou a uma diminuição de 2% no tamanho e a probabilidade 1,4 vezes maior de morrer em comparação com colónias com baixos níveis de Nosema spp. . Nenhum efeito da exposição subletal crónica ao imidacloprida no tamanho da colónia ou na sobrevivência foi encontrado neste estudo. A exposição a V. destructor e imidacloprida levou a uma fração ligeiramente maior de abelhas infestadas com Nosema spp., mas em contraste com as expectativas, nenhuma interação resultante foi encontrada para o tamanho da colónia ou sobrevivência. As colónias, como superorganismos, podem muito bem compensar ao nível da colónia os efeitos negativos subletais dos setressores nos seus indivíduos. No nosso estudo experimental sob exposição realista de campo a setressores, V. destructor foi de longe o mais letal para colónias de abelhas.

fonte: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ecs2.2378

A Arte da Guerra, é um tratado militar escrito durante o sec. IV A.C..

Já Sun Tzu, no lendário livro A Arte da Guerra, escrevia que temos de conhecer bem o inimigo para sairmos vitoriosos na guerra. Na minha opinião, este artigo dá-nos uma luz sobre quem é o GRANDE inimigo e em que sector do campo de batalha devemos colocar a cavalaria para sairmos vitoriosos ano após ano.

pólen O estimulante da criação de novas abelhas e O detalhe

É consensual entre os apicultores mais informados que o pólen é O estimulante da criação de novas abelhas. Contudo como diz Randy Oliver “Não parece haver um benefício em alimentar com substitutos de pólen quando já existe um fluxo natural e substancial de pólen em andamento. Por outro lado, durante uma escassez, os substitutos de pólen têm um desempenho melhor quando as forrageadoras ainda são capazes de trazer uma pequena quantidade de pólen natural. A questão então é: por que essa pequena quantidade de pólen faz a diferença? […]

Os profissionais de marketing fizeram um ótimo trabalho em nos convencer de que “natural” é sempre melhor. Portanto, é tentador chegar à conclusão de que a pequena quantidade de pólen natural que chega fornece alguns elementos nutricionais essenciais que faltam.

Mas Randy, e outros, em testes de campo verificou que mesmo alimentando com “bifes” proteicos que têm incorporados 15%-20% de pólen natural, o que daria os elementos que faltam, as colónias pouco cresceram durante o período de extrema escassez de pólen ao longo do teste.

Portanto, Randy suspeita que algo mais do que a falta de algum nutriente “natural” esteja envolvido.

Imagem de um quadro com criação com a habitual abóbada de pólen. Nenhuma abelha jamais viu esta vista (está escuro dentro da colmeia). Só porque costumamos ver esta linha de pão de abelha num arco ao redor da ninhada, não significa que esse seja o pólen ao qual as abelhas amas prestam mais atenção.Reparem nO detalhe… alguns alvéolos com pólen bem no interior da área de criação.

O detalhe: o pólen armazenado nos alvéolos no interior da área de criação é o pólen que primeiro será consumido pelas abelhas amas. É este pólen, ali armazenado, que dá a pista às abelhas amas que está a ocorrer um fluxo de pólen. O pólen/pão de abelha armazenado a mais de 5cm da área de criação, nas abóbadas dos quadros ou em quadros adjacentes só tende a ser consumido quando a expansão da área de criação e as abelhas amas se aproximarem dessas áreas mais afastadas.

Implicações práticas:

  • O pólen fresco, colocado aleatoriamente pelas forrageadoras nos alvéolos no interior da área de criação, permite que as amas produzam geleia abundante.
  • A facilidade com que as amas encontram pólen fresco ao lado da criação que estão alimentando estimula-as a alimentar (modo de expansão), ao invés de consumir larvas jovens, (modo de acumulação).
  • A presença de uma abóbada de pólen indica que há um excedente de pólen a chegar à colónia. A borda interna dessa abóbada indica a distância à criação que as abelhas amas precisam (ou estão dispostas) percorrer até se alimentarem.
  • Todas estas descobertas acima indicam a importância de colocar os suplementos de pólen ou as dietas artificiais o mais próximo possível dos alvéolos com criação, isto é, a menos de 5 cm.

fonte: https://scientificbeekeeping.com/observations-on-pollen-subs-part-3-placement-of-the-pollen/

o crescimento acelerado da população de Varroa destructor em colónias de abelhas: uma nova explicação e uma barreira antiga

Nos últimos dois verões/outonos, tenho tido dificuldades em manter a taxa de infestação por varroose abaixo dos níveis que pretendo em cerca de 20-25% das minhas colónias. Já escrevi várias vezes sobre este fenómeno e sobre os factores que lhe estão provavelmente associados. Um dos factores, o ingresso de um número substancial de varroas transportadas pelas minhas abelhas, em consequência da pilhagem de colónias a colapsar por varroose em apiários vizinhos, é um deles.

Esta dificuldade no controle da infestação por varroa, eventualmente por um crescimento acelerado das populações de varroa nesta época do ano, é observável de forma transversal e está bem documentada em várias zonas do mundo: “Na realidade, a maioria dos apicultores precisa usar vários tratamentos contra a Varroa por ano para manter os níveis abaixo dos limites prejudiciais. Além disso, a monitorização longitudinal das cargas de Varroa em vários apiários nos EUA descobriu que mesmo após os tratamentos, as taxas de crescimento populacional de Varroa frequentemente excedem em muito os níveis previstos com base apenas nas taxas de reprodução de Varroa. Isso sugere que os ácaros estão imigrando para as colónias de uma fonte externa, provavelmente colónias próximas.

As duas hipóteses mais referidas para este crescimento acelerado das populações de varroa no final do verão/início do outono são: 1) a hipótese da “bomba de ácaros”; 2) a hipótese da “pilhagem” (ver aqui com mais profundidade).

Um estudo recente, com uma metodologia inovadora, vem fazer luz sobre os mecanismos mais específicos de transferência de ácaros inter-colónias, o impacto deste fenómeno no crescimento acelerado de populações de varroa em colónias receptoras devidamente tratadas, e uma reposta possível para gerir e mitigar os danos provocados por este influxo de varroas transferidas de colónias vizinhas.

Mapa com a localização dos apiários utilizados neste estudo: o círculo amarelo representa a localização do apiário com colónias não tratadas — as colónias “doadoras” de ácaros; os círculos a branco representam a localização dos apiários tratados com MAQS (ácido fórmico) e com taxas baixas de varroa — as colónias receptoras de ácaros.

Vejamos o enquadramento do estudo segundo os seus autores: “As abelhas vagueiam frequentemente entre as colónias, representando uma rota potencial para a transmissão de Varroa. A aglomeração de colónias nos apiários e em toda a paisagem envolvente resulta em infestações mais intensas de Varroa, pois as abelhas estão mais propensas a derivarem entre as colónias. As colónias também podem adquirir ácaros quando suas abelhas roubam outras colónias infestadas de ácaros e/ou quando abelhas não-natais derivam de outras colônias. A propensão das abelhas de entrar em colónias não natais aumenta quando as abelhas foram parasitadas por ácaros. As abelhas “ladras” também podem entrar em colónias não natais, e muitas vezes fracamente protegidas, a fim de roubar o mel durante os períodos de escassez de alimentos. O comportamento de roubo é especialmente prevalente no outono, quando as colónias com infestações de Varroa não controladas começam a entrar em colapso. Essas colónias enfraquecidas com cargas elevadas de Varroa são roubadas por colónias saudáveis ​​próximas, cujas abelhas ladras podem pegar ácaros e trazê-los de volta para sua própria colónia. O final do outono é um período crítico para os apicultores enquanto preparam suas abelhas para o inverno, garantindo que as reservas de alimentos sejam adequados, as cargas de ácaros sejam baixas e as colónias saudáveis35. A reinfestação de Varroa durante este período pode desfazer os efeitos de um manejo bem-sucedido. Compreender o mecanismo pelo qual ocorre essa transmissão inter-apiarios no final do outono é fundamental para o desenvolvimento de melhores práticas de maneio para ajudar a mitigar os danos à saúde da colónia.

Com a nova metodologia utilizada, foi possível aos investigadores identificar de forma objectiva a proveniência das abelhas das colónias “doadoras” e, ao mesmo tempo, identificar no grupo das colónias receptoras as “mais permissivas” à entrada e visita de abelhas das colónias “doadoras”.

Os dados recolhidos pelos investigadores são ao mesmo tempo surpreendentes e promissores. Apresento em baixo os que me parecem mais relevantes:

  • a hipótese do acelerado crescimento da população de varroa estar associado ao fenómeno “bomba de ácaros” não foi confirmado uma vez mais;
  • a hipótese do acelerado crescimento da população de varroa estar associado ao fenómeno “pilhagem” não surge como a mais preditiva, isto é, há outros mecanismos que explicam melhor o acelerado aumento da população de ácaros;
  • colónia receptoras onde foram colocadas redes de entrada para impedir a pilhagem (robbing screens) apresentaram um crescimento populacional de Varroa reduzido em comparação com colónias sem estas redes de entrada ou robbing screens;
  • os resultados sugerem a necessidade de uma hipótese alternativa à “bomba de ácaros” ou à hipótese da pilhagem. Os investigadores avançam com a hipótese denominada permissividade da colónia.
Exemplo de robbing screens, um equipamento muito utilizado nos EUA para diminuir os fenómenos de pilhagem.

As colónias mais permissivas, isto é as que permitem visitas mais frequentes de abelhas de outras colónias — abelhas não-natais —, tiveram maior crescimento populacional de ácaros do que as colónias menos permissivas. Neste estudo, as robbing screens foram usadas para contornar a permissividade natural de uma colónia, tornando as colónias receptoras menos acessíveis. Em boa medida a permissividade de uma colónia, está ligada à selecção de abelhas mais dóceis, menos defensivas. Os apicultores têm intencionalmente selecionado e propagado abelhas mais mansas desde há gerações. Vários estudos, no entanto, observaram que linhagens mais defensivas de abelhas melíferas apresentam frequentemente maior tolerância a Varroa. É possível que, ao criar abelhas mais brandas/dóceis, os apicultores tenham inadvertidamente tornado as colónias mais permissivas às visitas e, portanto, mais suscetíveis à imigração de ácaros.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-86558-8.pdf?proof=t

A minha proposta para o novo ano: colocar redes de entrada (robbing screens) para ajudar as minhas colónias mais permissivas no controle das visitas de abelhas não-natais, ou colocar focinheiras ou redutores de alvado. O objectivo é alcançar dois benefícios com um só dispositivo: 1) diminuir os casos de colónias com mais susceptibilidade ao crescimento acelerado da população no período de fim de verão e início de outono; 2) impedir a entrada de velutinas nas minhas colónias nos meses de outono.

Nota: numa das mensagens que troquei com o Randy Oliver, em que lhe mencionei que este ano o tratamento principal de final de verão não foi eficaz em cerca de 20% das minhas colónias, ele surgiu com uma explicação que me pareceu curiosa na altura: o facto de haver colónias que funcionam como ímanes para as varroas. Quando li pela primeira vez este estudo, há cerca de um mês atrás, este conceito de colónias permissivas lembrou-me as palavras do Randy acerca das colónias ímanes. No que respeita a abelhas sempre fez e cada vez mais sentido faz considerar diferenças inter-zonais, inter-apiários e inter-colónias. As diferenças entre colónias, neste caso o potencial de infestação por varroas vindas do exterior, estão lá. Assim seja capaz de as considerar no meu maneio.

eussociabilidade, sociobiologia e Edward Wilson

Edward Wilson, falecido recentemente, foi um dos pioneiros e dos mais influentes investigadores dos últimos 50 anos no estudo de sociedades de animais com altos níveis de organização social, como as abelhas, formigas e vespas. Estas sociedades apresentam três características fundamentais, sobreposição de diferentes gerações num mesmo ninho, o cuidado cooperativo com a prole, e uma divisão de tarefas (reprodutores e operárias), as necessárias para se falar de eussociabilidade.

Edward O. Wilson em Manhattan em 2008. Edward O. Wilson, biólogo e autor que levou a cabo um trabalho pioneiro sobre biodiversidade, insetos e natureza humana – e ganhou dois prémios Pulitzer – morreu no domingo em Burlington, Massachusetts, aos 92 anos. Embora tenha tido uma obsessão ao longo de sua vida por formigas, descobrindo como elas comunicam por intermédio de feromonas, é mais famoso pela publicação em 1975 de “Sociobiology: The New Synthesis”.

Sobre a Sociobiologia: “estudo sistemático da base biológica do comportamento social. O termo sociobiologia foi popularizado pelo biólogo americano Edward O. Wilson no seu livro Sociobiology: The New Synthesis (1975). A sociobiologia tenta compreender e explicar o comportamento social animal (e humano) à luz da seleção natural e outros processos biológicos. Um de seus princípios centrais é que os genes (e sua transmissão por meio da reprodução bem-sucedida) são os motivadores centrais na luta dos animais pela sobrevivência, e que os animais se comportarão de maneiras que maximizem suas chances de transmitir cópias de seus genes às gerações seguintes. Uma vez que os padrões de comportamento são até certo ponto herdados, pode-se dizer que o processo evolutivo da seleção natural promove aquelas características comportamentais (assim como físicas) que aumentam as chances de reprodução de um indivíduo.

A sociobiologia contribuiu com vários insights para a compreensão do comportamento social dos animais. Explica o comportamento aparentemente altruísta de algumas espécies animais como sendo na verdade geneticamente egoísta, uma vez que tais comportamentos geralmente beneficiam indivíduos intimamente relacionados, cujos genes se assemelham aos do indivíduo altruísta [kin selection]. Esta abordagem ajuda a explicar por que as formigas soldados sacrificam suas vidas para defender sua colónia ou por que as abelhas operárias de uma colmeia abandonam a reprodução para ajudar sua rainha a se reproduzir. A sociobiologia pode, em alguns casos, explicar as diferenças entre o comportamento do macho e da fêmea em certas espécies animais como resultado das diferentes estratégias às quais os sexos devem recorrer para transmitir seus genes à posteridade.

A sociobiologia é mais controversa, entretanto, quando tenta explicar vários comportamentos sociais humanos em termos de seu valor adaptativo para a reprodução. Muitos desses comportamentos, de acordo com uma objeção, são mais plausivelmente vistos como construções culturais ou como subprodutos evolutivos, sem qualquer propósito adaptativo direto próprio. “

fonte: https://www.britannica.com/science/sociobiology

seleccionar abelhas resistentes: o teste do spray

Os meus amigos Marcelo Murta, Nuno Cascais e Rui Martins chamaram a minha atenção para os vídeos de Humberto Boncristiani e para os artigos de Kaira Wagoner, acerca de uma nova técnica para selecionar abelhas mais resistentes à infestação por varroa. De uma forma simples e sumária, Wagoner e colegas identificaram uma mistura de semioquímicos, que aspergidos na forma de spray sobre a criação operculada, ajuda a identificar as colónias com o melhor comportamento de desoperculação e limpeza dessas pupas. Estes semíoquímicos sintéticos mimetizam os componentes odoríficos naturais que as larvas/pupas infestada por varroa libertam quando parasitadas por varroa (esta técnica foi designada Unhealthy Brood Odor (UBO) — odor de criação não saudável). Nas palavras da autora principal, a investigação visou testar a “hipótese de que a resposta higiénica a uma mistura de semioquímicos associados à criação de abelhas melíferas infestadas com Varroa pode servir como uma ferramenta específica para prever a resistência Varroa ao nível de colónia. Em apoio à nossa hipótese, demonstramos que uma mistura dos compostos (Z) -10-tritriaconteno, (Z) -8-hentriaconteno, (Z) -8-heptadeceno e (Z) -6-pentadeceno desencadeia comportamento higiénico num ensaio de duas horas, e que as colónias de alto desempenho (resposta higiénica a ≥60% dos alvéolos tratadas) têm infestações de Varroa significativamente mais baixas, removem significativamente mais Varroa introduzidas artificialmente e são significativamente mais propensas a sobreviver ao inverno em comparação com colónias de baixo desempenho (resposta higiénica a <60% das alvéolos tratadas).

Spray com semioquímicos: técnica UBO, uma forma muito simples para testar o comportamento de limpeza das abelhas.
O vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ZYalOJRa7Aw
Cilindro que delimita a área do quadro com criação a pulverizar. As áreas de ensaio continham até aproximadamente 50 alvéolos e foram isoladas usando uma seção curta de tubo de PVC com um diâmetro interno de 3,8 cm.
Criação desoperculada após duas horas da pulverização. Wagoner concluiu que o limiar discriminativo de desoperculação se situa nos 60% dos alvéolos pulverizados, isto é, as colónias que resistem melhor à infestação por varroa, desoperculam pelo menos 60% dos alvéolos pulverizados com a mistura de semioquímicos utilizada.

Comparação entre colónias com alto UBO e baixo UBO.

As maiores dificuldades na identificação de colónias com valor biológico e posterior selecção de colónias resistentes está relacionado com baixa fidedignidade e complexidade dos testes utilizados até aqui. Por um lado, o facto de o comportamento higiénico avaliado pelo teste convencional de refrigeração de criação, ou seja a capacidade de detectar, desopercular e remover criação refrigerada e morta, nem sempre conferir resistência ao varroa, coloca em causa este trabalho de selecção. Além disso, outros métodos de seleção de resistência são muito eficazes, contudo são pouco eficientes. Os métodos que alcançam os níveis mais altos de fidedignidade no teste à resistência ao varroa são demorados, complexos, minuciosos e, portanto, caros e impraticáveis para utilização apícola pela enorme maioria dos apicultores. Este novo método proposto por Wagoner e colegas, visa resolver e ultrapassar estas dificuldades.

Este novo método de identificação de colónias com comportamentos mais resistentes ao varroa tem méritos inegáveis (na minha opinião, com algumas fragilidades como referirei numa publicação posterior). Mostra, uma vez mais, que a ciência não esqueceu a apicultura e que a apicultura não pode dispensar a ciência, ainda que esta não forneça respostas miraculosas — a ciência também não é nem pretende ser populista!

fontes: https://academic.oup.com/jinsectscience/article/21/6/4/6414651?login=true; https://www.researchgate.net/publication/340974063_Cuticular_pheromones_stimulate_hygienic_behavior_in_the_honey_bee_Apis_mellifera