No fim do verão e durante o outono, as colónias de Vespa velutina produzem machos e fêmeas reprodutoras. As fêmeas que poderão fundar colónias na primavera seguinte são chamadas gines. A sua produção e o acasalamento marcam uma fase decisiva do ciclo anual da espécie.
Onde acasalam as gines? Há observações de cópulas fora do ninho, mas o local de acasalamento das populações invasoras europeias ainda não está bem caracterizado. Os estudos disponíveis mostram que a reprodução pode ocorrer em diferentes contextos: em áreas abertas e copas de árvores, junto de plantas em flor e no solo.
Acasalamento de Vespa velutina (imagem gerada por IA)
Na província chinesa de Yunnan, na área nativa da espécie, Wen et al. observaram gines virgens a sair dos ninhos e a dirigir-se para zonas abertas, incluindo copas de árvores. Aí exibiam comportamentos de chamada, enquanto vários machos voavam à sua volta. Quando um macho era aceite, ocorria a cópula. Os autores designaram estes locais como áreas de congregação de machos [1].
As observações decorreram entre Setembro e Dezembro. Nos locais estudados, a actividade de atracção foi maior em dias soalheiros, com temperaturas entre cerca de 15 e 22 °C, geralmente entre as 10 e as 15 horas. Os dados dão uma primeira descrição do comportamento de acasalamento da espécie na sua área de origem.
Na Galiza, Rojas-Nossa et al. observaram cópulas junto a flores de Hedera hibernica. Os pares juntavam-se no ar, a cerca de 1,2 metros do solo, e caíam depois para o chão [2]. É uma observação directa em campo de uma população europeia e mostra que plantas em floração podem coincidir com locais de acasalamento.
Em França, Poidatz descreveu cópulas no solo, perto de ninhos ou de plantas com flores [3]. Já Thiéry e Tourrain referem que o local de acasalamento permanece por identificar, apesar da presença de muitos machos na hera em flor e de observações junto a ninhos ou árvores melíferas [4]. Estes registos apontam para vários contextos possíveis, mas ainda não permitem saber qual é o mais usado pelas populações europeias.
Para Portugal, não encontrei observações publicadas que descrevam directamente locais de cópula. Os registos da China, Galiza e França são, por isso, referências úteis para orientar a observação no terreno, enquanto se aguarda informação local.
Como não encontro imagens ou vídeos de acasalamento de Vespa velutina deixo em baixo vídeo de acasalamento de Vespa crabro.
Acasalamento no solo de Vespas crabro (vídeo de autor desconhecido).
Quando aparecem os machos e as gines?
Em França, os machos reprodutores podem surgir antes das gines. Darrouzet et al. documentaram também a produção de machos precoces, meses antes do período reprodutivo habitual. Muitos dos machos analisados eram diplóides, condição associada a problemas de fertilidade nesta espécie [5]. Assim, a presença de machos num ninho ao longo do ano não significa necessariamente que estejam todos disponíveis para acasalar.
Numa publicação de 2021, ao responder a questões de um companheiro apicultor, abordei a sincronização outonal entre a emergência dos machos e das futuras fundadoras, a época de acasalamento e a hibernação das gines fecundadas [9]. Essa publicação, baseada nos estudos disponíveis na altura, continua a ser uma introdução útil ao calendário reprodutivo. No texto sobre o ciclo de vida da espécie em França, situei também a produção dos reprodutores no fim do verão e a saída das futuras fundadoras antes do inverno [10].
A época de acasalamento e as condições em que ocorre podem variar com a região e o tempo. Para Portugal, ainda não há dados publicados suficientes para definir um calendário local com o mesmo detalhe.
Com quantos machos acasala uma gine?
Os dados genéticos de colónias francesas indicam que as gines podem acasalar com vários machos. Arca et al. estimaram entre 2,44 e 4,11 parceiros por gine, consoante a análise efectuada. Numa das colónias estudadas, a estimativa foi de cinco a oito parceiros [6].
O mesmo estudo analisou a origem da população invasora europeia. Os resultados apontam para uma única fêmea fundadora, com contribuição genética equivalente a cerca de 3,6 machos haplóides [6]. Esta estimativa permite perceber que a fundadora terá transportado para a Europa descendência genética de vários parceiros.
Quantas futuras fundadoras produz um ninho?
Um ninho maduro pode produzir centenas de gines e centenas de machos. É frequentemente referida uma estimativa de cerca de 350 gines e 900 machos. O estudo de Rome et al. encontrou, em cinco ninhos examinados em Novembro, uma média de 191 gines ainda presentes, com um máximo de 563 [7]. Como a produção varia entre colónias e muitas gines já podem ter saído do ninho, os números observados num momento específico dão apenas uma parte do quadro. Rome et al. estimaram ainda uma produção total média de cerca de 6.151 indivíduos por ninho até meados de Novembro.
A produção de muitas gines ajuda a explicar a capacidade de expansão da espécie. Monceau, Bonnard e Thiéry estimaram que dez ninhos detectados numa área francesa teriam produzido 111 futuras fundadoras para a época seguinte: cerca de 11 por ninho [8]. Esta estimativa demográfica foi calculada a partir da evolução do número de ninhos detectados ao longo dos anos.
A estimativa de 10–11 futuras fundadoras por ninho relaciona-se com o tema de uma publicação anterior sobre o potencial reprodutivo da espécie e a dificuldade em controlar a sua expansão [11]. O número ajuda a compreender como uma população pode recuperar de uma redução local de ninhos, desde que uma parte das fundadoras consiga iniciar colónias na época seguinte.
As observações já disponíveis mostram que as gines de Vespa velutina podem acasalar fora do ninho, em espaços abertos, junto a plantas em flor ou no solo. Também mostram que podem acasalar com vários machos e que um ninho pode produzir centenas de futuras fundadoras. Falta agora acompanhar melhor estes comportamentos nas populações ibéricas e registar os locais, as datas e as condições em que ocorrem.
Para quem observa a espécie no terreno, vale a pena anotar a data, a hora, o local, o estado do tempo e o comportamento observado. Uma gine a chamar machos, uma perseguição ou uma cópula junto a uma sebe florida são registos diferentes, e cada um pode ajudar a esclarecer como se reproduz a Vespa velutina em Portugal, colaborando na ciência-cidadã.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
[9] Gomes, J. E. (2021). vespa velutina: repostas a questões de um companheiro apicultor. Abelhas à Beira. Ler
[10] Gomes, J. E. (2019). ciclo de vida da vespa velutina (em França). Abelhas à Beira. Ler
[11] Gomes, J. E. (2026). do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler
Artigos e estudos
[1] Wen, P. et al. (2017). The sex pheromone of a globally invasive honey bee predator, the Asian eusocial hornet, Vespa velutina. Scientific Reports, 7, 12937. DOI: 10.1038/s41598-017-13509-7.
[2] Rojas-Nossa, S. V. et al. (2023). Predator and pollinator? An invasive hornet alters the pollination dynamics of a native plant. Basic and Applied Ecology, 71, 119–128. DOI: 10.1016/j.baae.2023.07.005.
[3] Poidatz, J. (2017). De la biologie des reproducteurs au comportement d’approvisionnement des nids: vers des pistes de biocontrôle du frelon asiatique Vespa velutina en France. Tese de doutoramento, Université de Bordeaux.
[4] Thiéry, D. & Tourrain, Z. (2024). Frelon asiatique. L’Abeille de France, 1125, 27–31.
[5] Darrouzet, E. et al. (2015). Production of Early Diploid Males by European Colonies of the Invasive Hornet Vespa velutina nigrithorax. PLOS ONE, 10(9), e0136680. DOI: 10.1371/journal.pone.0136680.
[6] Arca, M. et al. (2015). Reconstructing the invasion and the demographic history of the yellow-legged hornet, Vespa velutina, in Europe. Biological Invasions, 17, 2357–2371. DOI: 10.1007/s10530-015-0880-9.
[7] Rome, Q. et al. (2015). Caste differentiation and seasonal changes in Vespa velutina colonies in its introduced range. Journal of Applied Entomology, 139, 771–782. DOI: 10.1111/jen.12210.
[8] Monceau, K., Bonnard, O. & Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.
Nos últimos dias, Lisboa foi palco de uma experiência que parece, à primeira vista, um pouco estranha: a libertação de milhares de mosquitos machos estéreis. São machos de Aedes albopictus, o mosquito-tigre-asiático, esterilizados e libertados para competirem com os machos selvagens. Se acasalarem com as fêmeas, desse acasalamento não resulta descendência. Durante setembro foram libertados 90 mil machos estéreis em Alvalade, numa experiência destinada, nesta primeira fase, a estudar a sua dispersão e sobrevivência e a avaliar a utilização futura desta técnica no controlo da espécie. [5]
Esta notícia levou alguns leitores do blogue a colocarem uma pergunta muito interessante: será possível fazer algo semelhante com a Vespa velutina? Poderíamos esterilizar machos — ou mesmo futuras fundadoras — e utilizá-los para reduzir a reprodução da população? A ideia parece simples. Mas, quando olhamos para a biologia reprodutiva da velutina, percebemos que o problema é bastante mais complexo.
Será possível impedir a reprodução da Vespa velutina e, dessa forma, acabar com as suas populações nos países onde se instalou? A pergunta faz sentido. Se conseguíssemos impedir a formação de novas colónias durante tempo suficiente, poderíamos actuar sobre aquilo que tem permitido à espécie continuar a expandir-se: a produção de novas fundadoras.
Mas entre esterilizar uma vespa e erradicar uma população existe uma distância enorme. Para o apicultor, interessa perceber se estas técnicas já estão disponíveis, o que conseguiram demonstrar e se poderão algum dia atingir uma escala que permita eliminar a velutina de um território.
Até agora, não dispomos de uma técnica de esterilização operacional e validada para esse objectivo. Existem experiências noutras espécies, projectos dirigidos à velutina e modelos que permitem estudar possibilidades. Merecem atenção, mas os seus resultados ainda não permitem prometer a erradicação.
Libertar machos estéreis
Uma das técnicas mais conhecidas é a Técnica do Insecto Estéril. Consiste em criar grandes quantidades de machos, esterilizá-los, geralmente através de radiação, e libertá-los para acasalarem com as fêmeas selvagens. A repetição destas libertações procura reduzir progressivamente a reprodução da população.
Esta técnica já é utilizada no controlo de outros insectos. Porém, aplicá-la à velutina exigiria resolver vários problemas: produzir machos em grande quantidade, esterilizá-los sem lhes retirar a capacidade de procurar e fecundar fêmeas e conseguir que competissem com os machos existentes no território.
Acresce que as futuras fundadoras da velutina podem acasalar com vários machos. Uma fêmea que acasale com um macho estéril poderá também receber esperma de outro fértil. Isso não torna a técnica necessariamente inútil, mas obriga a conhecer melhor o resultado desses acasalamentos.
Nas vespas, os ovos não fecundados podem originar machos; os fecundados originam normalmente fêmeas. Para formar uma colónia, a fundadora precisa de produzir obreiras. É sobre esta capacidade de estabelecer novos ninhos que uma intervenção teria de mostrar resultados.
Actualmente, não existe um programa operacional de libertação de machos esterilizados que tenha demonstrado controlo, muito menos erradicação, de populações de Vespa velutina.
Representação da possível utilização de machos esterilizados de Vespa velutina: depois de libertados, procurariam acasalar com as futuras fundadoras, tentando reduzir a produção de descendência. Uma possibilidade ainda em investigação, não disponível no terreno. (imagem IA)
E esterilizar as futuras fundadoras?
Também podemos imaginar uma intervenção dirigida às fêmeas. Mas, se para esterilizar cada fundadora tivermos primeiro de a capturar, surge uma pergunta prática: qual seria a vantagem de a tratar e libertar em vez de a eliminar?
O interesse aumentaria se fosse possível atingir muitas fundadoras sem as capturar individualmente, ou se uma intervenção produzisse efeitos que se prolongassem pela população. É aqui que entram algumas ferramentas genéticas.
No blogue, já em 2019 mencionei o siRNA e o CRISPR-Cas9 entre as linhas de investigação que mereciam investimento [1]. São ferramentas diferentes, e falar delas não significa que exista já uma solução pronta para utilizar.
Uma alteração genética que passa às gerações seguintes
O chamado gene drive procura favorecer a transmissão de uma alteração genética à descendência. Se essa alteração comprometer a fertilidade, poderá espalhar-se durante várias gerações e reduzir a reprodução da população.
O que se transmite é a alteração genética. Alguns dos seus portadores têm de continuar capazes de se reproduzir para que ela possa passar à geração seguinte.
Meiborg e colaboradores estudaram esta possibilidade num modelo adaptado à biologia da velutina [2]. Entre as estratégias consideradas, actuar sobre a fertilidade das fêmeas mostrou maior potencial. Contudo, os resultados também revelaram dificuldades importantes.
Podem surgir variantes resistentes à alteração introduzida. Além disso, as fundadoras férteis que restam podem continuar a produzir descendentes suficientes para manter a população. No modelo, tornar muitas fêmeas inférteis não provocava necessariamente uma diminuição proporcional dos ninhos.
Este é um ponto decisivo para quem pensa em erradicação. Não basta que a alteração genética se espalhe: é necessário que a reprodução diminua o suficiente para a população desaparecer.
O estudo mostra condições em que a supressão poderia ocorrer, mas não demonstra que isso seja alcançável no terreno. Não foi uma experiência de libertação de velutinas modificadas e não existe actualmente um gene drive operacional contra esta espécie.
RNA de interferência: uma possibilidade que já aqui apresentei
Outra linha de investigação é o RNA de interferência, ou RNAi. De forma simples, determinadas moléculas de RNA podem reduzir a produção de uma proteína de que o insecto necessita. Dependendo do alvo, isso poderá afectar o desenvolvimento, a sobrevivência ou a reprodução.
Em outubro de 2025 apresentei neste blogue o projecto dos estudantes da Universidade de Lausanne, desenvolvido no âmbito do iGEM 2024 [3]. A proposta procurava combinar RNAi, entrega alimentar às larvas e identificação das velutinas por imagem, para tornar o acesso ao isco mais selectivo.
Portanto, a ideia de aproximar uma intervenção molecular da alimentação da colónia já estava em estudo. Continuava, porém, a ser um projecto em desenvolvimento, sem demonstração de controlo de populações no campo.
Existe também uma experiência anterior em Polistes metricus, outra vespa social. Os investigadores administraram RNA directamente às larvas através da alimentação e conseguiram reduzir a expressão de um gene [4]. Demonstraram que essa interferência era possível por ingestão, mas não demonstraram esterilização nem eliminação de ninhos.
Para transformar esta possibilidade numa ferramenta contra a velutina seria necessário confirmar que a molécula chega aos indivíduos pretendidos, mantém a sua actividade e provoca um efeito suficiente. A selectividade para a espécie também teria de ser demonstrada.
Onde entram os Cavalos de Tróia?
Os Cavalos de Tróia procuram aproveitar uma capacidade que as obreiras já possuem: regressar ao seu ninho. Se transportarem um agente eficaz, poderão fazê-lo chegar a indivíduos que o apicultor não consegue alcançar directamente.
Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição de alimentos nas colónias de velutina [5]. Essa investigação ajuda a colocar a pergunta certa: o que a obreira leva chega a quem, dentro do ninho?
É uma questão importante para os agentes já utilizados e para uma eventual intervenção por RNAi. Conseguir que a obreira transporte uma molécula não garante que esta chegue às larvas ou às futuras fundadoras em quantidade suficiente para produzir o efeito desejado.
Ainda assim, esta possibilidade merece investigação: utilizar as obreiras para entregar no ninho uma intervenção mais selectiva, capaz de comprometer o seu desenvolvimento ou a produção da geração seguinte.
Mas poderão estas técnicas erradicar a velutina de um país?
Esse é o objectivo mais ambicioso e continua por demonstrar.
Como já discuti neste blogue, a capacidade reprodutiva da velutina permite-lhe compensar perdas muito importantes [6]. Uma técnica pode funcionar num ninho ou reduzir a pressão num apiário e continuar longe de conseguir eliminar a população de uma região.
Para alcançar a erradicação seria necessário afectar uma proporção suficientemente elevada da população, abranger os locais onde a espécie se reproduz e impedir que os sobreviventes ou novas entradas voltassem a ocupar o território.
Um gene drive procura precisamente ultrapassar parte dessa dificuldade, fazendo a alteração passar entre gerações. Uma intervenção por RNAi entregue através das obreiras procura alcançar o interior dos ninhos. São possibilidades com alcances diferentes, e nenhuma demonstrou ainda capacidade para erradicar a velutina dos países que colonizou.
Hoje, portanto, a resposta é esta: não temos uma técnica de esterilização pronta para esse trabalho, nem provas de que as propostas existentes consigam atingir esse alcance.
Isso não retira interesse à investigação. A pergunta continua a justificar investimento: conseguiremos comprometer a reprodução da velutina de forma suficientemente eficaz e abrangente para que deixe de repor as suas perdas e acabe por desaparecer de um território?
É essa passagem — de afectar alguns indivíduos para impedir a continuidade de uma população — que estas técnicas ainda têm de conseguir demonstrar.
Enquanto esperamos, é preciso proteger os apiários
A investigação sobre esterilização, RNAi ou gene drive abre caminhos interessantes, mas estamos ainda longe de saber se algum deles chegará a transformar-se numa ferramenta eficaz, segura e utilizável contra a Vespa velutina. O caminho poderá ser longo e não existe sequer a certeza de que estas tecnologias venham a alcançar os resultados que procuramos.
Entretanto, a velutina está nos apiários e os apicultores precisam de proteger as suas abelhas agora. E, embora nenhuma técnica resolva isoladamente o problema, já existem formas de reduzir a pressão de predação e dar às colónias melhores condições para resistirem.
As harpas elétricas, quando corretamente instaladas e utilizadas, podem eliminar uma parte importante das velutinas que se aproximam das colmeias. Os Cavalos de Tróia, utilizados com toda a precaução e parcimónia, procuram atuar de outra forma: aproveitar as próprias velutinas para transportar um agente até ao ninho e tentar reduzir ou eliminar a fonte de pressão sobre o apiário.
Por isso, enquanto se investigam soluções que poderão um dia atuar sobre a reprodução e sobre populações inteiras, a prioridade do apicultor continua a ser proteger o apiário com as ferramentas que já tem ao seu alcance, escolhendo-as e combinando-as de acordo com a pressão existente e as condições locais.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências — publicações do Abelhas à Beira
[1] Gomes, J. E. (2019). Vespa velutina: categorias de armadilhas e determinantes das escolhas. Abelhas à Beira. Ler.
[3] Gomes, J. E. (2025). Erradicação da V. velutina através da tecnologia de silenciamento de genes: os primeiros passos. Abelhas à Beira. Ler.
[5] Gomes, J. E. (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia. Abelhas à Beira. Ler.
[6] Gomes, J. E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.
Referências — artigos e estudos
[2] Meiborg, A. B. et al. (2023). The suppressive potential of a gene drive in populations of invasive social wasps is currently limited. Scientific Reports, 13, 1640. DOI: 10.1038/s41598-023-28867-8.
[4] Hunt, J. H., Mutti, N. S., Havukainen, H., Henshaw, M. T. & Amdam, G. V. (2011). Development of an RNA Interference Tool, Characterization of Its Target, and an Ecological Test of Caste Differentiation in the Eusocial Wasp Polistes. PLoS ONE, 6, e26641. DOI: 10.1371/journal.pone.0026641.
[5] Unidade Local de Saúde de Santa Maria (2026). «Lisboa avança para a fase experimental do controlo do Aedes albopictuscom libertação de 90 mil mosquitos estéreis». 12 de setembro de 2026.
Desde 2011, quando ouvi falar pela primeira vez em Vespa velutina, iniciei as leituras sobre esta espécie exótica. A informação então disponível levou-me, desde logo, a olhar com preocupação para o seu potencial impacto negativo sobre a biodiversidade e, em particular, sobre as colónias de abelhas melíferas. Receios que, infelizmente, se vieram a confirmar nos anos seguintes.
De lá para cá tenho vindo a acompanhar, estudar e refletir sobre diferentes aspetos relacionados com esta espécie: o impacto sobre as colónias de abelhas, as técnicas disponíveis para proteger os apiários, a localização e neutralização dos ninhos, a ação de inimigos naturais e, numa escala mais ampla, as dificuldades em limitar a sua expansão. Desde que comecei a escrever sobre este tema no Abelhas à Beira, em 2016, publiquei mais de 90 textos relacionados com a Vespa velutina. Mais recentemente, vários destes temas foram sendo retomados e desenvolvidos à luz de nova informação científica, documental e da experiência acumulada no terreno.
À primeira vista, os assuntos parecem bastante diferentes: paralisia de voo das abelhas, água, abelharucos, harpas elétricas, Cavalos de Tróia, localização de ninhos, inimigos naturais, doenças ou capacidade reprodutiva da espécie. No entanto, quando se colocam estas peças lado a lado, começa a surgir uma linha comum. Talvez uma das principais dificuldades na discussão sobre a Vespa velutina seja precisamente misturarmos três perguntas diferentes: conseguimos proteger uma colónia de abelhas da pressão das vespas? Conseguimos neutralizar um ninho de V. velutina? E conseguimos reduzir, de forma sustentada, a população de ninhos num território? Estas perguntas remetem para diferentes dimensões, para objetivos e intervenções diferentes.
À frente da colmeia, o problema é relativamente fácil de observar. Há vespas em voo estacionário, há capturas de abelhas e, quando a pressão aumenta, há uma redução muito clara da atividade das campeiras. Mas contar abelhas capturadas não descreve completamente o impacto. Estudos experimentais mostraram que a pressão de V. velutina reduz o forrageio e que a utilização de harpas elétricas, ao diminuir essa pressão, pode produzir benefícios mensuráveis no desenvolvimento e sobrevivência das colónias [1]. Uma velutina não precisa, portanto, de capturar uma abelha para produzir um efeito sobre a colónia. A sua presença repetida diante do alvado é suficiente para alterar o comportamento das campeiras.
Foi neste contexto que coloquei também uma outra hipótese: se as abelhas reduzem fortemente as saídas durante as horas de maior pressão de V. velutina, o efeito poderá não se limitar à entrada de néctar e pólen. Também a recolha de água poderá ser afetada, precisamente em períodos quentes em que a colónia necessita dela para a termorregulação [8].
A mesma forma de pensar surgiu quando analisei a relação entre o abelharuco e a Vespa velutina. Está hoje documentado que o abelharuco captura V. velutina [2]. Isso é um facto. Outra coisa muito diferente é concluir que esta predação beneficia necessariamente o apiário. O abelharuco também exerce pressão sobre as próprias abelhas e pode contribuir para a redução do seu voo. Por isso, a pergunta que me parece mais útil para o apicultor não é quantas velutinas os abelharucos comem, mas quantos minutos ou horas de forrageio as colónias recuperam, se recuperam, como resultado dessa predação [14]. Pode haver menos velutinas à frente das colmeias sem que exista um ganho líquido de tempo de forrageio.
As harpas ajudam-nos a perceber bem esta primeira escala do problema. O seu objetivo principal é proteger o apiário, reduzindo a pressão diante dos alvados e permitindo que as abelhas recuperem parte da sua atividade normal. Mas proteger o apiário não significa necessariamente neutralizar os ninhos que estão a enviar essas vespas. É aqui que entramos numa segunda escala: o ninho de Vespa velutina.
Vespa eletrocutada em harpa (vídeo do autor)
Tenho dedicado bastante atenção aos chamados Cavalos de Tróia desde 2014. É um assunto que me tem interessado particularmente e sobre o qual fiz diversas publicações a partir de 2016 [9, 11, 13]. Conceptualmente, a diferença relativamente à captura direta é importante. Uma vespa eliminada diante de uma colmeia deixa de predar abelhas. Uma vespa que regressa ao ninho transportando um biocida pode, pelo menos em princípio, atingir outros indivíduos e contribuir para comprometer a colónia inteira.
Foi com Francis Ithurburu que me iniciei no conceito do cavalos de Tróia com o seu famoso “appât régulateur”, em 2013 ou 2014
A discussão sobre substâncias biocidas não deve ficar reduzida ao nome da molécula. O risco e a utilidade de uma aplicação dependem da forma como é utilizada, das concentrações utilizadas, da quantidade de biocida utilizada, dos suportes ou matrizes escolhidos para veicular o biocida, das técnicas aplicadas e também do tempo disponível e da perseverança de cada apicultor para atingir o objetivo pretendido.
Por essa razão elaborei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina (clicar no canto superior direito na palavra «Menu» para aceder à informação sobre este manual), que procura, entre outros assuntos, responder a estas questões de enorme pertinência para uma utilização tecnicamente fundamentada dos Cavalos de Tróia, para a escolha da técnica mais adequada ao tempo que cada apicultor tem disponível e para ultrapassar muitos dos equívocos, simplificações e divergências que ainda existem em torno desta metodologia [18]. O manual resulta da conjugação da literatura científica e técnica disponível com anos de acompanhamento do problema e de experiência prática.
A receção tem sido muito positiva. O manual está a ter uma boa adesão por parte de apicultores portugueses e já chegou também aos Países Baixos, através de um apicultor neerlandês. Este interesse mostra que existe entre os apicultores uma procura real por informação mais estruturada, tecnicamente sustentada e operacional sobre uma metodologia que se encontra cada vez mais presente na discussão do controlo da Vespa velutina.
Ernesto Astiz foi, para mim, uma fonte riquíssima de conhecimento num conjunto diversificado de aspectos verdadeiramente relevantes para o apicultor prático. Aqui a apresentar e conversar sobre biocidas e cavalos de Tróia com um grupo de apicultores espanhóis.
Há, contudo, outro fator que parece tão importante como o produto e a técnica utilizados: o momento da intervenção.
O relatório das Astúrias sobre neutralização remota de ninhos através de exemplares tratados mostrou uma associação muito interessante entre a época de início das intervenções e os resultados obtidos [7]. Os melhores resultados ocorreram onde as operações começaram mais cedo. A leitura que fiz desses dados não foi a de estabelecer julho como uma data universal para iniciar Cavalos de Tróia. Isso dependerá do território, do desenvolvimento anual da espécie e do método utilizado. Mas os resultados ajudam a colocar uma questão biologicamente importante: atingir um ninho quando ainda tem algumas centenas de indivíduos não é provavelmente equivalente a tentar fazê-lo quando já contém milhares.
Há aqui um paradoxo para o apicultor. Setembro pode ser a altura em que é mais fácil capturar V. velutina, porque dezenas delas estão diante das colmeias. Mas essa abundância é precisamente o sinal de que os ninhos atingiram uma dimensão muito maior. Capturar vinte vespas em julho pode ser logisticamente mais difícil; biologicamente, porém, essas vinte vespas podem representar uma fração muito maior da força de trabalho da colónia do que vinte vespas capturadas dois meses depois.
O passo seguinte leva-nos à terceira escala: a população de ninhos existente num território.
Há mais de dez anos que procuro perceber até que ponto outras espécies e organismos poderão contribuir para travar a expansão da Vespa velutina. Há predadores, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos [15]. O abelharuco captura adultos [2]. Vespa crabro utiliza parcialmente os mesmos recursos e existe competição. A V. velutina alberga diversos agentes patogénicos comuns a outros himenópteros [4], e foram encontradas formas replicativas de vírus associados às abelhas, incluindo DWV [5]. Até ao momento, nenhum destes fatores naturais demonstrou estar a exercer uma pressão suficiente para fazer diminuir as populações de V. velutina nas regiões europeias onde a espécie se encontra estabelecida.
O caso do bútio-vespeiro (Pernis apivorus) é particularmente esclarecedor. Num estudo recente foram identificados ninhos de V. velutina atacados por estas aves e verificou-se também uma redução significativa da abundância de vespas nas proximidades dos seus territórios de reprodução. Seria tentador parar aqui e concluir que encontramos um controlador natural eficaz. Mas os investigadores procuraram o passo seguinte: verificaram se no outono existiam menos ninhos desenvolvidos. Não encontraram uma redução significativa na densidade desses ninhos [3].
É um resultado extraordinariamente útil porque mostra, numa situação natural, precisamente a diferença entre as três escalas de que tenho vindo a falar. O predador destruiu ninhos. Reduziu localmente o número de vespas. Ainda assim, não foi possível demonstrar que tivesse reduzido a densidade final de colónias maduras no território.
Esta dificuldade começa a compreender-se melhor quando se olha para o potencial de crescimento da espécie.
Franklin e colaboradores estudaram a invasão de Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, entre 2007 e 2014. Mesmo existindo uma política local de destruição de ninhos, o número observado aumentou de quatro em 2007 para 111 em 2014. O modelo desenvolvido pelos autores estimou um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 em condições de baixa densidade [6]. Este número dá uma ideia da capacidade de crescimento existente quando a densidade ainda não impõe fortes limitações.
É também aqui que alguns resultados aparentemente extraordinários precisam de ser colocados em perspetiva. Na publicação anterior referi os dados do projeto realizado nas Astúrias: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação das vespas tratadas, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5% [7, 16]. É um resultado muito importante. Mas se uma população em baixa densidade tiver capacidade para multiplicar aproximadamente por 9,64 entre gerações, deixar sobreviver 25% dos ninhos reprodutivos não significa necessariamente que haverá menos ninhos no ano seguinte. Num exercício puramente teórico baseado naquele parâmetro, seria necessário neutralizar perto de 90% dos ninhos antes da reprodução apenas para impedir o crescimento entre gerações [16].
É talvez uma das ideias mais importantes de toda esta reflexão: uma técnica, ou mesmo um conjunto de técnicas, pode funcionar e, ainda assim, não ser suficiente para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte.
Uma harpa pode reduzir a pressão de V. velutina sobre uma colónia e cumprir perfeitamente a sua função. Um Cavalo de Tróia pode neutralizar um ninho e ser eficaz. Um bútio-vespeiro pode destruir ninhos. Uma campanha pode eliminar três quartos dos ninhos existentes numa determinada área. Todos estes resultados podem ser simultaneamente verdadeiros e biologicamente importantes, sem que nenhum deles, isoladamente, garanta que a população regional irá diminuir no ano seguinte.
Isto também ajuda a compreender por que razão a deteção precoce assume uma importância tão diferente da destruição de ninhos numa região já fortemente colonizada. Quando existem um ou dois ninhos numa nova frente de invasão, localizar e neutralizar cada um deles antes da produção de fundadoras pode decidir o futuro dessa invasão. Quando existem centenas ou milhares de ninhos espalhados por um território, localizar mais um continua a ter valor local — sobretudo para reduzir risco e pressão sobre apiários —, mas já não tem o mesmo significado populacional. Foi neste contexto que analisei a utilização de radiotelemetria, radar harmónico e termografia para localização de ninhos [10]. São tecnologias interessantes, algumas delas já demonstraram capacidade real para seguir vespas, mas o seu valor depende muito da escala do problema. Encontrar um de dois ninhos pode ser decisivo. Encontrar um de duzentos é outra coisa.
Chegamos assim a uma distinção que parece simples, mas que talvez devesse estar presente sempre que avaliamos uma técnica de controlo da Vespa velutina.
No apiário, interessa reduzir a pressão diante dos alvados e devolver às abelhas horas de voo, entrada de alimento e capacidade de funcionamento normal.
No ninho, interessa que a intervenção consiga comprometer a colónia inteira e, idealmente, fazê-lo antes da produção das novas fundadoras.
No território, o objetivo é eliminar uma proporção de ninhos superior à capacidade de reposição da população. À luz dos valores discutidos anteriormente, isso poderá significar neutralizar cerca de 90% ou mais dos ninhos antes da reprodução, para que no ano seguinte se formem menos colónias do que no anterior [6, 16]. É um objetivo extremamente difícil de alcançar. Basta pensar que uma parte importante dos ninhos permanece escondida, muitos só são descobertos tardiamente e outros se encontram muito disseminados por florestas, silvados, vales, copas de árvores e terrenos de difícil acesso.
Estas três escalas não competem entre si. São complementares. Um apicultor não pode esperar por uma estratégia regional de controlo enquanto as suas colónias permanecem paralisadas diante de dezenas de velutinas. Precisa de proteger o apiário. Mas também não devemos confundir essa proteção com uma redução da população da espécie no território.
Esta distinção foi-se tornando cada vez mais clara ao longo de anos de observação, leitura, experiência de campo e análise da informação disponível. Grande parte da discussão sobre a Vespa velutina continua centrada em quantas vespas se capturam, quantas se eliminam ou quantos ninhos se destroem. Essas métricas são úteis, mas são incompletas. Para avaliar verdadeiramente uma intervenção é necessário perguntar o que aconteceu depois.
As abelhas voltaram a voar?
O ninho de vespas deixou de estar funcional?
Produziu novas fundadoras?
E, sobretudo, havia menos ninhos reprodutivos no território no final da época ou menos colónias no ano seguinte?
É entre estas perguntas que talvez esteja a diferença entre aliviar o problema, controlar localmente a espécie e conseguir, um dia, fazer a sua população recuar.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Rojas-Nossa, S. V., Dasilva-Martins, D., Mato, S., Bartolomé, C., Maside, X. & Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78(12), 5142–5149. DOI: 10.1002/ps.7132.
[2] Onofre, N., Portugal e Castro, M. I., Nave, A. et al. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.
[3] Martín-Ávila, J. Á., Díaz-Aranda, L. M., Fernández-Pereira, J. M. & Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81(4), 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.
[4] Gabín-García, L. B., Bartolomé, C., Guerra-Tort, C., Rojas-Nossa, S. V., Llovo, J. & Maside, X. (2021). Identification of pathogens in the invasive hornet Vespa velutina and in native Hymenoptera (Apidae, Vespidae) from SW-Europe. Scientific Reports, 11, 11233. DOI: 10.1038/s41598-021-90615-7.
[5] Rodríguez-Flores, M. S., Lopes, A. R., Diéguez-Antón, A., Seijo, M. C. & Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina (Lepelieter 1836): Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.
[6] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.
[7] SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias (2023). Neutralización remota de nidos de Vespa velutina mediante ejemplares tratados con insecticida. Evaluación de las actuaciones realizadas en Asturias durante 2023. Principado de Asturias.
Referências — Abelhas à Beira
[8] Gomes, E. (2026). Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira. Ler.
[9] Gomes, E. (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Abelhas à Beira. Ler.
[10] Gomes, E. (2026). Chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno. Abelhas à Beira. Ler.
[11] Gomes, E. (2026). Cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?Abelhas à Beira. Ler.
[12] Gomes, E. (2026). O mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida. Abelhas à Beira. Ler.
[13] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler.
[14] Gomes, E. (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Abelhas à Beira. Ler.
[15] Gomes, E. (2026). Quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos. Abelhas à Beira. Ler.
[16] Gomes, E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.
[17] Gomes, E. (2026). A Vespa velutina é mais perigosa? Talvez o veneno não seja a principal razão. Abelhas à Beira. Ler.
[18] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina: um manual para apicultores. Abelhas à Beira. Ler.
Onde a Vespa velutina consegue instalar uma população suficientemente ampla, controlá-la torna-se extraordinariamente difícil, para não dizer impossível. Nas regiões europeias onde a espécie está estabelecida há vários anos, não se conhece atualmente uma técnica que, por si só ou em combinação, tenha demonstrado capacidade para fazer recuar de forma sustentada a invasão. A localização e destruição de ninhos por meio de diversas técnicas, entre outras os Cavalos de Tróia, continua a ser uma das medidas mais importantes, mas mesmo esta estratégia encontra dificuldades quando a população já atingiu densidades elevadas [1,2]. As situações em que a erradicação foi conseguida correspondem sobretudo a deteções muito precoces ou a condições particulares, como veremos mais adiante no caso de Maiorca.
Imagem gerada por IA
Uma das razões para esta dificuldade está provavelmente na enorme capacidade reprodutiva da espécie. Uma colónia madura de Vespa velutina pode produzir centenas de gines — futuras fundadoras —, sendo cerca de 350 um valor frequentemente referido na literatura [3]. A esmagadora maioria não chegará naturalmente a fundar uma colónia no ano seguinte, mas basta que uma pequena fração tenha sucesso para assegurar uma elevada reposição da população.
Franklin e colaboradores ajudam a perceber a dimensão deste fenómeno. Ao analisarem a expansão da espécie em Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, estimaram um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 [1]. Em termos simples, no cenário de baixa densidade descrito pelo modelo, cada colónia secundária que chega com sucesso à reprodução pode estar associada, em média, a quase dez novas colónias no ano seguinte.
É precisamente esta capacidade de reposição que ajuda a compreender por que razão neutralizar muitos ninhos pode produzir um excelente resultado local e, ainda assim, não ser suficiente para colocar a população em declínio.
Na publicação anterior, sobre os Cavalos de Tróia nas Astúrias, descrevi um resultado que merece atenção: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação, o número de ninhos passou de 53 para 13. É uma redução de 75,5% [6].
É um resultado importante. Mas deixa uma pergunta menos cómoda: eliminar três quartos dos ninhos chega para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte?
A estimativa de Franklin et al. permite fazer uma conta simples [1].
Ninhos neutralizados antes da reprodução
Ninhos que continuam reprodutivos
Multiplicação teórica da geração seguinte*
75%
25%
2,41×
80%
20%
1,93×
85%
15%
1,45×
90%
10%
0,96×
95%
5%
0,48×
*Cálculo: 9,64 × proporção de ninhos que continuariam reprodutivos. É uma projeção teórica baseada no parâmetro estimado por Franklin et al. [1], não uma previsão para um território concreto nem um limiar operacional de controlo.
A leitura do quadro é direta. Se fossem neutralizados 75% dos ninhos antes da reprodução, os 25% restantes poderiam, neste cálculo, originar uma geração seguinte 2,41 vezes maior. Mesmo uma redução de 85% continuaria acima de 1. Só perto dos 90% o resultado passa ligeiramente para baixo da reposição.
Um outro caso, desta vez em Oleiros, na Galiza, mostra bem a diferença entre remover muitos ninhos registados e demonstrar controlo populacional. Entre 2016 e 2019, o serviço municipal recebeu 2.490 pedidos de remoção e eliminou 2.234 ninhos; a eficiência anual de remoção dos ninhos registados variou entre 84,0% e 92,3% [2]. Ainda assim, foram registados 513 ninhos em 2016, 757 em 2017, 684 em 2018 e 536 em 2019. Mesmo removendo uma percentagem muito elevada dos ninhos conhecidos, continuaram portanto a surgir centenas em cada campanha.
É por isso que uma redução local de 75% não deve ser lida como erradicação. Pode significar uma diminuição importante da pressão sobre os apiários naquela área e naquele período — o que já é um resultado relevante — sem garantir que a população territorial entre em declínio no ano seguinte.
É aqui que o momento da intervenção ganha uma importância redobrada. Um ninho neutralizado cedo pode não chegar à fase reprodutiva. Ao atuar em julho ou agosto, não se retiram apenas obreiras que poderiam predar abelhas durante os meses seguintes; reduz-se também a possibilidade de essa colónia vir a produzir machos e gines que alimentarão a geração seguinte.
Nos dados das Astúrias, os 14 pontos onde o trabalho começou em julho registaram, no conjunto, menos 37 ninhos nos primeiros 500 metros; nos oito pontos onde começou apenas em setembro ou mais tarde, registou-se mais um ninho [6]. À luz do ciclo anual da Vespa velutina, esta diferença pode ter uma importância que ultrapassa a redução imediata da pressão sobre os apiários. Em julho, os ninhos atingidos estarão, em princípio, ainda antes da produção dos indivíduos reprodutores. Em setembro ou outubro, alguns poderão já ter entrado nessa fase. Por isso, uma intervenção precoce tem potencial para influenciar não apenas a pressão daquele ano, mas também a contribuição desses ninhos para a geração seguinte.
Num território já ocupado pela Vespa velutina, uma única técnica dificilmente resolverá o problema. A questão prática não é apenas quantos ninhos conseguimos neutralizar, mas quantos conseguimos neutralizar antes de contribuírem para a geração seguinte.
É, portanto, na capacidade de reduzir a pressão sobre os apiários e de abrandar o crescimento e a expansão da população que devemos situar estes resultados. Onde a espécie está instalada há anos, a erradicação é, em regra, um objetivo que ficou para trás. Isso não torna inútil o esforço de localizar e neutralizar ninhos; torna mais importante fazê-lo cedo.
Maiorca mostra também que nem sequer numa ilha a erradicação deve ser entendida como uma garantia permanente. A primeira população instalada na ilha foi objeto de um programa intensivo de deteção e destruição e acabou por ser declarada erradicada. Uma nova introdução ocorreu em 2021. Depois de dois anos sem deteções, a espécie voltou a aparecer: as autoridades retiraram 21 ninhos em 2024 e outros 21 em 2025, mantendo-se a deteção e o controlo em 2026 [4,5]. Ou seja, uma ilha pode oferecer condições excecionais para erradicar uma população inicial, mas continuar livre da espécie exige vigilância permanente e capacidade para responder rapidamente a novas introduções.
Eliminar 75% dos ninhos pode ser um excelente resultado local. Para diminuir a expansão, interessa sobretudo neutralizar o maior número possível antes de estes chegarem à fase reprodutiva. E, quando a Vespa velutina já está amplamente instalada, este é um objetivo mais realista — e mais útil — do que prometer uma erradicação que o território já dificilmente permite.
Uma pequena novidade no abelhas à beira
Acrescentei ao blogue uma nova área, acessível através do botão MENU (canto superior direito), onde passarei a disponibilizar alguns dos materiais que vou produzindo no âmbito da minha actividade profissional de formação e da consultoria apícola.
Para já, está disponível o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor, versão 2 (2026), com informação sobre o seu conteúdo e condições de aquisição.
Agradecia também aos leitores que experimentassem esta nova funcionalidade, tanto no computador como no telemóvel. Se puderem, confirmem-me se o botão MENU, o acesso à página Manuais e a ligação para contacto por email estão a funcionar corretamente. É uma ajuda importante nesta fase inicial.
Mais tarde, esta área deverá receber também outros conteúdos, nomeadamente sessões pré-gravadas de formação.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.
[2] Pazos, T., Álvarez-Figueiró, P., Cortés-Vázquez, J. A., Jácome, M. A. & Servia, M. J. (2022). Of Fears and Budgets: Strategies of Control in Vespa velutina Invasion and Lessons for Best Management Practices. Environmental Management, 70, 605–617. DOI: 10.1007/s00267-022-01690-z.
[3] Jones, E. P. et al. (2020). Managing incursions of Vespa velutina nigrithorax in the UK: an emerging threat to apiculture. Scientific Reports, 10, 19553. DOI: 10.1038/s41598-020-76690-2.
[4] Leza, M., Herrera, C., Picó, G., Morro, T. & Colomar, V. (2021). Six years of controlling the invasive species Vespa velutina in a Mediterranean island: the promising results of an eradication plan. Pest Management Science, 77, 2375–2384. DOI: 10.1002/ps.6264.
[5] Govern de les Illes Balears (2026). Informação oficial sobre a deteção e controlo de Vespa velutina em Maiorca.
Referências — Abelhas à Beira
[6] Gomes, J. E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler
Quando a Vespa velutina começou a expandir-se na Europa, uma das perguntas que naturalmente surgiu foi esta: encontrará por cá predadores, concorrentes ou parasitas capazes de limitar a sua expansão?
Passadas cerca de duas décadas, sabemos hoje bastante mais. A Vespa velutina é capturada por algumas aves, compete com outras vespas, pode transportar parasitas e alberga vários dos agentes patogénicos que encontramos nas abelhas. Portanto, não é correto imaginar uma espécie invasora que chegou à Europa e ficou completamente livre de inimigos naturais.
A questão verdadeiramente importante é outra: esses inimigos conseguem reduzir de forma significativa as suas populações ou impedir que continue a ocupar novos territórios?
Até agora, a resposta parece ser bastante menos animadora.
Vespa crabro: competir não é o mesmo que eliminar
A nossa Vespa crabro é maior do que a Vespa velutina e existem razões suficientes para admitir competição entre ambas. Utilizam alguns dos mesmos recursos alimentares, capturam outros insetos e podem encontrar-se nos mesmos locais de alimentação e nos mesmos apiários.
Um estudo realizado na Coreia do Sul comparou o comportamento agressivo da V. velutina com o de várias espécies nativas do género Vespa. Nos confrontos observados, espécies maiores, incluindo Vespa crabro, mostraram geralmente uma posição dominante perante a velutina [1].
Convém, contudo, não retirar deste resultado mais do que aquilo que o estudo mostra. Foram avaliadas interações agressivas e a capacidade de uma espécie dominar ou afastar outra de um recurso. O trabalho não demonstrou que a Vespa crabro mate regularmente a Vespa velutina, nem que esses confrontos provoquem uma mortalidade capaz de reduzir as suas populações.
Excerto de vídeo publicado por Trilhos da Longra
Um estudo europeu realizado em Itália procurou precisamente perceber se o aumento da V. velutina estava associado a uma diminuição das populações de V. crabro. Esse efeito não foi encontrado. Nas áreas estudadas, as duas espécies coexistiam e a abundância de V. crabro não diminuía sistematicamente à medida que aumentava a presença da velutina [2].
É também aquilo que tenho observado nos meus apiários. Já aqui escrevi que não elimino as Vespa crabro apenas porque aparecem diante das colmeias. Comem algumas abelhas, é verdade, mas até agora nunca lhes atribuí um dano económico comparável ao provocado pela velutina e fazem parte da nossa fauna [10].
Há competição e pode haver interferência entre ambas. O que não existe é evidência de que a V. crabro esteja a controlar as populações de velutina ou a impedir a sua expansão.
E os abelharucos?
Também já sabemos que o abelharuco (Merops apiaster) captura Vespa velutina. Um estudo realizado em Portugal encontrou restos de velutinas em locais de nidificação de abelharucos, demonstrando que estas fazem parte da sua alimentação [3].
O que continuamos sem saber é qual a importância quantitativa dessa predação. Tenho referido várias vezes no Abelhas à Beira que a chegada dos abelharucos a um apiário pode coincidir com uma diminuição muito visível das velutinas diante das colmeias. Algumas serão capturadas, outras poderão evitar temporariamente o local, mas nada disto permite concluir que os ninhos tenham desaparecido ou que a população regional tenha sido reduzida.
Há ainda um segundo problema para o apicultor: o abelharuco não caça apenas velutinas. Caça também abelhas e, sob forte pressão, pode condicionar durante muitas horas a saída das colónias para recolha de néctar, pólen e água. Assim, mesmo quando contribui para diminuir a presença de velutinas, o benefício líquido para o apiário não pode ser avaliado simplesmente contando as vespas que desapareceram da frente das colmeias.
Já abordei neste blogue quer a presença dos abelharucos em regiões onde a Vespa velutina está instalada, quer, mais recentemente, aquela que me parece ser a questão mais relevante do ponto de vista do apicultor: se uma menor presença de velutinas diante das colmeias se traduz efetivamente em mais minutos ou horas de forrageio para as abelhas[11,12]. Até ao momento, não conheço evidência que permita concluir que a predação exercida pelo abelharuco se traduza, no conjunto, num ganho líquido de horas de voo para as colónias. O abelharuco pode reduzir a presença de velutinas e, simultaneamente, manter uma pressão suficientemente forte sobre as próprias abelhas para continuar a limitar a sua atividade de forrageio.
O bútio-vespeiro é um caso bastante mais interessante
Há, no entanto, um predador europeu que exerce uma pressão muito mais direta sobre as colónias de velutina: o bútio-vespeiro (Pernis apivorus).
Ao contrário de uma ave que captura uma vespa adulta aqui e outra ali, o bútio-vespeiro procura ninhos de vespas e alimenta-se da sua criação. Nesse caso já não estamos apenas perante a morte de indivíduos isolados: pode ser atingida a própria colónia.
Um estudo publicado em 2025 acompanhou 11 bútios-vespeiros através de GPS e câmaras e analisou o que acontecia nas zonas em redor dos seus ninhos. Dos ninhos de V. velutina atacados e posteriormente localizados pelos investigadores, cerca de 89% encontravam-se destruídos. Além disso, a abundância de operárias de velutina diminuía nas proximidades dos ninhos do bútio-vespeiro [4].
Temos aqui algo bastante diferente do que observamos com o abelharuco. Existem ninhos atacados, colónias destruídas e uma redução mensurável da abundância local de operárias.
Mas o mesmo estudo trouxe um resultado particularmente interessante: no final da época, os investigadores não encontraram uma redução significativa da densidade de ninhos maduros de V. velutina nas zonas ocupadas pelo bútio-vespeiro [4].
Os autores avançam uma explicação plausível. Na primavera e início do verão poderão existir mais colónias jovens de Vespa velutina do que aquelas que o território consegue sustentar até ao outono. Algumas destas colónias desaparecerão por predação, outras por competição, falta de alimento ou outras causas. Assim, destruir parte das colónias de V. velutina numa fase inicial não significa necessariamente reduzir na mesma proporção o número das que chegam à maturidade.
Isto não torna o bútio-vespeiro irrelevante. Pelo contrário, se nas proximidades dos seus ninhos circulam menos operárias durante uma parte importante do verão, poderá existir um benefício ecológico local e eventualmente também para alguns apiários. Um segundo trabalho publicado em 2025 analisou inclusivamente a conservação de habitats adequados ao bútio-vespeiro como uma possível componente de estratégias integradas de gestão da velutina [5].
Varroa nas velutinas
Este é um assunto de que já falei neste blogue, em agosto de 2021, quando comentei um estudo realizado nas Astúrias sobre os insetos capturados nas chamadas armadilhas “específicas” para Vespa velutina [13].
Entre 286 velutinas examinadas, cinco apresentavam uma Varroa agarrada ao corpo, o que correspondeu a cerca de 1,75% dos exemplares [6]. É uma observação curiosa e facilmente compreensível num predador de abelhas: durante a captura ou manipulação de uma abelha parasitada, a Varroa poderá passar para a vespa.
Do ponto de vista populacional, contudo, dificilmente se imagina um efeito relevante. A reprodução de Varroa destructor está estreitamente associada à criação operculada das abelhas e não existe evidência de que consiga completar o seu ciclo reprodutivo na criação de V. velutina. Por isso, a presença ocasional de Varroa sobre velutinas será biologicamente interessante, mas dificilmente constituirá um fator importante de mortalidade desta espécie.
Mais interessantes podem ser os agentes patogénicos das próprias abelhas
Ao predar abelhas, a Vespa velutina entra inevitavelmente em contacto com muitos dos microrganismos e vírus presentes nas nossas colónias. E aqui começaram a surgir resultados que merecem atenção.
Num estudo realizado na Galiza, o vírus das asas deformadas, DWV, foi encontrado numa percentagem muito elevada das velutinas analisadas. Mais importante ainda, os investigadores detetaram formas replicativas do vírus, mostrando que não se tratava simplesmente de partículas virais ingeridas juntamente com as abelhas: o vírus conseguia efetivamente replicar-se no organismo da vespa [7].
Um trabalho português publicado em 2026 reforçou esta informação. Foram analisadas 534 amostras provenientes de 38 ninhos de Vespa velutina de Aveiro e Coimbra, abrangendo larvas, pupas, adultas e algumas rainhas. O DWV surgiu em cerca de 70% das amostras e foram também detetados outros agentes associados às abelhas, incluindo Nosema ceranae, BQCV e CBPV [8].
Estes resultados mostram que a velutina se integrou também na circulação de agentes patogénicos presentes nos ecossistemas e nos apiários que explora. O que ainda falta conhecer é a consequência dessas infeções. Para falarmos de um verdadeiro efeito populacional seria necessário demonstrar reduções relevantes na sobrevivência das operárias, no desenvolvimento da criação, no sucesso das colónias ou na produção de futuras fundadoras. Essa demonstração, até agora, não existe.
Ter inimigos não significa estar controlada
O que toda esta informação mostra é que a Vespa velutina está longe de viver num vazio ecológico. À medida que se foi estabelecendo na Europa, passou a integrar as relações já existentes entre predadores e presas, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos. A Vespa crabro compete com ela, os abelharucos capturam operárias, o bútio-vespeiro consegue localizar e destruir ninhos, Varroa pode aparecer ocasionalmente sobre os adultos e vários agentes patogénicos das abelhas conseguem chegar às suas colónias.
O ponto importante está na dimensão do efeito produzido por cada uma destas interações. Matar algumas operárias pode ter pouca importância para uma colónia capaz de produzir milhares delas. Destruir colónias jovens já constitui uma pressão muito mais forte, como mostra o caso do bútio-vespeiro, mas mesmo aí não foi demonstrada uma redução correspondente dos ninhos maduros no final da estação. Para travar realmente uma invasão seria necessário que a mortalidade e a competição reduzissem suficientemente o sucesso reprodutivo e a produção de novas fundadoras, geração após geração, até limitarem também a colonização de novos territórios.
É precisamente aqui que a extraordinária capacidade de compensação da Vespa velutina parece fazer a diferença. Uma população pode perder indivíduos e mesmo algumas colónias ao longo da estação e, ainda assim, produzir fundadoras em número suficiente para se manter e continuar a expandir-se. Um trabalho de Monceau, Bonnard e Thiéry, publicado em 2012, ajuda a perceber a dimensão deste potencial: com base nas taxas de sobrevivência estimadas para a população francesa, os autores calcularam que 10 ninhos existentes num ano poderiam dar origem a cerca de 111 fundadoras capazes de estabelecer novas colónias no ano seguinte, ou seja, aproximadamente 11 novas colónias potenciais por cada ninho da geração anterior [9]. É também por isso que um efeito muito visível num apiário ou numa pequena área, provocado pelos inimigos naturais da Vespa velutina, não deve ser automaticamente interpretado como controlo da espécie à escala local, regional e muito menos nacional.
Talvez seja esta a conclusão mais equilibrada. A natureza já começou a incorporar a Vespa velutina nas suas próprias relações ecológicas e alguns desses inimigos podem ajudar a limitar localmente a sua abundância. Mas, até agora, essa resistência biótica permanece abaixo da capacidade da invasora para compensar as perdas, produzir novas fundadoras e continuar a dispersar-se pelo território.
Nota: Perante uma pressão tão intensa da Vespa velutina, muitos apicultores acabam por recorrer às ferramentas que têm disponíveis, algumas mais simples e rudimentares, outras mais exigentes na sua aplicação. Entre essas estratégias estão os chamados Cavalos de Tróia, uma abordagem que tenho vindo a acompanhar e a sistematizar há vários anos.
Para quem pretenda conhecer melhor esta técnica, preparei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina. Para informações sobre condições de acesso e aquisição, poderá contactar-me através do endereço eduardogomesapi@outlook.com.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Kwon, O.; Choi, M. B. (2020). Interspecific hierarchies from aggressiveness and body size among the invasive alien hornet, Vespa velutina nigrithorax, and five native hornets in South Korea. PLoS ONE, 15(7), e0226934. DOI: 10.1371/journal.pone.0226934.
[2] Carisio, L.; Cerri, J.; Lioy, S.; Bianchi, E.; Bertolino, S.; Porporato, M. (2022). Impacts of the invasive hornet Vespa velutina on native wasp species: a first effort to understand population-level effects in an invaded area of Europe. Journal of Insect Conservation, 26, 663–671. DOI: 10.1007/s10841-022-00405-3.
[3] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.
[4] Martín-Ávila, J. A.; Díaz-Aranda, L. M.; Fernández-Pereira, J. M.; Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81, 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.
[5] Martín-Ávila, J. A.; Rebollo, S.; Fernández-Pereira, J. M.; Monteagudo, N.; Díaz-Aranda, L. M. (2025). Encouraging native predators of invasive yellow-legged hornets: breeding habitat preferences of European honey buzzards in exotic Eucalyptus plantations. Pest Management Science, 81, 3704–3714. DOI: 10.1002/ps.8738.
[6] Sánchez, O.; Arias, A. (2021). All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps. Biology, 10(5), 448. DOI: 10.3390/biology10050448.
[7] Rodríguez-Flores, M. S.; Lopes, A. R.; Diéguez-Antón, A.; Seijo, M. C.; Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina: Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.
[8] Santos, S. S.; Tiritelli, R.; Capela, N.; Souto, P.; Caringi, V.; Bortolotti, L.; et al. (2026). Detection of bee-associated pathogens in different developmental stages within the nest of the invasive hornet Vespa velutina nigrithorax Buysson, 1905. Biological Invasions, 28, 165. DOI: 10.1007/s10530-026-03878-4.
[9] Monceau, K.; Bonnard, O.; Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.
Referências — Abelhas à Beira
[10] Abelhas à Beira (2021). Preparando as colónias para a invernagem. Ler
[11] Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da Vespa velutina?Ler
[12] Abelhas à Beira (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo?Ler
[13] Abelhas à Beira (2021). Nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina. Ler
Em setembro de 2020 escrevi neste blogue, quase de passagem, uma observação que hoje me merece atenção renovada. Ao chegar a um dos meus apiários encontrei um bando de cerca de dez abelharucos e registei:
“Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.” [5]
Não estava a tentar demonstrar qualquer relação entre as duas espécies. Registei apenas aquilo que estava a observar naquele apiário e que voltei a notar nos anos seguintes.
Passados estes anos, e depois de termos hoje mais informação sobre a dieta do abelharuco e sobre o efeito comportamental que tanto ele como a Vespa velutina exercem sobre as colónias, esta observação merece ser revisitada. Mas parece-me importante fazê-lo separando duas perguntas diferentes. Uma é saber se os abelharucos conseguem limitar a expansão territorial da Vespa velutina. Outra, e para o apicultor provavelmente mais importante, é perceber se a presença dos abelharucos e a consequente redução da pressão das velutinas se traduzem realmente em mais minutos ou horas disponíveis de forrageio para as colónias.
A escala territorial
Em 2023 publiquei neste blogue uma análise a dois mapas de distribuição, um do abelharuco e outro da Vespa velutina.[7] À primeira vista podia parecer existir uma relação inversa, com maior presença de abelharucos precisamente onde a velutina apresentava menor implantação. Quando olhei com mais atenção, essa relação deixou de me parecer convincente. No extremo nordeste transmontano encontrávamos pouca presença de abelharucos e também reduzida implantação da velutina; no Ribatejo sucedia praticamente o contrário, com uma presença importante de abelharucos a coexistir com uma implantação já significativa de V. velutina.
A informação entretanto publicada não me levou a alterar substancialmente essa leitura. Em 2023, Onofre e colaboradores demonstraram em Portugal que o abelharuco (Merops apiaster) captura efetivamente Vespa velutina.[1] Entre 128 restos de presas identificados encontraram cinco velutinas, provenientes de quatro locais diferentes. Sabemos, portanto, que a predação existe e não estamos apenas perante uma possibilidade teórica.
Imagem gerada por IA
Outra questão é saber se essa predação tem dimensão suficiente para alterar a dinâmica populacional de uma espécie invasora que se encontra hoje distribuída por extensas áreas e sustentada por milhares de ninhos. Para produzir um efeito apreciável sobre a expansão territorial seria necessário afetar de forma suficientemente intensa a sobrevivência das colónias ou, sobretudo, a produção e sobrevivência das futuras fundadoras. Não encontrei evidência de que os abelharucos estejam a exercer esse efeito, e o próprio trabalho português chama a atenção para a sobreposição geográfica incompleta das duas espécies na Península Ibérica.[1]
Há ainda um cuidado adicional quando olhamos para estes mapas. A distribuição de ambas as espécies é fortemente condicionada pelo clima e pelo habitat. O abelharuco tende a beneficiar, durante a época de reprodução, de condições quentes e relativamente secas, enquanto a V. velutina apresenta elevada adequação em muitas regiões temperadas e húmidas e é penalizada pela secura excessiva. Parte da aparente relação inversa entre as duas espécies pode, por isso, resultar simplesmente de nichos climáticos parcialmente diferentes e não da capacidade de uma espécie limitar a outra.
Neste primeiro nível de análise continuo bastante céptico quanto a um papel importante dos abelharucos na limitação da expansão territorial da velutina.
Outra escala: aquilo que acontece no apiário
À frente de vinte colmeias a questão muda bastante. Se estiverem dez ou quinze velutinas a caçar diante dos alvados e chegar um bando de abelharucos, parece-me perfeitamente plausível que a presença destas aves faça diminuir rapidamente o número de velutinas naquele espaço. Algumas podem ser capturadas, como sabemos hoje que acontece,[1] enquanto outras poderão simplesmente afastar-se enquanto os abelharucos permanecem sobre o apiário.
A minha experiência aponta nesse sentido e vários apicultores descrevem situações semelhantes. Já em 2023 admitia neste blogue que, na melhor das hipóteses, os abelharucos poderiam afastar temporariamente as velutinas dos apiários.[7] Hoje continua a parece-me muitíssimo razoável admitir que essa redução local é real e, em determinados momentos, bastante visível.
Mas daqui não resulta automaticamente que a colónia tenha beneficiado.
Talvez estejamos a medir a coisa errada
Quando se discute o prejuízo provocado pelos abelharucos aparece frequentemente a pergunta: quantas abelhas comem? Quando se discute o seu eventual benefício perante a velutina surge outra: quantas velutinas conseguem eliminar ou afugentar?
As duas contas têm interesse, mas nenhuma me parece ser a melhor unidade de medida para avaliar o impacto final sobre a colónia. Uma velutina pode capturar relativamente poucas abelhas e, ainda assim, provocar um efeito muito superior ao número das que matou, porque a sua presença diante do alvado leva muitas outras forrageiras a atrasar ou interromper as saídas. O prejuízo mais importante pode estar menos na mortalidade direta e mais na redução coletiva da atividade de voo.
Paralisia de voo por efeito da presença de V. velutina (vídeo do autor, Coimbra 2026)
Com os abelharucos encontramos algo semelhante. Bota e colaboradores verificaram que uma maior pressão destas aves junto dos apiários estava associada a uma redução da atividade de voo das abelhas.[2] No mesmo trabalho, a pressão dos abelharucos variou ao longo do dia, sendo superior durante algumas horas da manhã e voltando a aumentar ao final da tarde, com valores mais baixos próximo do meio-dia.[2]
Imagem gerada por IA
Assim, quando chegam abelharucos e diminuem as velutinas, as abelhas não ficam necessariamente libertas da pressão predatória. Durante algum tempo, a inibição do voo que estava a ser provocada pelas velutinas passa a ser provocada pelos próprios abelharucos.
É por isso que, para mim, a pergunta central passa a ser outra: quantos minutos ou horas efetivas de forrageio a colónia conseguiu realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos?
A rapidez com que a velutina regressa?
Há uma observação de campo que me leva a dar bastante importância a esta pergunta. Nos apiários de clientes onde temos utilizado harpas elétricas, tenho visto repetidamente que, quando existe uma pressão apreciável de V. velutina, basta por vezes desligarmos as harpas durante 15 a 30 minutos para começarmos novamente a notar um aumento do número de velutinas diante das colmeias.
Retorno da V. velutina após algum tempo com as harpas desligadas (vídeo do autor, Coimbra 2026)
Num desses apiários, que descrevi neste blogue em 2023,[8] as harpas tinham sido desligadas cerca de uma hora antes da minha chegada. Quando entrei estavam entre 20 e 30 velutinas junto das colmeias e as abelhas praticamente paralisadas. Depois de ligadas as harpas, a pressão diminuiu rapidamente.
O trabalho de Monceau e colaboradores ajuda a perceber esta capacidade de reposição.[3] Num apiário experimental com apenas seis colmeias foram marcadas 360 velutinas e estimou-se que cerca de 350 indivíduos diferentes visitavam diariamente aquele conjunto de colmeias. Mais de metade dos indivíduos marcados regressaram pelo menos uma vez e, enquanto alguns deixavam de aparecer, novos indivíduos iam chegando.
Aquilo que vemos diante das colmeias num determinado momento é, portanto, apenas uma pequena parte de um fluxo diário muito maior. Um bando de abelharucos pode fazer desaparecer grande parte das velutinas que naquele instante estão diante dos alvados e produzir uma redução visualmente impressionante; mas quando o bando segue caminho, outras vespas podem ocupar rapidamente o espaço que ficou disponível.
É também aqui que existe uma diferença importante relativamente às harpas. A harpa permanece no apiário e continua a atuar sobre as velutinas que vão chegando. Os abelharucos podem exercer uma pressão muito intensa, mas frequentemente curta. Uma coisa é baixar durante alguns minutos o número de vespas presentes; outra é manter essa pressão suficientemente baixa para que as abelhas recuperem efetivamente o trabalho no campo.
As abelhas também precisam de recuperar
Há ainda outro elemento que pode estreitar essa janela de benefício. O desaparecimento do predador não significa necessariamente que as abelhas retomem imediatamente toda a atividade de voo.
A V. velutina produz uma resposta comportamental que ultrapassa largamente as abelhas diretamente capturadas. Rojas-Nossa e colaboradores mostraram que a pressão da velutina reduz o forrageio e que as colónias protegidas por harpas, nas quais essa pressão foi persistentemente diminuída, apresentaram maior atividade, maior entrada de pólen, mais criação, maior peso das operárias e melhor sobrevivência no inverno.[4]
Também no estudo dos abelharucos a relação entre a pressão das aves e a atividade das abelhas variava ao longo das diferentes horas do dia.[2] Não estamos perante um sistema em que o predador desaparece e, imediatamente, todas as forrageiras retomam a atividade que tinham antes.
É aqui que a sequência temporal se torna particularmente importante. Os abelharucos podem chegar, reduzir fortemente as velutinas e, simultaneamente, reduzir o voo das abelhas. Quando partem, a colónia começa a recuperar; mas, se a reposição das velutinas pode ocorrer em 15 ou 30 minutos, como observo nos apiários protegidos por harpas quando estas são desligadas, parte dessa recuperação pode ser novamente interrompida antes de se transformar numa janela de forrageio significativa.
Quando os dois predadores ocupam partes diferentes do mesmo dia
Os horários conhecidos dos dois predadores acrescentam outra camada a este problema. No estudo de Bota e colaboradores, a pressão dos abelharucos foi mais elevada durante algumas horas da manhã e voltou a aumentar ao final da tarde.[2] A atividade de V. velutina nos apiários pode ser elevada desde o final da manhã e prolongar-se pela tarde, embora varie com a temperatura, a época do ano e as condições locais.
Os dois predadores não precisam, portanto, de estar permanentemente presentes ao mesmo tempo para condicionarem uma parte importante do dia. Uma janela que fica temporariamente livre de abelharucos pode coincidir com um aumento da pressão da velutina; ao final da tarde podem mesmo existir períodos de sobreposição.
Voltamos assim à mesma métrica. Não quantas abelhas morreram nem quantas velutinas desapareceram, mas quanto tempo útil de voo restou à colónia.
Menos velutinas não significa necessariamente menos pressão sobre a colónia
Continuo a não encontrar evidência de que os abelharucos estejam a impedir de forma importante a expansão territorial da Vespa velutina em Portugal.
À escala do apiário, a situação parece-me diferente. Considero hoje bastante plausível que a presença dos abelharucos possa provocar uma redução rápida e muito visível do número de velutinas que estão a caçar diante das colmeias.
Mas essa fotografia momentânea também pode enganar.
O facto de não vermos velutinas durante a presença dos abelharucos não significa necessariamente que a pressão habitual daquele apiário tenha desaparecido. As velutinas podem ter sido capturadas ou simplesmente afastadas e, quando os abelharucos abandonam o local, regressar rapidamente ou ser substituídas por outras.
No final do dia, a pressão global sobre o voo das abelhas pode ter-se mantido: primeiro devido aos abelharucos e depois novamente devido à Vespa velutina.
Enquanto estas situações não forem acompanhadas durante períodos suficientemente longos de semanas ou meses e em territórios em que estes dois predadores coincidem, contar abelhas comidas, contar velutinas comidas ou simplesmente contar as velutinas que vemos e deixamos de ver num determinado momento continuará a mostrar apenas uma parte do problema.
O que falta medir com maior rigor é o tempo: quanto dura a redução das velutinas depois da passagem dos abelharucos, quanto demora a colónia a recuperar o voo, quanto rapidamente regressa a pressão da velutina e, no final do dia, quantos minutos ou horas efetivas de forrageio as abelhas conseguiram realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos.
Nota final
Do ponto de vista estritamente ecológico, a minha preferência é evidente: entre o abelharuco, uma espécie nativa integrada nos nossos ecossistemas, e a Vespa velutina, uma espécie invasora, prefiro naturalmente o primeiro.
(Dito isto, dizer também que a presença do abelharuco é, em regra, parte natural da vida selvagem que partilha connosco estes territórios. Mas, em determinadas zonas e momentos, importa também perguntar se o aumento da sua abundância poderá estar a aproximar-se de limites tróficos que o próprio ecossistema suporta, com consequências para o equilíbrio entre a fauna selvagem e as actividades humanas, incluindo a apicultura. A comparação com o que tem acontecido com o javali serve apenas para colocar a questão: populações naturalmente presentes podem tornar-se problemáticas quando se alteram as condições que habitualmente limitavam a sua densidade. Não é uma conclusão sobre o abelharuco; é uma hipótese que merece observação séria, documentação e discussão.)
Mas não é essa a questão analisada nesta publicação. Aqui procurei apenas perceber o impacto de um e de outro sobre a atividade das colónias e, em particular, sobre o número de minutos ou horas disponíveis para o forrageio.
É nesse plano que surge a alegada vantagem do abelharuco: ao reduzir a presença de velutinas junto das colmeias, poderia devolver às abelhas algum tempo de voo. O problema é que os próprios abelharucos também inibem o forrageio e, quando se afastam, a pressão da V. velutina pode recompor-se rapidamente.
Por isso, esta publicação não pretende tomar partido entre os dois predadores. Procura apenas perceber se o benefício atribuído aos abelharucos se traduz realmente em mais horas de trabalho para as colónias. E, com a informação atualmente disponível, parece-me que essa vantagem ainda não foi avaliada com o rigor necessário para podermos afirmá-la.
Nota editorial sobre o uso de vídeos e imagens geradas por IA
Esta é a primeira vez que utilizo vídeos produzidos por mim numa publicação do Abelhas à Beira. Tenciono continuar a combiná-los com o texto, tal como tenho feito até agora com imagens estáticas e fotografias, sempre que contribuam para mostrar melhor aquilo que está a acontecer no apiário ou para tornar mais clara uma ideia desenvolvida na publicação.
É igualmente a primeira publicação em que recorro a imagens geradas por inteligência artificial. Sempre que o fizer, essa utilização será claramente identificada.
Não pretendo que o Abelhas à Beira se transforme num veículo de imagens indistinguíveis da realidade, nem que uma ilustração gerada substitua o registo fiel do que foi observado no apiário. Sempre que possível, procurarei utilizar fotografias e vídeos reais — preferencialmente meus ou, quando adequado, de outros autores devidamente identificados — para acompanhar e exemplificar os conteúdos publicados.
As imagens geradas por IA ficarão reservadas para situações em que uma fotografia ou vídeo real não esteja disponível, ou não permita ilustrar com clareza o ponto que o texto pretende explicar.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906.
[2] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158.
[3] Monceau, K.; Bonnard, O.; Moreau, J.; Thiéry, D. (2014). Spatial distribution of Vespa velutina individuals hunting at domestic honeybee hives: heterogeneity at a local scale. Insect Science, 21, 765–774.
[4] Rojas-Nossa, S. V.; Dasilva-Martins, D.; Mato, S.; Bartolomé, C.; Maside, X.; Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78, 5142–5149.
Referências — Abelhas à Beira
[5] PMS: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência (2020). Ler
[6] Vespa velutina: contas e reflexões (2023). Ler
[7] Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da vespa velutina? (2023). Ler
[8] Medidas de controlo dos inimigos: Vespa velutina e varroa (2023). Ler
Nos grupos apícolas das redes sociais espanholas e portuguesas são frequentes, sobretudo durante o verão, as publicações de apicultores que mostram bandos de abelharucos junto dos apiários e lhes atribuem efeitos importantes sobre as suas colónias.
Relato e pergunta de um apicultor português (retirado do Facebook)
Durante bastante tempo, uma das formas mais intuitivas de avaliar este problema passou por responder a uma pergunta aparentemente simples: quantas abelhas come um abelharuco? Se estamos perante um predador e queremos conhecer o prejuízo que provoca, contamos as presas que elimina e comparamos esse número com a população disponível. O problema é que, no caso de uma colónia de abelhas, esta poderá não ser a melhor unidade de medida.
Há números razoavelmente bons para estimar a mortalidade direta. Num estudo realizado no sudeste de Espanha, Farinós-Celdrán e colaboradores estimaram um consumo médio de cerca de 1.333 ± 760 abelhas melíferas por abelharuco durante a sua permanência na região.[1] Na Sardenha, Galeotti e Inglisa estimaram que a predação correspondia, em média, a cerca de 0,37% das forrageadoras disponíveis, embora representasse aproximadamente 6,1% da mortalidade diária destas abelhas.[2]
Vistos desta forma, os números não parecem particularmente alarmantes. Uma colónia forte, com dezenas de milhares de abelhas e capacidade para produzir continuamente novas operárias, poderá compensar a perda de algumas centenas ou mesmo de alguns milhares de forrageadoras distribuídas por várias semanas.
Mas talvez seja precisamente aqui que começamos a medir mal o problema.
Não são apenas as abelhas que o abelharuco come
Uma colónia depende diariamente de milhares de viagens entre a colmeia e o exterior. Enquanto umas abelhas saem, outras regressam com néctar, pólen, água ou resinas. Retirar algumas centenas de abelhas a uma população de dezenas de milhares pode parecer pouco; alterar durante horas o comportamento de milhares delas é outra coisa.
Nos últimos anos começaram a surgir trabalhos que olharam para o problema precisamente deste outro lado. Em vez de perguntarem apenas quantas abelhas eram capturadas, procuraram perceber o que acontecia à atividade das restantes quando os predadores estavam presentes.
Um dos estudos mais interessantes foi realizado na Extremadura e acompanhou 58 apiários. Foram registados mais de 3 milhões de movimentos de entrada e saídade abelhas. Quanto maior era a presença dos abelharucos junto dos apiários, menor tendia a ser a atividade das abelhas; e nos apiários sujeitos a maior pressão foram também observadas menores quantidades de abelhas, criação, mel e pólen. O efeito tornou-se particularmente evidente durante agosto.[3]
Alguns anos depois, um trabalho realizado na região de Lleida aprofundou este ponto. Os investigadores relacionaram a atividade dos abelharucos com contadores que registavam o movimento das abelhas nas colmeias. A conclusão principal foi clara: quando aumentava a pressão dos abelharucos, diminuía o movimento das abelhas, mas essa resposta variava bastante ao longo do dia.[4]
Momento do dia
Presença/atividade dos abelharucos
Resposta das abelhas à presença dos abelharucos
Leitura simples
09h15
Elevada
Forte redução do voo
Uma das fases mais sensíveis: muita pressão e forte resposta das abelhas
11h15
Já inferior à das 09h
Efeito por unidade de pressão ainda muito forte
Mesmo com menos abelharucos, o forrageio continua bastante condicionado
13h15
Mínima
O efeito ainda existe
Menor pressão global e uma janela relativamente mais favorável ao voo
15h15
Relativamente baixa
Efeito menor
A atividade das abelhas parece menos condicionada
17h15
Volta a aumentar
Muito menor efeito sobre o voo
Há novamente mais abelharucos, mas as abelhas mantêm melhor a atividade
19h15
Elevada
A relação com a redução do voo torna-se muito fraca
Ao fim do dia, a tendência para intensificar o forrageio parece sobrepor-se parcialmente ao risco
Este quadro resulta de 1.526 registos horários e mostra algo que me parece importante: não basta contar quantos abelharucos estão presentes num apiário. A mesma pressão de predadores não produz necessariamente a mesma redução do forrageio às dez da manhã e ao fim da tarde.[4]
Em vez das abelhas comidas, contar o forrageio perdido
Podemos então fazer uma pergunta diferente. Em lugar de procurarmos apenas saber quantas abelhas come um abelharuco, talvez devamos tentar conhecer quanto forrageio deixa uma colónia de fazer devido à sua presença.
Uma abelha capturada desaparece. Uma abelha que, perante a pressão do predador, não sai da colmeia continua viva, mas durante esse período também não recolhe néctar, pólen ou água. Quando essa alteração envolve muitas abelhas, várias horas por dia e se repete durante dias ou semanas, o número de indivíduos efetivamente capturados deixa de descrever uma parte importante do impacto.
Podemos traduzir este fenómeno, apenas para facilitar a compreensão, em horas equivalentes de forrageio perdidas.
Imaginemos que a pressão dos abelharucos é importante durante quatro horas de um determinado dia:
Redução média do forrageio durante essas 4 horas
Forrageio equivalente perdido por dia
Em 20 dias
25%
1 hora
20 horas
50%
2 horas
40 horas
75%
3 horas
60 horas
Estes valores são apenas uma forma de visualizar o efeito acumulado. Se durante vinte dias uma colónia perder diariamente o equivalente a duas horas de forrageio, serão quarenta horas durante as quais uma parte importante do trabalho que poderia ter sido realizado no exterior não aconteceu.
O estudo da Extremadura dá-nos uma ideia da escala envolvida. Os contadores registaram, em média, valores próximos de 4.000 movimentos de entrada e saída por hora.[3] Se imaginarmos uma redução de 50% durante quatro horas, teremos cerca de 8.000 movimentos a menos num dia e, repetida a situação durante vinte dias, aproximadamente 160.000 movimentos que não ocorreram.
É esta ordem de grandeza que me parece particularmente interessante. Enquanto contamos as centenas ou poucos milhares de abelhas efetivamente capturadas, a alteração comportamental pode afetar dezenas ou centenas de milhares de movimentos.
Este efeito faz lembrar muito aquilo que já conhecemos da pressão exercida pela Vespa velutina. Também neste caso, o prejuízo para a colónia não resulta apenas das abelhas capturadas à frente da colmeia, mas da chamada paralisia do forrageio: perante uma pressão predatória suficientemente elevada, as abelhas reduzem fortemente as saídas, entra menos pólen e essa redução acaba por se refletir na criação e no desenvolvimento da colónia.[6] O próprio artigo sobre os abelharucos chama a atenção para esta semelhança. Predadores muito diferentes podem, portanto, produzir uma resposta semelhante nas abelhas: para além das forrageadoras que capturam, condicionam o trabalho de muitas outras que permanecem dentro da colmeia ou reduzem as suas saídas. [7]
Talvez seja por aqui que se explique pelo menos parte da distância entre alguns trabalhos que estimaram um efeito relativamente reduzido dos abelharucos e aquilo que certos apicultores descrevem no terreno. Uma coisa é a capacidade da colónia para substituir as abelhas mortas; outra é substituir trabalho que simplesmente não foi realizado.
Do forrageio perdido ao mel, ao pólen e à criação
Ainda não conseguimos converter diretamente determinada redução do voo em determinado número de quilos de mel ou em determinada área de criação. Mas os estudos disponíveis mostram que os dois fenómenos caminham no mesmo sentido.
Na Extremadura, maior presença de abelharucos coincidiu com menor atividade das abelhas e também com menores quantidades de mel, pólen, criação e abelhas adultas, sobretudo durante agosto.[3]
E numa situação muito mais intensa, observada em Israel durante a passagem de grandes bandos migratórios, foram comparadas colmeias protegidas da pressão das aves com colmeias não protegidas. As primeiras aumentaram de peso, em média, 26,4 kg, enquanto as não protegidas aumentaram apenas 4,1 kg: uma diferença de 6,44 vezes.[5] O aumento de peso refletia sobretudo a acumulação de mel.
Não transportaria diretamente estes valores para Portugal ou Espanha, porque se tratava de uma pressão migratória muito forte. Mas o resultado mostra até onde o efeito pode chegar quando a redução do forrageio se torna intensa e persistente.
Agosto merece atenção especial
Nos trabalhos espanhóis, agosto aparece repetidamente como um período importante. Depois da reprodução, os abelharucos começam a concentrar-se e a deslocar-se antes da migração. Na Extremadura foi também durante agosto que a relação entre abundância de abelharucos e menores recursos nas colónias se tornou mais evidente.[3]
Este calendário não é indiferente para uma colónia. Em muitas regiões da Península Ibérica, agosto coincide com temperaturas elevadas e menor disponibilidade floral, numa altura em que interessa manter entrada de pólen, conservar uma boa área de criação e preparar a população das semanas seguintes.
Não é necessário assumir que uma abelha comida em agosto vale mais do que uma abelha comida em maio. Basta admitir que uma redução importante do forrageio pode ocorrer numa altura em que a margem da colónia para compensar essa redução já é menor.
Talvez tenhamos estado a medir a parte mais fácil
Não pretendo concluir que os abelharucos sejam responsáveis por todos os efeitos que lhes são atribuídos pelos apicultores. Há situações em que a sua presença será pequena e o efeito também o será; e há apiários em que alimentação, calor, seca, varroose ou a própria evolução sazonal das colónias terão muito mais peso.
Também não devemos deixar de contabilizar as abelhas capturadas. São uma perda real. Mas os trabalhos dos últimos anos sugerem que o número de abelhas comidas é uma medida incompleta do impacto dos abelharucos sobre um apiário. Uma colónia pode substituir parte das operárias que desaparecem; não recupera da mesma forma o néctar, o pólen e a água que não entraram durante horas de atividade reduzida.
Talvez, portanto, a pergunta mais útil deixe de ser apenas «quantas abelhas come um abelharuco?» e passe também a ser «quantas horas de forrageio perde a colónia enquanto os abelharucos estão presentes?».
Porque talvez tenhamos passado demasiados anos a contar as abelhas que o abelharuco come e poucos a contar as que, por causa dele, deixam de sair.
Referências
[1] Farinós-Celdrán, P.; Zapata, V. M.; Martínez-López, V.; Robledano, F. (2016). Consumption of honey bees by Merops apiaster Linnaeus, 1758 (Aves: Meropidae) in Mediterranean semiarid landscapes: a threat to beekeeping? Journal of Apicultural Research, 55(2), 193–201. DOI: 10.1080/00218839.2016.1195630.
[2] Galeotti, P.; Inglisa, M. (2001). Estimating predation impact on honey bees Apis mellifera L. by European bee-eater Merops apiaster L. Revue d’Écologie (La Terre et la Vie), 56(4), 373–388. DOI: 10.3406/revec.2001.2373.
[3] Moreno-Opo, R.; Núñez, J. C.; Pina, M. (2018). European bee-eaters (Merops apiaster) and apiculture: understanding their interactions and the usefulness of nonlethal techniques to prevent damage at apiaries. European Journal of Wildlife Research, 64, 55. DOI: 10.1007/s10344-018-1215-9.
[4] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158. DOI: 10.1016/j.ecolind.2022.109158.
[5] Łangowska, A.; Yosef, R.; Skórka, P.; Tryjanowski, P. (2018). Mist-Netting of Migrating Bee-Eaters Positively Influences Honey Bee Colony Performance. Journal of Apicultural Science, 62(1), 67–78. DOI: 10.2478/jas-2018-0008.
[6] Gomes, J. E. Eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhas. Abelhas à Beira. Ler
[7] Gomes, J. E. Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle?Abelhas à Beira, 2026. Ler
Uma notícia recente da CNN Portugal sobre a Vespa velutina apresentava uma ideia que me chamou a atenção: a vespa asiática não seria necessariamente mais venenosa do que as outras vespas, mas teria características que a poderiam tornar mais perigosa.
Nota: não consegui aceder ao conteúdo integral da notícia da CNN Portugal, pelo que não pude ler o texto completo. A análise que se segue parte do título, da informação visível na publicação e dos comentários associados.
Nos comentários apareceram rapidamente outras explicações. Uma pessoa afirmava que estas vespas “têm sete vezes mais veneno”; outra dizia que cada uma teria uma quantidade de veneno equivalente a cinco ou seis vespas europeias, acrescentando ainda que uma mesma Vespa velutina pode ferroar várias vezes.
Vale a pena separar estas afirmações, porque algumas são verdadeiras, outras apenas parcialmente e outras não encontram, até onde consegui verificar, suporte na literatura científica.
Comecemos pelo veneno. Não encontrei qualquer evidência de que uma Vespa velutina tenha cinco, seis ou sete vezes mais veneno do que a nossa Vespa crabro, a vespa-europeia. Estudos recentes que analisaram os sacos de veneno das duas espécies encontraram nas obreiras aproximadamente 274 µg de proteína no extracto do saco de V. velutina e 189 µg em V. crabro.[1,2]
Também não sabemos com suficiente rigor quanto veneno injecta uma V. velutina quando ferroa. Curiosamente, sabemos mais sobre a abelha. Uma Apis mellifera pode administrar cerca de 70 µg nos primeiros segundos e ultrapassar os 100 µg quando o aparelho do ferrão permanece mais tempo na pele, podendo aproximar-se dos 140 µg.[3]
A composição dos venenos também não é igual. O veneno da abelha contém uma proporção muito elevada de melitina, um péptido fortemente associado à dor e à inflamação. O da V. velutina apresenta outra combinação de péptidos, enzimas e aminas biologicamente activas, entre as quais fosfolipase A1, antigénio 5, hialuronidases, mastoparanos e serotonina.[4,5] Não seria, por isso, estranho que duas pessoas descrevessem de forma diferente a dor de uma picada de abelha e de uma ferroada de velutina. Nos comentários à notícia, uma considerava a picada da abelha bastante mais dolorosa; outra dizia precisamente o contrário. Ambas podem estar apenas a descrever a sua experiência.
Mas dor, quantidade de veneno, toxicidade e perigosidade não são a mesma coisa.
Talvez o problema esteja sobretudo na frequência com que nos cruzamos com ela
A Vespa velutina tornou-se extraordinariamente abundante em algumas regiões europeias e ocupa territórios onde existe uma forte sobreposição entre as pessoas e as suas colónias. Na Galiza foram comunicados mais de 154 mil ninhos entre 2012 e 2021, chegando a mais de 28 mil por ano em 2020 e 2021.[6]
E os ninhos não estão apenas no alto das árvores. No levantamento galego, 36% encontravam-se em edifícios ou outras estruturas humanas e 3% no solo. Surgiam em telhados, sótãos, paredes, chaminés, janelas, varandas, contentores, caixas de visita e muitas outras estruturas próximas das pessoas.[6]
Há ainda ninhos em vegetação baixa, sebes, silvados ou cavidades do solo. Podem representar uma parte relativamente pequena do total, mas têm uma característica importante: é possível aproximarmo-nos muito sem os detectar.
Imagine-se alguém a cortar silvas com uma roçadora, a aparar uma sebe, a limpar um terreno ou a trabalhar com uma máquina agrícola. Pode não saber que existe ali uma colónia até provocar vibrações ou atingir directamente o ninho. Nesse momento deixa de estar perante uma vespa que procura alimento e passa a estar muito próximo de uma colónia a defender-se.
Os ensaios de Moon Bo Choi ajudam a perceber essa diferença. A aproximação calma a um ninho originava uma resposta relativamente limitada. Movimentos bruscos aumentavam a reacção e, depois de uma perturbação directa do ninho, várias dezenas de obreiras podiam participar na defesa da colónia.[7]
Isto não significa que uma Vespa velutina isolada esteja permanentemente predisposta a atacar pessoas. Uma obreira que procura alimento e uma colónia perturbada são situações muito diferentes.
Há poucos dias tive um exemplo muito simples desta proximidade crescente. Estava a fazer uma refeição ao ar livre, a comer peixe, quando uma Vespa velutina se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim e da comida. Não aconteceu nada. O hábito de lidar com abelhas levou-me simplesmente a evitar movimentos bruscos e a afastar-me calmamente. O encontro terminou aí.
Outra pessoa, menos habituada à presença destes insectos, poderia ter tentado enxotá-la com as mãos ou dar-lhe uma pancada. Talvez também não acontecesse nada, mas aumentaria desnecessariamente a probabilidade de uma ferroada.
Estas situações são hoje seguramente frequentes em muitas regiões. Encontramos velutinas em fruta madura, perto de bebidas açucaradas, carne, peixe, jardins ou esplanadas. A maioria desses encontros não tem qualquer consequência. Mas quanto mais encontros houver, maior será também o número daqueles que acabam mal.
E provavelmente não é necessário que uma velutina seja individualmente muito mais perigosa do que uma vespa autóctone para que a espécie represente, no conjunto, um risco superior. Basta haver muito mais oportunidades de contacto entre pessoas e vespas.
O ninho muda completamente a situação
A V. velutina pode ferroar repetidamente, ao contrário da operária da abelha-do-mel, cujo ferrão fica geralmente retido na pele dos mamíferos. Mas também aqui convém desfazer outro mito: esta característica não é exclusiva da vespa asiática. É comum às vespas e vespões.
O que torna algumas situações particularmente perigosas é a possibilidade de múltiplas ferroadas por vários indivíduos.
A literatura médica identifica precisamente as múltiplas ferroadas, as ferroadas nas mucosas e a alergia ao veneno como os principais perigos associados à V. velutina.[8] Uma pessoa sensibilizada pode sofrer uma reacção anafiláctica grave após uma única ferroada. Num indivíduo não alérgico, um número elevado de ferroadas pode representar uma carga de veneno suficiente para provocar envenenamento sistémico.
Por isso, um ninho escondido num silvado ou no solo, descoberto apenas quando passa uma roçadora, é uma situação bastante diferente da velutina que se aproximou do meu prato de peixe.
O risco existe, mas os dados não justificam alarmismo
Há ainda uma parte importante desta história.
Em Espanha foram analisadas as mortes oficialmente atribuídas a ferroadas de abelhas, vespas e vespões entre 1999 e 2023. Foram registadas 188 mortes. Apesar da enorme expansão da V. velutina, os investigadores não encontraram evidência de um aumento da mortalidade por himenópteros associado à sua invasão.[9]
Em França, um estudo publicado em 2026 analisou 6022 casos registados pelos centros antivenenos, 179 141 idas às urgências e 18 213 internamentos entre 2014 e 2023. Também aqui, apesar da expansão territorial da V. velutina, não se observou um aumento global das ferroadas de himenópteros. Nos casos graves, porém, a alergia estava presente em 89%, lembrando-nos onde continua a estar uma parte muito importante do risco.[8]
Em Portugal, entre 2018 e 2021, o Centro de Informação Antivenenos registou 152 ocorrências atribuídas à Vespa velutina. Representaram menos de 1% das consultas anuais ao CIAV e a maioria correspondeu a manifestações locais de baixa gravidade.[10]
Estes dados não tornam a espécie inofensiva. Mostram apenas que a sua enorme expansão não foi acompanhada, até agora, por um aumento equivalente da mortalidade ou dos casos graves.
Talvez seja esta a forma mais equilibrada de olhar para a perigosidade da Vespa velutina. Não há evidência de que possua cinco ou sete vezes mais veneno do que uma vespa-europeia, nem de que o seu veneno seja excepcionalmente mais tóxico. A sua capacidade de ferroar repetidamente também não é exclusiva.
O que mudou profundamente foi a probabilidade de encontro.
Em muitos territórios temos hoje uma vespa social de grande dimensão, muito abundante, capaz de defender colectivamente o ninho e que instala as suas colónias exactamente nos espaços onde vivemos, trabalhamos, cultivamos terrenos ou fazemos uma refeição ao ar livre.
A maioria desses encontros ficará por aí. Outros envolverão uma pessoa alérgica, um movimento menos feliz ou, no pior cenário, um ninho que ninguém sabia estar a poucos metros.
É provavelmente por aqui, muito mais do que pelos supostos “sete vezes mais veneno”, que deve começar uma discussão séria sobre a perigosidade da Vespa velutina.
Referências e literatura consultada
Alonso-Sampedro, M. et al. (2023). Proteomics of Vespa velutina nigrithorax Venom Sac Queens and Workers: A Quantitative SWATH-MS Analysis. Toxins, 15, 266.
Alonso-Sampedro, M. et al. (2024). Peeking into the Stingers: A Comprehensive SWATH-MS Study of the European Hornet Vespa crabro Venom Sac Extracts. International Journal of Molecular Sciences, 25, 3798.
Schumacher, M.J., Tveten, M.S. & Egen, N.B. (1994). Rate and quantity of delivery of venom from honeybee stings. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 93, 831–835.
Monsalve, R.I. et al. (2020). Purification and molecular characterization of phospholipase, antigen 5 and hyaluronidases from the venom of the Asian hornet (Vespa velutina).PLoS ONE, 15, e0225672.
Meng, Y.C. et al. (2021). New bioactive peptides from the venom gland of a social hornet Vespa velutina. Toxicon, 199, 94–100.
Diéguez-Antón, A. et al. (2022). Embryo, Relocation and Secondary Nests of the Invasive Species Vespa velutina in Galicia (NW Spain).Animals, 12, 2781.
Choi, M.B. (2021). Defensive behavior of the invasive alien hornet Vespa velutina nigrithorax against potential human aggressors. Entomological Research, 51, 186–195.
Sinno-Tellier, S. et al. (2026). Public health impact of envenomation by Vespa velutina nigrithorax and other Hymenoptera in France: A multisource study. Journal of Allergy and Hypersensitivity Diseases, 9, 100062.
Herrera, C. & Leza, M. (2026). No evidence of increased mortality associated with Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) spread in Spain. Journal of Medical Entomology, 63(2), tjag039.
INIAV (2022). A vespa-asiática — Vespa velutina nigrithorax. Dados do Centro de Informação Antivenenos relativos a 2018–2021.
Já tenho escrito algumas vezes sobre os chamados Cavalos de Tróia no controlo da Vespa velutina. Uma das questões que esta técnica coloca no terreno é bastante simples: quando devemos começar?
Ninho de Vespa velutina (foto de Décio Dias)
Em julho ainda pode haver poucas velutinas à frente das colmeias. Capturá-las uma a uma dá trabalho e facilmente surge a tentação de esperar por agosto ou setembro, quando a pressão aumenta e conseguir dezenas de indivíduos num apiário pode tornar-se relativamente fácil.
Um trabalho realizado nas Astúrias em 2023 ajuda a olhar para esta questão de outra maneira.
Nesse ano, a SERPA, no âmbito do programa de controlo da Vespa velutina do Principado das Astúrias, acompanhou uma experiência de campo baseada na captura de obreiras, tratamento individual e posterior libertação, procurando que regressassem aos respectivos ninhos transportando o insecticida [1].
Foram estabelecidos 33 pontos de emissão e tratados e libertados 5.547 exemplares de Vespa velutina. O trabalho decorreu durante vários meses e, para avaliar os resultados, comparou-se a incidência de ninhos em 2022 e 2023 em círculos sucessivos em redor dos locais de libertação: 0–500 m, 500–1.000 m, 1.000–1.500 m e 1.500–2.000 m [1].
O primeiro resultado é bastante expressivo.
Nos primeiros 500 metros, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5%. Entre 500 e 1.000 metros a redução foi de 50,6%; entre 1.000 e 1.500 metros, de 27,8%; e entre 1.500 e 2.000 metros ficou pelos 4,2%.
No conjunto das Astúrias, nesse mesmo período, a redução do número de ninhos foi de apenas 3,2% [1].
Há portanto um gradiente muito claro: a redução foi máxima junto dos pontos onde os Cavalos de Tróia eram libertados e foi diminuindo à medida que aumentava a distância.
Mas, quando os autores olharam individualmente para os diferentes locais, encontraram resultados muito diferentes. E uma das variáveis que lhes chamou a atenção foi a data em que se tinha começado a trabalhar.
Separaram então os pontos onde os envios começaram antes e depois de 15 de agosto. A diferença foi suficientemente marcada para ser destacada no próprio relatório: começar mais cedo esteve associado a uma redução substancialmente maior da incidência de ninhos, particularmente nos primeiros 500 metros [1].
Os dados individuais permitem olhar ainda melhor para esta questão.
Dos 33 pontos, 14 começaram a trabalhar em julho. Comparando 2022 com 2023, nos primeiros 500 metros em redor desses locais contabilizaram-se, no conjunto, menos 37 ninhos.
Nos oito locais que só começaram em setembro ou posteriormente, o resultado foi praticamente o oposto: no conjunto havia mais 1 ninho.
Naturalmente, há aqui uma questão que precisava de ser verificada. Quem começou em julho teve muito mais semanas disponíveis e acabou também por libertar mais Cavalos de Tróia. Seria possível que o resultado se devesse simplesmente a isso.
Por essa razão, trabalhei estatisticamente os dados dos 33 pontos, cruzando data de início, número total de Cavalos de Tróia libertados e evolução do número de ninhos. A relação entre começar mais cedo e uma maior redução de ninhos mantém-se estatisticamente significativa mesmo quando se considera o número de Cavalos de Tróia enviados. Pelo contrário, o número total de indivíduos enviados, por si só, não apresentou uma relação estatisticamente significativa com a redução dos ninhos.
Não estamos perante uma experiência controlada que permita concluir que começar em julho foi a causa da redução observada. Há demasiadas variáveis no terreno para dar esse salto. Mas os resultados reforçam uma ideia que os próprios autores colocaram no relatório: o timing pode ser determinante.
E a explicação que propõem faz sentido biologicamente.
À medida que o verão avança, a população dos ninhos aumenta. Os autores consideram que a eficácia da técnica deverá diminuir à medida que o ninho cresce, porque diminui a proporção entre o número de velutinas tratadas que regressam ao ninho e a população total que se pretende atingir [1].
Para quem trabalha também com a Varroa, este princípio não é inteiramente estranho. O timing de um tratamento conta. Tratar uma colónia quando a população de ácaros ainda é relativamente baixa não é a mesma coisa que esperar que essa população tenha crescido várias vezes para depois tentar recuperar o controlo. Não porque Varroa e Vespa velutina sejam problemas biologicamente comparáveis, mas porque em ambos os casos existe uma ideia prática que vale a pena reter: é geralmente mais fácil controlar uma população enquanto ela ainda é pequena do que depois de a deixar crescer.
Em julho há menos velutinas à frente das colmeias e é mais difícil capturá-las. Mas os ninhos que pretendemos atingir são também muito menos populosos. Em setembro é muito mais fácil conseguir dezenas de velutinas num apiário, mas entretanto estamos a tentar atingir ninhos muito maiores.
Há ainda o factor tempo. O relatório observou que, após as libertações, a diminuição da pressão de velutinas nos apiários e o aumento da actividade das abelhas podiam começar a inverter-se ao fim de 10 a 15 dias [1]. Isto sugere que não devemos olhar para os Cavalos de Tróia como uma intervenção única, mas como um trabalho que pode necessitar de ser repetido. Começar cedo dá-nos também essa margem.
Os autores chegam a admitir que, no outono, a técnica poderá continuar a ter interesse para diminuir a pressão de Vespa velutina nos apiários, mas já sem a mesma expectativa de conseguir neutralizar os ninhos [1].
Não retiraria deste estudo uma regra dizendo que é obrigatório começar em julho. Os próprios dados não permitem chegar tão longe e o momento de desenvolvimento dos ninhos não será exactamente igual nas Astúrias, no Minho, na Beira Litoral ou noutras regiões.
Mas retiraria uma orientação prática que me parece importante: não esperaria que houvesse muitas velutinas à frente das colmeias para começar a fazer Cavalos de Tróia.
Pode parecer paradoxal, mas as poucas velutinas que conseguimos capturar em julho poderão valer mais, para chegar aos ninhos, do que as muitas que conseguimos capturar facilmente em setembro.
Referências — literatura científica e técnica
SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias. (2023). Evaluación de la técnica de neutralización remota de nidos de avispa asiática mediante envío de ejemplares impregnados con insecticida. Año 2023. Versión 1.1. Principado de Asturias.
Há poucos dias, um apicultor amigo e cliente dos meus serviços técnicos telefonou-me profundamente preocupado com a pressão da Vespa velutina no seu apiário. Conheço-lhe a dedicação às abelhas e percebi que a situação estava a ultrapassar aquilo que conseguia suportar. Conversámos sobre as possibilidades de intervenção e partilhei com ele informação técnica que tenho vindo a reunir sobre os chamados cavalos de Tróia cuticulares, uma abordagem cujo fundamento exige mais pesquisa do que aquela que habitualmente cabe nas conversas entre apicultores.
Dois dias depois voltou a telefonar. Depois de seguir as indicações que lhe tinha transmitido, praticamente deixara de observar velutinas no apiário e as abelhas tinham retomado os voos de forrageio. A mudança era muito expressiva para quem, pouco antes, via as suas colónias sob aquela pressão. Este relato documenta uma melhoria local; o destino dos ninhos envolvidos não foi acompanhado. Mas o alívio que descreveu, e sobretudo o regresso das abelhas ao trabalho, merecem atenção.
Há aqui uma aparente contradição que prefiro enfrentar directamente. Sim, estamos a falar do mesmo fipronil cuja utilização nas culturas agrícolas quisemos ver proibida para proteger as abelhas. Compreendo, por isso, a objecção de quem estranha que um apicultor admita agora discutir a sua utilização contra a velutina. Também considero que essa discussão fica incompleta quando o nome da substância dispensa qualquer consideração sobre as quantidades e as condições em que é utilizada.
As restrições europeias tiveram fundamento. Em 2013, a avaliação da EFSA identificou um risco agudo elevado para as abelhas associado às poeiras provenientes da sementeira de milho tratado com fipronil, além de lacunas relevantes noutras vias de exposição. O Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013 restringiu as utilizações e proibiu a utilização e a venda de determinadas sementes tratadas, com excepções expressamente previstas. Convém preservar esta precisão quando falamos da «proibição do fipronil». [1, 2]
A diferença de escala merece, contudo, entrar na conversa. A documentação da EFSA inclui ensaios em milho com aproximadamente 50 g de fipronil por hectare. No cenário teórico de consumo nominal que aqui considero, a intervenção sobre 140 mil ninhos corresponderia a 280 g, aproximadamente a quantidade associada a 5,6 hectares naquele referencial agrícola. São contas assentes em pressupostos de consumo e eficácia ainda por validar no terreno, mas a desproporção das quantidades é clara. [2]
Este cenário resulta de uma consulta intensiva de literatura europeia e asiática, cruzando trabalhos realizados em diferentes países e condições experimentais, com quantidades nominais explicitadas que permitem construir uma comparação fundamentada. O propósito foi aproximar uma faixa mínima de concentração que mereça investigação, e eventual utilização com expectativa alta de eficácia e fundamentada na literatura. Os fundamentos e os pressupostos que sustentam estas contas poderão ser apresentados, com maior detalhe, noutros contextos de discussão técnica; nesta publicação, interessa sobretudo tornar compreensível a diferença de escala entre as utilizações em análise.
Um raciocínio semelhante aparece num estudo de Paula Malaquias Souto, Soraia Sousa Santos, Nuno Capela e colaboradores. A equipa comparou teoricamente a quantidade de acetamiprido necessária para atingir 140 mil ninhos com a utilização agrícola, chegando a um total próximo de 100 g, da ordem do aplicado num hectare. O trabalho estudou outros insecticidas e não valida o fipronil nem o seu uso cuticular. Ainda assim, mostra que comparar estas escalas tem lugar na discussão científica. Os 140 mil ninhos referidos pelos autores são um total histórico acumulado até 2023, não uma contagem de ninhos activos num único ano. [3]
É neste sentido que considero a contradição mais aparente do que real. Ter defendido restrições a uma utilização agrícola com exposição das abelhas é compatível com querer estudar uma intervenção dirigida a um invasor, envolvendo quantidades globais muito diferentes. A coerência está no objectivo de proteger as abelhas e o funcionamento dos ecossistemas, acompanhando aquilo que sabemos sobre cada utilização.
Naturalmente, uma quantidade pequena de um insecticida muito tóxico pode continuar a causar danos. A comparação em gramas esclarece a escala do consumo; o impacto depende também de onde fica a substância, da sua persistência e dos organismos que lhe ficam expostos. É precisamente por isso que me parecem insuficientes tanto a rejeição automática como a garantia de inocuidade. Interessa conhecer o resultado ambiental concreto de uma intervenção eficaz e compará-lo com o que acontece quando a pressão da velutina se mantém.
Essa outra dimensão também tem números. Rome e colaboradores estimaram que uma colónia de Vespa velutina, ao longo do seu ciclo, necessita de cerca de 97 mil presas equivalentes a abelhas, correspondentes a aproximadamente 11,32 kg de insectos. Trata-se de uma estimativa construída a partir das necessidades alimentares e do desenvolvimento colonial. Se 140 mil colónias completassem um ciclo comparável, a extrapolação aproximar-se-ia de 1 585 toneladas de insectos. A predação correspondente às cerca de 1 600 toneladas de insectos estimadas neste cenário merece também ser considerada nas suas consequências para a rede alimentar: parte dessas presas deixa de estar disponível para aves, aranhas e outros predadores nativos. [4]
No apiário, o prejuízo também passa pelas abelhas que deixam de sair. Foi essa mudança que o meu amigo descreveu no segundo telefonema: voltou a vê-las trabalhar. A redução do forrageio, a dificuldade em manter a entrada de alimento e o definhamento das colónias fazem parte do problema que o apicultor enfrenta. E a discussão interessa igualmente a quem depende da polinização, a quem trabalha nos pomares e lida com vespas nos frutos e durante a colheita, ou a quem encontra um ninho perto de casa.
Gostaria, por isso, que voltássemos a olhar para esta questão com sensibilidade para as duas escalas e para os dois lados do impacto. Que consequências teria para o ecossistema uma utilização dirigida de quantidades tão reduzidas de fipronil, caso se confirmasse a sua eficácia? E que consequências tem a permanência de uma população de velutinas desta dimensão para os insectos, para a apicultura e para as restantes actividades afectadas? O telefonema daquele apicultor não resolve estas perguntas. Dá-me, porém, uma razão concreta para desejar que sejam discutidas sem respostas demasiado fáceis.
Documentos oficiais e estudos
Comissão Europeia (2013). Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013, de 14 de Agosto de 2013, relativo às condições de aprovação do fipronil e à proibição da utilização e venda de sementes tratadas com produtos fitofarmacêuticos que contenham esta substância activa. Jornal Oficial da União Europeia, L 219, 22–25.