Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.
Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.
O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.
2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico
A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.
Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.
Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:
“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”
Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.
E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.
2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização
Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.
As doenças não precisam de passaporte.
2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola
Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.
Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.
A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”
E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”
2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos
Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.
Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.
“ Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology
A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:
crescimento populacional superior ao da Varroa;
enorme dependência da criação;
curta permanência sobre as abelhas adultas;
dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.
A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.
O que mais me impressiona
O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.
É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.
Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”
Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.
A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.
Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico
Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.
Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.
Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.
Uma última reflexão
Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.
A prevenção começa sempre muito antes da emergência.
Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.
A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.
O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.
Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.
Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.
A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.
O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.
O exemplo da Nova Zelândia
Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.
Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.
O dispositivo Vespex
À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.
O Vespex não nasceu para a Vespa velutina
Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:
Vespula germanica (vespa-germânica);
Vespula vulgaris (vespa-comum).
Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.
Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.
Colocação do isco proteico com fipronil no Vespex
Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização
O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.
Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.
Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.
Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.
Os resultados obtidos contra a vespa-germânica
Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:
redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.
Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.
Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.
A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?
Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.
Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:
radio-rastreamento;
armadilhas;
procura intensiva em campo;
drones térmicos;
sistemas de inteligência artificial.
Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:
confirmadas 77 rainhas;
destruídos 132 ninhos;
sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.
Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.
O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?
Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.
É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.
O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:
existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.
Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:
utilização operacional;
e
evidência científica consolidada.
Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.
Então porque avança a Nova Zelândia?
Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.
Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:
“Qual é o risco desta substância?”
A Nova Zelândia começa por perguntar:
“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”
Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.
É uma lógica típica da biosegurança.
O sistema é mais importante do que a molécula
Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.
Avalia todo o sistema:
estação de isco fechada;
alimento proteico específico;
período limitado de utilização;
recolha posterior;
colocação dirigida;
integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.
Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.
Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.
A grande diferença ecológica
Existe ainda outro argumento pouco conhecido.
Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:
Vespa crabro;
Vespula germanica;
Vespula vulgaris;
espécies de Polistes;
espécies de Dolichovespula.
Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.
Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.
Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.
O que a Europa deveria estudar melhor?
Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.
Temos muitos trabalhos sobre:
toxicidade do fipronil;
persistência ambiental;
riscos para organismos não-alvo.
Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:
Quantos ninhos são realmente destruídos?
Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
Qual é a redução anual da população regional?
Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?
Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.
A pergunta que continua sem resposta
Talvez a verdadeira questão não seja:
“O fipronil é perigoso?”
A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.
A questão verdadeiramente interessante é outra:
“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”
Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.
A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.
Será essa a melhor solução?
Ainda não sabemos.
Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.
Os grandes incêndios que, nos últimos dias, ameaçam Bordéus poderão ficar na história como um momento de viragem na forma como olhamos para os incêndios florestais na Europa. Não se trata apenas de mais um incêndio de grandes dimensões. Trata-se de um incêndio que, em vários momentos, apresentou um comportamento extremo, gerando a sua própria meteorologia através de intensos fenómenos de piroconvecção e da formação de nuvens de fogo (Pyrocumulonimbus ou PyroCb).
Até há poucos anos, este tipo de comportamento era considerado característico de países como a Austrália ou o Canadá. Hoje sabemos que já faz parte da realidade europeia.
Pyrocumulonimbus, Gironde 2026
De Bordéus para a Austrália… passando por Portugal
A comparação com a Austrália não surge por acaso. Nos incêndios australianos de 2019-2020 observaram-se dezenas de tempestades de fogo, capazes de produzir ventos próprios, relâmpagos, projeção de brasas a quilómetros de distância e até de injetar fumo na estratosfera.
O incêndio da Gironde não atingiu essa dimensão planetária, mas apresentou vários dos mesmos mecanismos físicos.
Curiosamente, Portugal poderá ter sido um dos primeiros países europeus onde este comportamento ocorreu. Estudos publicados nos últimos anos sugerem que os incêndios de Pedrógão Grande e de outubro de 2017 desenvolveram intensa piroconvecção, embora esse fenómeno só tenha sido plenamente compreendido pela comunidade científica após os acontecimentos.
Nesse sentido, Portugal poderá ter sido um precursor involuntário daquilo que hoje começa a repetir-se noutros países europeus.
Incêndio no pinhal de Leiria, 2017
O incêndio cria a sua própria meteorologia
Durante décadas aprendemos que o vento, a temperatura e a humidade condicionavam o comportamento do fogo.
Hoje percebemos que, quando a energia libertada ultrapassa determinado limiar, a relação inverte-se.
O incêndio aquece violentamente o ar, gera enormes colunas convectivas, cria ventos locais, modifica a circulação atmosférica e pode originar tempestades de fogo.
A partir desse momento, deixa de ser apenas a meteorologia a controlar o incêndio. É também o incêndio que passa a influenciar a meteorologia.
É esta mudança de paradigma que torna os megaincêndios tão difíceis de prever e combater.
Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
Porque é tão difícil combatê-los?
Quando um incêndio entra numa fase convectiva extrema, muitas das estratégias clássicas deixam de funcionar como habitualmente.
Os bombeiros franceses recorreram, como é habitual, a linhas de contenção, proteção de povoações, meios aéreos e, em determinadas situações, a fogo tático (backburning).
No entanto, perante um incêndio capaz de lançar brasas muito para além das linhas de defesa e de alterar continuamente a direção dos ventos, o objetivo deixa muitas vezes de ser apagar diretamente a frente de fogo.
Passa antes por proteger vidas, defender infraestruturas e limitar a propagação para zonas críticas.
Os próprios responsáveis franceses reconheceram que existem momentos em que não se combate diretamente o incêndio; tenta-se apenas gerir a sua progressão até que as condições meteorológicas permitam recuperar o controlo.
Não é possível o combate directo a este monstro! Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
O papel do fogo tático
O fogo tático continua a ser uma ferramenta extremamente importante.
Na Austrália constitui uma das principais técnicas de combate, sendo utilizado por equipas altamente especializadas. Em Portugal e em França também é utilizado, embora de forma muito mais seletiva.
Contudo, importa compreender uma limitação fundamental. O fogo tático funciona porque elimina antecipadamente o combustível existente entre a linha de defesa e a frente de incêndio.
Mas quando um megaincêndio produz projeção de brasas a centenas de metros ou mesmo quilómetros de distância, pode ultrapassar essas zonas já queimadas e iniciar novos focos para além delas.
Não significa que o fogo tático tenha sido mal executado. Significa apenas que o comportamento do incêndio ultrapassou aquilo para que esta técnica foi concebida.
Será então o fogo prescrito a solução?
A resposta é mais complexa do que parece.
O fogo prescrito realizado durante o inverno reduz eficazmente a carga de combustível e diminui o risco de muitos incêndios.
Mas perante condições meteorológicas absolutamente excecionais — como várias ondas de calor sucessivas, seca extrema, humidades muito baixas e ventos intensos — também ele revela muitas limitações.
Alguns investigadores australianos explicam-no de forma muito simples. O fogo prescrito não é um tratamento intensivo. É uma vacina.
Não impede todos os incêndios, mas reduz em parte a probabilidade de que eles evoluam para comportamentos extremos.
Quanto mais cedo se reduzir o combustível, menor será a energia disponível quando surgir uma ignição. Mas em certos contextos de meteorologia extrema o fogo prescrito é um balde de água onde seria necessário um rio.
Mais importante do que reduzir combustível é reduzir continuidade
Talvez uma das maiores mudanças de pensamento dos últimos anos seja esta.
O problema não é apenas existir muito combustível. É existir combustível contínuo durante dezenas ou centenas de quilómetros.
Uma paisagem composta exclusivamente por floresta e matos densos funciona como um enorme pavio.
Pelo contrário, uma paisagem onde coexistem agricultura, pastagens, zonas recentemente geridas, diferentes tipos de floresta e áreas abertas dificulta muito mais a propagação do fogo.
É o conceito da paisagem em mosaico.
Mas quem vai manter esse mosaico?
É aqui que, provavelmente, reside o verdadeiro problema.
Durante séculos, a paisagem portuguesa foi mantida não porque existisse uma política de prevenção de incêndios, mas porque existia uma economia rural.
Pastores, agricultores, apicultores, resineiros, lenhadores e pequenos produtores geriam diariamente o território porque dele retiravam o seu sustento.
Hoje, muitas dessas atividades desapareceram ou deixaram de ser economicamente viáveis.
Sem pessoas no território, o mato regressa inevitavelmente. E regressa todos os anos.
O verdadeiro desafio não é florestal. É económico.
Podemos desenhar excelentes planos de gestão da paisagem. Podemos identificar onde criar mosaicos. Podemos definir as melhores técnicas de redução de combustível.
Mas permanece uma pergunta essencial:
Quem fará esse trabalho daqui a vinte ou trinta anos?
Se ser pastor, agricultor ou gestor florestal continuar a proporcionar rendimentos insuficientes, dificilmente haverá pessoas disponíveis para manter esse território.
Talvez seja por isso que muitos especialistas defendem uma mudança de perspetiva.
Em vez de perguntar apenas “como reduzimos o combustível?”, talvez devêssemos perguntar:
“Como tornamos economicamente interessante viver e trabalhar na floresta?”
Porque uma paisagem resistente ao fogo não depende apenas de bombeiros, aviões ou fogo prescrito.
Depende, acima de tudo, de pessoas.
E talvez essa seja a maior lição que nos deixa o incêndio de Bordéus: os megaincêndios do século XXI combatem-se no verão, mas previnem-se durante todo o ano, através da gestão da paisagem e de uma economia rural capaz de manter vivo o território.
Quem paga pela prevenção?
Chegados aqui, talvez devamos fazer a pergunta mais difícil de todas.
Todos concordamos que é necessário reduzir o combustível, criar paisagens em mosaico, manter a floresta gerida e evitar o abandono do mundo rural. Mas quem fará esse trabalho? E porquê?
Durante séculos, foi a economia rural que manteve a paisagem. Pastores, agricultores, apicultores, resineiros e produtores florestais não limpavam o território para prevenir incêndios; faziam-no porque dele retiravam o seu sustento. Hoje, muitas dessas atividades deixaram de ser suficientemente rentáveis e, por isso, desapareceram. Sem pessoas, a vegetação regressa e o combustível acumula-se.
Talvez o maior desafio não seja técnico, mas económico. Uma paisagem resistente ao fogo presta um enorme serviço à sociedade: protege vidas, habitações, infraestruturas, biodiversidade, recursos hídricos e reduz os custos do combate e da reconstrução. No entanto, quem suporta o custo diário dessa gestão é, quase sempre, o proprietário ou quem trabalha a terra.
Estas são as chamadas externalidades positivas: benefícios gerados por uma atividade privada que são usufruídos por toda a sociedade. Se todos beneficiamos de uma paisagem mais resiliente aos incêndios, faz sentido perguntar se não deveríamos também contribuir para remunerar quem a mantém.
Talvez a grande questão do futuro não seja apenas como combater os megaincêndios, mas se a sociedade está disposta a pagar pela sua prevenção. Porque, no fundo, o trabalho realizado durante todo o ano por quem vive e gere o território não é apenas uma atividade agrícola ou florestal; é também um serviço público de enorme valor.
Se continuarmos a remunerar apenas o combate ao fogo e não a gestão da paisagem, arriscamo-nos a repetir o mesmo ciclo: investir milhares de milhões de euros quando a floresta arde, mas muito menos naquilo que poderia evitar que ela ardesse com tanta violência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a prevenção também tem um preço e que esse preço deve refletir o valor das externalidades positivas produzidas por quem mantém vivo o mundo rural.
Mais do que um problema económico: uma questão de reconhecimento social
Mas existe ainda uma dimensão de que pouco se fala.
Mesmo que conseguíssemos tornar estas atividades economicamente mais interessantes, permaneceria outro problema: a falta de reconhecimento social.
Durante muitas décadas, o sucesso passou a ser associado ao trabalho urbano, aos escritórios, às profissões tecnológicas e aos serviços. Pelo contrário, profissões como pastor, agricultor, apicultor, resineiro ou produtor florestal perderam prestígio social. Para muitos jovens, trabalhar no campo deixou de ser visto como uma opção de futuro, independentemente do rendimento que possa proporcionar.
No entanto, estas profissões desempenham hoje funções que vão muito para além da produção de carne, leite, mel, resina ou madeira. São elas que mantêm caminhos abertos, reduzem a carga de combustível, conservam habitats, promovem a biodiversidade, ajudam a regular os ciclos da água e tornam a paisagem mais resistente aos incêndios.
Paradoxalmente, quanto mais reconhecemos a importância destes serviços para a sociedade, menos reconhecimento social atribuímos a quem os presta.
Talvez seja necessário recuperar não apenas a rentabilidade económica destas profissões, mas também o seu estatuto social. Porque um pastor não é apenas alguém que guarda um rebanho. Um apicultor não produz apenas mel. Um resineiro não extrai apenas resina. São, todos eles, gestores do território, prestadores de serviços ambientais e agentes ativos da prevenção dos grandes incêndios.
Uma sociedade que pretende conviver com as alterações climáticas terá provavelmente de fazer duas escolhas. A primeira é remunerar as externalidades positivas produzidas por quem vive e trabalha no mundo rural. A segunda é voltar a valorizar socialmente essas profissões, reconhecendo que são tão essenciais ao funcionamento do território como muitas outras que hoje desfrutam de maior prestígio.
Porque, no fim de contas, talvez o verdadeiro luxo do século XXI não seja viver longe da natureza, mas haver pessoas que continuem a cuidar dela todos os dias. É esse trabalho silencioso que mantém a paisagem viva e reduz a probabilidade de voltarmos a assistir aos megaincêndios que hoje começam a marcar o sul da Europa.
Portugal tem médios de elite. Vitinha, João Neves, Bernardo Silva e Bruno Fernandes são jogadores de topo, com qualidade para brilhar em qualquer grande seleção. E, no entanto, quando os vemos juntos de quinas ao peito, a sensação repete-se: há talento, mas falta fluidez; há qualidade, mas falta coerência; há nomes, mas não há uma ideia forte de jogo.
O problema, na minha leitura, não está nos jogadores. Está no facto de Portugal juntar, no mesmo onze, futebolistas que pedem contextos muito diferentes — e não ter uma estrutura coletiva suficientemente clara para os conciliar.
Vitinha, João Neves e Bernardo pedem estrutura
Vitinha, João Neves e Bernardo são jogadores que crescem em equipas organizadas, compactas e relacionais. Precisam de:
linhas de passe próximas;
mobilidade à frente da bola;
apoios entre linhas;
circulação curta e inteligente;
uma frente móvel que ofereça soluções e arraste marcações.
São médios de controlo, relação, posse limpa e inteligência posicional. Não vivem do caos. Vivem da qualidade da estrutura.
E isso ajuda a perceber porque é que Vitinha e João Neves parecem tão mais funcionais no PSG. Em Paris jogam atrás de uma frente dinâmica, com trocas posicionais, rupturas, apoios curtos e movimentos permanentes. O passe deles entra num sistema vivo. Na seleção, demasiadas vezes, entra num sistema mais rígido, mais previsível e mais preso a uma referência fixa.
Bruno Fernandes pede outra coisa
Bruno Fernandes é um grande jogador, mas o seu habitat é diferente. Bruno não é um médio de cozinhar o jogo. É um médio de o incendiar.
Vive do passe de rutura, da aceleração precoce, do risco, da verticalidade, do remate e do desequilíbrio imediato. É um jogador que muitas vezes cria do nada — e é precisamente por isso que tem tanto valor. Mas o seu jogo também parte a equipa, acelera a posse antes de ela estar estabilizada e empurra o jogo para um registo mais aberto, mais caótico, mais emocional.
O problema é que esse tipo de jogo não casa naturalmente com o futebol de Vitinha, João Neves e Bernardo. Uns pedem ordem, proximidade e circulação; Bruno pede risco, profundidade e agressão imediata.
Cristiano Ronaldo acentua a contradição
Se a isto juntarmos Cristiano Ronaldo como referência ofensiva, a tensão cresce ainda mais.
Ronaldo continua a ser um finalizador extraordinário, fortíssimo na área e no último toque. Mas já não é, nesta fase da carreira, um avançado de mobilidade constante, de pressão alta contínua ou de apoios repetidos entre linhas. Isso muda a forma como os médios podem servi-lo — e limita o tipo de jogo que a equipa consegue construir.
Vitinha e João Neves rendem mais quando têm à frente jogadores que:
aparecem no apoio;
atacam a profundidade;
trocam de posição;
abrem ângulos de passe;
arrastam defesas.
Bruno rende mais quando tem alvos móveis para os seus passes mortais. Com uma frente mais fixa e centrada em servir a referência, o jogo torna-se mais previsível, mais linear e menos favorável ao melhor de todos estes médios.
Portugal parece uma equipa que quer jogar três jogos ao mesmo tempo
É essa a sensação que a seleção transmite.
Parece uma equipa dividida entre:
o futebol associativo de Vitinha;
a agressividade lúcida de João Neves;
o jogo de relação e controlo de Bernardo;
a verticalidade caótica de Bruno;
e a centralidade finalizadora de Ronaldo.
Todos são excelentes. O problema é que não estão a ser integrados dentro de uma ideia forte — estão a ser somados.
E somar talento não basta.
O problema não é de qualidade. É de compatibilidade e de modelo
Portugal não joga pouco por falta de bons jogadores. Joga pouco porque tem jogadores excelentes a pedir contextos diferentes e não decide claramente que equipa quer ser.
Se a ideia é potenciar Vitinha, João Neves e Bernardo, então Portugal tem de assumir um futebol:
mais posicional;
com frente móvel;
com mais jogo interior;
com menos dependência de uma referência fixa.
Se a ideia é potenciar Bruno e um jogo mais vertical, então a equipa tem de viver melhor na transição e ter uma frente muito mais agressiva a atacar espaços.
O que parece mais difícil é querer tudo ao mesmo tempo. Porque nesse caso o talento não se soma — neutraliza-se.
Conclusão
Portugal tem qualidade para jogar muito mais do que joga. Mas enquanto não decidir que jogo quer realmente jogar, continuará a parecer uma seleção estranhamente pobre para a riqueza de jogadores que tem.
Vitinha, João Neves, Bernardo, Bruno e Ronaldo podem coexistir. Mas não basta colocá-los no mesmo onze. É preciso construir um modelo onde as virtudes de uns não anulem as virtudes dos outros.
Neste momento, Portugal parece menos uma equipa e mais uma negociação permanente entre estilos incompatíveis. E esse, mais do que qualquer falha individual, é o verdadeiro problema.
A Zero Velutina 2.0 é apresentada como uma evolução da anterior armadilha de uso duplo: pode ser utilizada para a captura de rainhas fundadoras entre fevereiro e maio, ou como armadilha “troiana” supervisionada entre maio e junho, sempre de acordo com a legislação e autorização aplicáveis em cada zona apícola. O produto é descrito como capaz de capturar vespas asiáticas vivas, permitindo que estas se alimentem do atrativo e, ao sair, transportem nas patas e na parte inferior do abdómen um agente letal de ação retardada, levando-o até ao ninho.
Segundo a descrição comercial, esta abordagem procura substituir o método manual dos “cavalos de Troia”, em que as vespas são capturadas uma a uma, impregnadas com o produto e libertadas. A vantagem prometida é operacional: poupa tempo, reduz o trabalho manual e permite que a própria vespa regresse viva ao ninho, podendo ainda indicar a outras obreiras a existência de uma fonte de alimento.
O fabricante afirma que, após poucos dias de uso, a pressão sobre as colmeias diminui de forma acentuada. Na fase de captura de fundadoras, a armadilha seria também eficaz por matar rainhas e, desse modo, impedir a formação de ninhos primários. A própria ficha, contudo, sublinha que este tipo de utilização requer autorização dos serviços locais de ambiente e consulta da regulamentação aplicável.
Análise crítica
Este tipo de armadilha tem uma lógica biologicamente interessante: em vez de matar imediatamente a vespa capturada, explora o seu comportamento de retorno ao ninho e de recrutamento para fontes alimentares. Em teoria, isto pode transformar uma simples armadilha individual num mecanismo de impacto sobre a colónia. Esta é precisamente a força dos chamados “cavalos de Troia”: atacar o ninho mesmo quando este ainda não foi localizado.
A principal vantagem prática é evidente. O método manual exige tempo, perícia e presença constante no apiário. Uma armadilha que automatize parte desse processo pode ser apelativa para apicultores sob forte pressão predatória. Em apiários com muitas velutinas em caça estacionária, reduzir rapidamente a pressão pode fazer a diferença entre colónias bloqueadas e colónias que ainda conseguem voar, ventilar, recolher pólen e defender-se.
Mas há três reservas importantes.
A primeira é legal e ambiental. A ficha do produto não deixa dúvidas: a utilização como “troiano” depende de autorização. Isto é essencial, porque estamos a falar da libertação de insetos contaminados com um agente letal retardado. Em Portugal, o enquadramento oficial continua a privilegiar a vigilância, a comunicação de ninhos e a sua destruição por meios autorizados; a DGAV refere a destruição dos ninhos como o melhor método para limitar localmente o impacto da Vespa velutina. O ICNF mantém também o Plano de Ação nacional para vigilância e controlo da espécie.
A segunda reserva é ecotoxicológica. Qualquer sistema baseado num agente letal transportado por vespas vivas levanta a pergunta: que substância é usada, em que dose, com que persistência, e que risco existe para outros insetos, aves insetívoras, pequenos vertebrados ou organismos decompositores? Quanto mais potente e persistente for o agente, maior a necessidade de controlo técnico. A eficácia não pode ser avaliada apenas pelo número de velutinas que desaparecem do apiário; tem de ser avaliada também pelo rasto ambiental deixado.
A terceira reserva é científica e operacional. A descrição comercial promete redução acentuada da pressão “em poucos dias”, mas não apresenta dados comparativos: número inicial de vespas, número de ninhos afetados, distância ao ninho, dose usada, seletividade, mortalidade de organismos não-alvo, repetição entre apiários, ou comparação com armadilhas convencionais e destruição de ninhos. Sem estes dados, a afirmação deve ser lida como promessa comercial e não como demonstração experimental.
Em conclusão, a Zero Velutina 2.0 parece ser uma evolução interessante das armadilhas convencionais, aproximando-se do conceito de “cavalo de Troia” automatizado. Pode ter utilidade em situações de forte pressão predatória, desde que usada por pessoas autorizadas, com produto homologado, protocolo claro e supervisão. Não deve, contudo, ser vista como solução isolada. O controlo da Vespa velutina continua a exigir uma estratégia integrada: deteção precoce, captura seletiva quando justificada, proteção dos apiários, localização e destruição de ninhos, e prudência máxima no uso de biocidas.
Deixo o testemunho do Eduardo Côrte-Real sobre os “dias seguintes” à sua frequência do meu curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano“.
Boa noite e bom ano Eduardo. Peço desculpa pela demora mas só hoje é que consegui terminar os testes que queria fazer. Não há dúvida nenhuma que nunca tive abelhas como tenho agora. Também tenho percas, mas o que está bom nunca esteve assim. O maior ganho que obtive, nem foram as ferramentas que apresentaste, mas sim o critério e o pormenor que utilizas. Decididamente não posso utilizar os fundos sanitários para avaliar taxas de infestação. A resistência que tinha em sacrificar as 300 abelhas para aferir as percentagens era grande erro meu. Tenho hoje 3 opções para combater a varroa muito satisfatórias. Concluí que a eficácia dos tratamentos não é linear em todas as colónias. Mas se não for com um método, consegue-se com outro. O Protocolo Inovador é muito bom, mas trabalhoso. Também consegui bons resultados com o oxálico sublimado 5 vezes com 4 dias de intervalo e com o amicel, uma tira por semana, vezes 3 semanas. Fiz outras experiências mas o resultado não foi tão satisfatório. Grande abraço.”
O Eduardo Côrte-Real, para quem não conhece, é apicultor com colmeias na zona de Cantanhede, criador reconhecido de boas rainhas autóctones nesta zona centro do país, sendo a escolha preferencial de vários apicultores que são meus clientes dos serviços técnicos de apoio no apiário.
A propósito informo que se encontra aberta uma nova edição do curso “Controlo Efectivo da Varroose”, a decorrer via Zoom, nas seguintes datas:
20 de fevereiro
27 de fevereiro
6 de março
O curso é composto por 3 sessões e tem como objetivo dotar os formandos de uma abordagem prática, fundamentada e atualizada para o controlo da varroose.
Ao longo das sessões serão abordados, entre outros, os seguintes temas:
A mudança necessária no paradigma de actuação para controlar a Varroose ao longo do ano
A taxa de crescimento da varroa ao longo do ano: as 3 velocidades de crescimento
Que tempo se “compra” entre tratamentos: das ilusões ao realismo
2 critérios inovadores para uma escolha mais ajustada dos acaricidas
Tratamentos mais baratos, em resposta às questões e necessidades colocadas/apresentadas por apicultores portugueses
Os limiares aconselhados para intervir
Os medicamentos mais oportunos e respetivos protocolos de utilização
Tratamentos proactivos: o que são e seu papel crítico na definição de estratégias de controlo da Varros
Monitorização da taxa de infestação por varroa: procedimentos correctos e limiares de actuação
O simulador de varroa de Randy Oliver e a sua parametrização para o território de cada formando/apicultor
Aplicação do simulador a territórios concretos com proposta de tratamentos
O Protocolo Inovador: fundamentos, operacionalização, detalhes de optimização do seu potencial, filmagens de sua aplicação e resultados obtidos.
Solicite mais informações enviando e-mail para: jejgomes@gmail.com
No âmbito do acompanhamento técnico regular, realizei hoje uma visita com análise aprofundada a cerca de 25% das colónias dos apiários da Quinta da Machada, com foco na avaliação sanitária e no estado nutricional.
O primeiro aspeto que merece destaque é o efeito prolongado do Protocolo Inovador de controlo da Varroose. A última aplicação foi realizada há cerca de 90 dias, e os resultados observados — ilustrados nas fotografias que acompanham esta publicação — mostram uma eficácia elevada, na ordem dos 95%, valor que tem sido recorrente quando o protocolo é corretamente aplicado. Mesmo após este intervalo de tempo, a pressão de Varroa mantem-se baixa e controlada, o que demonstra não apenas a eficácia imediata, mas também a consistência e durabilidade deste protocolo.
Este desempenho reflete-se nos indicadores globais do efetivo. Durante o ano de 2025, registou-se o colapso por varroose de apenas uma colónia, num universo superior a 100 colónias em produção. Este dado é particularmente relevante num contexto em que a varroose continua a ser a principal causa de perdas de colónias, e demonstra o impacto de uma estratégia sanitária estruturada, baseada em monitorização, timing correto e aplicação rigorosa dos procedimentos.
Um segundo indicador técnico observado foi o armazenamento significativo de pão de abelha em muitas colónias. A presença de reservas proteicas excedentárias indica que a recolha de pólen ultrapassa as necessidades imediatas de consumo, o que só ocorre quando as colónias apresentam boa vitalidade, equilíbrio demográfico e ausência de stress sanitário relevante. O armazenamento de pão de abelha constitui um excelente marcador indireto do estado sanitário e nutricional, refletindo eficiência forrageira e capacidade metabólica adequada.
Apesar do bom desempenho global, foram identificadas colónias com desenvolvimento mais lento. Nestes casos, está a ser implementado apoio técnico dirigido, recorrendo a suplementação proteica, ajustada ao estado de cada colónia. Este apoio tem como objetivo reduzir assimetrias no apiário, acelerar a recuperação das colónias mais atrasadas e promover uma evolução mais homogénea do conjunto, sem comprometer o equilíbrio nutricional.
Do ponto de vista ambiental, observa-se atualmente um incremento progressivo de recursos florais, com o campo a entrar numa fase de forte potencial polinífero e nectarífero. Este cenário apresenta boas perspetivas para a campanha, desde que os apiários se encontrem devidamente estabilizados do ponto de vista sanitário. Colónias com cargas elevadas de Varroa ou pressão viral não conseguem converter este potencial em produtividade efetiva, reforçando a importância do controlo prévio da varroose.
Tudo isto reforça uma ideia central: o sucesso da apicultura começa muito antes da florada. A visita confirma que o controlo eficaz da Varroose é um pré-requisito para qualquer estratégia produtiva, e que os resultados observados no campo são diretamente proporcionais à qualidade do maneio sanitário implementado ao longo do ano.
Neste contexto, e em resposta a diversos pedidos — em particular de apicultores que enfrentaram perdas significativas e dificuldades técnicas no ano transato — será anunciada em breve uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, incluindo os procedimentos detalhados de aplicação do Protocolo Inovador. As datas serão divulgadas oportunamente, permitindo a mais apicultores adquirir ferramentas técnicas para enfrentar este desafio de forma informada, consistente e sustentável.
A propósito da publicação anterior foi-me perguntado se a tecnologia de silenciamento de genes estava a ser investigada/aplicada com o objectivo de erradicar/controlar as populações de V. velutina. Os estudos não são muitos, ao que me parece e, entre outros, destaco este que está a ser desenvolvido na Universidade de Lausanne.
V.E.S.P.A. — Vespa velutina Eradication through gene Silencing and Precise AI-based recognition
Projeto do iGEM Lausanne 2024, conduzido por estudantes da Universidade de Lausanne (Suíça).
🎯 Objectivo principal
Desenvolver um sistema biotecnológico e inteligente para controlar a vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax), espécie invasora que ameaça abelhas e ecossistemas europeus.
A abordagem combina:
Silenciamento de genes (RNAi / shRNA) — para enfraquecer ou eliminar as vespas;
Visão computacional (IA) — para garantir que apenas V. velutina é visada;
Entrega seletiva da substância — evitando impacto em espécies nativas.
⚙️ Conceito científico
1. Silenciamento genético (RNAi / shRNA)
O RNA de interferência (RNAi) é usado para “desligar” genes essenciais ao desenvolvimento ou sobrevivência da vespa.
O grupo da UNIL planeia sintetizar pequenas moléculas de RNA em forma de hairpin (shRNA) que, ao serem ingeridas, impedem a produção de proteínas vitais.
Entre os genes-alvo propostos estão:
V-ATPase — gene essencial ao metabolismo celular;
VgR (receptor de vitelogenina) — relacionado com a reprodução;
Chitin synthase (Chs1 / Chs2) — necessário à formação do exoesqueleto.
Estes genes foram escolhidos por apresentarem alta especificidade para V. velutina, minimizando riscos de afetar insetos nativos.
2. Vetor biológico (entrega da molécula)
O RNA de silenciamento seria produzido por bactérias modificadas (não patogénicas), que funcionariam como “transportadoras” vivas.
Estas bactérias seriam incorporadas num isco alimentar destinado às larvas da vespa (que são carnívoras e alimentadas pelos adultos).
Ao ingerir o isco, as larvas absorveriam o shRNA, levando ao silenciamento do gene e, em teoria, à morte ou infertilidade.
3. Sistema inteligente de identificação (VespAI)
O grupo desenvolveu o protótipo de um sistema de reconhecimento por IA, denominado VespAI, treinado para identificar Vespa velutina através de imagem (forma do corpo, coloração, tamanho).
Só quando o sistema reconhece a vespa-alvo é que liberta o isco com RNAi, garantindo seletividade e segurança ecológica.
Implementação e estado atual
O projeto está ainda em fase laboratorial e de simulação, não em campo.
Foram realizados:
Modelos in silico de estrutura genética e análise de alinhamento de sequências para garantir especificidade;
Simulações de eficácia do RNAi (com softwares de biologia molecular);
Protótipos iniciais de IA para reconhecimento visual da vespa asiática.
A fase experimental prática (testes em insetos vivos) ainda não decorreu, por questões éticas e de biossegurança.
⚠️ Considerações éticas e ambientais
A equipa reconhece que o uso de organismos geneticamente modificados e RNAi em ambiente aberto exige avaliação de biossegurança rigorosa.
Por isso, o projeto é conceptual e não visa libertação em campo nesta fase.
Propõem um futuro modelo de implementação controlada, com sistemas fechados de alimentação seletiva (ex.: caixas inteligentes em apiários).
🌍 Impacto potencial
Se for bem-sucedido, o método:
poderia reduzir drasticamente as populações de Vespa velutina sem afetar outras espécies;
representaria uma alternativa ecológica ao uso de inseticidas químicos;
e integraria tecnologia de biologia sintética + inteligência artificial, criando um modelo de controlo seletivo e automatizado de pragas invasoras.
🧠 Em suma
Elemento
Descrição
Instituição
Universidade de Lausanne (Suíça)
Ano / programa
iGEM 2024
Nome do projeto
V.E.S.P.A.
Abordagem
RNAi / shRNA + visão por IA
Alvo
Vespa velutina nigrithorax
Estado atual
Laboratorial (conceitual, sem testes em campo)
Potenciais benefícios
Controlo seletivo, sem químicos, compatível com apicultura
Principais desafios
Entrega eficaz do RNA, biossegurança, regulamentação
No próximo dia 4 de outubro, a JGS Beekeeping abre as portas para um dia dedicado à partilha de conhecimento, experiências e boas práticas em apicultura.
📢 Oradores convidados:
Eduardo Gomes
Bruno Moreira
Henrique Rebelo
🛠️ Workshops práticos:
Tiago Morais
Candace
📍 O encontro será nas instalações da JGS e promete ser um momento único de aprendizagem e convívio entre apicultores e amantes das abelhas.
⚠️ A participação é gratuita, mas é necessária inscrição prévia (link na legenda).
👉 Não perca esta oportunidade de aprender, partilhar e viver de perto a paixão pelas abelhas.
O Ricardo fez o percurso formativo “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano” nos meses de março e abril. Ontem enviou-me este e-mail. Liguei-lhe para que me desse autorização para partilhar o seu testemunho com os leitores do meu blogue — a exemplo do que já fiz no passado com testemunhos de outros companheiros. Generosamente assentiu. O meu grande bem-haja!
Fica a transcrição do e-mail recebido, onde retirei duas pequenas partes pela sua natureza mais pessoal.
“Bom dia Sr. Eduardo,
Escrevo-lhe este e-mail para lhe dar conta da minha experiência com o tratamento inovador.
Este ano comecei a época com 8 colmeias, tendo ideias de desdobrar 2 delas para fazer 6 novos enxames. Em janeiro deparei-me com a morte de 3 delas o que me deixou surpreendido e apreensivo em relação aos planos que tinha.
Então decidi fazer o seguinte plano:
2 colmeias iriam estar afetas à produção de mel;
3 colmeias iriam ser desdobradas (de uma delas iriam sair 6 quadros de criação, um por núcleo, e das outras duas iriam sair 3 de cada, de maneira a fazer 6 núcleos fracos e ainda manter 2 colmeias com algum potencial produtivo).
As 2 colmeias que iriam estar afetas à produção de mel foram “passadas” para lusitana no fim de fevereiro, e a colmeia que foi mais desfalcada com os desdobramentos foi passada para lusitana em fim de março (na data do desdobramento).
Essa troca de modelo em 3 colmeias teve como consequência a renovação das ceras, ao longo da primavera, quase na totalidade para quadros lusitanos. Eu sabia que só por isso, com cera nova, que conseguiria atingir níveis altos de população de abelhas e por conseguinte níveis altos de varroa. Ainda para piorar, os espaço deixado pelos quadros reversíveis nas colmeias lusitanas era ideal para as abelhas fazerem criação de zangão, embora tenha feito uns cortes de criação, houve alguns descuidos por falta de tempo. Tinha noção que o pós cresta não ia ser fácil, principalmente em uma dessas 3 colmeias que tinha tido um crescimento mais acelerado. Vamos chamar a essa colmeia a Colmeia A.
Já a antecipar o problema, em Maio faço uma lavagem de abelhas na Colmeia A, 12 varroas. No simulador do Randy já mostrava o colapso da colónia no pós cresta. Decidi fazer um tratamento com tiras de ácido oxálico durante o mês de Junho, mas por falta de tempo não testei o resultado.
Decido esperar pela cresta (dia 26 de julho), no dia seguinte à cresta faço o teste na Colmeia A, e o resultado é alarmante, 58 varroas, nem testei mais nenhuma colmeia. Deduzo que as tiras de ácido oxálico tenham feito pouco efeito. E zero criação operculada, não consegui aplicar o tratamento inovador. Nas outras colmeias que produziram mel (que foram as 5 iniciais, os desdobramentos nao deram mel), utilizei o tratamento inovador seguido das tiras de apitraz. Mas na Colmeia A coloquei 3 tiras de apitraz, passados 15 dias já apresentava criação operculada apenas em um quadro, onde apliquei o tratamento inovador (nesta altura retirei a 3 tira).
Já no fim de Agosto, decidi aplicar fórmico convencional (100ml a 65% no evaporador da Lyson) para experimentar. Então apliquei na Colmeia A e numa outra do apiário. Testei antes ambas as colmeias, a Colmeia A um mês depois de iniciados os tratamentos (apitraz e tratamento inovador passados 15 dias) já só apresentavas 12 varroas.
Ora no passado sábado, (cerca de 3 semanas depois após o tratamento com fórmico convencional) , a lavagem de abelhas na Colmeia A deu apenas 1 varroa. E como referi anteriormente, passado 1 mês já só apresentava 12 varroas. É importante salientar que as tiras de apitraz ainda estão na colmeia, pois ainda não passaram 10-12 semanas. Mas na minha opinião o fator importante aqui, foi mesmo o tratamento inovador. Pois também fiz o teste a uma colmeia que também teve um crescimento idêntico e que foi tratada com o tratamento inovador seguido das tiras de apitraz (tinha cerca de 5 ou 6 quadros com criação na altura do tratamento) e no passado sábado na lavagem de abelhas deu apenas 2 varroas.
Apesar disto, e estando as temperaturas baixas, decidi tratar tudo novamente (os enxames que foram feitos este ano apenas tinham sido tratados com as tiras de apitraz) com ácido fórmico de forma convencional apenas 100ml por colmeia porque os evaporadores da Lyson não levam mais.
Aproveito também para desabafar consigo alguma tristeza que tenho em relação ao setor apícola,[…] os dois tratamentos por ano são uma autêntica anedota […], ainda para mais com a quantidade de informação cientifica que há acerca da varroa é uma estupidez não alterar isso. Por isso faço votos que continue o seu trabalho, acho que é e tem sido uma mais valia para a apicultura nacional.
Cumprimentos,
Ricardo Luís“
A propósito da experiência que o Ricardo relata, relembro o caso mais extremo de salvamento com o protocolo inovador de uma colónia altamente infestada num apiário de um cliente.
7 quadros cobertos com abelhas, quando 3 meses antes a infestação estava a atingir os 24% e à beira do colapso. Em maio vi uma colónia saudável, a crescer de forma notável.
Para memória futura, fiz duas aplicações deste protocolo, a primeira a 5 de março e a segunda a 13 de março. Em apenas 8 dias esta colónia desceu de 23,7% (71 varroas em 300 abelhas) para 7,7% (23 varroas em 300 abelhas) após a primeira aplicação do protocolo. Depois da segunda aplicação, a 13 de março, achei por bem não testar para não “sacrificar” mais abelhas adultas numa colónia já pouco povoada.
A 13 de maio, voltei ao apiário e achei que tinha chegado o momento certo para fazer um novo teste de infestação: estavam passados exactamente 2 meses e a colónia estava relativamente bem povoada com 7 quadros de abelhas e 5 quadros com criação, como mostra a foto em cima.
No coador, 4 varroas e um cisco. Um protocolo de controlo da varroose com 97% de eficácia não se encontra facilmente, mas está ao seu alcance conhecê-lo inscrevendo-se no percurso formativo que vou iniciar no próximo dia 17 de outubro. Foto minha de uma colmeia que no passado dia 18 de fevereiro apresentava 71 varroas
A aprendizagem do protocolo/tratamento inovador e utilização do simulador de varroa do Randy Oliver, que o Ricardo refere, são conteúdos do percurso formativo “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano”, entre outros conteúdos de grande relevância.
No próximo dia 26 encerrarei mais um percurso formativo, que teve/tem tido uma muito boa adesão junto de um grupo de apicultores muito interessados e com vontade de aprender a melhorar o controlo do principal inimigo das colónias de abelhas.
Entretanto, recebi novas manifestações de interesse neste percurso formativo e decidi abri novas datas. Assim a primeira data está agendada para o dia 17 de outubro, e para a qual ainda há algumas vagas disponíveis.
Venha aprender a melhorar as suas competências de controlo da Varroose mesmo em circunstâncias de infestação elevada, como as descritas no testemunho do nosso companheiro Ricardo Luís.
Solicite mais informação sobre este percurso formativo enviando e-mail para o endereço: jejgomes@gmail.com