abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo?

Em setembro de 2020 escrevi neste blogue, quase de passagem, uma observação que hoje me merece atenção renovada. Ao chegar a um dos meus apiários encontrei um bando de cerca de dez abelharucos e registei:

“Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.” [5]

Não estava a tentar demonstrar qualquer relação entre as duas espécies. Registei apenas aquilo que estava a observar naquele apiário e que voltei a notar nos anos seguintes.

Passados estes anos, e depois de termos hoje mais informação sobre a dieta do abelharuco e sobre o efeito comportamental que tanto ele como a Vespa velutina exercem sobre as colónias, esta observação merece ser revisitada. Mas parece-me importante fazê-lo separando duas perguntas diferentes. Uma é saber se os abelharucos conseguem limitar a expansão territorial da Vespa velutina. Outra, e para o apicultor provavelmente mais importante, é perceber se a presença dos abelharucos e a consequente redução da pressão das velutinas se traduzem realmente em mais minutos ou horas disponíveis de forrageio para as colónias.

A escala territorial

Em 2023 publiquei neste blogue uma análise a dois mapas de distribuição, um do abelharuco e outro da Vespa velutina.[7] À primeira vista podia parecer existir uma relação inversa, com maior presença de abelharucos precisamente onde a velutina apresentava menor implantação. Quando olhei com mais atenção, essa relação deixou de me parecer convincente. No extremo nordeste transmontano encontrávamos pouca presença de abelharucos e também reduzida implantação da velutina; no Ribatejo sucedia praticamente o contrário, com uma presença importante de abelharucos a coexistir com uma implantação já significativa de V. velutina.

A informação entretanto publicada não me levou a alterar substancialmente essa leitura. Em 2023, Onofre e colaboradores demonstraram em Portugal que o abelharuco (Merops apiaster) captura efetivamente Vespa velutina.[1] Entre 128 restos de presas identificados encontraram cinco velutinas, provenientes de quatro locais diferentes. Sabemos, portanto, que a predação existe e não estamos apenas perante uma possibilidade teórica.

Imagem gerada por IA

Outra questão é saber se essa predação tem dimensão suficiente para alterar a dinâmica populacional de uma espécie invasora que se encontra hoje distribuída por extensas áreas e sustentada por milhares de ninhos. Para produzir um efeito apreciável sobre a expansão territorial seria necessário afetar de forma suficientemente intensa a sobrevivência das colónias ou, sobretudo, a produção e sobrevivência das futuras fundadoras. Não encontrei evidência de que os abelharucos estejam a exercer esse efeito, e o próprio trabalho português chama a atenção para a sobreposição geográfica incompleta das duas espécies na Península Ibérica.[1]

Há ainda um cuidado adicional quando olhamos para estes mapas. A distribuição de ambas as espécies é fortemente condicionada pelo clima e pelo habitat. O abelharuco tende a beneficiar, durante a época de reprodução, de condições quentes e relativamente secas, enquanto a V. velutina apresenta elevada adequação em muitas regiões temperadas e húmidas e é penalizada pela secura excessiva. Parte da aparente relação inversa entre as duas espécies pode, por isso, resultar simplesmente de nichos climáticos parcialmente diferentes e não da capacidade de uma espécie limitar a outra.

Neste primeiro nível de análise continuo bastante céptico quanto a um papel importante dos abelharucos na limitação da expansão territorial da velutina.

Outra escala: aquilo que acontece no apiário

À frente de vinte colmeias a questão muda bastante. Se estiverem dez ou quinze velutinas a caçar diante dos alvados e chegar um bando de abelharucos, parece-me perfeitamente plausível que a presença destas aves faça diminuir rapidamente o número de velutinas naquele espaço. Algumas podem ser capturadas, como sabemos hoje que acontece,[1] enquanto outras poderão simplesmente afastar-se enquanto os abelharucos permanecem sobre o apiário.

A minha experiência aponta nesse sentido e vários apicultores descrevem situações semelhantes. Já em 2023 admitia neste blogue que, na melhor das hipóteses, os abelharucos poderiam afastar temporariamente as velutinas dos apiários.[7] Hoje continua a parece-me muitíssimo razoável admitir que essa redução local é real e, em determinados momentos, bastante visível.

Mas daqui não resulta automaticamente que a colónia tenha beneficiado.

Talvez estejamos a medir a coisa errada

Quando se discute o prejuízo provocado pelos abelharucos aparece frequentemente a pergunta: quantas abelhas comem? Quando se discute o seu eventual benefício perante a velutina surge outra: quantas velutinas conseguem eliminar ou afugentar?

As duas contas têm interesse, mas nenhuma me parece ser a melhor unidade de medida para avaliar o impacto final sobre a colónia. Uma velutina pode capturar relativamente poucas abelhas e, ainda assim, provocar um efeito muito superior ao número das que matou, porque a sua presença diante do alvado leva muitas outras forrageiras a atrasar ou interromper as saídas. O prejuízo mais importante pode estar menos na mortalidade direta e mais na redução coletiva da atividade de voo.

Paralisia de voo por efeito da presença de V. velutina (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Com os abelharucos encontramos algo semelhante. Bota e colaboradores verificaram que uma maior pressão destas aves junto dos apiários estava associada a uma redução da atividade de voo das abelhas.[2] No mesmo trabalho, a pressão dos abelharucos variou ao longo do dia, sendo superior durante algumas horas da manhã e voltando a aumentar ao final da tarde, com valores mais baixos próximo do meio-dia.[2]

Imagem gerada por IA

Assim, quando chegam abelharucos e diminuem as velutinas, as abelhas não ficam necessariamente libertas da pressão predatória. Durante algum tempo, a inibição do voo que estava a ser provocada pelas velutinas passa a ser provocada pelos próprios abelharucos.

É por isso que, para mim, a pergunta central passa a ser outra: quantos minutos ou horas efetivas de forrageio a colónia conseguiu realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos?

A rapidez com que a velutina regressa?

Há uma observação de campo que me leva a dar bastante importância a esta pergunta. Nos apiários de clientes onde temos utilizado harpas elétricas, tenho visto repetidamente que, quando existe uma pressão apreciável de V. velutina, basta por vezes desligarmos as harpas durante 15 a 30 minutos para começarmos novamente a notar um aumento do número de velutinas diante das colmeias.

Retorno da V. velutina após algum tempo com as harpas desligadas (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Num desses apiários, que descrevi neste blogue em 2023,[8] as harpas tinham sido desligadas cerca de uma hora antes da minha chegada. Quando entrei estavam entre 20 e 30 velutinas junto das colmeias e as abelhas praticamente paralisadas. Depois de ligadas as harpas, a pressão diminuiu rapidamente.

O trabalho de Monceau e colaboradores ajuda a perceber esta capacidade de reposição.[3] Num apiário experimental com apenas seis colmeias foram marcadas 360 velutinas e estimou-se que cerca de 350 indivíduos diferentes visitavam diariamente aquele conjunto de colmeias. Mais de metade dos indivíduos marcados regressaram pelo menos uma vez e, enquanto alguns deixavam de aparecer, novos indivíduos iam chegando.

Aquilo que vemos diante das colmeias num determinado momento é, portanto, apenas uma pequena parte de um fluxo diário muito maior. Um bando de abelharucos pode fazer desaparecer grande parte das velutinas que naquele instante estão diante dos alvados e produzir uma redução visualmente impressionante; mas quando o bando segue caminho, outras vespas podem ocupar rapidamente o espaço que ficou disponível.

É também aqui que existe uma diferença importante relativamente às harpas. A harpa permanece no apiário e continua a atuar sobre as velutinas que vão chegando. Os abelharucos podem exercer uma pressão muito intensa, mas frequentemente curta. Uma coisa é baixar durante alguns minutos o número de vespas presentes; outra é manter essa pressão suficientemente baixa para que as abelhas recuperem efetivamente o trabalho no campo.

As abelhas também precisam de recuperar

Há ainda outro elemento que pode estreitar essa janela de benefício. O desaparecimento do predador não significa necessariamente que as abelhas retomem imediatamente toda a atividade de voo.

V. velutina produz uma resposta comportamental que ultrapassa largamente as abelhas diretamente capturadas. Rojas-Nossa e colaboradores mostraram que a pressão da velutina reduz o forrageio e que as colónias protegidas por harpas, nas quais essa pressão foi persistentemente diminuída, apresentaram maior atividade, maior entrada de pólen, mais criação, maior peso das operárias e melhor sobrevivência no inverno.[4]

Também no estudo dos abelharucos a relação entre a pressão das aves e a atividade das abelhas variava ao longo das diferentes horas do dia.[2] Não estamos perante um sistema em que o predador desaparece e, imediatamente, todas as forrageiras retomam a atividade que tinham antes.

É aqui que a sequência temporal se torna particularmente importante. Os abelharucos podem chegar, reduzir fortemente as velutinas e, simultaneamente, reduzir o voo das abelhas. Quando partem, a colónia começa a recuperar; mas, se a reposição das velutinas pode ocorrer em 15 ou 30 minutos, como observo nos apiários protegidos por harpas quando estas são desligadas, parte dessa recuperação pode ser novamente interrompida antes de se transformar numa janela de forrageio significativa.

Quando os dois predadores ocupam partes diferentes do mesmo dia

Os horários conhecidos dos dois predadores acrescentam outra camada a este problema. No estudo de Bota e colaboradores, a pressão dos abelharucos foi mais elevada durante algumas horas da manhã e voltou a aumentar ao final da tarde.[2] A atividade de V. velutina nos apiários pode ser elevada desde o final da manhã e prolongar-se pela tarde, embora varie com a temperatura, a época do ano e as condições locais.

Os dois predadores não precisam, portanto, de estar permanentemente presentes ao mesmo tempo para condicionarem uma parte importante do dia. Uma janela que fica temporariamente livre de abelharucos pode coincidir com um aumento da pressão da velutina; ao final da tarde podem mesmo existir períodos de sobreposição.

Voltamos assim à mesma métrica. Não quantas abelhas morreram nem quantas velutinas desapareceram, mas quanto tempo útil de voo restou à colónia.

Menos velutinas não significa necessariamente menos pressão sobre a colónia

Continuo a não encontrar evidência de que os abelharucos estejam a impedir de forma importante a expansão territorial da Vespa velutina em Portugal.

À escala do apiário, a situação parece-me diferente. Considero hoje bastante plausível que a presença dos abelharucos possa provocar uma redução rápida e muito visível do número de velutinas que estão a caçar diante das colmeias.

Mas essa fotografia momentânea também pode enganar.

O facto de não vermos velutinas durante a presença dos abelharucos não significa necessariamente que a pressão habitual daquele apiário tenha desaparecido. As velutinas podem ter sido capturadas ou simplesmente afastadas e, quando os abelharucos abandonam o local, regressar rapidamente ou ser substituídas por outras.

No final do dia, a pressão global sobre o voo das abelhas pode ter-se mantido: primeiro devido aos abelharucos e depois novamente devido à Vespa velutina.

Enquanto estas situações não forem acompanhadas durante períodos suficientemente longos de semanas ou meses e em territórios em que estes dois predadores coincidem, contar abelhas comidas, contar velutinas comidas ou simplesmente contar as velutinas que vemos e deixamos de ver num determinado momento continuará a mostrar apenas uma parte do problema.

O que falta medir com maior rigor é o tempo: quanto dura a redução das velutinas depois da passagem dos abelharucos, quanto demora a colónia a recuperar o voo, quanto rapidamente regressa a pressão da velutina e, no final do dia, quantos minutos ou horas efetivas de forrageio as abelhas conseguiram realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos.

Nota final

Do ponto de vista estritamente ecológico, a minha preferência é evidente: entre o abelharuco, uma espécie nativa integrada nos nossos ecossistemas, e a Vespa velutina, uma espécie invasora, prefiro naturalmente o primeiro.

(Dito isto, dizer também que a presença do abelharuco é, em regra, parte natural da vida selvagem que partilha connosco estes territórios. Mas, em determinadas zonas e momentos, importa também perguntar se o aumento da sua abundância poderá estar a aproximar-se de limites tróficos que o próprio ecossistema suporta, com consequências para o equilíbrio entre a fauna selvagem e as actividades humanas, incluindo a apicultura. A comparação com o que tem acontecido com o javali serve apenas para colocar a questão: populações naturalmente presentes podem tornar-se problemáticas quando se alteram as condições que habitualmente limitavam a sua densidade. Não é uma conclusão sobre o abelharuco; é uma hipótese que merece observação séria, documentação e discussão.)

Mas não é essa a questão analisada nesta publicação. Aqui procurei apenas perceber o impacto de um e de outro sobre a atividade das colónias e, em particular, sobre o número de minutos ou horas disponíveis para o forrageio.

É nesse plano que surge a alegada vantagem do abelharuco: ao reduzir a presença de velutinas junto das colmeias, poderia devolver às abelhas algum tempo de voo. O problema é que os próprios abelharucos também inibem o forrageio e, quando se afastam, a pressão da V. velutina pode recompor-se rapidamente.

Por isso, esta publicação não pretende tomar partido entre os dois predadores. Procura apenas perceber se o benefício atribuído aos abelharucos se traduz realmente em mais horas de trabalho para as colónias. E, com a informação atualmente disponível, parece-me que essa vantagem ainda não foi avaliada com o rigor necessário para podermos afirmá-la.

Nota editorial sobre o uso de vídeos e imagens geradas por IA

Esta é a primeira vez que utilizo vídeos produzidos por mim numa publicação do Abelhas à Beira. Tenciono continuar a combiná-los com o texto, tal como tenho feito até agora com imagens estáticas e fotografias, sempre que contribuam para mostrar melhor aquilo que está a acontecer no apiário ou para tornar mais clara uma ideia desenvolvida na publicação.

É igualmente a primeira publicação em que recorro a imagens geradas por inteligência artificial. Sempre que o fizer, essa utilização será claramente identificada.

Não pretendo que o Abelhas à Beira se transforme num veículo de imagens indistinguíveis da realidade, nem que uma ilustração gerada substitua o registo fiel do que foi observado no apiário. Sempre que possível, procurarei utilizar fotografias e vídeos reais — preferencialmente meus ou, quando adequado, de outros autores devidamente identificados — para acompanhar e exemplificar os conteúdos publicados.

As imagens geradas por IA ficarão reservadas para situações em que uma fotografia ou vídeo real não esteja disponível, ou não permita ilustrar com clareza o ponto que o texto pretende explicar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol AgentAnimals, 13, 1906.

[2] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apicultureEcological Indicators, 142, 109158.

[3] Monceau, K.; Bonnard, O.; Moreau, J.; Thiéry, D. (2014). Spatial distribution of Vespa velutina individuals hunting at domestic honeybee hives: heterogeneity at a local scaleInsect Science, 21, 765–774.

[4] Rojas-Nossa, S. V.; Dasilva-Martins, D.; Mato, S.; Bartolomé, C.; Maside, X.; Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony developmentPest Management Science, 78, 5142–5149.

Referências — Abelhas à Beira

[5] PMS: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência (2020). Ler

[6] Vespa velutina: contas e reflexões (2023). Ler

[7] Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da vespa velutina? (2023). Ler

[8] Medidas de controlo dos inimigos: Vespa velutina e varroa (2023). Ler

abelharucos: não são apenas as abelhas que eles comem

Nos grupos apícolas das redes sociais espanholas e portuguesas são frequentes, sobretudo durante o verão, as publicações de apicultores que mostram bandos de abelharucos junto dos apiários e lhes atribuem efeitos importantes sobre as suas colónias.

Relato e pergunta de um apicultor português (retirado do Facebook)

Durante bastante tempo, uma das formas mais intuitivas de avaliar este problema passou por responder a uma pergunta aparentemente simples: quantas abelhas come um abelharuco? Se estamos perante um predador e queremos conhecer o prejuízo que provoca, contamos as presas que elimina e comparamos esse número com a população disponível. O problema é que, no caso de uma colónia de abelhas, esta poderá não ser a melhor unidade de medida.

Há números razoavelmente bons para estimar a mortalidade direta. Num estudo realizado no sudeste de Espanha, Farinós-Celdrán e colaboradores estimaram um consumo médio de cerca de 1.333 ± 760 abelhas melíferas por abelharuco durante a sua permanência na região.[1] Na Sardenha, Galeotti e Inglisa estimaram que a predação correspondia, em média, a cerca de 0,37% das forrageadoras disponíveis, embora representasse aproximadamente 6,1% da mortalidade diária destas abelhas.[2]

Vistos desta forma, os números não parecem particularmente alarmantes. Uma colónia forte, com dezenas de milhares de abelhas e capacidade para produzir continuamente novas operárias, poderá compensar a perda de algumas centenas ou mesmo de alguns milhares de forrageadoras distribuídas por várias semanas.

Mas talvez seja precisamente aqui que começamos a medir mal o problema.

Não são apenas as abelhas que o abelharuco come

Uma colónia depende diariamente de milhares de viagens entre a colmeia e o exterior. Enquanto umas abelhas saem, outras regressam com néctar, pólen, água ou resinas. Retirar algumas centenas de abelhas a uma população de dezenas de milhares pode parecer pouco; alterar durante horas o comportamento de milhares delas é outra coisa.

Nos últimos anos começaram a surgir trabalhos que olharam para o problema precisamente deste outro lado. Em vez de perguntarem apenas quantas abelhas eram capturadas, procuraram perceber o que acontecia à atividade das restantes quando os predadores estavam presentes.

Um dos estudos mais interessantes foi realizado na Extremadura e acompanhou 58 apiários. Foram registados mais de 3 milhões de movimentos de entrada e saída de abelhas. Quanto maior era a presença dos abelharucos junto dos apiários, menor tendia a ser a atividade das abelhas; e nos apiários sujeitos a maior pressão foram também observadas menores quantidades de abelhas, criação, mel e pólen. O efeito tornou-se particularmente evidente durante agosto.[3]

Alguns anos depois, um trabalho realizado na região de Lleida aprofundou este ponto. Os investigadores relacionaram a atividade dos abelharucos com contadores que registavam o movimento das abelhas nas colmeias. A conclusão principal foi clara: quando aumentava a pressão dos abelharucos, diminuía o movimento das abelhas, mas essa resposta variava bastante ao longo do dia.[4]

Momento do diaPresença/atividade dos abelharucosResposta das abelhas à presença dos abelharucosLeitura simples
09h15ElevadaForte redução do vooUma das fases mais sensíveis: muita pressão e forte resposta das abelhas
11h15Já inferior à das 09hEfeito por unidade de pressão ainda muito forteMesmo com menos abelharucos, o forrageio continua bastante condicionado
13h15MínimaO efeito ainda existeMenor pressão global e uma janela relativamente mais favorável ao voo
15h15Relativamente baixaEfeito menorA atividade das abelhas parece menos condicionada
17h15Volta a aumentarMuito menor efeito sobre o vooHá novamente mais abelharucos, mas as abelhas mantêm melhor a atividade
19h15ElevadaA relação com a redução do voo torna-se muito fracaAo fim do dia, a tendência para intensificar o forrageio parece sobrepor-se parcialmente ao risco

Este quadro resulta de 1.526 registos horários e mostra algo que me parece importante: não basta contar quantos abelharucos estão presentes num apiário. A mesma pressão de predadores não produz necessariamente a mesma redução do forrageio às dez da manhã e ao fim da tarde.[4]

Em vez das abelhas comidas, contar o forrageio perdido

Podemos então fazer uma pergunta diferente. Em lugar de procurarmos apenas saber quantas abelhas come um abelharuco, talvez devamos tentar conhecer quanto forrageio deixa uma colónia de fazer devido à sua presença.

Uma abelha capturada desaparece. Uma abelha que, perante a pressão do predador, não sai da colmeia continua viva, mas durante esse período também não recolhe néctar, pólen ou água. Quando essa alteração envolve muitas abelhas, várias horas por dia e se repete durante dias ou semanas, o número de indivíduos efetivamente capturados deixa de descrever uma parte importante do impacto.

Podemos traduzir este fenómeno, apenas para facilitar a compreensão, em horas equivalentes de forrageio perdidas.

Imaginemos que a pressão dos abelharucos é importante durante quatro horas de um determinado dia:

Redução média do forrageio durante essas 4 horasForrageio equivalente perdido por diaEm 20 dias
25%1 hora20 horas
50%2 horas40 horas
75%3 horas60 horas

Estes valores são apenas uma forma de visualizar o efeito acumulado. Se durante vinte dias uma colónia perder diariamente o equivalente a duas horas de forrageio, serão quarenta horas durante as quais uma parte importante do trabalho que poderia ter sido realizado no exterior não aconteceu.

O estudo da Extremadura dá-nos uma ideia da escala envolvida. Os contadores registaram, em média, valores próximos de 4.000 movimentos de entrada e saída por hora.[3] Se imaginarmos uma redução de 50% durante quatro horas, teremos cerca de 8.000 movimentos a menos num dia e, repetida a situação durante vinte dias, aproximadamente 160.000 movimentos que não ocorreram.

É esta ordem de grandeza que me parece particularmente interessante. Enquanto contamos as centenas ou poucos milhares de abelhas efetivamente capturadas, a alteração comportamental pode afetar dezenas ou centenas de milhares de movimentos.

Este efeito faz lembrar muito aquilo que já conhecemos da pressão exercida pela Vespa velutina. Também neste caso, o prejuízo para a colónia não resulta apenas das abelhas capturadas à frente da colmeia, mas da chamada paralisia do forrageio: perante uma pressão predatória suficientemente elevada, as abelhas reduzem fortemente as saídas, entra menos pólen e essa redução acaba por se refletir na criação e no desenvolvimento da colónia.[6] O próprio artigo sobre os abelharucos chama a atenção para esta semelhança. Predadores muito diferentes podem, portanto, produzir uma resposta semelhante nas abelhas: para além das forrageadoras que capturam, condicionam o trabalho de muitas outras que permanecem dentro da colmeia ou reduzem as suas saídas. [7]

Talvez seja por aqui que se explique pelo menos parte da distância entre alguns trabalhos que estimaram um efeito relativamente reduzido dos abelharucos e aquilo que certos apicultores descrevem no terreno. Uma coisa é a capacidade da colónia para substituir as abelhas mortas; outra é substituir trabalho que simplesmente não foi realizado.

Do forrageio perdido ao mel, ao pólen e à criação

Ainda não conseguimos converter diretamente determinada redução do voo em determinado número de quilos de mel ou em determinada área de criação. Mas os estudos disponíveis mostram que os dois fenómenos caminham no mesmo sentido.

Na Extremadura, maior presença de abelharucos coincidiu com menor atividade das abelhas e também com menores quantidades de mel, pólen, criação e abelhas adultas, sobretudo durante agosto.[3]

E numa situação muito mais intensa, observada em Israel durante a passagem de grandes bandos migratórios, foram comparadas colmeias protegidas da pressão das aves com colmeias não protegidas. As primeiras aumentaram de peso, em média, 26,4 kg, enquanto as não protegidas aumentaram apenas 4,1 kg: uma diferença de 6,44 vezes.[5] O aumento de peso refletia sobretudo a acumulação de mel.

Não transportaria diretamente estes valores para Portugal ou Espanha, porque se tratava de uma pressão migratória muito forte. Mas o resultado mostra até onde o efeito pode chegar quando a redução do forrageio se torna intensa e persistente.

Agosto merece atenção especial

Nos trabalhos espanhóis, agosto aparece repetidamente como um período importante. Depois da reprodução, os abelharucos começam a concentrar-se e a deslocar-se antes da migração. Na Extremadura foi também durante agosto que a relação entre abundância de abelharucos e menores recursos nas colónias se tornou mais evidente.[3]

Este calendário não é indiferente para uma colónia. Em muitas regiões da Península Ibérica, agosto coincide com temperaturas elevadas e menor disponibilidade floral, numa altura em que interessa manter entrada de pólen, conservar uma boa área de criação e preparar a população das semanas seguintes.

Não é necessário assumir que uma abelha comida em agosto vale mais do que uma abelha comida em maio. Basta admitir que uma redução importante do forrageio pode ocorrer numa altura em que a margem da colónia para compensar essa redução já é menor.

Talvez tenhamos estado a medir a parte mais fácil

Não pretendo concluir que os abelharucos sejam responsáveis por todos os efeitos que lhes são atribuídos pelos apicultores. Há situações em que a sua presença será pequena e o efeito também o será; e há apiários em que alimentação, calor, seca, varroose ou a própria evolução sazonal das colónias terão muito mais peso.

Também não devemos deixar de contabilizar as abelhas capturadas. São uma perda real. Mas os trabalhos dos últimos anos sugerem que o número de abelhas comidas é uma medida incompleta do impacto dos abelharucos sobre um apiário. Uma colónia pode substituir parte das operárias que desaparecem; não recupera da mesma forma o néctar, o pólen e a água que não entraram durante horas de atividade reduzida.

Talvez, portanto, a pergunta mais útil deixe de ser apenas «quantas abelhas come um abelharuco?» e passe também a ser «quantas horas de forrageio perde a colónia enquanto os abelharucos estão presentes?».

Porque talvez tenhamos passado demasiados anos a contar as abelhas que o abelharuco come e poucos a contar as que, por causa dele, deixam de sair.

Referências

[1] Farinós-Celdrán, P.; Zapata, V. M.; Martínez-López, V.; Robledano, F. (2016). Consumption of honey bees by Merops apiaster Linnaeus, 1758 (Aves: Meropidae) in Mediterranean semiarid landscapes: a threat to beekeeping? Journal of Apicultural Research, 55(2), 193–201. DOI: 10.1080/00218839.2016.1195630.

[2] Galeotti, P.; Inglisa, M. (2001). Estimating predation impact on honey bees Apis mellifera L. by European bee-eater Merops apiaster L. Revue d’Écologie (La Terre et la Vie), 56(4), 373–388. DOI: 10.3406/revec.2001.2373.

[3] Moreno-Opo, R.; Núñez, J. C.; Pina, M. (2018). European bee-eaters (Merops apiaster) and apiculture: understanding their interactions and the usefulness of nonlethal techniques to prevent damage at apiaries. European Journal of Wildlife Research, 64, 55. DOI: 10.1007/s10344-018-1215-9.

[4] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158. DOI: 10.1016/j.ecolind.2022.109158.

[5] Łangowska, A.; Yosef, R.; Skórka, P.; Tryjanowski, P. (2018). Mist-Netting of Migrating Bee-Eaters Positively Influences Honey Bee Colony Performance. Journal of Apicultural Science, 62(1), 67–78. DOI: 10.2478/jas-2018-0008.

[6] Gomes, J. E. Eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhasAbelhas à BeiraLer

[7] Gomes, J. E. Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira, 2026. Ler

a Vespa velutina é mais perigosa ? Talvez o veneno não seja a principal razão

Uma notícia recente da CNN Portugal sobre a Vespa velutina apresentava uma ideia que me chamou a atenção: a vespa asiática não seria necessariamente mais venenosa do que as outras vespas, mas teria características que a poderiam tornar mais perigosa.

Nota: não consegui aceder ao conteúdo integral da notícia da CNN Portugal, pelo que não pude ler o texto completo. A análise que se segue parte do título, da informação visível na publicação e dos comentários associados.

Nos comentários apareceram rapidamente outras explicações. Uma pessoa afirmava que estas vespas “têm sete vezes mais veneno”; outra dizia que cada uma teria uma quantidade de veneno equivalente a cinco ou seis vespas europeias, acrescentando ainda que uma mesma Vespa velutina pode ferroar várias vezes.

Vale a pena separar estas afirmações, porque algumas são verdadeiras, outras apenas parcialmente e outras não encontram, até onde consegui verificar, suporte na literatura científica.

Comecemos pelo veneno. Não encontrei qualquer evidência de que uma Vespa velutina tenha cinco, seis ou sete vezes mais veneno do que a nossa Vespa crabro, a vespa-europeia. Estudos recentes que analisaram os sacos de veneno das duas espécies encontraram nas obreiras aproximadamente 274 µg de proteína no extracto do saco de V. velutina e 189 µg em V. crabro.[1,2]

Também não sabemos com suficiente rigor quanto veneno injecta uma V. velutina quando ferroa. Curiosamente, sabemos mais sobre a abelha. Uma Apis mellifera pode administrar cerca de 70 µg nos primeiros segundos e ultrapassar os 100 µg quando o aparelho do ferrão permanece mais tempo na pele, podendo aproximar-se dos 140 µg.[3]

A composição dos venenos também não é igual. O veneno da abelha contém uma proporção muito elevada de melitina, um péptido fortemente associado à dor e à inflamação. O da V. velutina apresenta outra combinação de péptidos, enzimas e aminas biologicamente activas, entre as quais fosfolipase A1, antigénio 5, hialuronidases, mastoparanos e serotonina.[4,5] Não seria, por isso, estranho que duas pessoas descrevessem de forma diferente a dor de uma picada de abelha e de uma ferroada de velutina. Nos comentários à notícia, uma considerava a picada da abelha bastante mais dolorosa; outra dizia precisamente o contrário. Ambas podem estar apenas a descrever a sua experiência.

Mas dor, quantidade de veneno, toxicidade e perigosidade não são a mesma coisa.

Talvez o problema esteja sobretudo na frequência com que nos cruzamos com ela

Vespa velutina tornou-se extraordinariamente abundante em algumas regiões europeias e ocupa territórios onde existe uma forte sobreposição entre as pessoas e as suas colónias. Na Galiza foram comunicados mais de 154 mil ninhos entre 2012 e 2021, chegando a mais de 28 mil por ano em 2020 e 2021.[6]

E os ninhos não estão apenas no alto das árvores. No levantamento galego, 36% encontravam-se em edifícios ou outras estruturas humanas e 3% no solo. Surgiam em telhados, sótãos, paredes, chaminés, janelas, varandas, contentores, caixas de visita e muitas outras estruturas próximas das pessoas.[6]

Há ainda ninhos em vegetação baixa, sebes, silvados ou cavidades do solo. Podem representar uma parte relativamente pequena do total, mas têm uma característica importante: é possível aproximarmo-nos muito sem os detectar.

Imagine-se alguém a cortar silvas com uma roçadora, a aparar uma sebe, a limpar um terreno ou a trabalhar com uma máquina agrícola. Pode não saber que existe ali uma colónia até provocar vibrações ou atingir directamente o ninho. Nesse momento deixa de estar perante uma vespa que procura alimento e passa a estar muito próximo de uma colónia a defender-se.

Os ensaios de Moon Bo Choi ajudam a perceber essa diferença. A aproximação calma a um ninho originava uma resposta relativamente limitada. Movimentos bruscos aumentavam a reacção e, depois de uma perturbação directa do ninho, várias dezenas de obreiras podiam participar na defesa da colónia.[7]

Isto não significa que uma Vespa velutina isolada esteja permanentemente predisposta a atacar pessoas. Uma obreira que procura alimento e uma colónia perturbada são situações muito diferentes.

Há poucos dias tive um exemplo muito simples desta proximidade crescente. Estava a fazer uma refeição ao ar livre, a comer peixe, quando uma Vespa velutina se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim e da comida. Não aconteceu nada. O hábito de lidar com abelhas levou-me simplesmente a evitar movimentos bruscos e a afastar-me calmamente. O encontro terminou aí.

Outra pessoa, menos habituada à presença destes insectos, poderia ter tentado enxotá-la com as mãos ou dar-lhe uma pancada. Talvez também não acontecesse nada, mas aumentaria desnecessariamente a probabilidade de uma ferroada.

Estas situações são hoje seguramente frequentes em muitas regiões. Encontramos velutinas em fruta madura, perto de bebidas açucaradas, carne, peixe, jardins ou esplanadas. A maioria desses encontros não tem qualquer consequência. Mas quanto mais encontros houver, maior será também o número daqueles que acabam mal.

E provavelmente não é necessário que uma velutina seja individualmente muito mais perigosa do que uma vespa autóctone para que a espécie represente, no conjunto, um risco superior. Basta haver muito mais oportunidades de contacto entre pessoas e vespas.

O ninho muda completamente a situação

V. velutina pode ferroar repetidamente, ao contrário da operária da abelha-do-mel, cujo ferrão fica geralmente retido na pele dos mamíferos. Mas também aqui convém desfazer outro mito: esta característica não é exclusiva da vespa asiática. É comum às vespas e vespões.

O que torna algumas situações particularmente perigosas é a possibilidade de múltiplas ferroadas por vários indivíduos.

A literatura médica identifica precisamente as múltiplas ferroadas, as ferroadas nas mucosas e a alergia ao veneno como os principais perigos associados à V. velutina.[8] Uma pessoa sensibilizada pode sofrer uma reacção anafiláctica grave após uma única ferroada. Num indivíduo não alérgico, um número elevado de ferroadas pode representar uma carga de veneno suficiente para provocar envenenamento sistémico.

Por isso, um ninho escondido num silvado ou no solo, descoberto apenas quando passa uma roçadora, é uma situação bastante diferente da velutina que se aproximou do meu prato de peixe.

O risco existe, mas os dados não justificam alarmismo

Há ainda uma parte importante desta história.

Em Espanha foram analisadas as mortes oficialmente atribuídas a ferroadas de abelhas, vespas e vespões entre 1999 e 2023. Foram registadas 188 mortes. Apesar da enorme expansão da V. velutina, os investigadores não encontraram evidência de um aumento da mortalidade por himenópteros associado à sua invasão.[9]

Em França, um estudo publicado em 2026 analisou 6022 casos registados pelos centros antivenenos, 179 141 idas às urgências e 18 213 internamentos entre 2014 e 2023. Também aqui, apesar da expansão territorial da V. velutina, não se observou um aumento global das ferroadas de himenópteros. Nos casos graves, porém, a alergia estava presente em 89%, lembrando-nos onde continua a estar uma parte muito importante do risco.[8]

Em Portugal, entre 2018 e 2021, o Centro de Informação Antivenenos registou 152 ocorrências atribuídas à Vespa velutina. Representaram menos de 1% das consultas anuais ao CIAV e a maioria correspondeu a manifestações locais de baixa gravidade.[10]

Estes dados não tornam a espécie inofensiva. Mostram apenas que a sua enorme expansão não foi acompanhada, até agora, por um aumento equivalente da mortalidade ou dos casos graves.

Talvez seja esta a forma mais equilibrada de olhar para a perigosidade da Vespa velutina. Não há evidência de que possua cinco ou sete vezes mais veneno do que uma vespa-europeia, nem de que o seu veneno seja excepcionalmente mais tóxico. A sua capacidade de ferroar repetidamente também não é exclusiva.

O que mudou profundamente foi a probabilidade de encontro.

Em muitos territórios temos hoje uma vespa social de grande dimensão, muito abundante, capaz de defender colectivamente o ninho e que instala as suas colónias exactamente nos espaços onde vivemos, trabalhamos, cultivamos terrenos ou fazemos uma refeição ao ar livre.

A maioria desses encontros ficará por aí. Outros envolverão uma pessoa alérgica, um movimento menos feliz ou, no pior cenário, um ninho que ninguém sabia estar a poucos metros.

É provavelmente por aqui, muito mais do que pelos supostos “sete vezes mais veneno”, que deve começar uma discussão séria sobre a perigosidade da Vespa velutina.

Referências e literatura consultada

  1. Alonso-Sampedro, M. et al. (2023). Proteomics of Vespa velutina nigrithorax Venom Sac Queens and Workers: A Quantitative SWATH-MS AnalysisToxins, 15, 266. 
  2. Alonso-Sampedro, M. et al. (2024). Peeking into the Stingers: A Comprehensive SWATH-MS Study of the European Hornet Vespa crabro Venom Sac ExtractsInternational Journal of Molecular Sciences, 25, 3798. 
  3. Schumacher, M.J., Tveten, M.S. & Egen, N.B. (1994). Rate and quantity of delivery of venom from honeybee stingsJournal of Allergy and Clinical Immunology, 93, 831–835. 
  4. Monsalve, R.I. et al. (2020). Purification and molecular characterization of phospholipase, antigen 5 and hyaluronidases from the venom of the Asian hornet (Vespa velutina). PLoS ONE, 15, e0225672. 
  5. Meng, Y.C. et al. (2021). New bioactive peptides from the venom gland of a social hornet Vespa velutinaToxicon, 199, 94–100. 
  6. Diéguez-Antón, A. et al. (2022). Embryo, Relocation and Secondary Nests of the Invasive Species Vespa velutina in Galicia (NW Spain). Animals, 12, 2781. 
  7. Choi, M.B. (2021). Defensive behavior of the invasive alien hornet Vespa velutina nigrithorax against potential human aggressorsEntomological Research, 51, 186–195. 
  8. Sinno-Tellier, S. et al. (2026). Public health impact of envenomation by Vespa velutina nigrithorax and other Hymenoptera in France: A multisource studyJournal of Allergy and Hypersensitivity Diseases, 9, 100062. 
  9. Herrera, C. & Leza, M. (2026). No evidence of increased mortality associated with Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) spread in SpainJournal of Medical Entomology, 63(2), tjag039. 
  10. INIAV (2022). A vespa-asiática — Vespa velutina nigrithorax. Dados do Centro de Informação Antivenenos relativos a 2018–2021.

cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença

Já tenho escrito algumas vezes sobre os chamados Cavalos de Tróia no controlo da Vespa velutina. Uma das questões que esta técnica coloca no terreno é bastante simples: quando devemos começar?

Ninho de Vespa velutina (foto de Décio Dias)

Em julho ainda pode haver poucas velutinas à frente das colmeias. Capturá-las uma a uma dá trabalho e facilmente surge a tentação de esperar por agosto ou setembro, quando a pressão aumenta e conseguir dezenas de indivíduos num apiário pode tornar-se relativamente fácil.

Um trabalho realizado nas Astúrias em 2023 ajuda a olhar para esta questão de outra maneira.

Nesse ano, a SERPA, no âmbito do programa de controlo da Vespa velutina do Principado das Astúrias, acompanhou uma experiência de campo baseada na captura de obreiras, tratamento individual e posterior libertação, procurando que regressassem aos respectivos ninhos transportando o insecticida [1].

Foram estabelecidos 33 pontos de emissão e tratados e libertados 5.547 exemplares de Vespa velutina. O trabalho decorreu durante vários meses e, para avaliar os resultados, comparou-se a incidência de ninhos em 2022 e 2023 em círculos sucessivos em redor dos locais de libertação: 0–500 m, 500–1.000 m, 1.000–1.500 m e 1.500–2.000 m [1].

O primeiro resultado é bastante expressivo.

Nos primeiros 500 metros, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5%. Entre 500 e 1.000 metros a redução foi de 50,6%; entre 1.000 e 1.500 metros, de 27,8%; e entre 1.500 e 2.000 metros ficou pelos 4,2%.

No conjunto das Astúrias, nesse mesmo período, a redução do número de ninhos foi de apenas 3,2% [1].

Há portanto um gradiente muito claro: a redução foi máxima junto dos pontos onde os Cavalos de Tróia eram libertados e foi diminuindo à medida que aumentava a distância.

Mas, quando os autores olharam individualmente para os diferentes locais, encontraram resultados muito diferentes. E uma das variáveis que lhes chamou a atenção foi a data em que se tinha começado a trabalhar.

Separaram então os pontos onde os envios começaram antes e depois de 15 de agosto. A diferença foi suficientemente marcada para ser destacada no próprio relatório: começar mais cedo esteve associado a uma redução substancialmente maior da incidência de ninhos, particularmente nos primeiros 500 metros [1].

Os dados individuais permitem olhar ainda melhor para esta questão.

Dos 33 pontos, 14 começaram a trabalhar em julho. Comparando 2022 com 2023, nos primeiros 500 metros em redor desses locais contabilizaram-se, no conjunto, menos 37 ninhos.

Nos oito locais que só começaram em setembro ou posteriormente, o resultado foi praticamente o oposto: no conjunto havia mais 1 ninho.

Naturalmente, há aqui uma questão que precisava de ser verificada. Quem começou em julho teve muito mais semanas disponíveis e acabou também por libertar mais Cavalos de Tróia. Seria possível que o resultado se devesse simplesmente a isso.

Por essa razão, trabalhei estatisticamente os dados dos 33 pontos, cruzando data de início, número total de Cavalos de Tróia libertados e evolução do número de ninhos. A relação entre começar mais cedo e uma maior redução de ninhos mantém-se estatisticamente significativa mesmo quando se considera o número de Cavalos de Tróia enviados. Pelo contrário, o número total de indivíduos enviados, por si só, não apresentou uma relação estatisticamente significativa com a redução dos ninhos.

Não estamos perante uma experiência controlada que permita concluir que começar em julho foi a causa da redução observada. Há demasiadas variáveis no terreno para dar esse salto. Mas os resultados reforçam uma ideia que os próprios autores colocaram no relatório: o timing pode ser determinante.

E a explicação que propõem faz sentido biologicamente.

À medida que o verão avança, a população dos ninhos aumenta. Os autores consideram que a eficácia da técnica deverá diminuir à medida que o ninho cresce, porque diminui a proporção entre o número de velutinas tratadas que regressam ao ninho e a população total que se pretende atingir [1].

Para quem trabalha também com a Varroa, este princípio não é inteiramente estranho. O timing de um tratamento conta. Tratar uma colónia quando a população de ácaros ainda é relativamente baixa não é a mesma coisa que esperar que essa população tenha crescido várias vezes para depois tentar recuperar o controlo. Não porque Varroa e Vespa velutina sejam problemas biologicamente comparáveis, mas porque em ambos os casos existe uma ideia prática que vale a pena reter: é geralmente mais fácil controlar uma população enquanto ela ainda é pequena do que depois de a deixar crescer.

Em julho há menos velutinas à frente das colmeias e é mais difícil capturá-las. Mas os ninhos que pretendemos atingir são também muito menos populosos. Em setembro é muito mais fácil conseguir dezenas de velutinas num apiário, mas entretanto estamos a tentar atingir ninhos muito maiores.

Há ainda o factor tempo. O relatório observou que, após as libertações, a diminuição da pressão de velutinas nos apiários e o aumento da actividade das abelhas podiam começar a inverter-se ao fim de 10 a 15 dias [1]. Isto sugere que não devemos olhar para os Cavalos de Tróia como uma intervenção única, mas como um trabalho que pode necessitar de ser repetido. Começar cedo dá-nos também essa margem.

Os autores chegam a admitir que, no outono, a técnica poderá continuar a ter interesse para diminuir a pressão de Vespa velutina nos apiários, mas já sem a mesma expectativa de conseguir neutralizar os ninhos [1].

Não retiraria deste estudo uma regra dizendo que é obrigatório começar em julho. Os próprios dados não permitem chegar tão longe e o momento de desenvolvimento dos ninhos não será exactamente igual nas Astúrias, no Minho, na Beira Litoral ou noutras regiões.

Mas retiraria uma orientação prática que me parece importante: não esperaria que houvesse muitas velutinas à frente das colmeias para começar a fazer Cavalos de Tróia.

Pode parecer paradoxal, mas as poucas velutinas que conseguimos capturar em julho poderão valer mais, para chegar aos ninhos, do que as muitas que conseguimos capturar facilmente em setembro.

Referências — literatura científica e técnica

SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias. (2023). Evaluación de la técnica de neutralización remota de nidos de avispa asiática mediante envío de ejemplares impregnados con insecticida. Año 2023. Versión 1.1. Principado de Asturias. 

o mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida

Há poucos dias, um apicultor amigo e cliente dos meus serviços técnicos telefonou-me profundamente preocupado com a pressão da Vespa velutina no seu apiário. Conheço-lhe a dedicação às abelhas e percebi que a situação estava a ultrapassar aquilo que conseguia suportar. Conversámos sobre as possibilidades de intervenção e partilhei com ele informação técnica que tenho vindo a reunir sobre os chamados cavalos de Tróia cuticulares, uma abordagem cujo fundamento exige mais pesquisa do que aquela que habitualmente cabe nas conversas entre apicultores.

Dois dias depois voltou a telefonar. Depois de seguir as indicações que lhe tinha transmitido, praticamente deixara de observar velutinas no apiário e as abelhas tinham retomado os voos de forrageio. A mudança era muito expressiva para quem, pouco antes, via as suas colónias sob aquela pressão. Este relato documenta uma melhoria local; o destino dos ninhos envolvidos não foi acompanhado. Mas o alívio que descreveu, e sobretudo o regresso das abelhas ao trabalho, merecem atenção.

Há aqui uma aparente contradição que prefiro enfrentar directamente. Sim, estamos a falar do mesmo fipronil cuja utilização nas culturas agrícolas quisemos ver proibida para proteger as abelhas. Compreendo, por isso, a objecção de quem estranha que um apicultor admita agora discutir a sua utilização contra a velutina. Também considero que essa discussão fica incompleta quando o nome da substância dispensa qualquer consideração sobre as quantidades e as condições em que é utilizada.

As restrições europeias tiveram fundamento. Em 2013, a avaliação da EFSA identificou um risco agudo elevado para as abelhas associado às poeiras provenientes da sementeira de milho tratado com fipronil, além de lacunas relevantes noutras vias de exposição. O Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013 restringiu as utilizações e proibiu a utilização e a venda de determinadas sementes tratadas, com excepções expressamente previstas. Convém preservar esta precisão quando falamos da «proibição do fipronil». [1, 2]

A diferença de escala merece, contudo, entrar na conversa. A documentação da EFSA inclui ensaios em milho com aproximadamente 50 g de fipronil por hectare. No cenário teórico de consumo nominal que aqui considero, a intervenção sobre 140 mil ninhos corresponderia a 280 g, aproximadamente a quantidade associada a 5,6 hectares naquele referencial agrícola. São contas assentes em pressupostos de consumo e eficácia ainda por validar no terreno, mas a desproporção das quantidades é clara. [2]

Este cenário resulta de uma consulta intensiva de literatura europeia e asiática, cruzando trabalhos realizados em diferentes países e condições experimentais, com quantidades nominais explicitadas que permitem construir uma comparação fundamentada. O propósito foi aproximar uma faixa mínima de concentração que mereça investigação, e eventual utilização com expectativa alta de eficácia e fundamentada na literatura. Os fundamentos e os pressupostos que sustentam estas contas poderão ser apresentados, com maior detalhe, noutros contextos de discussão técnica; nesta publicação, interessa sobretudo tornar compreensível a diferença de escala entre as utilizações em análise.

Um raciocínio semelhante aparece num estudo de Paula Malaquias Souto, Soraia Sousa Santos, Nuno Capela e colaboradores. A equipa comparou teoricamente a quantidade de acetamiprido necessária para atingir 140 mil ninhos com a utilização agrícola, chegando a um total próximo de 100 g, da ordem do aplicado num hectare. O trabalho estudou outros insecticidas e não valida o fipronil nem o seu uso cuticular. Ainda assim, mostra que comparar estas escalas tem lugar na discussão científica. Os 140 mil ninhos referidos pelos autores são um total histórico acumulado até 2023, não uma contagem de ninhos activos num único ano. [3]

É neste sentido que considero a contradição mais aparente do que real. Ter defendido restrições a uma utilização agrícola com exposição das abelhas é compatível com querer estudar uma intervenção dirigida a um invasor, envolvendo quantidades globais muito diferentes. A coerência está no objectivo de proteger as abelhas e o funcionamento dos ecossistemas, acompanhando aquilo que sabemos sobre cada utilização.

Naturalmente, uma quantidade pequena de um insecticida muito tóxico pode continuar a causar danos. A comparação em gramas esclarece a escala do consumo; o impacto depende também de onde fica a substância, da sua persistência e dos organismos que lhe ficam expostos. É precisamente por isso que me parecem insuficientes tanto a rejeição automática como a garantia de inocuidade. Interessa conhecer o resultado ambiental concreto de uma intervenção eficaz e compará-lo com o que acontece quando a pressão da velutina se mantém.

Essa outra dimensão também tem números. Rome e colaboradores estimaram que uma colónia de Vespa velutina, ao longo do seu ciclo, necessita de cerca de 97 mil presas equivalentes a abelhas, correspondentes a aproximadamente 11,32 kg de insectos. Trata-se de uma estimativa construída a partir das necessidades alimentares e do desenvolvimento colonial. Se 140 mil colónias completassem um ciclo comparável, a extrapolação aproximar-se-ia de 1 585 toneladas de insectos. A predação correspondente às cerca de 1 600 toneladas de insectos estimadas neste cenário merece também ser considerada nas suas consequências para a rede alimentar: parte dessas presas deixa de estar disponível para aves, aranhas e outros predadores nativos. [4]

No apiário, o prejuízo também passa pelas abelhas que deixam de sair. Foi essa mudança que o meu amigo descreveu no segundo telefonema: voltou a vê-las trabalhar. A redução do forrageio, a dificuldade em manter a entrada de alimento e o definhamento das colónias fazem parte do problema que o apicultor enfrenta. E a discussão interessa igualmente a quem depende da polinização, a quem trabalha nos pomares e lida com vespas nos frutos e durante a colheita, ou a quem encontra um ninho perto de casa.

Gostaria, por isso, que voltássemos a olhar para esta questão com sensibilidade para as duas escalas e para os dois lados do impacto. Que consequências teria para o ecossistema uma utilização dirigida de quantidades tão reduzidas de fipronil, caso se confirmasse a sua eficácia? E que consequências tem a permanência de uma população de velutinas desta dimensão para os insectos, para a apicultura e para as restantes actividades afectadas? O telefonema daquele apicultor não resolve estas perguntas. Dá-me, porém, uma razão concreta para desejar que sejam discutidas sem respostas demasiado fáceis.

Documentos oficiais e estudos

  1. Comissão Europeia (2013). Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013, de 14 de Agosto de 2013, relativo às condições de aprovação do fipronil e à proibição da utilização e venda de sementes tratadas com produtos fitofarmacêuticos que contenham esta substância activa. Jornal Oficial da União Europeia, L 219, 22–25.
  2. EFSA (2013). Conclusion on the peer review of the pesticide risk assessment for bees for the active substance fipronilEFSA Journal, 11(5), 3158. DOI: 10.2903/j.efsa.2013.3158.
  3. Souto, P. M., Santos, S. S., Sarmento, A., Ronsani, A. L., Tomaz, A. L., Azevedo-Pereira, H. M. V. S., Leston, S., Ramos, F., Sousa, J. P., & Capela, N. (2025). Assessing the oral toxicity of acetamiprid, spinosad, cypermethrin, and pyrethrins in the invasive hornet Vespa velutina nigrithoraxScientific Reports, 15, 45112. DOI: 10.1038/s41598-025-31988-x.
  4. Rome, Q., Perrard, A., Muller, F., Fontaine, C., Quilès, A., Zuccon, D., & Villemant, C. (2021). Not just honeybees: predatory habits of Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) in FranceAnnales de la Société entomologique de France, 57(1), 1–11. DOI: 10.1080/00379271.2020.1867005.

cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?

Há ideias a que fui regressando neste blogue porque, mesmo quando não estavam suficientemente amadurecidas para se transformarem numa solução recomendável, continuavam a parecer-me boas perguntas. Uma delas acompanha praticamente toda a história que aqui tenho feito da Vespa velutinase encontramos as obreiras com relativa facilidade, mas não encontramos os ninhos de onde elas vêm, porque não utilizar precisamente essas obreiras para levar até ao ninho aquilo que nós não conseguimos lá colocar? Foi assim que comecei, há quase dez anos, a falar dos Cavalos de Troia.

Entre 2017 e 2018 dediquei várias publicações ao assunto. Escrevi sobre atraentes para capturar as velutinas vivas, sobre os biocidas que poderiam transportar, sobre fipronil, permetrina, spinosad, reguladores de crescimento e sobre a possibilidade de utilizar não apenas adulticidas mas também larvicidas [1-8]. Procurei igualmente acompanhar as soluções encontradas pelos apicultores para um problema aparentemente menor, mas decisivo: fazer o produto acompanhar a vespa durante a viagem sem a matar antes de ela chegar ao destino. Numa das técnicas que então apresentei, o insecticida era misturado com um produto que ajudava a mantê-lo aderente ao corpo da velutina. Hoje pode parecer uma solução rudimentar, mas a pergunta continua perfeitamente actual: como fazer uma pequena quantidade de insecticida viajar vários minutos numa vespa, chegar ao ninho e só então produzir o efeito que pretendemos?

Com o tempo fui percebendo que chegar ao ninho era apenas metade do problema. Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição dos alimentos no interior das colónias de V. velutina [9]. Se a vespa transporta um alimento contaminado, a quem o entrega? Quanto chega às larvas e às outras operárias? Um Cavalo de Troia pode matar muito eficazmente o indivíduo que o transportou e ser praticamente irrelevante para os milhares de indivíduos que constituem a colónia. Esta questão ganhou ainda maior interesse quando apareceram os estudos com iscos proteicos contendo fipronil, primeiro noutras vespas sociais e depois directamente em V. velutina. Em 2023, Barandika e colaboradores encontraram uma redução significativa da pressão nos apiários mais atacados utilizando uma concentração muito baixa de fipronil [10-12]. Seguiram-se neste blogue várias publicações sobre concentração, escolha do insecticida, experiências de apicultores e também resultados negativos [13-17].

Mais recentemente voltei ao assunto a propósito do Vespex e da experiência acumulada na Nova Zelândia, procurando comparar duas maneiras bastante diferentes de avaliar o mesmo problema: o risco de utilizar pequenas quantidades de fipronil e o risco ecológico de deixar uma espécie invasora continuar a expandir-se sem instrumentos de controlo suficientemente eficazes [19].

O Cavalo de Troia deixou assim de significar para mim uma receita concreta. Passou a designar uma família de estratégias com um princípio comum: utilizar a extraordinária capacidade da forrageadora para encontrar novamente o seu ninho como sistema de transporte para alguma coisa que pretendemos fazer chegar à colónia. E foi precisamente por isso que me chamou a atenção uma ferramenta espanhola chamada Loydern — Localización Y Destrucción Remota de Nidos. O meu agradecimento ao Paulo, Mel da Bairrada, e ao Domingos Tavares por terem chamado a minha atenção para este dispositivo!

Uma pequena encomenda transportada pela própria velutina

A Loydern não é um insecticida. É uma pequena cápsula vazia que se prende à vespa. O conceito é extraordinariamente simples: captura-se uma velutina, coloca-se a cápsula e liberta-se novamente o insecto. A velutina faz depois aquilo que sabe fazer muito melhor do que nós: encontrar o seu ninho.

Mas a parte mais engenhosa está no sistema utilizado para atrasar a abertura. O pequeno orifício da cápsula é fechado com um disco de batata ou cenoura. À medida que esse material perde água, contrai-se e acaba por se desprender. Segundo o inventor, o processo demora habitualmente duas a três horas [18]. Não há bateria, relógio ou mecanismo electrónico. Há apenas um pequeno pedaço de tecido vegetal a secar. A ideia é que, quando a cápsula finalmente abre, a transportadora já esteja dentro do ninho.

O fabricante refere que a vespa consegue transportar cargas na ordem de algumas dezenas de miligramas, recomendando não ultrapassar cerca de 40 mg para não comprometer demasiado o voo [18]. Os vídeos mostram inequivocamente velutinas a voar com estas cápsulas e, mais interessante ainda, existem imagens de vespas a entrarem num ninho transportando-as. Portanto, a primeira parte do conceito funciona: a velutina consegue fazer a entrega. O que ainda não sabemos suficientemente bem é o que acontece depois.

Por que razão o inventor escolheu a transflutrina?

Em 2021, o inventor procurou entre os insecticidas domésticos contra mosquitos uma substância suficientemente volátil e experimentou a transflutrina existente numa recarga Raid Night & Day que, segundo o rótulo então utilizado, continha 300 mg desta substância activa [19].

A escolha não foi arbitrária. A transflutrina é um piretróide relativamente volátil e existem produtos biocidas que exploram precisamente a sua libertação por vapor [20,21]. Isto distingue-a muito de insecticidas residuais como a cipermetrina ou de substâncias como o fipronil. Num isco proteico com fipronil, é a própria alimentação e transferência de alimento dentro da colónia que distribui o insecticida. Numa cápsula que simplesmente abre, precisamos de outro mecanismo. A volatilidade oferece precisamente a possibilidade de o insecticida se deslocar do ponto onde foi libertado para outras partes do interior do ninho.

O inventor relata ter começado com uma preparação mais concentrada, verificando que as transportadoras eram afectadas demasiado depressa para conseguirem voar, e ter depois reduzido a concentração até conseguir que as vespas transportassem normalmente as cápsulas [19]. Num dos seus vídeos mais interessantes, três velutinas são observadas a entrar num ninho transportando-as e posteriormente verifica-se uma forte inactivação da colónia. O inventor vai mais longe e admite que, em determinadas condições, uma única cápsula poderá ser suficiente para destruir um ninho.

É precisamente neste ponto que a história começa a ficar mais interessante.

Muito divulgado em Espanha, mas pouco testado por quem não o inventou

O Loydern não é uma novidade escondida num canto da Internet. O sistema teve bastante divulgação em Espanha, particularmente nas regiões onde a velutina constitui um problema sério. Os vídeos foram partilhados, discutidos em páginas e grupos ligados à apicultura e à vespa asiática e aparecem em fóruns perguntas de apicultores interessados em saber se realmente funciona.

Perante esta divulgação, fui procurar aquilo que para mim interessa ainda mais do que os vídeos do inventor: o que dizem os apicultores que compraram as cápsulas e experimentaram o sistema independentemente?

E encontrei uma situação curiosa. Há muita gente a falar do Loydern, muitas partilhas dos mesmos vídeos e muitas perguntas sobre o seu funcionamento, mas surpreendentemente poucos relatos independentes suficientemente detalhados para sabermos exactamente o que foi feito e qual foi o resultado. Em algumas discussões, quem apresenta ou divulga o método reconhece inclusivamente que nunca o experimentou. Depois de vários anos de comercialização e divulgação seria razoável esperar encontrar muito mais experiências documentadas caso a relação entre algumas cápsulas e a destruição de um ninho fosse tão simples e reprodutível como os vídeos podem fazer parecer.

O melhor testemunho independente que encontrei está num fórum espanhol dedicado à vespa asiática [22]. Um participante afirma ter utilizado Loydern num caso particularmente interessante porque sabia onde estava o ninho, instalado numa parede de blocos. Segundo o seu relato, ao longo de aproximadamente uma semana enviou cerca de 25 velutinas equipadas com cápsulas. Reconhece que provavelmente nem todas chegaram ao destino, mas no final refere que o ninho ficou inutilizado.

Um testemunho num fórum não é um ensaio científico e não sabemos sequer quantas das 25 cápsulas chegaram efectivamente ao ninho. Mas é interessante precisamente porque o resultado não coincide com a versão mais optimista apresentada pelo inventor. Num caso vemos três velutinas entrarem e é sugerido que uma cápsula poderá eventualmente bastar; no outro foram necessárias cerca de 25 tentativas durante uma semana para obter o resultado pretendido.

A verdade pode estar em qualquer ponto entre estes dois extremos. Talvez naquele caso apenas cinco das 25 vespas tenham conseguido entregar a cápsula. Talvez tenham sido quinze. Talvez a dimensão e a fase de desenvolvimento dos dois ninhos fossem completamente diferentes. Não sabemos. E é precisamente esse “não sabemos” que me parece mais importante do que escolher entre acreditar no inventor ou no utilizador do fórum.

O problema agrava-se quando não sabemos onde está o ninho

Há ainda uma dificuldade que me é particularmente familiar porque já apareceu nas minhas publicações anteriores sobre Cavalos de Troia. O testemunho espanhol refere-se a um ninho conhecido. Isso permite capturar velutinas associadas àquele local e repetir sucessivamente o procedimento.

Num apiário a situação é diferente. As vinte velutinas que encontramos diante das colmeias podem não pertencer todas ao mesmo ninho. Podem vir de dois, cinco ou dez ninhos diferentes. Colocar vinte cápsulas em vinte vespas não significa portanto enviar vinte cápsulas para uma colónia. Podemos estar a distribuir a intervenção por vários ninhos, alguns recebendo uma única transportadora.

Esta questão pode explicar parte da enorme variabilidade que encontramos nos Cavalos de Troia. E significa também que uma afirmação como “30 cápsulas permitem eliminar 30 ninhos” não pode ser retirada simplesmente do número de cápsulas existentes numa embalagem. Antes de fazermos contas económicas precisamos de conhecer duas probabilidades: quantas vespas completam efectivamente a entrega e quantas entregas são necessárias, em média, para destruir um ninho.

Uma experiência relativamente simples resolveria grande parte da discussão

É talvez o aspecto mais frustrante desta história. Não seria particularmente difícil testar seriamente uma ideia tão interessante.

Bastaria trabalhar com algumas dezenas de ninhos previamente localizados, distribuir aleatoriamente as colónias por um grupo controlo e grupos que recebessem diferentes números de cápsulas, confirmar tanto quanto possível a entrada das transportadoras e acompanhar posteriormente a actividade. No final, os ninhos deveriam ser desmontados para verificar adultos, criação, rainha e futuros reprodutores.

Ficaríamos então a saber aquilo que neste momento ninguém parece saber: qual a probabilidade de destruição de um ninho depois de uma, três, cinco, dez ou vinte entregas?

E poderíamos acrescentar outra experiência ainda mais esclarecedora: medir a concentração do insecticida no ar em diferentes pontos do interior do ninho depois da abertura de uma cápsula. Saberíamos finalmente se a volatilidade da transflutrina, que está bem estabelecida do ponto de vista físico-químico, se traduz realmente numa concentração e distribuição suficientes para explicar a mortalidade observada.

Seriam duas experiências relativamente simples que transformariam uma ideia engenhosa numa tecnologia quantificável — ou demonstrariam as suas limitações.

E o preço?

As cápsulas são relativamente baratas. À data desta publicação, um conjunto de 30 cápsulas vazias custa 24,20 €, aproximadamente 81 cêntimos por unidade [23]. O custo do dispositivo não parece, portanto, ser o principal obstáculo.

Mas não faria ainda a conta de 81 cêntimos por ninho. Se uma cápsula bastasse regularmente, seria extraordinariamente barato. Se forem necessárias cinco, passamos para cerca de quatro euros apenas em cápsulas; se forem necessárias vinte, aproximamo-nos dos dezasseis euros, antes de contabilizar produto, tempo de captura e colocação e as tentativas que não chegam ao destino. O testemunho independente das cerca de 25 velutinas mostra precisamente porque o número que interessa economicamente não é o preço da cápsula, mas o número médio de cápsulas utilizadas por ninho efectivamente destruído.

E ficam as questões ambiental e jurídica

A grande promessa ambiental desta técnica parece-me evidente. Se conseguirmos transportar uma quantidade muito pequena de insecticida directamente para o interior de uma colónia invasora e libertá-la apenas ali, a quantidade total de substância activa necessária poderá ser muito inferior à utilizada por técnicas menos dirigidas. Mas esta vantagem também precisa de ser demonstrada. Uma vespa que não regresse ao ninho poderá deixar uma cápsula noutro ponto do ambiente e um ninho destruído mas não localizado continuará no terreno com adultos e criação eventualmente contaminados.

Também juridicamente convém não confundir conceitos. Uma substância activa aprovada, um produto biocida autorizado e um modo de aplicação autorizado são três coisas diferentes. Existem em Portugal biocidas autorizados contra vespas e ninhos de vespas e existem produtos autorizados contendo transflutrina para outras utilizações. Não encontrei, contudo, uma autorização portuguesa para utilizar transflutrina através de cápsulas transportadas por Vespa velutina. A descrição das experiências realizadas pelo inventor tem, portanto, finalidade informativa e de análise e não constitui uma recomendação para preparar ou utilizar qualquer biocida fora das condições da respectiva autorização.

Quase dez anos depois das primeiras publicações que fiz sobre Cavalos de Troia, continuo a achar fascinante a mesma ideia: utilizar uma vespa que sabemos encontrar para chegar a um ninho que não sabemos onde está. O Loydern acrescenta-lhe uma solução particularmente engenhosa: em vez de fazer a velutina transportar o insecticida no alimento ou agarrado ao corpo, damos-lhe uma pequena encomenda com abertura retardada e deixamos que ela faça a entrega.

Depois desta investigação não considero o Loydern uma simples curiosidade. O princípio faz sentido, a vespa consegue transportar a cápsula, a escolha de um insecticida volátil tem fundamento e existe pelo menos um testemunho independente compatível com a destruição de um ninho. Mas também encontrei uma diferença demasiado grande entre a enorme divulgação do sistema em Espanha e a escassez de resultados independentes documentados. E o melhor testemunho que encontrei é bastante menos espectacular do que as afirmações mais optimistas do inventor.

Talvez seja essa, por enquanto, a conclusão mais justa: muito divulgado, pouco testado e suficientemente interessante para merecer ser testado a sério.

Bibliografia

Publicações anteriores no Abelhas à Beira

  1. Abelhas à Beira (2017). Vespa velutina: novo atraente e novo cavalo de tróia.
  2. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a velutina: novas armas.
  3. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: os melhores atraentes.
  4. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: alguns biocidas para os cavalos de troia.
  5. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: cavalos de tróia validados por estudo realizado no País Basco.
  6. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a vespa asiática: o que é um larvicida?
  7. Abelhas à Beira (2018). Eu faço assim: combate à vespa asiática.
  8. Abelhas à Beira (2018). Vespa asiática: nova técnica para produzir cavalos de tróia.
  9. Abelhas à Beira (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia.
  10. Abelhas à Beira (2022). Remoção bem-sucedida de vespas germânicas (Hymenoptera: Vespidae) por isca tóxica.
  11. Abelhas à Beira (2022). Não detecção de contaminação de colmeias de abelhas após uso de isca para vespas com proteína contendo fipronil. Esta publicação apresenta precisamente os dados do Vespex na Nova Zelândia e a procura de resíduos de fipronil em abelhas, larvas, mel e pólen. 
  12. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: avaliação da eficácia dos iscos proteicos com fipronil em estudo espanhol. É a publicação onde apresenta o ensaio de campo com 222 apicultores e a concentração experimental de 0,01% de fipronil. 
  13. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: estamos a utilizar demasiado fipronil nos cavalos de troia?
  14. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos num apiário com pressão elevada.
  15. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos proteicos — apêndice. Nesta publicação acrescenta os testemunhos de três apicultores que relataram uma diminuição muito acentuada da predação após a utilização dos iscos. abelhasbeira.WordPress.2026-08-13.xmlXML
  16. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: qual o insecticida adequado para os iscos proteicos? A publicação compara precisamente a escolha do fipronil na Nova Zelândia e no estudo espanhol com outras possibilidades de controlo químico. 
  17. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os cavalos de troia são ineficazes?
  18. Abelhas à Beira (2026). Armadilha Zero Velutina 2.0: o que é e análise crítica.
  19. Abelhas à Beira (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Publicado em 6 de agosto de 2026. É particularmente importante nesta sequência porque retoma explicitamente os Cavalos de Troia e contrapõe a rejeição ambiental automática do fipronil à sua utilização controlada em iscos proteicos, recorrendo à experiência do Vespex na Nova Zelândia. 

Literatura científica e outras fontes

  1. Barandika, J. F. et al. (2023). Efficacy of Protein Baits with Fipronil to Control Vespa velutina nigrithorax in ApiariesAnimals, 13, 2075.
  2. Poidatz, J. Trabalhos sobre transferência/distribuição alimentar no interior das colónias de Vespa velutina e suas implicações para estratégias de controlo por Cavalo de Troia.
  3. Kishi, S. & Goka, K. (2017). Review of the invasive yellow-legged hornet, Vespa velutina nigrithorax (Hymenoptera: Vespidae), in Japan and its possible chemical controlApplied Entomology and Zoology, 52, 361–368.
  4. Edwards, E. D. et al. Trabalhos sobre utilização de iscos proteicos contendo fipronil no controlo de Vespula na Nova Zelândia e desenvolvimento/utilização do Vespex.
  5. Ward, D. F. et al. Estudo da exposição de colónias de Apis mellifera ao fipronil associada à utilização de Vespex na Nova Zelândia.
  6. Loydern (2021). Experimentando con piretrinas volátiles: el insecticida que alcanza hasta el último rincón del avispero. Relato experimental do inventor sobre utilização de transflutrina.
  7. Loydern. Funcionamiento e instrucciones de uso de las cápsulas Loydern. Documentação técnica do fabricante.
  8. Foro Avispa Asiática, Vespa Velutina y Vespa Soror (2022). Cápsulas Loydern. Discussão e testemunho independente de utilização do sistema.
  9. European Chemicals Agency (ECHA). Transfluthrin — Product Type 18: Insecticides, acaricides and products to control other arthropods. Documentação regulamentar europeia.
  10. Estudos experimentais sobre transflutrina enquanto piretróide volátil e sobre a sua libertação e ação através da fase vapor.
  11. Direção-Geral da Saúde. Produtos biocidas autorizados em Portugal — TP18. Listas de produtos de uso profissional e não profissional consultadas em agosto de 2026.
  12. Loydern. Loja oficial e informação comercial sobre cápsulas e acessórios. Consultado em agosto de 2026.

chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno

De tempos a tempos reaparece nas redes sociais a ideia de que bastaria “chipar” uma vespa velutina, seguir o sinal e chegar ao ninho. A ideia é sedutora: apanha-se uma vespa junto ao apiário, coloca-se-lhe um chip e ela, sem o saber, leva-nos à porta de casa. O problema é que esta frase, tão curta e tão fácil de repetir, mistura tecnologias muito diferentes, com pesos, alcances, custos e limitações também eles muito diferentes.

Já escrevi neste blog acerca da radiotelemetria, do radar harmónico e da termografia. Na altura, a nota principal era simples: encontrar e eliminar cedo os ninhos é uma das poucas medidas capazes de reduzir a pressão das velutinas no território; encontrar esses ninhos, sobretudo quando estão escondidos nas copas das árvores, é a grande dificuldade.

Passados alguns anos, vale a pena voltar ao assunto. Não porque entretanto tenha aparecido um pequeno GPS que se possa colar a uma vespa, mas porque se acumulou alguma evidência sobre aquilo que estas ferramentas conseguem fazer — e também sobre aquilo que não conseguem fazer. E começa a tornar-se evidente outra coisa talvez mais interessante: provavelmente não haverá uma tecnologia que faça tudo. O caminho poderá estar na combinação de várias ferramentas, cada uma utilizada no ponto da procura em que é mais eficaz.

Primeiro: não há aqui um GPS miniatura

Quando se fala em «chip», convém perguntar: chip de quê? Um microchip de identificação, como o de um cão, não serve para localizar uma vespa à distância. Um GPS necessita de energia, antena e electrónica; e aqui o peso rapidamente se torna um problema. O peso médio das obreiras de Vespa velutina varia bastante ao longo da estação, tendo sido registados valores médios entre cerca de 190 mg no início do verão e 386 mg no outono [1]. Acrescentar 100 ou 200 mg a um insecto deste tamanho está, portanto, muito longe de ser uma questão de pormenor.

As técnicas que têm sido testadas com Vespa velutina seguem sobretudo dois caminhos. Num, prende-se à vespa uma etiqueta passiva, extremamente leve, que responde ao sinal de um radar. No outro, prende-se um pequeno emissor alimentado por bateria e o operador segue o seu sinal com receptor e antena direccional. Mais recentemente surgiram também pequenas etiquetas Bluetooth.

Em nenhum destes casos a vespa envia para o nosso telemóvel uma mensagem a dizer «o ninho está aqui». Continua a ser necessário seguir sinais, interpretar direcções, recuperar contactos perdidos e ir reduzindo progressivamente a área de procura.

Esta distinção parece excessivamente técnica, mas evita a primeira má decisão: comprar ou pedir uma tecnologia sem saber exactamente que problema resolve.

Radar harmónico: etiqueta leve, equipamento exigente

No radar harmónico a etiqueta é um pequeno transponder passivo, feito com fio metálico e um díodo. O radar emite uma frequência e procura a resposta no seu harmónico; é por isso que consegue distinguir o sinal da etiqueta de muito do “ruído” existente no ambiente. A grande vantagem está no peso: no trabalho realizado em Itália a etiqueta pesava apenas 15 mg, qualquer coisa como 4 a 7% do peso de uma obreira [1].

Nesse trabalho, esta técnica permitiu localizar ninhos em seis de nove localidades. Em zonas de surto, onde existiam poucos ninhos, a eficácia reportada foi de 75%; em zonas já muito colonizadas foi de 60%. Os ninhos encontrados estavam, em média, a 395 m do local onde as vespas foram capturadas, embora tenham ocorrido distâncias entre 72 e 786 m [1].

Estes números são interessantes, mas não dispensam a leitura das letras pequenas. Vegetação, edifícios, relevo e a própria orientação do voo complicam a detecção. O aparelho tem de ser deslocado para novas posições e, em zonas com vários ninhos, diferentes vespas podem apontar em direcções diferentes.

Ou seja: a etiqueta é leve; o trabalho não é.

Radiotelemetria: mais portátil, mas a vespa carrega uma bateria

A radiotelemetria resolve de outro modo a questão. A etiqueta emite um sinal VHF e o operador, com uma antena direccional, procura a direcção onde esse sinal é mais forte. É uma técnica mais portátil e capaz de trabalhar em paisagens heterogéneas, mas coloca uma carga muito maior sobre a obreira.

No estudo publicado por Kennedy et al. em 2018, os transmissores pesavam 280 mg. Foram marcadas oito obreiras e seguidas entre 45 e 1331 m; cinco trajectos conduziram a ninhos até então desconhecidos. As restantes não falharam necessariamente por causa do sinal: duas terminaram em locais inacessíveis e uma vespa abrigou-se durante chuva intensa [2].

É uma demonstração muito boa de que a técnica funciona. Não demonstra que qualquer vespa, em qualquer altura do ano, possa carregar qualquer emissor. Os próprios investigadores seleccionaram obreiras mais pesadas. Quanto maior for a proporção entre o peso do emissor e o peso da vespa, maior o risco de a nossa ferramenta começar a escolher as vespas que consegue seguir, em vez de representar as vespas que queremos localizar.

Entretanto, a tecnologia evoluiu. E aqui aparece um exemplo recente que merece atenção.

Em Janeiro de 2026, a Biosecurity New Zealand comunicou estar a utilizar, na operação de erradicação da velutina em Auckland, transmissores de rádio com menos de 160 mg. As vespas eram atraídas a estações de alimentação, capturadas, marcadas e posteriormente seguidas através do sinal. Esta estratégia tinha já contribuído para encontrar três ninhos [8].

Mas há um pormenor ainda mais interessante: depois de o rastreio reduzir a área de procura, foram utilizados drones equipados com câmaras térmicas para ajudar a precisar a localização dos ninhos.

Começamos aqui a perceber que o progresso pode não estar na invenção de um aparelho que faça tudo, mas na utilização sucessiva de ferramentas diferentes.

Um exemplo recente: o VespaTracker

O aparecimento de equipamentos comerciais cada vez mais leves merece também atenção. O VespaTracker é um exemplo. A etiqueta VESPA-NANO anunciada pelo fabricante pesa 125 mg, mede 44,9 × 4,1 × 2,7 mm e funciona através de Bluetooth de baixa energia (BLE). Depois de activada, a bateria terá uma autonomia anunciada de cerca de quatro horas. O sinal pode ser seguido através de uma aplicação instalada no telemóvel; o fabricante anuncia cerca de 350 m com smartphone Android e até 500 m utilizando o receptor direccional RANGE-PRO, em condições ideais [3].

Comparados com os emissores de 280 mg utilizados em 2018, 125 mg representam um avanço muito significativo na miniaturização. E o facto de a operação neozelandesa estar já a utilizar transmissores abaixo dos 160 mg mostra que entrámos numa classe de peso que pode ter utilização operacional.

Mas isto não resolve automaticamente a questão da carga.

Tomando como referência os valores médios de 189 a 386 mg registados para as obreiras, uma etiqueta de 125 mg poderá representar aproximadamente 32% do peso de uma obreira de 386 mg, mas 66% do de uma obreira de 189 mg.

Não será carga demais para a mula?

Talvez seja para algumas e não para outras. É precisamente isso que importa determinar experimentalmente. Sobretudo se pretendermos marcar obreiras precoces, geralmente mais pequenas.

Convém também não confundir o alcance anunciado com uma garantia de rastreio. Bluetooth não transforma a etiqueta num GPS. Entre árvores, relevo, casas e outros obstáculos, o operador continuará a ter de aproximar-se, interpretar direcção e intensidade do sinal e, finalmente, confirmar o ninho. Quatro horas de autonomia podem ser suficientes para uma procura rápida, mas deixam menos margem para hesitações, perda de sinal ou terreno inacessível.

Até ao momento não encontrei uma publicação científica independente que avalie especificamente este equipamento em Vespa velutina: proporção de vespas que retomam voo normal, taxa de chegada ao ninho, perda de etiquetas e desempenho em diferentes paisagens. Isso não significa que o equipamento não funcione. Significa apenas que devemos distinguir uma tecnologia comercialmente disponível de uma tecnologia cuja eficácia operacional já foi demonstrada independentemente.

Uma demonstração no terreno, em condições semelhantes às de cada território, continua a valer mais do que o alcance anunciado numa ficha técnica.

Uma câmara pode avisar; não leva ninguém ao ninho

Entretanto surgiu outra família de ferramentas: câmaras e sensores que procuram reconhecer automaticamente a velutina numa estação de isco ou à entrada de um apiário. Aqui a pergunta já não é «para onde voltou esta obreira?». É outra: «há uma velutina aqui e consigo sabê-lo depressa?».

O projecto VespAI constitui provavelmente um dos exemplos mais interessantes. Combina uma estação de monitorização, câmara, computador compacto e um modelo de visão computacional. Nos ensaios publicados em 2024, o sistema conseguiu distinguir Vespa velutina de Vespa crabro e de outros insectos com um desempenho muito elevado, acima de 99% na medida utilizada pelos investigadores, podendo ainda enviar automaticamente as imagens para confirmação [4].

Para alerta precoce isto pode ser muito importante, sobretudo onde a espécie ainda não está instalada ou onde se pretende detectar rapidamente a sua entrada numa nova área.

Mas uma câmara que fotografa uma velutina não conhece o endereço do ninho.

Pode dar o alarme, conservar a imagem e dizer onde a vespa foi observada. Para passar daí à eliminação continua a ser necessária uma cadeia de resposta: confirmar a identificação, localizar o ninho e intervir em segurança.

Há também sensores ópticos baseados no batimento das asas e propostas de detecção acústica. Num estudo com sensor óptico e aprendizagem automática, a exactidão para Vespa velutina foi em média de 74,5%, em condições laboratoriais [5]. É suficiente para justificar mais investigação; não é suficiente para tratar cada sinal como uma velutina confirmada num apiário português.

Mais recentemente, uma equipa testou a detecção acústica do voo pairado das velutinas junto aos apiários. O algoritmo separou os sons das vespas, das abelhas e do ruído de fundo com 98,7% de exactidão em pouco menos de uma hora de gravações. É um resultado muito interessante para sistemas de alerta passivo. Os próprios autores assinalam, contudo, que falta testar o método em dados contínuos e de longa duração [6].

Detectar uma velutina durante uma sessão experimental não é ainda o mesmo que vigiar automaticamente um apiário durante toda uma época.

E se levarmos os olhos — e os ouvidos — para o ar?

Os drones acrescentam outra possibilidade. Podem transportar câmaras convencionais ou térmicas, sistemas de inteligência artificial e até auxiliar a recepção ou triangulação de sinais emitidos pelas etiquetas.

Já existem experiências de procura automática de ninhos através de drones e visão computacional, assim como trabalhos que combinam radiotelemetria e UAV. E a experiência operacional da Nova Zelândia mostra talvez a aplicação mais intuitiva: primeiro seguir a vespa e reduzir a área de busca; depois utilizar o drone e a termografia para procurar dentro dessa área.

O drone, portanto, também não é a solução. É uma plataforma onde podemos colocar algumas das soluções.

E as câmaras térmicas?

Também aqui convém evitar duas simplificações. A câmara térmica não «vê através das árvores». Procura uma diferença de temperatura entre o ninho e o ambiente. Essa diferença tende a ser mais favorável antes do nascer do sol, quando há mais vespas no ninho e o ambiente está mais fresco.

Folhagem, radiação solar, temperatura do ar, distância e resolução da câmara influenciam muito o resultado [7].

Por isso, a termografia parece particularmente interessante para confirmar ou estreitar uma zona já indicada por observação, triangulação, radar ou telemetria. É uma ferramenta complementar. Utilizá-la como se fosse uma peneira universal para um vale inteiro é pedir-lhe mais do que a física permite.

Onde estas tecnologias podem fazer mais diferença

Há ainda uma distinção importante. O valor destas tecnologias não é necessariamente o mesmo em todos os territórios.

Numa região densamente colonizada, onde existem muitos ninhos, seguir uma vespa pode conduzir-nos a um ninho e deixar dezenas ou centenas por encontrar. Mas numa frente de invasão, onde se procura o primeiro ou um dos primeiros ninhos, localizar e destruir rapidamente uma única colónia pode ter um valor completamente diferente.

É provavelmente neste contexto que algumas destas tecnologias mostram melhor o seu potencial. Não apareceu o pequeno chip que colocamos numa vespa e nos entrega as coordenadas do ninho. O que está a aparecer é algo menos espectacular, mas provavelmente mais útil: uma sequência de ferramentas que se complementam.

Uma câmara ou um sensor podem dizer-nos que a velutina chegou pela primeira vez ao território. Uma estação de alimentação permite capturá-la e observar as viagens. A radiotelemetria ou o radar indicam-nos para que lado regressa. A triangulação vai reduzindo a área de procura. Um drone ou uma câmara térmica podem ajudar a encontrar, entre algumas dezenas de árvores, aquela onde está o ninho. Finalmente, uma equipa no terreno confirma a localização e elimina-o.

Nenhuma destas ferramentas precisa de fazer tudo. Basta que cada uma faça suficientemente bem a parte do trabalho para que foi concebida.

O melhor “chip” é uma resposta organizada

O ponto central não mudou desde as publicações anteriores: eliminar cedo um ninho é mais importante do que andar a combater, uma a uma, as obreiras que aparecem à frente das colmeias. Mas localizar um ninho escondido numa copa, num pinhal, entre casas ou num vale não é um trabalho que se resolva apenas com boa vontade e uma aplicação no telemóvel.

O radar harmónico favorece uma etiqueta extremamente leve, mas exige equipamento especializado. A radiotelemetria oferece mobilidade e resultados convincentes em paisagens complicadas, mas obriga a lidar com uma etiqueta relativamente pesada para o insecto e necessita de operadores experientes. As câmaras, os sensores acústicos e a inteligência artificial podem multiplicar os pontos de vigilância, mas não substituem o rastreio até ao ninho. Os drones podem ampliar enormemente os nossos olhos, mas precisam de saber aproximadamente onde devem olhar. E os novos equipamentos comerciais Bluetooth parecem suficientemente interessantes para merecer ensaios independentes em condições reais.

Se há investimento sensato a discutir, ele não é o de cada apicultor comprar um «chip para velutinas».

É o de as entidades que coordenam vigilância, controlo e protecção civil disporem de equipas treinadas, diferentes ferramentas adequadas ao território e, sobretudo, capacidade para escolher rapidamente a ferramenta certa para cada etapa e agir depois de receberem um alerta.

Não há aqui gadgets milagrosos. Há tecnologias cada vez melhores, com virtualidades e limites, que deverão estar ao serviço de equipas coordenadas — não ao serviço da ilusão de que cada apicultor terá de resolver sozinho um problema colectivo.

Fontes

  1. Lioy, S. et al. (2021). Tracking the invasive hornet Vespa velutina in complex environments by means of a harmonic radar. Scientific Reports, 11, 12143.
  2. Kennedy, P. J. et al. (2018). Searching for nests of the invasive Asian hornet (Vespa velutina) using radio-telemetry.
  3. VespaTracker (consultado em 21-08-2026). Especificações técnicas do VESPA-NANO e RANGE-PRO. Informação do fabricante; não constitui validação científica independente.
  4. O’Shea-Wheller, T. A. et al. (2024). VespAI: a deep learning-based system for the detection of invasive hornets. Communications Biology, 7, 354.
  5. Ribas-Marquès, E. et al. (2023). Automated detection of the yellow-legged hornet using an optical sensor with machine learning.
  6. Hall, H. et al. (2025). Remote and automated detection of Asian hornets (Vespa velutina nigrithorax) at an apiary, using spectral features of their hovering flight sounds.
  7. Lioy, S. et al. (2021). Viability of thermal imaging in detecting nests of the invasive hornet Vespa velutina.
  8. Biosecurity New Zealand — Ministry for Primary Industries (2026). Hornet tracking technology proving effective. Informação operacional publicada em 20 de Janeiro de 2026.

Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle?

Desde que comecei a escrever sobre a Vespa velutina, em 2016, a pergunta foi mudando lentamente. Nos primeiros anos interessava-me sobretudo compreender o invasor: a sua biologia, a velocidade de expansão e as diferentes formas de limitar o seu impacto. Com o tempo, porém, a atenção começou a deslocar-se da vespa para as próprias colónias.

Mais do que perceber o que fazia a Vespa velutina, passei a interessar-me pelo que acontecia às abelhas quando a sua presença se tornava constante.

A investigação veio confirmar que essa mudança de perspetiva fazia sentido.

Hoje sabemos que o principal impacto da Vespa velutina não resulta apenas das campeiras capturadas. Resulta sobretudo da alteração profunda do comportamento da colónia. À medida que aumenta a pressão junto ao alvado, as campeiras reduzem progressivamente a atividade de voo. Entram menos cargas de pólen. Entra menos néctar. A criação diminui. As colónias chegam ao final do verão mais debilitadas e preparam pior o inverno. Este quadro encontra hoje sólido suporte científico.

No entanto, havia uma dúvida que continuava a surgir sempre que observava apiários fortemente pressionados durante os dias mais quentes de agosto. Quando uma colónia praticamente deixa de voar, deixa apenas de recolher néctar e pólen? Ou deixa também de recolher água precisamente na altura em que mais necessita dela?

Durante muito tempo esta pergunta permaneceu apenas como uma hipótese. Não porque existissem trabalhos que a contrariassem, mas porque simplesmente não existiam estudos que permitissem enquadrá-la.

Refiro-me à água.

Habitualmente olhamos para a água como um recurso indispensável para arrefecer a colónia durante os períodos de calor. É verdade. Mas essa é apenas uma parte da sua função.

Os trabalhos publicados por Le Bivic e colaboradores mostram que a água participa em praticamente todas as funções essenciais da colónia. É utilizada na produção do alimento larvar, contribui para manter o equilíbrio hídrico das abelhas adultas, participa na regulação da humidade da zona de criação e desempenha um papel decisivo na termorregulação.

Os autores observaram ainda um aspeto particularmente interessante: à medida que a temperatura aumenta, uma parte crescente da água recolhida passa a ser utilizada no arrefecimento da área de criação (tradução livre).

Este resultado merece ser cruzado com outro facto bem conhecido pelos apicultores. É precisamente durante julho, agosto e setembro que a Vespa velutina exerce normalmente maior pressão sobre os apiários. Os dois fenómenos coincidem. A colónia necessita de mais água. Mas encontra maior dificuldade em recolhê-la.

Abelhas em contexto de paralisia de voo/forrageamento por acção da pressão de V. velutina junto alvado (foto minha).

Até aqui habituámo-nos a interpretar a paralisia de voo sobretudo como um problema de alimentação. Entram menos recursos. A criação diminui. As colónias enfraquecem.

Tudo isto continua a ser verdade. Mas talvez esta interpretação não esteja completa.

Porque a água não constitui apenas mais um recurso recolhido pelas campeiras. Constitui um elemento essencial para que a colónia mantenha o seu funcionamento normal.

Ao contrário do mel ou do pão de abelha, a água praticamente não é armazenada. É recolhida, distribuída e utilizada quase de imediato. Talvez seja precisamente esta característica que explique por que razão a sua importância passou relativamente despercebida quando discutimos o impacto da Vespa velutina.

Importa distinguir claramente aquilo que sabemos daquilo que ainda constitui apenas uma hipótese. Sabemos que a Vespa velutina reduz significativamente a atividade de voo. Sabemos que temperaturas elevadas aumentam as necessidades de água da colónia. Sabemos que essa água é indispensável para manter o funcionamento normal da criação. O que ainda não sabemos é qual a importância da diminuição da sua recolha no conjunto dos efeitos provocados pela Vespa velutina. Mas parece existir fundamento suficiente para que esta hipótese seja estudada.

Ao longo dos últimos anos tenho defendido neste blogue que o principal benefício das harpas elétricas não resulta apenas do número de Vespa velutina capturadas. O mais importante parece ser aquilo que acontece depois. As campeiras voltam a voar. Recomeça a entrada de pólen. Recomeça a entrada de néctar. A criação recupera.

Harpas eléctricas e sua acção letal sobre a V. velutina, e consequente retorno das colónias ao normal comportamento de forrageio (foto minha).

Talvez possamos agora acrescentar outra possibilidade. Ao devolverem tranquilidade à entrada da colmeia, as harpas poderão estar igualmente a permitir que as aguadeiras retomem a sua atividade.

Os trabalhos de Rojas-Nossa e colaboradores mostraram precisamente que as colónias protegidas por harpas apresentaram maior atividade de voo, maior entrada de pólen, mais criação e melhor sobrevivência. Como referem os autores, a redução da pressão de predação permitiu restabelecer o normal funcionamento das colónias (tradução livre).

Habitualmente interpretamos estes resultados como consequência da maior disponibilidade de alimento. Provavelmente essa interpretação está correta. Mas talvez não seja suficiente.

Quando as campeiras recuperam a possibilidade de voar, não regressam apenas às flores. Regressam também às fontes de água.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez parte dos benefícios atribuídos às harpas resulte também da recuperação da capacidade da colónia manter o seu equilíbrio fisiológico durante os períodos de maior exigência ambiental.

Esta perspetiva conduz igualmente a algumas implicações práticas.

A prioridade continua a ser reduzir a pressão exercida pela Vespa velutina para permitir que a colónia recupere a sua atividade normal.

Nessa estratégia, as harpas poderão assumir um papel ainda mais importante do que aquele que normalmente lhes atribuímos.

Paralelamente, parece prudente garantir fontes permanentes de água nas proximidades do apiário, sobretudo durante os meses mais quentes. Uma colónia que recupera a capacidade de voar beneficiará dessa recuperação se encontrar rapidamente o recurso de que necessita.

Poderão existir circunstâncias particulares em que um bebedouro interno ou mesmo um xarope bastante diluído ajudem temporariamente uma colónia muito condicionada. Contudo, estas soluções deverão ser encaradas apenas como complementares. O essencial continua a ser permitir que a própria colónia recupere a sua autonomia e volte a desempenhar normalmente todas as funções para que evoluiu.

Ao reler as publicações que tenho vindo a escrever sobre a Vespa velutina desde 2016, apercebo-me de que a pergunta foi mudando.

Primeiro procurei compreender a vespa e como as eliminar. Depois procurei compreender aquilo que fazia ao comportamento das colónias. Talvez esteja agora na altura de tentar compreender de que forma esse comportamento alterado interfere com o funcionamento interno da própria colónia.

A água poderá ser apenas uma das peças desse processo. Mas talvez seja uma peça mais importante do que até agora lhe temos atribuído.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez sejamos obrigados a olhar para a Vespa velutina de uma forma ligeiramente diferente. Não apenas como um predador de abelhas. Mas como um fator capaz de perturbar, por múltiplas vias, o delicado equilíbrio que permite a uma colónia funcionar como um verdadeiro superorganismo.

E talvez seja precisamente aí que ainda falte encontrar uma peça importante deste puzzle.

Referências

  • Le Bivic, P. et al. (2025). Effects of weather and colony size on water collection in honey bee coloniesAnimal Behaviour.
  • Le Bivic, P. et al. (2026). Water dynamics in the honey bee colony (Apis mellifera): monitoring under high temperaturesJournal of Insect Physiology.
  • Rojas-Nossa, S. V. et al. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony developmentPest Management Science.
  • Human, H., Nicolson, S. W. & Dietemann, V. (2006). Do honeybees regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften, 93, 397–401.

tropilaelaps: dez anos a acompanhar um perigo que parecia distante

Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.

Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.

O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.


2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico

A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.

Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.

Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:

“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”

Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.

E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.


2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização

Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.

As doenças não precisam de passaporte.


2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola

Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.

Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.

A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”

E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”


2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos

Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.

Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.


Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic
expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology 

A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:

  • crescimento populacional superior ao da Varroa;
  • enorme dependência da criação;
  • curta permanência sobre as abelhas adultas;
  • dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
  • importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.

A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.


O que mais me impressiona

O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.

É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.

Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”

Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.

A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.


Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico

Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.

Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.

Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.


Uma última reflexão

Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.

A prevenção começa sempre muito antes da emergência.

Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.

A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.

O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.

Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.


iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema

Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.

A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.

O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.

O exemplo da Nova Zelândia

Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.

Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.

O dispositivo Vespex

À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.

O Vespex não nasceu para a Vespa velutina

Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:

  • Vespula germanica (vespa-germânica);
  • Vespula vulgaris (vespa-comum).

Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.

Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.

Colocação do isco proteico com fipronil no Vespex

Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização

O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.

Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.

Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.

Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.

Os resultados obtidos contra a vespa-germânica

Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:

  • redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
  • reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
  • aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.

Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.

Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.

A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?

Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.

Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:

  • radio-rastreamento;
  • armadilhas;
  • procura intensiva em campo;
  • drones térmicos;
  • sistemas de inteligência artificial.

Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:

  • confirmadas 77 rainhas;
  • destruídos 132 ninhos;
  • sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.

Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.

O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?

Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.

É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.

O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:

  • existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
  • foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
  • vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.

Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:

  • utilização operacional;

e

  • evidência científica consolidada.

Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.

Então porque avança a Nova Zelândia?

Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.

Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:

“Qual é o risco desta substância?”

A Nova Zelândia começa por perguntar:

“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”

Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.

É uma lógica típica da biosegurança.

O sistema é mais importante do que a molécula

Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.

Avalia todo o sistema:

  • estação de isco fechada;
  • alimento proteico específico;
  • período limitado de utilização;
  • recolha posterior;
  • colocação dirigida;
  • integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.

Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.

Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.

A grande diferença ecológica

Existe ainda outro argumento pouco conhecido.

Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:

  • Vespa crabro;
  • Vespula germanica;
  • Vespula vulgaris;
  • espécies de Polistes;
  • espécies de Dolichovespula.

Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.

Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.

Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.

O que a Europa deveria estudar melhor?

Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.

Temos muitos trabalhos sobre:

  • toxicidade do fipronil;
  • persistência ambiental;
  • riscos para organismos não-alvo.

Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:

  • Quantos ninhos são realmente destruídos?
  • Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
  • Qual é a redução anual da população regional?
  • Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
  • Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?

Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.

A pergunta que continua sem resposta

Talvez a verdadeira questão não seja:

“O fipronil é perigoso?”

A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.

A questão verdadeiramente interessante é outra:

“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”

Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.

A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.

Será essa a melhor solução?

Ainda não sabemos.

Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.