rastrear vespas asiáticas no retorno aos seus ninhos: a técnica de radiotelemetria

Um dos meios para controlar as populações de Vespa velutina consiste na localização e eliminação dos seus ninhos. Estas operações devem acontecer tão cedo quanto possível, antes da criação das futuras fundadoras. A maior limitação desta estratégia consiste na localização dos ninhos. Para ultrapassar este enorme obstáculo algumas equipas de investigação estão a testar e aperfeiçoar dois tipos de técnicas: i) recurso ao radar harmónico; ii) recurso à radiotelemetria.

Se numa publicação recente sobre a utilização do radar harmónico para a localização de ninhos, enunciei as suas virtualidades e limitações, chega agora a hora de fazer o mesmo acerca da utilização de equipamentos de radiotelemetria. Para isso, recorro à tradução de um texto de divulgação científica.

“A vespa asiática Vespa velutina é uma espécie invasora que chegou a França em 2004 e desde então tem causado grandes danos à apicultura. O desafio atual é tentar controlar seus níveis populacionais e, assim, reduzir a pressão que exercem sobre as colónias de abelhas. A medida mais eficiente no momento é a destruição o mais precoce possível de seus ninhos, mas o problema é como localizá-los. Cientistas do INRA [França] e seus colegas da Universidade de Exeter, no Reino Unido, desenvolveram uma técnica original de radiotelemetria que, rastreando estes insetos no seu voo de retorno ao ninho (homing), permite uma rápida detecção de seus ninhos. Este trabalho acaba de ser publicado [2018] e oferece um método promissor para o controle de vespas asiáticas.

Vespa velutina nigrithorax em voo.

O vespão asiático é um perigoso predador das abelhas. Desde sua chegada a França em 2004, sua frente de invasão estendeu-se gradualmente a Espanha, Portugal, Itália, Reino Unido, Bélgica e Luxemburgo. Os possíveis fatores que podem restringir sua propagação são a ausência de água que esses insetos precisam para construir seus ninhos e a altitude. Os recursos alimentares não são limitantes, porque além de predar os insetos, as vespas podem alimentar suas larvas usando outras fontes de proteína (carne ou peixe de barracas de mercado, resíduos de pesca, carcaças de gado). A única possibilidade crível de controlar essa praga invasora é limitar suas populações, e duas técnicas são usadas no momento: i) a instalação de armadilhas com isca para capturar e eliminar as fundadoras, e ii) destruir os ninhos o mais cedo possível.

Cientistas do INRA e seus colegas britânicos, especialistas no uso de radiotelemetria em insetos, desenvolveram uma técnica original que envolve equipar vespas asiáticas com tags/transponders de rádio para que possam ser rastreadas de volta aos seus ninhos.

Vespa na qual foi colocado um tag/transponder na zona ventral com um peso de 0, 28gr.

Os cientistas do INRA capturaram vespas que buscavam alimentos perto de colmeias. Em seguida, equiparam-nos com um tag/transponder suspenso ventralmente, amarrado com um fio de algodão. Após longos testes, os cientistas selecionaram vespas com um peso mínimo de 0,35 g para carregar uma tag/transponder de 0,28 g com alcance de 800 m. Na verdade, tinham observado anteriormente que 80% destas vespas podiam carregar até 80% de seu peso corporal.

As vespas marcadas foram treinadas para voar com o tag/tranponder numa gaiola antes de serem soltas e os cientistas puderam segui-los à distância até ao seu ninho. Assim, foi possível detectar ninhos até 1,33 km do ponto de partida da operária.”

fonte: https://www.inrae.fr/en/news/tracking-asian-hornets-they-return-their-nests-method-control-these-dangerous-honeybee-predators

Notas: 1) O equipamento de radiotelemetria tem um custo (valores de 2018) para o receptor e antena de £ 2.000 (libras inglesas) e cerca de £ 140 por tag/transponder. (fonte: https://www.nature.com/articles/s42003-018-0092-9);

2) como fica claro das duas publicações sobre o rastreamento das velutinas “tagar” ou “chipar” as velutinas não é nem barato nem simples. Não é exactamente como ir ao veterinário chipar o cãozinho ou o gatinho. “Chipar” velutinas que mal pesam 0,35 gr. com micro-chips que pesam… 8 gr. (como já li nas redes sociais) é demasiada carga para a mula!

vespas velutinas: chegaram e agora?

Vi pela primeira vez, na semana que passou, colónias de um apiário meu a serem predadas com alguma pressão pelas Vespas velutinas. O que fiz de imediato foi tirar as rampas de voo e colocar as grelhas de alvado na posição invernal, apanhar algumas com uma raquete eléctrica e, finalmente, esmagá-las contra a parede frontal do corpo do ninho.

A primeira!!!
Esmagada contra a parede frontal da colmeia.

Chegaram! E agora?

Desde 2016 que escrevo sobre este animal exótico neste blog (e antes de terem entrado em Portugal, já em 2011 escrevia sobre elas no fórum “As Abelhas”). Tenho alguma informação sobre o que poderá resultar, tendo em conta vários factores, sendo estes os que mais considero neste momento:

  • a eficácia e eficiência das minhas acções, enquadradas num conceito de minimização dos impactos na entomofauna e outros animais não-alvo;
  • o tempo que pretendo passar a controlar este invasor;
  • a factura (€€€) que estou disposto a pagar por dispositivos que seja necessário adquirir;
  • a disposição espacial das colónias em cada apiário.

Por tudo o que tenho lido e considerando os factores atrás referidos vou privilegiar estas duas armas no próximo ano:

O JabeProde, apresentado por D. Jaffré, o seu inventor.
O desinsectizador, ou harpa activa.

Serão as melhores soluções? Como referi vou dar-lhes prioridade, que não significa exclusividade, tendo em conta as minhas circunstâncias e os meus conhecimentos actuais. Não irei deitar a toalha ao chão, depois de tantos de nós, com uma enorme resiliência e de forma exemplar, terem mostrado que é possível manter as colónias vivas e produtivas. Acredito que serei capaz de pertencer a este grupo de excelentes cuidadores.

vespa velutina: o comportamento das novas fundadoras nos meses de outubro a dezembro e medidas a tomar

Depois do pico de pressão das velutinas obreiras sobre as colónias (em geral de início de agosto a meados de outubro), a ameaça não termina. Há que adaptar a estratégia de luta, assim como os equipamentos, à presença de uma nova casta de velutinas: as novas fundadoras. Deixo em baixo a tradução de um boletim informativo, da empresa espanhola Sanve, acerca desta invasão silenciosa.

No outono e no inverno, quando as velutinas fundadoras deixam seus ninhos, tornam-se verdadeiros predadores das reservas de mel de nossas abelhas.

No outono, observamos que as vespas se desinteressam pelas abelhas e vemos que tentam entrar nos alvados das colmeias, em alguns casos vemo-las entrar e depois de algum um tempo saem e pensamos que as abelhas as expulsaram. Nada está mais longe da realidade.

As velutinas procuram as colmeias mais frágeis, assim que a encontram fazem repetidas viagens transportando o mel da colmeia para os seus ninhos. O mais seguro é que a velutina que observamos a sair não é a que acaba de entrar mas uma outra que sai já carregada para o ninho.

As abelhas nas colónias, à medida que o frio se aproxima, formam um cacho para se manterem aquecidas e acabam por expor parte das reservas de mel. Mesmo colónias fortes quando aglomeradas em cacho expõem parte das reservas essenciais para um bom início da colónia na primavera. Sem percebermos, as velutinas saem das colmeias com o mel, causando uma dificuldade acrescida à sobrevivência da colónia.

O que se preconiza é uma redução do alvado com uma dupla função:

Exemplo de um redutor de alvado.
  • Por um lado, evitamos que as velutinas entrem nas colmeias;
  • Nas colmeias mais fracas, que serão preferidas pelos velutinas devido à pouca resistência que as abelhas oferecerão, deve ser colocada uma armadilha que permitirá a entrada das velutinas mas só poderão sair da colmeia para a armadilha que a espere cá fora. Assim evitamos que sejam saqueados e ao mesmo tempo eliminamos parte das velutinas que hibernam nas proximidades dos nossos apiários.”
Armadilha de alvado para velutinas.

fonte: https://sanve.weebly.com/trampa-de-piquera.html

Notas: 1) mesmo tendo a opinião que esta empresa espanhola está a desenvolver um muito bom trabalho, não tenho experiência com os seus produtos. Esta publicação não tem um intuito comercial ou de marketing, apenas tem uma intenção informativa;

2) Para levar para casa: no combate as nossas estratégias e equipamentos devem ir-se ajustando à evolução do ciclo de vida das colónias, tanto o das velutinas como o das nossas abelhas. Que tenhamos uma luta bem sucedida, porque informada, adaptada e afinada aos momentos e locais.

finalmente provado: a eficiência de capturar as vespas asiáticas fundadoras

Entre a comunidade científica francesa, apicultores e restantes cidadãos tem havido um debate, com longos anos, acerca da eficiência no controle da proliferação da vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax), em territórios em que ela se encontra já estabelecida, por meio das armadilhas de captura das fundadoras após a sua saída de hibernação.

Num artigo de divulgação científica, publicado em abril deste ano, surgem finalmente dados científicos que dão suporte à tese de que uma rede adequada de armadilhas devidamente selectivas para a captura de fundadoras desta espécie exótica diminui de forma significativa a proliferação de seus ninhos. Em baixo traduzo alguns excertos do artigo.

Ninho de vespas asiáticas (Vespa velutina nigrithorax).

“Embora utilizado no campo por algumas redes locais de controle, esse método de controle nunca foi oficialmente recomendado porque os estudos científicos existentes sobre o assunto não mostraram, até então, qualquer efetividade real. Além disso, destacaram um impacto sobre os insetos não visados ​​por esse método, devido à baixa seletividade das armadilhas e iscas disponíveis. O Ministério da Agricultura mandatou o ITSAP-Institut de l’Abeille e o Museu Nacional de História Natural (MNHN) completar esses dados e permitir que os efeitos deste método de controle sejam medidos, numa escala sem precedentes.

Para a realização deste estudo, contámos com dados da ciência cidadã, combinados com os obtidos por meio de um protocolo rigoroso. Esses dados incluem a contagem e localização dos ninhos de vespas asiáticas, as armadilhas usadas e o número de fundadoras capturadas. Estes censos foram repetidos ao longo de quatro anos consecutivos (2016-2019) e realizados em três departamentos (Morbihan, Vendée e Pyrénées-Atlantiques).

As relações estatísticas entre a densidade de ninhos e o esforço de captura foram analisadas através de estudos espaço-temporais realizados pela unidade BioSP (BioStatistics and Spatial Processes) do INRAE ​​d’Avignon.

Eficaz, desde que as velutinas sejam o alvo
Como esperado, as análises revelaram a eficiência da instalação de armadilhas preferencialmente em locais onde houve ninhos no ano anterior. A análise da dinâmica espaço-temporal da captura mostrou que a presença de armadilhas é acompanhada por uma diminuição no número de ninhos ao longo do tempo. O principal fator para essa redução é a presença localizada de armadilhas e não a quantidade de armadilhas ou fundadoras capturadas. O efeito desaparece quando se afasta as armadilhas para lá dos 400 m. O efeito sobre os ninhos é tanto mais importante quanto a captura é repetida em vários anos sucessivos. Por exemplo, aplicando as armadilhas ao longo de quatro anos em vez de três, pode multiplicar por cerca de 2 o seu efeito na redução do número de ninhos.

Em contraste, colocar várias armadilhas num mesmo lugar não tem um impacto significativo. Isso parece comprovar que a eficácia deste método depende do estabelecimento de uma malha densa e regular de armadilhas, centrada na área a ser protegida, respeitando um espaçamento de algumas centenas de metros entre dois dispositivos. Na ausência de armadilhas e iscas seletivas, a captura de primavera deve ser realizada em torno dos apiários que experimentaram uma mortalidade excessiva de colónias atribuída ao vespão asiático no inverno anterior.

Não se trata, portanto, da aplicação de armadilhas generalizadas em todos os territórios, mas sim de armadilhas direccionadas para proteger os apiários afectados. Os dados disponíveis sobre a seletividade das armadilhas indicam que deve ser proibido o uso de armadilhas com garrafas, iscas líquidas e favorecido o uso de armadilhas com cestos com cones de entrada do tipo “JabeProde”.

( fonte: http://blog-itsap.fr/efficacite-piegeage-fondatrices-frelon-asiatique/?fbclid=IwAR0RzYzEVsUsLkoraVQBJQsXSHNj-l7IHUJEeAnxbd-Xwuz8wJxnaXNVBJE )

Notas: Sobre o Jabeprode (julgo ter sido o primeiro a escrever em Portugal sobre este dispositivo) escrevi recentemente: “O JABEPRODE é um dispositivo que poderia facilmente ser produzido industrialmente, numa qualquer empresa de moldes, assim as entidades oficiais camarárias e outras patrocinassem o seu fabrico, promovessem o que de melhor se vai fazendo nesta área, e as entregassem gratuitamente aos apicultores. Estou certo que muitos de nós iriam aderir ao projecto. Uma vez mais os apicultores desejam ser referência na protecção da entomofauna e biodiversidade e contribuir para a diminuição da tremenda mortandade que as V. velutinas e as armadilhas não selectivas, colocadas um pouco por todo o lado e ao longo de todo o ano, causam em insectos polinizadores não-alvo.”

Sobre a planificação de uma rede de colocação de armadilhas, deve ser um trabalho coordenado pelos nossos representantes locais (câmaras e seus serviços de protecção civil). A sua execução poderá contar com munícipes que formarão uma rede de voluntários, apicultores e demais, para a realização de algumas das tarefas no terreno, mas sempre com a supervisão e responsabilidade das câmaras e seus serviços de protecção civil na indicação dos locais preferenciais para a instalação das armadilhas, assim como o fornecimento de armadilhas efectivamente selectivas. Está na altura de dar este passo em frente, com vista a uma luta planeada, coordenada, eficiente e selectiva.

localização de ninhos de V. velutina: comparação de técnicas de rastreamento

Em baixo deixo a tradução de excertos de um artigo recente, publicado por uma equipa de investigadores italianos, em torno das vantagens e limites na utilização do radar harmónico para rastreamento do voo de V. velutinas no seu trajecto de e para o seu ninho, e comparação desta técnica com duas outras técnicas de rastreamento: a) rastreamento visual com triangulação; b) rastreamento tecnológico com utilização de radio-telemetria.

No cenário da invasão de Maiorca pela V. velutina, os investigadores foram capazes de detectar e remover 30 ninhos de V. velutina nos anos 2015–2017 por rastreamento visual e triangulação de direções de voo; esta atividade exigia uma média de 19,2 ± 18,9 dias de trabalho por ninho (mín = 0 dias, máx = 63 dias). Com o rastreamento por radar harmónico, fomos capazes de localizar ninhos na Itália com uma média de 2,5 ± 1,0 dias úteis (min = 2 dias, máx = 5 dias) e 11 ± 4 h de uso efetivo do radar. Com a técnica de rádio- telemetria os investigadores conseguiram detectar ninhos de V. velutina em 92 ± 37 min. Porém, um aspecto que deve ser levado em consideração para a utilização desta última técnica: o peso das etiquetas/tags, que pode variar de 150 a 312 mg (10–21 vezes mais pesado do que a etiqueta/tag usada para a técnica de radar harmónico) ou mais. Este peso maior pode afetar a capacidade de voo das vespas [só os indivíduos mais fortes conseguem voar com estes tags], principalmente na primavera ou início do verão, quando o peso das operárias de V. velutina é menor.

Vespas marcadas com tags executando seu comportamento predatório usual. V. velutinas marcadas pairando em frente de colónias de abelhas para atacar abelhas forrageiras (a, b). Uma vespa marcada que está despedaçando uma abelha para recolher o tórax (parte mais energética de sua presa), que será trazida de volta ao ninho para alimentar a ninhada (c). Duas vespas marcadas à entrada do ninho (d).

Outro aspecto que deve ser considerado na comparação das técnicas de rastreamento são os custos associados (pessoal e equipamentos). Todas as técnicas acima mencionadas poderiam ser facilmente realizadas por uma equipe de duas pessoas treinadas, embora a técnica de rastreamento visual exija, em geral, um maior número de dias de trabalho e, portanto, maiores custos de pessoal. No que diz respeito às técnicas tecnológicas, os custos do equipamento inicial são mais elevados para o rastreio por radar harmónico (cerca de 100 mil euros por unidade). Por outro lado, o rastreamento por rádio-telemetria tem custos iniciais de equipamento mais baixos do que o rastreamento por radar harmónico, mas um custo mais alto associado às etiquetas/tags para rastreamento de insetos.

Portanto, a seleção de uma técnica de rastreamento para localização de ninhos de V. velutina requer uma análise das vantagens e limites em relação aos recursos disponíveis, as características das paisagens e a urgência de encontrar os ninhos em relação ao cenário invasor. O uso de câmaras de imagem térmica, em associação com a técnica de rastreamento selecionada, também pode facilitar a localização do ninho uma vez que a área de presença tenha sido definida.

Nota suplementar: Os ninhos de V. velutina detectados com o rastreamento por radar harmónico foram localizados a uma distância média de 395 ± 208 m (M ± SD, n = 10) dos apiários onde as vespas atacavam as abelhas (min = 72 m, max = 786 m). Estes dados são consistentes com informações anteriores sobre a possível faixa de forrageamento de V. velutina, que está provavelmente num raio ao redor do ninho de 500-700 m (ver esta publicação, de outubro de 2018).

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-91541-4#Tab1

como fazer uma armadilha mais selectiva para apanhar vespas velutinas fundadoras

Sabendo que a grande maioria das armadilhas utilizadas para captura de vespas velutinas fundadoras não são suficientemente selectivas, há que fazer melhor. Nesta publicação, de março de 2019, apresentei uma armadilha muito selectiva. O JABEPRODE é um dispositivo que poderia facilmente ser produzido industrialmente, numa qualquer empresa de moldes, assim as entidades oficiais camarárias e outras patrocinassem o seu fabrico, promovessem o que de melhor se vai fazendo nesta área, e as entregassem gratuitamente aos apicultores. Estou certo que muitos de nós iriam aderir ao projecto. Uma vez mais os apicultores desejam ser referência na protecção da entomofauna e biodiversidade e contribuir para a diminuição da tremenda mortandade que as V. velutinas e as armadilhas não selectivas, colocadas um pouco por todo o lado e ao longo de todo o ano, causam em insectos polinizadores não-alvo. Enquanto tal não acontece, surgem propostas de há uns anos a esta parte com modelos para a construção de armadilhas mais selectivas.

Com esta visão em mente apresento nesta publicação um modelo de armadilha mais selectiva, que poderá ser feita por cada um de nós com os instrumentos e equipamentos habituais.

O esquema em baixo dá-nos uma visão geral da armadilha que podemos fazer para apanhar mais selectivamente as velutinas fundadoras.

Material necessário:

  • 2 garrafas de plástico;
  • 2 paus de gelado;
  • 1 pedaço de esponja redondo;
  • Faca ou broca, régua;
  • Cerveja, mel, xarope fermentado, … .

Passos para construção:
1 – Corte o topo das 2 garrafas de forma a criar dois funis.
2 – Molhe a esponja com o isco (cerveja, mel e xarope fermentado, misturados) e insira-a numa das garrafas.
3 – Retire a tampa de um dos funis e coloque-a na garrafa.
4 – Fure os orifícios de entrada (no topo A Ø 9mm) e na saída para os insetos menores (fundo B Ø 5,5mm) e coloque os dois paus de gelado (atuam como ‘pista’ de pouso ou descolagem).
5 – Fure o segundo funil (C Ø 10mm) e coloque-o na garrafa, ele servirá de tampa. Certifique-se de que o orifício (C) está alinhado com o orifício de entrada (A). Girando a tampa, você pode abrir ou fechar a entrada (A).
6 – A armadilha está pronta!

Para eliminar as rainhas fundadoras aprisionadas, coloque a armadilha fechada durante cerca de 1 hora num congelador para que elas entrem no estado dormente. Abra depois a armadilha e mate as rainhas com uma tesoura, cortando-as ou esmagando-as.

Dicas e conselhos de uso:

  • Instale a armadilha assim que as temperaturas atingirem + de 13 ° Celsius
  • Coloque a armadilha perto de um monte de lenha, um ponto de água e/ou áreas de floração (flores com alto teor de néctar onde as abelhas recolhem néctar e pólen como, por exemplo, as camélias de inverno ricas em néctar).
  • Verifique regularmente as armadilhas para as recarregar.
  • Remova todas as armadilhas até 1 de maio. Mais ou menos depois desta data as rainhas ficam no ninho a partir do nascimento da primeira nova geração de vespas obreiras e nunca mais saem dele. Limpe a armadilha e a esponja e guarde até fevereiro próximo.

Notas sobre os aspectos selectivos destas armadilhas:

  • permite atrair e capturar as velutinas fundadoras, mas impede a entrada de outros grandes insetos e permite que insetos menores saiam delas;
    a armadilha está equipada com um dispositivo de limitação de tamanho na sua entrada (A Ø9mm) para que abelhões, vespões nativos e borboletas não possam entrar na armadilha.
  • existe um dispositivo de limitação de tamanho na saída (B Ø5,5mm) para impedir que as rainhas velutina saiam, e deixam os insetos menores saírem;
  • um pedaço de esponja circular colocado no fundo da garrafa, embebido até à saturação com um isco habitual (cerveja+ mel ou cidra + xarope fermentado ou líquido de cera derretida) permite maior evaporação e maior alcance dos aromas atractivos assim que o primeiros raios de sol aparecem. Essa esponja também evita que insetos menores se afoguem, caso tenham entrado na armadilha;
  • manter as rainhas vivas no interior contribui para atrair mais vespas por via das feromonas que libertam enquanto aprisionadas;
  • uma tampa giratória com abertura (C Ø10mm) permitirá fechar a entrada superior, prendendo as rainhas enquanto se aguarda para a eliminar.

Enquanto apicultores devemos fazer tudo o que nos for possível para evitar que outros insectos não-alvo sejam eliminados em quantidades massivas pela utilização de armadilhas não selectivas. Eliminemos apenas as velutinas fundadoras e a Mãe Natureza agradecerá por isso!

fonte: https://www.planfor.co.uk/garden-advice,selective-trap-for-asian-hornet.html

nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina

Neste artigo, All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps, os autores espanhóis confirmam o que tenho lido de há uns anos a esta parte noutros artigos publicados por investigadores franceses: as armadilhas para captura de vespas velutinas não são específicas o suficiente e capturam uma grande quantidade de outros polinizadores importantes nos serviços do ecossistema.

Surpreendentemente, para mim pelo menos, foram encontrados 5 ácaros do género Varroa em cinco dos 286 espécimes Vespa velutina examinados (um ácaro por espécime de V. velutina). A taxa de prevalência do parasita Varroa em V. velutina foi de 0,017 (1,75%). Em todos os casos, os ácaros foram encontrados agarrados à parte ventral lateral do abdómen de cada V. velutina.

Em baixo fica o gráfico que os autores construíram sobre a percentagem de mortalidade causada em insectos benéficos (a azul) e insectos prejudiciais (a vermelho) aos serviços do ecossistema que nos são indispensáveis, em resultado das armadilhas utilizadas para apanhar vespas velutinas, na amostra estudada.

Nota: naturalmente sei que os meus leitores terão a inteligência e o bom senso de não crucificarem o mensageiro em razão das notícias não serem confortáveis. Decidi publicar por duas razões: 1) pela primeira vez vejo uma equipa de investigadores não-franceses a confirmarem o que há anos vem sendo dito por equipas francesas; 2) o facto de se ter encontrado varroas alojadas no corpo de umas poucas V. velutinas. Numa publicação que se seguirá trarei melhores notícias.

os gigantes estão a chegar? previsão do potencial de propagação e impactos da vespa gigante asiática (Vespa mandarinia, Hymenoptera: Vespidae) nos EUA

Vespa mandarinia, um gigante entre gigantes.

A tradução do sumário em baixo, de um artigo recente sobre uma preocupação recente, acerca da invasão da Vespa mandarinia de territórios da América do Norte, tem o propósito de reflectir sobre dois aspectos:

  • a minha suspeita que os autores acreditam que a sensibilização dos decisores políticos para o problema passa por fornecer-lhes dados fiáveis do impacto económico da invasão, em especial nos serviços de polinização;
  • aproveitar para relevar novamente a importância económica das colónias de abelhas nos serviços de polinização que prestam ao sistema agro-pecuário — US $ 101,8 milhões, o que equivale a uma mais-valia de mil dólares por colónia.

Teremos alguma coisa a aprender na Europa sobre como fazer a sensibilização de políticos? Seguramente que sim, e esta publicação poderá ajudar a ilustrar como o fazer: enfatizando perdas económicos mais gerais, em particular as decorrentes do empobrecimento de todo o sector agro-pecuário, se a luta contra a V. velutina não se traduzir em melhores resultados que os alcançados até à data.

Sumário

Contexto: As invasões biológicas são uma preocupação global na agricultura, produção de alimentos e biodiversidade. Entre as espécies invasoras, sabe-se que algumas vespas causam sérios efeitos sobre as abelhas, como as encontradas durante a invasão da Vespa velutina na Europa. As recentes descobertas de indivíduos Vespa mandarinia no estado de Washington, na costa oeste dos EUA, levantaram o alarme em todo o país. Aqui nós estimamos o potencial de propagação de V. mandarinia nos EUA, analisando seus impactos potenciais nas colónias de abelhas, perdas económicas na indústria de abelhas e áreas de cultivo polinizadas por abelhas.

Resultados: Descobrimos que a V. mandarinia poderia colonizar os estados de Washington e Oregon na costa oeste e uma proporção significativa da costa leste. Se esta espécie se espalhar por todo o país, poderá ameaçar 95.216 ± 5551 de colónias de abelhas, ameaçando uma renda estimada de US $ 11,9 e 101,8 milhões para produtos derivados de colmeias e produção de colheitas polinizadas por abelhas, respectivamente, quando colonizar 60.837,8 km2 de plantações polinizadas por abelhas.

Conclusão: Os nossos resultados sugerem que V. mandarinia terá graves efeitos nos EUA, aumentando a necessidade de ações de monitorização e planeamento imediatos em diferentes níveis administrativos para evitar sua potencial disseminação.

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/ps.6063

expansão da Vespa velutina no noroeste da Espanha: influência da altitude, fatores meteorológicos e efeito da armadilha de isca em organismos vivos alvo e não alvo

Fica a tradução do resumo de um estudo, realizado na vizinha Galícia, acerca dos factores abióticos que parecem condicionar a expansão da V. velutina naquela região e do efeito das armadilhas de isca não selectivas na espécie-alvo e nas espécies não-alvo de acordo com as características dos locais de captura.

Resumo

A vespa de patas amarelas, Vespa velutina, é uma espécie invasora recente na Galiza (noroeste da Espanha). Sua invasão tem um importante impacto socioeconómico porque ataca abelhas (Apis mellifera) e outros insetos polinizadores cruciais. A dispersão desta espécie deve ser monitorada para minimizar os danos que causa e tomar as ações de controle necessárias. Os objetivos deste estudo foram determinar organismos vivos alvo e não alvos capturados por armadilhas de isca e comparar os padrões de distribuição de V. velutina e da autóctone V. crabro. A altitude e as condições climáticas desempenharam papéis importantes no comportamento das vespas. As armadilhas colocadas em áreas costeiras de baixa altitude continham uma maioria de vespas de patas amarelas. Em contraste, as vespas autóctones surgiram em números relativamente maiores nas armadilhas colocadas em áreas de grande altitude. Altas temperaturas mínimas, orvalho, humidade relativa alta e baixas temperaturas máximas favorecem a ocorrência e disseminação de V. velutina. Essas condições são comuns nas áreas costeiras deste território e promoveram a rápida dispersão desta praga. As armadilhas de isca usadas não eram seletivas, então muitos outros organismos artrópodes foram capturados juntamente com o vespão. Portanto, o uso de iscas seletivas para a espécie é necessário para o controlo ecologicamente correto desta praga de inseto.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s10340-018-1042-5

Imagens de um estudo sul-coreano acerca da competição interespecífica entre a V. velutina (invasora) e 5 outros vespões nativos daquela região, entre elas a V. crabro.

padrões de invasão da Vespa velutina em Portugal utilizando dados crowdsourced

Em baixo deixo a tradução do resumo de um estudo português publicado recentemente (04.2020) acerca da colonização do território continental pela Vespa velutina.

Vista dorsal (em cima) e ventral (em baixo) de uma Vespa velutina nigrithorax

Resumo
A vespa invasora de patas-amarela (Vespa velutina) foi detectada pela primeira vez em Portugal continental em setembro de 2011. A falta de informação sobre os processos de propagação da espécie tem dificultado o desenvolvimento de medidas adequadas para mitigar o potencial impacto deste predador invasor.

Dados coletados, ou seja, informações oportunamente relatadas pelos cidadãos, podem facilitar a coleta de registros de ocorrência de espécies em grandes escalas espaciais, o que pode ser valioso para compreender a expansão de espécies invasoras. Aqui, utilizando dados crowdsourced validados sobre a localização precisa de 49 013 ninhos, nós: (i) atualizamos a informação sobre a distribuição de V. velutina em Portugal; (ii) estimamos a taxa de expansão da espécie; e (iii) analisamos os padrões de distribuição de ninhos a uma escala nacional e local.


A espécie encontra-se actualmente distribuída por uma área de cerca de 57 000 km2, o que corresponde a 62% do território continental. Estimamos uma taxa média de 37,4 ± 13,2 km / ano para a expansão de V. velutina. A distribuição e densidade dos ninhos de Vespa velutina a uma escala local urbana foi estimada em 5,4 ± 3,3 ninhos / km2. A diminuição observada na distância entre ninhos vizinhos ao longo dos anos sugere que a densidade dos ninhos não atingiu seu limite.

Defendemos que o desenvolvimento de um método barato e rápido para detecção de ninhos e o estudo numa escala fina dos mecanismos que que levam à dispersão de V. velutina são etapas importantes para identificar as vias de colonização e planear abordagens de controlo com o objetivo de interromper a disseminação de espécies e o impacto em apiários.

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/icad.12418

Nota: sabendo que cada ninho produz em média 500 a mil novas fundadoras e cerca de 13 mil indivíduos por cada ciclo anual (Rome et al., 2015) o controlo da população e expansão da Vespa velutina passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento de uma capacidade melhorada de detecção e destruição dos ninhos.