cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?

Há ideias a que fui regressando neste blogue porque, mesmo quando não estavam suficientemente amadurecidas para se transformarem numa solução recomendável, continuavam a parecer-me boas perguntas. Uma delas acompanha praticamente toda a história que aqui tenho feito da Vespa velutina: se encontramos as obreiras com relativa facilidade, mas não encontramos os ninhos de onde elas vêm, porque não utilizar precisamente essas obreiras para levar até ao ninho aquilo que nós não conseguimos lá colocar? Foi assim que comecei, há quase dez anos, a falar dos Cavalos de Troia.

Entre 2017 e 2018 dediquei várias publicações ao assunto. Escrevi sobre atraentes para capturar as velutinas vivas, sobre os biocidas que poderiam transportar, sobre fipronil, permetrina, spinosad, reguladores de crescimento e sobre a possibilidade de utilizar não apenas adulticidas mas também larvicidas [1-8]. Procurei igualmente acompanhar as soluções encontradas pelos apicultores para um problema aparentemente menor, mas decisivo: fazer o produto acompanhar a vespa durante a viagem sem a matar antes de ela chegar ao destino. Numa das técnicas que então apresentei, o insecticida era misturado com um produto que ajudava a mantê-lo aderente ao corpo da velutina. Hoje pode parecer uma solução rudimentar, mas a pergunta continua perfeitamente actual: como fazer uma pequena quantidade de insecticida viajar vários minutos numa vespa, chegar ao ninho e só então produzir o efeito que pretendemos?

Com o tempo fui percebendo que chegar ao ninho era apenas metade do problema. Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição dos alimentos no interior das colónias de V. velutina [9]. Se a vespa transporta um alimento contaminado, a quem o entrega? Quanto chega às larvas e às outras operárias? Um Cavalo de Troia pode matar muito eficazmente o indivíduo que o transportou e ser praticamente irrelevante para os milhares de indivíduos que constituem a colónia. Esta questão ganhou ainda maior interesse quando apareceram os estudos com iscos proteicos contendo fipronil, primeiro noutras vespas sociais e depois directamente em V. velutina. Em 2023, Barandika e colaboradores encontraram uma redução significativa da pressão nos apiários mais atacados utilizando uma concentração muito baixa de fipronil [10-12]. Seguiram-se neste blogue várias publicações sobre concentração, escolha do insecticida, experiências de apicultores e também resultados negativos [13-17].

Mais recentemente voltei ao assunto a propósito do Vespex e da experiência acumulada na Nova Zelândia, procurando comparar duas maneiras bastante diferentes de avaliar o mesmo problema: o risco de utilizar pequenas quantidades de fipronil e o risco ecológico de deixar uma espécie invasora continuar a expandir-se sem instrumentos de controlo suficientemente eficazes [19].

O Cavalo de Troia deixou assim de significar para mim uma receita concreta. Passou a designar uma família de estratégias com um princípio comum: utilizar a extraordinária capacidade da forrageadora para encontrar novamente o seu ninho como sistema de transporte para alguma coisa que pretendemos fazer chegar à colónia. E foi precisamente por isso que me chamou a atenção uma ferramenta espanhola chamada Loydern — Localización Y Destrucción Remota de Nidos. O meu agradecimento ao Paulo, Mel da Bairrada, e ao Domingos Tavares por terem chamado a minha atenção para este dispositivo!

Uma pequena encomenda transportada pela própria velutina

A Loydern não é um insecticida. É uma pequena cápsula vazia que se prende à vespa. O conceito é extraordinariamente simples: captura-se uma velutina, coloca-se a cápsula e liberta-se novamente o insecto. A velutina faz depois aquilo que sabe fazer muito melhor do que nós: encontrar o seu ninho.

Mas a parte mais engenhosa está no sistema utilizado para atrasar a abertura. O pequeno orifício da cápsula é fechado com um disco de batata ou cenoura. À medida que esse material perde água, contrai-se e acaba por se desprender. Segundo o inventor, o processo demora habitualmente duas a três horas [18]. Não há bateria, relógio ou mecanismo electrónico. Há apenas um pequeno pedaço de tecido vegetal a secar. A ideia é que, quando a cápsula finalmente abre, a transportadora já esteja dentro do ninho.

O fabricante refere que a vespa consegue transportar cargas na ordem de algumas dezenas de miligramas, recomendando não ultrapassar cerca de 40 mg para não comprometer demasiado o voo [18]. Os vídeos mostram inequivocamente velutinas a voar com estas cápsulas e, mais interessante ainda, existem imagens de vespas a entrarem num ninho transportando-as. Portanto, a primeira parte do conceito funciona: a velutina consegue fazer a entrega. O que ainda não sabemos suficientemente bem é o que acontece depois.

Por que razão o inventor escolheu a transflutrina?

Em 2021, o inventor procurou entre os insecticidas domésticos contra mosquitos uma substância suficientemente volátil e experimentou a transflutrina existente numa recarga Raid Night & Day que, segundo o rótulo então utilizado, continha 300 mg desta substância activa [19].

A escolha não foi arbitrária. A transflutrina é um piretróide relativamente volátil e existem produtos biocidas que exploram precisamente a sua libertação por vapor [20,21]. Isto distingue-a muito de insecticidas residuais como a cipermetrina ou de substâncias como o fipronil. Num isco proteico com fipronil, é a própria alimentação e transferência de alimento dentro da colónia que distribui o insecticida. Numa cápsula que simplesmente abre, precisamos de outro mecanismo. A volatilidade oferece precisamente a possibilidade de o insecticida se deslocar do ponto onde foi libertado para outras partes do interior do ninho.

O inventor relata ter começado com uma preparação mais concentrada, verificando que as transportadoras eram afectadas demasiado depressa para conseguirem voar, e ter depois reduzido a concentração até conseguir que as vespas transportassem normalmente as cápsulas [19]. Num dos seus vídeos mais interessantes, três velutinas são observadas a entrar num ninho transportando-as e posteriormente verifica-se uma forte inactivação da colónia. O inventor vai mais longe e admite que, em determinadas condições, uma única cápsula poderá ser suficiente para destruir um ninho.

É precisamente neste ponto que a história começa a ficar mais interessante.

Muito divulgado em Espanha, mas pouco testado por quem não o inventou

O Loydern não é uma novidade escondida num canto da Internet. O sistema teve bastante divulgação em Espanha, particularmente nas regiões onde a velutina constitui um problema sério. Os vídeos foram partilhados, discutidos em páginas e grupos ligados à apicultura e à vespa asiática e aparecem em fóruns perguntas de apicultores interessados em saber se realmente funciona.

Perante esta divulgação, fui procurar aquilo que para mim interessa ainda mais do que os vídeos do inventor: o que dizem os apicultores que compraram as cápsulas e experimentaram o sistema independentemente?

E encontrei uma situação curiosa. Há muita gente a falar do Loydern, muitas partilhas dos mesmos vídeos e muitas perguntas sobre o seu funcionamento, mas surpreendentemente poucos relatos independentes suficientemente detalhados para sabermos exactamente o que foi feito e qual foi o resultado. Em algumas discussões, quem apresenta ou divulga o método reconhece inclusivamente que nunca o experimentou. Depois de vários anos de comercialização e divulgação seria razoável esperar encontrar muito mais experiências documentadas caso a relação entre algumas cápsulas e a destruição de um ninho fosse tão simples e reprodutível como os vídeos podem fazer parecer.

O melhor testemunho independente que encontrei está num fórum espanhol dedicado à vespa asiática [22]. Um participante afirma ter utilizado Loydern num caso particularmente interessante porque sabia onde estava o ninho, instalado numa parede de blocos. Segundo o seu relato, ao longo de aproximadamente uma semana enviou cerca de 25 velutinas equipadas com cápsulas. Reconhece que provavelmente nem todas chegaram ao destino, mas no final refere que o ninho ficou inutilizado.

Um testemunho num fórum não é um ensaio científico e não sabemos sequer quantas das 25 cápsulas chegaram efectivamente ao ninho. Mas é interessante precisamente porque o resultado não coincide com a versão mais optimista apresentada pelo inventor. Num caso vemos três velutinas entrarem e é sugerido que uma cápsula poderá eventualmente bastar; no outro foram necessárias cerca de 25 tentativas durante uma semana para obter o resultado pretendido.

A verdade pode estar em qualquer ponto entre estes dois extremos. Talvez naquele caso apenas cinco das 25 vespas tenham conseguido entregar a cápsula. Talvez tenham sido quinze. Talvez a dimensão e a fase de desenvolvimento dos dois ninhos fossem completamente diferentes. Não sabemos. E é precisamente esse “não sabemos” que me parece mais importante do que escolher entre acreditar no inventor ou no utilizador do fórum.

O problema agrava-se quando não sabemos onde está o ninho

Há ainda uma dificuldade que me é particularmente familiar porque já apareceu nas minhas publicações anteriores sobre Cavalos de Troia. O testemunho espanhol refere-se a um ninho conhecido. Isso permite capturar velutinas associadas àquele local e repetir sucessivamente o procedimento.

Num apiário a situação é diferente. As vinte velutinas que encontramos diante das colmeias podem não pertencer todas ao mesmo ninho. Podem vir de dois, cinco ou dez ninhos diferentes. Colocar vinte cápsulas em vinte vespas não significa portanto enviar vinte cápsulas para uma colónia. Podemos estar a distribuir a intervenção por vários ninhos, alguns recebendo uma única transportadora.

Esta questão pode explicar parte da enorme variabilidade que encontramos nos Cavalos de Troia. E significa também que uma afirmação como “30 cápsulas permitem eliminar 30 ninhos” não pode ser retirada simplesmente do número de cápsulas existentes numa embalagem. Antes de fazermos contas económicas precisamos de conhecer duas probabilidades: quantas vespas completam efectivamente a entrega e quantas entregas são necessárias, em média, para destruir um ninho.

Uma experiência relativamente simples resolveria grande parte da discussão

É talvez o aspecto mais frustrante desta história. Não seria particularmente difícil testar seriamente uma ideia tão interessante.

Bastaria trabalhar com algumas dezenas de ninhos previamente localizados, distribuir aleatoriamente as colónias por um grupo controlo e grupos que recebessem diferentes números de cápsulas, confirmar tanto quanto possível a entrada das transportadoras e acompanhar posteriormente a actividade. No final, os ninhos deveriam ser desmontados para verificar adultos, criação, rainha e futuros reprodutores.

Ficaríamos então a saber aquilo que neste momento ninguém parece saber: qual a probabilidade de destruição de um ninho depois de uma, três, cinco, dez ou vinte entregas?

E poderíamos acrescentar outra experiência ainda mais esclarecedora: medir a concentração do insecticida no ar em diferentes pontos do interior do ninho depois da abertura de uma cápsula. Saberíamos finalmente se a volatilidade da transflutrina, que está bem estabelecida do ponto de vista físico-químico, se traduz realmente numa concentração e distribuição suficientes para explicar a mortalidade observada.

Seriam duas experiências relativamente simples que transformariam uma ideia engenhosa numa tecnologia quantificável — ou demonstrariam as suas limitações.

E o preço?

As cápsulas são relativamente baratas. À data desta publicação, um conjunto de 30 cápsulas vazias custa 24,20 €, aproximadamente 81 cêntimos por unidade [23]. O custo do dispositivo não parece, portanto, ser o principal obstáculo.

Mas não faria ainda a conta de 81 cêntimos por ninho. Se uma cápsula bastasse regularmente, seria extraordinariamente barato. Se forem necessárias cinco, passamos para cerca de quatro euros apenas em cápsulas; se forem necessárias vinte, aproximamo-nos dos dezasseis euros, antes de contabilizar produto, tempo de captura e colocação e as tentativas que não chegam ao destino. O testemunho independente das cerca de 25 velutinas mostra precisamente porque o número que interessa economicamente não é o preço da cápsula, mas o número médio de cápsulas utilizadas por ninho efectivamente destruído.

E ficam as questões ambiental e jurídica

A grande promessa ambiental desta técnica parece-me evidente. Se conseguirmos transportar uma quantidade muito pequena de insecticida directamente para o interior de uma colónia invasora e libertá-la apenas ali, a quantidade total de substância activa necessária poderá ser muito inferior à utilizada por técnicas menos dirigidas. Mas esta vantagem também precisa de ser demonstrada. Uma vespa que não regresse ao ninho poderá deixar uma cápsula noutro ponto do ambiente e um ninho destruído mas não localizado continuará no terreno com adultos e criação eventualmente contaminados.

Também juridicamente convém não confundir conceitos. Uma substância activa aprovada, um produto biocida autorizado e um modo de aplicação autorizado são três coisas diferentes. Existem em Portugal biocidas autorizados contra vespas e ninhos de vespas e existem produtos autorizados contendo transflutrina para outras utilizações. Não encontrei, contudo, uma autorização portuguesa para utilizar transflutrina através de cápsulas transportadas por Vespa velutina. A descrição das experiências realizadas pelo inventor tem, portanto, finalidade informativa e de análise e não constitui uma recomendação para preparar ou utilizar qualquer biocida fora das condições da respectiva autorização.

Quase dez anos depois das primeiras publicações que fiz sobre Cavalos de Troia, continuo a achar fascinante a mesma ideia: utilizar uma vespa que sabemos encontrar para chegar a um ninho que não sabemos onde está. O Loydern acrescenta-lhe uma solução particularmente engenhosa: em vez de fazer a velutina transportar o insecticida no alimento ou agarrado ao corpo, damos-lhe uma pequena encomenda com abertura retardada e deixamos que ela faça a entrega.

Depois desta investigação não considero o Loydern uma simples curiosidade. O princípio faz sentido, a vespa consegue transportar a cápsula, a escolha de um insecticida volátil tem fundamento e existe pelo menos um testemunho independente compatível com a destruição de um ninho. Mas também encontrei uma diferença demasiado grande entre a enorme divulgação do sistema em Espanha e a escassez de resultados independentes documentados. E o melhor testemunho que encontrei é bastante menos espectacular do que as afirmações mais optimistas do inventor.

Talvez seja essa, por enquanto, a conclusão mais justa: muito divulgado, pouco testado e suficientemente interessante para merecer ser testado a sério.

Bibliografia

Publicações anteriores no Abelhas à Beira

  1. Abelhas à Beira (2017). Vespa velutina: novo atraente e novo cavalo de tróia.
  2. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a velutina: novas armas.
  3. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: os melhores atraentes.
  4. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: alguns biocidas para os cavalos de troia.
  5. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: cavalos de tróia validados por estudo realizado no País Basco.
  6. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a vespa asiática: o que é um larvicida?
  7. Abelhas à Beira (2018). Eu faço assim: combate à vespa asiática.
  8. Abelhas à Beira (2018). Vespa asiática: nova técnica para produzir cavalos de tróia.
  9. Abelhas à Beira (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia.
  10. Abelhas à Beira (2022). Remoção bem-sucedida de vespas germânicas (Hymenoptera: Vespidae) por isca tóxica.
  11. Abelhas à Beira (2022). Não detecção de contaminação de colmeias de abelhas após uso de isca para vespas com proteína contendo fipronil. Esta publicação apresenta precisamente os dados do Vespex na Nova Zelândia e a procura de resíduos de fipronil em abelhas, larvas, mel e pólen. 
  12. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: avaliação da eficácia dos iscos proteicos com fipronil em estudo espanhol. É a publicação onde apresenta o ensaio de campo com 222 apicultores e a concentração experimental de 0,01% de fipronil. 
  13. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: estamos a utilizar demasiado fipronil nos cavalos de troia?
  14. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos num apiário com pressão elevada.
  15. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos proteicos — apêndice. Nesta publicação acrescenta os testemunhos de três apicultores que relataram uma diminuição muito acentuada da predação após a utilização dos iscos. abelhasbeira.WordPress.2026-08-13.xmlXML
  16. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: qual o insecticida adequado para os iscos proteicos? A publicação compara precisamente a escolha do fipronil na Nova Zelândia e no estudo espanhol com outras possibilidades de controlo químico. 
  17. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os cavalos de troia são ineficazes?
  18. Abelhas à Beira (2026). Armadilha Zero Velutina 2.0: o que é e análise crítica.
  19. Abelhas à Beira (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Publicado em 6 de agosto de 2026. É particularmente importante nesta sequência porque retoma explicitamente os Cavalos de Troia e contrapõe a rejeição ambiental automática do fipronil à sua utilização controlada em iscos proteicos, recorrendo à experiência do Vespex na Nova Zelândia. 

Literatura científica e outras fontes

  1. Barandika, J. F. et al. (2023). Efficacy of Protein Baits with Fipronil to Control Vespa velutina nigrithorax in Apiaries. Animals, 13, 2075.
  2. Poidatz, J. Trabalhos sobre transferência/distribuição alimentar no interior das colónias de Vespa velutina e suas implicações para estratégias de controlo por Cavalo de Troia.
  3. Kishi, S. & Goka, K. (2017). Review of the invasive yellow-legged hornet, Vespa velutina nigrithorax (Hymenoptera: Vespidae), in Japan and its possible chemical control. Applied Entomology and Zoology, 52, 361–368.
  4. Edwards, E. D. et al. Trabalhos sobre utilização de iscos proteicos contendo fipronil no controlo de Vespula na Nova Zelândia e desenvolvimento/utilização do Vespex.
  5. Ward, D. F. et al. Estudo da exposição de colónias de Apis mellifera ao fipronil associada à utilização de Vespex na Nova Zelândia.
  6. Loydern (2021). Experimentando con piretrinas volátiles: el insecticida que alcanza hasta el último rincón del avispero. Relato experimental do inventor sobre utilização de transflutrina.
  7. Loydern. Funcionamiento e instrucciones de uso de las cápsulas Loydern. Documentação técnica do fabricante.
  8. Foro Avispa Asiática, Vespa Velutina y Vespa Soror (2022). Cápsulas Loydern. Discussão e testemunho independente de utilização do sistema.
  9. European Chemicals Agency (ECHA). Transfluthrin — Product Type 18: Insecticides, acaricides and products to control other arthropods. Documentação regulamentar europeia.
  10. Estudos experimentais sobre transflutrina enquanto piretróide volátil e sobre a sua libertação e ação através da fase vapor.
  11. Direção-Geral da Saúde. Produtos biocidas autorizados em Portugal — TP18. Listas de produtos de uso profissional e não profissional consultadas em agosto de 2026.
  12. Loydern. Loja oficial e informação comercial sobre cápsulas e acessórios. Consultado em agosto de 2026.

chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno

De tempos a tempos reaparece nas redes sociais a ideia de que bastaria “chipar” uma vespa velutina, seguir o sinal e chegar ao ninho. A ideia é sedutora: apanha-se uma vespa junto ao apiário, coloca-se-lhe um chip e ela, sem o saber, leva-nos à porta de casa. O problema é que esta frase, tão curta e tão fácil de repetir, mistura tecnologias muito diferentes, com pesos, alcances, custos e limitações também eles muito diferentes.

Já escrevi neste blog acerca da radiotelemetria, do radar harmónico e da termografia. Na altura, a nota principal era simples: encontrar e eliminar cedo os ninhos é uma das poucas medidas capazes de reduzir a pressão das velutinas no território; encontrar esses ninhos, sobretudo quando estão escondidos nas copas das árvores, é a grande dificuldade.

Passados alguns anos, vale a pena voltar ao assunto. Não porque entretanto tenha aparecido um pequeno GPS que se possa colar a uma vespa, mas porque se acumulou alguma evidência sobre aquilo que estas ferramentas conseguem fazer — e também sobre aquilo que não conseguem fazer. E começa a tornar-se evidente outra coisa talvez mais interessante: provavelmente não haverá uma tecnologia que faça tudo. O caminho poderá estar na combinação de várias ferramentas, cada uma utilizada no ponto da procura em que é mais eficaz.

Primeiro: não há aqui um GPS miniatura

Quando se fala em «chip», convém perguntar: chip de quê? Um microchip de identificação, como o de um cão, não serve para localizar uma vespa à distância. Um GPS necessita de energia, antena e electrónica; e aqui o peso rapidamente se torna um problema. O peso médio das obreiras de Vespa velutina varia bastante ao longo da estação, tendo sido registados valores médios entre cerca de 190 mg no início do verão e 386 mg no outono [1]. Acrescentar 100 ou 200 mg a um insecto deste tamanho está, portanto, muito longe de ser uma questão de pormenor.

As técnicas que têm sido testadas com Vespa velutina seguem sobretudo dois caminhos. Num, prende-se à vespa uma etiqueta passiva, extremamente leve, que responde ao sinal de um radar. No outro, prende-se um pequeno emissor alimentado por bateria e o operador segue o seu sinal com receptor e antena direccional. Mais recentemente surgiram também pequenas etiquetas Bluetooth.

Em nenhum destes casos a vespa envia para o nosso telemóvel uma mensagem a dizer «o ninho está aqui». Continua a ser necessário seguir sinais, interpretar direcções, recuperar contactos perdidos e ir reduzindo progressivamente a área de procura.

Esta distinção parece excessivamente técnica, mas evita a primeira má decisão: comprar ou pedir uma tecnologia sem saber exactamente que problema resolve.

Radar harmónico: etiqueta leve, equipamento exigente

No radar harmónico a etiqueta é um pequeno transponder passivo, feito com fio metálico e um díodo. O radar emite uma frequência e procura a resposta no seu harmónico; é por isso que consegue distinguir o sinal da etiqueta de muito do “ruído” existente no ambiente. A grande vantagem está no peso: no trabalho realizado em Itália a etiqueta pesava apenas 15 mg, qualquer coisa como 4 a 7% do peso de uma obreira [1].

Nesse trabalho, esta técnica permitiu localizar ninhos em seis de nove localidades. Em zonas de surto, onde existiam poucos ninhos, a eficácia reportada foi de 75%; em zonas já muito colonizadas foi de 60%. Os ninhos encontrados estavam, em média, a 395 m do local onde as vespas foram capturadas, embora tenham ocorrido distâncias entre 72 e 786 m [1].

Estes números são interessantes, mas não dispensam a leitura das letras pequenas. Vegetação, edifícios, relevo e a própria orientação do voo complicam a detecção. O aparelho tem de ser deslocado para novas posições e, em zonas com vários ninhos, diferentes vespas podem apontar em direcções diferentes.

Ou seja: a etiqueta é leve; o trabalho não é.

Radiotelemetria: mais portátil, mas a vespa carrega uma bateria

A radiotelemetria resolve de outro modo a questão. A etiqueta emite um sinal VHF e o operador, com uma antena direccional, procura a direcção onde esse sinal é mais forte. É uma técnica mais portátil e capaz de trabalhar em paisagens heterogéneas, mas coloca uma carga muito maior sobre a obreira.

No estudo publicado por Kennedy et al. em 2018, os transmissores pesavam 280 mg. Foram marcadas oito obreiras e seguidas entre 45 e 1331 m; cinco trajectos conduziram a ninhos até então desconhecidos. As restantes não falharam necessariamente por causa do sinal: duas terminaram em locais inacessíveis e uma vespa abrigou-se durante chuva intensa [2].

É uma demonstração muito boa de que a técnica funciona. Não demonstra que qualquer vespa, em qualquer altura do ano, possa carregar qualquer emissor. Os próprios investigadores seleccionaram obreiras mais pesadas. Quanto maior for a proporção entre o peso do emissor e o peso da vespa, maior o risco de a nossa ferramenta começar a escolher as vespas que consegue seguir, em vez de representar as vespas que queremos localizar.

Entretanto, a tecnologia evoluiu. E aqui aparece um exemplo recente que merece atenção.

Em Janeiro de 2026, a Biosecurity New Zealand comunicou estar a utilizar, na operação de erradicação da velutina em Auckland, transmissores de rádio com menos de 160 mg. As vespas eram atraídas a estações de alimentação, capturadas, marcadas e posteriormente seguidas através do sinal. Esta estratégia tinha já contribuído para encontrar três ninhos [8].

Mas há um pormenor ainda mais interessante: depois de o rastreio reduzir a área de procura, foram utilizados drones equipados com câmaras térmicas para ajudar a precisar a localização dos ninhos.

Começamos aqui a perceber que o progresso pode não estar na invenção de um aparelho que faça tudo, mas na utilização sucessiva de ferramentas diferentes.

Um exemplo recente: o VespaTracker

O aparecimento de equipamentos comerciais cada vez mais leves merece também atenção. O VespaTracker é um exemplo. A etiqueta VESPA-NANO anunciada pelo fabricante pesa 125 mg, mede 44,9 × 4,1 × 2,7 mm e funciona através de Bluetooth de baixa energia (BLE). Depois de activada, a bateria terá uma autonomia anunciada de cerca de quatro horas. O sinal pode ser seguido através de uma aplicação instalada no telemóvel; o fabricante anuncia cerca de 350 m com smartphone Android e até 500 m utilizando o receptor direccional RANGE-PRO, em condições ideais [3].

Comparados com os emissores de 280 mg utilizados em 2018, 125 mg representam um avanço muito significativo na miniaturização. E o facto de a operação neozelandesa estar já a utilizar transmissores abaixo dos 160 mg mostra que entrámos numa classe de peso que pode ter utilização operacional.

Mas isto não resolve automaticamente a questão da carga.

Tomando como referência os valores médios de 189 a 386 mg registados para as obreiras, uma etiqueta de 125 mg poderá representar aproximadamente 32% do peso de uma obreira de 386 mg, mas 66% do de uma obreira de 189 mg.

Não será carga demais para a mula?

Talvez seja para algumas e não para outras. É precisamente isso que importa determinar experimentalmente. Sobretudo se pretendermos marcar obreiras precoces, geralmente mais pequenas.

Convém também não confundir o alcance anunciado com uma garantia de rastreio. Bluetooth não transforma a etiqueta num GPS. Entre árvores, relevo, casas e outros obstáculos, o operador continuará a ter de aproximar-se, interpretar direcção e intensidade do sinal e, finalmente, confirmar o ninho. Quatro horas de autonomia podem ser suficientes para uma procura rápida, mas deixam menos margem para hesitações, perda de sinal ou terreno inacessível.

Até ao momento não encontrei uma publicação científica independente que avalie especificamente este equipamento em Vespa velutina: proporção de vespas que retomam voo normal, taxa de chegada ao ninho, perda de etiquetas e desempenho em diferentes paisagens. Isso não significa que o equipamento não funcione. Significa apenas que devemos distinguir uma tecnologia comercialmente disponível de uma tecnologia cuja eficácia operacional já foi demonstrada independentemente.

Uma demonstração no terreno, em condições semelhantes às de cada território, continua a valer mais do que o alcance anunciado numa ficha técnica.

Uma câmara pode avisar; não leva ninguém ao ninho

Entretanto surgiu outra família de ferramentas: câmaras e sensores que procuram reconhecer automaticamente a velutina numa estação de isco ou à entrada de um apiário. Aqui a pergunta já não é «para onde voltou esta obreira?». É outra: «há uma velutina aqui e consigo sabê-lo depressa?».

O projecto VespAI constitui provavelmente um dos exemplos mais interessantes. Combina uma estação de monitorização, câmara, computador compacto e um modelo de visão computacional. Nos ensaios publicados em 2024, o sistema conseguiu distinguir Vespa velutina de Vespa crabro e de outros insectos com um desempenho muito elevado, acima de 99% na medida utilizada pelos investigadores, podendo ainda enviar automaticamente as imagens para confirmação [4].

Para alerta precoce isto pode ser muito importante, sobretudo onde a espécie ainda não está instalada ou onde se pretende detectar rapidamente a sua entrada numa nova área.

Mas uma câmara que fotografa uma velutina não conhece o endereço do ninho.

Pode dar o alarme, conservar a imagem e dizer onde a vespa foi observada. Para passar daí à eliminação continua a ser necessária uma cadeia de resposta: confirmar a identificação, localizar o ninho e intervir em segurança.

Há também sensores ópticos baseados no batimento das asas e propostas de detecção acústica. Num estudo com sensor óptico e aprendizagem automática, a exactidão para Vespa velutina foi em média de 74,5%, em condições laboratoriais [5]. É suficiente para justificar mais investigação; não é suficiente para tratar cada sinal como uma velutina confirmada num apiário português.

Mais recentemente, uma equipa testou a detecção acústica do voo pairado das velutinas junto aos apiários. O algoritmo separou os sons das vespas, das abelhas e do ruído de fundo com 98,7% de exactidão em pouco menos de uma hora de gravações. É um resultado muito interessante para sistemas de alerta passivo. Os próprios autores assinalam, contudo, que falta testar o método em dados contínuos e de longa duração [6].

Detectar uma velutina durante uma sessão experimental não é ainda o mesmo que vigiar automaticamente um apiário durante toda uma época.

E se levarmos os olhos — e os ouvidos — para o ar?

Os drones acrescentam outra possibilidade. Podem transportar câmaras convencionais ou térmicas, sistemas de inteligência artificial e até auxiliar a recepção ou triangulação de sinais emitidos pelas etiquetas.

Já existem experiências de procura automática de ninhos através de drones e visão computacional, assim como trabalhos que combinam radiotelemetria e UAV. E a experiência operacional da Nova Zelândia mostra talvez a aplicação mais intuitiva: primeiro seguir a vespa e reduzir a área de busca; depois utilizar o drone e a termografia para procurar dentro dessa área.

O drone, portanto, também não é a solução. É uma plataforma onde podemos colocar algumas das soluções.

E as câmaras térmicas?

Também aqui convém evitar duas simplificações. A câmara térmica não «vê através das árvores». Procura uma diferença de temperatura entre o ninho e o ambiente. Essa diferença tende a ser mais favorável antes do nascer do sol, quando há mais vespas no ninho e o ambiente está mais fresco.

Folhagem, radiação solar, temperatura do ar, distância e resolução da câmara influenciam muito o resultado [7].

Por isso, a termografia parece particularmente interessante para confirmar ou estreitar uma zona já indicada por observação, triangulação, radar ou telemetria. É uma ferramenta complementar. Utilizá-la como se fosse uma peneira universal para um vale inteiro é pedir-lhe mais do que a física permite.

Onde estas tecnologias podem fazer mais diferença

Há ainda uma distinção importante. O valor destas tecnologias não é necessariamente o mesmo em todos os territórios.

Numa região densamente colonizada, onde existem muitos ninhos, seguir uma vespa pode conduzir-nos a um ninho e deixar dezenas ou centenas por encontrar. Mas numa frente de invasão, onde se procura o primeiro ou um dos primeiros ninhos, localizar e destruir rapidamente uma única colónia pode ter um valor completamente diferente.

É provavelmente neste contexto que algumas destas tecnologias mostram melhor o seu potencial. Não apareceu o pequeno chip que colocamos numa vespa e nos entrega as coordenadas do ninho. O que está a aparecer é algo menos espectacular, mas provavelmente mais útil: uma sequência de ferramentas que se complementam.

Uma câmara ou um sensor podem dizer-nos que a velutina chegou pela primeira vez ao território. Uma estação de alimentação permite capturá-la e observar as viagens. A radiotelemetria ou o radar indicam-nos para que lado regressa. A triangulação vai reduzindo a área de procura. Um drone ou uma câmara térmica podem ajudar a encontrar, entre algumas dezenas de árvores, aquela onde está o ninho. Finalmente, uma equipa no terreno confirma a localização e elimina-o.

Nenhuma destas ferramentas precisa de fazer tudo. Basta que cada uma faça suficientemente bem a parte do trabalho para que foi concebida.

O melhor “chip” é uma resposta organizada

O ponto central não mudou desde as publicações anteriores: eliminar cedo um ninho é mais importante do que andar a combater, uma a uma, as obreiras que aparecem à frente das colmeias. Mas localizar um ninho escondido numa copa, num pinhal, entre casas ou num vale não é um trabalho que se resolva apenas com boa vontade e uma aplicação no telemóvel.

O radar harmónico favorece uma etiqueta extremamente leve, mas exige equipamento especializado. A radiotelemetria oferece mobilidade e resultados convincentes em paisagens complicadas, mas obriga a lidar com uma etiqueta relativamente pesada para o insecto e necessita de operadores experientes. As câmaras, os sensores acústicos e a inteligência artificial podem multiplicar os pontos de vigilância, mas não substituem o rastreio até ao ninho. Os drones podem ampliar enormemente os nossos olhos, mas precisam de saber aproximadamente onde devem olhar. E os novos equipamentos comerciais Bluetooth parecem suficientemente interessantes para merecer ensaios independentes em condições reais.

Se há investimento sensato a discutir, ele não é o de cada apicultor comprar um «chip para velutinas».

É o de as entidades que coordenam vigilância, controlo e protecção civil disporem de equipas treinadas, diferentes ferramentas adequadas ao território e, sobretudo, capacidade para escolher rapidamente a ferramenta certa para cada etapa e agir depois de receberem um alerta.

Não há aqui gadgets milagrosos. Há tecnologias cada vez melhores, com virtualidades e limites, que deverão estar ao serviço de equipas coordenadas — não ao serviço da ilusão de que cada apicultor terá de resolver sozinho um problema colectivo.

Fontes

  1. Lioy, S. et al. (2021). Tracking the invasive hornet Vespa velutina in complex environments by means of a harmonic radar. Scientific Reports, 11, 12143.
  2. Kennedy, P. J. et al. (2018). Searching for nests of the invasive Asian hornet (Vespa velutina) using radio-telemetry.
  3. VespaTracker (consultado em 21-08-2026). Especificações técnicas do VESPA-NANO e RANGE-PRO. Informação do fabricante; não constitui validação científica independente.
  4. O’Shea-Wheller, T. A. et al. (2024). VespAI: a deep learning-based system for the detection of invasive hornets. Communications Biology, 7, 354.
  5. Ribas-Marquès, E. et al. (2023). Automated detection of the yellow-legged hornet using an optical sensor with machine learning.
  6. Hall, H. et al. (2025). Remote and automated detection of Asian hornets (Vespa velutina nigrithorax) at an apiary, using spectral features of their hovering flight sounds.
  7. Lioy, S. et al. (2021). Viability of thermal imaging in detecting nests of the invasive hornet Vespa velutina.
  8. Biosecurity New Zealand — Ministry for Primary Industries (2026). Hornet tracking technology proving effective. Informação operacional publicada em 20 de Janeiro de 2026.

Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle?

Desde que comecei a escrever sobre a Vespa velutina, em 2016, a pergunta foi mudando lentamente. Nos primeiros anos interessava-me sobretudo compreender o invasor: a sua biologia, a velocidade de expansão e as diferentes formas de limitar o seu impacto. Com o tempo, porém, a atenção começou a deslocar-se da vespa para as próprias colónias.

Mais do que perceber o que fazia a Vespa velutina, passei a interessar-me pelo que acontecia às abelhas quando a sua presença se tornava constante.

A investigação veio confirmar que essa mudança de perspetiva fazia sentido.

Hoje sabemos que o principal impacto da Vespa velutina não resulta apenas das campeiras capturadas. Resulta sobretudo da alteração profunda do comportamento da colónia. À medida que aumenta a pressão junto ao alvado, as campeiras reduzem progressivamente a atividade de voo. Entram menos cargas de pólen. Entra menos néctar. A criação diminui. As colónias chegam ao final do verão mais debilitadas e preparam pior o inverno. Este quadro encontra hoje sólido suporte científico.

No entanto, havia uma dúvida que continuava a surgir sempre que observava apiários fortemente pressionados durante os dias mais quentes de agosto. Quando uma colónia praticamente deixa de voar, deixa apenas de recolher néctar e pólen? Ou deixa também de recolher água precisamente na altura em que mais necessita dela?

Durante muito tempo esta pergunta permaneceu apenas como uma hipótese. Não porque existissem trabalhos que a contrariassem, mas porque simplesmente não existiam estudos que permitissem enquadrá-la.

Refiro-me à água.

Habitualmente olhamos para a água como um recurso indispensável para arrefecer a colónia durante os períodos de calor. É verdade. Mas essa é apenas uma parte da sua função.

Os trabalhos publicados por Le Bivic e colaboradores mostram que a água participa em praticamente todas as funções essenciais da colónia. É utilizada na produção do alimento larvar, contribui para manter o equilíbrio hídrico das abelhas adultas, participa na regulação da humidade da zona de criação e desempenha um papel decisivo na termorregulação.

Os autores observaram ainda um aspeto particularmente interessante: à medida que a temperatura aumenta, uma parte crescente da água recolhida passa a ser utilizada no arrefecimento da área de criação (tradução livre).

Este resultado merece ser cruzado com outro facto bem conhecido pelos apicultores. É precisamente durante julho, agosto e setembro que a Vespa velutina exerce normalmente maior pressão sobre os apiários. Os dois fenómenos coincidem. A colónia necessita de mais água. Mas encontra maior dificuldade em recolhê-la.

Abelhas em contexto de paralisia de voo/forrageamento por acção da pressão de V. velutina junto alvado (foto minha).

Até aqui habituámo-nos a interpretar a paralisia de voo sobretudo como um problema de alimentação. Entram menos recursos. A criação diminui. As colónias enfraquecem.

Tudo isto continua a ser verdade. Mas talvez esta interpretação não esteja completa.

Porque a água não constitui apenas mais um recurso recolhido pelas campeiras. Constitui um elemento essencial para que a colónia mantenha o seu funcionamento normal.

Ao contrário do mel ou do pão de abelha, a água praticamente não é armazenada. É recolhida, distribuída e utilizada quase de imediato. Talvez seja precisamente esta característica que explique por que razão a sua importância passou relativamente despercebida quando discutimos o impacto da Vespa velutina.

Importa distinguir claramente aquilo que sabemos daquilo que ainda constitui apenas uma hipótese. Sabemos que a Vespa velutina reduz significativamente a atividade de voo. Sabemos que temperaturas elevadas aumentam as necessidades de água da colónia. Sabemos que essa água é indispensável para manter o funcionamento normal da criação. O que ainda não sabemos é qual a importância da diminuição da sua recolha no conjunto dos efeitos provocados pela Vespa velutina. Mas parece existir fundamento suficiente para que esta hipótese seja estudada.

Ao longo dos últimos anos tenho defendido neste blogue que o principal benefício das harpas elétricas não resulta apenas do número de Vespa velutina capturadas. O mais importante parece ser aquilo que acontece depois. As campeiras voltam a voar. Recomeça a entrada de pólen. Recomeça a entrada de néctar. A criação recupera.

Harpas eléctricas e sua acção letal sobre a V. velutina, e consequente retorno das colónias ao normal comportamento de forrageio (foto minha).

Talvez possamos agora acrescentar outra possibilidade. Ao devolverem tranquilidade à entrada da colmeia, as harpas poderão estar igualmente a permitir que as aguadeiras retomem a sua atividade.

Os trabalhos de Rojas-Nossa e colaboradores mostraram precisamente que as colónias protegidas por harpas apresentaram maior atividade de voo, maior entrada de pólen, mais criação e melhor sobrevivência. Como referem os autores, a redução da pressão de predação permitiu restabelecer o normal funcionamento das colónias (tradução livre).

Habitualmente interpretamos estes resultados como consequência da maior disponibilidade de alimento. Provavelmente essa interpretação está correta. Mas talvez não seja suficiente.

Quando as campeiras recuperam a possibilidade de voar, não regressam apenas às flores. Regressam também às fontes de água.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez parte dos benefícios atribuídos às harpas resulte também da recuperação da capacidade da colónia manter o seu equilíbrio fisiológico durante os períodos de maior exigência ambiental.

Esta perspetiva conduz igualmente a algumas implicações práticas.

A prioridade continua a ser reduzir a pressão exercida pela Vespa velutina para permitir que a colónia recupere a sua atividade normal.

Nessa estratégia, as harpas poderão assumir um papel ainda mais importante do que aquele que normalmente lhes atribuímos.

Paralelamente, parece prudente garantir fontes permanentes de água nas proximidades do apiário, sobretudo durante os meses mais quentes. Uma colónia que recupera a capacidade de voar beneficiará dessa recuperação se encontrar rapidamente o recurso de que necessita.

Poderão existir circunstâncias particulares em que um bebedouro interno ou mesmo um xarope bastante diluído ajudem temporariamente uma colónia muito condicionada. Contudo, estas soluções deverão ser encaradas apenas como complementares. O essencial continua a ser permitir que a própria colónia recupere a sua autonomia e volte a desempenhar normalmente todas as funções para que evoluiu.

Ao reler as publicações que tenho vindo a escrever sobre a Vespa velutina desde 2016, apercebo-me de que a pergunta foi mudando.

Primeiro procurei compreender a vespa e como as eliminar. Depois procurei compreender aquilo que fazia ao comportamento das colónias. Talvez esteja agora na altura de tentar compreender de que forma esse comportamento alterado interfere com o funcionamento interno da própria colónia.

A água poderá ser apenas uma das peças desse processo. Mas talvez seja uma peça mais importante do que até agora lhe temos atribuído.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez sejamos obrigados a olhar para a Vespa velutina de uma forma ligeiramente diferente. Não apenas como um predador de abelhas. Mas como um fator capaz de perturbar, por múltiplas vias, o delicado equilíbrio que permite a uma colónia funcionar como um verdadeiro superorganismo.

E talvez seja precisamente aí que ainda falte encontrar uma peça importante deste puzzle.

Referências

  • Le Bivic, P. et al. (2025). Effects of weather and colony size on water collection in honey bee colonies. Animal Behaviour.
  • Le Bivic, P. et al. (2026). Water dynamics in the honey bee colony (Apis mellifera): monitoring under high temperatures. Journal of Insect Physiology.
  • Rojas-Nossa, S. V. et al. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science.
  • Human, H., Nicolson, S. W. & Dietemann, V. (2006). Do honeybees regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften, 93, 397–401.

tropilaelaps: dez anos a acompanhar um perigo que parecia distante

Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.

Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.

O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.


2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico

A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.

Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.

Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:

“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”

Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.

E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.


2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização

Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.

As doenças não precisam de passaporte.


2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola

Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.

Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.

A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”

E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”


2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos

Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.

Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.

“
Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic
expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology 

A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:

  • crescimento populacional superior ao da Varroa;
  • enorme dependência da criação;
  • curta permanência sobre as abelhas adultas;
  • dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
  • importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.

A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.


O que mais me impressiona

O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.

É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.

Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”

Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.

A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.


Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico

Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.

Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.

Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.


Uma última reflexão

Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.

A prevenção começa sempre muito antes da emergência.

Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.

A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.

O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.

Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.


iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema

Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.

A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.

O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.

O exemplo da Nova Zelândia

Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.

Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.

O dispositivo Vespex

À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.

O Vespex não nasceu para a Vespa velutina

Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:

  • Vespula germanica (vespa-germânica);
  • Vespula vulgaris (vespa-comum).

Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.

Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.

Colocação do isco proteico com fipronil no Vespex

Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização

O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.

Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.

Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.

Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.

Os resultados obtidos contra a vespa-germânica

Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:

  • redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
  • reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
  • aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.

Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.

Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.

A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?

Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.

Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:

  • radio-rastreamento;
  • armadilhas;
  • procura intensiva em campo;
  • drones térmicos;
  • sistemas de inteligência artificial.

Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:

  • confirmadas 77 rainhas;
  • destruídos 132 ninhos;
  • sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.

Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.

O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?

Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.

É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.

O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:

  • existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
  • foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
  • vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.

Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:

  • utilização operacional;

e

  • evidência científica consolidada.

Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.

Então porque avança a Nova Zelândia?

Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.

Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:

“Qual é o risco desta substância?”

A Nova Zelândia começa por perguntar:

“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”

Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.

É uma lógica típica da biosegurança.

O sistema é mais importante do que a molécula

Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.

Avalia todo o sistema:

  • estação de isco fechada;
  • alimento proteico específico;
  • período limitado de utilização;
  • recolha posterior;
  • colocação dirigida;
  • integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.

Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.

Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.

A grande diferença ecológica

Existe ainda outro argumento pouco conhecido.

Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:

  • Vespa crabro;
  • Vespula germanica;
  • Vespula vulgaris;
  • espécies de Polistes;
  • espécies de Dolichovespula.

Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.

Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.

Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.

O que a Europa deveria estudar melhor?

Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.

Temos muitos trabalhos sobre:

  • toxicidade do fipronil;
  • persistência ambiental;
  • riscos para organismos não-alvo.

Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:

  • Quantos ninhos são realmente destruídos?
  • Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
  • Qual é a redução anual da população regional?
  • Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
  • Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?

Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.

A pergunta que continua sem resposta

Talvez a verdadeira questão não seja:

“O fipronil é perigoso?”

A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.

A questão verdadeiramente interessante é outra:

“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”

Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.

A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.

Será essa a melhor solução?

Ainda não sabemos.

Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.

armadilha Zero Velutina 2.0: o que é e análise crítica

A Zero Velutina 2.0 é apresentada como uma evolução da anterior armadilha de uso duplo: pode ser utilizada para a captura de rainhas fundadoras entre fevereiro e maio, ou como armadilha “troiana” supervisionada entre maio e junho, sempre de acordo com a legislação e autorização aplicáveis em cada zona apícola. O produto é descrito como capaz de capturar vespas asiáticas vivas, permitindo que estas se alimentem do atrativo e, ao sair, transportem nas patas e na parte inferior do abdómen um agente letal de ação retardada, levando-o até ao ninho. 

Segundo a descrição comercial, esta abordagem procura substituir o método manual dos “cavalos de Troia”, em que as vespas são capturadas uma a uma, impregnadas com o produto e libertadas. A vantagem prometida é operacional: poupa tempo, reduz o trabalho manual e permite que a própria vespa regresse viva ao ninho, podendo ainda indicar a outras obreiras a existência de uma fonte de alimento. 

O fabricante afirma que, após poucos dias de uso, a pressão sobre as colmeias diminui de forma acentuada. Na fase de captura de fundadoras, a armadilha seria também eficaz por matar rainhas e, desse modo, impedir a formação de ninhos primários. A própria ficha, contudo, sublinha que este tipo de utilização requer autorização dos serviços locais de ambiente e consulta da regulamentação aplicável. 

Análise crítica

Este tipo de armadilha tem uma lógica biologicamente interessante: em vez de matar imediatamente a vespa capturada, explora o seu comportamento de retorno ao ninho e de recrutamento para fontes alimentares. Em teoria, isto pode transformar uma simples armadilha individual num mecanismo de impacto sobre a colónia. Esta é precisamente a força dos chamados “cavalos de Troia”: atacar o ninho mesmo quando este ainda não foi localizado.

A principal vantagem prática é evidente. O método manual exige tempo, perícia e presença constante no apiário. Uma armadilha que automatize parte desse processo pode ser apelativa para apicultores sob forte pressão predatória. Em apiários com muitas velutinas em caça estacionária, reduzir rapidamente a pressão pode fazer a diferença entre colónias bloqueadas e colónias que ainda conseguem voar, ventilar, recolher pólen e defender-se.

Mas há três reservas importantes.

A primeira é legal e ambiental. A ficha do produto não deixa dúvidas: a utilização como “troiano” depende de autorização. Isto é essencial, porque estamos a falar da libertação de insetos contaminados com um agente letal retardado. Em Portugal, o enquadramento oficial continua a privilegiar a vigilância, a comunicação de ninhos e a sua destruição por meios autorizados; a DGAV refere a destruição dos ninhos como o melhor método para limitar localmente o impacto da Vespa velutina. O ICNF mantém também o Plano de Ação nacional para vigilância e controlo da espécie. 

A segunda reserva é ecotoxicológica. Qualquer sistema baseado num agente letal transportado por vespas vivas levanta a pergunta: que substância é usada, em que dose, com que persistência, e que risco existe para outros insetos, aves insetívoras, pequenos vertebrados ou organismos decompositores? Quanto mais potente e persistente for o agente, maior a necessidade de controlo técnico. A eficácia não pode ser avaliada apenas pelo número de velutinas que desaparecem do apiário; tem de ser avaliada também pelo rasto ambiental deixado.

A terceira reserva é científica e operacional. A descrição comercial promete redução acentuada da pressão “em poucos dias”, mas não apresenta dados comparativos: número inicial de vespas, número de ninhos afetados, distância ao ninho, dose usada, seletividade, mortalidade de organismos não-alvo, repetição entre apiários, ou comparação com armadilhas convencionais e destruição de ninhos. Sem estes dados, a afirmação deve ser lida como promessa comercial e não como demonstração experimental.

Em conclusão, a Zero Velutina 2.0 parece ser uma evolução interessante das armadilhas convencionais, aproximando-se do conceito de “cavalo de Troia” automatizado. Pode ter utilidade em situações de forte pressão predatória, desde que usada por pessoas autorizadas, com produto homologado, protocolo claro e supervisão. Não deve, contudo, ser vista como solução isolada. O controlo da Vespa velutina continua a exigir uma estratégia integrada: deteção precoce, captura seletiva quando justificada, proteção dos apiários, localização e destruição de ninhos, e prudência máxima no uso de biocidas.

Nota: ver vídeo para mais detalhes https://www.youtube.com/watch?v=0k4bU_1byHw

erradicação da V. velutina através da tecnologia de silenciamento de genes: os primeiros passos

A propósito da publicação anterior foi-me perguntado se a tecnologia de silenciamento de genes estava a ser investigada/aplicada com o objectivo de erradicar/controlar as populações de V. velutina. Os estudos não são muitos, ao que me parece e, entre outros, destaco este que está a ser desenvolvido na Universidade de Lausanne.

V.E.S.P.A. — Vespa velutina Eradication through gene Silencing and Precise AI-based recognition

Projeto do iGEM Lausanne 2024, conduzido por estudantes da Universidade de Lausanne (Suíça).


🎯 Objectivo principal

Desenvolver um sistema biotecnológico e inteligente para controlar a vespa asiática (Vespa velutina nigrithorax), espécie invasora que ameaça abelhas e ecossistemas europeus.

A abordagem combina:

  • Silenciamento de genes (RNAi / shRNA) — para enfraquecer ou eliminar as vespas;
  • Visão computacional (IA) — para garantir que apenas V. velutina é visada;
  • Entrega seletiva da substância — evitando impacto em espécies nativas.

⚙️ Conceito científico

1. Silenciamento genético (RNAi / shRNA)

  • O RNA de interferência (RNAi) é usado para “desligar” genes essenciais ao desenvolvimento ou sobrevivência da vespa.
  • O grupo da UNIL planeia sintetizar pequenas moléculas de RNA em forma de hairpin (shRNA) que, ao serem ingeridas, impedem a produção de proteínas vitais.
  • Entre os genes-alvo propostos estão:
    • V-ATPase — gene essencial ao metabolismo celular;
    • VgR (receptor de vitelogenina) — relacionado com a reprodução;
    • Chitin synthase (Chs1 / Chs2) — necessário à formação do exoesqueleto.
  • Estes genes foram escolhidos por apresentarem alta especificidade para V. velutina, minimizando riscos de afetar insetos nativos.

2. Vetor biológico (entrega da molécula)

  • O RNA de silenciamento seria produzido por bactérias modificadas (não patogénicas), que funcionariam como “transportadoras” vivas.
  • Estas bactérias seriam incorporadas num isco alimentar destinado às larvas da vespa (que são carnívoras e alimentadas pelos adultos).
  • Ao ingerir o isco, as larvas absorveriam o shRNA, levando ao silenciamento do gene e, em teoria, à morte ou infertilidade.

3. Sistema inteligente de identificação (VespAI)

  • O grupo desenvolveu o protótipo de um sistema de reconhecimento por IA, denominado VespAI, treinado para identificar Vespa velutina através de imagem (forma do corpo, coloração, tamanho).
  • Só quando o sistema reconhece a vespa-alvo é que liberta o isco com RNAi, garantindo seletividade e segurança ecológica.

Implementação e estado atual

  • O projeto está ainda em fase laboratorial e de simulação, não em campo.
  • Foram realizados:
    • Modelos in silico de estrutura genética e análise de alinhamento de sequências para garantir especificidade;
    • Simulações de eficácia do RNAi (com softwares de biologia molecular);
    • Protótipos iniciais de IA para reconhecimento visual da vespa asiática.
  • A fase experimental prática (testes em insetos vivos) ainda não decorreu, por questões éticas e de biossegurança.

⚠️ Considerações éticas e ambientais

  • A equipa reconhece que o uso de organismos geneticamente modificados e RNAi em ambiente aberto exige avaliação de biossegurança rigorosa.
  • Por isso, o projeto é conceptual e não visa libertação em campo nesta fase.
  • Propõem um futuro modelo de implementação controlada, com sistemas fechados de alimentação seletiva (ex.: caixas inteligentes em apiários).

🌍 Impacto potencial

Se for bem-sucedido, o método:

  • poderia reduzir drasticamente as populações de Vespa velutina sem afetar outras espécies;
  • representaria uma alternativa ecológica ao uso de inseticidas químicos;
  • e integraria tecnologia de biologia sintética + inteligência artificial, criando um modelo de controlo seletivo e automatizado de pragas invasoras.

🧠 Em suma

ElementoDescrição
InstituiçãoUniversidade de Lausanne (Suíça)
Ano / programaiGEM 2024
Nome do projetoV.E.S.P.A.
AbordagemRNAi / shRNA + visão por IA
AlvoVespa velutina nigrithorax
Estado atualLaboratorial (conceitual, sem testes em campo)
Potenciais benefíciosControlo seletivo, sem químicos, compatível com apicultura
Principais desafiosEntrega eficaz do RNA, biossegurança, regulamentação

vespa velutina: uma breve revisão do que tenho escrito e publicado

Foi em 2011, um pouco antes dos primeiros avistamentos em Portugal, que soube que uma vespa exótica estava a preocupar e muito os apicultores franceses. Quando recebi a notícia que tinha sido avistada em Viana do Castelo fiquei também bastante preocupado. Esta preocupação acabou por reflectir-se nas inúmeras publicações que tenho vindo a fazer desde 2016, data que fundei este blogue, até ao presente sobre este insecto predador.

Esta publicação tem como objectivo apresentar uma breve e parcelar revisão do que tenho publicado sobre a Vespa velutina nigrithorax.

Eduardo Gomes: serviços de formação presencial e on-line, consultoria presencial e on-line e apoio técnico em apiário (contactos: 935 251 670; jejgomes@gmail.com)

a velutina mais perigosa que a varroa?

Numas jornadas de apicultores, em que tive o gosto de participar recentemente, foi afirmado por uma das intervenientes que achava que a velutina era mais perigosa que a varroa para as colónias de abelhas. Este achismo pode ser fruto tanto de uma boa reflexão como de uma reflexão muito incompleta e imperfeita.

Vejamos com algum detalhe:

(i) achar que a velutina é mais perigosa que a varroa faz sentido num quadro de pensamento em que se assume que podemos ter um grande controlo sobre a varroose e, portanto, tendo um controlo mais fraco sobre a pressão e danos que a velutina exerce a partir dos meses de agosto e seguintes, os danos sobre as colónias não advêm de uma varroose que até está muito controlada, mas sim de uma pressão das velutinas de difícil controlo.

(ii) achar que a velutina é mais perigosa que a varroa, só porque vemos muitas colónias a colapsar em julho, agosto, setembro e outubro, e responsabilizar as velutinas pelo colapso porque andam por ali a pressionar e comer abelhas, isto sem termos indicadores fiáveis das taxas de infestação por varroa nessa altura e ao longo do ano, é inúmeras vezes uma conclusão errada e que em nada contribui para a correcção necessária das intervenções dos apicultores no sentido de melhorarem o controlo do que devem prioritariamente controlar, a varroose.

Lembro-me bem do Bruno Moreira, presidente da Associação dos Apicultores do Norte de Portugal, um profundo conhecedor das abelhas e das velutinas, afirmar que a principal causa de morte das colónias no norte, onde a velutina já faz muita pressão há anos, continua a ser a varroa. Os apicultores mais veteranos têm presente que muito antes da famigerada velutina ter arrombado as nossas fronteiras, já morriam dezenas de milhar de colónias todos os anos. Muitos, como hoje, não chegavam a reconhecer que era a varroa a causa.

O mais difícil de engolir neste contexto é que, em boa medida, continua a ser assim, apesar da informação e técnicas actualmente disponíveis e de existirem bons exemplos por parte daqueles que controlam ano após ano o flagelo deste ácaro.

As coincidência turvam o olhar e a interpretação. Sem um efectivo controlo da varroose as colónias vão levar o golpe de misericórdia pelas velutinas, mas já estavam a colapsar por acção da varroa. Esta coincidência confunde o observador mais desatento.

As duas simulações que apresento em baixo são esclarecedoras do efeito do fraco controlo da varroa e da coincidência dos “timings”: a morte destas colónias por varroose coincide com o início da pressão das velutinas.

Colónia no interior de Portugal, que tendo entrado no ano com a varroa bem controlada (1%) e, sem mais qualquer controlo, vai colapsar à entrada de agosto. O apicultor a quem isto acontece vai associar a morte da colónia à pressão das vespas que tinha começado a sentir-se umas duas semanas antes. Na verdade a colónia já tinha o destino traçado pela elevada infestação do ácaro, com ou sem velutina presente.

Colónia no litoral de Portugal, que tendo entrado no ano com a varroa muito bem controlada (0,3%) e, sem mais qualquer controlo, vai colapsar à entrada de julho. O apicultor a quem isto acontece vai associar a morte da colónia à pressão das vespas que tinha começado a sentir-se umas duas semanas antes. Na verdade a colónia já tinha o destino traçado pela elevada infestação do ácaro, com ou sem velutina presente.

vespa velutina: um quarto das receitas do mel não chegam para pagar o dano

Economic Costs of the Invasive Asian Hornet on Honey Bees é um artigo que vai ser publicado no próximo novembro, na revista Science of The Total Environment. É um artigo muito elucidativo e enfático sobre o impacto económico que a Vespa velutina tem sobre a apicultura francesa nos dias de hoje.

O estudo procurou dar uma resposta precisa, com base em dados de grande escala e técnicas de modelagem, aos custos económicos da predação da V. velutina sobre as abelhas melíferas em França, através de estimativas relativas a estes três pontos: (i) o risco de mortalidade das colónias de abelhas relacionado com as vespas, (ii) o custo económico da perda de colónias para os apicultores e (iii) o impacto económico da substituição de colónias em comparação com as receitas do mel às escalas regional e nacional.

As conclusões são: “Estimamos uma densidade global de 1,07 ninhos de vespas asiáticas/km2 na França, com base no registro de campo de 1.260 ninhos em uma área pesquisada de 28.348 km2. No entanto, esta densidade de predadores estava espalhada de forma heterogénea por todo o país, bem como a distribuição das colónias de abelhas geridas. No geral, este risco de mortalidade de colónias de abelhas relacionado com vespas pode atingir até 29,2% das colónias dos apicultores à escala nacional todos os anos num cenário de elevada predação. Este custo nacional poderá atingir 30,8 milhões de euros por ano devido à perda de colónias, o que representa para os apicultores um impacto económico da substituição de colónias de 26,6% das receitas do mel.“

Esta publicação visa colocar o “problema velutina” na exacta magnitude do mesmo: é um problema enorme para a apicultura dos países onde já está instalada e sê-lo-á naqueles onde se vier a instalar num futuro próximo — segundo alguns estudos a V. velutina será capaz de colonizar uma grande diversidade de habitats na Europa e regiões de fronteira, dos países nórdicos até às zonas costeiras do norte de África.