a invernagem de colónias de abelhas: maneio de preparação

Iniciei hoje a minha semana de trabalho no campo. Estive ocupado com a inspecção das colónias instaladas em dois dos quatro apiários activos. Nestes dias tenho no plano realizar um conjunto de tarefas que visam atingir dois objectivos principais:

  1. Preparar as colónias o melhor possível para o período de invernagem que se aproxima;
  2. avaliar o efeito das acções remediativas encetadas para o controlo da varroose.

Para alcançar o primeiro objectivo publico o foto-filme das acções empreendidas e observações realizadas:

Colocação das réguas de entrada da colmeia na posição de inverno.

Se no periodo do ano em que as temperaturas máximas ultrapassa os 25ºC deixo o óculo da prancheta semi-aberto para que elas decidam se querem ou não a ventilação superior…

… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fecham com própolis este espaço aberto…
… outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto…

… nesta época em que as temperaturas máximas ficam de forma regular abaixo dos 25ºC fecho completamente o óculo da prancheta.

Outras das tarefas passou por avaliar as reservas de mel e reforçar as colónias que me pareceram escassas neste recurso. Tenho como referência a necessidade de ter 4 quadros bem preenchidos de mel por colónia. Estes 4 quadros garantem um total de 10 a 12 kgs de mel, o suficiente para que as minhas abelhas passem os próximos meses 3 meses com hidratos de carbono de qualidade e na quantidade indispensável para a manutenção dos mecanismos individuais e colectivos a uma eficiente termorregulação. Assim substituo os quadros leves com poucas reservas por quadros pesados bem fornecidos de reservas.

Quadros leves retirados e…
… substituídos por quadros pesados com boa quantidade de mel.

De que “cartola mágica” sairam estes quadros com mel?

… das inevitáveis “colmeia armazém“, e que vai receber os quadros leves.

Foi também a oportunidade para verificar/confirmar as novas reservas de pão-de-abelha fresco tão importante para a alimentação desta geração de abelhas de inverno que está agora a ser criada, assim como indispensável para a alimentação da futura primeira geração de abelhas do próximo ano, lá para meados de janeiro.

Criação larvar com aquela boa cor pérola e a “nadar” em papa larval.
Stong bees a serem criadas exclusivamente com os recursos naturais do território!

acerca do futuro próximo da apicultura e seus apoios

Começo por remeter para esta publicação. Se o sector apícola europeu em lugar dos 40 milhões que recebe anualmente da PAC (Política Agrícola Comum), recebesse 1% das mais-valias que incorpora à fileira alimentar, os números seriam muito diferentes: passaria a receber 140 milhões (14 mil milhões/100= 140 milhões). Até por esta razão se verifica que sector apícola europeu está claramente sub-financiado!

Que forças vejo a convergir para que o actual sub-financiamento da PAC ao sector apícola seja alterado e venhamos a assistir a curto-prazo, isto é já no próximo triénio-quinquénio, a um reforço significativo dos apoios concedidos? Vejo três grandes forças a convergir para o desfecho: (i) os negociadores e decisores da distribuição sectorial dos fundos da PAC irão fazer mais ainda nesse sentido, consequência da informação científica disponível acerca da importância crítica do sector apícola enquanto motor da produtividade de muitos dos outros sectores agro-pecuários; (ii) o sector apícola europeu conquistará poder e força na competição por fundos, lado-a-lado com os outros sectores agro-pecuários, resultado de uma percepção dos cidadãos europeus cada vez mais despertos e informados da importância dos polinizadores para a qualidade e preço de uma vasta gama de alimentos que fazem parte da sua dieta diária; (iii) a crise no sector ficará mais visível ainda pelo abandono da actividade apícola e/ou não regeneração da actual geração de apicultores com a entrada de apicultores jovens, pouco motivados e estimulados a fazer a opção pela apicultura no menu de outras escolhas profissionais aparentemente mais aliciantes.

Com mais apoios ao sector como os distribuir?, que grandes eixos priorizar? Deixo algumas sugestões:

Continuação do apoio ao tratamento obrigatório do varroa (esta política parece-me que tem vantagens, se observarmos a mortalidade de colónias na UE por comparação com os EUA);

Apoio a linhas de investigação bem sustentadas e integradas em programas europeus bem planeados (forma de evitar desperdiçar fundos em investigação do tipo céu azul) no desenvolvimento e melhoramento de (novas) ferramentas de controlo de (novas) pragas, como por exemplo a vespa velutina;

Apoio a campanhas para o consumo de mel e outros produtos da colmeia de produção local, enquanto alimento de elevada qualidade, e promotores de serviços ecossistémicos locais;

Apoio ao reforço do rastreamento da qualidade de meis e outros produtos da colmeia oriundos de outros espaços económicos;

Apoios directos, como sucede noutros sectores agrícolas;

Apoios ao rendimento dos apicultores, à imagem do que sucede noutros sectores agrícolas;

Apoios à instalação e desenvolvimentos de redes curtas de comercialização;

Apoio a centros de investigação e formação de nível 4 e 5 em cada um dos países-membros;

vespa velutina: a solução está em falar com elas?

A equipa do IRBI (Institut de Recherche sur la Biologie de l’Insecte ), liderada por Eric Darrouzet, há vários anos que analisa os constituintes moleculares das feromonas produzidas e libertadas pelas vespas velutinas com o objectivo de vir a descodificar as mensagens que elas encerram. Esta e outras linhas de investigação, como a localização de ninhos através de radares marítimos e/ou telemetria, a produção de cavalos de troia com fungos “amigos do ambiente”, a interferência genética ao nível do ácido ribonucleico (ARN), e que estão a ser projectadas e/ou levadas a cabo em alguns países europeus (sobretudo França, Inglaterra e Itália), visam fornecer a comunidade de um conjunto de ferramentas, efectivas e respeitadoras da restante entomofauna, para o controlo das populações e expansão no território deste insecto exótico. Neste momento são cada vez mais os sectores que clamam por armas deste tipo, como o vitivinícola, o pomarista, o apícola.

Em baixo deixo a tradução de uma peça jornalística da france3-regions, publicada em 15.03.2020, acerca da pesquisa e avanços alcançados pelo IRBI em torno dos mecanismos de comunicação entre indivíduos Vespa velutina e sua aplicação, com vista à diminuição dos impactos sociais, económicos e na biodiversidade provocados por estes predadores.

O departamento da Mancha (França) financiou um programa de pesquisa, cujos primeiros resultados são considerados “muito promissores”. Em 2016, o Conselho Departamental decidiu avançar com 95.000 €, sabendo que a erradicação deste inseto invasor é ilusória, mas que será possível lutar contra a sua proliferação.

O vespão asiático foi observado pela primeira vez na França em 2005. Desde então, proliferou em toda a França e em vários países europeus.

O trabalho foi confiado ao IRBI. Este Instituto de Pesquisas em Biologia de Insetos, ligado à Universidade de Tours, tem vindo a descodificar a linguagem deste invasor. “Os humanos comunicam por via oral. Os insetos comunicam entre si quimicamente, emitindo moléculas”, explica Eric Darrouzet, professor e pesquisador do IRBI. Por exemplo, uma vespa operária stressada emitirá moléculas de alarme, para pedir ajuda ou, ao contrário, para espantar as suas semelhantes para as alertar do perigo“. Em laboratório, a equipa de pesquisa procurou identificar os componentes químicos que permitem estabelecer este tipo de diálogo. “A única maneira de ser eficaz com o vespão asiático é falar com ele. Você tem que falar com ele na sua própria língua, dizer-lhe para ir embora, ou para vir e atraí-lo para uma armadilha.

O IRBI identificou três moléculas que têm a capacidade de repelir o vespão asiático. “A ideia é usá-los para proteger os apiários, estabelecendo uma espécie de barreira química. Já foram feitos testes perto das colmeias em Indre-et-Loire. Uma destas feromonas parece repeli-las. Vamos testar agora aqui no Canal “, continua Eric Darrouzet.

O IRBI também encontrou uma molécula potencialmente atraente, que permitirá atrair as vespas para as armadilhas. “Todas estas moléculas são produzidas naturalmente pela vespa. Agora será necessário sintetizá-las para que possam ser fabricadas a uma escala industrial”, alerta Eric Darrouzet. Será o culminar de dez anos de pesquisa. O IRBI acredita que pode apresentar uma fórmula em 2021, o que, num mundo ideal, permitirá a uma empresa colocar estes produtos no mercado já em 2022. “Mas, ainda há muitos se …

Até hoje, não há uma solução convincente para atrair as vespas asiáticas. As armadilhas caseiras às vezes parecem eficazes. Mas elas têm a desvantagem de atrair muitas outras criaturas. Uma publicação científica mostra que para um vespão asiático capturado, quase mil outros insetos caem na armadilha. “E um isco alimentar pode não ser eficaz”, insiste o pesquisador. “Se alguém lhes propuser açúcar, a armadilha está em competição com as outras fontes de açúcar disponíveis na natureza. Sem falar que uma operária em busca de proteína não será atraída por uma armadilha com um isco doce. E de que adianta matar algumas vespas quando ainda há milhares na colónia?

Por isso financiámos este trabalho“, insiste Valérie Nouvel, vice-presidente do Conselho Departamental responsável pela transição energética e pelo meio ambiente. “Precisamos encontrar soluções que possibilitem proteger a biodiversidade. Estas novas armadilhas também terão de ser baratas para serem usadas.“.

fonte: https://france3-regions.francetvinfo.fr/normandie/manche/saint-lo/solution-contre-frelon-asiatique-chercheurs-ont-enfin-trouve-comment-lui-parler-1794951.html

Proposta de acção: O que me ocorre de imediato é fazer a seguinte experiência (eu não posso porque este ano ainda não vi nenhuma velutina junto das minhas colmeias): apanhar algumas velutinas e esmagá-las muito lentamente contra a parede frontal das colmeias, no intuito de elas libertarem a feromona de afastamento/repulsa. Julgo que terá de ser feito lentamente, não por crueldade, mas para lhes dar tempo suficiente para se sentirem ameaçadas de morte e libertarem esta feromona que terá o eventual efeito repulsivo que desejamos. Fica a ideia.

mortalidade invernal e opções no controlo da varroose: dados em grande escala

Esta publicação apresenta os primeiros resultados obtidos em grande escala por 4 anos de inquéritos (2012–2015), realizados a uma amostra de 18 971 apicultores dos EUA, no que respeita às opções de maneio para o controlo da varroose e sua correlação com a perda de colónias de abelhas durante o inverno.

Título: Uso de métodos químicos [sintéticos e orgânicos] e não químicos para o controle do Varroa destructor (Acari: Varroidae) associados a perdas de colónias no inverno em operações de apicultura nos EUA [publicado em 2019]

Sumário: O ácaro Varroa destructor (Acari: Varroidae) é uma das principais causas de perdas de colónias de abelhas (Apis mellifera) durante o inverno, indicando que os apicultores devem controlar as populações de Varroa para manter colónias viáveis. Os apicultores têm acesso a vários varroacidas químicos e práticas não químicas para controlar as populações de Varroa. No entanto, nenhum estudo examinou os padrões em grande escala dos métodos de controle do Varroa nos Estados Unidos. Aqui nós utilizamos as respostas de 4 anos de inquéritos realizados anualmente a apicultores representando todas as regiões e tamanhos de operação nos Estados Unidos para investigar o uso de métodos de controle do Varroa e perdas de colónias no inverno associadas ao uso de diferentes métodos. Nós nos concentrámos em sete produtos varroacidas (amitraz, cumafos, fluvalinato, óleo de lúpulo [Hope Guard], ácido oxálico, ácido fórmico e timol) e seis práticas não químicas (remoção de cria de zângão, favos com alvéolos pequenos [4,9 mm], estrados sanitários, açúcar em pó, abelhas resistentes a ácaros e divisão de colónias) indicadas para ajudar no controle do Varroa. Descobrimos que quase todos os apicultores de grande escala usavam pelo menos um varroacida, enquanto os apicultores de pequena escala eram mais propensos a usar apenas práticas não químicas ou não usar qualquer controle do Varroa. O uso de varroacidas esteve consistentemente associado a perdas mais baixas no inverno, com o amitraz estando associado a menores perdas do que qualquer outro produto varroacida. Entre as práticas não químicas, a divisão das colónias esteve associada às menores perdas no inverno, embora as perdas associadas ao uso exclusivo de práticas não químicas fossem altas em geral. Nossos resultados indicam métodos de controle que são potencialmente eficazes ou preferidos pelos apicultores e, portanto, devem informar a experimentação que testa diretamente a eficácia de diferentes métodos de controle. Isso permitirá que os apicultores incorporem métodos de controle Varroa aos planos de maneio que melhoram o sucesso da hibernação de suas colónias.

fonte: https://academic.oup.com/jee/article-abstract/112/4/1509/5462560?redirectedFrom=fulltext

Algumas notas:

  • nos últimos anos a taxa de mortalidade invernal de colónias de abelhas tem sido superior nos EUA quando comparada com a que se verifica na UE (por ex., no inverno de 2017/18 a mortalidade foi cerca de 40% nos EUA e cerca de 16% na UE) ;
  • nos EUA o tratamento da varroose não é obrigatório ao contrário da UE;
  • nos EUA os medicamentos homologados para tratar doenças das abelhas (os acaricidas) não são comparticipados pelo estado, ao contrário da prática seguida na UE.

Reflexão: estes dados gerais, suportados em grandes amostras, permitem-nos ter uma visão “de helicóptero” e formular algumas conclusões muito valiosas a vários níveis, desde as políticas gerais para o sector até às decisões individuais na condução dos nossos apiários.

Estes dados gerais deverão ser complementados por dados a uma escala regional, porque há aspectos regionais que importa conhecer e estudar (ver estes já publicados por aqui, conduzidos na região da Alsácia francesa (1, 2 e 3).

Mais, não dispensam até estudos-de-casos para uma análise fina que permitam relevar e corrigir erros grosseiros a um nível individual, como este que ilustro em baixo (a foto é de uma colónia de um apiário pedagógico).

resistência aos acaricidas: alguns apontamentos e reflexões

Apontamentos

A resistência a pesticidas é um fenómeno que ocorre quando os organismos-alvo sobrevivem a doses ou concentrações de uma substância tóxica que anteriormente provocava níveis elevados de mortalidade. Os principais mecanismos de resistência hoje conhecidos incluem desintoxicação melhorada, insensibilidade do local-alvo e penetração cuticular reduzida.

Daqui decorre que para avaliar resistências seja indispensável conhecer/determinar um “valor-base de referência” da concentração necessária de uma determinada substância activa para que esta provoque elevados níveis de mortalidade em populações-alvo susceptíveis. Mais, é de todo desejável que se defina o que são níveis elevados de mortalidade na população-alvo.

No caso concreto dos pesticidas utilizados pelos apicultores para controlar as populações do varroa é uma tarefa complexa determinar com rigor se se está na presença de um fenómeno de resistência ao acaricida que se utilizou. Episodicamente há apicultores a testemunhar a baixa eficácia dos tratamentos, referindo com alguma frequência a possibilidade de resistências. Para termos uma noção da complexidade que envolve avaliar com o rigor necessário este fenómeno nada como analisar os protocolos utilizados na sua investigação.

Frank D. Rinkevich, um grande especialista na área (ver aqui excelente entrevista que deu), numa publicação recente dá-nos a conhecer um exemplo desse percurso/protocolo. Acerca da resistência ao amitraz e baixa eficácia do Apivar em alguns casos pontuais de operações apícolas profissionais nos EUA o autor sentiu, entre outros aspectos, a necessidade de apresentar uma definição funcional de resistência, e definiu-a assim: populações de varroa que apenas são susceptíveis a concentrações do amitraz 10 vezes superiores ao “valor-base de referência” e cuja eficácia do Apivar® é inferior a 80% podem ser classificadas como funcionalmente resistentes ao amitraz.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6968863/

Reflexões

Neste outro estudo de 2019, acerca da eficácia de tratamentos baseados no ácido fórmico, verificamos que dois dos três tratamentos avaliados apresentam uma eficácia inferior a 80%. Será um caso de varroas resistentes ao ácido fórmico? Aumentar em 10 vezes a dosagem do ácido fórmico está fora de questão porque as abelhas não iam sobreviver. De qualquer forma a resistência dos ácaros ao ácido fórmico, tanto quanto é do meu conhecimento, nunca foi rigorosamente testada com qualquer protocolo. Assume-se que a falta de eficácia dos tratamentos com fórmico não se pode dever à existência de varroas resistentes ao mesmo. Como esta hipótese não foi testada faltam evidências da resistência ao fórmico. A questão que me fica é se esta falta de evidências é uma evidência da falta de resistência? Não sei, não estou convencido, é um aspecto que na minha opinião merece mais estudo e menos partis pris!**

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2019.1656788

Nota: destes dois estudos, e sem querer tornar esta análise numa questão de tipo “clubístico”, noto que mesmo quando o Apivar é menos eficaz elimina os varroas numa percentagem semelhante ou até superior a dois dos tratamentos com fórmico.

** Neste aspecto estou bem acompanhado. Randy Oliver escreveu: “Tem sido frequentemente afirmado que os acaricidas naturais serão “sustentáveis”, isto é, que é improvável que o ácaro lhes desenvolva resistência. Eu não compro isso. Milani (2001) fala pelos biólogos quando afirma: “Não há razão para acreditar que o ácaro varroa não possa desenvolver resistência contra acaricidas de origem natural ou moléculas simples (por exemplo, ácido fórmico). Existem centenas de espécies de insetos e ácaros que se alimentam de plantas que contêm toxinas naturais. ”. fonte: http://scientificbeekeeping.com/the-arsenal-natural-treatments-part-1/

diz-me o que comes e VAD retro

Mantenho-me de olho na recuperação de colónias com abelhas afectadas pelo vírus das asas deformadas (VAD). O surgimento dos sintomas provocados pelos VAD estão geralmente associados a um nível elevado da infestação pelo ácaro varroa. E que nível será este? Estou convencido que este nível deverá situar-se entre os 6% e os 9% nas minhas abelhas. Na literatura são mencionadas situações episódicas de abelhas excepcionalmente tolerantes ao ácaro varroa, que com 10% a 12% de infestação não manifestam sintomas de VAD, ou no pólo oposto de VAD extremamente virulento que provoca sintomas em colónias com taxas de infestação pelo ácaro abaixo dos 3%. Não tenho capacidade de fazer medições directas (quem tem?) da virulência dos VAD presentes nas minhas colónias, mas pelos timings dos tratamentos e pelos hiatos de tempo entre tratamentos não estou convencido que tenha abelhas excepcionalmente tolerantes assim como não estou convencido que as populações de VAD presentes sejam extremamente virulentas.

Neste momento quero acreditar que as boas condições edafo-climáticas, com pólen a entrar generosamente e a ser prontamente convertido em pão-de-abelhas fresco pronto a ser consumido, estão a dar um importante contributo à superação deste estado doentio.

Arbustos de tágueda a 100 m do apiário.
Colónia com sintomas de VAD e com pão-de-abelha recém ensilado.

Este pólen natural, depois de transformado em pão-de-abelha e digerido, aumenta as defesas das abelhas fortalecendo o seu sistema imunitário ao nível individual e ao nível colectivo.Este é um dos aspectos que não devo deixar de valorizar e associar à melhoria dos padrões de compacticidade de criação em boa parte destas colónias.

Sobre os fundamentos científicos do conteúdo, apresentado informalmente nesta publicação, podem ver mais neste artigo com o título “Elucidando os mecanismos subjacentes aos efeitos benéficos do pólen na dieta de abelhas (Apis mellifera) infestadas por ectoparasitas ácaro Varroa” (fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-017-06488-2).

vespa mandarinia: primeiros dados da invasão na américa do norte

Título: Os primeiros relatos de Vespa mandarinia (Hymenoptera: Vespidae) na América do Norte dizem respeito a duas linhagens maternas distintas no estado de Washington, Estados Unidos, e na Colúmbia Britânica, Canadá

Sumário: “Em setembro de 2019, a destruição de um ninho de Vespa mandarinia Smith 1852 foi relatada pela primeira vez na América do Norte em Nanaimo, British Columbia, Canadá. Em dezembro de 2019, o Departamento de Agricultura do Estado de Washington também confirmou a primeira detecção de um espécime adulto de V. mandarinia nos Estados Unidos, no condado de Whatcom, Washington. A Vespa mandarinia é a maior da espécie das vespas e é um predador conhecido de vários insetos, incluindo a abelha melífera europeia (Apis mellifera, Hymenoptera, Apidae, Linnaeus, 1758). O estabelecimento de V. mandarinia na América do Norte representa uma séria ameaça à apicultura, e esta espécie foi considerada uma praga e accionou protocolos de quarentena. Aqui, descrevemos detalhes da primeira detecção desta espécie nos Estados Unidos e usamos dados da sequência genética obtidos de cinco espécimes em todo o mundo para estimar a origem das detecções canadianas e norte-americanas. […] Uma árvore de probabilidade […] sugere que as amostras do Canadá e dos EUA são de duas linhagens maternas separadas. Uma pesquisa em grande escala está em andamento para avaliar o nível de estabelecimento de vespas gigantes asiáticas em ambos os países e determinar a direção futura dos esforços de erradicação.”

fonte: Annals of the Entomological Society of America, XX(X), 2020, 1–5 doi: 10.1093/aesa/saaa024

Vespa mandarinia

Perspectivas de futuro: A acontecer a erradicação deste insecto invasor seria um feito nunca visto. A história diz-nos que nenhuma vespa social invasora foi alguma vez erradicada dos novos territórios colonizados (Beggs et al., 2011). À luz deste histórico deprimente o futuro não se afigura brilhante para os companheiros apicultores da américa do norte, que muito provavelmente irão ter de se conformar a viver com este insecto invasor e dar-lhe luta, como nós apicultores europeus o temos vindo a fazer com a Vespa velutina.

e se… 20% das colmeias tratadas ainda apresentarem abelhas com asas deformadas

Vamos imaginar este cenário: 20% das colmeias de dois apiários tratadas este ano (por exemplo 9 em 59), e supostamente a tempo, com um medicamento que se tem mostrado eficaz nos últimos anos, numa percentagem a rondar os 99% (menos de 1% das colónias morreu por varroose), apresentam a meio do período do tratamento várias abelhas com asas deformadas e uma ou outra jovem abelha a emergir moribunda do alvéolo.

Abelha moribunda a emergir do opérculo com o probóscide (língua) estirado e abelha com asas deformadas.

Vamos imaginar ainda este cenário: um amigo envia uma proposta de acção alternativa/correctiva, que decides experimentar nessas nove colónias.

Uma proposta de acção alternativa/correctiva!

Vamos ser imaginativos e criar mais este cenário: que estas 9 colónias venham a estar como as restantes 50, cheias de pão-de-abelha fresco e com criação saudável e compacta.

Pão-de-abelha fresco, ensilado recentemente, que se torna o motor da expansão de criação de abelhas de inverno muito saudáveis.
Criação compacta e aparentemente saudável.

A terminar não um cenário mas um desejo: num mundo próximo do ideal (o ideal seria o varroa nunca ter saído do território onde é autóctone) constar da lista dos medicamentos homologados um ou dois que entre outras coisas:

  • não sejam dependentes das temperaturas;
  • sejam de libertação lenta;
  • sejam de aplicação única e cubram 3 a 4 ciclos reprodutivos do varroa (40 a 50 dias);
  • sejam eficazes acima dos 90%;
  • não matem as jovens larvas numa altura em que é crítico ter o maior número possível de abelhas jovens a emergir até ao início de novembro;
  • não matem por vezes as rainhas;
  • apresentem substâncias activas suficientemente diferentes do medicamento mais eficaz que utilizamos frequentemente, para fazer a necessária rotação.

Nota: Alguns de nós, guiados pelo Randy Oliver, já transpuseram para a sua realidade estes aspectos que cenarizo. Muito sucesso para todos!

evidências sobre os benefícios para a saúde da inclusão do(a) própolis na dieta

Em 2019 foi publicado na revista Nutrients esta revisão dos estudos publicados entre 1990–2018 em torno das evidências sobre os benefícios para a saúde pelo consumo e/ou utilização do própolis.

“O(A) própolis é um produto com benefícios para a saúde já relatados, como melhoria da imunidade, redução da pressão arterial, tratamento de alergias e problemas de pele. Uma revisão da literatura e uma síntese foram efectuadas para investigar as evidências sobre os benefícios para a saúde relatados e a direção futura dos produtos com própolis. Usando uma estratégia de pesquisa predefinida, pesquisámos no Medline (OvidSP), Embase e Central quer estudos quantitativos quer qualitativos (1990–2018). Citação, referência, revisões manuais e consulta a especialistas também foram efectuadas. Estudos com ensaios clínicos randomizados (aleatórios) e dados da observação em humanos foram incluídos. […]. Um total de 63 publicações foram analisadas. A maioria foram estudos efectuados em células e em animais, com alguns testes realizados em humanos. Há dados muito significativos e prometedores do própolis enquanto agente antioxidante e anti-inflamatório eficaz, particularmente promissor na saúde cardiometabólica.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6893770/

As abelhas utilizam 0/a própolis para a defesa da cidade/colectividade, contra animais várias vezes maiores que elas, assim como contra microorganismos infecciosos, como os fungos e bactérias.

sobre o nível de formação apícola disponível em Portugal

Ontem, na Escola de Apicultura on-line, foi abordada ao de leve a questão do nível de formação apícola disponível em Portugal. Este é mais um tema que suscita uma diversidade de opiniões, geralmente balizadas entre dois pólos, de muito má a muito boa. Na minha opinião a formação inicial disponível em Portugal merece uma nota entre o suficiente e bom. Sobre a resposta formativa de nível avançado disponível no nosso país esta merece ser notada com um insuficiente. Passo a explicar um pouco mais a minha opinião com base na minha experiência, no que vou observando e ouvindo de outros e na minha reflexão, logo uma opinião sustentada em dados parcelares, incompletos, enviesados, como todas as opiniões. Disso não me livro!

Quando iniciei a minha apicultura fiz um curso de iniciação à apicultura que me foi útil. Recebi também ensinamentos do meu pai. Li várias dezenas de números do jornal As abelhas, onde escrevia um grande mestre, o Vasco Correia Paixão. Estive também presente em vários encontros, fóruns e palestras que contribuíram para a minha formação inicial. Lia com regularidade os blogues Monte do Mel e O Apicultor. Todo este trajecto de formação e auto-formação permitiram-me manter a minha operação apícola sustentável desde o seu início. Esta experiência de vida reforça em mim a ideia que a reposta formativa de nível 1, 2 e 3 é suficiente a boa em Portugal.

Contudo para aqueles que desejam fazer um aprofundamento sério e uma especialização dos seus conhecimentos, isto é receber formação de nível 4 e 5, para exercer a sua actividade profissional ou o seu hobby, a resposta formativa é insuficiente. Tanto quanto é do meu conhecimento apenas o Prof. Paulo Russo a ministra, contudo para o território português parece-me insuficiente por escassa e longínqua para muitos. Na minha opinião deveria existir uma estrutura formativa com 5 centros dedicados em Portugal (um a norte, outro no centro, outro no sul e um para cada um dos arquipélagos), apoiados num Centro de Investigação e Formação Apícola. Este Centro para além de coordenar e avaliar a investigação e formação feita em Portugal, teria a responsabilidade de manter na sua equipa formadores actualizados com o que de mais recente o estado-da-arte produziu. A equipa de formadores não teria de ser muito grande, mas sim de grande qualidade, com gente muito dedicada e com prática no terreno, por exemplo na manutenção de um apiário experimental. Esta equipa formativa deveria ser complementada por alguns poucos apicultores com vários anos de experiência no terreno com abelhas, e com um percurso revelador de um maneio bem sucedido ao longo de anos. Finalmente este Centro de Investigação e Formação Apícola deveria fazer chegar a casa dos apicultores que o desejassem News-letters pelas vias electrónicas mais comuns.

Mas a realidade como a observo, resposta formativa de nível 4 e 5 insuficiente, conduziu-me para a auto-formação. Por exemplo, só sobre o principal inimigo das abelhas, o ácaro varroa, a minha aprendizagem de nível mais avançado foi feita no estrangeiro, mas em casa e à distância de um clique. No estrangeiro porque em Portugal muito pouco se publica! Se se quiserem dar ao trabalho, pesquisem por favor na net o quão pouco tem sido publicado acerca deste ácaro, de mais aprofundado e em português de Portugal. Esta falta de publicações reflecte o estado insuficiente da formação de nível avançado em Portugal? Seria estranho que não reflectisse!

Propostas de pesquisa de temas de nível avançado sobre o principal inimigo das abelhas:

  • Síndrome da parasitação/parasitose pelo ácaro varroa;
  • duração do tratamento do apivar;
  • importância do timing do tratamento contra a varroose;
  • ciclo de vida do varroa;
  • o vírus das asas deformadas;
  • onde se alimenta o varroa,
  • monitorização taxa de infestação varroa.