o lado negativo da seleção: uma causa esquecida do declínio das abelhas

Desde muito cedo compreendi, aceitei e assumi um aspecto central na minha apicultura: o esforço excessivo de seleção de abelhas contraria o seu “programa” natural. Por essa razão a selecção a todo o transe nunca foi uma prioridade para mim.

A panmixia, a poliandria e a elevada recombinação genética — a abelha melífera apresenta a mais elevada taxa de recombinação genética conhecida entre animais; mais de 10 vezes superior à dos mamíferos — são indicadores claros e absolutamente naturais do que as abelhas enquanto espécie necessitam para sobreviverem ano após ano, milénio após milénio: para responder a novas estirpes virulentas de agentes patogénicos, as abelhas necessitam de acesso a alelos raros que possam conferir imunidade a um novo patógeno. Ao acasalarem numa grande população panmítica, novos alelos raros podem ser recrutados e posteriormente combinados em novos genótipos através da recombinação com alelos úteis de outros genes.

Foi este “programa”que as trouxe até à actualidade desde os seus avós ancestrais que já habitavam o mundo há cerca de 35 milhões de anos. Foi este “programa” natural, anti afunilamento genético, que lhes permitiu encontrar respostas e sobreviver a microorganismos, bactérias, patógenos e parasitas que com elas se crauzaram e as ameaçaram ao longo deste percurso.

Em baixo deixo a tradução de um excerto do artigo “The Downside of Selection: A Forgotten Cause of Honeybee Decline; 2025”. Curiosamente, o autor é holandês um dos países onde a selecção genética por mão do homem está mais avançada Mais adiante voltarei a este artigo.

Introdução

Mais de 40 anos após a sua invasão da Europa Ocidental e da América do Norte, o ácaro Varroa e os vírus associados continuam a causar elevada mortalidade nas abelhas, apesar dos tratamentos químicos. Isto levanta a questão de por que razão a seleção natural não conseguiu resolver o problema.

A questão torna-se ainda mais intrigante pelo facto de a seleção natural ter resolvido rapidamente o problema na África do Sul e na América do Sul, mas não no hemisfério norte.

O ácaro Varroa foi identificado pela primeira vez na África do Sul em 1997. Mike Allsopp estudou a propagação do ácaro, permitindo obter conhecimento detalhado sobre os primeiros anos da invasão da Varroa na África do Sul. O ácaro propagou-se rapidamente, atingindo densidades elevadas, até 50.000 ácaros por colónia. Contudo, após alguns anos, a taxa de infeção diminuiu rapidamente até que, passados 3 a 5 anos para Apis mellifera capensis e 5 a 7 anos para Apis mellifera scutellata, a Varroa era, nas palavras de Allsopp, “apenas uma presença aleatória”.

A elevada taxa de infestação — frequentemente sem mortalidade das colónias — e investigações posteriores sobre o Vírus das Asas Deformadas (DWV) mostram que as abelhas da África do Sul desenvolveram rapidamente resistência ao DWV.

Na América do Sul, abelhas africanas da subespécie A. m. scutellata foram importadas da África do Sul e da Tanzânia para o Brasil com o objetivo de melhorar a produção de mel nos trópicos sul-americanos. Estas escaparam de um apiário experimental e hibridizaram com abelhas europeias já presentes. Os híbridos espalharam-se por toda a América do Sul, colonizando a América Central e o sul dos Estados Unidos.

Pouco após a descoberta da Varroa em 1979, os níveis de infestação detetados tornaram-se motivo de preocupação para a apicultura brasileira, embora não houvesse relatos de perdas de colónias. Tornou-se rapidamente evidente que as abelhas africanizadas podiam sobreviver à infestação por Varroa sem tratamento.

A seleção natural rápida parece ter conduzido ao aumento da resistência e o tratamento contra a Varroa geralmente não é praticado. Não são relatadas perdas de colónias africanizadas devido à varroose e os possíveis efeitos negativos na produção de mel parecem ser negligenciáveis.

Isto é surpreendente porque vírus associados à Varroa, como o DWV, estão amplamente disseminados na América do Sul, e as abelhas africanizadas não são resistentes ao vírus, embora num estudo a taxa de aumento viral tenha sido inferior nas abelhas africanizadas comparativamente às europeias.

A abelha africanizada é atualmente a raça mais comum no Brasil.

Um fator importante na rápida evolução da resistência à Varroa foi o enorme número de colónias selvagens de abelhas africanizadas no Brasil. Mesmo em ecossistemas naturais de floresta tropical, onde não existe apicultura, a abelha melífera é o principal polinizador. As colónias manejadas pelos apicultores representam apenas uma pequena percentagem da população total.

A população selvagem está sob constante pressão seletiva para resistência à Varroa. No México, a abelha africanizada foi introduzida em 1992 e demonstrou resistência à Varroa já em 1994.

Inicialmente, parecia que a explicação para o fracasso da seleção natural na Europa e na América do Norte era simples: tanto a África do Sul como a América do Sul possuem densidades elevadas de abelhas selvagens, e as abelhas domésticas não são manejadas de forma tão intensiva como no norte.

Quase todas as intervenções do apicultor inibem ou impedem a seleção natural. Existem também muito menos populações selvagens na Europa e em grande parte da América do Norte. Estas diferenças poderiam explicar as divergências na evolução da resistência à Varroa entre hemisférios.

Contudo, esta não parece ser toda a explicação.

O investigador sueco Ingmar Fries decidiu testar, num experimento de larga escala, se a seleção natural conduziria à resistência à Varroa e aos vírus associados quando os apicultores deixassem de intervir no destino das colónias.

Recolheu 150 colónias — Buckfast, ligustica e carnica — para garantir a maior diversidade possível, e colocou-as numa península isolada no sul de Gotland. As colónias foram então infestadas com Varroa e deixadas, em grande medida, à sua própria sorte.

Os resultados foram espetaculares, mas não os esperados. Durante quatro anos produziram-se 38 enxames, mas a mortalidade foi tão elevada que apenas 13 colónias sobreviveram.

A elevada mortalidade e a observação de que as colónias sobreviventes não possuíam os alelos específicos do comportamento higiénico sensível à Varroa (VSH) sugerem que esses alelos não estavam presentes nas populações de origem das 150 colónias.

As 13 colónias sobreviventes revelaram-se altamente consanguíneas e permaneceram pequenas. Não eram resistentes à Varroa, mas tolerantes — pelo menos durante a curta estação sueca. Quando transferidas para outros locais, a sua sobrevivência não foi superior à de abelhas não selecionadas.

No entanto, as colónias pareciam resistentes ao DWV. Em mais de 40 anos de presença da Varroa na Europa Ocidental, resistência ao DWV apenas foi encontrada uma outra vez, na Bélgica.

Os alelos de resistência ao DWV são, portanto, extremamente raros nas abelhas de criação. A ausência — ou extrema raridade — destes alelos torna muito difícil a evolução de resistência à Varroa por seleção natural nas colónias comerciais europeias de ligustica, carnica e Buckfast, como demonstrado pelo experimento de Fries.

A abelha negra nativa, menos sujeita à seleção intensiva devido à sua impopularidade histórica, parece estar numa posição ligeiramente melhor.

No início de um programa de seleção para resistência à Varroa no grupo Mellifera em Chimay (Bélgica), 18 de 32 colónias não apresentavam sinais de resistência. Das restantes 14, a maioria demonstrava elevada expressão de VSH.

O número de colónias sem expressão VSH é demasiado elevado para uma característica poligénica como o VSH. Isto significa que os alelos relacionados com resistência VSH também se perderam em algumas colónias de abelha negra.

Este artigo explica como os alelos de resistência desapareceram das populações europeias (e provavelmente norte-americanas) de abelhas. Para tal, é necessário analisar primeiro os mecanismos que as abelhas desenvolveram, através da seleção natural, para se defenderem de doenças infecciosas. […]

A seleção artificial de abelhas de raça

Compreendendo agora como uma população natural pode desenvolver resistência a um novo patógeno, podemos analisar o que corre mal quando selecionamos abelhas de raça.

Entre as características mais desejáveis para os apicultores encontram-se:

  • maior produção de mel,
  • menor agressividade,
  • comportamento mais calmo,
  • menor tendência para enxamear,
  • comportamento higiénico.

Todas estas são características comportamentais poligénicas.

Apicultores profissionais trabalham frequentemente com várias linhas de seleção, que podem posteriormente ser cruzadas para manter alguma variação hereditária. A seleção para características desejáveis é possível — conhecemos colónias altamente selecionadas de Carnica ou Buckfast que exibem os traços pretendidos.

Contudo, uma seleção rigorosa tem um custo: redução da resistência a novas doenças.

A perda de alelos raros

A seleção envolve normalmente a escolha de uma pequena amostra de uma população maior. Por exemplo, para aumentar a produção de mel, propagam-se rainhas provenientes das colónias mais produtivas. O processo repete-se durante várias gerações.

Como os alelos não são igualmente frequentes, a probabilidade de inclusão na seleção varia. Alelos comuns têm maior probabilidade de serem mantidos do que alelos raros. À medida que a seleção continua, os alelos raros desaparecem.

Isto aplica-se não apenas aos genes envolvidos na característica selecionada, mas também aos alelos raros de todos os outros genes.”

fonte: The Downside of Selection: A Forgotten Cause of Honeybee Decline

Jacques J.M., Arch Microbiol Immunology 2025 DOI:10.26502/ami.936500205

tiras de ácido oxálico durante os fluxos de néctar: impacto nos resíduos de mel

Uma das principais preocupações quando se fala na aplicação de tiras de ácido oxálico com glicerina durante o fluxo de néctar é a eventual contaminação do mel. A evidência científica disponível começa, contudo, a clarificar esta questão de forma objetiva.

Num estudo recente publicado na revista Pathogens (Efficacy and Safety of an Oxalic Acid and Glycerin Formulation for Varroa destructor Control in Honey Bee Colonies During Summer in a Northern Climate, 2025), verificou-se que as colónias tratadas com tiras de ácido oxálico e glicerina não apresentaram níveis significativamente superiores de resíduos de ácido oxálico no mel quando comparadas com colónias controlo, quer em amostras recolhidas antes quer durante e após o tratamento. Mais ainda: nenhuma das concentrações registadas ultrapassou o intervalo considerado normal para o ácido oxálico naturalmente presente no mel (11,3–160 μg/g).

Estes resultados estão em linha com trabalhos anteriores. Maggi et al. (2016) não encontraram aumento significativo de resíduos de ácido oxálico no mel, cera ou abelhas de colónias tratadas. Da mesma forma, Plamondon et al. (2024) demonstraram que nem o ácido oxálico nem a glicerina apresentaram níveis residuais superiores no mel das colónias tratadas quando comparadas com o controlo — utilizando formulações semelhantes.

Importa recordar que o ácido oxálico é um composto naturalmente presente no mel, variando a sua concentração consoante a origem botânica e geográfica. Ou seja, estamos perante uma substância que já faz parte da matriz natural do produto. A questão científica relevante não é a sua presença, mas sim se o tratamento altera os níveis naturais de forma significativa — e os dados disponíveis sugerem que, nas doses estudadas, isso não acontece.

Reflexão: Dos cerca de 20 medicamentos homologados em Portugal para o controlo da varroose, nenhum está autorizado para utilização durante os fluxos de néctar e respetivo armazenamento para consumo humano.
Perante a evidência científica disponível sobre determinadas formulações, será legítimo perguntar se, em Portugal e na Europa, não estaremos perante um excesso de prudência — talvez até medo da própria sombra — nos processos de homologação.

Também nos próximos dias 13, 20 e 27 de março, no curso Nutrição Apícola Aplicada (via zoom), analisaremos com base em evidência científica sólida várias práticas correntes na apicultura moderna, questionando pressupostos instalados e apresentando alternativas técnicas inovadoras, economicamente sustentáveis e fisiologicamente fundamentadas.

Tal como no domínio da gestão sanitária, também na nutrição das colónias importa distinguir tradição de ciência, hábito de evidência (contacte através do e-mail jejgomes@gmail.com para receber mais informação sobre o curso).

verdelafões: ação de divulgação para apicultores

Com muito gosto agradeço o convite para participar nesta ação de divulgação dirigida aos apicultores, integrada no PNASA 2026, que terá lugar já no próximo sábado, 7 de fevereiro, em Vouzela.

Será uma sessão dedicada à prevenção e controlo da enxameação e à multiplicação de enxames, dois pilares fundamentais para quem pretende colónias mais equilibradas, produtivas e sustentáveis ao longo da campanha.

Fica o convite a todos os apicultores da região para marcarem presença, aproveitarem este momento de partilha de conhecimento técnico aplicado e clarificarem dúvidas com impacto direto no maneio dos seus apiários.

4.ª edição do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas em março: inscrições abertas

Os últimos dias ficaram marcados pela passagem da tempestade Kristin, que causou danos significativos em várias regiões do país. Deixo aqui uma palavra de solidariedade para todos os afectados e, em particular, um abraço sentido aos apicultores que viram os seus apiários, colmeias e trabalho de anos postos em causa por um fenómeno extremo que relembra a crescente instabilidade com que todos temos de aprender a lidar.

É neste contexto exigente que a nutrição apícola ganha um peso cada vez maior. Não como um conjunto de receitas genéricas, mas como uma ferramenta estratégica de maneio, capaz de aumentar a resiliência das colónias, melhorar resultados e reduzir custos. Alimentar bem não é alimentar mais — é alimentar melhor, no momento certo e com objetivos claros.

Um dos temas centrais abordados na 4.ª edição do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas é precisamente a distinção, muitas vezes ignorada, entre alimentação proteica de manutenção e alimentação proteica de estimulação. A ciência mostra-nos que a proteína não é usada da mesma forma ao longo do ano: ora sustenta longevidade e imunidade, ora alimenta criação e crescimento populacional. Confundir estes dois objetivos é um erro frequente, caro e com impacto direto na saúde das colónias.

Ao longo do curso analisamos também a fisiologia digestiva das abelhas, incluindo o papel da atividade proteolítica, o efeito da idade e da função social das operárias e a importância do pH intestinal para o aproveitamento real da proteína ingerida. Estes aspetos ajudam a explicar porque é que suplementos aparentemente “bons” falham no terreno e porque nem toda a proteína que entra na colmeia é, de facto, aproveitada pelas abelhas.

Outro ponto-chave é a leitura crítica dos xaropes e bifes proteicos, incluindo a sua composição, acidez, digestibilidade e custo-benefício. Mais do que marcas comerciais, interessa perceber o que funciona, porquê e em que contexto, evitando desperdícios e práticas que podem comprometer a eficiência nutricional ou aumentar o stress metabólico das colónias.

O curso cruza de forma sistemática ciência, prática de campo e ferramentas de cálculo, permitindo aos formandos compreenderem melhor fenómenos como a atrofia das glândulas hipofaríngeas em situações de défice proteico, a relação entre nutrição e criação, e o impacto real das decisões alimentares na longevidade das abelhas de verão e de inverno.

A 4.ª edição do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas decorrerá via Zoom nos dias 13, 20 e 27 de março, e foi pensada para apicultores que procuram uma prática mais qualificada, económica e com melhores resultados, baseada em conhecimento atualizado e aplicável no terreno.

Num momento em que a apicultura enfrenta desafios climáticos, sanitários e económicos cada vez mais complexos, investir em conhecimento sólido não é um luxo — é uma necessidade. Este curso é um convite a pensar a nutrição de forma mais estratégica, consciente e eficaz, ao serviço de colónias mais fortes e de uma apicultura mais sustentável.

Mais informações deverão ser solicitadas para o e-mail jejgomes@gmail.com

não foi abandono… foi varroa

Todos os anos, no final do verão e início do outono, repetem-se os mesmos relatos nos grupos apícolas: “a colónia desapareceu”, “estava fortíssima e de repente ficou vazia”, “devem ter abandonado a colmeia”.
A explicação parece simples. E, por isso mesmo, é confortável.

Mas na esmagadora maioria dos casos, não houve abandono.
Houve colapso por varroose — previsível, modelável e evitável quando se compreende a dinâmica do parasita ao longo do ano.


O mito do abandono e a realidade do colapso

O verdadeiro abandono (absconding) é raro em abelhas europeias e ocorre apenas sob condições extremas.
Em contrapartida, o colapso por varroa é hoje a principal causa de mortalidade de colónias e ocorre sempre no mesmo período: final do verão e outono.

O problema não é falta de relatos.
O problema é que os sinais são repetidamente mal interpretados.


Os sinais não enganam — apenas são ignorados

O padrão é conhecido:

  • Colónias grandes, produtivas
  • Aparência normal poucas semanas antes
  • Desaparecimento rápido entre setembro e novembro
  • Mel deixado na colmeia
  • Alguma criação residual
  • Poucas abelhas apáticas
  • Rainha ausente ou isolada

Este conjunto de sinais não descreve abandono coordenado.
Descreve um colapso rápido por sobrecarga de varroa e vírus, típico de colónias que entram no outono já condenadas.


Porque morrem primeiro as colónias “melhores”

Este é um dos pontos mais difíceis de aceitar — e um dos mais importantes.

Colónias grandes:

  • criam mais criação
  • multiplicam mais varroas
  • acumulam cargas parasitárias enormes durante o verão

Quando a criação diminui no final do verão:

  • as varroas concentram-se nas abelhas adultas
  • a carga viral dispara
  • a colónia colapsa rapidamente

Por isso, a frase “não podia ser varroa, era a minha melhor colónia” está quase sempre errada.
Era precisamente por ser a melhor que estava mais infestada.


O verdadeiro erro: tratar sem compreender a dinâmica

Muitos apicultores tratam.
Mas tratam às cegas.

Tratam:

  • demasiado tarde
  • em momentos biologicamente desfavoráveis
  • ou repetindo esquemas alheios sem relação com o seu apiário

Depois, quando a colónia colapsa, concluem que:

  • “os tratamentos já não funcionam”
  • “a varroa está impossível”
  • “as abelhas desapareceram”

Na realidade, o erro aconteceu meses antes.

Em baixo, três fotografias minhas, captadas recentemente (janeiro de 2026).
São o reflexo da ligação entre o conhecimento técnico e o trabalho de campo — duas valências que me orgulho de conjugar e que considero essenciais para compreender verdadeiramente a varroose. É essa combinação, entre análise informada e observação no terreno, que me permite transmitir de forma clara, rigorosa e sem atalhos as mensagens-chave que importa dominar nas várias edições do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano.

Colónia que colapsou por varroa, sem abelhas, e com muito mel nos quadros adjacentes.
Os sinais estão visíveis para quem está habilitado para os interpretar devidamente: a causa foi a varroa e os vírus que injecta nas abelhas
Por vezes basta inclinar um pouco o quadro para ver as provas irrefutáveis da presença recente de muitas varroas.

O colapso por varroose não é súbito. É o resultado de uma dinâmica cumulativa, influenciada por:

  • ritmo de criação
  • tamanho da colónia
  • eficácia real dos tratamentos
  • escolha errada dos acaricidas em função do nível de infestação
  • escolha errada dos acaricidas em função da extensão do período forético
  • momento do ano em que são aplicados

O simulador de dinâmica da varroa permite visualizar exactamente isso:

  • como a população de varroa cresce ao longo do ano
  • quando um tratamento é eficaz… e quando já é tarde
  • porque certos tratamentos “parecem resultar” mas falham no outono
  • porque colapsam as colónias mesmo após terem sido tratadas

Quando se observa a dinâmica no simulador, o mito do abandono desaparece.
O colapso deixa de ser um mistério e passa a ser uma consequência previsível.


Da teoria à prática: aprender a decidir, não a copiar

É precisamente este salto — da reacção para a compreensão — que está no centro do curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano”

Neste curso, o foco não é:

  • decorar calendários
  • repetir receitas
  • aplicar tratamentos por rotina

O foco é:

  • compreender a dinâmica da varroa ao longo do ano
  • usar o simulador para identificar os momentos críticos
  • adaptar estratégias às condições específicas de cada apiário
  • evitar tratar nos piores momentos, como fluxos de néctar ou armazenamento de mel
  • reduzir drasticamente o risco de colapso no outono

Quem aprende a trabalhar com o simulador deixa de perguntar “o que correu mal?” Passa a saber quando e porque teria corrido mal.


Conclusão: quando se compreende a dinâmica, o colapso deixa de ser surpresa

Continuar a chamar “abandono” ao que é colapso por varroa não protege as abelhas. Apenas mascara erros de diagnóstico e adia a aprendizagem.

A varroose:

  • não se controla com fé
  • não se controla com tradição
  • controla-se com compreensão da dinâmica e decisões informadas

E quando essa dinâmica é clara, uma coisa torna-se evidente: as abelhas não foram embora — morreram de varroa.

Se a leitura deste artigo o fez perceber que conhecer e saber operar com ferramentas de apoio à decisão e planeamento, como é o caso do simulador de crescimento da população de varroa, são fundamentais, então o curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para si. Nesta nova edição, vamos muito além da aplicação de medicamentos de forma cega e tardia: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.

O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ultimas vagas disponíveis. Solicite mais informação para: jejgomes@gmail.com

como fazer para não ter de tratar durante o fluxo de néctar — o simulador de Varroa –

As notícias que têm circulado nos grupos apícolas portugueses ao longo das últimas semanas confirmam aquilo que já se antevia: 2025 foi um ano de grande razia de colónias por efeito da varroa. Ainda em agosto e setembro alertei que, mantendo-se o rumo seguido no maneio de muitos apiários, mais de 200 mil colónias em Portugal acabariam por morrer devido à varroose. Infelizmente, os relatos de perdas generalizadas mostram que essa previsão não estava longe da realidade.

O mais preocupante é que, se nada mudar, este cenário tem tudo para se repetir no final de 2026. Um número elevado de apicultores anda visivelmente perdido e confuso sobre como controlar este parasita e a varroa não perdoa improvisos nem indecisões — e continuará a fazer estragos enquanto não for enfrentada com conhecimento, planeamento e rigor.

Esta realidade explica porque ferramentas como o simulador de varroa do Randy Oliver são hoje tão importantes. Não porque ofereçam respostas automáticas, mas porque ajudam a organizar o pensamento, a perceber a dinâmica real da varroa e a antecipar consequências. O simulador mostra de forma clara aquilo que no apiário muitas vezes passa despercebido: pequenos atrasos, decisões mal temporizadas ou níveis aparentemente baixos de infestação conduzem inevitavelmente a colapsos meses mais tarde. Ao visualizar a evolução da varroa ao longo do ano, o apicultor deixa de andar às cegas e passa a compreender quando, como e porquê intervir.

O simulador de varroa do Randy Oliver é um “abre-olhos” que contribui para compreender e prever a evolução da população de Varroa destructor ao longo do ano dentro de uma colónia de abelhas.

Num contexto em que muitos apicultores se sentem confusos e sem referências claras, o simulador funciona como uma ferramenta pedagógica poderosa, permitindo planear o controlo da varroa de forma integrada com o ciclo da colónia, o calendário apícola e os períodos de produção de mel. Em vez de tratamentos de emergência, aplicados tarde demais e em momentos impróprios, promove decisões informadas, atempadas e ajustadas à realidade de cada apiário — precisamente o tipo de abordagem que pode evitar que as perdas massivas se repitam nos próximos anos.

Uma das grandes vantagens do simulador de varroa é permitir antecipar a evolução da infestação ao longo do ano, em vez de reagir apenas quando os níveis já são preocupantes. Ao integrar o crescimento da colónia, a dinâmica da criação e a reprodução da varroa, o modelo ajuda-nos a identificar com antecedência os momentos críticos em que a população de ácaros irá ultrapassar os limiares de risco. Isto permite planear intervenções no momento biologicamente mais eficaz, quando a varroa ainda está controlável e os tratamentos têm maior impacto.

Na prática, esta abordagem reduz significativamente a necessidade de tratar em alturas impróprias, como durante os períodos de fluxo intenso de néctar e armazenamento de mel. Em vez de decisões tardias e forçadas, o apicultor passa a ter um plano baseado em previsão, podendo intervir antes do pico de varroa e preservar simultaneamente a saúde da colónia, a qualidade do mel e a tranquilidade do maneio. Controlar a varroa deixa assim de ser um exercício de emergência e passa a ser um processo estratégico ao longo do ano.

Convido-o a juntar-se ao curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano, onde não só aprenderá a operar o simulador de varroa, mas sobretudo a interpretá-lo e adaptá-lo às condições específicas do seu apiário.

O objetivo não é aplicar modelos de forma cega, mas usar a ferramenta para pensar biologicamente, antecipar problemas e tomar decisões ajustadas à sua realidade.

Se a leitura deste artigo o fez perceber que conhecer e saber operar com ferramentas de apoio à decisão e planeamento, como é o caso do simulador aqui descrito, são fundamentais, então o curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para si. Nesta nova edição, vamos muito além da aplicação de medicamentos de forma cega e tardia: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.

O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ultimas vagas disponíveis. Solicite mais informação para: jejgomes@gmail.com

Varroa, Nosema e o colapso de colónias

Ao longo das últimas duas décadas, várias hipóteses tentaram explicar as perdas anormais de colónias de abelhas. Entre elas, duas surgem repetidamente: Nosema ceranae e Varroa destructor. A diferença entre ambas não está na sua presença — ambas são hoje comuns — mas no seu peso real enquanto causa de colapso. A sequência de estudos abaixo, apresentada por ordem cronológica, permite perceber como a evidência científica foi clarificando esta hierarquia.

2010 — Genersch et al.; Projeto Alemão de Monitorização de Abelhas (Apidologie, 2010)

Este foi um dos primeiros estudos longitudinais de grande escala: mais de 1200 colónias, acompanhadas durante vários anos, com análise simultânea de varroa, vírus, nosema, estado da colónia e fatores ambientais.

Os resultados foram consistentes: as perdas invernais correlacionaram-se fortemente com níveis elevados de Varroa destructor e vírus associados, sobretudo quando a infestação era alta no outono. Nosema spp. não surgiu como fator explicativo robusto nas análises multivariadas.

Conclusão-chave:
À escala populacional e temporal, o colapso de colónias está ligado sobretudo à varroa e às viroses, não à nosema.

2010 — Guzman-Novoa et al.; Invernagem no Ontário, Canadá (Apidologie, 2010)

Neste estudo de campo em condições reais de apicultura comercial, foram acompanhadas centenas de colónias durante o inverno. A análise focou-se na relação entre sobrevivência, níveis de varroa e presença de nosema.

O resultado foi inequívoco: mais de 80% das colónias que morreram apresentavam níveis elevados de varroa no outono. A presença de nosema não diferenciou colónias sobreviventes das colónias perdidas.

Conclusão-chave:
Quando a varroa está presente a níveis elevados, ela domina completamente o risco de mortalidade; a nosema torna-se irrelevante como causa primária.

2015 — Kielmanowicz et al.; Modelo preditivo de colapso (PLOS Pathogens, 2015)

Este estudo prospetivo acompanhou 179 colónias em três regiões climáticas dos EUA, sem tratamentos contra varroa ou antibióticos, permitindo observar a dinâmica natural de colapso. O grande avanço foi a criação de um modelo preditivo multifatorial.

O modelo mostrou que cerca de 70% dos colapsos podiam ser explicados por:

  • Varroa destructor,
  • replicação ativa do vírus das asas deformadas (DWV),
  • e fatores climáticos em combinação com os anteriores.

Nosema ceranae não foi selecionada como variável preditiva relevante, apesar da sua elevada prevalência.

Conclusão-chave:
O colapso não ocorre porque a nosema está presente, mas porque a varroa amplifica viroses letais.

2015 — Dainat et al.; Predictive markers of honey bee colony collapsePLoS ONE (2012)

Este estudo combinou dados de campo, patógenos e sobrevivência de colónias, procurando marcadores preditivos reais de colapso. Embora não seja o mais recente, é importante porque define o enquadramento epidemiológico moderno.

Conclusões relevantes:

  • A replicação de vírus associados à varroa (especialmente DWV) foi o melhor preditor de colapso.
  • Nosema ceranae não surgiu como marcador fiável de perdas.
  • O colapso foi melhor explicado por interações varroa–vírus, não por infeções isoladas.

Conclusão clara: O colapso é um processo epidemiológico dominado por varroa e viroses; a nosema não funciona como marcador principal.

2018 — van Dooremalen et al.; Efeitos isolados e interativos (Ecosphere, 2018)

Neste ensaio experimental de campo, os autores testaram separadamente e em combinação:

  • Varroa destructor,
  • Nosema spp.,
  • e exposição crónica subletal a imidacloprida.

O estudo mostrou que a varroa teve o impacto mais consistente na dinâmica das colónias, enquanto a nosema apresentou efeitos fracos ou contextuais, sem provocar colapso por si só.

Conclusão-chave:
Nem todos os stressores têm o mesmo peso: a varroa continua a ser o fator estruturalmente mais destrutivo.

2018 — Nazzi & Pennacchio; Disentangling multiple interactions in the hive collapseTrends in Parasitology (2018)

Este é um dos artigos de revisão mais influentes da última década sobre colapso de colónias. Não é um estudo experimental, mas integra dados globais e propõe um modelo epidemiológico coerente.

Pontos centrais da revisão:

  • Varroa destructor é o “driver” central que reorganiza todo o ecossistema patogénico da colónia.
  • A varroa altera o panorama viral global, transformando DWV num agente altamente virulento.
  • Nosema ceranae é classificada como stresso r secundário, com impacto dependente do contexto.
  • Não há evidência sólida de que a nosema, isoladamente, cause colapso generalizado.

Conclusão clara:
O colapso de colónias é um fenómeno epidemiológico emergente dominado pela varroa; outros agentes, incluindo a nosema, orbitam esse núcleo causal.

2020 — Traynor et al.; Varroa destructor: A complex parasite, crippling honey bees worldwideTrends in Parasitology (2020)

Categoria: revisão epidemiológica global (últimos 10 anos)

Este artigo revê décadas de dados de campo, genética, virologia e epidemiologia, com foco explícito na pergunta: porque é que as colónias colapsam?

Resultados-chave:

  • A varroa é apresentada como o principal fator causal direto e indireto das perdas globais.
  • O impacto real da varroa ocorre através da amplificação viral, sobretudo DWV.
  • Nosema ceranae é considerada ubíqua, mas sem correlação consistente com colapso em estudos de larga escala.
  • Onde a varroa é controlada eficazmente, as perdas caem drasticamente, mesmo com nosema presente.

Conclusão clara:
Se existe um fator epidemiológico dominante no colapso de colónias a nível mundial, esse fator é a varroa.

2021 — Neumann & Carreck; Honey bee colony lossesJournal of Apicultural Research (2021)

Esta revisão sintetiza dados europeus e globais recentes, incluindo monitorizações nacionais.

Conclusões relevantes:

  • As perdas de colónias são multifatoriais, mas não simétricas.
  • Varroa destructor permanece o fator mais consistentemente associado a perdas.
  • Nosema ceranae é raramente identificada como causa primária, surgindo sobretudo como infeção concomitante.

Conclusão clara:
Multifatorial não significa “tudo pesa o mesmo”: a varroa pesa mais.

2023 — Schüler et al.; “Significativa, mas não biologicamente relevante” (Communications Biology, 2023)

Com base em 15 anos de dados, este estudo avaliou a relação entre infeções por Nosema ceranae e perdas invernais. Embora a nosema apresentasse associação estatística com perdas, o tamanho do efeito foi considerado biologicamente irrelevante.

Quando comparada com a varroa, a nosema não explicou nem previu a mortalidade.

Conclusão-chave:
A nosema pode estar presente, mas não explica o colapso; a varroa explica.


A leitura crítica de Randy Oliver sobre os estudos de Higes

Da hipótese à hierarquia real das causas

Ao longo de mais de uma década de análise de dados e ensaios de campo, Randy Oliver acompanhou criticamente os estudos de Higes e os trabalhos posteriores. A sua posição atual é clara:

  • Nosema ceranae raramente é o motor principal do colapso,
  • atua sobretudo como stressor secundário ou oportunista,
  • enquanto Varroa destructor, através das viroses, é o verdadeiro fator estruturante das perdas globais.

Conclusão-chave:
Se a nosema fosse a causa dominante, os sinais seriam claros e repetíveis — e não são.


Conclusão geral

Quando se olha para estudos epidemiológicos e revisões de alto nível da última década, o padrão é extraordinariamente consistente:

  • Varroa destructor → fator central, estruturante, dominante.
  • Vírus associados (DWV) → mecanismo direto de colapso.
  • Nosema ceranae → comum, por vezes agravante, mas epidemiologicamente secundária.

Perceber esta diferença não é apenas um debate académico: é a base para decisões eficazes no terreno, na investigação e no maneio apícola.

É sobre decisões eficazes no terreno que falaremos na próxima edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, a iniciar-se a 20 de fevereiro. Últimas vagas disponíveis (os interessados solicitem mais informação para o e-mail jejgomes@gmail.com)

o inimigo oculto: contagem por lavagem de ácaros vs aumento líquido diário de varroa

Mesmo que não se observe um impacto evidente na colónia com contagens de varroa até cerca de 6 ácaros, nessa altura a situação já está prestes a sair do controlo.

Isto acontece porque a população de varroa está a aumentar a um ritmo diário assustador (ver Figura em baixo), juntamente com os vírus que transmite, à medida que aumenta a percentagem de pupas parasitadas.

Figura – Compreender o crescimento exponencial

Contagem por lavagem de ácaros vs aumento líquido diário de varroa


A população de varroa aumenta de forma exponencial, muito mais rapidamente do que a contagem obtida numa lavagem de ácaros.

Quanto maior for o número de varroas na colónia, maior é o aumento líquido diário de novos ácaros (e mais acentuada é a curva de crescimento).

Partindo de um aumento diário de apenas algumas varroas por dia, em meados de maio (com uma contagem de apenas 3 varroas numa lavagem), a população de varroa já está a crescer a um ritmo líquido de cerca de 50 varroas por dia.

Um mês depois (com uma contagem de 6 varroas), o crescimento já é de cerca de 100 varroas por dia.

E mais um mês depois (com uma contagem de 13 varroas), a colónia está a ganhar quase 200 varroas adicionais por dia.

A partir desse ponto, a colmeia deixou de ser uma produtora de mel e passou a ser, literalmente, uma fábrica de varroa.

Fonte: https://scientificbeekeeping.com

A leitura deste artigo faz-nos perceber que monitorizar varroa não chega, e que o desafio/competência está em interpretar os números, antecipar a dinâmica da praga — utilizando um bom simulador de crescimento da população de varroas, como o que apresentarei e ensinarei como o operacionalizar para o território de cada um dos formandos — e agir no momento certo.

O curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para fornecer estas competências. Nesta nova edição, vamos muito além das contagens isoladas: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.

O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ainda existem algumas vagas disponíveis. É uma formação exigente, baseada em ciência, observação de campo e tomada de decisão informada — porque na apicultura, como na biologia, adiar raramente é neutro.

controlo efectivo da Varroose: um curso com apicultores satisfeitos e resultados para apresentar

Deixo o testemunho do Eduardo Côrte-Real sobre os “dias seguintes” à sua frequência do meu curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano“.

Boa noite e bom ano Eduardo. Peço desculpa pela demora mas só hoje é que consegui terminar os testes que queria fazer. Não há dúvida nenhuma que nunca tive abelhas como tenho agora. Também tenho percas, mas o que está bom nunca esteve assim. O maior ganho que obtive, nem foram as ferramentas que apresentaste, mas sim o critério e o pormenor que utilizas. Decididamente não posso utilizar os fundos sanitários para avaliar taxas de infestação. A resistência que tinha em sacrificar as 300 abelhas para aferir as percentagens era grande erro meu. Tenho hoje 3 opções para combater a varroa muito satisfatórias. Concluí que a eficácia dos tratamentos não é linear em todas as colónias. Mas se não for com um método, consegue-se com outro. O Protocolo Inovador é muito bom, mas trabalhoso. Também consegui bons resultados com o oxálico sublimado 5 vezes com 4 dias de intervalo e com o amicel, uma tira por semana, vezes 3 semanas. Fiz outras experiências mas o resultado não foi tão satisfatório. Grande abraço.”

O Eduardo Côrte-Real, para quem não conhece, é apicultor com colmeias na zona de Cantanhede, criador reconhecido de boas rainhas autóctones nesta zona centro do país, sendo a escolha preferencial de vários apicultores que são meus clientes dos serviços técnicos de apoio no apiário.

A propósito informo que se encontra aberta uma nova edição do curso “Controlo Efectivo da Varroose”, a decorrer via Zoom, nas seguintes datas:

  • 20 de fevereiro
  • 27 de fevereiro
  • 6 de março

O curso é composto por 3 sessões e tem como objetivo dotar os formandos de uma abordagem prática, fundamentada e atualizada para o controlo da varroose.

Ao longo das sessões serão abordados, entre outros, os seguintes temas:

  • A mudança necessária no paradigma de actuação para controlar a Varroose ao longo do ano
  • A taxa de crescimento da varroa ao longo do ano: as 3 velocidades de crescimento
  • Que tempo se “compra” entre tratamentos: das ilusões ao realismo
  • 2 critérios inovadores para uma escolha mais ajustada dos acaricidas
  • Tratamentos mais baratos, em resposta às questões e necessidades colocadas/apresentadas por apicultores portugueses
  • Os limiares aconselhados para intervir
  • Os medicamentos mais oportunos e respetivos protocolos de utilização
  • Tratamentos proactivos: o que são e seu papel crítico na definição de estratégias de controlo da Varros
  • Monitorização da taxa de infestação por varroa: procedimentos correctos e limiares de actuação
  • O simulador de varroa de Randy Oliver e a sua parametrização para o território de cada formando/apicultor
  • Aplicação do simulador a territórios concretos com proposta de tratamentos
  • O Protocolo Inovador: fundamentos, operacionalização, detalhes de optimização do seu potencial, filmagens de sua aplicação e resultados obtidos.

Solicite mais informações enviando e-mail para: jejgomes@gmail.com

choque-shake: o açúcar também mata as abelhas na monitorização da taxa de infestação

Este estudo (2025) demonstra que, apesar da suposição generalizada de que o método do açúcar em pó (powdered sugar shake) utilizado na monitorização da taxa de infestação de abelhas adultas é inofensivo, resulta numa mortalidade significativa de abelhas operárias nos primeiros cinco dias após o procedimento. Assim, a ideia de que as abelhas devolvidas à colmeia após este método não sofrem danos é falsa.

“Verificámos que as abelhas operárias submetidas ao powdered sugar shake apresentaram uma probabilidade significativamente menor de serem recapturadas na colmeia cinco dias depois do procedimento, quando comparadas com abelhas apenas polvilhadas com açúcar em pó (sem sacudir) e com o grupo controlo, que foi apenas marcado e libertado.

A combinação do açúcar em pó com a ação de sacudir vigorosamente as abelhas durante um minuto parece ser o fator responsável pelos efeitos negativos observados. Para além de possíveis danos físicos, sabe-se que a agitação pode provocar alterações cognitivas nas abelhas. Assim, os apicultores devem estar conscientes de que muitas das abelhas submetidas a este procedimento podem não sobreviver nos dias seguintes.

Os nossos resultados mostram que o powdered sugar shake e a lavagem em álcool apresentam resultados semelhantes quando os níveis de infestação por varroa estão acima de 3%, o limiar de intervenção mais utilizado. No entanto, a eficácia do método do açúcar em pó é altamente variável, situando-se aproximadamente entre 63% e 95%, sendo fortemente influenciada por fatores ambientais como a humidade e a presença de néctar, que provocam o empastamento do açúcar.

Esta variabilidade constitui uma limitação séria, pois pode levar os apicultores a subestimar níveis elevados de infestação e, consequentemente, a não intervir quando necessário, aumentando o risco de perdas de colónias. Em síntese, a suposição de que as abelhas sobrevivem sem consequências ao powdered sugar shake é incorreta, e este método revela-se menos fiável para estimar a infestação por varroa. Assim, recomendamos que a lavagem em álcool seja adotada como método predominante de monitorização.


Ao longo das diversas edições do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, perdi um ou outro formando por aconselhar a monitorização da varroa através do método do álcool em lugar do açúcar em pó.

A minha posição baseia-se na observação de campo e no conhecimento científico disponível: a monitorização com açúcar trata-se de um método pouco fidedigno — sendo a fidedignidade a consistência e estabilidade dos resultados de um instrumento de medição — e que provoca a morte de uma parte significativa das abelhas nos dias subsequentes ao procedimento.

Independentemente das consequências nunca darei prioridade, nos meus cursos, à necessidade de agradar em detrimento da exigência de ser verdadeiro, rigoroso e tecnicamente correto.

Em breve anunciarei as datas para nova edição do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, edição com inevitáveis actualizações, induzidas por um conhecimento e experiência de campo que não estão parados no tempo.