abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo?

Em setembro de 2020 escrevi neste blogue, quase de passagem, uma observação que hoje me merece atenção renovada. Ao chegar a um dos meus apiários encontrei um bando de cerca de dez abelharucos e registei:

“Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.” [5]

Não estava a tentar demonstrar qualquer relação entre as duas espécies. Registei apenas aquilo que estava a observar naquele apiário e que voltei a notar nos anos seguintes.

Passados estes anos, e depois de termos hoje mais informação sobre a dieta do abelharuco e sobre o efeito comportamental que tanto ele como a Vespa velutina exercem sobre as colónias, esta observação merece ser revisitada. Mas parece-me importante fazê-lo separando duas perguntas diferentes. Uma é saber se os abelharucos conseguem limitar a expansão territorial da Vespa velutina. Outra, e para o apicultor provavelmente mais importante, é perceber se a presença dos abelharucos e a consequente redução da pressão das velutinas se traduzem realmente em mais minutos ou horas disponíveis de forrageio para as colónias.

A escala territorial

Em 2023 publiquei neste blogue uma análise a dois mapas de distribuição, um do abelharuco e outro da Vespa velutina.[7] À primeira vista podia parecer existir uma relação inversa, com maior presença de abelharucos precisamente onde a velutina apresentava menor implantação. Quando olhei com mais atenção, essa relação deixou de me parecer convincente. No extremo nordeste transmontano encontrávamos pouca presença de abelharucos e também reduzida implantação da velutina; no Ribatejo sucedia praticamente o contrário, com uma presença importante de abelharucos a coexistir com uma implantação já significativa de V. velutina.

A informação entretanto publicada não me levou a alterar substancialmente essa leitura. Em 2023, Onofre e colaboradores demonstraram em Portugal que o abelharuco (Merops apiaster) captura efetivamente Vespa velutina.[1] Entre 128 restos de presas identificados encontraram cinco velutinas, provenientes de quatro locais diferentes. Sabemos, portanto, que a predação existe e não estamos apenas perante uma possibilidade teórica.

Imagem gerada por IA

Outra questão é saber se essa predação tem dimensão suficiente para alterar a dinâmica populacional de uma espécie invasora que se encontra hoje distribuída por extensas áreas e sustentada por milhares de ninhos. Para produzir um efeito apreciável sobre a expansão territorial seria necessário afetar de forma suficientemente intensa a sobrevivência das colónias ou, sobretudo, a produção e sobrevivência das futuras fundadoras. Não encontrei evidência de que os abelharucos estejam a exercer esse efeito, e o próprio trabalho português chama a atenção para a sobreposição geográfica incompleta das duas espécies na Península Ibérica.[1]

Há ainda um cuidado adicional quando olhamos para estes mapas. A distribuição de ambas as espécies é fortemente condicionada pelo clima e pelo habitat. O abelharuco tende a beneficiar, durante a época de reprodução, de condições quentes e relativamente secas, enquanto a V. velutina apresenta elevada adequação em muitas regiões temperadas e húmidas e é penalizada pela secura excessiva. Parte da aparente relação inversa entre as duas espécies pode, por isso, resultar simplesmente de nichos climáticos parcialmente diferentes e não da capacidade de uma espécie limitar a outra.

Neste primeiro nível de análise continuo bastante céptico quanto a um papel importante dos abelharucos na limitação da expansão territorial da velutina.

Outra escala: aquilo que acontece no apiário

À frente de vinte colmeias a questão muda bastante. Se estiverem dez ou quinze velutinas a caçar diante dos alvados e chegar um bando de abelharucos, parece-me perfeitamente plausível que a presença destas aves faça diminuir rapidamente o número de velutinas naquele espaço. Algumas podem ser capturadas, como sabemos hoje que acontece,[1] enquanto outras poderão simplesmente afastar-se enquanto os abelharucos permanecem sobre o apiário.

A minha experiência aponta nesse sentido e vários apicultores descrevem situações semelhantes. Já em 2023 admitia neste blogue que, na melhor das hipóteses, os abelharucos poderiam afastar temporariamente as velutinas dos apiários.[7] Hoje continua a parece-me muitíssimo razoável admitir que essa redução local é real e, em determinados momentos, bastante visível.

Mas daqui não resulta automaticamente que a colónia tenha beneficiado.

Talvez estejamos a medir a coisa errada

Quando se discute o prejuízo provocado pelos abelharucos aparece frequentemente a pergunta: quantas abelhas comem? Quando se discute o seu eventual benefício perante a velutina surge outra: quantas velutinas conseguem eliminar ou afugentar?

As duas contas têm interesse, mas nenhuma me parece ser a melhor unidade de medida para avaliar o impacto final sobre a colónia. Uma velutina pode capturar relativamente poucas abelhas e, ainda assim, provocar um efeito muito superior ao número das que matou, porque a sua presença diante do alvado leva muitas outras forrageiras a atrasar ou interromper as saídas. O prejuízo mais importante pode estar menos na mortalidade direta e mais na redução coletiva da atividade de voo.

Paralisia de voo por efeito da presença de V. velutina (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Com os abelharucos encontramos algo semelhante. Bota e colaboradores verificaram que uma maior pressão destas aves junto dos apiários estava associada a uma redução da atividade de voo das abelhas.[2] No mesmo trabalho, a pressão dos abelharucos variou ao longo do dia, sendo superior durante algumas horas da manhã e voltando a aumentar ao final da tarde, com valores mais baixos próximo do meio-dia.[2]

Imagem gerada por IA

Assim, quando chegam abelharucos e diminuem as velutinas, as abelhas não ficam necessariamente libertas da pressão predatória. Durante algum tempo, a inibição do voo que estava a ser provocada pelas velutinas passa a ser provocada pelos próprios abelharucos.

É por isso que, para mim, a pergunta central passa a ser outra: quantos minutos ou horas efetivas de forrageio a colónia conseguiu realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos?

A rapidez com que a velutina regressa?

Há uma observação de campo que me leva a dar bastante importância a esta pergunta. Nos apiários de clientes onde temos utilizado harpas elétricas, tenho visto repetidamente que, quando existe uma pressão apreciável de V. velutina, basta por vezes desligarmos as harpas durante 15 a 30 minutos para começarmos novamente a notar um aumento do número de velutinas diante das colmeias.

Retorno da V. velutina após algum tempo com as harpas desligadas (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Num desses apiários, que descrevi neste blogue em 2023,[8] as harpas tinham sido desligadas cerca de uma hora antes da minha chegada. Quando entrei estavam entre 20 e 30 velutinas junto das colmeias e as abelhas praticamente paralisadas. Depois de ligadas as harpas, a pressão diminuiu rapidamente.

O trabalho de Monceau e colaboradores ajuda a perceber esta capacidade de reposição.[3] Num apiário experimental com apenas seis colmeias foram marcadas 360 velutinas e estimou-se que cerca de 350 indivíduos diferentes visitavam diariamente aquele conjunto de colmeias. Mais de metade dos indivíduos marcados regressaram pelo menos uma vez e, enquanto alguns deixavam de aparecer, novos indivíduos iam chegando.

Aquilo que vemos diante das colmeias num determinado momento é, portanto, apenas uma pequena parte de um fluxo diário muito maior. Um bando de abelharucos pode fazer desaparecer grande parte das velutinas que naquele instante estão diante dos alvados e produzir uma redução visualmente impressionante; mas quando o bando segue caminho, outras vespas podem ocupar rapidamente o espaço que ficou disponível.

É também aqui que existe uma diferença importante relativamente às harpas. A harpa permanece no apiário e continua a atuar sobre as velutinas que vão chegando. Os abelharucos podem exercer uma pressão muito intensa, mas frequentemente curta. Uma coisa é baixar durante alguns minutos o número de vespas presentes; outra é manter essa pressão suficientemente baixa para que as abelhas recuperem efetivamente o trabalho no campo.

As abelhas também precisam de recuperar

Há ainda outro elemento que pode estreitar essa janela de benefício. O desaparecimento do predador não significa necessariamente que as abelhas retomem imediatamente toda a atividade de voo.

V. velutina produz uma resposta comportamental que ultrapassa largamente as abelhas diretamente capturadas. Rojas-Nossa e colaboradores mostraram que a pressão da velutina reduz o forrageio e que as colónias protegidas por harpas, nas quais essa pressão foi persistentemente diminuída, apresentaram maior atividade, maior entrada de pólen, mais criação, maior peso das operárias e melhor sobrevivência no inverno.[4]

Também no estudo dos abelharucos a relação entre a pressão das aves e a atividade das abelhas variava ao longo das diferentes horas do dia.[2] Não estamos perante um sistema em que o predador desaparece e, imediatamente, todas as forrageiras retomam a atividade que tinham antes.

É aqui que a sequência temporal se torna particularmente importante. Os abelharucos podem chegar, reduzir fortemente as velutinas e, simultaneamente, reduzir o voo das abelhas. Quando partem, a colónia começa a recuperar; mas, se a reposição das velutinas pode ocorrer em 15 ou 30 minutos, como observo nos apiários protegidos por harpas quando estas são desligadas, parte dessa recuperação pode ser novamente interrompida antes de se transformar numa janela de forrageio significativa.

Quando os dois predadores ocupam partes diferentes do mesmo dia

Os horários conhecidos dos dois predadores acrescentam outra camada a este problema. No estudo de Bota e colaboradores, a pressão dos abelharucos foi mais elevada durante algumas horas da manhã e voltou a aumentar ao final da tarde.[2] A atividade de V. velutina nos apiários pode ser elevada desde o final da manhã e prolongar-se pela tarde, embora varie com a temperatura, a época do ano e as condições locais.

Os dois predadores não precisam, portanto, de estar permanentemente presentes ao mesmo tempo para condicionarem uma parte importante do dia. Uma janela que fica temporariamente livre de abelharucos pode coincidir com um aumento da pressão da velutina; ao final da tarde podem mesmo existir períodos de sobreposição.

Voltamos assim à mesma métrica. Não quantas abelhas morreram nem quantas velutinas desapareceram, mas quanto tempo útil de voo restou à colónia.

Menos velutinas não significa necessariamente menos pressão sobre a colónia

Continuo a não encontrar evidência de que os abelharucos estejam a impedir de forma importante a expansão territorial da Vespa velutina em Portugal.

À escala do apiário, a situação parece-me diferente. Considero hoje bastante plausível que a presença dos abelharucos possa provocar uma redução rápida e muito visível do número de velutinas que estão a caçar diante das colmeias.

Mas essa fotografia momentânea também pode enganar.

O facto de não vermos velutinas durante a presença dos abelharucos não significa necessariamente que a pressão habitual daquele apiário tenha desaparecido. As velutinas podem ter sido capturadas ou simplesmente afastadas e, quando os abelharucos abandonam o local, regressar rapidamente ou ser substituídas por outras.

No final do dia, a pressão global sobre o voo das abelhas pode ter-se mantido: primeiro devido aos abelharucos e depois novamente devido à Vespa velutina.

Enquanto estas situações não forem acompanhadas durante períodos suficientemente longos de semanas ou meses e em territórios em que estes dois predadores coincidem, contar abelhas comidas, contar velutinas comidas ou simplesmente contar as velutinas que vemos e deixamos de ver num determinado momento continuará a mostrar apenas uma parte do problema.

O que falta medir com maior rigor é o tempo: quanto dura a redução das velutinas depois da passagem dos abelharucos, quanto demora a colónia a recuperar o voo, quanto rapidamente regressa a pressão da velutina e, no final do dia, quantos minutos ou horas efetivas de forrageio as abelhas conseguiram realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos.

Nota final

Do ponto de vista estritamente ecológico, a minha preferência é evidente: entre o abelharuco, uma espécie nativa integrada nos nossos ecossistemas, e a Vespa velutina, uma espécie invasora, prefiro naturalmente o primeiro.

(Dito isto, dizer também que a presença do abelharuco é, em regra, parte natural da vida selvagem que partilha connosco estes territórios. Mas, em determinadas zonas e momentos, importa também perguntar se o aumento da sua abundância poderá estar a aproximar-se de limites tróficos que o próprio ecossistema suporta, com consequências para o equilíbrio entre a fauna selvagem e as actividades humanas, incluindo a apicultura. A comparação com o que tem acontecido com o javali serve apenas para colocar a questão: populações naturalmente presentes podem tornar-se problemáticas quando se alteram as condições que habitualmente limitavam a sua densidade. Não é uma conclusão sobre o abelharuco; é uma hipótese que merece observação séria, documentação e discussão.)

Mas não é essa a questão analisada nesta publicação. Aqui procurei apenas perceber o impacto de um e de outro sobre a atividade das colónias e, em particular, sobre o número de minutos ou horas disponíveis para o forrageio.

É nesse plano que surge a alegada vantagem do abelharuco: ao reduzir a presença de velutinas junto das colmeias, poderia devolver às abelhas algum tempo de voo. O problema é que os próprios abelharucos também inibem o forrageio e, quando se afastam, a pressão da V. velutina pode recompor-se rapidamente.

Por isso, esta publicação não pretende tomar partido entre os dois predadores. Procura apenas perceber se o benefício atribuído aos abelharucos se traduz realmente em mais horas de trabalho para as colónias. E, com a informação atualmente disponível, parece-me que essa vantagem ainda não foi avaliada com o rigor necessário para podermos afirmá-la.

Nota editorial sobre o uso de vídeos e imagens geradas por IA

Esta é a primeira vez que utilizo vídeos produzidos por mim numa publicação do Abelhas à Beira. Tenciono continuar a combiná-los com o texto, tal como tenho feito até agora com imagens estáticas e fotografias, sempre que contribuam para mostrar melhor aquilo que está a acontecer no apiário ou para tornar mais clara uma ideia desenvolvida na publicação.

É igualmente a primeira publicação em que recorro a imagens geradas por inteligência artificial. Sempre que o fizer, essa utilização será claramente identificada.

Não pretendo que o Abelhas à Beira se transforme num veículo de imagens indistinguíveis da realidade, nem que uma ilustração gerada substitua o registo fiel do que foi observado no apiário. Sempre que possível, procurarei utilizar fotografias e vídeos reais — preferencialmente meus ou, quando adequado, de outros autores devidamente identificados — para acompanhar e exemplificar os conteúdos publicados.

As imagens geradas por IA ficarão reservadas para situações em que uma fotografia ou vídeo real não esteja disponível, ou não permita ilustrar com clareza o ponto que o texto pretende explicar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol AgentAnimals, 13, 1906.

[2] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apicultureEcological Indicators, 142, 109158.

[3] Monceau, K.; Bonnard, O.; Moreau, J.; Thiéry, D. (2014). Spatial distribution of Vespa velutina individuals hunting at domestic honeybee hives: heterogeneity at a local scaleInsect Science, 21, 765–774.

[4] Rojas-Nossa, S. V.; Dasilva-Martins, D.; Mato, S.; Bartolomé, C.; Maside, X.; Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony developmentPest Management Science, 78, 5142–5149.

Referências — Abelhas à Beira

[5] PMS: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência (2020). Ler

[6] Vespa velutina: contas e reflexões (2023). Ler

[7] Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da vespa velutina? (2023). Ler

[8] Medidas de controlo dos inimigos: Vespa velutina e varroa (2023). Ler

colmeias que ficam vazias: uma nova peça para explicar o desaparecimento das abelhas

Nesta altura do ano começam a aparecer, como praticamente todos os anos, relatos de apicultores que encontram uma colmeia vazia ou reduzida a um pequeno punhado de abelhas quando, poucas semanas antes, a recordavam bem povoada. Em muitos casos a explicação fica por aí: as abelhas desertaram, abandonaram a colmeia, foram-se embora. A possibilidade de a colónia ter colapsado, nomeadamente por níveis elevados de infestação por Varroa, nem sequer é considerada.

Noutros relatos a Varroa é mencionada, mas de uma forma diferente: a infestação teria sido tão elevada que levou as abelhas a abandonar a colmeia. Temos assim duas explicações aparentemente diferentes para a mesma caixa vazia — numa, a Varroa nem entra na história; na outra, entra como causa da deserção. Vale a pena perceber se aquilo que estamos a observar é realmente uma deserção.

Colmeia sem abelhas (autor desconhecido)

A deserção, ou absconding, é um comportamento bem definido. Toda ou praticamente toda a colónia, incluindo a rainha, abandona definitivamente o local onde estava instalada e procura outro lugar para nidificar. É diferente da enxameação: nesta sai uma parte das abelhas com a rainha, mas fica para trás uma colónia funcional; na deserção, a casa é abandonada.

Já escrevi algumas vezes sobre esta questão no Abelhas à Beira. Em 2019, na publicação «Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem?» [5], deixei uma observação resultante daquilo que tinha visto ao longo dos anos nas centenas de colónias que então acompanhava nos meus apiários: colónias muito infestadas iam perdendo gradualmente as suas abelhas, mas «um abandono súbito e massivo de abelhas por causa da infestação da varroa nunca me apercebi dele».

Voltei ao assunto em 2021, em «Porque se foram embora as abelhas da colmeia» [6]. Uma colónia que perde diariamente muitas centenas ou mesmo milhares de abelhas e não consegue repô-las ao mesmo ritmo pode passar, num intervalo relativamente curto entre duas visitas do apicultor, de aparentemente populosa para quase vazia. Para quem não acompanhou o processo, é fácil transformar esse desaparecimento numa partida: «as abelhas foram-se embora».

A verdadeira deserção existe nas abelhas melíferas, mas a sua frequência varia bastante entre subespécies. É muito mais comum em várias subespécies africanas e nas abelhas africanizadas das regiões neotropicais, onde pode ocorrer em resposta à seca, à falta prolongada de recursos ou a perturbações importantes do ninho. Nas subespécies europeias é bastante menos habitual. Para Apis mellifera iberiensis não encontrei evidência que permita considerar este comportamento frequente ou característico.

Uma observação antiga e uma peça nova

Quando escrevi aquelas publicações, a explicação que me parecia mais consistente com aquilo que observava era relativamente simples: as abelhas das colónias fortemente infestadas não levantavam voo em massa para procurar outra casa. Iam desaparecendo. Morte natural, doença, alguma deriva e, sobretudo, uma renovação das gerações que deixava de compensar as perdas podiam transformar, num intervalo relativamente curto, uma colónia populosa numa caixa quase vazia.

Esta dificuldade de renovação da população já foi por mim referida em diversas publicações no Abelhas à Beira [7,8]. Quando a infestação atinge níveis elevados, uma parte das abelhas parasitadas durante o desenvolvimento nem sequer chega em condições de integrar a geração adulta. Algumas morrem ainda como pupas ou quando estão prestes a emergir; outras chegam a nascer, mas apresentam sinais que o apicultor reconhece facilmente: asas deformadas, abdómen atrofiado, menor tamanho e, por vezes, dificuldade em caminhar [2–4]. Tenho observado estes sinais sobretudo em colónias com infestações já muito elevadas — frequentemente na ordem dos 8–10% ou superiores nas abelhas adultas— embora não exista aqui um limiar fixo e a virulência dos vírus associados à Varroa possa fazer aparecer sintomas visíveis com infestações inferiores [2–4].

Em 2021 escrevi: “Alguns números podem elucidar o fenómeno do “desaparecimento súbito” de abelhas. Nesta altura do ano, entre julho e setembro, morrem de velhice cerca de 1000-2000 abelhas/dia. Em dez dias, morrem entre 10 000 e 20 000 abelhas por colónia. Se as novas gerações de abelhas não chegam a emergir dos alvéolos ou estão seriamente comprometidas e sobrevivem poucos dias, não é surpreendente que um apicultor encontre uma colónia vazia duas a três semanas depois da última visita. Quando a natural renovação de gerações não se dá, uma colmeia a bordejar de abelhas na visita realizada 3 semanas antes surge-nos agora “subitamente” vazia.” [6]

Em 2016, por exemplo, descrevi no blogue colónias onde encontrava «abelhas com asas deformadas e abdómens atrofiados» e abelhas prestes a nascer já mortas [8]. Mais tarde voltei várias vezes ao problema da multi-infestação da criação e à redução da longevidade das futuras abelhas [7]. O resultado populacional é fácil de compreender: enquanto morrem diariamente as abelhas adultas mais velhas, uma parte das que deveriam substituí-las morre antes de nascer ou entra na população adulta já profundamente comprometida [2–4]. A renovação deixa de compensar as perdas e a população começa a afundar-se.

Quadro com poucas abelhas, borboleta da traça e com reservas de mel (autor desconhecido)

Foi precisamente por isso que achei particularmente interessante um estudo publicado em 2024 [1]. Ellis e Rangel foram procurar um efeito muito menos visível. Para os ensaios com Varroa utilizaram criação proveniente de colónias com 4% ou mais de infestação nas abelhas adultas e, depois da emergência, verificaram individualmente quais as abelhas que tinham sido efectivamente parasitadas durante o desenvolvimento. Mas fizeram algo especialmente importante para aquilo que aqui nos interessa: excluíram do ensaio as abelhas que apresentavam deformações visíveis [1].

Ou seja, já não estamos a falar das abelhas com asas deformadas, abdómen atrofiado ou outras manifestações que nos fazem perceber imediatamente que alguma coisa está muito mal. Estamos a falar de abelhas que, à observação exterior, parecem normais, provenientes de colónias que podiam apresentar níveis de infestação a partir dos 4%, portanto bastante abaixo daqueles em que, pela minha experiência de campo, começo habitualmente a encontrar em quantidade sintomas exteriores evidentes de varroose.

Os investigadores acompanharam 738 abelhas que tinham sido parasitadas durante o desenvolvimento e 749 abelhas não parasitadas, marcando-as individualmente antes de as introduzirem em colmeias de observação [1].

E algumas das abelhas parasitadas começaram a fazer uma coisa estranha. Com apenas alguns dias de idade, caminhavam até à saída da colmeia e saíam. Eram demasiado jovens para voar. Caíam da plataforma de voo e, no exterior, permaneciam praticamente imóveis ou continuavam a caminhar, acabando por morrer. A idade média destas abelhas era de apenas 4,66 dias [1].

Não parecia tratar-se de expulsão pelas outras abelhas. Os investigadores não observaram as companheiras a arrastá-las para fora e a taxa inicial de aceitação das abelhas parasitadas foi semelhante à das não parasitadas. Mais curioso ainda: quando algumas das abelhas que tinham saído eram recolocadas dentro da colmeia, voltavam a sair [1].

A parasitação por Varroa aumentou significativamente a ocorrência deste comportamento. Mas os investigadores verificaram também que ele não era exclusivo da Varroa: abelhas submetidas durante o desenvolvimento a stress térmico, tanto por frio como por calor, apresentaram igualmente mais saídas prematuras [1].

Quando analisaram as glândulas hipofaríngeas, encontraram talvez uma das pistas mais interessantes do estudo. Estas glândulas estão particularmente desenvolvidas nas abelhas jovens que desempenham funções de nutrizes e vão diminuindo à medida que a abelha envelhece e progride para outras tarefas. Nas abelhas jovens que saíam prematuramente da colmeia estavam muito menos desenvolvidas do que nas abelhas normais da mesma idade e, neste parâmetro, aproximavam-se das encontradas em abelhas com idade de campeira [1].

Os autores colocam por isso a hipótese de estarmos perante uma aceleração anormal do polietismo etário [1]. Uma abelha com apenas quatro ou cinco dias, que deveria estar ainda a desempenhar tarefas no interior da colmeia, apresenta já alguns sinais fisiológicos associados a uma fase muito mais avançada da sua vida. É como se o stress sofrido durante o desenvolvimento, incluindo a parasitação por Varroa, estivesse a fazê-la envelhecer funcionalmente depressa demais. O programa comportamental que normalmente a levaria mais tarde para o exterior parece antecipar-se, quando a abelha ainda nem sequer está fisicamente preparada para voar e desempenhar as funções de uma campeira.

Esta é a peça nova que podemos hoje acrescentar àquilo que eu observava nos meus apiários e escrevi em 2019 e 2021 [5,6]. As abelhas de uma colónia fortemente infestada podem ir desaparecendo uma a uma. Sabemos agora que algumas abelhas parasitadas durante o desenvolvimento podem começar esse desaparecimento muito cedo: com quatro ou cinco dias saem pelo alvado, sem sequer conseguirem voar, afastam-se a pé e acabam por morrer no exterior [1].

E há um pormenor que ajuda a compreender porque podemos não encontrar diante da colmeia a quantidade de abelhas mortas que esperaríamos. Depois de saírem e caírem da plataforma de voo, algumas destas abelhas continuavam a caminhar para longe da colmeia antes de morrer [1]. Aos olhos do apicultor, simplesmente desapareceram.

Passados alguns dias ou semanas, o apicultor volta ao apiário e abre a colmeia. Onde havia muitas abelhas encontra agora muito poucas. Também não vê no fundo da caixa ou diante do alvado os milhares de cadáveres que poderiam explicar essa redução.

Parece que as abelhas se foram embora.

Talvez muitas delas tenham realmente saído pela porta.

Mas uma coisa é as abelhas irem desaparecendo da colmeia, outra é a colónia desertar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Ellis, J. T.; Rangel, J. (2024). Stress drives premature hive exiting behavior that leads to death in young honey bee (Apis mellifera) workersBiological Research, 57, 92.

[2] Rosenkranz, P.; Aumeier, P.; Ziegelmann, B. (2010). Biology and control of Varroa destructorJournal of Invertebrate Pathology, 103, S96–S119.

[3] Traynor, K. S.; Mondet, F.; de Miranda, J. R.; Techer, M.; Kowallik, V.; Oddie, M. A. Y.; Chantawannakul, P.; McAfee, A. (2020). Varroa destructor: A Complex Parasite, Crippling Honey Bees WorldwideTrends in Parasitology, 36, 592–606.

[4] Noël, A.; Le Conte, Y.; Mondet, F. (2020). Varroa destructor: how does it harm Apis mellifera honey bees and what can be done about it? Emerging Topics in Life Sciences, 4, 45–57.

Referências — Abelhas à Beira

[5] Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem? Os papéis da deriva e pilhagem na transmissão de ácaros Varroa de colónias de abelhas a colapsar para colónias vizinhas (2019). Ler

[6] Porque se foram embora as abelhas da colmeia (2021). Ler

[7] O fenómeno da multi-infestação: alguns dados que nos ajudam a compreender a tempestade perfeita (2021). Ler

[8] Abelhas na Beira à saída do outono 2016 (2016). Ler

[9] Foi a varroa que matou a colmeia? Ler

[10] Morte de uma colónia de abelhas por varroa: foto-filme. Ler

abelharucos: não são apenas as abelhas que eles comem

Nos grupos apícolas das redes sociais espanholas e portuguesas são frequentes, sobretudo durante o verão, as publicações de apicultores que mostram bandos de abelharucos junto dos apiários e lhes atribuem efeitos importantes sobre as suas colónias.

Relato e pergunta de um apicultor português (retirado do Facebook)

Durante bastante tempo, uma das formas mais intuitivas de avaliar este problema passou por responder a uma pergunta aparentemente simples: quantas abelhas come um abelharuco? Se estamos perante um predador e queremos conhecer o prejuízo que provoca, contamos as presas que elimina e comparamos esse número com a população disponível. O problema é que, no caso de uma colónia de abelhas, esta poderá não ser a melhor unidade de medida.

Há números razoavelmente bons para estimar a mortalidade direta. Num estudo realizado no sudeste de Espanha, Farinós-Celdrán e colaboradores estimaram um consumo médio de cerca de 1.333 ± 760 abelhas melíferas por abelharuco durante a sua permanência na região.[1] Na Sardenha, Galeotti e Inglisa estimaram que a predação correspondia, em média, a cerca de 0,37% das forrageadoras disponíveis, embora representasse aproximadamente 6,1% da mortalidade diária destas abelhas.[2]

Vistos desta forma, os números não parecem particularmente alarmantes. Uma colónia forte, com dezenas de milhares de abelhas e capacidade para produzir continuamente novas operárias, poderá compensar a perda de algumas centenas ou mesmo de alguns milhares de forrageadoras distribuídas por várias semanas.

Mas talvez seja precisamente aqui que começamos a medir mal o problema.

Não são apenas as abelhas que o abelharuco come

Uma colónia depende diariamente de milhares de viagens entre a colmeia e o exterior. Enquanto umas abelhas saem, outras regressam com néctar, pólen, água ou resinas. Retirar algumas centenas de abelhas a uma população de dezenas de milhares pode parecer pouco; alterar durante horas o comportamento de milhares delas é outra coisa.

Nos últimos anos começaram a surgir trabalhos que olharam para o problema precisamente deste outro lado. Em vez de perguntarem apenas quantas abelhas eram capturadas, procuraram perceber o que acontecia à atividade das restantes quando os predadores estavam presentes.

Um dos estudos mais interessantes foi realizado na Extremadura e acompanhou 58 apiários. Foram registados mais de 3 milhões de movimentos de entrada e saída de abelhas. Quanto maior era a presença dos abelharucos junto dos apiários, menor tendia a ser a atividade das abelhas; e nos apiários sujeitos a maior pressão foram também observadas menores quantidades de abelhas, criação, mel e pólen. O efeito tornou-se particularmente evidente durante agosto.[3]

Alguns anos depois, um trabalho realizado na região de Lleida aprofundou este ponto. Os investigadores relacionaram a atividade dos abelharucos com contadores que registavam o movimento das abelhas nas colmeias. A conclusão principal foi clara: quando aumentava a pressão dos abelharucos, diminuía o movimento das abelhas, mas essa resposta variava bastante ao longo do dia.[4]

Momento do diaPresença/atividade dos abelharucosResposta das abelhas à presença dos abelharucosLeitura simples
09h15ElevadaForte redução do vooUma das fases mais sensíveis: muita pressão e forte resposta das abelhas
11h15Já inferior à das 09hEfeito por unidade de pressão ainda muito forteMesmo com menos abelharucos, o forrageio continua bastante condicionado
13h15MínimaO efeito ainda existeMenor pressão global e uma janela relativamente mais favorável ao voo
15h15Relativamente baixaEfeito menorA atividade das abelhas parece menos condicionada
17h15Volta a aumentarMuito menor efeito sobre o vooHá novamente mais abelharucos, mas as abelhas mantêm melhor a atividade
19h15ElevadaA relação com a redução do voo torna-se muito fracaAo fim do dia, a tendência para intensificar o forrageio parece sobrepor-se parcialmente ao risco

Este quadro resulta de 1.526 registos horários e mostra algo que me parece importante: não basta contar quantos abelharucos estão presentes num apiário. A mesma pressão de predadores não produz necessariamente a mesma redução do forrageio às dez da manhã e ao fim da tarde.[4]

Em vez das abelhas comidas, contar o forrageio perdido

Podemos então fazer uma pergunta diferente. Em lugar de procurarmos apenas saber quantas abelhas come um abelharuco, talvez devamos tentar conhecer quanto forrageio deixa uma colónia de fazer devido à sua presença.

Uma abelha capturada desaparece. Uma abelha que, perante a pressão do predador, não sai da colmeia continua viva, mas durante esse período também não recolhe néctar, pólen ou água. Quando essa alteração envolve muitas abelhas, várias horas por dia e se repete durante dias ou semanas, o número de indivíduos efetivamente capturados deixa de descrever uma parte importante do impacto.

Podemos traduzir este fenómeno, apenas para facilitar a compreensão, em horas equivalentes de forrageio perdidas.

Imaginemos que a pressão dos abelharucos é importante durante quatro horas de um determinado dia:

Redução média do forrageio durante essas 4 horasForrageio equivalente perdido por diaEm 20 dias
25%1 hora20 horas
50%2 horas40 horas
75%3 horas60 horas

Estes valores são apenas uma forma de visualizar o efeito acumulado. Se durante vinte dias uma colónia perder diariamente o equivalente a duas horas de forrageio, serão quarenta horas durante as quais uma parte importante do trabalho que poderia ter sido realizado no exterior não aconteceu.

O estudo da Extremadura dá-nos uma ideia da escala envolvida. Os contadores registaram, em média, valores próximos de 4.000 movimentos de entrada e saída por hora.[3] Se imaginarmos uma redução de 50% durante quatro horas, teremos cerca de 8.000 movimentos a menos num dia e, repetida a situação durante vinte dias, aproximadamente 160.000 movimentos que não ocorreram.

É esta ordem de grandeza que me parece particularmente interessante. Enquanto contamos as centenas ou poucos milhares de abelhas efetivamente capturadas, a alteração comportamental pode afetar dezenas ou centenas de milhares de movimentos.

Este efeito faz lembrar muito aquilo que já conhecemos da pressão exercida pela Vespa velutina. Também neste caso, o prejuízo para a colónia não resulta apenas das abelhas capturadas à frente da colmeia, mas da chamada paralisia do forrageio: perante uma pressão predatória suficientemente elevada, as abelhas reduzem fortemente as saídas, entra menos pólen e essa redução acaba por se refletir na criação e no desenvolvimento da colónia.[6] O próprio artigo sobre os abelharucos chama a atenção para esta semelhança. Predadores muito diferentes podem, portanto, produzir uma resposta semelhante nas abelhas: para além das forrageadoras que capturam, condicionam o trabalho de muitas outras que permanecem dentro da colmeia ou reduzem as suas saídas. [7]

Talvez seja por aqui que se explique pelo menos parte da distância entre alguns trabalhos que estimaram um efeito relativamente reduzido dos abelharucos e aquilo que certos apicultores descrevem no terreno. Uma coisa é a capacidade da colónia para substituir as abelhas mortas; outra é substituir trabalho que simplesmente não foi realizado.

Do forrageio perdido ao mel, ao pólen e à criação

Ainda não conseguimos converter diretamente determinada redução do voo em determinado número de quilos de mel ou em determinada área de criação. Mas os estudos disponíveis mostram que os dois fenómenos caminham no mesmo sentido.

Na Extremadura, maior presença de abelharucos coincidiu com menor atividade das abelhas e também com menores quantidades de mel, pólen, criação e abelhas adultas, sobretudo durante agosto.[3]

E numa situação muito mais intensa, observada em Israel durante a passagem de grandes bandos migratórios, foram comparadas colmeias protegidas da pressão das aves com colmeias não protegidas. As primeiras aumentaram de peso, em média, 26,4 kg, enquanto as não protegidas aumentaram apenas 4,1 kg: uma diferença de 6,44 vezes.[5] O aumento de peso refletia sobretudo a acumulação de mel.

Não transportaria diretamente estes valores para Portugal ou Espanha, porque se tratava de uma pressão migratória muito forte. Mas o resultado mostra até onde o efeito pode chegar quando a redução do forrageio se torna intensa e persistente.

Agosto merece atenção especial

Nos trabalhos espanhóis, agosto aparece repetidamente como um período importante. Depois da reprodução, os abelharucos começam a concentrar-se e a deslocar-se antes da migração. Na Extremadura foi também durante agosto que a relação entre abundância de abelharucos e menores recursos nas colónias se tornou mais evidente.[3]

Este calendário não é indiferente para uma colónia. Em muitas regiões da Península Ibérica, agosto coincide com temperaturas elevadas e menor disponibilidade floral, numa altura em que interessa manter entrada de pólen, conservar uma boa área de criação e preparar a população das semanas seguintes.

Não é necessário assumir que uma abelha comida em agosto vale mais do que uma abelha comida em maio. Basta admitir que uma redução importante do forrageio pode ocorrer numa altura em que a margem da colónia para compensar essa redução já é menor.

Talvez tenhamos estado a medir a parte mais fácil

Não pretendo concluir que os abelharucos sejam responsáveis por todos os efeitos que lhes são atribuídos pelos apicultores. Há situações em que a sua presença será pequena e o efeito também o será; e há apiários em que alimentação, calor, seca, varroose ou a própria evolução sazonal das colónias terão muito mais peso.

Também não devemos deixar de contabilizar as abelhas capturadas. São uma perda real. Mas os trabalhos dos últimos anos sugerem que o número de abelhas comidas é uma medida incompleta do impacto dos abelharucos sobre um apiário. Uma colónia pode substituir parte das operárias que desaparecem; não recupera da mesma forma o néctar, o pólen e a água que não entraram durante horas de atividade reduzida.

Talvez, portanto, a pergunta mais útil deixe de ser apenas «quantas abelhas come um abelharuco?» e passe também a ser «quantas horas de forrageio perde a colónia enquanto os abelharucos estão presentes?».

Porque talvez tenhamos passado demasiados anos a contar as abelhas que o abelharuco come e poucos a contar as que, por causa dele, deixam de sair.

Referências

[1] Farinós-Celdrán, P.; Zapata, V. M.; Martínez-López, V.; Robledano, F. (2016). Consumption of honey bees by Merops apiaster Linnaeus, 1758 (Aves: Meropidae) in Mediterranean semiarid landscapes: a threat to beekeeping? Journal of Apicultural Research, 55(2), 193–201. DOI: 10.1080/00218839.2016.1195630.

[2] Galeotti, P.; Inglisa, M. (2001). Estimating predation impact on honey bees Apis mellifera L. by European bee-eater Merops apiaster L. Revue d’Écologie (La Terre et la Vie), 56(4), 373–388. DOI: 10.3406/revec.2001.2373.

[3] Moreno-Opo, R.; Núñez, J. C.; Pina, M. (2018). European bee-eaters (Merops apiaster) and apiculture: understanding their interactions and the usefulness of nonlethal techniques to prevent damage at apiaries. European Journal of Wildlife Research, 64, 55. DOI: 10.1007/s10344-018-1215-9.

[4] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158. DOI: 10.1016/j.ecolind.2022.109158.

[5] Łangowska, A.; Yosef, R.; Skórka, P.; Tryjanowski, P. (2018). Mist-Netting of Migrating Bee-Eaters Positively Influences Honey Bee Colony Performance. Journal of Apicultural Science, 62(1), 67–78. DOI: 10.2478/jas-2018-0008.

[6] Gomes, J. E. Eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhasAbelhas à BeiraLer

[7] Gomes, J. E. Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira, 2026. Ler

visita técnica junto ao Sabor: duas colónias, dois percursos e aquilo que a varroa não mostra

No passado dia 9 de setembro, regressei a um pequeno apiário nas proximidades do rio Sabor. São apenas duas colmeias, mas isso não torna o acompanhamento menos interessante. Pelo contrário. Quando conhecemos o historial de cada colónia, regressamos ao mesmo apiário e vamos acumulando observações e números ao longo dos meses, duas colmeias podem contar uma história bastante completa.

A primeira colónia tem uma rainha do ano passado, que marquei na visita anterior, no início de abril. Encontrei-a agora muito bem povoada para esta altura do ano, com cerca de nove quadros ocupados por abelhas, cinco bons quadros com reservas e cinco quadros com criação. Observavam-se também sinais de armazenamento recente de pão de abelha.

Esta colónia produziu cerca de 25 kg de mel este ano.

No dia 2 de abril, a testagem indicou 1% de infestação. Aplicámos para exemplificar o Protocolo Inovador (PI). Passados mais de quatro meses, em 16 de agosto, o apicultor avaliou a taxa de infestação e encontrou 4,7% de varroas nas abelhas adultas. Introduzi estes valores no simulador do Randy Oliver e indica que este tratamento de abril teve uma eficácia de 96%. Nesse mesmo dia, a 16 de agosto, aplicou a primeira ronda do PI.

Realizou a segunda ronda em 2 de setembro. No dia 9 de setembro avaliámos a taxa de infestação e estava em 1%. Quando as duas rondas são consideradas em conjunto, o simulador de Randy Oliver estima uma eficácia global de 93%. 93%, numa altura do ano em que muitos tratamentos apresentam resultados bastante mais irregulares [3].

Como ali estávamos e queremos que esta colónia entre no período de criação das abelhas de inverno com a infestação tão baixa quanto possível, decidimos realizar uma terceira ronda do PI — cada ronda tem um custo próximo dos 10 cêntimos por colónia. Confiamos que a infestação possa ficar em valores não detetáveis na próxima amostragem. Mas isso é o que esperamos. Só as 300 abelhas testadas daqui a cerca de dez dias nos dirão onde realmente ficámos.

A segunda colónia seguiu outro caminho

A segunda colónia tem uma história diferente.

Quando a visitei em 2 de abril, já tinha enxameado e apresentava mestreiros de enxameação. Deixámos o processo seguir o seu curso. Nessa ocasião aplicámos também o PI, mas, ao contrário da primeira colónia, não voltou a receber qualquer tratamento desde então.

No dia 9 de setembro, cinco meses depois, a amostragem realizada durante esta visita revelou 20 varroas em 300 abelhas, ou seja, uma taxa de infestação de aproximadamente 6,7%.

Resultado da amostragem de 300 abelhas adultas da segunda colónia: 20 varroas, correspondentes a uma taxa de infestação de 6,7%. (foto do autor)

A utilização de amostras de aproximadamente 300 abelhas adultas para estimar a infestação por varroa é um procedimento há muito estabelecido e utilizado tanto em investigação como no acompanhamento das colónias no terreno [2]. É o procedimento que me dá mais garantias de reflectir mais aproximadamente a população global de varroas nas colónias — assunto para uma publicação futura.

Mas aquilo que tornou esta colónia particularmente interessante foi colocar esse 6,7% ao lado daquilo que os nossos olhos viam quando a abríamos.

Estava muito povoada, com aproximadamente nove quadros ocupados por abelhas. Tinha cinco bons quadros com reservas e cinco quadros com criação.

Durante o maneio, as abelhas acumularam-se desta forma sobre alguns dos quadros. Apesar dos 6,7% de infestação encontrados na amostragem, esta era uma colónia muito povoada para a época, ocupando cerca de nove quadros com abelhas. (foto do autor)

A criação apresentava um padrão bastante compacto e sólido e, de uma forma geral, as abelhas aparentavam estar saudáveis. Durante toda a inspeção encontrei apenas uma abelha com uma varroa visível sobre o dorso.

Um dos quadros de criação desta colónia. A criação apresentava um padrão globalmente compacto e as abelhas aparentavam estar saudáveis. Durante a observação encontrei apenas uma abelha com uma varroa visível sobre o dorso. (foto do autor)

Noutra fotografia percebe-se igualmente bem a população que esta colónia mantinha.

Vista da colónia durante a inspeção. A população distribuía-se por aproximadamente nove quadros, uma força bastante boa para esta altura do ano. (foto do autor)

Temos, portanto, diante de nós uma colónia com 6,7% de infestação, nove quadros de abelhas, boa criação, boas reservas e praticamente sem sinais de varroose que fossem evidentes a olho nu. É por esta “cegueira”, esta incapacidade de descortinar uma infestação demasiado alta, que continuo a medir.

Procurei depois a rainha, encontrei-a e marquei-a com a cor deste ano. É a rainha criada pela própria colónia depois da enxameação da primavera.

Marcação da rainha, nascida este ano na sequência da enxameação. Em 2 de abril a colónia tinha enxameado e apresentava mestreiros; em setembro encontrámos a nova rainha em postura e aproveitámos para a marcar. (foto do autor)

Esta colónia produziu cerca de 15 kg de mel este ano.

Aplicámos agora a primeira ronda do PI. A segunda ficará para aproximadamente 10 a 12 dias depois e, naturalmente, voltaremos também aqui a medir.

Velutina e crabro à frente das colmeias

Durante a visita havia ainda uma pressão moderada de Vespa velutina e Vespa crabro junto aos alvados.

Não estávamos perante uma situação de bloqueio das colónias, mas a presença das vespas era já suficientemente evidente para justificar alguma intervenção. Recomendei ao apicultor que reduzisse parcialmente os alvados, diminuindo a frente de entrada que as abelhas têm de vigiar e defender.

Para o caso de a pressão de Vespa velutina vir a aumentar, deixei-lhe também um pequeno manual, muito prático e prescritivo, que preparei com informação fundamentada para a produção de Cavalos de Tróia com elevado potencial de eficácia.

Vespa velutina junto ao alvado durante a visita. A pressão de velutina e também de Vespa crabro era moderada, mas já suficientemente evidente para aconselhar a redução parcial das entradas das colmeias. (foto do autor)

São apenas duas colmeias e muito mais

Há finalmente uma parte destas visitas que não cabe nas percentagens de infestação, no número de colónias, nos quadros de criação ou nos quilos de mel.

Mais uma vez fui recebido com enorme simpatia por este apicultor. E mais uma vez encontrei nele um enorme empenhamento em acompanhar as suas duas colónias e fazer o que estiver ao seu alcance para não perder nenhuma delas.

São apenas duas colmeias. Mas são as suas duas colmeias.

À sua volta conhece apicultores, com dezenas e centenas de colmeias, que têm passado por mortalidades elevadas, alguns repetidamente, com a frustração e o desânimo que isso acaba por trazer. Nalguns casos, esse percurso terminou mesmo com a desistência da apicultura.

Neste apiário ficaram, por agora, duas colónias fortes, muito povoadas, com reservas e criação, sobreviventes também porque o apicultor é atento. E ao apicultor ficam as competências para continuar a trilhar este caminho. Essas, ninguém lhas tira.

Referências — Abelhas à Beira

Gomes, J. E. (2025). A eficácia e consistência de um protocolo inovador de controlo da varroose (revisitado). Ler

Gomes, J. E. (2024). Na prática e no terreno: o controlo da varroose ao longo de mais de 8 meses. Ler

Gomes, J. E. (2026). Qual é o melhor tratamento contra a varroa? Ler

Referências — literatura científica e técnica

[1] Oliver, R. (2026). Randy’s Varroa Model. Scientific Beekeeping.

[2] Dietemann, V., Nazzi, F., Martin, S. J., Anderson, D. L., Locke, B., Delaplane, K. S. et al. (2013). Standard methods for varroa researchJournal of Apicultural Research, 52(1), 1–54. DOI: 10.3896/IBRA.1.52.1.09.

[3] Jack, C. J., Boncristiani, H., Prouty, C., Schmehl, D. R. & Ellis, J. D. (2024). Evaluating the seasonal efficacy of commonly used chemical treatments on Varroa destructor population resurgence in honey bee coloniesJournal of Insect Science, 24(3), 11. DOI: 10.1093/jisesa/ieae011.

a Vespa velutina é mais perigosa ? Talvez o veneno não seja a principal razão

Uma notícia recente da CNN Portugal sobre a Vespa velutina apresentava uma ideia que me chamou a atenção: a vespa asiática não seria necessariamente mais venenosa do que as outras vespas, mas teria características que a poderiam tornar mais perigosa.

Nota: não consegui aceder ao conteúdo integral da notícia da CNN Portugal, pelo que não pude ler o texto completo. A análise que se segue parte do título, da informação visível na publicação e dos comentários associados.

Nos comentários apareceram rapidamente outras explicações. Uma pessoa afirmava que estas vespas “têm sete vezes mais veneno”; outra dizia que cada uma teria uma quantidade de veneno equivalente a cinco ou seis vespas europeias, acrescentando ainda que uma mesma Vespa velutina pode ferroar várias vezes.

Vale a pena separar estas afirmações, porque algumas são verdadeiras, outras apenas parcialmente e outras não encontram, até onde consegui verificar, suporte na literatura científica.

Comecemos pelo veneno. Não encontrei qualquer evidência de que uma Vespa velutina tenha cinco, seis ou sete vezes mais veneno do que a nossa Vespa crabro, a vespa-europeia. Estudos recentes que analisaram os sacos de veneno das duas espécies encontraram nas obreiras aproximadamente 274 µg de proteína no extracto do saco de V. velutina e 189 µg em V. crabro.[1,2]

Também não sabemos com suficiente rigor quanto veneno injecta uma V. velutina quando ferroa. Curiosamente, sabemos mais sobre a abelha. Uma Apis mellifera pode administrar cerca de 70 µg nos primeiros segundos e ultrapassar os 100 µg quando o aparelho do ferrão permanece mais tempo na pele, podendo aproximar-se dos 140 µg.[3]

A composição dos venenos também não é igual. O veneno da abelha contém uma proporção muito elevada de melitina, um péptido fortemente associado à dor e à inflamação. O da V. velutina apresenta outra combinação de péptidos, enzimas e aminas biologicamente activas, entre as quais fosfolipase A1, antigénio 5, hialuronidases, mastoparanos e serotonina.[4,5] Não seria, por isso, estranho que duas pessoas descrevessem de forma diferente a dor de uma picada de abelha e de uma ferroada de velutina. Nos comentários à notícia, uma considerava a picada da abelha bastante mais dolorosa; outra dizia precisamente o contrário. Ambas podem estar apenas a descrever a sua experiência.

Mas dor, quantidade de veneno, toxicidade e perigosidade não são a mesma coisa.

Talvez o problema esteja sobretudo na frequência com que nos cruzamos com ela

Vespa velutina tornou-se extraordinariamente abundante em algumas regiões europeias e ocupa territórios onde existe uma forte sobreposição entre as pessoas e as suas colónias. Na Galiza foram comunicados mais de 154 mil ninhos entre 2012 e 2021, chegando a mais de 28 mil por ano em 2020 e 2021.[6]

E os ninhos não estão apenas no alto das árvores. No levantamento galego, 36% encontravam-se em edifícios ou outras estruturas humanas e 3% no solo. Surgiam em telhados, sótãos, paredes, chaminés, janelas, varandas, contentores, caixas de visita e muitas outras estruturas próximas das pessoas.[6]

Há ainda ninhos em vegetação baixa, sebes, silvados ou cavidades do solo. Podem representar uma parte relativamente pequena do total, mas têm uma característica importante: é possível aproximarmo-nos muito sem os detectar.

Imagine-se alguém a cortar silvas com uma roçadora, a aparar uma sebe, a limpar um terreno ou a trabalhar com uma máquina agrícola. Pode não saber que existe ali uma colónia até provocar vibrações ou atingir directamente o ninho. Nesse momento deixa de estar perante uma vespa que procura alimento e passa a estar muito próximo de uma colónia a defender-se.

Os ensaios de Moon Bo Choi ajudam a perceber essa diferença. A aproximação calma a um ninho originava uma resposta relativamente limitada. Movimentos bruscos aumentavam a reacção e, depois de uma perturbação directa do ninho, várias dezenas de obreiras podiam participar na defesa da colónia.[7]

Isto não significa que uma Vespa velutina isolada esteja permanentemente predisposta a atacar pessoas. Uma obreira que procura alimento e uma colónia perturbada são situações muito diferentes.

Há poucos dias tive um exemplo muito simples desta proximidade crescente. Estava a fazer uma refeição ao ar livre, a comer peixe, quando uma Vespa velutina se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim e da comida. Não aconteceu nada. O hábito de lidar com abelhas levou-me simplesmente a evitar movimentos bruscos e a afastar-me calmamente. O encontro terminou aí.

Outra pessoa, menos habituada à presença destes insectos, poderia ter tentado enxotá-la com as mãos ou dar-lhe uma pancada. Talvez também não acontecesse nada, mas aumentaria desnecessariamente a probabilidade de uma ferroada.

Estas situações são hoje seguramente frequentes em muitas regiões. Encontramos velutinas em fruta madura, perto de bebidas açucaradas, carne, peixe, jardins ou esplanadas. A maioria desses encontros não tem qualquer consequência. Mas quanto mais encontros houver, maior será também o número daqueles que acabam mal.

E provavelmente não é necessário que uma velutina seja individualmente muito mais perigosa do que uma vespa autóctone para que a espécie represente, no conjunto, um risco superior. Basta haver muito mais oportunidades de contacto entre pessoas e vespas.

O ninho muda completamente a situação

V. velutina pode ferroar repetidamente, ao contrário da operária da abelha-do-mel, cujo ferrão fica geralmente retido na pele dos mamíferos. Mas também aqui convém desfazer outro mito: esta característica não é exclusiva da vespa asiática. É comum às vespas e vespões.

O que torna algumas situações particularmente perigosas é a possibilidade de múltiplas ferroadas por vários indivíduos.

A literatura médica identifica precisamente as múltiplas ferroadas, as ferroadas nas mucosas e a alergia ao veneno como os principais perigos associados à V. velutina.[8] Uma pessoa sensibilizada pode sofrer uma reacção anafiláctica grave após uma única ferroada. Num indivíduo não alérgico, um número elevado de ferroadas pode representar uma carga de veneno suficiente para provocar envenenamento sistémico.

Por isso, um ninho escondido num silvado ou no solo, descoberto apenas quando passa uma roçadora, é uma situação bastante diferente da velutina que se aproximou do meu prato de peixe.

O risco existe, mas os dados não justificam alarmismo

Há ainda uma parte importante desta história.

Em Espanha foram analisadas as mortes oficialmente atribuídas a ferroadas de abelhas, vespas e vespões entre 1999 e 2023. Foram registadas 188 mortes. Apesar da enorme expansão da V. velutina, os investigadores não encontraram evidência de um aumento da mortalidade por himenópteros associado à sua invasão.[9]

Em França, um estudo publicado em 2026 analisou 6022 casos registados pelos centros antivenenos, 179 141 idas às urgências e 18 213 internamentos entre 2014 e 2023. Também aqui, apesar da expansão territorial da V. velutina, não se observou um aumento global das ferroadas de himenópteros. Nos casos graves, porém, a alergia estava presente em 89%, lembrando-nos onde continua a estar uma parte muito importante do risco.[8]

Em Portugal, entre 2018 e 2021, o Centro de Informação Antivenenos registou 152 ocorrências atribuídas à Vespa velutina. Representaram menos de 1% das consultas anuais ao CIAV e a maioria correspondeu a manifestações locais de baixa gravidade.[10]

Estes dados não tornam a espécie inofensiva. Mostram apenas que a sua enorme expansão não foi acompanhada, até agora, por um aumento equivalente da mortalidade ou dos casos graves.

Talvez seja esta a forma mais equilibrada de olhar para a perigosidade da Vespa velutina. Não há evidência de que possua cinco ou sete vezes mais veneno do que uma vespa-europeia, nem de que o seu veneno seja excepcionalmente mais tóxico. A sua capacidade de ferroar repetidamente também não é exclusiva.

O que mudou profundamente foi a probabilidade de encontro.

Em muitos territórios temos hoje uma vespa social de grande dimensão, muito abundante, capaz de defender colectivamente o ninho e que instala as suas colónias exactamente nos espaços onde vivemos, trabalhamos, cultivamos terrenos ou fazemos uma refeição ao ar livre.

A maioria desses encontros ficará por aí. Outros envolverão uma pessoa alérgica, um movimento menos feliz ou, no pior cenário, um ninho que ninguém sabia estar a poucos metros.

É provavelmente por aqui, muito mais do que pelos supostos “sete vezes mais veneno”, que deve começar uma discussão séria sobre a perigosidade da Vespa velutina.

Referências e literatura consultada

  1. Alonso-Sampedro, M. et al. (2023). Proteomics of Vespa velutina nigrithorax Venom Sac Queens and Workers: A Quantitative SWATH-MS AnalysisToxins, 15, 266. 
  2. Alonso-Sampedro, M. et al. (2024). Peeking into the Stingers: A Comprehensive SWATH-MS Study of the European Hornet Vespa crabro Venom Sac ExtractsInternational Journal of Molecular Sciences, 25, 3798. 
  3. Schumacher, M.J., Tveten, M.S. & Egen, N.B. (1994). Rate and quantity of delivery of venom from honeybee stingsJournal of Allergy and Clinical Immunology, 93, 831–835. 
  4. Monsalve, R.I. et al. (2020). Purification and molecular characterization of phospholipase, antigen 5 and hyaluronidases from the venom of the Asian hornet (Vespa velutina). PLoS ONE, 15, e0225672. 
  5. Meng, Y.C. et al. (2021). New bioactive peptides from the venom gland of a social hornet Vespa velutinaToxicon, 199, 94–100. 
  6. Diéguez-Antón, A. et al. (2022). Embryo, Relocation and Secondary Nests of the Invasive Species Vespa velutina in Galicia (NW Spain). Animals, 12, 2781. 
  7. Choi, M.B. (2021). Defensive behavior of the invasive alien hornet Vespa velutina nigrithorax against potential human aggressorsEntomological Research, 51, 186–195. 
  8. Sinno-Tellier, S. et al. (2026). Public health impact of envenomation by Vespa velutina nigrithorax and other Hymenoptera in France: A multisource studyJournal of Allergy and Hypersensitivity Diseases, 9, 100062. 
  9. Herrera, C. & Leza, M. (2026). No evidence of increased mortality associated with Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) spread in SpainJournal of Medical Entomology, 63(2), tjag039. 
  10. INIAV (2022). A vespa-asiática — Vespa velutina nigrithorax. Dados do Centro de Informação Antivenenos relativos a 2018–2021.

resistência ao amitraz: uma mutação não chega para contar toda a história

Quero começar por agradecer ao Nuno Capela o envio da apresentação que está na origem desta publicação e aos seus autores a autorização para me referir a ela. Trata-se de um trabalho de Maira Costa, Antonio Pérez-Pérez, Carlos A. Yadro Garcia, Ana R. Lopes, Raquel Martín-Hernández, Maria Alice Pinto, Mariano Higes e Dora Henriques, apresentado no EurBee 11, em Bolonha. O título é longo, mas a pergunta é muito simples: o que aconteceu, ao longo dos anos, às varroas de Portugal e Espanha quando olhamos para genes associados à resistência aos acaricidas?

É uma pergunta que merece atenção porque a varroa não responde hoje aos tratamentos como uma população única e igual em todos os apiários. Há apiários onde um medicamento continua a baixar muito bem a infestação; noutros, o resultado é menos seguro. Parte dessa diferença pode estar na época, na criação existente, na reinfestação, no modo de aplicação ou no próprio medicamento. Parte pode estar nas varroas. E é aqui que a genética começa a entrar na conversa.

Em 2016 escrevi que o Apivar era provavelmente o melhor acaricida entre os então homologados em Portugal [1]. Era a conclusão prática a que chegara depois de ponderar eficácia, facilidade de aplicação, resíduos, segurança para o aplicador e impacto na colónia. Mas já então via um limite na lentidão com que o amitraz é libertado pelas tiras: quando a infestação está muito adiantada, esperar que um tratamento de acção lenta recupere uma colónia pode ser pedir-lhe mais do que consegue dar.

Cinco anos mais tarde, em «Apivar, provavelmente o pior acaricida» [2], o título era deliberadamente provocatório. Não achava que o Apivar fosse de facto o pior medicamento disponível. Achava apenas que tinha deixado de ser tão bom como fora anteriormente nos apiários que acompanhava. Essa diferença levou-me a alterar a estratégia, a introduzir tratamentos intermédios e, em 2022, a mudar para o Amicel, mantendo o mesmo princípio activo mas mudando a galénica: das tiras de plástico para as tiras de cartão [3,4].

Não atribuí então aquelas observações a uma causa única. A menor eficácia aparente pode resultar de muita coisa: criação presente, infestação inicial elevada, chegada de varroas de colónias vizinhas, momento do tratamento, transferência do produto pelas abelhas ou uma população de varroas menos sensível. A ciência entretanto avançou bastante. E não simplificou a questão e muito menos a resposta.

Uma história com várias peças

Quando um tratamento com amitraz começa a falhar, a explicação pode não estar toda no mesmo sítio. Pode haver varroas que mudaram o local onde o produto actua; outras podem conseguir eliminá-lo mais depressa; e pode ainda haver diferenças na quantidade de produto que realmente chega ao ácaro. Por isso, procurar uma mutação é útil, mas não é o mesmo que encontrar uma explicação completa.

Uma das alterações mais estudadas chama-se F290L. O nome parece complicado, mas descreve apenas uma pequena mudança numa proteína da varroa. O amitraz actua, entre outros locais, num recetor do sistema nervoso chamado Octβ2R. Podemos imaginá-lo como uma fechadura. Na posição 290 dessa proteína, a peça habitual, identificada pela letra F, é substituída por outra, identificada por L. Se essa mudança alterar a forma da fechadura, o amitraz pode deixar de actuar com a mesma eficácia.

Em 2024, Hernández-Rodríguez e colaboradores acompanharam, durante dois anos, colónias experimentais sujeitas a tratamentos repetidos [5]. Nas colónias tratadas com amitraz, a variante L290 tornou-se mais frequente. Além disso, as varroas com maior presença desta variante demoraram mais a morrer quando expostas ao amitraz. É um resultado relevante porque aproxima três coisas: o uso repetido do tratamento, a alteração genética e uma menor suscetibilidade das varroas.

Dois anos depois, Pérez-Pérez e colaboradores encontraram uma situação diferente, mas que não contradiz necessariamente a primeira [6]. Analisaram 83 varroas de 14 apiários do centro de Espanha, alguns tratados com amitraz e outros com ácido oxálico. F290L apareceu em 89% das varroas, muitas delas com a alteração nas duas cópias do gene. Não encontraram diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos de apiários.

A leitura mais simples é esta: naquele território, F290L já está muito espalhada. Quando uma variante se torna tão comum, a sua presença deixa de bastar para antecipar, por si só, se o amitraz irá funcionar bem numa determinada colónia. Pode ser um sinal relevante, mas não substitui o teste que verdadeiramente interessa ao apicultor: medir a infestação antes e depois do tratamento.

A apresentação que Nuno Capela me enviou acrescenta uma peça importante. Os autores compararam 267 varroas de Portugal e Espanha, incluindo amostras antigas, recolhidas entre 2006 e 2010, e amostras recentes, de 2019 a 2025. Nas amostras antigas não encontraram mutações associadas à resistência ao amitraz; nas recentes, a mutação F290L apareceu em 85% das varroas. A comparação sugere, portanto, que esta variante se tornou comum mais tarde nas populações ibéricas.

Não é ainda uma conclusão definitiva. Trata-se de uma apresentação de congresso e não demonstra que o amitraz tenha sido a única força a seleccionar F290L. Mas ajuda a perceber duas coisas: a mutação merece atenção e, ao mesmo tempo, não deve ser transformada numa explicação única para todas as falhas de tratamento.

Quando a varroa não muda apenas a fechadura

Se F290L não explica tudo, onde devemos procurar o resto da explicação? Um estudo publicado em 2025 por Mavridis e colaboradores ajuda a responder [7]. Os autores trabalharam com uma população de varroas resistente tanto ao amitraz como à flumetrina. Nos ensaios, apenas 35% das varroas morreram com amitraz, enquanto nas populações suscetíveis usadas para comparação a mortalidade ultrapassou 90%. Apesar disso, F290L apareceu apenas em 8,6% das varroas resistentes.

Os investigadores encontraram nessa população uma enzima mais activa, chamada CYP3002B2. Depois produziram essa enzima em laboratório e demonstraram que ela consegue transformar o amitraz e a flumetrina em compostos menos activos. É uma forma de desintoxicação: em vez de apenas mudar a fechadura onde o produto actua, a varroa pode desfazer parte do produto antes de este produzir o efeito esperado.

Em 2026, dois trabalhos norte-americanos acrescentaram outra defesa. As varroas têm transportadores da família ABC, pequenas bombas que ajudam a retirar substâncias das células. Fine e colaboradores [8] verificaram que, ao bloquear farmacologicamente estes transportadores, o amitraz se tornava mais tóxico para varroas resistentes — aspecto referido pelo Frederico Passas na conversa que tivemos no black.bee talks https://open.spotify.com/show/1pQeYpBGDf1NDoB2d4aB1H. Ricigliano e colaboradores obtiveram resultado convergente reduzindo, por RNAi, a expressão de transportadores ABCB1-like [9]. A imagem mais simples é esta: depois de o amitraz entrar, a varroa pode tentar expulsar uma parte antes de ele fazer estragos.

Há ainda um terceiro caminho possível. Na população resistente estudada por Mavridis e colaboradores, vários genes ligados à cutícula estavam mais activos. A cutícula é a camada exterior dura da varroa. Uma alteração nessa barreira pode fazer com que um acaricida de contacto entre mais devagar ou em menor quantidade. Esta parte ainda é hipótese: o estudo encontrou o sinal nos genes, mas não mediu directamente a passagem de amitraz através da cutícula. Ao contrário da enzima CYP3002B2 e dos transportadores ABC, falta aqui a demonstração funcional.

Quando juntamos estas peças, a resistência deixa de parecer uma questão de tudo ou nada. Uma varroa pode ter uma alteração no recetor, pode transformar parte do amitraz, pode expulsar uma parte do que entrou na célula e talvez possa também dificultar essa entrada. Nenhum destes mecanismos precisa de estar presente da mesma forma em todas as populações. É por isso que dois apiários tratados com o mesmo princípio activo podem não responder da mesma maneira.

O que esta história pede ao apicultor

É tentador olhar para uma mutação como F290L e procurar uma resposta rápida: está presente, o amitraz falha; está ausente, o amitraz funciona. A investigação ainda não permite essa simplificação. A mutação fornece uma pista importante, sobretudo quando se conhece a população onde foi estudada. Mas uma pista genética não substitui saber o que aconteceu à infestação depois do tratamento.

Também não basta mudar de princípio activo e presumir que o problema ficou resolvido. A variedade de mecanismos que começa agora a aparecer reforça uma prática que deveria acompanhar qualquer estratégia de controlo: medir antes de tratar, aplicar o medicamento de acordo com o seu rótulo e voltar a medir depois — aspecto referido por mim na conversa que tive com o Frederico no black.bee talks https://open.spotify.com/show/1pQeYpBGDf1NDoB2d4aB1H#login. É a segunda medição que nos diz se a infestação baixou realmente e se a colónia ficou numa situação mais segura.

No apiário, isto exige um método comparável de monitorização, uma amostra com dimensão conhecida e o registo do resultado. Sem isso, uma boa queda de varroas no estrado pode dar uma impressão reconfortante sem responder à pergunta principal: quantas varroas ficaram? Perante uma resistência que pode ter mais do que um mecanismo, a monitorização pós-tratamento deixa de ser apenas uma boa prática. É a forma de saber se o tratamento com amitraz — ou com outro princípio activo — resultou de facto naquela colónia.

O amitraz não se tornou subitamente inútil. Continua a ser uma ferramenta importante, mas já não pode ser tratado como uma resposta garantida. O caminho mais prudente não é abandonar a ferramenta por antecipação, nem confiar nela por hábito. É olhar para a colónia, medir a varroa e deixar que o resultado do tratamento tenha a última palavra.

Referências do blogue

  1. Gomes, J. E. (2016). Apivar, provavelmente o melhor acaricida. Abelhas à Beira. Ler
  2. Gomes, J. E. (2021). Apivar, provavelmente o pior acaricida. Abelhas à Beira. Ler
  3. Gomes, J. E. (2022). Estudo de sensibilidade/resistência de Varroa destructor ao amitraz. Abelhas à Beira. Ler
  4. Gomes, J. E. (2022). Amicel: uma galénica diferente para veicular o amitraz. Abelhas à Beira. Ler

Artigos e estudos

  1. Hernández-Rodríguez, C. S., Moreno-Martí, S., Emilova-Kirilova, K. & González-Cabrera, J. (2025). A new mutation in the octopamine receptor associated with amitraz resistance in Varroa destructor. Pest Management Science, 81, 308–315. DOI: 10.1002/ps.8434.
  2. Pérez-Pérez, A., Bartolomé, C., Sagastume, S., Meana, A., Martín-Hernández, R., Maside, X. & Higes, M. (2026). Short communication: Amitraz treatments do not increase the frequency of mutations in the β2-adrenergic octopamine receptor in Varroa destructor: a field study in Central Spain. Research in Veterinary Science, 203, 106101. DOI: 10.1016/j.rvsc.2026.106101.
  3. Mavridis, K. et al. (2025). Identification and functional characterization of CYP3002B2, a cytochrome P450 associated with amitraz and flumethrin resistance in the major bee parasite Varroa destructor. Pesticide Biochemistry and Physiology, 210, 106364. DOI: 10.1016/j.pestbp.2025.106364.
  4. Fine, J. D. et al. (2026). Amitraz toxicity in resistant Varroa mites can be increased by inhibiting ABC efflux transporters. Journal of Apicultural Research, 65, 385–396. DOI: 10.1080/00218839.2026.2620209.
  5. Ricigliano, V. A. et al. (2026). RNAi targeting ABCB1-like efflux transporters improves miticide efficacy in resistant Varroa mites. Parasites & Vectors, 19, 280. DOI: 10.1186/s13071-026-07461-7.

Apresentação referida

Costa, M. et al. (2026). Temporal shifts in acaricide receptor gene mutations in Varroa destructor from Portugal and Spain. Comunicação apresentada no EurBee 11, Bolonha. Dados cedidos pelos autores para referência nesta publicação.

cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença

Já tenho escrito algumas vezes sobre os chamados Cavalos de Tróia no controlo da Vespa velutina. Uma das questões que esta técnica coloca no terreno é bastante simples: quando devemos começar?

Ninho de Vespa velutina (foto de Décio Dias)

Em julho ainda pode haver poucas velutinas à frente das colmeias. Capturá-las uma a uma dá trabalho e facilmente surge a tentação de esperar por agosto ou setembro, quando a pressão aumenta e conseguir dezenas de indivíduos num apiário pode tornar-se relativamente fácil.

Um trabalho realizado nas Astúrias em 2023 ajuda a olhar para esta questão de outra maneira.

Nesse ano, a SERPA, no âmbito do programa de controlo da Vespa velutina do Principado das Astúrias, acompanhou uma experiência de campo baseada na captura de obreiras, tratamento individual e posterior libertação, procurando que regressassem aos respectivos ninhos transportando o insecticida [1].

Foram estabelecidos 33 pontos de emissão e tratados e libertados 5.547 exemplares de Vespa velutina. O trabalho decorreu durante vários meses e, para avaliar os resultados, comparou-se a incidência de ninhos em 2022 e 2023 em círculos sucessivos em redor dos locais de libertação: 0–500 m, 500–1.000 m, 1.000–1.500 m e 1.500–2.000 m [1].

O primeiro resultado é bastante expressivo.

Nos primeiros 500 metros, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5%. Entre 500 e 1.000 metros a redução foi de 50,6%; entre 1.000 e 1.500 metros, de 27,8%; e entre 1.500 e 2.000 metros ficou pelos 4,2%.

No conjunto das Astúrias, nesse mesmo período, a redução do número de ninhos foi de apenas 3,2% [1].

Há portanto um gradiente muito claro: a redução foi máxima junto dos pontos onde os Cavalos de Tróia eram libertados e foi diminuindo à medida que aumentava a distância.

Mas, quando os autores olharam individualmente para os diferentes locais, encontraram resultados muito diferentes. E uma das variáveis que lhes chamou a atenção foi a data em que se tinha começado a trabalhar.

Separaram então os pontos onde os envios começaram antes e depois de 15 de agosto. A diferença foi suficientemente marcada para ser destacada no próprio relatório: começar mais cedo esteve associado a uma redução substancialmente maior da incidência de ninhos, particularmente nos primeiros 500 metros [1].

Os dados individuais permitem olhar ainda melhor para esta questão.

Dos 33 pontos, 14 começaram a trabalhar em julho. Comparando 2022 com 2023, nos primeiros 500 metros em redor desses locais contabilizaram-se, no conjunto, menos 37 ninhos.

Nos oito locais que só começaram em setembro ou posteriormente, o resultado foi praticamente o oposto: no conjunto havia mais 1 ninho.

Naturalmente, há aqui uma questão que precisava de ser verificada. Quem começou em julho teve muito mais semanas disponíveis e acabou também por libertar mais Cavalos de Tróia. Seria possível que o resultado se devesse simplesmente a isso.

Por essa razão, trabalhei estatisticamente os dados dos 33 pontos, cruzando data de início, número total de Cavalos de Tróia libertados e evolução do número de ninhos. A relação entre começar mais cedo e uma maior redução de ninhos mantém-se estatisticamente significativa mesmo quando se considera o número de Cavalos de Tróia enviados. Pelo contrário, o número total de indivíduos enviados, por si só, não apresentou uma relação estatisticamente significativa com a redução dos ninhos.

Não estamos perante uma experiência controlada que permita concluir que começar em julho foi a causa da redução observada. Há demasiadas variáveis no terreno para dar esse salto. Mas os resultados reforçam uma ideia que os próprios autores colocaram no relatório: o timing pode ser determinante.

E a explicação que propõem faz sentido biologicamente.

À medida que o verão avança, a população dos ninhos aumenta. Os autores consideram que a eficácia da técnica deverá diminuir à medida que o ninho cresce, porque diminui a proporção entre o número de velutinas tratadas que regressam ao ninho e a população total que se pretende atingir [1].

Para quem trabalha também com a Varroa, este princípio não é inteiramente estranho. O timing de um tratamento conta. Tratar uma colónia quando a população de ácaros ainda é relativamente baixa não é a mesma coisa que esperar que essa população tenha crescido várias vezes para depois tentar recuperar o controlo. Não porque Varroa e Vespa velutina sejam problemas biologicamente comparáveis, mas porque em ambos os casos existe uma ideia prática que vale a pena reter: é geralmente mais fácil controlar uma população enquanto ela ainda é pequena do que depois de a deixar crescer.

Em julho há menos velutinas à frente das colmeias e é mais difícil capturá-las. Mas os ninhos que pretendemos atingir são também muito menos populosos. Em setembro é muito mais fácil conseguir dezenas de velutinas num apiário, mas entretanto estamos a tentar atingir ninhos muito maiores.

Há ainda o factor tempo. O relatório observou que, após as libertações, a diminuição da pressão de velutinas nos apiários e o aumento da actividade das abelhas podiam começar a inverter-se ao fim de 10 a 15 dias [1]. Isto sugere que não devemos olhar para os Cavalos de Tróia como uma intervenção única, mas como um trabalho que pode necessitar de ser repetido. Começar cedo dá-nos também essa margem.

Os autores chegam a admitir que, no outono, a técnica poderá continuar a ter interesse para diminuir a pressão de Vespa velutina nos apiários, mas já sem a mesma expectativa de conseguir neutralizar os ninhos [1].

Não retiraria deste estudo uma regra dizendo que é obrigatório começar em julho. Os próprios dados não permitem chegar tão longe e o momento de desenvolvimento dos ninhos não será exactamente igual nas Astúrias, no Minho, na Beira Litoral ou noutras regiões.

Mas retiraria uma orientação prática que me parece importante: não esperaria que houvesse muitas velutinas à frente das colmeias para começar a fazer Cavalos de Tróia.

Pode parecer paradoxal, mas as poucas velutinas que conseguimos capturar em julho poderão valer mais, para chegar aos ninhos, do que as muitas que conseguimos capturar facilmente em setembro.

Referências — literatura científica e técnica

SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias. (2023). Evaluación de la técnica de neutralización remota de nidos de avispa asiática mediante envío de ejemplares impregnados con insecticida. Año 2023. Versión 1.1. Principado de Asturias. 

o mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida

Há poucos dias, um apicultor amigo e cliente dos meus serviços técnicos telefonou-me profundamente preocupado com a pressão da Vespa velutina no seu apiário. Conheço-lhe a dedicação às abelhas e percebi que a situação estava a ultrapassar aquilo que conseguia suportar. Conversámos sobre as possibilidades de intervenção e partilhei com ele informação técnica que tenho vindo a reunir sobre os chamados cavalos de Tróia cuticulares, uma abordagem cujo fundamento exige mais pesquisa do que aquela que habitualmente cabe nas conversas entre apicultores.

Dois dias depois voltou a telefonar. Depois de seguir as indicações que lhe tinha transmitido, praticamente deixara de observar velutinas no apiário e as abelhas tinham retomado os voos de forrageio. A mudança era muito expressiva para quem, pouco antes, via as suas colónias sob aquela pressão. Este relato documenta uma melhoria local; o destino dos ninhos envolvidos não foi acompanhado. Mas o alívio que descreveu, e sobretudo o regresso das abelhas ao trabalho, merecem atenção.

Há aqui uma aparente contradição que prefiro enfrentar directamente. Sim, estamos a falar do mesmo fipronil cuja utilização nas culturas agrícolas quisemos ver proibida para proteger as abelhas. Compreendo, por isso, a objecção de quem estranha que um apicultor admita agora discutir a sua utilização contra a velutina. Também considero que essa discussão fica incompleta quando o nome da substância dispensa qualquer consideração sobre as quantidades e as condições em que é utilizada.

As restrições europeias tiveram fundamento. Em 2013, a avaliação da EFSA identificou um risco agudo elevado para as abelhas associado às poeiras provenientes da sementeira de milho tratado com fipronil, além de lacunas relevantes noutras vias de exposição. O Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013 restringiu as utilizações e proibiu a utilização e a venda de determinadas sementes tratadas, com excepções expressamente previstas. Convém preservar esta precisão quando falamos da «proibição do fipronil». [1, 2]

A diferença de escala merece, contudo, entrar na conversa. A documentação da EFSA inclui ensaios em milho com aproximadamente 50 g de fipronil por hectare. No cenário teórico de consumo nominal que aqui considero, a intervenção sobre 140 mil ninhos corresponderia a 280 g, aproximadamente a quantidade associada a 5,6 hectares naquele referencial agrícola. São contas assentes em pressupostos de consumo e eficácia ainda por validar no terreno, mas a desproporção das quantidades é clara. [2]

Este cenário resulta de uma consulta intensiva de literatura europeia e asiática, cruzando trabalhos realizados em diferentes países e condições experimentais, com quantidades nominais explicitadas que permitem construir uma comparação fundamentada. O propósito foi aproximar uma faixa mínima de concentração que mereça investigação, e eventual utilização com expectativa alta de eficácia e fundamentada na literatura. Os fundamentos e os pressupostos que sustentam estas contas poderão ser apresentados, com maior detalhe, noutros contextos de discussão técnica; nesta publicação, interessa sobretudo tornar compreensível a diferença de escala entre as utilizações em análise.

Um raciocínio semelhante aparece num estudo de Paula Malaquias Souto, Soraia Sousa Santos, Nuno Capela e colaboradores. A equipa comparou teoricamente a quantidade de acetamiprido necessária para atingir 140 mil ninhos com a utilização agrícola, chegando a um total próximo de 100 g, da ordem do aplicado num hectare. O trabalho estudou outros insecticidas e não valida o fipronil nem o seu uso cuticular. Ainda assim, mostra que comparar estas escalas tem lugar na discussão científica. Os 140 mil ninhos referidos pelos autores são um total histórico acumulado até 2023, não uma contagem de ninhos activos num único ano. [3]

É neste sentido que considero a contradição mais aparente do que real. Ter defendido restrições a uma utilização agrícola com exposição das abelhas é compatível com querer estudar uma intervenção dirigida a um invasor, envolvendo quantidades globais muito diferentes. A coerência está no objectivo de proteger as abelhas e o funcionamento dos ecossistemas, acompanhando aquilo que sabemos sobre cada utilização.

Naturalmente, uma quantidade pequena de um insecticida muito tóxico pode continuar a causar danos. A comparação em gramas esclarece a escala do consumo; o impacto depende também de onde fica a substância, da sua persistência e dos organismos que lhe ficam expostos. É precisamente por isso que me parecem insuficientes tanto a rejeição automática como a garantia de inocuidade. Interessa conhecer o resultado ambiental concreto de uma intervenção eficaz e compará-lo com o que acontece quando a pressão da velutina se mantém.

Essa outra dimensão também tem números. Rome e colaboradores estimaram que uma colónia de Vespa velutina, ao longo do seu ciclo, necessita de cerca de 97 mil presas equivalentes a abelhas, correspondentes a aproximadamente 11,32 kg de insectos. Trata-se de uma estimativa construída a partir das necessidades alimentares e do desenvolvimento colonial. Se 140 mil colónias completassem um ciclo comparável, a extrapolação aproximar-se-ia de 1 585 toneladas de insectos. A predação correspondente às cerca de 1 600 toneladas de insectos estimadas neste cenário merece também ser considerada nas suas consequências para a rede alimentar: parte dessas presas deixa de estar disponível para aves, aranhas e outros predadores nativos. [4]

No apiário, o prejuízo também passa pelas abelhas que deixam de sair. Foi essa mudança que o meu amigo descreveu no segundo telefonema: voltou a vê-las trabalhar. A redução do forrageio, a dificuldade em manter a entrada de alimento e o definhamento das colónias fazem parte do problema que o apicultor enfrenta. E a discussão interessa igualmente a quem depende da polinização, a quem trabalha nos pomares e lida com vespas nos frutos e durante a colheita, ou a quem encontra um ninho perto de casa.

Gostaria, por isso, que voltássemos a olhar para esta questão com sensibilidade para as duas escalas e para os dois lados do impacto. Que consequências teria para o ecossistema uma utilização dirigida de quantidades tão reduzidas de fipronil, caso se confirmasse a sua eficácia? E que consequências tem a permanência de uma população de velutinas desta dimensão para os insectos, para a apicultura e para as restantes actividades afectadas? O telefonema daquele apicultor não resolve estas perguntas. Dá-me, porém, uma razão concreta para desejar que sejam discutidas sem respostas demasiado fáceis.

Documentos oficiais e estudos

  1. Comissão Europeia (2013). Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013, de 14 de Agosto de 2013, relativo às condições de aprovação do fipronil e à proibição da utilização e venda de sementes tratadas com produtos fitofarmacêuticos que contenham esta substância activa. Jornal Oficial da União Europeia, L 219, 22–25.
  2. EFSA (2013). Conclusion on the peer review of the pesticide risk assessment for bees for the active substance fipronilEFSA Journal, 11(5), 3158. DOI: 10.2903/j.efsa.2013.3158.
  3. Souto, P. M., Santos, S. S., Sarmento, A., Ronsani, A. L., Tomaz, A. L., Azevedo-Pereira, H. M. V. S., Leston, S., Ramos, F., Sousa, J. P., & Capela, N. (2025). Assessing the oral toxicity of acetamiprid, spinosad, cypermethrin, and pyrethrins in the invasive hornet Vespa velutina nigrithoraxScientific Reports, 15, 45112. DOI: 10.1038/s41598-025-31988-x.
  4. Rome, Q., Perrard, A., Muller, F., Fontaine, C., Quilès, A., Zuccon, D., & Villemant, C. (2021). Not just honeybees: predatory habits of Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) in FranceAnnales de la Société entomologique de France, 57(1), 1–11. DOI: 10.1080/00379271.2020.1867005.

quadros iscados: porque deixei de os recomendar

A minha experiência com quadros iscados terá ocorrido por volta de 2012–2013. Foi também por essa altura que comecei a ler sobre as vantagens que lhes eram atribuídas e sobre os problemas que poderiam colocar. Chamava quadros iscados aos quadros onde, em vez de colocar uma lâmina completa de cera estampada, colocava apenas uma pequena tira de cera junto à travessa superior, deixando às abelhas a construção do restante favo. Experimentei-os em pouco mais de uma dezena de colónias. A experiência não se prolongou: aquilo que observei levou-me logo depois a deixar de utilizar esta técnica.

Exemplo de um quadro iscado

Só bastante mais tarde, em 21 de janeiro de 2019, escrevi sobre o assunto neste blogue, em «Quadros iscados: vantagens e desvantagens» [1]. Nessa altura já não os utilizava. A publicação recuperava a experiência feita cerca de seis anos antes e as leituras que tinha iniciado nesse período e continuado entretanto. Havia boas razões para experimentar: utilizar menos cera laminada, introduzir menos resíduos eventualmente presentes nessa cera, permitir às abelhas escolherem a dimensão dos alvéolos e deixá-las construir um favo mais próximo daquele que fariam sem a matriz imposta pelo apicultor.

Abelhas livres para construirem o favo

O que encontrei nas colónias foi outra coisa que também fazia parte dessa liberdade. Quando introduzia quadros iscados em colónias fortes, sobretudo durante a época em que estavam fisiologicamente orientadas para a reprodução, uma parte muito importante do novo favo era construída com alvéolos de zângão. Na publicação de 2019 referi situações em que estes representavam 25 a 50% da nova construção [1]. Foi sobretudo esse resultado que me levou a abandonar a prática logo depois daquela experiência em cerca de dez colónias.

Hoje consigo olhar para essas observações com bastante mais informação. Dez colónias, num determinado território e sob o mesmo maneio, não constituem um ensaio científico. O que me parece mais interessante, mais de uma década depois, é verificar até que ponto aquilo que observei localmente aparece também quando o problema é estudado experimentalmente.

No projecto Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control, as colónias que construíram sem a matriz imposta pela fundação apresentaram 33 ± 3,5% de favo de zângão [2]. O resultado aproxima-se bastante daquilo que eu próprio tinha encontrado nos quadros iscados. Seeley e Morse encontraram nos ninhos naturais cerca de 17 ± 3% da área de favo constituída por alvéolos de zângão [3]. Os trabalhos clássicos de Allen mostram, por outro lado, que a quantidade de criação de zângão é fortemente influenciada pela disponibilidade de favo apropriado [4]. Randy Oliver, apoiando-se no trabalho de Allen, utiliza cerca de 5% da área de criação como valor habitual de referência, referindo que, quando existe abundância de favo de zângão, esta componente pode aproximar-se dos 20% [5]. Os estudos não medem exactamente a mesma variável — nuns casos área de favo, noutros área de criação —, mas em todos aparece a mesma tendência: quando se dá liberdade de construção às abelhas aumenta a componente destinada aos zângãos.

Produzir zângãos faz parte da estratégia reprodutiva de uma colónia. Allen e posteriormente Free e Free & Williams mostraram ainda que essa produção é regulada pela quantidade de favo de zângão que já existe no ninho [4,6,7]. Quando a colónia dispõe de favo deste tipo, diminui a construção adicional de alvéolos de zângão noutros locais. A época, a força da colónia e a disponibilidade prévia de favo adequado entram nesta regulação. Aquilo que eu via nos quadros iscados durante a época reprodutiva era, afinal, uma manifestação bastante previsível dessa biologia.

Há um custo produtivo associado. Produzir e manter milhares de zângãos exige recursos. Seeley comparou durante três anos colónias às quais disponibilizou aproximadamente 20% de favo de zângão com colónias onde essa disponibilidade era muito menor. As primeiras aumentaram em média 25,2 kg de peso durante a estação, enquanto as segundas aumentaram 48,8 kg [8]. Não transformaria estes números numa regra de conversão entre quantidade de zângãos e quilogramas de mel, mas a diferença encontrada por Seeley é demasiado grande para ignorar o investimento que a produção de machos representa para a colónia.

Há depois a Varroa. A criação de zângão constitui o substrato reprodutivo preferencial de Varroa destructor. O período de desenvolvimento mais longo permite ao ácaro produzir mais descendentes viáveis e esta criação é desproporcionalmente infestada quando está disponível. Se os quadros iscados aumentam a quantidade de favo e de criação de zângão, aumentam também a disponibilidade do substrato onde a Varroa consegue reproduzir-se mais eficazmente.

Randy Oliver permite visualizar a dimensão deste efeito no seu simulador de dinâmica populacional da Varroa. Utilizando cerca de 5% de criação de zângão como situação de referência, quando aumenta esse valor para 10% a população de ácaros cresce apreciavelmente mais depressa [5]. Os 10% são um cenário introduzido na simulação, e não uma média medida nas colónias. A diferença entre as duas curvas ao longo da estação ajuda a perceber por que razão passei a olhar de outra forma para a quantidade de criação de zângão que encontrava nos quadros iscados.

Mas havia vantagens que me tinham levado a experimentar esta técnica e vale a pena regressar a elas. Uma das que mais me interessava era reduzir a quantidade de cera laminada introduzida na colmeia. A preocupação com a qualidade dessa cera não era infundada. Em 2016 comecei a escrever neste blogue sobre resíduos de acaricidas em «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas» [9] e «Mudança do princípio activo do acaricida» [10], regressando posteriormente várias vezes ao assunto. A cera funciona como reservatório de diversos compostos lipossolúveis utilizados dentro e fora da colmeia e a sua reciclagem permite que alguns regressem às colónias através das novas lâminas. Se em vez de uma lâmina completa utilizarmos apenas uma pequena tira, introduzimos obviamente muito menos dessa cera.

A questão mais difícil é saber o que isso representa para a colónia. Um trabalho de Payne e colaboradores, publicado em 2019 e que apresentei neste blogue em julho de 2023 [11], permite colocar o problema num terreno experimental particularmente útil. Os autores constituíram colónias sobre cera laminada sem pesticidas ou sobre cera contaminada, em concentrações consideradas representativas das encontradas no campo, com amitraz, com uma mistura de tau-fluvalinato e cumafos, ou com clorotalonil e clorpirifos. Acompanharam a construção dos favos, a quantidade de criação, as reservas alimentares, a população adulta e a sobrevivência durante o inverno. Não encontraram diferenças significativas no crescimento das colónias nem na sobrevivência invernal entre os diferentes tratamentos com cera contaminada e o controlo [12]. Encontraram, pelo contrário, uma associação particularmente importante com a Varroa: as colónias que entraram no outono com uma infestação superior a 3% apresentaram menor probabilidade de sobreviver ao inverno [12].

O estudo de Payne não resolve a questão das exposições crónicas, das concentrações mais elevadas ou das misturas complexas que podem resultar de sucessivos ciclos de reciclagem da cera. Mas, nas condições testadas, a vantagem aparentemente óbvia de começar com cera menos contaminada não se traduziu numa diferença mensurável no desenvolvimento ou na sobrevivência das colónias.

Também a possibilidade de as abelhas escolherem livremente a dimensão dos alvéolos fazia parte das vantagens que encontrava nas minhas leituras daqueles primeiros anos. Esta questão acabou por se cruzar com a hipótese de que alvéolos mais pequenos poderiam dificultar a reprodução da Varroa. O favo natural apresenta diversidade de dimensões e zonas de transição que uma lâmina industrial não reproduz, mas os ensaios controlados com alvéolos pequenos não demonstraram um controlo suficientemente consistente de Varroa destructor para que esta possa ser considerada uma técnica sanitária [13].

Há ainda a questão da cera que as próprias abelhas têm de produzir. As estimativas clássicas apontam para vários quilogramas de mel equivalente por cada quilograma de cera produzido, embora esta relação seja muito mais variável do que a conhecida fórmula dos seis ou oito quilogramas por quilograma de cera faz supor. A idade das abelhas, a temperatura, a força da colónia, a entrada de néctar e a necessidade de espaço interferem nesse custo. E uma lâmina estampada também não entrega às abelhas um favo acabado: é necessário levantar as paredes dos alvéolos e acrescentar cera. Ainda assim, num quadro iscado praticamente toda a estrutura terá de ser produzida pela colónia.

O balanço que hoje faço é diferente daquele que me levou a experimentar a técnica em 2012–2013. A construção natural reduz a quantidade de cera reciclada que introduzimos na colmeia, mas as vantagens sanitárias que frequentemente lhe são atribuídas não têm a demonstração científica que por vezes se supõe. A escolha natural da dimensão dos alvéolos também não demonstrou controlar eficazmente a Varroa. Construir praticamente todo o favo tem um custo. E aquilo que mais me chamou a atenção na minha pequena experiência — a quantidade de favo de zângão que as colónias construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem — encontra hoje confirmação em trabalhos realizados muito longe dos meus apiários.

Hoje já não tenho colmeias, mas continuo a acompanhar regularmente apiários através dos meus serviços de apoio técnico. Nesses apiários não recomendo a utilização de quadros iscados no ninho. Prefiro utilizar cera laminada para orientar a construção de favo de obreira e dar à colónia um espaço deliberadamente escolhido onde possa satisfazer a sua necessidade sazonal de construir favo de zângão.

Para isso recomendo a colocação de um quadro de meia-alça na posição 9 do ninho. Abaixo desse quadro fica um espaço livre que, durante a época em que a colónia apresenta forte impulso para produzir machos, tende a ser ocupado com construção natural de favo de zângão. Em vez de deixar essa construção aparecer de forma dispersa em vários quadros iscados, concentra-se num local conhecido, facilmente observado e facilmente removível.

Quadro de meia alça para criação dirigida de zângão no ninho (foto minha)

É aqui que os trabalhos de Allen, Free, Free & Williams e Seeley voltam a ser particularmente úteis [4,6,7,8]. A quantidade de favo de zângão já disponível influencia a quantidade adicional que a colónia procura construir. Dar-lhe um espaço próprio para essa construção pode ajudar a concentrá-la nesse local. E há uma diferença relativamente a colocar simplesmente um quadro completo de fundação de zângão: com a meia-alça são as abelhas que decidem quando ocupar o espaço inferior. A construção aparece quando o impulso para produzir machos é forte e tende a desaparecer quando esse impulso diminui. O próprio quadro fornece assim informação sobre o estado sazonal da colónia.

Depois de a criação de zângão estar operculada e antes da emergência, o favo construído abaixo da meia-alça pode ser cortado. Retiram-se os zângãos em desenvolvimento e, com eles, as varroas que entraram nesses alvéolos para se reproduzir. O corte de criação de zângão é uma técnica complementar de controlo da varroose e não substitui a monitorização da infestação nem os tratamentos quando estes são necessários.

Há alguma ironia neste percurso. Uma das razões pelas quais abandonei os quadros iscados foi a quantidade de favo de zângão que as abelhas construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem. Hoje continuo a dar-lhes essa liberdade, mas apenas num espaço escolhido para esse efeito. O que antes aparecia espalhado pelo ninho e aumentava a criação disponível para a Varroa fica concentrado num local onde pode ser retirado antes da emergência.

Quando comecei a ler sobre quadros iscados, em 2012–2013, as vantagens atribuídas ao favo natural pareceram-me suficientemente plausíveis para as testar. Fi-lo em cerca de dez colónias e os resultados foram suficientes para me levar a abandonar rapidamente a prática. Continuei, contudo, a ler sobre o assunto. Mais de uma década depois, algumas das vantagens então anunciadas continuam sem a demonstração experimental que seria desejável, enquanto aquilo que me levou a abandonar a técnica — a forte tendência para aumentar a construção de favo de zângão quando se dá liberdade às abelhas para o fazerem — revelou-se bastante mais universal do que a minha pequena experiência poderia demonstrar.

Foi precisamente a observação daquilo que as abelhas faziam com a liberdade dada pelos quadros iscados que me levou a deixar de os utilizar e, agora, anos mais tarde, a recomendar aos clientes dos meus serviços técnicos que também não os utilizem.

Referências — Abelhas à Beira

[1] Gomes, E. (2019). «Quadros iscados: vantagens e desvantagens». Abelhas à Beira, 21 de janeiro de 2019. — Ler

[9] Gomes, E. (2016). «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas». Abelhas à Beira, 28 de março de 2016. — Ler

[10] Gomes, E. (2016). «Mudança do princípio activo do acaricida». Abelhas à Beira, 31 de julho de 2016. — Ler

[11] Gomes, E. (2023). «A exposição a agroquímicos na cera laminada causa efeitos insignificantes no crescimento e na sobrevivência no inverno de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera)». Abelhas à Beira, 8 de julho de 2023. — Ler

Referências — literatura científica e técnica

[2] Wilson, M. E. et al. Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control. Sustainable Agriculture Research and Education, Project FS07-221.

[3] Seeley, T. D. & Morse, R. A. (1976). The nest of the honey bee (Apis mellifera L.)Insectes Sociaux, 23, 495–512.

[4] Allen, M. D. (1965). The effect of a plentiful supply of drone comb on colonies of honeybeesJournal of Apicultural Research, 4(2), 109–119.

[5] Oliver, R. (2017). The Varroa Problem: Part 13 — Using the Mite Model. Scientific Beekeeping.

[6] Free, J. B. (1967). The production of drone comb by honeybee coloniesJournal of Apicultural Research, 6(1), 29–36.

[7] Free, J. B. & Williams, I. H. (1975). Factors determining the rearing and rejection of drones by the honeybee colonyAnimal Behaviour, 23, 650–675.

[8] Seeley, T. D. (2002). The effect of drone comb on a honey bee colony’s production of honeyApidologie, 33, 75–86.

[12] Payne, A. N., Walsh, E. M. & Rangel, J. (2019). Initial exposure of wax foundation to agrochemicals causes negligible effects on the growth and winter survival of incipient honey bee (Apis mellifera) coloniesInsects, 10(1), 19.

[13] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a Varroa mite (Varroa destructor) controlExperimental and Applied Acarology, 47, 311–316.

o pólen que chega em setembro: preparar agora as abelhas que terão de viver no inverno

Ontem, numa das muitas visitas técnicas que tenho feito aos apiários da Quinta da Machada, na região de Coimbra, algumas imagens chamaram particularmente a minha atenção. Trabalhei em três dos apiários e quase todas as fotografias que acompanham esta publicação são originais e foram tiradas durante esse mesmo dia de trabalho. Num dos quadros havia uma quantidade apreciável de pão de abelha recentemente armazenado, destacando-se numerosos alvéolos com pólen de cor laranja intensa; noutro, algumas abelhas transportavam cargas corbiculares claramente amarelas; e encontrei também aquilo que, neste território, considero perfeitamente normal nesta altura do ano quando as colónias estão em boas condições: colónias a avançarem para três a quatro quadros com boas áreas de criação. A pergunta impõe-se: o que significa para estas colónias receberem agora, no início de setembro, uma entrada apreciável e diversificada de pólen, acompanhada também por algum néctar?

Quadro com uma boa área de criação. Na região de Coimbra é habitual encontrar nesta altura dois a três quadros nestas condições, assim a varroose esteja devidamente controlada e a pressão da Vespa velutina não esteja a condicionar fortemente a actividade das colónias.

A fotografia da criação é importante para compreender tudo o resto. No nosso território, setembro não significa necessariamente uma colónia a encerrar rapidamente a criação. É habitual encontrar três a quatro quadros com boas áreas de criação, naturalmente com diferenças entre anos e colónias, desde que dois dos principais factores que nesta época podem comprometer o seu desenvolvimento estejam devidamente controlados: a varroose e a pressão da Vespa velutina. Isto distingue o nosso contexto mediterrânico da imagem clássica, muitas vezes construída a partir da apicultura do Centro e Norte da Europa, de uma colónia que, terminado o verão, entra rapidamente numa redução muito acentuada da criação. E se ainda temos criação em quantidade apreciável, temos milhares de larvas para alimentar. É aqui que aquilo que encontrei nos restantes quadros ganha particular significado.

Abelhas transportando cargas corbiculares amarelas. Nas proximidades dos apiários existe nesta altura bastante tágueda (Dittrichia viscosa), cujo pólen é descrito como amarelo. É uma hipótese para estas cargas, não uma identificação.

Nas proximidades destes apiários encontro nesta altura bastante tágueda (Dittrichia viscosa). O seu pólen é descrito como amarelo, pelo que constitui uma hipótese plausível para algumas das cargas que fotografei. A coincidência entre cor, época de floração e abundância da planta torna-a uma candidata interessante, mas não permite fazer uma identificação segura: para isso seria necessário observar as abelhas directamente nas flores ou recorrer à identificação microscópica do pólen.

Mais intrigante é aquilo que aparece noutra das fotografias.

Pão de abelha recentemente armazenado, destacando-se vários alvéolos de cor laranja intensa. A sua origem botânica permanece por identificar.

Uma possibilidade para este laranja é a calêndula-dos-campos (Calendula arvensis), cujo pólen é efectivamente descrito como laranja. Outra encontra-se entre algumas Asteraceae da tribo Cichorieae, onde se incluem TaraxacumCrepisPicris e Hypochaeris. Sabemos que algumas destas plantas podem originar cargas corbiculares nitidamente alaranjadas. O dente-de-leão propriamente dito (Taraxacum) não me parece, pela época, o candidato mais provável para explicar uma entrada importante no início de setembro em Coimbra, mas alguns dos seus parentes mediterrânicos continuam a florir nesta altura. Por enquanto deixaria, portanto, duas ou três possibilidades em aberto: Calendula, alguma Cichorieae ou outra Asteraceae tardia ainda não identificada. A cor é uma pista, não uma identificação botânica.

Também identifiquei nas proximidades grandes trepadeiras cobrindo muros e vedações, com flores grandes, rosadas a arroxeadas e em forma de funil, muito provavelmente Ipomoea purpurea, a glória-da-manhã. Estas plantas fornecem pólen e também néctar. Em I. purpurea foram medidos experimentalmente cerca de 2,4 µL de néctar por flor, com uma concentração próxima de 39% de açúcares [1]. Uma flor representa pouco, mas um muro coberto por centenas ou milhares delas já constitui um recurso diferente. Nas próximas semanas deverá juntar-se a este mosaico a hera (Hedera helix), uma das fontes europeias mais importantes de pólen e néctar no final da estação.

 Ipomoea purpurea, a glória-da-manhã (fotografia de autor desconhecido)

A identificação das plantas interessa-me, mas não é o cerne destas fotografias. Setembro e outubro podem constituir no nosso território uma segunda janela nutricional depois da escassez estival. Um estudo recente realizado na Sardenha acompanhou durante um ano o pólen efectivamente recolhido pelas colónias e encontrou uma segunda fase de desenvolvimento no final do verão, característica das condições mediterrânicas. Em setembro a hera começou a adquirir importância e em outubro tornou-se a principal origem polínica nos quatro locais estudados. Mais importante ainda, a quantidade, a riqueza de origens botânicas e a diversidade do pólen recolhido estavam positivamente relacionadas com o desenvolvimento das colónias [2]. Coimbra não é a Sardenha, mas esta comparação mediterrânica parece-me bastante mais próxima daquilo que observo nos nossos apiários do que transpor directamente os calendários biológicos do Norte da Europa.

O pólen que entra agora pode constituir parte da matéria-prima utilizada para produzir as abelhas que terão de atravessar o outono e o inverno. Estas abelhas não são simplesmente operárias de verão que vivem durante mais tempo. A sua fisiologia caracteriza-se por maiores reservas no corpo gordo, níveis elevados de vitelogenina e uma longevidade muito superior. No nosso clima esta transição é mais gradual e a criação prolonga-se durante mais tempo, mas isso não diminui a importância da nutrição nesta fase. Aquilo que a colónia conseguir construir fisiologicamente durante setembro e outubro terá consequências vários meses depois.

E quando escrevo nutrição não estou a falar apenas de proteína. O pólen fornece também lípidos, esteróis e ácidos gordos essenciais. Um caso particularmente interessante é o ácido α-linolénico (ALA), da família ómega-3. Trabalhos experimentais mostraram que dietas deficientes em ómega-3 podem prejudicar o desenvolvimento das glândulas hipofaríngeas e algumas capacidades de aprendizagem das abelhas [3]. Num estudo realizado em ambiente mediterrânico foram encontrados níveis relativamente baixos de ácido linolénico na dieta polínica durante o outono [4]. Isto não significa que todos os pólenes de outono sejam pobres em ALA; significa que podemos ter bastante pão de abelha armazenado e, apesar disso, existir uma limitação nutricional específica.

É precisamente um dos aspectos que abordo nos meus cursos de Nutrição Apícola Aplicada. Não se trata apenas de saber quanto de proteína tem uma pasta. Abordamos os diferentes componentes da dieta e, entre outros aspectos, como corrigir um défice ou desequilíbrio em ácido α-linolénico/ómega-3, escolhendo e combinando adequadamente as fontes lipídicas. Proteína bruta não é sinónimo de dieta completa. Também por isso gosto de encontrar várias cores de pólen nestes quadros. Não demonstram, por si mesmas, uma dieta equilibrada, mas sugerem diversidade botânica e a possibilidade de diferentes pólenes compensarem algumas das limitações nutricionais uns dos outros.

néctar que acompanha estas florações também não deve ser desprezado simplesmente porque provavelmente nunca dará origem a uma cresta. Fornece energia para o voo, termorregulação, processamento dos alimentos e manutenção da criação, permite poupar reservas já existentes e, havendo excedente, acrescenta alguma coisa ao que estará disponível nos meses seguintes. Avaliamos demasiadas vezes uma planta pelo mel que poderá chegar ao extractor. Uma floração pode valer pouco para o extractor e valer muito para as abelhas.

Mas há uma razão adicional para a fotografia da criação ter, para mim, particular significado. Não chegámos a setembro simplesmente à espera que estas colónias encontrassem pólen. Nas semanas anteriores estivemos a trabalhar para que estivessem sanitariamente preparadas para o aproveitar. Temos vindo a tratar as colónias da Quinta da Machada com o Protocolo Inovador (PI) para controlo da varroose, com um objectivo muito concreto: entrar no período de criação das abelhas que constituirão uma parte importante da população de inverno com taxas de infestação em abelhas adultas não superiores a 0,3%.

Uma boa entrada de pólen permite manter criação, mas essa criação representa simultaneamente novas oportunidades reprodutivas para Varroa destructor. Trabalhos realizados no Sul de Espanha mostram como setembro e outubro podem coincidir precisamente com níveis elevados de infestação [5]. Uma boa floração de outono pode, portanto, ter consequências muito diferentes: com varroa baixa ajuda a produzir novas abelhas bem nutridas; com varroa elevada sustenta também criação onde o parasita continuará a reproduzir-se, precisamente quando começamos a produzir abelhas que deveriam ser particularmente longevas.

É por isso que o nosso objectivo de ≤0,3% de infestação em abelhas adultas antes desta fase não é apenas um número numa folha de registo. Pretendemos começar esta janela nutricional com uma população de varroa suficientemente baixa para que a nova criação possa ser convertida, tanto quanto possível, em abelhas e não em varroas. Naturalmente, uma taxa baixa hoje não dispensa novas monitorizações: continuamos a ter criação e existe também o risco de reinvasão. Mas é muito diferente começar setembro com 0,3% ou menos de infestação do que chegar a esta fase com uma população de varroa já elevada.

E a varroa não é o único problema que pode impedir as colónias de aproveitar esta oportunidade.

Vespa velutina no momento em que é atingida por uma das harpas eléctricas instaladas nos apiários da Quinta da Machada. Fotografia tirada durante o mesmo dia de trabalho das imagens anteriores.

A fotografia mostra uma Vespa velutina a ser eliminada por uma das harpas eléctricas que utilizamos na protecção destes apiários. A ligação com as fotografias do pólen é mais directa do que poderá parecer. Podemos ter tágueda, Ipomoea, Asteraceae e, dentro de pouco tempo, hera em floração; mas esses recursos só têm valor se as abelhas conseguirem sair, trabalhar e regressar ao alvado. Quando uma pressão elevada de velutina desencadeia comportamento defensivo e reduz fortemente a actividade de voo, uma paisagem rica em flores pode coexistir com uma colónia que recebe muito menos pólen e néctar do que teria disponível

É por isso que, neste território e nesta altura do ano, associo cada vez mais três variáveis: criação, varroa e pressão de velutina. Podemos acrescentar uma quarta, que condiciona as restantes: a disponibilidade de recursos florais. Não basta que existam flores; as abelhas têm de conseguir explorá-las. Não basta que entre pólen; a colónia tem de estar suficientemente saudável para o transformar em boas abelhas. E não basta produzir muita criação; interessa que essa criação não esteja a servir simultaneamente para multiplicar uma população elevada de varroa.

As fotografias que acompanham esta publicação são, por isso, mais do que imagens escolhidas para ilustrar posteriormente um texto. São todas fotografias originais (com excepção da Ipomoea purpurea) tiradas ontem durante o meu trabalho técnico em três apiários da Quinta da Machada, e representam diferentes momentos daquilo que encontrei no mesmo território e no mesmo dia: boas áreas de criação, abelhas a chegar com pólen amarelo, alvéolos preenchidos com pão de abelha laranja recentemente armazenado e uma velutina a ser eliminada por uma harpa eléctrica.

Continuarei curioso para descobrir quem está a fornecer aquele pólen laranja. Mas essa já não é, para mim, a questão principal. No início de setembro, a paisagem está novamente a oferecer pólen fresco de várias origens e algum néctar; as colónias estão/vão crescer para dois a três quadros com boas áreas de criação muito provavelmente nestes dois próximos meses; procurámos que chegassem a esta janela com a varroa muito baixa e estamos simultaneamente a tentar impedir que a velutina lhes retire a capacidade de explorar esses recursos. Se conseguirmos reunir estas condições, o verdadeiro valor destas florações provavelmente não aparecerá no extractor. Aparecerá daqui a 4 a 6 semanas, na quantidade e, sobretudo, na qualidade das abelhas que encontrarmos dentro das colmeias.

Referências

  1. Galetto, L. & Bernardello, G. Estudos sobre produção e composição do néctar em espécies de Ipomoea, incluindo I. purpurea.
  2. Satta, A. et al. (2024). How seasonality, semi-natural habitat cover and compositional landscape heterogeneity affect pollen collection and development of Apis mellifera colonies in Mediterranean agro-sylvo-pastoral systemsLandscape Ecology, 39.
  3. Arien, Y., Dag, A., Zarchin, S., Masci, T. & Shafir, S. (2015). Omega-3 deficiency impairs honey bee learningProceedings of the National Academy of Sciences.
  4. Avni, D., Hendriksma, H. P., Dag, A., Uni, Z. & Shafir, S. (2014). Nutritional aspects of honey bee-collected pollen and constraints on colony development in the eastern MediterraneanJournal of Insect Physiology, 69, 65–73.
  5. Barroso-Arévalo, S. et al. (2019). High Load of Deformed Wing Virus and Varroa destructor Infestation Are Related to Weakness of Honey Bee Colonies in Southern SpainFrontiers in Microbiology, 10.

Publicações relacionadas no Abelhas à BeiraNa prática e no terreno: o controlo da varroose ao longo de mais de 8 mesesA eficácia e consistência de um protocolo inovador de controlo da varroose; e publicações anteriores sobre nutrição, pólen, Vespa velutina e acompanhamento técnico das colónias da Quinta da Machada.