selecção darwiniana em Portugal: o filtro, as sobreviventes e o preço

O meu contacto com aquilo a que hoje chamamos frequentemente apicultura darwiniana começou bastante antes de eu escrever sobre o assunto neste blogue. Em 2013–2014 comecei a ler o trabalho de John Kefuss, em particular a sua abordagem de selecção de colónias capazes de sobreviver à varroa sem tratamento. Em 2016 fui mais longe: desloquei-me ao apiário de Kefuss, nas proximidades de Toulouse, para conhecer directamente o seu trabalho e comprei-lhe algumas rainhas virgens, que trouxe para Portugal acompanhadas do devido certificado veterinário.

A experiência, como já contei posteriormente, não correspondeu às expectativas. Poderá a promessa inicial ter sido excessiva? Poderá a hibridação das descendentes com zângãos locais ter diluído os efeitos genéticos que procurávamos introduzir? Esta segunda hipótese continua a parecer-me bastante plausível. E a experiência ajudou-me também a perceber cedo que há uma distância considerável entre encontrar algumas colónias sobreviventes e conseguir transferir e fixar os caracteres responsáveis por essa sobrevivência numa população aberta.

Emergência de uma rainha (foto minha)

Comecei a escrever neste blogue especificamente sobre selecção de abelhas resistentes à varroa em 2018. Nessa altura procurei explicar o VSH, o comportamento de remoção de criação infestada e a necessidade de distinguir um mecanismo promissor de resistência de uma alegação comercial demasiado apressada [1,2]. Pouco depois, ao acompanhar as experiências de Randy Oliver, sublinhei uma ideia que continua a parecer-me essencial: uma rainha ou uma colónia que aparenta controlar a varroa merece ser estudada e reproduzida; daí até afirmar que se possui uma linha resistente vai uma distância enorme [3].

Em 2021 voltei ao tema por vários caminhos. Discuti as dificuldades de fixar, medir e transferir traços de resistência numa população real, onde os acasalamentos abertos podem diluir rapidamente o trabalho feito por um criador [4]. Relembrei também a tentativa de 2016 com as rainhas provenientes do trabalho de Kefuss [5] e escrevi sobre formas de medir comportamentos como a reoperculação e a remoção de criação infestada, precisamente porque falar de resistência sem medir os mecanismos que a podem explicar pouco nos adianta [6].

Acasalamento livre

Em 2023 escrevi especificamente sobre a chamada apicultura darwiniana. A crítica não era à investigação séria de abelhas capazes de limitar a varroa, nem à selecção dirigida de colónias que sobreviveram. Era à transformação de uma ideia evolutiva numa fórmula demasiado simples: retirar os tratamentos, deixar morrer a maioria das colónias e chamar ao resultado uma vitória da natureza [7]. John Kefuss e o lema BOND — live and let die — fazem parte da história moderna da procura de abelhas sobreviventes. Mas uma coisa é utilizar uma pressão sanitária extrema como instrumento experimental de selecção; outra, bastante diferente, é convertê-la numa receita geral de maneio ou numa prova automática de resistência.

Também o ensaio de Coimbra, que acompanhei com Nuno Capela, deve ser lido nesta perspectiva. Foi inspirado naquela linha de trabalho que eu vinha acompanhando havia já mais de uma década. Das 40 colónias que ficaram sem tratamento, quatro estavam vivas no fim do ano e duas foram encontradas vivas na observação seguinte [8]. Era, e é, um começo que merece ser acompanhado: duas candidatas a estudar e a multiplicar. Não era a demonstração de duas linhagens resistentes consolidadas. A própria palavra «intermédios», no título dessa publicação, dizia precisamente isso.

É com este percurso em mente que li a dissertação de Larissa Fonseca da Cunha, apresentada em 2026 no Instituto Politécnico de Bragança: Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana [9]. O trabalho merece atenção porque traz dados portugueses, acompanha as colónias ao longo do tempo e apresenta números suficientemente duros para nos obrigarem a abandonar algumas das simplificações que facilmente se constroem em torno da chamada selecção darwiniana.

Foto não relacionada com o estudo.

O primeiro número é este: 23 rainhas fundadoras originaram 92 desdobramentos em 2024. No inverno seguinte sobreviveram 21. Em 2025, o segundo ciclo acompanhou 53 colónias; em fevereiro de 2026 restavam três. Dito de forma simples, o filtro foi de 92 para 21 no primeiro ano e de 53 para 3 no segundo.

É difícil olhar para estes números e dizer que a selecção não funcionou. Funcionou no sentido mais estrito da palavra: aplicou uma pressão enorme e deixou sobreviventes. Mas também é impossível olhar para os mesmos números e afirmar que já existe uma população resistente estável. Três sobreviventes são três candidatas, não uma população resistente.Para chegarmos a essa conclusão seria necessário multiplicar essas colónias, acompanhar as suas descendentes durante vários anos, medir a evolução da infestação pela varroa e demonstrar que os caracteres responsáveis pela sobrevivência se mantêm depois dos acasalamentos, sem sacrificar pelo caminho outras características igualmente importantes, como a viabilidade, a mansidão, a produtividade e a diversidade genética.

Esta prudência não é um preciosismo. É o centro da questão. A selecção para resistência à varroa não é como escolher uma rainha apenas pela cor, pela produção de mel ou pela mansidão. Podemos encontrar colónias excepcionalmente boas; o problema seguinte é conseguir fixar e generalizar os traços que explicam esse comportamento numa população de abelhas que acasala em grande medida ao ar livre, num território onde rainhas e zângãos de diferentes origens contribuem continuamente para a população [4]. É por isso que escrevi no passado que a resistência terá verdadeiro impacto quando deixar de ser uma raridade presente em pequenos projectos e passar a estar representada, em escala, nas populações que efectivamente se reproduzem [4].

As sobreviventes e a linha materna

A tese encontrou também um resultado genético que merece ser seguido. Entre as 23 famílias fundadoras, 85% pertenciam à linhagem mitocondrial A; as restantes pertenciam às linhagens M e C. As três sobreviventes do segundo ciclo eram da linhagem A. Além disso, a sobrevivência diferiu entre famílias: as descendências das rainhas 1 e 12 sobreviveram mais tempo, enquanto as das rainhas 2 e 11 colapsaram mais cedo [9].

É um sinal a que devemos prestar atenção. Mas não é uma licença para proclamar que a linhagem A é resistente à varroa. Primeiro, porque 85% da população inicial já pertencia à linhagem A; num grupo final de apenas três colónias, a presença exclusiva desta origem deve ser interpretada com muita prudência. Segundo, porque o ADN mitocondrial nos informa sobretudo sobre a ascendência materna. Não identifica os genes nucleares nem os mecanismos concretos — VSH, reoperculação, remoção de criação infestada, grooming, redução da reprodução da varroa ou menor atractividade da criação — que possam estar a limitar o parasita.

A conclusão sensata é mais modesta e, precisamente por isso, mais útil: há famílias maternas que justificam um acompanhamento especial, sobretudo as associadas às rainhas 1 e 12. É necessário testar as descendentes, medir a infestação e perceber se existe realmente um traço herdável por detrás da maior sobrevivência. A genética é uma hipótese forte; a prova ainda não existe.

Agressividade não é resistência

Numa população ibérica, esta questão assume uma importância particular. A dissertação avaliou também a defensividade das colónias e não encontrou uma relação significativa entre o índice de agressividade e a queda natural de varroa, nem entre agressividade e risco instantâneo (hazard) de mortalidade [9]. As colónias maiores tenderam a apresentar respostas defensivas mais fortes, algo que pode explicar-se simplesmente por terem mais abelhas disponíveis para responder a uma perturbação. Mas defensividade não é VSH, não é reoperculação e não é resistência à varroa.

É uma distinção que convém manter. Uma colónia agressiva pode estar muito infestada e sucumbir; uma colónia dócil pode revelar mecanismos efectivos de limitação da reprodução da varroa. Confundir estes planos é uma das formas mais fáceis de transformar impressões recolhidas no apiário em certezas para as quais ainda não temos dados.

A colónia forte e o risco escondido

A dissertação trouxe ainda um resultado aparentemente paradoxal mas já nosso conhecido: em julho, as colónias com mais quadros de abelhas adultas apresentaram maior risco instantâneo (hazard) de mortalidade posterior quando se analisou em conjunto a força da colónia e a queda natural de varroa. Mas convém perceber exactamente o que foi medido antes de retirarmos conclusões.

A força foi avaliada através do número de quadros cobertos por abelhas adultas; não foi medida a área de criação. Uma colónia forte pode ter mais criação e, por isso, proporcionar mais oportunidades de reprodução à varroa. É uma explicação biologicamente plausível, mas não foi directamente demonstrada neste ensaio. Aliás, a força da colónia, considerada isoladamente, não explicou significativamente a queda natural de varroa. Mais abelhas adultas não significaram, por si só, mais ácaros caídos diariamente [9].

Também a leitura de um número divulgado no resumo exige alguma cautela. O aumento combinado de 32,8% do risco instantâneo (hazard) de mortalidade em julho resulta de acrescentar simultaneamente um quadro de abelhas e uma varroa/dia na queda natural. Não significa um aumento de 32,8% por cada quadro de abelhas. No modelo, o efeito estimado foi de cerca de 28,7% por quadro adicional e de 3,2% por varroa/dia adicional; combinados, estes dois efeitos produzem aproximadamente o valor referido [9].

Esta precisão não retira importância ao resultado. Pelo contrário, ajuda-nos a interpretá-lo correctamente e obriga-nos a olhar com atenção para colónias muito fortes em pleno verão. Uma colónia forte pode ser uma excelente produtora de abelhas e de mel e, se a varroa não estiver contida, pode proporcionar também excelentes condições para a multiplicação do ácaro. O aspecto exterior de vigor não substitui a monitorização.

O custo do filtro

A selecção darwiniana tem custos enormes e esses custos não são uma nota de rodapé. São o próprio mecanismo do filtro. Das 53 colónias acompanhadas no segundo ciclo, 50 colapsaram; a mortalidade final aproximou-se dos 94%. Muitas não desapareceram de um dia para o outro. Entraram no outono ainda vivas, mas foram perdendo capacidade para produzir abelhas saudáveis e para manter a organização fisiológica necessária à passagem do inverno. A telemetria registou, em algumas colónias, perdas precoces de peso e amplitudes térmicas internas até 15 ºC, sinais compatíveis com perda de capacidade de termorregulação, embora esses indicadores não devam ser transformados num teste preditivo que o estudo não validou [9].

Há depois um custo populacional. Quando o filtro é desta dimensão, pode restar muito pouco material reprodutivo. Se a selecção se concentrar repetidamente num número muito reduzido de famílias, aparece o risco de estreitamento da base genética. Sobreviver à varroa é obviamente desejável, mas uma população de abelhas precisa de conservar diversidade suficiente para responder a muitos outros desafios e manter características importantes para a sua própria viabilidade e para a apicultura.

E existe ainda um custo sanitário que não podemos ignorar. Colónias que colapsam com cargas elevadas de varroa podem tornar-se fontes de dispersão de ácaros e dos vírus que lhes estão associados para outras colónias. A selecção não ocorre num vácuo. Ocorre numa paisagem com outros apiários, acasalamentos abertos, deriva, pilhagem e circulação de zângãos e rainhas. Aquilo que fazemos numa colónia experimental pode, portanto, não ficar confinado a essa colónia.

Nada disto obriga a abandonar a procura de abelhas resistentes. Muito pelo contrário. Obriga-nos a tratar essa procura como aquilo que é: um trabalho de selecção demorado, exigente, baseado em medição, critérios claros e confirmação ao longo de gerações. Não uma promessa rápida, não uma desculpa para deixar de monitorizar e muito menos uma autorização para transformar a morte da maioria das colónias numa narrativa de sucesso.

A tese de Bragança vale precisamente por nos colocar perante essa realidade. Mostra que há candidatas locais que justificam ser estudadas. Mostra que a origem familiar poderá ter importância. Mostra que agressividade não é resistência e que força aparente não garante sobrevivência. E mostra, através de números que dificilmente podemos contornar, que entre deixar algumas colónias sem tratamento e obter uma população de abelhas efectivamente resistente existe um caminho muito longo, altamente selectivo e com um preço elevado.

O filtro encontrou sobreviventes. Agora começa a parte realmente difícil: demonstrar por que sobreviveram e se aquilo que lhes permitiu sobreviver pode ser transmitido às gerações seguintes.

Referências

[1] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentosAbelhas à Beira.

[2] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentos (2)Abelhas à Beira.

[3] Gomes, J. E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?Abelhas à Beira.

[4] Gomes, J. E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no focoAbelhas à Beira.

[5] Gomes, J. E. (2021). SAM: uma ferramenta para melhorar abelhas num futuro próximoAbelhas à Beira.

[6] Gomes, J. E. (2021). Abelhas resistentes: medindo a re-operculação e remoção de criaçãoAbelhas à Beira.

[7] Gomes, J. E. (2023). Apicultura darwiniana: análise críticaAbelhas à Beira.

[8] Gomes, J. E. (2025). Abelhas resistentes em Coimbra: resultados intermédios de uma experiênciaAbelhas à Beira.

[9] Cunha, L. F. da (2026). Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana. Dissertação de mestrado, Instituto Politécnico de Bragança.

voos de orientação ou pilhagem? O que devemos observar à entrada da colmeia

Nesta altura do ano, e em territórios onde a pressão da Vespa velutina é baixa ou inexistente, se encontrarmos uma colmeia com centenas de abelhas a voar junto à entrada, parece-me mais provável estarmos perante uma colónia fraca a ser pilhada do que perante uma colónia forte com uma grande geração de jovens abelhas a realizar simultaneamente os seus voos de orientação. Não é uma regra, evidentemente, mas é por aí que eu começaria o diagnóstico.

No final do Verão há geralmente menos criação e será também menos provável encontrarmos dezenas ou centenas de jovens abelhas aproximadamente da mesma geração a chegar simultaneamente à idade dos primeiros voos de orientação. Ao mesmo tempo, acentuam-se frequentemente as diferenças entre as colónias do mesmo apiário. A varroose não evolui da mesma maneira em todas elas: algumas chegam a esta altura ainda muito populosas, enquanto noutras uma infestação mais elevada e as viroses que lhe estão associadas podem já estar a acelerar o declínio da população. Podemos assim ter colónias fortes, ainda com milhares de abelhas forrageadoras, ao lado de outras bastante mais debilitadas, com menor capacidade de defesa, mas que continuam a guardar reservas de mel.

Há ainda um pequeno paradoxo no nosso maneio: as colónias mais fracas são muitas vezes precisamente aquelas que mais alimentamos. Faz sentido que assim seja. Queremos ajudá-las a recuperar ou simplesmente garantir que dispõem de reservas suficientes. Mas, numa época de escassez, estamos também a colocar alimento numa colónia que tem menos abelhas para o defender. Se utilizarmos alimentos ou suplementos particularmente odoríferos, podemos ainda facilitar a sua descoberta pelas abelhas de outras colónias. O odor não provoca, por si só, uma pilhagem, mas pode ajudar uma abelha exploradora a descobrir uma oportunidade que já reúne as restantes condições para que a pilhagem aconteça. E não é necessário imaginar que esse cheiro atrai abelhas a grandes distâncias. Basta que algumas das muitas forrageadoras que circulam pelo apiário descubram a fonte, consigam aceder-lhe e regressem à sua colónia. A partir daí, o recrutamento pode transformar uma exploração discreta numa pilhagem evidente.

Se entretanto terminou uma grande floração, acrescentamos mais uma peça importante. As milhares de forrageadoras das colónias fortes não desaparecem quando acaba o néctar que recolhiam no dia anterior. Continuam a procurar alimento. Uma colónia enfraquecida, com reservas ou a ser alimentada e com poucas abelhas para defender a entrada, pode tornar-se uma excelente oportunidade. Os trabalhos sobre transmissão de Varroa entre colónias mostraram, aliás, como colónias em declínio podem tornar-se atractivas para as pilhadoras das colónias vizinhas.

É neste contexto que surge uma imagem que consegue deixar até um apicultor experiente na dúvida: dezenas, por vezes centenas, de abelhas voam diante da fachada, algumas pairam, aproximam-se da entrada, afastam-se e regressam. Estamos perante pilhagem ou simplesmente perante jovens abelhas a aprender onde fica a sua casa?

A diferença fundamental está no que aquelas abelhas estão ali a fazer. Nos voos de orientação estão a aprender; na pilhagem estão a tentar entrar. Quando uma jovem abelha começa a preparar-se para a actividade exterior, sai da colmeia, volta-se para ela e inicia os característicos voos de aprendizagem. Vemos abelhas pairando de frente para a fachada, recuando, aproximando-se e descrevendo arcos progressivamente maiores. Algumas pousam na fachada ou na tábua de voo e levantam novamente voo. Experiências com radar harmónico mostraram muito bem esta progressão: os primeiros voos permitem aprender a envolvente imediata da colmeia e os seguintes alargam-se progressivamente à paisagem. Quando muitas abelhas chegam simultaneamente a esta fase podemos ter uma nuvem impressionante diante da colmeia, particularmente depois de alguns dias de mau tempo que tenham impedido os voos.

Na pilhagem a pergunta da abelha é outra: por onde consigo entrar? Em vez de uma nuvem que parece observar a fachada, começamos a perceber abelhas que convergem repetidamente sobre a entrada. Umas tentam penetrar, são repelidas, afastam-se pouco e voltam a tentar; outras conseguem entrar. E as pilhadoras não têm razões para se interessar apenas pela entrada normal. Procuram juntas entre caixas, cantos, tampa, fundo ou qualquer pequena abertura. Esta é uma observação simples que podemos fazer no apiário: quando temos dúvidas, não devemos olhar apenas para a tábua de voo. Demos a volta à colmeia. Abelhas a investigar insistentemente juntas e pequenas frestas fazem pender bastante mais o diagnóstico para pilhagem.

As guardas dão-nos outra informação importante. Numa pilhagem já instalada podem começar a interceptar as recém-chegadas e aparecer perseguições, mordeduras e lutas. Mas também aqui não convém transformar o sinal numa regra absoluta. As guardas não identificam todas as estrangeiras e a sua tolerância varia com as circunstâncias. Durante uma boa entrada de néctar podem ser bastante permissivas; quando aumenta a pressão de pilhagem tornam-se muito mais selectivas. Existe inclusivamente pilhagem discreta, que pode decorrer durante algum tempo sem aquela batalha espectacular que todos associamos a uma colmeia a ser roubada.

Quando a pilhagem se torna intensa, a diferença é mais fácil de perceber olhando para o conjunto. Num voo de orientação há uma nuvem diante da colmeia, mas as abelhas parecem ocupar e explorar um volume de espaço: estão voltadas para a fachada, aproximam-se, afastam-se e descrevem arcos. Numa pilhagem forte, a nuvem parece convergir sobre um ponto. Dezenas de abelhas pressionam a entrada, tentam entrar, recuam e voltam a tentar. Podem aparecer lutas, abelhas mortas e pequenos restos de cera dos opérculos das reservas que estão a ser abertas. Quando chegámos a estes últimos sinais, contudo, já não estamos a diagnosticar o início de uma pilhagem.

Se houver dúvidas, olhar para as abelhas

Em vez de procurar um sinal mágico, há seis perguntas que me parecem particularmente úteis:

  • As abelhas parecem estar a olhar para a colmeia ou estão a tentar entrar nela?
  • A nuvem ocupa o espaço diante da fachada ou converge insistentemente sobre a entrada?
  • As abelhas afastam-se progressivamente em arcos ou regressam repetidamente ao mesmo ponto procurando acesso?
  • Há abelhas a investigar cantos, juntas entre caixas, tampa ou outras possíveis entradas?
  • As abelhas que pousam permanecem tranquilamente na fachada ou procuram avançar imediatamente para o interior?
  • As guardas estão tranquilas ou interceptam repetidamente as recém-chegadas?

Nenhuma destas respostas faz necessariamente o diagnóstico sozinha. É o padrão que resulta do conjunto que interessa. Orientação é sobretudo aprendizagem; pilhagem é sobretudo procura de acesso.

Depois podemos juntar aquilo que sabemos sobre a colónia e o apiário: está a entrar néctar? Há grandes diferenças de população entre as colónias? Esta colónia está a entrar em declínio por varroose? Tem poucas abelhas mas ainda bastante mel? Está a ser alimentada? O alimento ou suplemento utilizado tem um odor particularmente intenso? Houve algum derrame de xarope? Existem entradas ou folgas que uma população reduzida tem dificuldade em defender? O comportamento diz-nos o que provavelmente está a acontecer; o contexto ajuda-nos a perceber por que razão está a acontecer naquela colmeia e naquele momento.

Há, contudo, uma situação em que o cenário pode ser bastante diferente daquele com que comecei este texto: os apiários sujeitos a forte pressão da Vespa velutina. A velutina pode contribuir para acelerar o enfraquecimento das colónias, não apenas pela predação directa, mas também pela pressão que exerce sobre a saída das abelhas e sobre a actividade de forrageamento. Quando uma colónia perde grande parte da sua capacidade de defesa, podemos nem chegar a observar uma pilhagem por abelhas com a expressão habitual, porque as próprias velutinas podem antecipar-se e explorar a colónia enfraquecida e as suas reservas. Não significa que a pilhagem entre abelhas deixe de existir nesses apiários; significa que temos outro explorador muito intimidante dos voos de pilhagem das abelhas e muito eficiente das colónias em declínio.

E se continuarmos na dúvida, abrimos a colmeia

Podemos passar vários minutos diante da entrada tentando interpretar trajectórias de voo, mas há uma forma muito simples de esclarecer grande parte das dúvidas: abrir a colmeia e olhar durante alguns segundos. Numa colónia tranquila, com jovens a fazer voos de orientação, encontraremos a actividade normal de uma colónia. Numa pilhagem intensa, aquilo que vemos deverá ser bastante diferente: abelhas a correr sobre os quadros e paredes, movimento desordenado, intrusas procurando as reservas e uma agitação dificilmente confundível com a normalidade.

Não é necessário fazer uma inspecção. Pelo contrário. Uma visualização de alguns segundos deverá ser suficiente. Se a colónia está efectivamente a ser pilhada, mantê-la aberta apenas facilita o trabalho das pilhadoras.

No fundo, o diagnóstico faz-se juntando o comportamento das abelhas, o estado da colónia e as condições do apiário. A mesma nuvem de abelhas diante de uma colónia em forte crescimento numa tarde de Primavera e diante de uma colónia debilitada, com pouca criação e muitas reservas, no final de Agosto, não deve levar-nos a começar o diagnóstico exactamente pelo mesmo sítio.

A diferença que procuramos perceber é afinal bastante simples: umas abelhas estão diante da colmeia para aprender onde fica a sua casa; as outras estão diante dela para descobrir como entrar numa casa que não é a sua.

Dois vídeos para comparar

Voos de orientação — “Honey Bee Orientation Flights”, GD Honey Acres and Craft Work
https://www.youtube.com/watch?v=EDNKpj6xbxU

Vale a pena observar as abelhas voltadas para a colmeia, o espaço que ocupam diante da fachada, as aproximações e afastamentos e os pousos.

Pilhagem intensa — “I Have Never Seen Destruction Like This!”, Black Mountain Honey
https://www.youtube.com/watch?v=wFbTNaY0xe0

Bibliografia

Capaldi, E. A. et al. (2000). Ontogeny of orientation flight in the honeybee revealed by harmonic radar. Nature, 403, 537–540.

Degen, J. et al. (2015). Exploratory behaviour of honeybees during orientation flights. Animal Behaviour, 102, 45–57.

Degen, J. et al. (2016). Honeybees learn landscape features during exploratory orientation flights. Current Biology, 26, 2800–2804.

Downs, S. G. & Ratnieks, F. L. W. (2000). Adaptive shifts in honey bee guarding behavior support predictions of the acceptance threshold model. Behavioral Ecology, 11, 326–333.

Couvillon, M. J. et al. (2008). En garde: rapid shifts in honeybee, Apis mellifera, guarding behaviour are triggered by onslaught of conspecific intruders. Animal Behaviour, 76, 1653–1658.

Peck, D. T. & Seeley, T. D. (2019). Mite bombs or robber lures? The roles of drifting and robbing in Varroa destructortransmission from collapsing honey bee colonies to their neighbours. PLoS ONE, 14, e0218392.

Free, J. B. (1954). The behaviour of robber honeybees. Behaviour, 7, 233–240.

qual é o melhor tratamento contra a varroa?

Quando um apicultor pergunta qual é o melhor tratamento contra a varroa, provavelmente está a fazer uma pergunta demasiado simples para um problema que não é simples. Todos gostaríamos de ter um produto suficientemente eficaz, barato, fácil de aplicar e independente da temperatura, da quantidade de criação, da época do ano e da resistência que as varroas possam ter desenvolvido. Aplicá-lo-íamos quando chegasse a altura e o problema ficaria resolvido. Infelizmente, a varroa não nos facilita assim a vida.

Um estudo publicado este ano por Mazur e colaboradores ajuda a perceber porquê [1]. Os investigadores analisaram 8.655 apicultores da Áustria, Chéquia, Polónia e Eslováquia, correspondentes a 171.756 colónias, relacionando as estratégias de controlo da varroa com a mortalidade. O resultado que considero mais interessante não é a vitória de determinado produto. Essa vitória, simplesmente, não aparece. As práticas variavam bastante entre países e entre explorações de diferentes dimensões. E as estratégias associadas às menores perdas combinavam, em diferentes momentos, métodos biotécnicos, ácidos orgânicos e acaricidas sintéticos [1].

Estudo de Mazur e colegas

Talvez seja, portanto, mais útil deixarmos de pensar apenas em tratamentos e começarmos a pensar em estratégias de controlo. Um tratamento excelente pode produzir um resultado insuficiente no nosso apiário. Pode ter sido aplicado demasiado tarde; pode existir demasiada criação operculada para um produto que actua sobre as varroas expostas; a temperatura pode ser inadequada; ou as varroas podem apresentar resistência à substância utilizada. O medicamento não mudou. Mudou aquilo que estava à volta dele.

E há uma variável que me parece particularmente importante: o timing. Não é uma ideia nova neste blogue. Em janeiro de 2017 publiquei «o timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças». A partir dos dados dos meus apiários, da dinâmica populacional da varroa e da literatura então disponível, concluía que tratar tarde podia significar chegar depois do momento em que deveríamos estar a proteger as abelhas que atravessariam o inverno. Escrevia então que «mais tarde poderá ser tarde demais». [2]

Oito anos depois voltei ao assunto em «uma das principais causas da falha dos tratamentos contra a varroa». Um estudo baseado em 4.339 apicultores e 18.700 colónias de Inglaterra e País de Gales encontrava menores perdas de inverno associadas ao momento correcto da aplicação do tratamento e não simplesmente ao facto de este ter sido realizado [3]. Entretanto a evidência foi-se acumulando, mas a ideia essencial pouco mudou. Uma infestação de 2% não significa exactamente a mesma coisa em março, em julho ou quando estamos a produzir as abelhas de inverno. Enquanto existe criação, a população de varroa pode crescer rapidamente. O modelo clássico de Stephen Martin mostrou bem como uma população inicialmente modesta pode transformar-se numa população muito diferente alguns meses depois [4].

Há aqui uma diferença importante entre matar varroas e controlar a varroa. Matar varroas é relativamente fácil. Controlá-las durante um ano inteiro obriga a pensar no momento das intervenções, na sequência dos tratamentos, na existência de criação, na reinfestação e naquilo que pretendemos proteger em cada momento.

É aqui que entram as janelas de oportunidade. Uma interrupção natural ou provocada da criação, por exemplo, expõe uma proporção muito maior da população de varroa à acção do ácido oxálico. O produto é exactamente o mesmo; aquilo que mudou foi a oportunidade que lhe demos para actuar. Com criação presente e nas condições adequadas, o ácido fórmico oferece outras possibilidades. E haverá circunstâncias em que um acaricida sintético autorizado, correctamente utilizado e perante varroas sensíveis ao princípio activo, será a ferramenta mais adequada. A estratégia começa quando deixamos de perguntar qual destas ferramentas é a melhor e passamos a perguntar quando cada uma delas nos pode ser mais útil.

E o timing não é tudo. Já em 2017, numa publicação sobre mortalidade de colónias e maneio, referi dados apresentados por Dennis vanEngelsdorp mostrando associações importantes entre as opções tomadas pelo apicultor e a sobrevivência das colónias [5]. Um grande estudo epidemiológico pan-europeu publicado nesse mesmo ano, envolvendo 5.798 apiários de 17 países, encontrou igualmente uma associação forte entre sobrevivência, experiência/formação do apicultor e controlo das doenças [6]. O novo trabalho de Mazur e colaboradores acrescenta agora uma peça particularmente interessante. As melhores estratégias variaram entre países e entre explorações de diferentes dimensões [1]. Os autores admitem que diferenças de experiência, formação, fontes de conhecimento e organização do maneio possam ajudar a explicar por que razão estratégias diferentes conseguem resultados satisfatórios.

Isto interessa-me particularmente porque reforça uma ideia que tenho repetido neste blogue: não podemos separar completamente o tratamento do apicultor que o utiliza e do sistema de maneio em que ele é utilizado.Curiosamente, no estudo de Mazur as explorações maiores apresentaram consistentemente mortalidades inferiores. Isto não significa que ter muitas colmeias faça morrer menos abelhas. Pode reflectir, entre outras coisas, maior experiência, organização e disciplina na execução das estratégias [1].

E isso leva-nos à monitorização. Um tratamento não é eficaz simplesmente porque o aplicámos. Só sabemos se foi suficientemente eficaz quando verificamos o que ficou depois dele. 

Monitorizando a taxa de infestação numa amostra de aproximadamente 300 abelhas adultas, numa visita técnica a apiário recente

Entre outros aspectos, a rapidez ou lentidão de acção do acaricida ajuda a perceber por que razão aquilo que «sempre resultou» pode deixar de resultar em contextos de elevada infestação.

Por isso a procura do «melhor tratamento» me parece cada vez menos interessante. Para perceber por que razão um tratamento resultou ou falhou temos de saber quando foi aplicado, qual era a infestação, quanta criação existia, qual a sensibilidade das varroas, que eficácia se conseguiu e o que foi feito a seguir. O nome escrito na embalagem conta apenas uma parte da história.

Também não retiraria daqui a conclusão confortável de que «cada apiário é um caso» e, portanto, cada um pode fazer o que entender. Há princípios que continuam válidos. Uma população elevada de varroa é perigosa; tratar demasiado tarde tem consequências; e uma substância perante a qual as varroas desenvolveram resistência não recupera eficácia por mudarmos a nossa filosofia de maneio. O que muda é a maneira de aplicar esses princípios às circunstâncias concretas.

Talvez seja essa a principal utilidade do estudo de Mazur e colaboradores. Não nos oferece a receita que muitos gostariam de encontrar. Mostra que os melhores resultados estão associados a estratégias, ao momento e à combinação das ferramentas, e não simplesmente à escolha de um produto [1]. A pergunta deixa então de ser apenas «qual é o melhor tratamento contra a varroa?» e passa a ser:

quanto tenho agora, para onde poderá caminhar esta população, que abelhas preciso de proteger, que janela de oportunidade tenho à minha frente e que ferramenta faz mais sentido utilizar neste momento?

Parece apenas uma mudança na pergunta. Na prática, é uma maneira bastante diferente de controlar a varroa.

Referências bibliográficas

[1] Mazur, E., Biemann, O., Brodschneider, R., Chlebo, R., Gajda, A., Iller, M., Vencálek, O., Brus, J. & Danihlík, J. (2026). Varroa control strategies of different beekeeper groups and corresponding honey bee colony mortality in Central Europe. Journal of Advanced Research. DOI: 10.1016/j.jare.2026.06.003.

[2] Gomes, E. (2017). O timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças. Abelhas à Beira, 30 de janeiro de 2017.

[3] Gomes, E. (2025). Uma das principais causas da falha dos tratamentos contra a varroa. Abelhas à Beira, 7 de setembro de 2025. Baseado em A large-scale study of Varroa destructor treatment adherence in apiculture.

[4] Martin, S. J. (1998). A population model for the ectoparasitic mite Varroa jacobsoni in honey bee (Apis mellifera) colonies. Ecological Modelling, 109, 267–281. DOI: 10.1016/S0304-3800(98)00059-3.

[5] Gomes, E. (2017). Mortalidade de colónias de abelhas nos EUA: que relação com o maneio. Abelhas à Beira, 27 de dezembro de 2017.

[6] Jacques, A., Laurent, M., Ribière-Chabert, M., Saussac, M., Bougeard, S., Budge, G. E. et al. (2017). A pan-European epidemiological study reveals honey bee colony survival depends on beekeeper education and disease control. PLOS ONE, 12, e0172591. DOI: 10.1371/journal.pone.0172591.

[7] Bertola, M. & Mutinelli, F. (2025). Sensitivity and resistance of parasitic mites (Varroa destructor, Tropilaelaps spp. and Acarapis woodi) against amitraz and amitraz-based product treatment: a systematic review. Insects, 16, 234. DOI: 10.3390/insects16030234.

Outras publicações relacionadas no Abelhas à Beira

— Programas de tratamento do ácaro varroa.

— Acaricidas rápidos e acaricidas lentos.

— Inventário da susceptibilidade do Varroa destructor ao amitraz e tau-fluvalinato em França, 10 de novembro de 2020.

— Resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato em regiões de França.

— Publicações sobre monitorização da taxa de infestação e verificação da eficácia dos tratamentos.

isolamento térmico das colmeias: o caso de um apiário no interior Centro

Vista do enquadramento do apiário, onde é produzido um mel que me fez recordar o mel de melada de azinheira que produzia, há alguns anos, em apiários situados a cerca de 20 km daqui. Neste caso, a origem da melada não será a azinheira, mas muito provavelmente o carvalho e o castanheiro. Um mel que gostei muito e continuo a comer à colherada, o que estas colmeias e este território produzem.

Numa recente visita técnica a um apiário de um cliente, situado no interior Centro do país, houve oportunidade para observar e discutir vários aspectos da condução das colónias. Uma parte importante da visita centrou-se na exemplificação prática da aplicação do Protocolo Inovador (PI) de controlo da varroose, mas houve outro pormenor que rapidamente me chamou a atenção: o cuidado que este apicultor dedicava ao isolamento térmico das colmeias. Não era uma preocupação ocasional nem uma solução improvisada para os dias mais frios. Sobre a prancheta utilizava placas de cortiça, colocadas entre esta e o tecto, e nos enxames mais fracos recorria também a partições isolantes laterais — as chamadas partitions chaudes da apicultura francesa — para reduzir o espaço ocupado pela colónia e melhorar o isolamento nas suas extremidades. O assunto acabou naturalmente por ocupar parte da conversa porque toca numa questão a que tenho regressado várias vezes no Abelhas à Beira e que, à luz do que hoje sabemos sobre a termorregulação das colónias, merece ser revisitada.

Este é, aliás, um assunto antigo neste blogue. Já em 2018, quando escrevi sobre frio, humidade e condensação nas colmeias, defendia que o apicultor deveria melhorar o isolamento, «em especial nas suas zonas superiores (tecto e pranchetas)». Noutros textos posteriores voltei à diferença, frequentemente esquecida, entre humidade e condensação e ao papel dos materiais colocados sobre a prancheta. Aquilo que muitas vezes é descrito apenas como uma forma de «absorver a humidade» pode ter uma função ainda mais importante: aumentar a resistência térmica do topo da colmeia e manter a sua superfície interior mais quente. Passados alguns anos, a literatura científica e técnica permite compreender melhor por que razão começar pelo isolamento superior continua a parecer uma opção particularmente racional.

Uma colónia de Apis mellifera não é simplesmente um conjunto de insectos cuja temperatura acompanha passivamente a temperatura ambiente. Funciona, deste ponto de vista, como um verdadeiro superorganismo termorregulador. Durante o inverno as abelhas organizam-se em cacho, alteram a sua densidade e produzem metabolicamente calor; quando existe criação, a região do ninho onde esta se encontra é mantida aproximadamente nos 34–35 °C, mesmo quando no exterior estão temperaturas muito inferiores. Os trabalhos de Southwick e, posteriormente, de Stabentheiner e colaboradores mostraram até que ponto esta regulação resulta da combinação entre comportamento colectivo, produção metabólica de calor e organização espacial das abelhas. Mas produzir esse calor custa energia. A colmeia não produz calor; são as abelhas que o produzem. A caixa determina, entre outras coisas, a rapidez com que parte desse calor se perde.

Se houver apenas uma zona onde seja possível melhorar substancialmente o isolamento, continuo por isso a considerar que a primeira escolha deve ser o topo da colmeia. E foi precisamente aí que encontrei uma das soluções utilizadas neste apiário: placas de cortiça entre a prancheta e o tecto. Uma placa de cortiça com cerca de 20 mm de espessura parece-me uma solução particularmente interessante nas nossas condições: é simples, durável, facilmente disponível entre nós e apresenta uma capacidade isolante muito superior à mesma espessura adicional de madeira. Poderão naturalmente ser utilizados outros materiais com resistência térmica equivalente; interessa menos o nome do material do que a sua capacidade para dificultar a transferência de calor. Mas dois centímetros de cortiça constituem uma solução muito simples para melhorar substancialmente aquela que considero ser a zona prioritária da colmeia.

As colmeias deste apiário tinham esta placa de cortiça sob o tecto e por cima da prancheta.

A importância do topo não resulta apenas das perdas térmicas. Existe também a questão da condensação. As abelhas produzem vapor de água através da respiração e do metabolismo dos alimentos e a existência desse vapor não constitui, por si só, um problema. A dificuldade surge quando o ar húmido encontra uma superfície cuja temperatura esteja abaixo do ponto de orvalho. Forma-se então condensação. Se essa superfície fria for o tecto ou a prancheta, as gotas podem formar-se precisamente sobre o cacho. Pelo contrário, um topo bem isolado mantém a superfície interior mais quente e pode deslocar a condensação para superfícies laterais mais frias, onde a água pode escorrer sem cair directamente sobre as abelhas. Por isso, humidade elevada e condensação perigosa não são necessariamente a mesma coisa.

É neste ponto que surge outra questão interessante: devemos promover deliberadamente uma ventilação vertical através do óculo da prancheta? Durante muito tempo foi comum recomendar uma abertura superior para deixar sair o ar quente e húmido. É intuitivo, mas essa abertura cria também um efeito de chaminé e modifica as correntes de convecção que se estabelecem dentro da colmeia. A literatura não permite concluir que uma abertura superior seja sempre prejudicial — em determinadas condições de calor poderá mesmo aumentar a remoção de calor e vapor de água —, mas também não sustenta a ideia de que uma «chaminé» permanentemente aberta seja uma necessidade das colónias.

Sabemos, pelo contrário, que as abelhas conseguem organizar uma ventilação muito eficaz através de uma única entrada. Southwick e Moritz mostraram já há várias décadas que as ventiladoras conseguem produzir alternadamente fluxos de saída e entrada de ar, e trabalhos posteriores demonstraram como grupos de abelhas se auto-organizam junto da entrada, criando regiões distintas de entrada e saída e ajustando activamente a ventilação às necessidades da colónia. A ventilação de um ninho de abelhas não resulta, portanto, apenas de abrirmos dois buracos para que a física faça o resto; é também um processo activamente controlado pela própria colónia. Trabalhos mais recentes mostram igualmente a capacidade das colónias para manter regimes internos de temperatura e CO₂ apesar de alterações experimentais nas características de ventilação da caixa.

Há ainda uma observação particularmente interessante: as abelhas tendem a propolizar aberturas adicionais, incluindo aberturas superiores que lhes são disponibilizadas. Isto não demonstra que uma abertura superior seja sempre indesejável, mas aconselha alguma prudência antes de assumirmos que as abelhas querem necessariamente uma corrente vertical permanente durante todo o verão. Foi precisamente por esta razão que durante anos utilizei uma solução muito simples no óculo da prancheta: no verão não retirava completamente a pequena tampa que o fechava; deslocava-a apenas parcialmente, deixando parte do óculo acessível às abelhas (ver aqui: https://abelhasabeira.com/oculo-da-prancheta-fechado-ou-aberto/?utm_source=chatgpt.com). Se a colónia entendesse vantajoso conservar aquela abertura podia fazê-lo; se pretendesse reduzi-la ou eliminá-la, podia fechá-la progressivamente com própolis. Era, no fundo, uma maneira de deixar parte da decisão às próprias abelhas. Não conheço um ensaio experimental que tenha comparado especificamente esta técnica, mas ela parece-me coerente com aquilo que sabemos sobre a capacidade da colónia para regular activamente a ventilação do ninho.

Depois do isolamento superior chegamos às paredes laterais e, novamente, aquilo que observei neste apiário ilustra uma solução interessante. Nos enxames mais fracos o apicultor utilizava partições isolantes, reduzindo o volume efectivo da caixa àquele que a população conseguia ocupar. É uma prática particularmente desenvolvida na apicultura francesa, onde estas partitions chaudes são utilizadas para «apertar» a colónia, sobretudo no inverno, em núcleos, enxames e colónias que não ocupam todos os quadros. Existem diferentes construções, desde placas isolantes simples até quadros preenchidos com poliestireno e revestidos com material reflector. A própria imprensa apícola francesa descreve sistemas de nid serré, nos quais o ninho de criação fica delimitado lateralmente por partições quentes.

Os enxames mais fracos apresentavam estas partições ou quadros de isolamento

A lógica parece-me particularmente interessante nas colónias mais fracas. Não se trata necessariamente de envolver toda a colmeia num espesso casulo isolante, mas de adaptar o espaço termicamente relevante à dimensão da população. Uma partição ocupa aproximadamente o lugar de um quadro e permite deslocar lateralmente a fronteira do espaço disponível à medida que a colónia cresce ou diminui. Na própria apicultura francesa encontramos esta utilização recomendada em enxames jovens que ainda não ocupam toda a caixa, retirando ou deslocando progressivamente a partição à medida que se desenvolvem. É exactamente esta utilização selectiva que me parece mais interessante: não transformar as partições isolantes numa obrigação para todas as colónias, mas utilizá-las onde a relação entre população e volume da caixa as torna particularmente úteis.

Do ponto de vista físico, o princípio é simples. A madeira das nossas colmeias é um isolante relativamente modesto e a introdução de uma pequena espessura de um verdadeiro material isolante reduz substancialmente as trocas térmicas. Não é necessário alongar demasiado esta discussão com valores de resistência térmica: para a prática apícola interessa sobretudo perceber que alguns centímetros de cortiça, poliestireno ou material equivalente isolam muito mais do que aumentar alguns milímetros à espessura da parede de madeira. Isto ajuda também a compreender por que razão uma placa de cortiça no topo e uma boa partição junto de um enxame pequeno podem ter efeitos termicamente relevantes sem obrigar a reconstruir toda a colmeia.

Seria, contudo, um erro reduzir toda esta discussão ao inverno. Um isolante não aquece uma colmeia: dificulta a transferência de calor. No inverno reduz a velocidade a que o calor produzido pelas abelhas se perde para o exterior; no verão pode reduzir a velocidade a que o calor exterior entra. Esta questão ganha particular importância durante as ondas de calor. Perante temperaturas elevadas, as abelhas aumentam a ventilação, transportam água, utilizam o arrefecimento evaporativo, redistribuem-se e podem formar a conhecida «barba» no exterior. São mecanismos extraordinariamente eficientes, mas representam trabalho e consumo de recursos. Uma caixa termicamente mais estável não elimina esses mecanismos, mas pode reduzir a rapidez e a amplitude das alterações a que a colónia necessita de responder.

No verão aparece ainda outra variável que não devemos confundir com isolamento: a radiação solar. Uma cobertura metálica exposta directamente ao sol pode atingir temperaturas muito superiores à temperatura do ar e transformar o topo da colmeia numa importante fonte de calor. Por isso, isolamento, sombra e reflectância da cobertura devem ser pensados em conjunto. Mais uma vez, o topo aparece como uma zona crítica: no inverno interessa evitar que se transforme numa superfície excessivamente fria sobre o cacho; no verão interessa impedir que se transforme numa placa de aquecimento colocada sobre ele.

Talvez, portanto, a pergunta mais interessante não seja simplesmente se uma colmeia está «quente» ou «fria». Num texto que publiquei em 2018 já chamava a atenção para as oscilações térmicas. Uma caixa com baixa resistência térmica responde rapidamente às mudanças exteriores; uma colmeia melhor isolada funciona como um amortecedor, reduzindo a velocidade dessas alterações e a sua amplitude. Os trabalhos de Derek Mitchell acrescentaram a esta discussão a comparação com as cavidades naturais das árvores, cujas paredes apresentam frequentemente propriedades térmicas muito diferentes das caixas relativamente finas utilizadas na apicultura moderna. Isto não significa que devamos transformar as colmeias em troncos de árvore. Significa apenas que não existe razão biológica para considerar os habituais 20 ou 25 mm de madeira uma solução térmica ideal apenas porque nos habituámos a construir assim as colmeias.

A visita a este apiário acabou, portanto, por proporcionar algo que considero sempre particularmente interessante nestas visitas técnicas. Fomos ali trabalhar sobretudo outras questões, entre elas a aplicação prática do Protocolo Inovador, e foram soluções adoptadas pelo próprio apicultor — as placas de cortiça sobre a prancheta e as partições isolantes nos enxames mais fracos — que trouxeram novamente para primeiro plano um problema antigo. Depois de vários anos a regressar a este assunto, a hierarquia que adoptaria continua bastante simples: começar por isolar muito bem o topo, sendo uma placa de cortiça com cerca de 20 mm uma solução particularmente simples; nas colónias mais fracas, ponderar a utilização de partições isolantes que aproximem o volume da caixa da dimensão real da população; e evitar transformar automaticamente uma abertura superior permanente numa regra de verão. Quanto ao óculo da prancheta, continuo a gostar da solução que utilizei durante anos: dar às abelhas a possibilidade de decidirem se querem aquela abertura disponível ou se preferem fechá-la.

No fundo, talvez seja esta a melhor maneira de olhar para o isolamento e a ventilação das colmeias. Não se trata de tentar fazer pelas abelhas aquilo que elas sabem fazer extraordinariamente bem há milhões de anos. Trata-se de lhes proporcionar uma caixa que não as obrigue a gastar desnecessariamente energia e água para corrigir aquilo que nós próprios lhes impomos e, sempre que possível, deixar-lhes alguma margem para fazerem aquilo em que são seguramente mais competentes do que nós: regular o microclima do seu próprio ninho.

Referências anteriores no Abelhas à Beira

  • Abelhas à Beira (2018) — publicação sobre frio, humidade, condensação e isolamento das colmeias, salientando a importância do isolamento das zonas superiores — tecto e prancheta.
  • Abelhas à Beira (2018) — discussão das oscilações térmicas da colmeia e da sua importância durante o inverno.
  • Abelhas à Beira (publicação posterior sobre humidade e condensação) — distinção entre humidade relativa elevada e formação de condensação sobre superfícies frias.
  • Abelhas à Beira (publicação sobre os materiais colocados sobre a prancheta) — discussão do seu papel não apenas como absorventes de humidade, mas como elementos de isolamento térmico.

Bibliografia

Jones, J. C., Myerscough, M. R., Graham, S. & Oldroyd, B. P. (2004). Honey bee nest thermoregulation: diversity promotes stability. Science305, 402–404.

Meikle, W. G., Barg, A. & Weiss, M. (2022). Honey bee colonies maintain CO₂ and temperature regimes in spite of change in hive ventilation characteristics. Apidologie53, 51.

Mitchell, D. (2016). Ratios of colony mass to thermal conductance of tree and man-made nest enclosures of Apis mellifera: implications for survival, clustering, humidity regulation and Varroa destructorInternational Journal of Biometeorology60, 629–638.

Ocko, S. A. & Mahadevan, L. (2019). Collective ventilation in honeybee nests. Journal of the Royal Society Interface16, 20180561.

Seeley, T. D. & Morse, R. A. (1976). The nest of the honey bee (Apis mellifera L.). Insectes Sociaux23, 495–512.

Southwick, E. E. & Moritz, R. F. A. (1987). Social control of air ventilation in colonies of honey bees, Apis melliferaJournal of Insect Physiology33, 623–626.

Stabentheiner, A., Pressl, H., Papst, T., Hrassnigg, N. & Crailsheim, K. (2003). Endothermic heat production in honeybee winter clusters. Journal of Experimental Biology206, 353–358.

Stabentheiner, A., Kovac, H. & Brodschneider, R. (2010). Honeybee colony thermoregulation — regulatory mechanisms and contribution of individuals in dependence on age, location and thermal stress. PLoS ONE5, e8967.

Dupleix-Marchal, J., Ruffio, Y. & Lavalette, M. (2025). Isolation des ruches – Notions de thermique et application à la ruche.

varroa e alvéolos de 4,9 mm: quando uma ideia biologicamente plausível não chega

Há ideias em apicultura que têm tudo para nos convencer à primeira vista. A utilização de alvéolos mais pequenos para dificultar a reprodução da varroa é uma delas. O raciocínio é simples e até bastante elegante: a fundação utilizada correntemente levou as abelhas a criar em alvéolos maiores do que aqueles que muitas vezes constroem quando lhes damos liberdade para o fazer; a varroa reproduz-se dentro do alvéolo operculado; se reduzirmos o espaço disponível e, eventualmente, também algum tempo de desenvolvimento da abelha, talvez consigamos dificultar a reprodução do ácaro. Não há nada de disparatado nesta hipótese. O problema começa quando passamos de uma hipótese biologicamente plausível para a afirmação de que os 4,9 mm são uma forma eficaz de controlar a varroa.

Muito cedo na minha apicultura li sobre as experiências de Dee Lusby e Michael Bush com o alvéolo pequeno — e também sobre a posição Housel — como possíveis peças determinantes no controlo da varroa. A posição Housel — uma proposta sobre a orientação e organização do favo no ninho — surgia, no mesmo universo de ideias, como outra peça de um maneio mais “natural”.

Cheguei, aliás, a tocar no assunto neste blogue em 2016, ao resumir uma conferência de António Gómez Pajuelo e ao contrapor os argumentos a favor e contra do alvéolo de 4,9 mm. Mais tarde, uma revisão sobre a ecologia comportamental da varroa levou-me a regressar brevemente à mesma conclusão. Mas não fiz dele então uma reflexão autónoma: as evidências não eram consensuais. Havia relatos de campo convictos, mecanismos biologicamente plausíveis e experiências interessantes; havia também ensaios controlados que não encontravam um efeito fiável. Não queria acrescentar ruído a uma questão sanitária já cheia de promessas fáceis.

Volto agora ao tema porque a tese do alvéolo pequeno ganhou nova tração nas redes sociais. Surge muitas vezes apresentada como uma solução simples: trocar favo convencional por 4,9 mm, deixar as abelhas “regredir” e a varroa deixará de ser o problema que conhecemos. É precisamente essa simplicidade que merece ser examinada.

Vejamos um pouco a história desta tese. A sua divulgação deve bastante ao trabalho e à experiência de campo de Dee Lusby, no Arizona. Perante os problemas provocados pelos ácaros, Dee e Ed Lusby foram reduzindo a dimensão dos alvéolos das suas colónias e acabaram por adoptar os 4,9 mm, dimensão que consideravam mais próxima daquela que as abelhas construíam antes da generalização da fundação de alvéolos maiores. Lusby atribuiu a esta «regressão» um papel importante na capacidade das suas colónias sobreviverem à varroa sem tratamentos acaricidas. Mais tarde, Michael Bush, depois de conhecer os trabalhos de Lusby, experimentou também fundação de 4,9 mm e favo natural. Acabou por dar preferência a este último e relata igualmente ter conseguido manter colónias sem tratamentos, defendendo que no centro do ninho as abelhas constroem naturalmente muitos alvéolos abaixo dos 5 mm [6,7]. São experiências de campo suficientemente interessantes para terem colocado uma boa pergunta à investigação. Mas continuam a ser precisamente isso: experiências e observações de apicultores, nas quais a dimensão do alvéolo aparece juntamente com outras alterações de maneio. Saber se os 4,9 mm, isoladamente, explicavam o controlo da varroa exigia outro tipo de teste.

O blog de Michael Bush merece ser lido, mas não transformado numa bíblia. A apicultura é local e suficientemente idiossincrática para desconfiarmos de receitas universais: aquilo que resulta com ele e com as suas colónias não tem necessariamente de resultar connosco e com as nossas colónias.

Os defensores desta prática apresentam normalmente dois argumentos principais. Num alvéolo menor, a pupa ocuparia proporcionalmente mais espaço, deixando menos espaço livre à varroa fundadora e, sobretudo, à sua descendência. Por outro lado, as abelhas criadas nesses alvéolos seriam ligeiramente menores e poderiam completar o desenvolvimento um pouco mais cedo, roubando à varroa algumas horas preciosas para que as últimas filhas atinjam a maturidade antes da emergência da abelha.

Há alguma biologia que permite compreender de onde nasceu esta ideia. Martin e Kryger encontraram, em abelhas sul-africanas, maior mortalidade de varroas quando obreiras relativamente grandes de Apis mellifera capensis eram criadas nas pequenas células de A. m. scutellata [1]. É um resultado interessante, mas convém reparar num pormenor importante: estava ali criado um desajuste bastante particular entre o tamanho da abelha e o espaço onde ela se desenvolvia. Não significa necessariamente que passar, nas nossas abelhas europeias, de cerca de 5,3 ou 5,4 mm para 4,9 mm produza o mesmo efeito.

E é precisamente aqui que os ensaios de campo começam a arrefecer o entusiasmo.

Ellis e colaboradores compararam colónias utilizando fundação de alvéolo pequeno e não encontraram uma redução significativa da varroa, quer quando esta era medida ao nível da colónia, quer nas abelhas adultas ou na criação [2]. Berry, Owens e Delaplane fizeram três experiências de campo comparando aproximadamente 4,9 mm com 5,3 mm. Também não verificaram que os alvéolos pequenos impedissem o crescimento da população de varroa. Em algumas das medições finais aconteceu mesmo o contrário do que seria esperado [3].

Talvez ainda mais esclarecedor seja o ensaio de Seeley e Griffin com abelhas de origem europeia. Colocaram lado a lado colónias comparáveis, umas exclusivamente em favos de 4,8 mm e outras em favos de 5,4 mm, partiram de infestações semelhantes e acompanharam a evolução da varroa durante o verão. No final, a dimensão dos alvéolos não produziu diferenças na carga de varroa [4]. Referir que Seeley é um investigador de grande prestígio e um defensor das teses da apicultura “natural” ou “darwinista”.

Isto não significa que o tamanho do alvéolo seja biologicamente indiferente à varroa. Essa seria também uma conclusão excessiva. Significa apenas que, quando saímos da explicação teórica e perguntamos se a redução do alvéolo é suficiente para controlar a população do ácaro numa colónia, os resultados experimentais conhecidos não acompanham a promessa [2–4].

Há ainda outro aspecto desta discussão que sempre me pareceu particularmente interessante: os nossos velhos cortiços.

Durante muito tempo as abelhas viveram neles sem lâminas de cera estampada a determinar a dimensão dos alvéolos. Construíam os favos que queriam construir. Se o simples regresso ao favo natural constituísse uma protecção suficientemente forte contra a varroa, seria razoável esperar encontrar aí uma vantagem muito evidente. Ora os cortiços não ficaram, por esse facto, protegidos das consequências da chegada de Varroa destructor. Este argumento, por si só, não demonstra que a dimensão do alvéolo não tenha qualquer efeito. Há demasiadas outras variáveis envolvidas — genética, enxameação, interrupções de criação, vírus, tratamentos ou ausência deles — para fazer uma comparação tão simples. Mas é uma observação difícil de conciliar com a versão mais forte da ideia de que basta devolver às abelhas o seu alvéolo «natural» para resolver uma parte substancial do problema.

Também convém não confundir favo natural com 4,9 mm. Quando constroem livremente, as abelhas não levam consigo uma régua de 4,9 mm. A dimensão dos alvéolos varia dentro do próprio favo, entre colónias e entre populações de abelhas. Transformar um número concreto numa espécie de dimensão natural universal é simplificar uma realidade bastante mais variável.

Há, contudo, uma parte desta história que merece ser preservada. Muitos dos apicultores que trabalham com favo natural ou alvéolo pequeno e relatam sobrevivência sem tratamentos não mudaram apenas a dimensão dos alvéolos. Seleccionam colónias sobreviventes, permitem ou provocam interrupções de criação, renovam favos, aceitam frequentemente maior enxameação e acompanham as colónias de maneira diferente. Quando todas estas coisas aparecem juntas e algumas colónias sobrevivem, atribuir o resultado apenas aos 4,9 mm é dar como demonstrado precisamente aquilo que seria necessário demonstrar.

Por isso não colocaria o alvéolo pequeno no saco das ideias absurdas. Há uma hipótese biológica interessante por detrás dele e há aspectos da relação entre dimensão da abelha, dimensão do alvéolo e reprodução da varroa que continuam a merecer investigação. O estudo de Oddie e colaboradores, comparando colónias susceptíveis e populações naturalmente sobreviventes, é mais um exemplo de que esta relação pode ser bastante mais complexa do que simplesmente «alvéolo pequeno = menos varroa» [5].

Mas uma coisa é procurar compreender essa relação; outra é aconselhar um apicultor a confiar nela para manter a varroa abaixo de níveis perigosos.

Quem quiser experimentar 4,9 mm ou deixar as abelhas construir naturalmente o favo tem aqui, aliás, uma experiência interessante para fazer no seu próprio apiário. Medir realmente os alvéolos construídos, acompanhar regularmente a infestação, comparar colónias e repetir as observações durante mais de um ano ensina provavelmente muito mais do que escolher antecipadamente um dos lados desta discussão.

Até porque a pergunta que verdadeiramente interessa não é se um alvéolo de 4,9 mm incomoda um pouco mais uma varroa. É saber se esse incómodo é suficiente para mudar o destino de uma colónia infestada.

Até agora, os melhores ensaios de campo dizem-nos que não [2–4].

Referências

[1] Martin, S. J. & Kryger, P. (2002). Reproduction of Varroa destructor in South African honey beesApidologie, 33, 51–61. DOI: 10.1051/apido:2001007.

[2] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a varroa mite controlExperimental and Applied Acarology, 47, 311–316.

[3] Berry, J. A., Owens, W. B. & Delaplane, K. S. (2010). Small-cell comb foundation does not impede Varroa mite population growthApidologie, 41, 40–44. DOI: 10.1051/apido/2009049.

[4] Seeley, T. D. & Griffin, S. R. (2011). Small-cell comb does not control Varroa mites in colonies of honeybees of European originApidologie, 42, 526–532. DOI: 10.1007/s13592-011-0054-4.

[5] Oddie, M. A. Y. et al. (2019). Cell size and Varroa destructor mite infestations in susceptible and naturally-surviving honeybee coloniesApidologie, 50. DOI: 10.1007/s13592-018-0610-2.

cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?

Há ideias a que fui regressando neste blogue porque, mesmo quando não estavam suficientemente amadurecidas para se transformarem numa solução recomendável, continuavam a parecer-me boas perguntas. Uma delas acompanha praticamente toda a história que aqui tenho feito da Vespa velutinase encontramos as obreiras com relativa facilidade, mas não encontramos os ninhos de onde elas vêm, porque não utilizar precisamente essas obreiras para levar até ao ninho aquilo que nós não conseguimos lá colocar? Foi assim que comecei, há quase dez anos, a falar dos Cavalos de Troia.

Entre 2017 e 2018 dediquei várias publicações ao assunto. Escrevi sobre atraentes para capturar as velutinas vivas, sobre os biocidas que poderiam transportar, sobre fipronil, permetrina, spinosad, reguladores de crescimento e sobre a possibilidade de utilizar não apenas adulticidas mas também larvicidas [1-8]. Procurei igualmente acompanhar as soluções encontradas pelos apicultores para um problema aparentemente menor, mas decisivo: fazer o produto acompanhar a vespa durante a viagem sem a matar antes de ela chegar ao destino. Numa das técnicas que então apresentei, o insecticida era misturado com um produto que ajudava a mantê-lo aderente ao corpo da velutina. Hoje pode parecer uma solução rudimentar, mas a pergunta continua perfeitamente actual: como fazer uma pequena quantidade de insecticida viajar vários minutos numa vespa, chegar ao ninho e só então produzir o efeito que pretendemos?

Com o tempo fui percebendo que chegar ao ninho era apenas metade do problema. Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição dos alimentos no interior das colónias de V. velutina [9]. Se a vespa transporta um alimento contaminado, a quem o entrega? Quanto chega às larvas e às outras operárias? Um Cavalo de Troia pode matar muito eficazmente o indivíduo que o transportou e ser praticamente irrelevante para os milhares de indivíduos que constituem a colónia. Esta questão ganhou ainda maior interesse quando apareceram os estudos com iscos proteicos contendo fipronil, primeiro noutras vespas sociais e depois directamente em V. velutina. Em 2023, Barandika e colaboradores encontraram uma redução significativa da pressão nos apiários mais atacados utilizando uma concentração muito baixa de fipronil [10-12]. Seguiram-se neste blogue várias publicações sobre concentração, escolha do insecticida, experiências de apicultores e também resultados negativos [13-17].

Mais recentemente voltei ao assunto a propósito do Vespex e da experiência acumulada na Nova Zelândia, procurando comparar duas maneiras bastante diferentes de avaliar o mesmo problema: o risco de utilizar pequenas quantidades de fipronil e o risco ecológico de deixar uma espécie invasora continuar a expandir-se sem instrumentos de controlo suficientemente eficazes [19].

O Cavalo de Troia deixou assim de significar para mim uma receita concreta. Passou a designar uma família de estratégias com um princípio comum: utilizar a extraordinária capacidade da forrageadora para encontrar novamente o seu ninho como sistema de transporte para alguma coisa que pretendemos fazer chegar à colónia. E foi precisamente por isso que me chamou a atenção uma ferramenta espanhola chamada Loydern — Localización Y Destrucción Remota de Nidos. O meu agradecimento ao Paulo, Mel da Bairrada, e ao Domingos Tavares por terem chamado a minha atenção para este dispositivo!

Uma pequena encomenda transportada pela própria velutina

A Loydern não é um insecticida. É uma pequena cápsula vazia que se prende à vespa. O conceito é extraordinariamente simples: captura-se uma velutina, coloca-se a cápsula e liberta-se novamente o insecto. A velutina faz depois aquilo que sabe fazer muito melhor do que nós: encontrar o seu ninho.

Mas a parte mais engenhosa está no sistema utilizado para atrasar a abertura. O pequeno orifício da cápsula é fechado com um disco de batata ou cenoura. À medida que esse material perde água, contrai-se e acaba por se desprender. Segundo o inventor, o processo demora habitualmente duas a três horas [18]. Não há bateria, relógio ou mecanismo electrónico. Há apenas um pequeno pedaço de tecido vegetal a secar. A ideia é que, quando a cápsula finalmente abre, a transportadora já esteja dentro do ninho.

O fabricante refere que a vespa consegue transportar cargas na ordem de algumas dezenas de miligramas, recomendando não ultrapassar cerca de 40 mg para não comprometer demasiado o voo [18]. Os vídeos mostram inequivocamente velutinas a voar com estas cápsulas e, mais interessante ainda, existem imagens de vespas a entrarem num ninho transportando-as. Portanto, a primeira parte do conceito funciona: a velutina consegue fazer a entrega. O que ainda não sabemos suficientemente bem é o que acontece depois.

Por que razão o inventor escolheu a transflutrina?

Em 2021, o inventor procurou entre os insecticidas domésticos contra mosquitos uma substância suficientemente volátil e experimentou a transflutrina existente numa recarga Raid Night & Day que, segundo o rótulo então utilizado, continha 300 mg desta substância activa [19].

A escolha não foi arbitrária. A transflutrina é um piretróide relativamente volátil e existem produtos biocidas que exploram precisamente a sua libertação por vapor [20,21]. Isto distingue-a muito de insecticidas residuais como a cipermetrina ou de substâncias como o fipronil. Num isco proteico com fipronil, é a própria alimentação e transferência de alimento dentro da colónia que distribui o insecticida. Numa cápsula que simplesmente abre, precisamos de outro mecanismo. A volatilidade oferece precisamente a possibilidade de o insecticida se deslocar do ponto onde foi libertado para outras partes do interior do ninho.

O inventor relata ter começado com uma preparação mais concentrada, verificando que as transportadoras eram afectadas demasiado depressa para conseguirem voar, e ter depois reduzido a concentração até conseguir que as vespas transportassem normalmente as cápsulas [19]. Num dos seus vídeos mais interessantes, três velutinas são observadas a entrar num ninho transportando-as e posteriormente verifica-se uma forte inactivação da colónia. O inventor vai mais longe e admite que, em determinadas condições, uma única cápsula poderá ser suficiente para destruir um ninho.

É precisamente neste ponto que a história começa a ficar mais interessante.

Muito divulgado em Espanha, mas pouco testado por quem não o inventou

O Loydern não é uma novidade escondida num canto da Internet. O sistema teve bastante divulgação em Espanha, particularmente nas regiões onde a velutina constitui um problema sério. Os vídeos foram partilhados, discutidos em páginas e grupos ligados à apicultura e à vespa asiática e aparecem em fóruns perguntas de apicultores interessados em saber se realmente funciona.

Perante esta divulgação, fui procurar aquilo que para mim interessa ainda mais do que os vídeos do inventor: o que dizem os apicultores que compraram as cápsulas e experimentaram o sistema independentemente?

E encontrei uma situação curiosa. Há muita gente a falar do Loydern, muitas partilhas dos mesmos vídeos e muitas perguntas sobre o seu funcionamento, mas surpreendentemente poucos relatos independentes suficientemente detalhados para sabermos exactamente o que foi feito e qual foi o resultado. Em algumas discussões, quem apresenta ou divulga o método reconhece inclusivamente que nunca o experimentou. Depois de vários anos de comercialização e divulgação seria razoável esperar encontrar muito mais experiências documentadas caso a relação entre algumas cápsulas e a destruição de um ninho fosse tão simples e reprodutível como os vídeos podem fazer parecer.

O melhor testemunho independente que encontrei está num fórum espanhol dedicado à vespa asiática [22]. Um participante afirma ter utilizado Loydern num caso particularmente interessante porque sabia onde estava o ninho, instalado numa parede de blocos. Segundo o seu relato, ao longo de aproximadamente uma semana enviou cerca de 25 velutinas equipadas com cápsulas. Reconhece que provavelmente nem todas chegaram ao destino, mas no final refere que o ninho ficou inutilizado.

Um testemunho num fórum não é um ensaio científico e não sabemos sequer quantas das 25 cápsulas chegaram efectivamente ao ninho. Mas é interessante precisamente porque o resultado não coincide com a versão mais optimista apresentada pelo inventor. Num caso vemos três velutinas entrarem e é sugerido que uma cápsula poderá eventualmente bastar; no outro foram necessárias cerca de 25 tentativas durante uma semana para obter o resultado pretendido.

A verdade pode estar em qualquer ponto entre estes dois extremos. Talvez naquele caso apenas cinco das 25 vespas tenham conseguido entregar a cápsula. Talvez tenham sido quinze. Talvez a dimensão e a fase de desenvolvimento dos dois ninhos fossem completamente diferentes. Não sabemos. E é precisamente esse “não sabemos” que me parece mais importante do que escolher entre acreditar no inventor ou no utilizador do fórum.

O problema agrava-se quando não sabemos onde está o ninho

Há ainda uma dificuldade que me é particularmente familiar porque já apareceu nas minhas publicações anteriores sobre Cavalos de Troia. O testemunho espanhol refere-se a um ninho conhecido. Isso permite capturar velutinas associadas àquele local e repetir sucessivamente o procedimento.

Num apiário a situação é diferente. As vinte velutinas que encontramos diante das colmeias podem não pertencer todas ao mesmo ninho. Podem vir de dois, cinco ou dez ninhos diferentes. Colocar vinte cápsulas em vinte vespas não significa portanto enviar vinte cápsulas para uma colónia. Podemos estar a distribuir a intervenção por vários ninhos, alguns recebendo uma única transportadora.

Esta questão pode explicar parte da enorme variabilidade que encontramos nos Cavalos de Troia. E significa também que uma afirmação como “30 cápsulas permitem eliminar 30 ninhos” não pode ser retirada simplesmente do número de cápsulas existentes numa embalagem. Antes de fazermos contas económicas precisamos de conhecer duas probabilidades: quantas vespas completam efectivamente a entrega e quantas entregas são necessárias, em média, para destruir um ninho.

Uma experiência relativamente simples resolveria grande parte da discussão

É talvez o aspecto mais frustrante desta história. Não seria particularmente difícil testar seriamente uma ideia tão interessante.

Bastaria trabalhar com algumas dezenas de ninhos previamente localizados, distribuir aleatoriamente as colónias por um grupo controlo e grupos que recebessem diferentes números de cápsulas, confirmar tanto quanto possível a entrada das transportadoras e acompanhar posteriormente a actividade. No final, os ninhos deveriam ser desmontados para verificar adultos, criação, rainha e futuros reprodutores.

Ficaríamos então a saber aquilo que neste momento ninguém parece saber: qual a probabilidade de destruição de um ninho depois de uma, três, cinco, dez ou vinte entregas?

E poderíamos acrescentar outra experiência ainda mais esclarecedora: medir a concentração do insecticida no ar em diferentes pontos do interior do ninho depois da abertura de uma cápsula. Saberíamos finalmente se a volatilidade da transflutrina, que está bem estabelecida do ponto de vista físico-químico, se traduz realmente numa concentração e distribuição suficientes para explicar a mortalidade observada.

Seriam duas experiências relativamente simples que transformariam uma ideia engenhosa numa tecnologia quantificável — ou demonstrariam as suas limitações.

E o preço?

As cápsulas são relativamente baratas. À data desta publicação, um conjunto de 30 cápsulas vazias custa 24,20 €, aproximadamente 81 cêntimos por unidade [23]. O custo do dispositivo não parece, portanto, ser o principal obstáculo.

Mas não faria ainda a conta de 81 cêntimos por ninho. Se uma cápsula bastasse regularmente, seria extraordinariamente barato. Se forem necessárias cinco, passamos para cerca de quatro euros apenas em cápsulas; se forem necessárias vinte, aproximamo-nos dos dezasseis euros, antes de contabilizar produto, tempo de captura e colocação e as tentativas que não chegam ao destino. O testemunho independente das cerca de 25 velutinas mostra precisamente porque o número que interessa economicamente não é o preço da cápsula, mas o número médio de cápsulas utilizadas por ninho efectivamente destruído.

E ficam as questões ambiental e jurídica

A grande promessa ambiental desta técnica parece-me evidente. Se conseguirmos transportar uma quantidade muito pequena de insecticida directamente para o interior de uma colónia invasora e libertá-la apenas ali, a quantidade total de substância activa necessária poderá ser muito inferior à utilizada por técnicas menos dirigidas. Mas esta vantagem também precisa de ser demonstrada. Uma vespa que não regresse ao ninho poderá deixar uma cápsula noutro ponto do ambiente e um ninho destruído mas não localizado continuará no terreno com adultos e criação eventualmente contaminados.

Também juridicamente convém não confundir conceitos. Uma substância activa aprovada, um produto biocida autorizado e um modo de aplicação autorizado são três coisas diferentes. Existem em Portugal biocidas autorizados contra vespas e ninhos de vespas e existem produtos autorizados contendo transflutrina para outras utilizações. Não encontrei, contudo, uma autorização portuguesa para utilizar transflutrina através de cápsulas transportadas por Vespa velutina. A descrição das experiências realizadas pelo inventor tem, portanto, finalidade informativa e de análise e não constitui uma recomendação para preparar ou utilizar qualquer biocida fora das condições da respectiva autorização.

Quase dez anos depois das primeiras publicações que fiz sobre Cavalos de Troia, continuo a achar fascinante a mesma ideia: utilizar uma vespa que sabemos encontrar para chegar a um ninho que não sabemos onde está. O Loydern acrescenta-lhe uma solução particularmente engenhosa: em vez de fazer a velutina transportar o insecticida no alimento ou agarrado ao corpo, damos-lhe uma pequena encomenda com abertura retardada e deixamos que ela faça a entrega.

Depois desta investigação não considero o Loydern uma simples curiosidade. O princípio faz sentido, a vespa consegue transportar a cápsula, a escolha de um insecticida volátil tem fundamento e existe pelo menos um testemunho independente compatível com a destruição de um ninho. Mas também encontrei uma diferença demasiado grande entre a enorme divulgação do sistema em Espanha e a escassez de resultados independentes documentados. E o melhor testemunho que encontrei é bastante menos espectacular do que as afirmações mais optimistas do inventor.

Talvez seja essa, por enquanto, a conclusão mais justa: muito divulgado, pouco testado e suficientemente interessante para merecer ser testado a sério.

Bibliografia

Publicações anteriores no Abelhas à Beira

  1. Abelhas à Beira (2017). Vespa velutina: novo atraente e novo cavalo de tróia.
  2. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a velutina: novas armas.
  3. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: os melhores atraentes.
  4. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: alguns biocidas para os cavalos de troia.
  5. Abelhas à Beira (2017). Vespa asiática: cavalos de tróia validados por estudo realizado no País Basco.
  6. Abelhas à Beira (2017). Luta contra a vespa asiática: o que é um larvicida?
  7. Abelhas à Beira (2018). Eu faço assim: combate à vespa asiática.
  8. Abelhas à Beira (2018). Vespa asiática: nova técnica para produzir cavalos de tróia.
  9. Abelhas à Beira (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia.
  10. Abelhas à Beira (2022). Remoção bem-sucedida de vespas germânicas (Hymenoptera: Vespidae) por isca tóxica.
  11. Abelhas à Beira (2022). Não detecção de contaminação de colmeias de abelhas após uso de isca para vespas com proteína contendo fipronil. Esta publicação apresenta precisamente os dados do Vespex na Nova Zelândia e a procura de resíduos de fipronil em abelhas, larvas, mel e pólen. 
  12. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: avaliação da eficácia dos iscos proteicos com fipronil em estudo espanhol. É a publicação onde apresenta o ensaio de campo com 222 apicultores e a concentração experimental de 0,01% de fipronil. 
  13. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: estamos a utilizar demasiado fipronil nos cavalos de troia?
  14. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos num apiário com pressão elevada.
  15. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: efeito inicial dos iscos proteicos — apêndice. Nesta publicação acrescenta os testemunhos de três apicultores que relataram uma diminuição muito acentuada da predação após a utilização dos iscos. abelhasbeira.WordPress.2026-08-13.xmlXML
  16. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: qual o insecticida adequado para os iscos proteicos? A publicação compara precisamente a escolha do fipronil na Nova Zelândia e no estudo espanhol com outras possibilidades de controlo químico. 
  17. Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os cavalos de troia são ineficazes?
  18. Abelhas à Beira (2026). Armadilha Zero Velutina 2.0: o que é e análise crítica.
  19. Abelhas à Beira (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Publicado em 6 de agosto de 2026. É particularmente importante nesta sequência porque retoma explicitamente os Cavalos de Troia e contrapõe a rejeição ambiental automática do fipronil à sua utilização controlada em iscos proteicos, recorrendo à experiência do Vespex na Nova Zelândia. 

Literatura científica e outras fontes

  1. Barandika, J. F. et al. (2023). Efficacy of Protein Baits with Fipronil to Control Vespa velutina nigrithorax in ApiariesAnimals, 13, 2075.
  2. Poidatz, J. Trabalhos sobre transferência/distribuição alimentar no interior das colónias de Vespa velutina e suas implicações para estratégias de controlo por Cavalo de Troia.
  3. Kishi, S. & Goka, K. (2017). Review of the invasive yellow-legged hornet, Vespa velutina nigrithorax (Hymenoptera: Vespidae), in Japan and its possible chemical controlApplied Entomology and Zoology, 52, 361–368.
  4. Edwards, E. D. et al. Trabalhos sobre utilização de iscos proteicos contendo fipronil no controlo de Vespula na Nova Zelândia e desenvolvimento/utilização do Vespex.
  5. Ward, D. F. et al. Estudo da exposição de colónias de Apis mellifera ao fipronil associada à utilização de Vespex na Nova Zelândia.
  6. Loydern (2021). Experimentando con piretrinas volátiles: el insecticida que alcanza hasta el último rincón del avispero. Relato experimental do inventor sobre utilização de transflutrina.
  7. Loydern. Funcionamiento e instrucciones de uso de las cápsulas Loydern. Documentação técnica do fabricante.
  8. Foro Avispa Asiática, Vespa Velutina y Vespa Soror (2022). Cápsulas Loydern. Discussão e testemunho independente de utilização do sistema.
  9. European Chemicals Agency (ECHA). Transfluthrin — Product Type 18: Insecticides, acaricides and products to control other arthropods. Documentação regulamentar europeia.
  10. Estudos experimentais sobre transflutrina enquanto piretróide volátil e sobre a sua libertação e ação através da fase vapor.
  11. Direção-Geral da Saúde. Produtos biocidas autorizados em Portugal — TP18. Listas de produtos de uso profissional e não profissional consultadas em agosto de 2026.
  12. Loydern. Loja oficial e informação comercial sobre cápsulas e acessórios. Consultado em agosto de 2026.

chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno

De tempos a tempos reaparece nas redes sociais a ideia de que bastaria “chipar” uma vespa velutina, seguir o sinal e chegar ao ninho. A ideia é sedutora: apanha-se uma vespa junto ao apiário, coloca-se-lhe um chip e ela, sem o saber, leva-nos à porta de casa. O problema é que esta frase, tão curta e tão fácil de repetir, mistura tecnologias muito diferentes, com pesos, alcances, custos e limitações também eles muito diferentes.

Já escrevi neste blog acerca da radiotelemetria, do radar harmónico e da termografia. Na altura, a nota principal era simples: encontrar e eliminar cedo os ninhos é uma das poucas medidas capazes de reduzir a pressão das velutinas no território; encontrar esses ninhos, sobretudo quando estão escondidos nas copas das árvores, é a grande dificuldade.

Passados alguns anos, vale a pena voltar ao assunto. Não porque entretanto tenha aparecido um pequeno GPS que se possa colar a uma vespa, mas porque se acumulou alguma evidência sobre aquilo que estas ferramentas conseguem fazer — e também sobre aquilo que não conseguem fazer. E começa a tornar-se evidente outra coisa talvez mais interessante: provavelmente não haverá uma tecnologia que faça tudo. O caminho poderá estar na combinação de várias ferramentas, cada uma utilizada no ponto da procura em que é mais eficaz.

Primeiro: não há aqui um GPS miniatura

Quando se fala em «chip», convém perguntar: chip de quê? Um microchip de identificação, como o de um cão, não serve para localizar uma vespa à distância. Um GPS necessita de energia, antena e electrónica; e aqui o peso rapidamente se torna um problema. O peso médio das obreiras de Vespa velutina varia bastante ao longo da estação, tendo sido registados valores médios entre cerca de 190 mg no início do verão e 386 mg no outono [1]. Acrescentar 100 ou 200 mg a um insecto deste tamanho está, portanto, muito longe de ser uma questão de pormenor.

As técnicas que têm sido testadas com Vespa velutina seguem sobretudo dois caminhos. Num, prende-se à vespa uma etiqueta passiva, extremamente leve, que responde ao sinal de um radar. No outro, prende-se um pequeno emissor alimentado por bateria e o operador segue o seu sinal com receptor e antena direccional. Mais recentemente surgiram também pequenas etiquetas Bluetooth.

Em nenhum destes casos a vespa envia para o nosso telemóvel uma mensagem a dizer «o ninho está aqui». Continua a ser necessário seguir sinais, interpretar direcções, recuperar contactos perdidos e ir reduzindo progressivamente a área de procura.

Esta distinção parece excessivamente técnica, mas evita a primeira má decisão: comprar ou pedir uma tecnologia sem saber exactamente que problema resolve.

Radar harmónico: etiqueta leve, equipamento exigente

No radar harmónico a etiqueta é um pequeno transponder passivo, feito com fio metálico e um díodo. O radar emite uma frequência e procura a resposta no seu harmónico; é por isso que consegue distinguir o sinal da etiqueta de muito do “ruído” existente no ambiente. A grande vantagem está no peso: no trabalho realizado em Itália a etiqueta pesava apenas 15 mg, qualquer coisa como 4 a 7% do peso de uma obreira [1].

Nesse trabalho, esta técnica permitiu localizar ninhos em seis de nove localidades. Em zonas de surto, onde existiam poucos ninhos, a eficácia reportada foi de 75%; em zonas já muito colonizadas foi de 60%. Os ninhos encontrados estavam, em média, a 395 m do local onde as vespas foram capturadas, embora tenham ocorrido distâncias entre 72 e 786 m [1].

Estes números são interessantes, mas não dispensam a leitura das letras pequenas. Vegetação, edifícios, relevo e a própria orientação do voo complicam a detecção. O aparelho tem de ser deslocado para novas posições e, em zonas com vários ninhos, diferentes vespas podem apontar em direcções diferentes.

Ou seja: a etiqueta é leve; o trabalho não é.

Radiotelemetria: mais portátil, mas a vespa carrega uma bateria

A radiotelemetria resolve de outro modo a questão. A etiqueta emite um sinal VHF e o operador, com uma antena direccional, procura a direcção onde esse sinal é mais forte. É uma técnica mais portátil e capaz de trabalhar em paisagens heterogéneas, mas coloca uma carga muito maior sobre a obreira.

No estudo publicado por Kennedy et al. em 2018, os transmissores pesavam 280 mg. Foram marcadas oito obreiras e seguidas entre 45 e 1331 m; cinco trajectos conduziram a ninhos até então desconhecidos. As restantes não falharam necessariamente por causa do sinal: duas terminaram em locais inacessíveis e uma vespa abrigou-se durante chuva intensa [2].

É uma demonstração muito boa de que a técnica funciona. Não demonstra que qualquer vespa, em qualquer altura do ano, possa carregar qualquer emissor. Os próprios investigadores seleccionaram obreiras mais pesadas. Quanto maior for a proporção entre o peso do emissor e o peso da vespa, maior o risco de a nossa ferramenta começar a escolher as vespas que consegue seguir, em vez de representar as vespas que queremos localizar.

Entretanto, a tecnologia evoluiu. E aqui aparece um exemplo recente que merece atenção.

Em Janeiro de 2026, a Biosecurity New Zealand comunicou estar a utilizar, na operação de erradicação da velutina em Auckland, transmissores de rádio com menos de 160 mg. As vespas eram atraídas a estações de alimentação, capturadas, marcadas e posteriormente seguidas através do sinal. Esta estratégia tinha já contribuído para encontrar três ninhos [8].

Mas há um pormenor ainda mais interessante: depois de o rastreio reduzir a área de procura, foram utilizados drones equipados com câmaras térmicas para ajudar a precisar a localização dos ninhos.

Começamos aqui a perceber que o progresso pode não estar na invenção de um aparelho que faça tudo, mas na utilização sucessiva de ferramentas diferentes.

Um exemplo recente: o VespaTracker

O aparecimento de equipamentos comerciais cada vez mais leves merece também atenção. O VespaTracker é um exemplo. A etiqueta VESPA-NANO anunciada pelo fabricante pesa 125 mg, mede 44,9 × 4,1 × 2,7 mm e funciona através de Bluetooth de baixa energia (BLE). Depois de activada, a bateria terá uma autonomia anunciada de cerca de quatro horas. O sinal pode ser seguido através de uma aplicação instalada no telemóvel; o fabricante anuncia cerca de 350 m com smartphone Android e até 500 m utilizando o receptor direccional RANGE-PRO, em condições ideais [3].

Comparados com os emissores de 280 mg utilizados em 2018, 125 mg representam um avanço muito significativo na miniaturização. E o facto de a operação neozelandesa estar já a utilizar transmissores abaixo dos 160 mg mostra que entrámos numa classe de peso que pode ter utilização operacional.

Mas isto não resolve automaticamente a questão da carga.

Tomando como referência os valores médios de 189 a 386 mg registados para as obreiras, uma etiqueta de 125 mg poderá representar aproximadamente 32% do peso de uma obreira de 386 mg, mas 66% do de uma obreira de 189 mg.

Não será carga demais para a mula?

Talvez seja para algumas e não para outras. É precisamente isso que importa determinar experimentalmente. Sobretudo se pretendermos marcar obreiras precoces, geralmente mais pequenas.

Convém também não confundir o alcance anunciado com uma garantia de rastreio. Bluetooth não transforma a etiqueta num GPS. Entre árvores, relevo, casas e outros obstáculos, o operador continuará a ter de aproximar-se, interpretar direcção e intensidade do sinal e, finalmente, confirmar o ninho. Quatro horas de autonomia podem ser suficientes para uma procura rápida, mas deixam menos margem para hesitações, perda de sinal ou terreno inacessível.

Até ao momento não encontrei uma publicação científica independente que avalie especificamente este equipamento em Vespa velutina: proporção de vespas que retomam voo normal, taxa de chegada ao ninho, perda de etiquetas e desempenho em diferentes paisagens. Isso não significa que o equipamento não funcione. Significa apenas que devemos distinguir uma tecnologia comercialmente disponível de uma tecnologia cuja eficácia operacional já foi demonstrada independentemente.

Uma demonstração no terreno, em condições semelhantes às de cada território, continua a valer mais do que o alcance anunciado numa ficha técnica.

Uma câmara pode avisar; não leva ninguém ao ninho

Entretanto surgiu outra família de ferramentas: câmaras e sensores que procuram reconhecer automaticamente a velutina numa estação de isco ou à entrada de um apiário. Aqui a pergunta já não é «para onde voltou esta obreira?». É outra: «há uma velutina aqui e consigo sabê-lo depressa?».

O projecto VespAI constitui provavelmente um dos exemplos mais interessantes. Combina uma estação de monitorização, câmara, computador compacto e um modelo de visão computacional. Nos ensaios publicados em 2024, o sistema conseguiu distinguir Vespa velutina de Vespa crabro e de outros insectos com um desempenho muito elevado, acima de 99% na medida utilizada pelos investigadores, podendo ainda enviar automaticamente as imagens para confirmação [4].

Para alerta precoce isto pode ser muito importante, sobretudo onde a espécie ainda não está instalada ou onde se pretende detectar rapidamente a sua entrada numa nova área.

Mas uma câmara que fotografa uma velutina não conhece o endereço do ninho.

Pode dar o alarme, conservar a imagem e dizer onde a vespa foi observada. Para passar daí à eliminação continua a ser necessária uma cadeia de resposta: confirmar a identificação, localizar o ninho e intervir em segurança.

Há também sensores ópticos baseados no batimento das asas e propostas de detecção acústica. Num estudo com sensor óptico e aprendizagem automática, a exactidão para Vespa velutina foi em média de 74,5%, em condições laboratoriais [5]. É suficiente para justificar mais investigação; não é suficiente para tratar cada sinal como uma velutina confirmada num apiário português.

Mais recentemente, uma equipa testou a detecção acústica do voo pairado das velutinas junto aos apiários. O algoritmo separou os sons das vespas, das abelhas e do ruído de fundo com 98,7% de exactidão em pouco menos de uma hora de gravações. É um resultado muito interessante para sistemas de alerta passivo. Os próprios autores assinalam, contudo, que falta testar o método em dados contínuos e de longa duração [6].

Detectar uma velutina durante uma sessão experimental não é ainda o mesmo que vigiar automaticamente um apiário durante toda uma época.

E se levarmos os olhos — e os ouvidos — para o ar?

Os drones acrescentam outra possibilidade. Podem transportar câmaras convencionais ou térmicas, sistemas de inteligência artificial e até auxiliar a recepção ou triangulação de sinais emitidos pelas etiquetas.

Já existem experiências de procura automática de ninhos através de drones e visão computacional, assim como trabalhos que combinam radiotelemetria e UAV. E a experiência operacional da Nova Zelândia mostra talvez a aplicação mais intuitiva: primeiro seguir a vespa e reduzir a área de busca; depois utilizar o drone e a termografia para procurar dentro dessa área.

O drone, portanto, também não é a solução. É uma plataforma onde podemos colocar algumas das soluções.

E as câmaras térmicas?

Também aqui convém evitar duas simplificações. A câmara térmica não «vê através das árvores». Procura uma diferença de temperatura entre o ninho e o ambiente. Essa diferença tende a ser mais favorável antes do nascer do sol, quando há mais vespas no ninho e o ambiente está mais fresco.

Folhagem, radiação solar, temperatura do ar, distância e resolução da câmara influenciam muito o resultado [7].

Por isso, a termografia parece particularmente interessante para confirmar ou estreitar uma zona já indicada por observação, triangulação, radar ou telemetria. É uma ferramenta complementar. Utilizá-la como se fosse uma peneira universal para um vale inteiro é pedir-lhe mais do que a física permite.

Onde estas tecnologias podem fazer mais diferença

Há ainda uma distinção importante. O valor destas tecnologias não é necessariamente o mesmo em todos os territórios.

Numa região densamente colonizada, onde existem muitos ninhos, seguir uma vespa pode conduzir-nos a um ninho e deixar dezenas ou centenas por encontrar. Mas numa frente de invasão, onde se procura o primeiro ou um dos primeiros ninhos, localizar e destruir rapidamente uma única colónia pode ter um valor completamente diferente.

É provavelmente neste contexto que algumas destas tecnologias mostram melhor o seu potencial. Não apareceu o pequeno chip que colocamos numa vespa e nos entrega as coordenadas do ninho. O que está a aparecer é algo menos espectacular, mas provavelmente mais útil: uma sequência de ferramentas que se complementam.

Uma câmara ou um sensor podem dizer-nos que a velutina chegou pela primeira vez ao território. Uma estação de alimentação permite capturá-la e observar as viagens. A radiotelemetria ou o radar indicam-nos para que lado regressa. A triangulação vai reduzindo a área de procura. Um drone ou uma câmara térmica podem ajudar a encontrar, entre algumas dezenas de árvores, aquela onde está o ninho. Finalmente, uma equipa no terreno confirma a localização e elimina-o.

Nenhuma destas ferramentas precisa de fazer tudo. Basta que cada uma faça suficientemente bem a parte do trabalho para que foi concebida.

O melhor “chip” é uma resposta organizada

O ponto central não mudou desde as publicações anteriores: eliminar cedo um ninho é mais importante do que andar a combater, uma a uma, as obreiras que aparecem à frente das colmeias. Mas localizar um ninho escondido numa copa, num pinhal, entre casas ou num vale não é um trabalho que se resolva apenas com boa vontade e uma aplicação no telemóvel.

O radar harmónico favorece uma etiqueta extremamente leve, mas exige equipamento especializado. A radiotelemetria oferece mobilidade e resultados convincentes em paisagens complicadas, mas obriga a lidar com uma etiqueta relativamente pesada para o insecto e necessita de operadores experientes. As câmaras, os sensores acústicos e a inteligência artificial podem multiplicar os pontos de vigilância, mas não substituem o rastreio até ao ninho. Os drones podem ampliar enormemente os nossos olhos, mas precisam de saber aproximadamente onde devem olhar. E os novos equipamentos comerciais Bluetooth parecem suficientemente interessantes para merecer ensaios independentes em condições reais.

Se há investimento sensato a discutir, ele não é o de cada apicultor comprar um «chip para velutinas».

É o de as entidades que coordenam vigilância, controlo e protecção civil disporem de equipas treinadas, diferentes ferramentas adequadas ao território e, sobretudo, capacidade para escolher rapidamente a ferramenta certa para cada etapa e agir depois de receberem um alerta.

Não há aqui gadgets milagrosos. Há tecnologias cada vez melhores, com virtualidades e limites, que deverão estar ao serviço de equipas coordenadas — não ao serviço da ilusão de que cada apicultor terá de resolver sozinho um problema colectivo.

Fontes

  1. Lioy, S. et al. (2021). Tracking the invasive hornet Vespa velutina in complex environments by means of a harmonic radar. Scientific Reports, 11, 12143.
  2. Kennedy, P. J. et al. (2018). Searching for nests of the invasive Asian hornet (Vespa velutina) using radio-telemetry.
  3. VespaTracker (consultado em 21-08-2026). Especificações técnicas do VESPA-NANO e RANGE-PRO. Informação do fabricante; não constitui validação científica independente.
  4. O’Shea-Wheller, T. A. et al. (2024). VespAI: a deep learning-based system for the detection of invasive hornets. Communications Biology, 7, 354.
  5. Ribas-Marquès, E. et al. (2023). Automated detection of the yellow-legged hornet using an optical sensor with machine learning.
  6. Hall, H. et al. (2025). Remote and automated detection of Asian hornets (Vespa velutina nigrithorax) at an apiary, using spectral features of their hovering flight sounds.
  7. Lioy, S. et al. (2021). Viability of thermal imaging in detecting nests of the invasive hornet Vespa velutina.
  8. Biosecurity New Zealand — Ministry for Primary Industries (2026). Hornet tracking technology proving effective. Informação operacional publicada em 20 de Janeiro de 2026.

CO2 contra a varroa: quando a juventude do investigador contrasta com a maturidade do projecto

Há alguns dias começou a circular nas redes sociais uma notícia com todos os ingredientes para despertar simultaneamente curiosidade e desconfiança: um jovem de 17 anos, na Florida, teria desenvolvido um aparelho que utiliza dióxido de carbono para eliminar a Varroa destructor, sem acaricidas, a um custo quase insignificante e com resultados extraordinários em dezenas de colmeias. Como frequentemente acontece, os títulos vão mais depressa do que a ciência. Seria fácil colocar tudo isto na gaveta das notícias demasiado boas para serem verdade. Neste caso, porém, seria igualmente precipitado fazê-lo. Por detrás do exagero existe um trabalho real, desenvolvido ao longo de vários anos, assente numa hipótese biologicamente plausível e que já chegou a ensaios de campo com dezenas de colónias.

O jovem chama-se Aakash Manaswi e o princípio que explora é relativamente simples: abelhas e Varroa não toleram da mesma maneira atmosferas muito enriquecidas em dióxido de carbono. Trabalhos anteriores já tinham mostrado que concentrações elevadas de CO₂ podem provocar o desprendimento das varroas das abelhas e aumentar a sua mortalidade. A originalidade de Manaswi está sobretudo na tentativa de transformar este fenómeno fisiológico num método utilizável numa colmeia.

De uma experiência de estudante a 60 colónias

O percurso começou há cerca de três anos. Em 2024, Manaswi procurou determinar se existia uma combinação de concentração e tempo de exposição ao CO₂ capaz de afetar fortemente a Varroa sem provocar danos equivalentes nas abelhas. Em 2025 o projeto passou para 45 colónias e é desta fase que provém a alegação, divulgada pelo Young Scientist Lab, de uma redução da Varroa superior a 96%. Desenvolveu também um sistema de visão artificial para identificar e contar os ácaros caídos.

Em 2026 deu outro salto: no Regeneron International Science and Engineering Fair apresentou um ensaio com 60 colónias durante dez semanas, comparando o CO₂ com acaricidas convencionais e avaliando também indicadores de saúde das abelhas. O projeto recebeu o primeiro prémio na categoria Animal Sciences e o Peggy Scripps Award for Science Communication.

Portanto, não estamos perante alguém que colocou CO₂ numa colmeia, viu cair algumas varroas e publicou um vídeo na Internet. Existe um programa experimental continuado. Mas também não estamos ainda perante um tratamento cientificamente validado. É entre estas duas afirmações que convém colocar esta história.

O «Mite Blower»

Uma entrevista recente de Manaswi ao Beekeeping Today Podcast permitiu conhecer alguns pormenores importantes. O dispositivo, a que chama Mite Blower, coloca-se sobre a colmeia e distribui o gás através de nove tubos perfurados posicionados sobre os quadros. Depois de testar dez concentrações, Manaswi chegou a uma mistura com aproximadamente 30% de CO₂, aplicada a cerca de 2 litros por minuto durante aproximadamente um minuto.

Não se trata simplesmente de «sufocar a Varroa». O interesse está na diferente susceptibilidade fisiológica do ácaro e da abelha à hipercapnia: aparentemente existe uma janela em que a Varroa é fortemente afetada enquanto a abelha ainda tolera a exposição.

Há, contudo, uma pergunta que qualquer apicultor familiarizado com a biologia da Varroa fará imediatamente: e as varroas que estão dentro da criação operculada?

O opérculo continua no caminho

Esta talvez seja a informação mais importante de toda a história. Questionado diretamente, Manaswi reconhece que o método atua essencialmente sobre as varroas foréticas; não resolve o problema das varroas protegidas dentro dos alvéolos operculados.

Isto obriga a olhar com prudência para o número mágico dos 96%. Numa colónia com criação abundante, uma grande proporção da população de Varroa pode encontrar-se precisamente onde o tratamento não chega. Eliminar 96% das varroas presentes sobre as abelhas adultas não significa necessariamente eliminar 96% da população total existente na colónia.

Manaswi reconhece, aliás, que ainda não experimentou o sistema numa colónia sem criação. Essa poderá ser uma das experiências mais esclarecedoras: qual é a eficácia do CO₂ quando praticamente toda a população de Varroa está exposta?

O investigador propõe aplicações aproximadamente de quatro em quatro semanas. Também aqui haverá muito para esclarecer, porque a Varroa transita continuamente entre a fase protegida na criação e a fase de dispersão sobre as abelhas. Se o CO₂ atuar essencialmente sobre esta última, o intervalo ótimo deverá resultar dessa dinâmica. Pode mesmo acontecer que esta tecnologia venha a ter particular interesse durante uma interrupção de criação, natural ou provocada, quando praticamente todas as varroas ficam temporariamente expostas. Por enquanto, é apenas uma hipótese, mas uma hipótese que me parece particularmente interessante.

Resultados promissores, mas ainda não publicados

O projeto de 2026 comparou também indicadores de saúde das abelhas submetidas a CO₂ com os das colónias tratadas com acaricidas, recorrendo inclusivamente a análise histológica. Segundo os resultados apresentados no ISEF, o CO₂ conseguiu um controlo da Varroa comparável ou superior aos acaricidas utilizados no ensaio, enquanto as abelhas tratadas com CO₂ apresentaram melhores indicadores de saúde. Estas colónias teriam produzido também mais mel.

São resultados interessantes, mas há uma palavra que importa conservar: apresentados.

Até à data, não consegui localizar uma publicação científica sujeita a revisão por pares que descreva estes ensaios. O próprio Manaswi afirmou que pretende publicar os resultados. Não podemos ainda, portanto, escrutinar os dados completos, a análise estatística, a variabilidade entre colónias e, sobretudo, a forma exata como foi calculada a eficácia anunciada. Isto não diminui o mérito do trabalho; apenas coloca a evidência no lugar onde atualmente se encontra.

E um tratamento pode mesmo custar quase nada?

Este é outro aspeto da notícia que merece atenção porque os números são impressionantes. Manaswi refere ter utilizado uma garrafa com cerca de 200 libras de gás, adquirida por aproximadamente 200 dólares, estimando que permita cerca de 15 500 tratamentos. A divisão é simples:

200 dólares ÷ 15 500 = cerca de 0,013 dólares por tratamento, pouco mais de um cêntimo de dólar por colmeia.

Considerando apenas o gás consumido, é um custo extraordinariamente baixo e explica as comparações com acaricidas que podem custar vários dólares por colmeia.

Mas o custo do gás não é o custo do tratamento.

É necessária uma garrafa, um regulador de pressão e caudal, mangueiras e o dispositivo de distribuição. A garrafa tem de ser comprada ou alugada, transportada e recarregada; há ainda o tempo necessário para colocar o equipamento, tratar a colmeia e passar à seguinte. Uma garrafa de 200 libras também dificilmente será prática num apiário, razão pela qual o próprio Manaswi aponta garrafas de 15–20 libras como solução mais adequada no campo.

E falta uma variável decisiva: quantas aplicações serão necessárias por ano? Se forem feitas de quatro em quatro semanas durante o período de criação, o custo económico terá de considerar várias intervenções.

Não será, portanto, correto concluir que tratar uma colmeia custa um cêntimo. O que estes números mostram é algo diferente e ainda assim muito interessante: o CO₂ consumido em cada tratamento poderá custar apenas alguns cêntimos por colmeia. Equipamento, amortização, transporte e mão-de-obra terão depois de ser acrescentados. Mesmo assim, um equipamento reutilizável associado a um consumível tão barato poderá apresentar uma economia muito favorável, particularmente quando utilizado em muitas colónias.

Uma ideia que não nasceu do nada

Há outra razão para não descartarmos o projeto. A sensibilidade da Varroa ao dióxido de carbono já tinha sido observada por outros investigadores. Kozak e colaboradores estudaram os efeitos de atmosferas enriquecidas em CO₂ sobre abelhas e Varroa. Bahreini e colaboradores publicaram em 2015 The Potential of Bee-Generated Carbon Dioxide for Control of Varroa Mites. Mais recentemente, Onayemi e colaboradores mostraram que concentrações elevadas de CO₂ durante o inverno aumentavam a mortalidade de Varroa destructor.

Existe, portanto, uma sequência científica anterior ao Mite Blower:

CO₂ elevado → Varroa particularmente sensível → diferença de tolerância entre parasita e hospedeiro → possibilidade de transformar essa diferença num tratamento.

É nesta última etapa que entra Manaswi.

Nem milagre nem curiosidade

Talvez a pior maneira de olhar para este trabalho seja escolher um dos dois extremos que habitualmente dominam estas discussões. Num deles, um adolescente descobriu um gás quase gratuito que elimina 96% das varroas e vai substituir os acaricidas. No outro, tudo não passa de mais uma história sensacionalista sem interesse para a apicultura.

A informação disponível não sustenta nenhuma destas conclusões.

Há um mecanismo biologicamente plausível, investigação independente anterior, três anos de desenvolvimento e ensaios com 45 e depois 60 colónias. Há ainda uma característica economicamente muito atraente: o consumível poderá custar apenas alguns cêntimos por aplicação. Mas faltam a publicação científica, os dados completos e a reprodução independente dos resultados. E falta separar inequivocamente a eficácia sobre a Varroa forética da eficácia sobre a população total existente na colónia.

Aos 17 anos, Aakash Manaswi ainda não demonstrou que encontrou uma nova solução para a varroose. Mas fez algo suficientemente importante para merecer atenção: transformou uma observação fisiológica numa hipótese de tratamento e levou essa hipótese até dezenas de colmeias.

Agora vem a parte mais exigente: publicar os dados, permitir que sejam escrutinados e conseguir que outros investigadores repitam a experiência.

Se passar essas provas, voltaremos a falar do CO₂. E provavelmente já não como uma curiosidade.

ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou?

Ontem, a propósito da publicação anterior, um apicultor deixou uma observação que me pareceu suficientemente interessante para aprofundar e sistematizar nesta publicação o que se sabe sobre o assunto. Tinha tratado algumas colmeias com ácido fórmico em maio. No final de junho, durante a cresta, trouxe por engano num sobreninho um quadro com criação e aproveitou a oportunidade para procurar Varroa. Encontrou apenas dez fundadoras adultas. O que verdadeiramente lhe chamou a atenção foi outra coisa: as dez estavam sozinhas nos alvéolos, sem descendência. A criação estava já suficientemente desenvolvida, com os olhos das pupas pigmentados e o corpo a começar a escurecer. A pergunta que colocou foi simples: tinha ouvido dizer que o ácido fórmico, mesmo quando não mata as varroas que estão dentro da criação operculada, pode torná-las estéreis. Poderia ser esta a explicação?

A observação merece atenção porque entre o tratamento de maio e aquilo que foi visto no final de junho decorreram várias semanas. As fundadoras encontradas não podiam ter permanecido desde maio naqueles mesmos alvéolos. Teriam sobrevivido ao tratamento, passado novamente pela fase de dispersão sobre as abelhas adultas e entrado posteriormente em nova criação. E a fase de desenvolvimento das pupas também é importante. A fundadora entra no alvéolo pouco antes da operculação e inicia normalmente a postura cerca de 60–70 horas depois, seguindo-se novos ovos aproximadamente a intervalos de 30 horas. Quando os olhos da pupa estão já bem pigmentados e o corpo começa a escurecer, uma Varroa que esteja a reproduzir normalmente deverá apresentar descendência facilmente observável. Encontrar apenas a fundadora significa, portanto, que naquele alvéolo a reprodução não ocorreu normalmente.

Da direita para a esquerda: ovo; protoninfa; deutoninfa masculina (em baixo); deutoninfa feminina (em cima); macho adulto (em baixo);fêmea adulta (em cima). Sobre o ciclo de vida e reprodução da varroa ver https://abelhasabeira.com/o-ciclo-de-vida-do-acaro-varroa-uma-actualizacao/)

Encontrar uma fundadora sem descendência não tem, por si só, nada de extraordinário. Há Varroas que não reproduzem num determinado ciclo e a percentagem varia bastante entre colónias e populações. Há também colónias com características de resistência nas quais a reprodução da Varroa é mais frequentemente interrompida. Encontrar dez fundadoras e estarem as dez sozinhas é uma observação diferente, embora dez continue a ser uma amostra pequena e não exista neste caso uma colónia controlo que permita saber qual seria a taxa de não reprodução sem o tratamento.

Creio que esta ideia sobre a esterilização das varroas por acção do ácido fórmico tem origem na história do MiteGone, sistema de libertação prolongada de ácido fórmico desenvolvido por Bill Ruzicka. E vale a pena contar esta história com algum cuidado porque a afirmação de que o fórmico “esteriliza 80% das Varroas” acabou por circular durante anos, mas a sua origem é menos simples do que a frase sugere.

Em 2000, Adony Melathopoulos, Bill Ruzicka e John Gates realizaram um ensaio comparando diferentes formas de utilização do MiteGone, ácido fórmico a 65%, com Apistan e colónias não tratadas. O ensaio mostrou que a colocação vertical dos dispensadores proporcionava um controlo apreciável da Varroa, enquanto a colocação horizontal funcionava bastante pior. Mas esse trabalho não estudou a fertilidade das fundadoras. Portanto, o ensaio original do MiteGone não demonstra qualquer esterilização.

A origem do conhecido número 80% contra 20% aparece mais tarde. Ruzicka relata que em 2007, na Florida, examinou criação de colónias submetidas ao tratamento. Na criação que já se encontrava operculada antes da aplicação, aproximadamente 80% das fundadoras apresentavam reprodução. Posteriormente foram examinados cerca de 500 alvéolos que tinham sido operculados cinco dias depois do início do tratamento e apenas cerca de 20% das Varroas apresentavam reprodução. Em 2020 repetiu a observação num pequeno número de colónias e afirma ter voltado a encontrar aproximadamente a mesma diferença. Daqui terá resultado a afirmação de que uma grande proporção das Varroas sobreviventes ao MiteGone ficaria “infertile”. MiteGone — documentação técnica

Imagem da aplicação do Mitegone (medicamento comercializado no Canadá).

É uma observação interessante, sobretudo porque o protocolo utilizado procurava criação suficientemente desenvolvida para que a reprodução pudesse ser avaliada. Curiosamente, aproxima-se bastante do relato que originou esta publicação: fundadoras presentes, criação suficientemente avançada e ausência de descendência. Mas há uma diferença importante. Os resultados de Ruzicka não foram, tanto quanto consegui encontrar, publicados num trabalho científico independente e revisto por pares que tivesse acompanhado individualmente as Varroas depois da exposição. Encontrar uma fundadora sem descendência permite dizer que ela não reproduziu naquele ciclo; não permite concluir que ficou definitivamente estéril.

Há razões fisiológicas para considerar plausível algum efeito reprodutivo. Bolli, Bogdanov, Imdorf e Fluri mostraram já em 1993 que o ácido fórmico provoca uma forte diminuição do consumo de oxigénio da Varroa, chegando a respiração praticamente a cessar em determinadas condições de exposição. Outros trabalhos reforçaram posteriormente a importância da interferência do fórmico com a respiração celular e com a produção de energia. Uma Varroa pode, portanto, sobreviver a uma determinada exposição sem necessariamente sair dela nas mesmas condições fisiológicas em que entrou. Numa reprodução dependente de uma sequência temporal apertada, uma perturbação suficientemente prolongada pode ser suficiente para perder um ciclo reprodutivo sem que a fundadora tenha necessariamente ficado estéril para sempre.

É precisamente aqui que a literatura científica independente obriga a moderar o entusiasmo pela hipótese.

Ao procurar trabalhos que acompanharam as populações depois de tratamentos com fórmico encontramos repetidamente efeitos que se prolongam para além da aplicação. Plamondon e colaboradores, por exemplo, acompanharam 45 colónias submetidas a diferentes tratamentos. Uma semana depois de retirado o Formic Pro, a queda média diária era muito inferior nas colónias anteriormente tratadas com fórmico e, algumas semanas mais tarde, quando foi utilizado amitraz para avaliar a população residual, continuavam a existir significativamente menos Varroas. Ao mesmo tempo, os próprios autores observam que durante esse intervalo as sobreviventes tiveram oportunidade para voltar a reproduzir-se. Há portanto uma recuperação da população, o que combina mal com uma interpretação em que a generalidade das sobreviventes ficou definitivamente estéril. Plamondon et al. (2024)

Também sabemos que parte deste efeito prolongado pode ter uma explicação mais simples. Estudos posteriores aos tratamentos continuam a encontrar Varroas mortas dentro da criação. Uma fundadora atingida pelo fórmico pode morrer mais tarde, a sua descendência pode ser atingida e os ácaros mortos podem permanecer dentro do alvéolo até à emergência da abelha. Mortalidade imediata, mortalidade retardada, morte da descendência e perturbação da reprodução podem, portanto, contribuir simultaneamente para aquilo que observamos depois do tratamento.

Mas talvez o argumento que mais me faz hesitar perante a afirmação da esterilização venha daquilo que não encontramos.

Uma revisão recente e abrangente da utilização do ácido fórmico contra Varroa destructor, publicada em 2025 por Kosch, Mülling e Emmerich, percorreu décadas de trabalhos sobre este princípio ativo, a sua eficácia, diferentes formas de aplicação e a possibilidade de aparecimento de resistência. A esterilização das fundadoras sobreviventes não aparece estabelecida como um dos mecanismos demonstrados que explicam a eficácia do fórmicoKosch, Mülling & Emmerich (2025)

Esta ausência não demonstra que o fenómeno não exista. Mas também não deve ser ignorada.

O ácido fórmico é utilizado contra a Varroa há várias décadas, em muitos países, e foi objeto de numerosos ensaios independentes. A reprodução do ácaro também tem sido intensamente estudada. Se uma proporção muito elevada das Varroas sobreviventes ao tratamento — 80%, como chegou a ser afirmado — ficasse permanentemente estéril, seria razoável esperar que um efeito desta dimensão tivesse aparecido repetidamente em trabalhos independentes e acabasse incorporado nas revisões sobre o mecanismo de ação do fórmico. Até agora não encontrei essa confirmação.

Isto altera bastante a forma como interpreto os 80% contra 20% observados por Ruzicka. Não vejo razão para os rejeitar, mas também não vejo fundamento suficiente para transformar “não reproduziu naquele alvéolo” em “ficou permanentemente estéril”. O tratamento estava a decorrer quando foi observada aquela forte redução da reprodução. As fundadoras poderiam estar metabolicamente perturbadas, a postura poderia ter sido atrasada, a descendência poderia ter morrido ou algumas fundadoras poderiam posteriormente recuperar a capacidade reprodutiva. Todas estas situações produziriam exatamente aquilo que foi observado: uma fundadora sozinha.

É por isso interessante fazer um pequeno exercício de dinâmica populacional. Partindo das mesmas 100 Varroas vivas depois do tratamento podemos imaginar três situações. Na primeira, todas continuam férteis. Na segunda, apenas 20% reproduzem imediatamente e as restantes 80% perdem temporariamente a capacidade de reprodução, recuperando-a mais tarde. Na terceira, mais extrema, essas 80% ficaram permanentemente inférteis.

As três populações começam exatamente com as mesmas 100 Varroas. Se nesse momento avaliássemos o tratamento contando apenas os ácaros vivos, seriam indistinguíveis. Ao longo dos meses deixam rapidamente de o ser. Uma fundadora que perde um ciclo não deixa apenas de produzir as filhas que nasceriam nesse alvéolo; também deixam de existir as descendentes que essas filhas produziriam posteriormente. É por isso que mesmo uma interrupção temporária da reprodução pode deixar uma marca populacional que persiste bastante depois de a fundadora recuperar.

Este exercício não pretende prever quantas Varroas existirão numa colónia seis meses depois. A disponibilidade de criação, a mortalidade natural, a preferência pela criação de zângão, a reinfestação e muitas outras variáveis tornam a dinâmica real bastante mais complexa. Serve apenas para mostrar que duas Varroas vivas não têm necessariamente o mesmo significado para a população futura se uma estiver a reproduzir e a outra não.

E regressamos assim às dez fundadoras encontradas pelo apicultor no final de junho.

É uma observação compatível com a hipótese de um efeito reprodutivo posterior ao tratamento e, por isso, merece ser registada. Torna-se ainda mais interessante quando sabemos que Ruzicka descreveu anteriormente uma redução muito grande da reprodução durante tratamentos prolongados com fórmico. Mas não permite concluir que aquelas dez Varroas tenham sido esterilizadas pelo tratamento realizado semanas antes. Poderiam existir características particulares daquela colónia, infertilidade temporária espontânea ou outros fatores que não conhecemos.

Depois desta análise sistemática, portanto, ficaria a meio caminho entre rejeitar a ideia e aceitá-la.

Há fundamento para suspeitar que o efeito do ácido fórmico sobre uma população de Varroa possa ser mais complexo do que simplesmente matar ou não matar. O produto entra na criação operculada, atinge fundadoras e descendentes, pode produzir mortalidade retardada e existem observações sugestivas de uma redução do sucesso reprodutivo das sobreviventes. O que não encontrei foi evidência independente suficientemente forte para afirmar que uma elevada proporção dessas sobreviventes fica permanentemente estéril. A experiência que falta nem sequer é difícil de imaginar: identificar fundadoras, expô-las a concentrações subletais conhecidas de ácido fórmico, confirmar a sobrevivência e permitir-lhes posteriormente entrar em nova criação, acompanhando a reprodução durante um ou vários ciclos. Se recuperarem rapidamente, teremos sobretudo uma interrupção temporária; se continuarem sem reproduzir, a hipótese de esterilidade ganhará finalmente outro peso.

E o facto de, depois de várias décadas de utilização e investigação do ácido fórmico, essa demonstração continuar ausente também é informação.

Talvez por isso a pergunta inicial — “o ácido fórmico esteriliza as Varroas?” — seja demasiado fechada. Neste momento parece-me mais interessante perguntar até que ponto uma exposição subletal ao fórmico compromete temporariamente a reprodução das Varroas que sobrevivem e durante quanto tempo esse efeito persiste.

Até lá, continuarei a considerar a expressão “comprometimento do sucesso reprodutivo” mais adequada do que “esterilização”.

Porque talvez a eficácia de um tratamento não esteja completamente descrita pela pergunta habitual — quantas Varroas matou?

Pode haver outra igualmente interessante: que estado ficaram as que não matou?

Referências principais

Bolli, H.K., Bogdanov, S., Imdorf, A. & Fluri, P. (1993). Zur Wirkungsweise von Ameisensäure bei Varroa jacobsoni Oud und der Honigbiene (Apis mellifera L.)Apidologie, 24, 51–57.

vanEngelsdorp, D., Underwood, R.M. & Cox-Foster, D.L. (2008). Short-Term Fumigation of Honey Bee Colonies with Formic and Acetic Acids for the Control of Varroa destructorJournal of Economic Entomology, 101, 256–264. PubMed

Căuia, E. & Căuia, D. (2022). Improving the Varroa (Varroa destructor) Control Strategy by Brood Treatment with Formic Acid—A Pilot Study on Spring ApplicationsInsects, 13, 149. Artigo completo

Plamondon et al. (2024). Estudo de acompanhamento das populações de Varroa destructor após diferentes tratamentos acaricidas. Journal of Insect Science, 24Artigo

Kosch, Mülling & Emmerich (2025). Revisão da utilização do ácido fórmico no controlo de Varroa destructor, eficácia e possível desenvolvimento de resistência. Veterinary Sciences, 12, 144. Artigo completo

Ruzicka, B. — documentação técnica e observações associadas ao desenvolvimento do MiteGone. Os resultados relativos à redução da reprodução são considerados evidência observacional, não demonstração independente de esterilidade permanente. MiteGone — Science

criação calva: colónia condenada ou resistente à Varroa?

Quadro com criação calva (bald brood)

Uma fotografia como a que acompanha esta publicação presta-se facilmente a duas leituras. E, curiosamente, a duas leituras quase opostas.

Foi exactamente isso que aconteceu. A fotografia foi publicada num grupo apícola norte-americano e rapidamente surgiram duas interpretações. Para uns, aquele padrão de criação era praticamente a imagem de uma colónia fortemente afectada pela Varroa e a caminho do colapso. Para outros, os numerosos alvéolos abertos constituíam evidência de comportamento VSH e, portanto, de uma colónia resistente à Varroa.

Não deixa de ser curioso como esta tendência para opiniões bipolarizadas, tão presente actualmente em quase todos os assuntos, também chega à apicultura. Perante a mesma fotografia parece por vezes necessário escolher imediatamente um dos lados: ou estamos perante uma colónia condenada ou perante uma extraordinária colónia resistente. Como se admitir que ainda não sabemos fosse uma posição menos válida.

Neste caso é precisamente a posição mais defensável.

A fotografia, só por si, não permite sustentar nenhuma das duas conclusões. E talvez seja justamente por isso que é interessante: as duas interpretações são possíveis, mas nenhuma está demonstrada — e, além disso, não são necessariamente equiprováveis.

O que vemos — e o que julgamos ver

O quadro apresenta aquilo que habitualmente se designa por bald brood, que poderemos traduzir por criação calva: alvéolos de criação que deveriam encontrar-se operculados aparecem abertos, deixando por vezes visível a criação no seu interior. Em algumas zonas o fenómeno é suficientemente abundante para quebrar claramente a uniformidade habitual da criação operculada.

Sabemos que comportamentos deste tipo podem estar relacionados com a Varroa. Abelhas com comportamento higiénico sensível à Varroa são capazes de detectar alterações na criação parasitada, abrir determinados alvéolos e, em alguns casos, remover a pupa infestada. Sabemos também que alguns alvéolos abertos podem posteriormente ser novamente fechados — o chamado recapping. Estes comportamentos aparecem com frequência nos estudos sobre colónias resistentes e constituem uma das peças do complexo puzzle da resistência à Varroa.

A tentação é, portanto, compreensível: muitos alvéolos abertos significariam muitas Varroas detectadas e, consequentemente, uma excelente capacidade de defesa da colónia.

Mas há aqui um salto lógico.

Criação calva não é sinónimo de VSH. Recapping não é sinónimo de VSH. E VSH, por sua vez, não deve ser confundido automaticamente com resistência funcional da colónia à Varroa.

A mesma fotografia pode contar duas histórias

Imaginemos duas colónias apresentando um quadro semelhante ao da fotografia.

Na primeira, existe uma população elevada de Varroa. A criação está afectada, algumas pupas encontram-se comprometidas, podem existir infecções virais associadas e as operárias abrem e removem criação anormal. A irregularidade que observamos seria então, pelo menos em parte, uma manifestação de um problema sanitário já importante.

Na segunda colónia, a população de Varroa poderá ser bastante diferente. As operárias possuem uma capacidade particularmente elevada para detectar alvéolos onde o ácaro está a reproduzir-se. Abrem preferencialmente esses alvéolos, interrompem o ciclo reprodutivo da Varroa e removem a criação infestada. O aspecto visual do quadro poderá novamente ser uma criação muito perfurada.

No primeiro caso poderíamos estar perante uma consequência da infestação. No segundo, perante um mecanismo que contribui para a controlar.

E existe ainda uma terceira possibilidade: as abelhas abrirem numerosos alvéolos e voltarem simplesmente a fechá-los sem eliminarem eficazmente o ácaro. O recapping tem sido encontrado em diferentes populações resistentes, mas a literatura mostra também que a sua presença, isoladamente, não constitui garantia de resistência.

É precisamente por isso que a criação calva é um fenótipo interessante para investigar, mas um mau diagnóstico quando utilizado isoladamente.

A pergunta certa não é quantos alvéolos estão abertos

Perante um quadro destes interessa fazer outra pergunta: Que alvéolos estão estas abelhas a abrir? É uma diferença aparentemente pequena, mas biologicamente enorme.

Suponhamos que abrimos 50 alvéolos calvos e encontramos Varroa em 20. Ao lado abrimos outros 50 alvéolos normalmente operculados, aproximadamente da mesma idade, e encontramos Varroa apenas em cinco.

Teríamos 40% de alvéolos infestados entre aqueles que as abelhas abriram contra 10% entre aqueles que deixaram intactos.

Nesse momento a fotografia começaria a adquirir outro significado. Já não estaríamos simplesmente perante abelhas que abrem muita criação. Teríamos evidência de que estão a escolher desproporcionalmente alvéolos infestados.

É precisamente esta selectividade que interessa quando falamos de VSH.

Depois há uma segunda pergunta: o que fazem depois de encontrar o alvéolo?

Podem voltar a fechá-lo. Podem retirar parte da criação. Podem eliminar completamente a pupa. Podem interromper a reprodução da Varroa. São resultados biologicamente diferentes, embora uma fotografia tirada num determinado momento possa mostrá-los todos simplesmente como «um buraco no opérculo».

E ainda falta perguntar o que está a acontecer às Varroas

Existe outro fenómeno particularmente interessante nas populações resistentes: uma proporção anormalmente elevada de ácaros que não consegue produzir descendência reprodutivamente viável. É aquilo que encontramos na literatura sob designações como MNR (mite non-reproduction) e, historicamente, SMR (suppressed mite reproduction).

Uma fundadora dentro de um alvéolo não significa necessariamente uma fundadora que conseguiu deixar uma filha adulta fecundada pronta a abandonar o alvéolo juntamente com a jovem abelha.

Por isso, se esta colónia despertasse o meu interesse, não me limitaria a contar alvéolos abertos. Abriria também criação operculada suficientemente avançada e procuraria saber quantas Varroas se reproduziram com sucesso e quantas não o fizeram.

Começamos assim a juntar peças: abertura selectiva de alvéolos infestados, remoção da criação, reprodução reduzida dos ácaros, recapping e outros mecanismos que podem contribuir para aquilo que verdadeiramente nos interessa.

Mas mesmo nesse momento ainda faltaria a pergunta mais importante.

Afinal, a população de Varroa cresce ou não cresce?

Uma colónia resistente não é resistente porque apresenta um comportamento que nós consideramos interessante. É resistente se o conjunto dos seus mecanismos conseguir alterar suficientemente a dinâmica populacional do parasita para permitir que a colónia sobreviva.

É aqui que a monitorização ao longo do tempo se torna indispensável.

Uma lavagem de aproximadamente 300 abelhas permite estimar a infestação num determinado momento. Outra medição algumas semanas mais tarde, na ausência de tratamento, começa a revelar-nos a trajectória da população parasitária.

Podemos então encontrar uma colónia com muita criação calva e uma população de Varroa que cresce rapidamente. Ou podemos encontrar uma colónia com este mesmo aspecto e descobrir que, apesar da presença de criação e de Varroa, a população do parasita cresce muito mais lentamente do que seria esperado.

A segunda situação merece evidentemente atenção.

Não porque a fotografia tenha demonstrado resistência, mas porque a fotografia nos levou a fazer uma pergunta que depois foi confirmada por outras observações.

Fotografias são excelentes para levantar hipóteses e perigosas para as confirmar

Há alguns anos provavelmente olharíamos para um quadro desta natureza sobretudo procurando uma doença ou um problema da rainha. Hoje conhecemos melhor a extraordinária complexidade da relação entre Apis mellifera e Varroa destructor. Sabemos que as abelhas inspeccionam criação, abrem alvéolos, voltam a operculá-los, removem pupas e respondem a sinais químicos e fisiológicos associados à criação parasitada. Sabemos também que a própria reprodução da Varroa varia entre colónias.

Quanto mais sabemos, paradoxalmente, menos legítimo se torna fazer diagnósticos rápidos a partir de um único sinal.

Por isso, perante esta fotografia, considero igualmente especulativas duas afirmações:

«Esta colónia está condenada pela varroose.»

e

«Esta colónia é resistente à Varroa.»

Ambas dizem mais do que aquilo que a observação permite dizer.

O que a fotografia permite dizer é bastante mais modesto, mas talvez cientificamente mais interessante: «Há aqui um fenómeno invulgar na criação que merece ser investigado.»

Se houver tempo e interesse em investigar, esta pode até ser uma excelente oportunidade. Marcar a zona, observar o destino dos alvéolos abertos, comparar a presença de Varroa nos alvéolos que as abelhas abriram e nos que deixaram operculados, avaliar a reprodução dos ácaros e, sobretudo, acompanhar a evolução da infestação permitiria começar a distinguir uma colónia que está a sofrer os efeitos da Varroa de outra que poderá estar activamente a limitar a sua reprodução.

Mas se não houver tempo ou interesse para fazer essa investigação, a decisão prática deve, a meu ver, ser diferente da conclusão científica: por prudência, trataria.

Não porque esta fotografia demonstre varroose grave — não demonstra —, mas porque também não demonstra resistência e as duas hipóteses não têm, à partida, a mesma probabilidade. A resistência que permite às colónias europeias manter a população de Varroa sob controlo sem tratamento existe e está bem documentada, mas continua longe de constituir a situação habitual. Numa experiência clássica de selecção natural em Gotland, por exemplo, apenas cerca de 7% das colónias iniciais chegaram a sobreviver à forte selecção imposta pela ausência de tratamentos. Noutros conjuntos de colónias deixadas sem tratamento e sem uma estratégia específica de selecção, a maioria morreu nos primeiros anos, tendo alguns estudos encontrado sobrevivências até cinco anos na ordem dos 11%. Estes números não podem ser transformados na afirmação de que «esta colónia tem 7% ou 11% de probabilidade de ser resistente». Populações, condições ambientais e protocolos são diferentes. Mostram, contudo, algo importante para a decisão do apicultor: numa colónia de origem desconhecida e sem um histórico demonstrado de resistência, a susceptibilidade à Varroa é uma hipótese de base muito mais plausível do que uma resistência suficientemente forte para dispensar tratamento.

É aqui que convém separar duas coisas que por vezes confundimos: o que podemos concluir e o que devemos fazer. Cientificamente, perante esta fotografia, não posso concluir nem que a colónia vai morrer nem que vai sobreviver. Na decisão de maneio, porém, não sou obrigado a atribuir 50% de probabilidade a cada hipótese só porque não consigo distingui-las pela fotografia. Se não puder medir, acompanhar e testar a hipótese de resistência, o custo de tratar uma colónia que eventualmente seria resistente é incomparavelmente menor do que o custo de não tratar uma colónia susceptível com uma população de Varroa em crescimento.

Só depois de observar a evolução desta colónia começaria a perceber qual das histórias a fotografia está realmente a contar.

Na apicultura, como noutras áreas, um sinal não é um diagnóstico. E o facto de duas explicações serem possíveis não significa que sejam igualmente prováveis. A criação calva pode justificar curiosidade e investigação; não justifica, por si só, a aposta de deixar uma colónia sem protecção contra a Varroa.