bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha: a solução que me encontrou

Surgiu há poucos dias no Bee-L (fórum de apicultura de origem norte-americana) uma questão muito interessante de um apicultor e que serve de motivo para esta publicação. Perguntava esse apicultor o que poderia fazer para evitar que os quadros do ninho ficassem bloqueados com pão-de-abelha. Para o necessário contexto desta questão falta dizer que este apicultor utilizava a configuração ninho+sobreninho, criando assim aquilo que alguns denominam de forma feliz um “ninho infinito”, em colmeias do modelo Langstroth. Ora este bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha é uma situação relativamente inconveniente, e que se agudiza a partir de meio/final do verão. Já passei por isso, já dei voltas à cabeça para encontrar uma solução, e acabou por ser a solução a encontrar-me. O processo, passo a descrevê-lo.

Até há três anos atrás (2017) a grelha excluidora era uma peça do meu equipamento que raramente ía para o apiário e, quando a utilizava, era de forma muito temporária. Neste período anterior a 2017, vinha a encontrar a meio/final do verão, e nas colmeias com ninho+sobreninho, boa parte dos ninhos abandonados pela rainha, que entretanto se tinha instalado de modo permanente no sobreninho. Em resultado deste comportamento natural das rainhas, os ninhos ficavam entregues às obreiras que, provavelmente, viveriam os seus dias mais felizes a encher com pólen todos os alvéolos assim que o último ciclo de cria nascia, enchendo de travessão a travessão os quadros com pão-de-abelha devidamente enzimado e compactado à cabeçada. Tenho ideia que havendo espaço, este é o modo natural de armazenagem das abelhas quando a postura da rainha começa a diminuir com o avançar da época ou quando na presença do ninho infinito: mel na abóbada superior, zona de criação na zona intermédia e pão-de-abelha na abóbada inferior do quadro ou, no caso, na caixa inferior da colmeia.

Nesta foto parcial de um quadro vemos pão-de-abelha armazenado junto ao travessão inferior, alvéolos vazios na zona intermédia e…
… pequena abóbada com mel operculado junto ao travessão superior do quadro (quadro invertido relativamente à sua orientação normal).

Em 2017, e para satisfazer a demanda de enxames e quadros com criação optei por utilizar mais frequentemente a grelha excluidora nas colónias que dediquei à produção de abelhas e criação. Para não ter que ter a preocupação de localizar a rainha sempre que retirava abelhas ou quadros com criação de um conjunto de colónias, a grelha excluidora foi uma peça importantíssima desta estratégia. Tendo terminado esta tarefa com sucesso, decidi deixar a excluidora em algumas colónias, até porque já tinha lido um número apreciável de opiniões positivas acerca da mesma, em particular por apicultores norte-americanos, canadianos e australianos. Resolvi testar, ainda que um conjunto de crenças em mim me dissessem que provavelmente iria correr mal. Para minha surpresa já na altura colhi boas impressões, mas como eram ao arrepio de muitas das minhas crenças da altura, decidi continuar o teste nestes últimos anos, antes de assumir para mim próprio e em público as conclusões que tenho vindo a publicar sobre as bem-feitorias das grelhas excluidoras de rainhas. Entre outras que já identifiquei e referi, verifico de forma reiterada que as colónias com a configuração ninho+sobreninho e com a rainha confinada no ninho por uma excluidora me surgem nesta altura do ano muito menos bloqueados pelo pão-de-abelha. Atribuo este efeito ao facto de a rainha, com a sua postura limitada ao ninho, ocupar uma parte significativa do mesmo com a oviposição. Naturalmente nos alvéolos onde a rainha põe um ovo, e as abelhas criam as suas larvas, não podem ser utilizados em simultâneo para armazenar pão-de-abelha. Como as duas tarefas são mutuamente exclusivas, a colónia encontra aquilo que me parece ser um melhor equilíbrio na gestão do espaço do ninho: um compromisso entre o espaço dedicado à oviposição e criação de abelhas e o espaço dedicado à armazenagem de pão-de-abelha.

Em jeito de conclusão, se tivesse que dar uma resposta ao apicultor que colocou a questão no Bee-L, dir-lhe-ía para colocar uma grelha excluidora de rainhas entre o ninho e sobreninho a partir de meio do período da enxameação reprodutiva. Nas minhas colmeias foi esta a resposta natural que as minhas abelhas me deram. O meu trabalho foi apenas ter a atenção necessária para as ouvir, apesar do ruído provocado pelas minhas crenças da altura.

tratamento de verão da varroose: alguns detalhes

Desde 2014/2015 que, tendo entendido melhor a dinâmica que se estabelece entre o ciclo de vida do ácaro varroa e o desenvolvimento populacional de uma colónia de abelhas, passei a realizar o segundo tratamento para a varroose não à entrada do outono como até aí, mas sim a meio do verão. Desde que introduzi este novo calendário para o território onde estão assentes as minhas colónias, e de 2017 para cá, tive uma colónia morta por varroose num universo de cerca de 4 mil tratamentos aplicados.

Como tive a oportunidade de defender na palestra que fiz no dia 9 de fevereiro deste ano no âmbito do II Encontro de Apicultores do distrito da Guarda, a dinâmica da relação entre o número de pupas de abelhas e o número de varroas ao longo de um ano, e supondo a realização de um primeiro tratamento muito eficaz à saída do inverno, evolui aproximadamente desta forma:

  • cerca de meio do ano (maio/junho) atinge-se o número máximo de pupas a serem criadas pelas abelhas: 15 mil;
  • nesta mesma altura o número de varroas rondará os 1500;
  • em meados/finais de setembro o número de pupas caiu significativamente para cerca de 2500;
  • e nada tendo sido feito até à data para controlar o número de varroas estas rondarão as 5 mil;
  • em conclusão temos temos cerca de 5 mil varroas a infestarem cerca de 2500 larvas/pupas. Nesta altura a colónia é um morto-vivo. Qual o tratamento para um morto-vivo?

Como as designações das coisas são o seu melhor sumário deixei de falar e pensar em tratamento de outono para passar a pensar e falar em tratamento de verão. Em boa hora o fiz!

O timing do tratamento é a parte mais importante do mesmo, é a conclusão a que chego. Mas pode não ser suficiente, ou os seus efeitos positivos podem ser potenciados se atendermos a alguns detalhes na sua aplicação. No caso da aplicação das tiras de Apivar (o tratamento que tenho utilizado recorrentemente nestes últimos anos) tenho tido grande cuidado ao colocar as tiras: sempre entre quadros com criação. Isso exige-me ver quadro a quadro do ninho para identificar o início da câmara de criação e o seu fim, em cada ninho de cada colónia. E foi isso mesmo que hoje estive a fazer a partir sensivelmente das 7,15h e até às 10,00h em 36 colónias (média aproximada de 5 minutos dispendidos por colónia). Aproveitei também esta oportunidade para recentrar no ninho a câmara de criação.

Câmara de criação com 3 quadros.
Câmara de criação com 4 quadros.
Câmara de criação com 6 quadros.

Mais adiante, dentro de 3 a 4 semanas, estes ninhos serão novamente inspeccionados para ajustar as tiras a uma câmara de criação que entretanto terá evoluído, se terá modificado, e muito provavelmente se terá comprimido em várias destas colónia. Será também a altura para fazer uma primeira avaliação visual da eficácia do acaricida no controle da varroose.

Este trabalho de re-inspecção foi ontem realizado num apiário onde iniciei o tratamento há cerca de 3 semanas atrás e os sinais que observei são muito positivos. Espero que assim continue por mais um tratamento, sem que possa confirmar o que alguns afirmam convictamente:

  • varroas resistentes ao acaricida;
  • volatilidade do princípio activo em consequência do calor;
  • pouco contacto das abelhas com as tiras porque aquelas estão à entrada da colmeia a refrescarem-se;

cresta 2020: o meio

A minha cresta vai-se espraiando pelos dias e semanas de Julho. Nas duas últimas semanas tenho estado ocupado, em parte, com a cresta de um dos meus apiários a 900 m de altitude. Neste apiário, com poucas colónias dedicadas à produção, cerca de 30 das 86 que lá estão assentes no dia de hoje, obtenho um mel multifloral fruto da mistura do néctar das marcavalas com o néctar dos castanheiros. Com a cresta destas colónias quase no fim, estão já extraídos perto de 600 kgs, o que aponta para uma média deste apiário um pouco superior aos 20kgs/colónia em produção. Ainda sonhei com uma produção média de 30 kgs, contudo as elevadas temperaturas das últimas 3 semanas encurtaram a floração e exsudação das candeias do castanheiro.

Apiário de montanha a 900 m de altitude, com castanheiro em floração em primeiro plano (foto de há cerca de duas semanas atrás).

O mel é muito claro, fruto da predominância do fluxo da marcavala sobre o do castanheiro, neste ano e neste local. Contudo as notas gustativas e o aroma do néctar de castanheiro fazem-se notar, dando a esta mistura natural uma paleta de sensações e uma persistência no paladar muito próprias.

Um fio de mel de montanha!

Cerca de 60% do mel extraído neste apiário proveio de colmeias armazém, com exlcuidora colocada entre o ninho e sobreninho a 19 de maio, no início da primavera que chegou tardia a este canto da serra da Estrela. A excluidora foi o equipamento que me permitiu obter quadros com esta estampa:

Quadro de sobreninho de uma colmeia do modelo lusitana.
Outro quadro de sobreninho de uma colmeia do modelo lusitana, sem um alvéolo com pólen, sem cera escurecida porque não foi utilizada para a criação de abelhas, aspectos que permitem a sua guarda no meu armazém de alças e meias-alças livre dos problemas habituais gerados pela traça da cera.
Outro quadro de sobreninho, neste caso de uma colmeia do modelo langstroth, com cera clara que, por opção pessoal, quero cada vez mais ter disponível para a produção do mel das minhas colónias.

Nota: O meu muito obrigado ao David, Fred, Nuno e Hélio que me acompanharam em algumas destas tarefas!

cresta de 2020: o início

Re-adquiri, este ano, o controlo total do meu tempo e dos meus horários. Sei, daquele saber do viver, que debaixo de um fato de apicultor, por muito ventilado que ele seja, o calor ambiente é multiplicado, tornando o trabalho no apiário insano em certos dias e a certas horas. Sabendo isso, procuro o conforto possível que as duas primeiras horas do dia me proporcionam. Porque assim tem que ser, tenho visto com alguma frequência este circulo amarelo-avermelhado surgir lá no lado nascente do horizonte nestas últimas semanas.

E, nos últimos dias, são estas duas horas do início da jorna que tenho escolhido para a cresta do mel claro nos meus dois apiários a 600 m de altitude. Vou fazendo a cresta com vagar, procurando chegar aonde é necessário e sem o “motor” gripado. Dez anos a crestar mel ajudam-me a conhecer os meus limites, a estabelecer metas realistas, satisfazendo o plano traçado e preservando o corpo. Porque depois do dia de hoje tudo aponta para que amanhã outro dia lhe siga.

Resultado da cresta de ontem: 6 meias-alças e 2 alças langstroth (estas divididas por 4 alças).
Meia-alça de 8 quadros.
5 quadros por alça, para preservar o mais possível o corpo. Faço da cresta (e da minha apicultura em geral) cada vez mais uma maratona que uma corrida de 100m.
Vista de detalhe de um quadro de meia-alça antes de desoperculado.
Vista de detalhe de um quadro de alça antes de desoperculado.
Extractor tangencial manual que utilizo para os quadros de alça. O extractor radial eléctrico, com mais de 25 anos, utilizo-o para os quadros de meia-alça.
O primeiro fio de mel de 2020!

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: desdobramentos e colocação da grade excluidora

Geralmente só realizo desdobramentos no período da enxameação reprodutiva, de finais de março a meados de maio nos apiários a 600 m de altitude, de meados de abril ao início de junho nos apiários a 900 m de altitude.

Colmeia armazém (foto de 15-04-2020).

Uma parte destes desdobramentos são realizados a partir de algumas das colmeias armazém que arrancaram bem. Num primeiro momento transfiro a rainha juntamente com um ou dois quadros com criação e um ou dois quadros com reservas para uma caixa núcleo.

Quadro com a rainha-mãe.

Este núcleo com a rainha-mãe é formado com pelo menos um quadro com abelhas a emergir.

Quadro com abelhas a emergir.

Cerca de 5 a 7 dias depois de orfanada esta colónia armazém é divida em 2 a 4 colónias filhas, cada uma fornecida de 2 ou três mestreiros já iniciados.

Mestreiros iniciados em situação de orfanação.
Divisão da colmeia armazém.

Nas colónias não desdobradas: passados sensivelmente de 2/3 do período de enxameação reprodutiva passo da configuração “ninho infinito” (ninho e sobreninho sem excluidora) à configuração ninho+grade excluidora+sobreninho.

Ninho de uma colmeia-armazém.
Colocação da grade excluidora com a rainha no ninho.
Colónia que irá receber quadros com reservas resultantes dos desbloqueios de outras colónias e, eventualmente, alguns quadros com cera laminada.

ando a (correr) caminhar com gosto

No ano passado, por esta altura, estava relativamente seguro que a minha aventura pelo mundo da apicultura se aproximava do seu terminus. As razões que nutriam estes pensamentos eram várias, e hoje algumas delas ainda persistem. Contudo, uma delas mudou muito de lá para cá: o gosto que reencontrei no maneio das minhas colónias. Em boa medida isso deve-se ao downsising que fui fazendo ao longo destes dois últimos anos na minha operação, que me permite um maneio mais sereno e oportuno, e também ao facto de ter voltado a trabalhar sem a trela e frustrações que por vezes decorriam de ter tido um empregado a tempo inteiro. Agora se acordo às 6h00 é a essa hora que vou para o apiário; agora se o fluir do trabalho me leva para lá da hora do almoço prossigo sem a obrigação de ter de parar de acordo com os horários preconizados pela Autoridade para as Condições do Trabalho e por um contrato assinado. Ando de acordo com os ditames da minha vontade de trabalhar e de acordo com o meu relógio biológico. Resumindo: ando bastas vezes em sintonia.

Para além destes motivadores intrínsecos, com frequência vou encontrando também motivadores extrínsecos, onde se destacam a minha família, os meus amigos e as minhas abelhas. Sendo este um blog de apicultura é natural que me foque nestas últimas.

Ontem, após o almoço e depois de ter estado com o meu amigo David Marques e sua esposa, depois de ter torcido o tornozelo duas vezes, não quis deixar que as dores superassem a minha vontade de fazer um pequeno conjunto de intervenções em algumas colónias do meu apiário preferido.

Num território de montanha!

Entre outras tarefas, abordei esta colónia, que a 11-03 tinha um sobreninho onde a rainha já andava em postura e que a 18-05 foi confinada ao ninho com recurso a uma exlcuidora de rainhas. Como trabalho as horas que quero e até às horas que quero decidi “descer” por esta colónia para satisfazer a minha curiosidade.

Colmeia Langstroth com esta configuração à data de ontem: ninho, excluidora, sobreninho e duas meias-alças.

Descendo pela colmeia, a 2ª meia-alça, colocada há dois dias atrás, estava naturalmente vazia, e a primeira, colocada imediatamente sobre o sobreninho estava a cerca de 2/3 com o mel/néctar.

1ª meia-alça.

Descendo um nível mais, encontro o sobreninho praticamente cheio de mel/néctar, com 8 quadros claros para crestar e 2 quadros escuros, também repletos de mel, que não irão ser crestados.

Vista superior do sobreninho.
Vista de detalhe de um quadro claro do sobreninho.
Como estes sobreninhos se aproximam dos 30 kgs em mel, e mais uns quilos para a madeira, a minha lombar agradece que o movimente apenas depois de parcialmente esvaziado.

E confesso que, mais que tomar o peso do fruto do trabalho das minhas abelhas, ardia em curiosidade por mergulhar neste ninho que não via desde 18-05, altura em que lhe coloquei a excluidora em cima.

O coração da colónia está ali, por baixo desta grade.

Não me surpreenderia encontrar um ninho bastante desbloqueado, com 6 a 7 quadros com boas áreas ocupadas pela criação. Armazenar os cerca de 40 kgs já armazenados não se consegue com poucas abelhas, com um ninho bloqueado ou com uma rainha a fraquejar. Contudo não foi exactamente isso que encontrei neste ninho…

Quadro 10 com esta mancha de criação!!! Corri todos os quadros do ninho e estavam todos semelhantes, do 10 até ao quadro 2; apenas o quadro 1 não tinha criação/postura. Não é habitual, nem sei se desejável até, mas esta colónia surpreendeu-me.

Não me surpreendeu a ausência de qualquer efeito ou impacto negativo que me fosse dado a observar pela presença de uma excluidora de rainhas entre o ninho e o sobreninho.

E são também estes simples mas fortes motivos, que me fazem correr, deveria dizer caminhar, com gosto… quando se sintoniza o território, as abelhas e o apicultor.

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: meses do crescimento linear das colónias

Nos meses de fevereiro, março e até meados de abril as colónias entram gradualmente na fase de crescimento linear da sua população nos territórios onde as tenho assentes.

O território à saída do inverno (foto da erica australis na pré-floração, em 18-03-2019).

A postura das rainhas, que parou ou abrandou significativamente nos meses de novembro e dezembro, inicia-se/aumenta com a passagem do solstício de inverno, e na primeira quinzena fevereiro já é comum encontrar colónias com 3 e 4 quadros com boas áreas com criação.

Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de fevereiro (foto de 17-02-2020).
Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de março (foto de 10-03-2020).

No início de março estas colónias estão a 40 ou 50 dias de distância do início da principal floração da primavera, o rosmaninho. Interessa-me iniciar o desbloqueamento dos ninhos substituindo os quadros mais bloqueados e colocando quadros desbloqueados com cera puxada no ninho, numa primeira fase (até meados de março), e quadros com cera laminada numa segunda fase (depois de meados de março).

Quadros que foram retirados do ninho para o desbloquear e que são colocados nas colmeias armazém ou em colónias com poucas reservas.
Quadros desbloqueados que foram retirados das colmeias armazém, de colónias mais fracas ou zanganeiras, ou que vieram da casa armazém onde foram guardados.

Os quadros mais bloqueados com mel e/ou pólen são colocados nas colmeias armazém, quando necessário; os quadros desbloqueados são fornecidos por algumas colmeias armazém, colónias mais fracas ou que ficaram zanganeiras durante o inverno, ou são os quadros que foram guardados, depois de crestados no verão do ano anterior.

Mais adiante, em março, quando a meteorologia e as abelhas dão os sinais que iniciaram a puxada da cera inicio a substituição de alguns quadros do ninho que apresentam pequenas áreas de criação por quadros com cera laminada.

A introdução de cera laminada na altura certa permite…
que uma quinzena depois, aproximadamente, as abelhas e a rainha apresentem quadros como os desta foto.

A partir da segunda quinzena de março costumo criar mais algumas colmeias armazém — entretanto algumas das que vieram do inverno são re-condicionadas somente ao ninho quando se justifica — para receberem quadros resultantes dos desbloqueios e da aplicação da regra “não mais de seis”. Estas novas colmeias armazém são formadas em colónias que arrancaram bem, que apresentam um rainha prolífica e que irão fazer bom uso desse novo espaço.

Formação de uma nova colmeia armazém entre meados de março e meados de abril.
Para receber os quadros resultantes dos desbloqueios ou…
… da aplicação da regra “não mais de seis”.
Porque elas desejam muito espaço no ninho nesta fase de crescimento!

Numa próxima publicação descreverei a gestão que faço destas colmeias armazém durante o período dos desdobramentos e forte fluxo de néctar (de meados de abril a meados de julho).

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: outono e inverno

A grande maioria das minhas colónias passa o outono-inverno confinada a uma só caixa (Langstroth ou Lusitana).

Apiário a 600 m durante o inverno de 2018-2019

Contudo algumas delas passam este período invernal com ninho e sobreninho nos apiários a 600m e 900m de altitude.

Colmeia armazém que passou o outono-inverno nesta configuração (foto 17.02.2020).

São colónias que saem muito fortes no final do verão e que destino à guarda, durante os meses seguintes, de quadros não crestados.

Quadros não crestados em 2019, armazenados nas colmeias armazém durante o inverno (foto 17.02.2020).

Estes quadros são de extrema utilidade, por ex., para repor as reservas das colónias que em fevereiro/março arrancaram muito bem, e que consumiram boa parte das seu stock de mel.

Colónia que, pela posição das tiras de Apivar, apresentava em fevereiro/março 8 quadros com criação e, naturalmente, as reservas em baixo.
Quadro com poucas reservas que foi substituído por outro com reservas mais abundantes (foto 27.02.2020).

Numa próxima publicação abordarei o maneio que habitualmente realizo durante os meses de arranque e crescimento linear da população de abelhas nos meus apiários (meses de fevereiro, março e abril).

as coisas que eu vejo!!!

É este o castanheiro que me serve de farol para ter a certeza que os castanheiros da minha terra estão para começar a floração. Ano após ano é dos primeiros a florir. Aprendi com a boa gente da minha terra que o tempo da floração varia um pouco de acordo com as castas dos castanheiros: se a casta é longal mais cedo um pouco, se é martainha mais tarde um pouco.

Dos que eu vejo costuma ser dos primeiros.

Vieram pois na altura certa, espero eu, as colónias com as novas rainhas formadas nos apiários a 600 m, para os dois apiários que neste momento estão activos no território dos soutos. E se nas novas colónias langstroth tive oportunidade e os recursos para “palmerizar” com relativa frequência, os recursos para efectuar esse maneio no apiário das lusitanas foram mais escassos. Como consequência, para além de ter transumado colónias que pesavam mais que um burro, estive hoje a desbloquear os ninhos destas lusitanas que apresentavam quadros a mais de mel no ninho e, portanto, quadros a menos com espaço para a oviposição das novas rainhas.

Como poderá uma rainha num quadro como este…
… fazer este lindo serviço?

O maneio é simples, que já não tenho idade nem talento para coisas muito complicadas. Crio uma colmeia armazém, colocando nesta altura e desde logo uma excluidora de rainhas sobre o ninho e um sobreninho no topo. Este sobreninho vai doando quadros com cera laminada aos ninhos parcialmente bloqueados das colónias nas proximidades e recebendo quadros bloqueados com mel ou néctar, de preferência quadros claros para serem posteriormente crestados.

Colmeia armazém, criada hoje, com 4 quadros com mel/néctar recebidos de outras colónias e com 6 quadros com ceras laminadas para doar a mais algumas colónias parcialmente bloqueadas.
Colocação hoje de um quadro de cera laminada no ninho porque…
… estas rainhas de emergência precisam de uma “tela” adequada para expressarem com toda a liberdade o seu potencial.

Ah, e será a grade excluidora uma merda? como opinou recentemente e publicamente um conhecido apicultor da nossa praça. O que posso dizer é que as minhas abelhas não ligam nenhuma ao que este companheiro diz das excluidoras. Hoje em várias das minhas colónias (friso, das minhas, das de cada um, cada um saberá melhor), com exluidoras colocadas em 17 de maio entre o ninho e sobreninho, constato uma vez mais que o resultado em nada confirma três pré-juízos: não impede/dificulta a armazenagem de mel nas caixas que lhe estão sobrepostas; as excluidoras não aumentaram a taxa de enxameação; não limitaram o potencial de oviposição das minhas rainhas. Se assim não fosse como seria eu capaz de explicar que todas as minhas colónias com ninho e sobreninho, e com grelhas excluidoras colocadas a 17 de maio, tenham neste momento armazenado entre 30 e 50 kgs de mel/néctar?

Com cerca de 50 kgs de mel/néctar já armazenado…
… a caminho dos 60… e com o castanheiro todo para fazer!

Nas minhas colónias o grande factor limitante à expressão do potencial de oviposição de rainha é um ninho parcialmente bloqueado… com mel ou pólen, ou os dois em conjunto. Não se verificando este bloqueio, os mais de 3500 alvéolos por face de lâmina de cera (langstroth ou lusitana) são suficientes para as minhas jovens rainhas, expressarem devidamente o seu vigor. A utilização do “ninho infinito”, como já o utilizei inúmeras vezes, mostraram-me vezes e vezes, que as minhas rainhas, assim como as rainhas de criadores profissionais, não precisavam mais que 7 a 8 quadros bastante desbloqueados para completarem um ciclo de 21 dias de postura.

Com 7 a 8 quadros no ninho com este padrão, para elas é suficiente e, portanto, para mim também, que remédio!

Falta fazer este disclaimer: qualquer semelhança das minhas observações, nas minhas colmeias, com as observações nas colmeias de qualquer companheiro de lide, é mera coincidência. Digo isto porque não me recordo de ouvir algum apicultor no nosso país referir que o ninho das suas langstroth ou lusitana é suficiente para albergar o ritmo/quantidade de oviposição das suas rainhas. Mais uma vez me encontro a ver coisas que mais ninguém vê!!! Como hoje quando parei para almoçar eram 14, 15h, e já tinha 8h de trabalho no pêlo, tudo isto pode muito bem ser fruto de uma alucinação por exaustão! Por isso vou fazendo um registo fotográfico porque, tanto quanto é do meu conhecimento, os “smartphones” não sofrem de alucinações. Ficava mais um pouco, mas tenho de ir a um outro apiário ainda hoje. Bom trabalho para todos… e não bloqueiem com os disparates que vou vendo!

o que faz a qualidade de uma rainha?

Mais um dia de trabalho a começar com o sol a nascer por detrás de um céu muito nublado, e debaixo de uma chuva miudinha que parecia ter passado por um coador de malha fina ao cair.

Com vários objectivos para cumprir, nomeadamente “palmerizar” alguns núcleos, retorno a este em concreto:

Núcleo que em 24.03 não apresentava postura e que em 02.04 classifico a rainha como fraca de acordo com o padrão de postura que observo. Nestas situações costumo dar mais 15 a 20 dias para ver se o padrão de postura da rainha evolui e me faz alterar a ideia que se trata de uma rainha a eliminar. E muitas das vezes altero! Este foi mais um desses casos.
De lá para cá este núcleo já doou vários quadros com criação e hoje voltou a fazê-lo, este quadro que vemos na foto. O que provocou a reviravolta na qualidade da postura? Há muito me convenci que são as abelhas, isto é, a qualidade e a quantidade de abelhas que compõem a colónia, que fazem, na grande maioria dos casos que observo nos meus apiários, a qualidade das rainhas.

A este propósito, deixo a tradução do sumário de um estudo muito interessante, publicado há pouco mais de um ano na revista Insects.

Título: O padrão de postura numa colónia de abelhas é um indicador confiável de qualidade da rainha?

Sumário: “A falta de qualidade da rainha é frequentemente identificada como uma das principais causas de mortalidade das colónias de abelhas. No entanto, os fatores que podem contribuir para a “falta de qualidade da rainha” estão mal definidos e geralmente estão mal compreendidos. Estudámos um aspecto específico associado à falta de qualidade da rainha: padrão de postura fraco. Em 2016 e 2017, identificámos pares de colónias com padrões de criação “bom” e “fraco” em apiários de profissionais de apicultura e usamos métricas padrão para avaliar a saúde das rainhas e colónias. Não encontrámos dados da qualidade das rainhas associadas de maneira confiável a colónias com padrão de postura fraco. No segundo ano (2017), trocámos rainhas entre pares de colónias (n = 21): rainhas de colónias com padrão de postura fraco foram introduzidas em colónias com padrão de postura bom e vice-versa. Observámos que os padrões de criação de rainhas originárias de colónias com padrão de postura fraco melhoraram significativamente após a colocação em colónias com padrão de postura bom após 21 dias, sugerindo outros fatores que não a rainha contribuíram para a alteração do padrão de postura. Nosso estudo desafia a noção de que o padrão de postura é suficiente para julgar a qualidade da rainha. Nossos resultados enfatizam os desafios que se colocam na determinação da raiz dos problemas associados à rainha ao avaliar a saúde das colónias de abelhas.

Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30626029/