Desde muito cedo compreendi, aceitei e assumi um aspecto central na minha apicultura: o esforço excessivo de seleção de abelhas contraria o seu “programa” natural. Por essa razão a selecção a todo o transe nunca foi uma prioridade para mim.
A panmixia, a poliandria e a elevada recombinação genética — a abelha melífera apresenta a mais elevada taxa de recombinação genética conhecida entre animais; mais de 10 vezes superior à dos mamíferos — são indicadores claros e absolutamente naturais do que as abelhas enquanto espécie necessitam para sobreviverem ano após ano, milénio após milénio: para responder a novas estirpes virulentas de agentes patogénicos, as abelhas necessitam de acesso a alelos raros que possam conferir imunidade a um novo patógeno. Ao acasalarem numa grande população panmítica, novos alelos raros podem ser recrutados e posteriormente combinados em novos genótipos através da recombinação com alelos úteis de outros genes.
Foi este “programa”que as trouxe até à actualidade desde os seus avós ancestrais que já habitavam o mundo há cerca de 35 milhões de anos. Foi este “programa” natural, anti afunilamento genético, que lhes permitiu encontrar respostas e sobreviver a microorganismos, bactérias, patógenos e parasitas que com elas se crauzaram e as ameaçaram ao longo deste percurso.
Em baixo deixo a tradução de um excerto do artigo “The Downside of Selection: A Forgotten Cause of Honeybee Decline; 2025”. Curiosamente, o autor é holandês um dos países onde a selecção genética por mão do homem está mais avançada Mais adiante voltarei a este artigo.

“Introdução
Mais de 40 anos após a sua invasão da Europa Ocidental e da América do Norte, o ácaro Varroa e os vírus associados continuam a causar elevada mortalidade nas abelhas, apesar dos tratamentos químicos. Isto levanta a questão de por que razão a seleção natural não conseguiu resolver o problema.
A questão torna-se ainda mais intrigante pelo facto de a seleção natural ter resolvido rapidamente o problema na África do Sul e na América do Sul, mas não no hemisfério norte.
O ácaro Varroa foi identificado pela primeira vez na África do Sul em 1997. Mike Allsopp estudou a propagação do ácaro, permitindo obter conhecimento detalhado sobre os primeiros anos da invasão da Varroa na África do Sul. O ácaro propagou-se rapidamente, atingindo densidades elevadas, até 50.000 ácaros por colónia. Contudo, após alguns anos, a taxa de infeção diminuiu rapidamente até que, passados 3 a 5 anos para Apis mellifera capensis e 5 a 7 anos para Apis mellifera scutellata, a Varroa era, nas palavras de Allsopp, “apenas uma presença aleatória”.
A elevada taxa de infestação — frequentemente sem mortalidade das colónias — e investigações posteriores sobre o Vírus das Asas Deformadas (DWV) mostram que as abelhas da África do Sul desenvolveram rapidamente resistência ao DWV.
Na América do Sul, abelhas africanas da subespécie A. m. scutellata foram importadas da África do Sul e da Tanzânia para o Brasil com o objetivo de melhorar a produção de mel nos trópicos sul-americanos. Estas escaparam de um apiário experimental e hibridizaram com abelhas europeias já presentes. Os híbridos espalharam-se por toda a América do Sul, colonizando a América Central e o sul dos Estados Unidos.
Pouco após a descoberta da Varroa em 1979, os níveis de infestação detetados tornaram-se motivo de preocupação para a apicultura brasileira, embora não houvesse relatos de perdas de colónias. Tornou-se rapidamente evidente que as abelhas africanizadas podiam sobreviver à infestação por Varroa sem tratamento.
A seleção natural rápida parece ter conduzido ao aumento da resistência e o tratamento contra a Varroa geralmente não é praticado. Não são relatadas perdas de colónias africanizadas devido à varroose e os possíveis efeitos negativos na produção de mel parecem ser negligenciáveis.
Isto é surpreendente porque vírus associados à Varroa, como o DWV, estão amplamente disseminados na América do Sul, e as abelhas africanizadas não são resistentes ao vírus, embora num estudo a taxa de aumento viral tenha sido inferior nas abelhas africanizadas comparativamente às europeias.
A abelha africanizada é atualmente a raça mais comum no Brasil.
Um fator importante na rápida evolução da resistência à Varroa foi o enorme número de colónias selvagens de abelhas africanizadas no Brasil. Mesmo em ecossistemas naturais de floresta tropical, onde não existe apicultura, a abelha melífera é o principal polinizador. As colónias manejadas pelos apicultores representam apenas uma pequena percentagem da população total.
A população selvagem está sob constante pressão seletiva para resistência à Varroa. No México, a abelha africanizada foi introduzida em 1992 e demonstrou resistência à Varroa já em 1994.
Inicialmente, parecia que a explicação para o fracasso da seleção natural na Europa e na América do Norte era simples: tanto a África do Sul como a América do Sul possuem densidades elevadas de abelhas selvagens, e as abelhas domésticas não são manejadas de forma tão intensiva como no norte.
Quase todas as intervenções do apicultor inibem ou impedem a seleção natural. Existem também muito menos populações selvagens na Europa e em grande parte da América do Norte. Estas diferenças poderiam explicar as divergências na evolução da resistência à Varroa entre hemisférios.
Contudo, esta não parece ser toda a explicação.
O investigador sueco Ingmar Fries decidiu testar, num experimento de larga escala, se a seleção natural conduziria à resistência à Varroa e aos vírus associados quando os apicultores deixassem de intervir no destino das colónias.
Recolheu 150 colónias — Buckfast, ligustica e carnica — para garantir a maior diversidade possível, e colocou-as numa península isolada no sul de Gotland. As colónias foram então infestadas com Varroa e deixadas, em grande medida, à sua própria sorte.
Os resultados foram espetaculares, mas não os esperados. Durante quatro anos produziram-se 38 enxames, mas a mortalidade foi tão elevada que apenas 13 colónias sobreviveram.
A elevada mortalidade e a observação de que as colónias sobreviventes não possuíam os alelos específicos do comportamento higiénico sensível à Varroa (VSH) sugerem que esses alelos não estavam presentes nas populações de origem das 150 colónias.
As 13 colónias sobreviventes revelaram-se altamente consanguíneas e permaneceram pequenas. Não eram resistentes à Varroa, mas tolerantes — pelo menos durante a curta estação sueca. Quando transferidas para outros locais, a sua sobrevivência não foi superior à de abelhas não selecionadas.
No entanto, as colónias pareciam resistentes ao DWV. Em mais de 40 anos de presença da Varroa na Europa Ocidental, resistência ao DWV apenas foi encontrada uma outra vez, na Bélgica.
Os alelos de resistência ao DWV são, portanto, extremamente raros nas abelhas de criação. A ausência — ou extrema raridade — destes alelos torna muito difícil a evolução de resistência à Varroa por seleção natural nas colónias comerciais europeias de ligustica, carnica e Buckfast, como demonstrado pelo experimento de Fries.
A abelha negra nativa, menos sujeita à seleção intensiva devido à sua impopularidade histórica, parece estar numa posição ligeiramente melhor.
No início de um programa de seleção para resistência à Varroa no grupo Mellifera em Chimay (Bélgica), 18 de 32 colónias não apresentavam sinais de resistência. Das restantes 14, a maioria demonstrava elevada expressão de VSH.
O número de colónias sem expressão VSH é demasiado elevado para uma característica poligénica como o VSH. Isto significa que os alelos relacionados com resistência VSH também se perderam em algumas colónias de abelha negra.
Este artigo explica como os alelos de resistência desapareceram das populações europeias (e provavelmente norte-americanas) de abelhas. Para tal, é necessário analisar primeiro os mecanismos que as abelhas desenvolveram, através da seleção natural, para se defenderem de doenças infecciosas. […]
A seleção artificial de abelhas de raça
Compreendendo agora como uma população natural pode desenvolver resistência a um novo patógeno, podemos analisar o que corre mal quando selecionamos abelhas de raça.
Entre as características mais desejáveis para os apicultores encontram-se:
- maior produção de mel,
- menor agressividade,
- comportamento mais calmo,
- menor tendência para enxamear,
- comportamento higiénico.
Todas estas são características comportamentais poligénicas.
Apicultores profissionais trabalham frequentemente com várias linhas de seleção, que podem posteriormente ser cruzadas para manter alguma variação hereditária. A seleção para características desejáveis é possível — conhecemos colónias altamente selecionadas de Carnica ou Buckfast que exibem os traços pretendidos.
Contudo, uma seleção rigorosa tem um custo: redução da resistência a novas doenças.
A perda de alelos raros
A seleção envolve normalmente a escolha de uma pequena amostra de uma população maior. Por exemplo, para aumentar a produção de mel, propagam-se rainhas provenientes das colónias mais produtivas. O processo repete-se durante várias gerações.
Como os alelos não são igualmente frequentes, a probabilidade de inclusão na seleção varia. Alelos comuns têm maior probabilidade de serem mantidos do que alelos raros. À medida que a seleção continua, os alelos raros desaparecem.
Isto aplica-se não apenas aos genes envolvidos na característica selecionada, mas também aos alelos raros de todos os outros genes.”
fonte: The Downside of Selection: A Forgotten Cause of Honeybee Decline
Jacques J.M., Arch Microbiol Immunology 2025 DOI:10.26502/ami.936500205













