de 500 para 650 e agora para 2250 kg: finalmente uma UPP com outra dimensão

Há quase dez anos escrevi neste blogue uma frase que hoje vale a pena recuperar:

«No nosso país 1 kg de mel enfrascado vende-se 2 e 3 vezes mais barato que nos mercados mais evoluídos do centro da Europa e estamos restringidos a enfrascar até 650 Kg do mel.»

Era dezembro de 2016.

O problema que então procurava salientar era simples: um apicultor podia produzir algumas toneladas de mel, mas, trabalhando através de uma Unidade de Produção Primária (UPP), encontrava rapidamente um teto muito baixo para a quantidade que podia fazer chegar diretamente ao consumidor ou ao comércio a retalho. O resto da produção tinha de procurar outros canais de escoamento, frequentemente a venda a granel.

Entretanto passaram quase dez anos. O mercado do mel não melhorou. Pelo contrário, em várias publicações mais recentes deste blogue tenho chamado a atenção para as dificuldades crescentes de comercialização do mel a granel, para os preços internacionais dificilmente compatíveis com os custos de produção europeus e para a concorrência de méis importados e, nalguns casos, adulterados.

É neste contexto que deve ser lida uma alteração legislativa que considero muito importante para os apicultores portugueses.

No dia 12 de agosto de 2026 foi publicada a Portaria n.º 335/2026/1. Esta portaria completa as alterações introduzidas um mês antes pelo Decreto-Lei n.º 137/2026, de 10 de julho, e estabelece as novas quantidades máximas de produtos apícolas que podem ser fornecidas pelas UPP no circuito de venda ou cedência ao consumidor final ou ao comércio a retalho.

Para o mel, o número que durante tantos anos foi 650 kg passa a ser: 2250 kg por ano. Não é uma pequena atualização. É multiplicar o limite anterior por cerca de 3,5.

Para apicultores profissionais de média dimensão com 400-700 colmeias, como era o meu caso, o anterior regime de comercialização era particularmente penalizador. Foto parcial de um dos meus 13 apiários, localizado no coração do Parque Natural da Serra da Estrela.

Primeiro foram 500 kg, depois 650 kg, agora 2250 kg

Vale a pena olhar um pouco para trás.

Até março de 2014, a pequena quantidade de mel abrangida por este regime estava limitada a 500 kg por ano. A Portaria n.º 74/2014 elevou-a para 650 kg/ano.

Foi este o limite com que convivemos durante mais de uma década. E foi também com ele que trabalhei na minha própria UPP.

Em 2021, por exemplo, quando anunciei neste blogue a comercialização do mel da minha produção, mostrava fotografias da extração e do enfrascamento realizados na UPP e disponibilizava frascos de 1 kg, 500 g e 250 g.

Início da cresta de 2020 na minha UPP.

Esta possibilidade de chegar diretamente ao consumidor sempre me pareceu especialmente importante. Entre vender um quilograma de mel a granel e vender esse mesmo quilograma diretamente a quem conhece e valoriza a sua origem existe uma diferença económica enorme.

E essa diferença tornou-se ainda mais importante nos últimos anos.

Em junho de 2023, a propósito daquilo a que chamei a «insustentável barateza do mel», escrevi neste blogue sobre uma realidade incómoda: quando produzimos à escala das toneladas, sem estabelecimento aprovado e sem uma estrutura comercial que permita escoar diretamente essas toneladas, acabamos frequentemente por entrar no mercado do mel a granel.

E nesse mercado já não concorremos com o apicultor da aldeia vizinha.

Concorremos com mel proveniente da Argentina, México, Ucrânia, China e de muitos outros pontos do planeta, com preços internacionais que em determinados momentos dificilmente pagam os custos de produção de um apicultor português.

É por isso que passar de 650 para 2250 kg não é apenas substituir um número numa portaria. Pode ter consequências económicas reais.

O que diz afinal a nova legislação?

O Decreto-Lei n.º 137/2026 alterou o Decreto-Lei n.º 1/2007 e reorganizou o regime aplicável às UPP.

O mel e os outros produtos apícolas provenientes de uma UPP podem ter três grandes destinos.

  • Podem seguir para um estabelecimento aprovado.
  • Podem seguir para outra instalação de uma empresa alimentar devidamente aprovada que utilize mel ou outros produtos apícolas como matéria-prima.
  • Ou podem ser vendidos ou cedidos ao consumidor final ou ao comércio a retalho.

É nesta terceira possibilidade que entra a nova Portaria e os 2250 kg.

Isto é importante porque evita uma interpretação que já comecei a ouvir e que considero errada: uma UPP não fica limitada a produzir 2250 kg de mel por ano. Os 2250 kg não são um limite para todo o mel que pode sair da UPP, independentemente do destino.

A própria Portaria n.º 335/2026/1 é publicada expressamente ao abrigo da alínea c) do n.º 2 do artigo 2.º do Decreto-Lei n.º 1/2007. E essa alínea é precisamente aquela que regula a venda ou cedência ao consumidor final ou ao comércio a retalho.

Um exemplo ajuda.

Um apicultor com UPP produz 4000 kg de mel. Poderá, cumprindo naturalmente as restantes exigências legais, encaminhar por exemplo:

  • 2000 kg para consumidores finais e comércio a retalho e 2000 kg para um estabelecimento aprovado.

Os primeiros estão abaixo dos 2250 kg estabelecidos pela nova Portaria. Os segundos seguem por uma via diferente, prevista noutra alínea do Decreto-Lei.

Portanto, não confundamos limite da pequena quantidade comercializada por determinada via com limite da produção da exploração. São coisas diferentes.

Foto de minha esposa a segurar um quadro para a fotografia durante a cresta de 2022.

E há outra mudança muito importante: o território

Durante anos a dimensão geográfica da UPP foi outro dos constrangimentos deste regime. A própria evolução legislativa nesta matéria é curiosa. Encontramos referências ao concelho e concelhos limítrofes e, posteriormente, ao distrito de implantação da UPP.

Agora o legislador escolheu outra unidade territorial: a NUTS II.

A venda ou cedência ao consumidor final ou ao comércio a retalho pode realizar-se dentro da NUTS II onde se encontra a UPP. É um alargamento que, para muitos apicultores, pode ser tão ou mais importante que o aumento dos quilogramas. A fronteira comercial normal deixa de coincidir com um concelho ou distrito e passa a abranger uma região muito mais extensa.

Mantém-se ainda uma exceção interessante: as representações temporárias de produtos regionais podem ocorrer dentro do território nacional. Portanto, a regra é a NUTS II; determinadas participações temporárias podem ultrapassá-la.

2250 kg são muitos ou poucos?

Depende da dimensão da exploração.

Para um apicultor com dez colmeias serão provavelmente irrelevantes. Para quem produz algumas toneladas são outra coisa. Transformemos os quilogramas em frascos.

Com o limite anterior: 650 kg = 1300 frascos de 500 g.

Com o novo limite: 2250 kg = 4500 frascos de 500 g.

São mais 3200 frascos de meio quilo.

E agora façamos outra conta simples.

Suponhamos, apenas para facilitar a comparação, que o equivalente a um quilograma de mel é vendido diretamente por 10 euros.

O antigo teto correspondia a uma faturação potencial de:

650 × 10 € = 6500 €.

O novo:

2250 × 10 € = 22 500 €.

Não significa evidentemente que o apicultor consiga vender tudo, nem que 10 euros sejam necessariamente o preço adequado. Significa apenas que o enquadramento legal deixa espaço para acrescentar valor a uma quantidade bastante maior da produção.

E isto acontece num momento em que essa possibilidade é particularmente necessária.

Produzir mel é apenas metade do problema

Logo desde o início da minha apicultura a preocupação enquanto apicultor esteve centrada na produção: Como ter colónias fortes? Como controlar a varroa? Como aproveitar as florações? Como reduzir a enxameação? Como colocar as colónias certas no local certo no momento certo?

Simultaneamente surgiu a preocupação comercial e económica: depois de produzir é necessário vender.

Podemos ser excelentes apicultores e maus vendedores. Podemos produzir muito bom mel e descobrir que o mercado grossista nos oferece um preço que mal paga a produção. Tenho dedicado várias publicações deste blogue a esta questão.

Em 2023 escrevi que o mercado internacional do mel estava a tornar insustentável a atividade de muitos produtores. Mais recentemente voltei ao assunto quando apresentei dados sobre adulteração e sobre as enormes dificuldades sentidas pelos apicultores profissionais europeus na venda a granel.

O problema económico da apicultura não é secundário relativamente aos problemas sanitários. Uma colónia pode sobreviver à varroa e o apicultor desaparecer porque a atividade deixou de ser economicamente sustentável. Sem apicultor não há colónias manejadas.

É por isso que considero esta alteração legislativa acertada.

Não significa que uma UPP passe a ser uma melaria industrial

Convém colocar também aqui um travão. O aumento do limite não transforma uma UPP num estabelecimento aprovado.

A definição continua a ser clara: na UPP realizam-se as operações admitidas sobre mel e outros produtos apícolas provenientes da própria exploração.

Isto significa, entre outras coisas, que ter uma UPP não permite começar a receber livremente o mel dos vizinhos para o extrair, processar e embalar como se se tratasse de um estabelecimento.

Aliás, a nova redação é bastante clara nas consequências do incumprimento: extrair, manusear ou processar numa UPP produtos que não provenham da própria exploração constitui uma contraordenação económica grave. Portanto, houve um alargamento do espaço económico da UPP. Não houve a transformação da UPP numa unidade industrial.

E não é apenas o mel

A nova Portaria reconhece ainda melhor uma realidade que considero interessante para o futuro económico da apicultura.

Uma colmeia não produz apenas mel. As novas quantidades máximas anuais são:

Mel — 2250 kg

Pólen — 750 kg

Própolis — 25 kg

Geleia real — 8 kg

Pão-de-abelha — 75 kg

Este último merece uma referência particular.

Em setembro de 2021 publiquei neste blogue um texto intitulado “produção de pão de abelha — uma nova fonte de rendimento para os apicultores?”. A pergunta continua atual.

Diversificar os produtos da colmeia é uma das formas possíveis de aumentar o rendimento sem aumentar necessariamente o número de colónias.

É interessante verificar que, cinco anos depois, o pão-de-abelha surge expressamente definido no Decreto-Lei e recebe agora um limite quantitativo próprio na Portaria: 75 kg/ano.

É um pequeno detalhe legislativo que talvez indique uma mudança maior na forma como começamos a olhar para os produtos da colmeia.

E vender pela Internet?

Aqui prefiro alguma prudência.

A legislação permite claramente a venda ao consumidor final e ao comércio a retalho dentro da NUTS II onde se encontra a UPP. Não encontro no novo diploma uma exceção que diga que uma venda realizada através da Internet deixa de estar sujeita a essa limitação territorial.

Portanto, até que exista uma orientação administrativa suficientemente clara em sentido diferente, não assumiria que abrir uma loja online permite a uma UPP enviar diretamente os seus frascos para consumidores de todo o país.

Uma coisa é o meio utilizado para realizar a encomenda. Outra é o território onde a venda ou cedência pode ocorrer ao abrigo deste regime. São questões diferentes.

De 500 para 650. De 650 para 2250.

Às vezes uma alteração legislativa parece distante da realidade dos apiários. Esta não me parece ser uma delas.

O apicultor que produz algumas toneladas de mel continuará a ter de encontrar compradores, construir uma marca, conquistar confiança, enfrascar, rotular, armazenar, transportar, faturar e cumprir as restantes obrigações legais.

Nenhuma portaria vende um único frasco por nós. Mas uma portaria pode deixar de nos impedir de vender aquilo que somos capazes de vender.

Em 2016 escrevia neste blogue que estávamos «restringidos a enfrascar até 650 Kg do mel». Dez anos depois, o número passou para 2250 kg. Demorou. Mas é uma alteração que merece ser assinalada.

Sobretudo porque permite a muitos apicultores tentar ficar com uma parcela maior do valor criado pelo seu próprio trabalho, aproximando quem produz de quem consome.

Num mercado do mel em que tantas vezes tenho escrito sobre preços baixos, importações, adulteração e margens que ficam longe do apiário, talvez esta seja a parte mais importante da nova legislação.

Produzir melhor é importante. Produzir mais pode ser importante. Mas conseguir vender melhor aquilo que produzimos é indispensável para que continue a valer a pena produzir.


Legislação referida

— Decreto-Lei n.º 1/2007, de 2 de janeiro.
— Portaria n.º 74/2014, de 20 de março.
— Decreto-Lei n.º 137/2026, de 10 de julho.
— Portaria n.º 335/2026/1, de 12 de agosto.

Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle?

Desde que comecei a escrever sobre a Vespa velutina, em 2016, a pergunta foi mudando lentamente. Nos primeiros anos interessava-me sobretudo compreender o invasor: a sua biologia, a velocidade de expansão e as diferentes formas de limitar o seu impacto. Com o tempo, porém, a atenção começou a deslocar-se da vespa para as próprias colónias.

Mais do que perceber o que fazia a Vespa velutina, passei a interessar-me pelo que acontecia às abelhas quando a sua presença se tornava constante.

A investigação veio confirmar que essa mudança de perspetiva fazia sentido.

Hoje sabemos que o principal impacto da Vespa velutina não resulta apenas das campeiras capturadas. Resulta sobretudo da alteração profunda do comportamento da colónia. À medida que aumenta a pressão junto ao alvado, as campeiras reduzem progressivamente a atividade de voo. Entram menos cargas de pólen. Entra menos néctar. A criação diminui. As colónias chegam ao final do verão mais debilitadas e preparam pior o inverno. Este quadro encontra hoje sólido suporte científico.

No entanto, havia uma dúvida que continuava a surgir sempre que observava apiários fortemente pressionados durante os dias mais quentes de agosto. Quando uma colónia praticamente deixa de voar, deixa apenas de recolher néctar e pólen? Ou deixa também de recolher água precisamente na altura em que mais necessita dela?

Durante muito tempo esta pergunta permaneceu apenas como uma hipótese. Não porque existissem trabalhos que a contrariassem, mas porque simplesmente não existiam estudos que permitissem enquadrá-la.

Refiro-me à água.

Habitualmente olhamos para a água como um recurso indispensável para arrefecer a colónia durante os períodos de calor. É verdade. Mas essa é apenas uma parte da sua função.

Os trabalhos publicados por Le Bivic e colaboradores mostram que a água participa em praticamente todas as funções essenciais da colónia. É utilizada na produção do alimento larvar, contribui para manter o equilíbrio hídrico das abelhas adultas, participa na regulação da humidade da zona de criação e desempenha um papel decisivo na termorregulação.

Os autores observaram ainda um aspeto particularmente interessante: à medida que a temperatura aumenta, uma parte crescente da água recolhida passa a ser utilizada no arrefecimento da área de criação (tradução livre).

Este resultado merece ser cruzado com outro facto bem conhecido pelos apicultores. É precisamente durante julho, agosto e setembro que a Vespa velutina exerce normalmente maior pressão sobre os apiários. Os dois fenómenos coincidem. A colónia necessita de mais água. Mas encontra maior dificuldade em recolhê-la.

Abelhas em contexto de paralisia de voo/forrageamento por acção da pressão de V. velutina junto alvado (foto minha).

Até aqui habituámo-nos a interpretar a paralisia de voo sobretudo como um problema de alimentação. Entram menos recursos. A criação diminui. As colónias enfraquecem.

Tudo isto continua a ser verdade. Mas talvez esta interpretação não esteja completa.

Porque a água não constitui apenas mais um recurso recolhido pelas campeiras. Constitui um elemento essencial para que a colónia mantenha o seu funcionamento normal.

Ao contrário do mel ou do pão de abelha, a água praticamente não é armazenada. É recolhida, distribuída e utilizada quase de imediato. Talvez seja precisamente esta característica que explique por que razão a sua importância passou relativamente despercebida quando discutimos o impacto da Vespa velutina.

Importa distinguir claramente aquilo que sabemos daquilo que ainda constitui apenas uma hipótese. Sabemos que a Vespa velutina reduz significativamente a atividade de voo. Sabemos que temperaturas elevadas aumentam as necessidades de água da colónia. Sabemos que essa água é indispensável para manter o funcionamento normal da criação. O que ainda não sabemos é qual a importância da diminuição da sua recolha no conjunto dos efeitos provocados pela Vespa velutina. Mas parece existir fundamento suficiente para que esta hipótese seja estudada.

Ao longo dos últimos anos tenho defendido neste blogue que o principal benefício das harpas elétricas não resulta apenas do número de Vespa velutina capturadas. O mais importante parece ser aquilo que acontece depois. As campeiras voltam a voar. Recomeça a entrada de pólen. Recomeça a entrada de néctar. A criação recupera.

Harpas eléctricas e sua acção letal sobre a V. velutina, e consequente retorno das colónias ao normal comportamento de forrageio (foto minha).

Talvez possamos agora acrescentar outra possibilidade. Ao devolverem tranquilidade à entrada da colmeia, as harpas poderão estar igualmente a permitir que as aguadeiras retomem a sua atividade.

Os trabalhos de Rojas-Nossa e colaboradores mostraram precisamente que as colónias protegidas por harpas apresentaram maior atividade de voo, maior entrada de pólen, mais criação e melhor sobrevivência. Como referem os autores, a redução da pressão de predação permitiu restabelecer o normal funcionamento das colónias (tradução livre).

Habitualmente interpretamos estes resultados como consequência da maior disponibilidade de alimento. Provavelmente essa interpretação está correta. Mas talvez não seja suficiente.

Quando as campeiras recuperam a possibilidade de voar, não regressam apenas às flores. Regressam também às fontes de água.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez parte dos benefícios atribuídos às harpas resulte também da recuperação da capacidade da colónia manter o seu equilíbrio fisiológico durante os períodos de maior exigência ambiental.

Esta perspetiva conduz igualmente a algumas implicações práticas.

A prioridade continua a ser reduzir a pressão exercida pela Vespa velutina para permitir que a colónia recupere a sua atividade normal.

Nessa estratégia, as harpas poderão assumir um papel ainda mais importante do que aquele que normalmente lhes atribuímos.

Paralelamente, parece prudente garantir fontes permanentes de água nas proximidades do apiário, sobretudo durante os meses mais quentes. Uma colónia que recupera a capacidade de voar beneficiará dessa recuperação se encontrar rapidamente o recurso de que necessita.

Poderão existir circunstâncias particulares em que um bebedouro interno ou mesmo um xarope bastante diluído ajudem temporariamente uma colónia muito condicionada. Contudo, estas soluções deverão ser encaradas apenas como complementares. O essencial continua a ser permitir que a própria colónia recupere a sua autonomia e volte a desempenhar normalmente todas as funções para que evoluiu.

Ao reler as publicações que tenho vindo a escrever sobre a Vespa velutina desde 2016, apercebo-me de que a pergunta foi mudando.

Primeiro procurei compreender a vespa e como as eliminar. Depois procurei compreender aquilo que fazia ao comportamento das colónias. Talvez esteja agora na altura de tentar compreender de que forma esse comportamento alterado interfere com o funcionamento interno da própria colónia.

A água poderá ser apenas uma das peças desse processo. Mas talvez seja uma peça mais importante do que até agora lhe temos atribuído.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez sejamos obrigados a olhar para a Vespa velutina de uma forma ligeiramente diferente. Não apenas como um predador de abelhas. Mas como um fator capaz de perturbar, por múltiplas vias, o delicado equilíbrio que permite a uma colónia funcionar como um verdadeiro superorganismo.

E talvez seja precisamente aí que ainda falte encontrar uma peça importante deste puzzle.

Referências

  • Le Bivic, P. et al. (2025). Effects of weather and colony size on water collection in honey bee coloniesAnimal Behaviour.
  • Le Bivic, P. et al. (2026). Water dynamics in the honey bee colony (Apis mellifera): monitoring under high temperaturesJournal of Insect Physiology.
  • Rojas-Nossa, S. V. et al. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony developmentPest Management Science.
  • Human, H., Nicolson, S. W. & Dietemann, V. (2006). Do honeybees regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften, 93, 397–401.

tropilaelaps: dez anos a acompanhar um perigo que parecia distante

Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.

Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.

O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.


2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico

A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.

Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.

Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:

“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”

Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.

E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.


2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização

Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.

As doenças não precisam de passaporte.


2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola

Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.

Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.

A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”

E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”


2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos

Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.

Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.


Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic
expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology 

A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:

  • crescimento populacional superior ao da Varroa;
  • enorme dependência da criação;
  • curta permanência sobre as abelhas adultas;
  • dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
  • importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.

A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.


O que mais me impressiona

O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.

É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.

Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”

Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.

A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.


Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico

Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.

Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.

Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.


Uma última reflexão

Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.

A prevenção começa sempre muito antes da emergência.

Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.

A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.

O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.

Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.


iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema

Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.

A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.

O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.

O exemplo da Nova Zelândia

Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.

Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.

O dispositivo Vespex

À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.

O Vespex não nasceu para a Vespa velutina

Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:

  • Vespula germanica (vespa-germânica);
  • Vespula vulgaris (vespa-comum).

Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.

Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.

Colocação do isco proteico com fipronil no Vespex

Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização

O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.

Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.

Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.

Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.

Os resultados obtidos contra a vespa-germânica

Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:

  • redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
  • reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
  • aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.

Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.

Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.

A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?

Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.

Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:

  • radio-rastreamento;
  • armadilhas;
  • procura intensiva em campo;
  • drones térmicos;
  • sistemas de inteligência artificial.

Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:

  • confirmadas 77 rainhas;
  • destruídos 132 ninhos;
  • sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.

Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.

O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?

Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.

É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.

O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:

  • existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
  • foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
  • vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.

Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:

  • utilização operacional;

e

  • evidência científica consolidada.

Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.

Então porque avança a Nova Zelândia?

Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.

Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:

“Qual é o risco desta substância?”

A Nova Zelândia começa por perguntar:

“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”

Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.

É uma lógica típica da biosegurança.

O sistema é mais importante do que a molécula

Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.

Avalia todo o sistema:

  • estação de isco fechada;
  • alimento proteico específico;
  • período limitado de utilização;
  • recolha posterior;
  • colocação dirigida;
  • integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.

Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.

Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.

A grande diferença ecológica

Existe ainda outro argumento pouco conhecido.

Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:

  • Vespa crabro;
  • Vespula germanica;
  • Vespula vulgaris;
  • espécies de Polistes;
  • espécies de Dolichovespula.

Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.

Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.

Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.

O que a Europa deveria estudar melhor?

Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.

Temos muitos trabalhos sobre:

  • toxicidade do fipronil;
  • persistência ambiental;
  • riscos para organismos não-alvo.

Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:

  • Quantos ninhos são realmente destruídos?
  • Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
  • Qual é a redução anual da população regional?
  • Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
  • Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?

Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.

A pergunta que continua sem resposta

Talvez a verdadeira questão não seja:

“O fipronil é perigoso?”

A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.

A questão verdadeiramente interessante é outra:

“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”

Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.

A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.

Será essa a melhor solução?

Ainda não sabemos.

Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.

dos megaincêndios aos apoios ao mundo rural

Os grandes incêndios que, nos últimos dias, ameaçam Bordéus poderão ficar na história como um momento de viragem na forma como olhamos para os incêndios florestais na Europa. Não se trata apenas de mais um incêndio de grandes dimensões. Trata-se de um incêndio que, em vários momentos, apresentou um comportamento extremo, gerando a sua própria meteorologia através de intensos fenómenos de piroconvecção e da formação de nuvens de fogo (Pyrocumulonimbus ou PyroCb).

Até há poucos anos, este tipo de comportamento era considerado característico de países como a Austrália ou o Canadá. Hoje sabemos que já faz parte da realidade europeia.

Pyrocumulonimbus, Gironde 2026
De Bordéus para a Austrália… passando por Portugal

A comparação com a Austrália não surge por acaso. Nos incêndios australianos de 2019-2020 observaram-se dezenas de tempestades de fogo, capazes de produzir ventos próprios, relâmpagos, projeção de brasas a quilómetros de distância e até de injetar fumo na estratosfera.

O incêndio da Gironde não atingiu essa dimensão planetária, mas apresentou vários dos mesmos mecanismos físicos.

Curiosamente, Portugal poderá ter sido um dos primeiros países europeus onde este comportamento ocorreu. Estudos publicados nos últimos anos sugerem que os incêndios de Pedrógão Grande e de outubro de 2017 desenvolveram intensa piroconvecção, embora esse fenómeno só tenha sido plenamente compreendido pela comunidade científica após os acontecimentos.

Nesse sentido, Portugal poderá ter sido um precursor involuntário daquilo que hoje começa a repetir-se noutros países europeus.

Incêndio no pinhal de Leiria, 2017
O incêndio cria a sua própria meteorologia

Durante décadas aprendemos que o vento, a temperatura e a humidade condicionavam o comportamento do fogo.

Hoje percebemos que, quando a energia libertada ultrapassa determinado limiar, a relação inverte-se.

O incêndio aquece violentamente o ar, gera enormes colunas convectivas, cria ventos locais, modifica a circulação atmosférica e pode originar tempestades de fogo.

A partir desse momento, deixa de ser apenas a meteorologia a controlar o incêndio. É também o incêndio que passa a influenciar a meteorologia.

É esta mudança de paradigma que torna os megaincêndios tão difíceis de prever e combater.

Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
Porque é tão difícil combatê-los?

Quando um incêndio entra numa fase convectiva extrema, muitas das estratégias clássicas deixam de funcionar como habitualmente.

Os bombeiros franceses recorreram, como é habitual, a linhas de contenção, proteção de povoações, meios aéreos e, em determinadas situações, a fogo tático (backburning).

No entanto, perante um incêndio capaz de lançar brasas muito para além das linhas de defesa e de alterar continuamente a direção dos ventos, o objetivo deixa muitas vezes de ser apagar diretamente a frente de fogo.

Passa antes por proteger vidas, defender infraestruturas e limitar a propagação para zonas críticas.

Os próprios responsáveis franceses reconheceram que existem momentos em que não se combate diretamente o incêndio; tenta-se apenas gerir a sua progressão até que as condições meteorológicas permitam recuperar o controlo.

Não é possível o combate directo a este monstro! Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
O papel do fogo tático

O fogo tático continua a ser uma ferramenta extremamente importante.

Na Austrália constitui uma das principais técnicas de combate, sendo utilizado por equipas altamente especializadas. Em Portugal e em França também é utilizado, embora de forma muito mais seletiva.

Contudo, importa compreender uma limitação fundamental. O fogo tático funciona porque elimina antecipadamente o combustível existente entre a linha de defesa e a frente de incêndio.

Mas quando um megaincêndio produz projeção de brasas a centenas de metros ou mesmo quilómetros de distância, pode ultrapassar essas zonas já queimadas e iniciar novos focos para além delas.

Não significa que o fogo tático tenha sido mal executado. Significa apenas que o comportamento do incêndio ultrapassou aquilo para que esta técnica foi concebida.

Será então o fogo prescrito a solução?

A resposta é mais complexa do que parece.

O fogo prescrito realizado durante o inverno reduz eficazmente a carga de combustível e diminui o risco de muitos incêndios.

Mas perante condições meteorológicas absolutamente excecionais — como várias ondas de calor sucessivas, seca extrema, humidades muito baixas e ventos intensos — também ele revela muitas limitações.

Alguns investigadores australianos explicam-no de forma muito simples. O fogo prescrito não é um tratamento intensivo. É uma vacina.

Não impede todos os incêndios, mas reduz em parte a probabilidade de que eles evoluam para comportamentos extremos.

Quanto mais cedo se reduzir o combustível, menor será a energia disponível quando surgir uma ignição. Mas em certos contextos de meteorologia extrema o fogo prescrito é um balde de água onde seria necessário um rio.

Mais importante do que reduzir combustível é reduzir continuidade

Talvez uma das maiores mudanças de pensamento dos últimos anos seja esta.

O problema não é apenas existir muito combustível. É existir combustível contínuo durante dezenas ou centenas de quilómetros.

Uma paisagem composta exclusivamente por floresta e matos densos funciona como um enorme pavio.

Pelo contrário, uma paisagem onde coexistem agricultura, pastagens, zonas recentemente geridas, diferentes tipos de floresta e áreas abertas dificulta muito mais a propagação do fogo.

É o conceito da paisagem em mosaico.

Mas quem vai manter esse mosaico?

É aqui que, provavelmente, reside o verdadeiro problema.

Durante séculos, a paisagem portuguesa foi mantida não porque existisse uma política de prevenção de incêndios, mas porque existia uma economia rural.

Pastores, agricultores, apicultores, resineiros, lenhadores e pequenos produtores geriam diariamente o território porque dele retiravam o seu sustento.

Hoje, muitas dessas atividades desapareceram ou deixaram de ser economicamente viáveis.

Sem pessoas no território, o mato regressa inevitavelmente. E regressa todos os anos.

O verdadeiro desafio não é florestal. É económico.

Podemos desenhar excelentes planos de gestão da paisagem. Podemos identificar onde criar mosaicos. Podemos definir as melhores técnicas de redução de combustível.

Mas permanece uma pergunta essencial:

Quem fará esse trabalho daqui a vinte ou trinta anos?

Se ser pastor, agricultor ou gestor florestal continuar a proporcionar rendimentos insuficientes, dificilmente haverá pessoas disponíveis para manter esse território.

Talvez seja por isso que muitos especialistas defendem uma mudança de perspetiva.

Em vez de perguntar apenas “como reduzimos o combustível?”, talvez devêssemos perguntar:

“Como tornamos economicamente interessante viver e trabalhar na floresta?”

Porque uma paisagem resistente ao fogo não depende apenas de bombeiros, aviões ou fogo prescrito.

Depende, acima de tudo, de pessoas.

E talvez essa seja a maior lição que nos deixa o incêndio de Bordéus: os megaincêndios do século XXI combatem-se no verão, mas previnem-se durante todo o ano, através da gestão da paisagem e de uma economia rural capaz de manter vivo o território.

Quem paga pela prevenção?

Chegados aqui, talvez devamos fazer a pergunta mais difícil de todas.

Todos concordamos que é necessário reduzir o combustível, criar paisagens em mosaico, manter a floresta gerida e evitar o abandono do mundo rural. Mas quem fará esse trabalho? E porquê?

Durante séculos, foi a economia rural que manteve a paisagem. Pastores, agricultores, apicultores, resineiros e produtores florestais não limpavam o território para prevenir incêndios; faziam-no porque dele retiravam o seu sustento. Hoje, muitas dessas atividades deixaram de ser suficientemente rentáveis e, por isso, desapareceram. Sem pessoas, a vegetação regressa e o combustível acumula-se.

Talvez o maior desafio não seja técnico, mas económico. Uma paisagem resistente ao fogo presta um enorme serviço à sociedade: protege vidas, habitações, infraestruturas, biodiversidade, recursos hídricos e reduz os custos do combate e da reconstrução. No entanto, quem suporta o custo diário dessa gestão é, quase sempre, o proprietário ou quem trabalha a terra.

Estas são as chamadas externalidades positivas: benefícios gerados por uma atividade privada que são usufruídos por toda a sociedade. Se todos beneficiamos de uma paisagem mais resiliente aos incêndios, faz sentido perguntar se não deveríamos também contribuir para remunerar quem a mantém.

Talvez a grande questão do futuro não seja apenas como combater os megaincêndios, mas se a sociedade está disposta a pagar pela sua prevenção. Porque, no fundo, o trabalho realizado durante todo o ano por quem vive e gere o território não é apenas uma atividade agrícola ou florestal; é também um serviço público de enorme valor.

Se continuarmos a remunerar apenas o combate ao fogo e não a gestão da paisagem, arriscamo-nos a repetir o mesmo ciclo: investir milhares de milhões de euros quando a floresta arde, mas muito menos naquilo que poderia evitar que ela ardesse com tanta violência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a prevenção também tem um preço e que esse preço deve refletir o valor das externalidades positivas produzidas por quem mantém vivo o mundo rural.

Mais do que um problema económico: uma questão de reconhecimento social

Mas existe ainda uma dimensão de que pouco se fala.

Mesmo que conseguíssemos tornar estas atividades economicamente mais interessantes, permaneceria outro problema: a falta de reconhecimento social.

Durante muitas décadas, o sucesso passou a ser associado ao trabalho urbano, aos escritórios, às profissões tecnológicas e aos serviços. Pelo contrário, profissões como pastor, agricultor, apicultor, resineiro ou produtor florestal perderam prestígio social. Para muitos jovens, trabalhar no campo deixou de ser visto como uma opção de futuro, independentemente do rendimento que possa proporcionar.

No entanto, estas profissões desempenham hoje funções que vão muito para além da produção de carne, leite, mel, resina ou madeira. São elas que mantêm caminhos abertos, reduzem a carga de combustível, conservam habitats, promovem a biodiversidade, ajudam a regular os ciclos da água e tornam a paisagem mais resistente aos incêndios.

Paradoxalmente, quanto mais reconhecemos a importância destes serviços para a sociedade, menos reconhecimento social atribuímos a quem os presta.

Talvez seja necessário recuperar não apenas a rentabilidade económica destas profissões, mas também o seu estatuto social. Porque um pastor não é apenas alguém que guarda um rebanho. Um apicultor não produz apenas mel. Um resineiro não extrai apenas resina. São, todos eles, gestores do território, prestadores de serviços ambientais e agentes ativos da prevenção dos grandes incêndios.

Uma sociedade que pretende conviver com as alterações climáticas terá provavelmente de fazer duas escolhas. A primeira é remunerar as externalidades positivas produzidas por quem vive e trabalha no mundo rural. A segunda é voltar a valorizar socialmente essas profissões, reconhecendo que são tão essenciais ao funcionamento do território como muitas outras que hoje desfrutam de maior prestígio.

Porque, no fim de contas, talvez o verdadeiro luxo do século XXI não seja viver longe da natureza, mas haver pessoas que continuem a cuidar dela todos os dias. É esse trabalho silencioso que mantém a paisagem viva e reduz a probabilidade de voltarmos a assistir aos megaincêndios que hoje começam a marcar o sul da Europa.

Portugal não joga mal por falta de talento. Joga mal porque junta talentos que pedem jogos diferentes

Portugal tem médios de elite. Vitinha, João Neves, Bernardo Silva e Bruno Fernandes são jogadores de topo, com qualidade para brilhar em qualquer grande seleção. E, no entanto, quando os vemos juntos de quinas ao peito, a sensação repete-se: há talento, mas falta fluidez; há qualidade, mas falta coerência; há nomes, mas não há uma ideia forte de jogo.

O problema, na minha leitura, não está nos jogadores. Está no facto de Portugal juntar, no mesmo onze, futebolistas que pedem contextos muito diferentes — e não ter uma estrutura coletiva suficientemente clara para os conciliar.

Vitinha, João Neves e Bernardo pedem estrutura

Vitinha, João Neves e Bernardo são jogadores que crescem em equipas organizadas, compactas e relacionais. Precisam de:

  • linhas de passe próximas;
  • mobilidade à frente da bola;
  • apoios entre linhas;
  • circulação curta e inteligente;
  • uma frente móvel que ofereça soluções e arraste marcações.

São médios de controlo, relação, posse limpa e inteligência posicional. Não vivem do caos. Vivem da qualidade da estrutura.

E isso ajuda a perceber porque é que Vitinha e João Neves parecem tão mais funcionais no PSG. Em Paris jogam atrás de uma frente dinâmica, com trocas posicionais, rupturas, apoios curtos e movimentos permanentes. O passe deles entra num sistema vivo. Na seleção, demasiadas vezes, entra num sistema mais rígido, mais previsível e mais preso a uma referência fixa.

Bruno Fernandes pede outra coisa

Bruno Fernandes é um grande jogador, mas o seu habitat é diferente.
Bruno não é um médio de cozinhar o jogo. É um médio de o incendiar.

Vive do passe de rutura, da aceleração precoce, do risco, da verticalidade, do remate e do desequilíbrio imediato. É um jogador que muitas vezes cria do nada — e é precisamente por isso que tem tanto valor. Mas o seu jogo também parte a equipa, acelera a posse antes de ela estar estabilizada e empurra o jogo para um registo mais aberto, mais caótico, mais emocional.

O problema é que esse tipo de jogo não casa naturalmente com o futebol de Vitinha, João Neves e Bernardo. Uns pedem ordem, proximidade e circulação; Bruno pede risco, profundidade e agressão imediata.

Cristiano Ronaldo acentua a contradição

Se a isto juntarmos Cristiano Ronaldo como referência ofensiva, a tensão cresce ainda mais.

Ronaldo continua a ser um finalizador extraordinário, fortíssimo na área e no último toque. Mas já não é, nesta fase da carreira, um avançado de mobilidade constante, de pressão alta contínua ou de apoios repetidos entre linhas. Isso muda a forma como os médios podem servi-lo — e limita o tipo de jogo que a equipa consegue construir.

Vitinha e João Neves rendem mais quando têm à frente jogadores que:

  • aparecem no apoio;
  • atacam a profundidade;
  • trocam de posição;
  • abrem ângulos de passe;
  • arrastam defesas.

Bruno rende mais quando tem alvos móveis para os seus passes mortais.
Com uma frente mais fixa e centrada em servir a referência, o jogo torna-se mais previsível, mais linear e menos favorável ao melhor de todos estes médios.

Portugal parece uma equipa que quer jogar três jogos ao mesmo tempo

É essa a sensação que a seleção transmite.

Parece uma equipa dividida entre:

  • o futebol associativo de Vitinha;
  • a agressividade lúcida de João Neves;
  • o jogo de relação e controlo de Bernardo;
  • a verticalidade caótica de Bruno;
  • e a centralidade finalizadora de Ronaldo.

Todos são excelentes. O problema é que não estão a ser integrados dentro de uma ideia forte — estão a ser somados.

E somar talento não basta.

O problema não é de qualidade. É de compatibilidade e de modelo

Portugal não joga pouco por falta de bons jogadores. Joga pouco porque tem jogadores excelentes a pedir contextos diferentes e não decide claramente que equipa quer ser.

Se a ideia é potenciar Vitinha, João Neves e Bernardo, então Portugal tem de assumir um futebol:

  • mais posicional;
  • com frente móvel;
  • com mais jogo interior;
  • com menos dependência de uma referência fixa.

Se a ideia é potenciar Bruno e um jogo mais vertical, então a equipa tem de viver melhor na transição e ter uma frente muito mais agressiva a atacar espaços.

O que parece mais difícil é querer tudo ao mesmo tempo. Porque nesse caso o talento não se soma — neutraliza-se.

Conclusão

Portugal tem qualidade para jogar muito mais do que joga. Mas enquanto não decidir que jogo quer realmente jogar, continuará a parecer uma seleção estranhamente pobre para a riqueza de jogadores que tem.

Vitinha, João Neves, Bernardo, Bruno e Ronaldo podem coexistir. Mas não basta colocá-los no mesmo onze. É preciso construir um modelo onde as virtudes de uns não anulem as virtudes dos outros.

Neste momento, Portugal parece menos uma equipa e mais uma negociação permanente entre estilos incompatíveis. E esse, mais do que qualquer falha individual, é o verdadeiro problema.

armadilha Zero Velutina 2.0: o que é e análise crítica

Zero Velutina 2.0 é apresentada como uma evolução da anterior armadilha de uso duplo: pode ser utilizada para a captura de rainhas fundadoras entre fevereiro e maio, ou como armadilha “troiana” supervisionada entre maio e junho, sempre de acordo com a legislação e autorização aplicáveis em cada zona apícola. O produto é descrito como capaz de capturar vespas asiáticas vivas, permitindo que estas se alimentem do atrativo e, ao sair, transportem nas patas e na parte inferior do abdómen um agente letal de ação retardada, levando-o até ao ninho. 

Segundo a descrição comercial, esta abordagem procura substituir o método manual dos “cavalos de Troia”, em que as vespas são capturadas uma a uma, impregnadas com o produto e libertadas. A vantagem prometida é operacional: poupa tempo, reduz o trabalho manual e permite que a própria vespa regresse viva ao ninho, podendo ainda indicar a outras obreiras a existência de uma fonte de alimento. 

O fabricante afirma que, após poucos dias de uso, a pressão sobre as colmeias diminui de forma acentuada. Na fase de captura de fundadoras, a armadilha seria também eficaz por matar rainhas e, desse modo, impedir a formação de ninhos primários. A própria ficha, contudo, sublinha que este tipo de utilização requer autorização dos serviços locais de ambiente e consulta da regulamentação aplicável. 

Análise crítica

Este tipo de armadilha tem uma lógica biologicamente interessante: em vez de matar imediatamente a vespa capturada, explora o seu comportamento de retorno ao ninho e de recrutamento para fontes alimentares. Em teoria, isto pode transformar uma simples armadilha individual num mecanismo de impacto sobre a colónia. Esta é precisamente a força dos chamados “cavalos de Troia”: atacar o ninho mesmo quando este ainda não foi localizado.

A principal vantagem prática é evidente. O método manual exige tempo, perícia e presença constante no apiário. Uma armadilha que automatize parte desse processo pode ser apelativa para apicultores sob forte pressão predatória. Em apiários com muitas velutinas em caça estacionária, reduzir rapidamente a pressão pode fazer a diferença entre colónias bloqueadas e colónias que ainda conseguem voar, ventilar, recolher pólen e defender-se.

Mas há três reservas importantes.

A primeira é legal e ambiental. A ficha do produto não deixa dúvidas: a utilização como “troiano” depende de autorização. Isto é essencial, porque estamos a falar da libertação de insetos contaminados com um agente letal retardado. Em Portugal, o enquadramento oficial continua a privilegiar a vigilância, a comunicação de ninhos e a sua destruição por meios autorizados; a DGAV refere a destruição dos ninhos como o melhor método para limitar localmente o impacto da Vespa velutina. O ICNF mantém também o Plano de Ação nacional para vigilância e controlo da espécie. 

A segunda reserva é ecotoxicológica. Qualquer sistema baseado num agente letal transportado por vespas vivas levanta a pergunta: que substância é usada, em que dose, com que persistência, e que risco existe para outros insetos, aves insetívoras, pequenos vertebrados ou organismos decompositores? Quanto mais potente e persistente for o agente, maior a necessidade de controlo técnico. A eficácia não pode ser avaliada apenas pelo número de velutinas que desaparecem do apiário; tem de ser avaliada também pelo rasto ambiental deixado.

A terceira reserva é científica e operacional. A descrição comercial promete redução acentuada da pressão “em poucos dias”, mas não apresenta dados comparativos: número inicial de vespas, número de ninhos afetados, distância ao ninho, dose usada, seletividade, mortalidade de organismos não-alvo, repetição entre apiários, ou comparação com armadilhas convencionais e destruição de ninhos. Sem estes dados, a afirmação deve ser lida como promessa comercial e não como demonstração experimental.

Em conclusão, a Zero Velutina 2.0 parece ser uma evolução interessante das armadilhas convencionais, aproximando-se do conceito de “cavalo de Troia” automatizado. Pode ter utilidade em situações de forte pressão predatória, desde que usada por pessoas autorizadas, com produto homologado, protocolo claro e supervisão. Não deve, contudo, ser vista como solução isolada. O controlo da Vespa velutina continua a exigir uma estratégia integrada: deteção precoce, captura seletiva quando justificada, proteção dos apiários, localização e destruição de ninhos, e prudência máxima no uso de biocidas.

Nota: ver vídeo para mais detalhes https://www.youtube.com/watch?v=0k4bU_1byHw

um novo mecanismo de resistência à varroa: larvas menos atrativas

Durante muitos anos pensou-se que a resistência natural à Varroa destructor dependia sobretudo do comportamento das abelhas adultas. Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports acrescenta agora uma nova peça ao puzzle: algumas larvas parecem ser simplesmente menos atrativas para a varroa.

Os investigadores acompanharam durante quatro anos 236 colónias na Califórnia, comparando uma população híbrida adaptada localmente com linhas comerciais. Os resultados foram claros:

  • cerca de 68% menos varroas nas colónias híbridas;
  • muito menos colónias ultrapassaram o limiar de tratamento;
  • consequentemente, necessitaram de menos aplicações de acaricidas. 

Mas a descoberta mais interessante surgiu no laboratório.

Quando as varroas puderam escolher entre larvas de diferentes origens genéticas, preferiram sistematicamente as larvas das linhas comerciais. As larvas híbridas eram significativamente menos escolhidas, sobretudo aos sete dias de idade, precisamente a fase em que normalmente ocorre a invasão das células antes da operculação. 

O que significa isto?

A varroa apenas se reproduz dentro de células operculadas. Se encontrar menos facilidade em localizar ou reconhecer as larvas mais adequadas, a sua taxa de reprodução poderá diminuir logo na primeira etapa do ciclo.

Os autores sugerem que esta menor atratividade poderá resultar de diferenças em:

  • compostos voláteis emitidos pelas larvas;
  • perfil de hidrocarbonetos cuticulares;
  • sinais químicos utilizados pela varroa para identificar o momento ideal para entrar na célula;
  • eventualmente diferenças fisiológicas ou imunitárias das próprias larvas. 

Ainda não se sabe qual destes mecanismos é o responsável, mas todos apontam para uma característica intrínseca da cria, e não do comportamento das abelhas adultas.

Este mecanismo junta-se aos já conhecidos

Hoje sabemos que a resistência natural à varroa não depende de um único fator, mas da combinação de vários mecanismos:

  1. Comportamento higiénico sensível à varroa (VSH) – remoção da cria infestada antes da emergência.
  2. Grooming – as abelhas removem ou danificam ácaros presentes no seu corpo.
  3. Redução da reprodução da varroa (SMR) – muitas fêmeas produzem menos descendentes ou tornam-se inférteis.
  4. Menor duração do período pós-operculação – reduz o tempo disponível para a reprodução da varroa.
  5. Enxameação frequente – cria interrupções naturais da criação e quebra o ciclo reprodutivo do ácaro.
  6. Maior tolerância aos vírus associados à varroa, permitindo que a colónia sobreviva mesmo com alguma infestação.
  7. Novo mecanismo agora identificado: larvas menos atrativas para a entrada da varroa, reduzindo potencialmente o número de células invadidas logo no início do ciclo reprodutivo. 

Porque é importante?

Este estudo muda parcialmente a forma como encaramos a resistência.

Até agora imaginávamos que a varroa entrava nas células normalmente e depois encontrava dificuldades em reproduzir-se ou era removida pelas abelhas.

Agora surge a possibilidade de existir uma etapa anterior: algumas larvas podem ser menos “visíveis” ou menos apelativas para a varroa, reduzindo a invasão desde o primeiro momento.

Se este mecanismo for confirmado noutros estudos e identificado geneticamente, poderá tornar-se um novo critério de seleção em programas de melhoramento, complementando características como o VSH e o grooming.


Na minha opinião, este é um dos trabalhos mais interessantes dos últimos anos sobre resistência natural. Não porque prove definitivamente um novo mecanismo — os próprios autores reconhecem que falta identificar a base química ou molecular — mas porque abre uma linha de investigação completamente nova: a resistência poderá começar na própria cria, antes sequer de a varroa entrar no alvéolo/célula.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-026-45759-9

como é possível existir tanta vegetação, tanta floração e tão pouca entrada de néctar?

Acredito que durante as últimas semanas muitos apicultores da região Centro olharam para a paisagem e fizeram a mesma pergunta:
Como é possível existir tanta vegetação, tanta floração e tão pouca entrada de néctar?

As flores estavam presentes. As abelhas nas colónias voavam e enchiam os capta-pólen.

Ainda assim, as balanças permaneciam quase imóveis e muitos ninhos de criação consumiam praticamente todo o néctar que recolhiam no campo. Muitas colónias necessitaram, inclusivamente, de alimentação açucarada de manutenção.

Depois, bastaram poucos dias de calor mais intenso e céu limpo para o cenário mudar abruptamente. Subitamente apareceu néctar. As colónias aceleraram. Algumas começaram mesmo a “explodir” em actividade.

Este fenómeno ajuda a desmontar uma das ideias mais simplistas e repetidas na apicultura: “se há flores, há néctar”.

Não. A presença de flores e a produção efectiva de néctar são coisas completamente diferentes. Na realidade, o néctar é o resultado de uma equação fisiológica extremamente complexa onde entram diversos factores.

Este assunto é bastante mais profundo do que parece à primeira vista.

Por exemplo, poucas pessoas compreendem verdadeiramente:

  • porque certas florações “abrem” quase de um dia para o outro;
  • porque dois apiários separados por poucos quilómetros podem ter entradas radicalmente diferentes;
  • ou porque determinadas condições atmosféricas aparentemente excelentes resultam afinal em fluxos decepcionantes.

E aqui começamos a entrar num território onde a apicultura tradicional raramente vai: a ecofisiologia nectarífera.

Quem compreender verdadeiramente estes mecanismos ganha uma vantagem enorme:

  • na previsão de fluxos,
  • na interpretação do comportamento das colónias,
  • na localização e transumância de apiários,
  • e até na tomada de decisões nutricionais e sanitárias.

Porque uma colónia que entra em stress nutricional durante uma falsa primavera nectarífera pode sofrer consequências importantes semanas mais tarde.

Muitas vezes o problema não é falta de flores. É falta de compreensão da fisiologia por trás das flores.

Nas próximas semanas pretendo aprofundar precisamente este tema numa sessão pré-gravada que disponibilizarei através da plataforma Gumroad. Será o início de uma nova modalidade de formação, criada para fazer chegar informação apícola tecnicamente sólida, prática e directamente aplicável aos apiários, com enfoque não apenas na biologia das colónias, mas também numa gestão mais eficiente, previsível e economicamente sustentável da actividade apícola.

Ao mesmo tempo, este formato permitirá algo que muitos apicultores valorizam cada vez mais: total flexibilidade no acesso aos conteúdos. Cada participante poderá assistir às sessões no momento, ritmo e condições que lhe forem mais convenientes, conciliando a formação com a realidade do trabalho, da vida familiar e da própria gestão do apiário.

Os interessados poderão efectuar uma pré-inscrição nesta sessão pré-gravada. A simples manifestação de interesse — sem qualquer pagamento antecipado e sem compromisso de inscrição definitiva — permitirá beneficiar de um desconto de 50% sobre o valor final da sessão caso posteriormente decidam avançar com a inscrição. O pedido de pré-inscrição é obrigatória e deve ser enviada exclusivamente para meu novo endereço de e-mail: eduardogomesapi@outlook.com

termorregulação: questionário Better-B

Bom dia,

Divulgo em baixo link para questionário relacionado com a termorregulação das colmeias. Convido todos os meus leitores apicultores a darem o seu contributo, respondendo ao mesmo. Muito obrigado!

Este questionário, desenvolvido dentro do projecto BETTER-B (https://www.better-b.eu/) visa estudar que alterações é que os apicultores já fizeram às suas colmeias para aumentar a termorregulação da colónia. O objectivo é recolher informações de estratégias usadas para ajudar as colmeias a resistir às variações de temperatura extremas, para depois publicar um manual com essas informações. 

Fica aqui o link para o questionário: https://www.better-b.eu/news/?post_id=45&title=better-b-survey-on-beehive-modifications

O site do BETTER-B está em Inglês mas para preencher o questionário terá a oportunidade de escolher a versão em Português.