Há dias, numa loja em Amarante, disseram à minha esposa e a uma amiga que não deviam usar colheres de inox para comer mel, porque o metal mataria as enzimas e deterioraria o produto. A minha esposa ligou-me depois para perguntar porque nunca a tinha avisado desse risco. Respondi-lhe que nunca o fiz porque essa informação é incorrecta.
Sugeriram-me que escrevesse sobre este mito no blogue. Aqui estou a fazê-lo.
Não se pode matar aquilo que não está vivo. As enzimas do mel não estão vivas: são proteínas que participam em reacções químicas. Podem perder actividade, por exemplo, devido ao calor. Mas dizer que uma colher as «mata» não descreve o que acontece. Especialistas em ciência alimentar concluíram que não há evidência de que o simples contacto com uma colher de metal afecte a actividade das enzimas do mel [1].
Colher de inox em quadro recém desoperculado (foto do autor)
O mel pode, sim, em contacto prolongado com certas superfícies, absorver chumbo. É o caso de algumas soldaduras antigas, do aço galvanizado e de ligações de latão ou bronze. O tempo e a temperatura de contacto também influenciam esse risco [2].
O Manual de Apicultura em Portugal, da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), recomenda que os equipamentos usados na extracção do mel sejam de aço inoxidável ou de outros materiais adequados ao contacto com alimentos, como plástico de uso alimentar. [3].
Fica, portanto, a tranquilidade: a minha esposa e a nossa amiga podem usar uma colher de inox para servir ou comer mel sem receio de lhe fazer mal. E, já que me sugeriram que escrevesse sobre este mito no blogue, aqui fica a explicação.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
Gomes, E. (2016). Características físico-químicas do mel, legislação e atitude. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2020). Quadros com mel cristalizado: uma proposta de maneio. Abelhas à Beira. Ler
[3] Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP). Apicultura em Portugal — Manual Técnico, capítulo 8, «Maneio produtivo — Boas práticas na produção de mel», secção «Requisitos dos equipamentos e utensílios». Ler.
Encontrar uma colónia que mantém pouca varroa durante meses chama a atenção de qualquer apicultor. Se for também produtiva, é natural querer criar rainhas a partir dela. Foi o que Randy Oliver fez. A dificuldade apareceu depois: muitas das filhas deram origem a colónias que precisavam de tratamento como as restantes. Escolher uma boa mãe era apenas o princípio. Faltava conseguir que a resistência voltasse a aparecer nas colónias das filhas.
Foi esta dificuldade que me levou, em Fevereiro de 2018, a publicar «Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?». Randy acompanhava então pouco mais de mil colónias, descendentes de aproximadamente quinze rainhas cujas colónias tinham aparentado resistência. O critério de selecção definido por Randy foi: menos de 1% nas avaliações, admitindo até 3% em Novembro, quando paravam a criação, mas exigindo uma descida para 1% ou menos até Março do ano seguinte. As colónias que tinham ultrapassado os critérios definidos eram tratadas e retiradas do grupo de candidatas à reprodução [1].
Aqueles números mostravam a distância entre encontrar uma colónia promissora e conseguir repetir a sua qualidade numa parte apreciável das descendentes. Havia mães escolhidas, acompanhamento e uma dimensão de trabalho de monitorização pouco habitual. Mesmo assim, a resistência continuava a aparecer numa pequena parte da população. Para compreender o caminho que Randy percorreu depois, vale a pena começar pela maneira como encontrou as suas primeiras reprodutoras.
Quando a varroa chegou à sua exploração, Randy já seleccionava abelhas havia muitos anos. Procurava mansidão, sanidade, bom desenvolvimento e produção de mel. Precisava também de colónias fortes para a polinização das amendoeiras. A resistência ao ácaro veio juntar-se a estas exigências. Uma colónia que mantivesse pouca varroa, mas fosse agressiva, fraca ou pouco produtiva, não reunia aquilo que procurava para a exploração.
Em 2015 encontrou a colónia que viria a ficar conhecida como Queen Zero. Mantinha-se forte, tinha passado um período prolongado sem tratamento e apresentava contagens de ácaros praticamente nulas nas lavagens de abelhas adultas. A descoberta levou-o a procurar outras semelhantes entre as suas próprias abelhas. Depois de avaliar cerca de mil colónias em 2017, utilizou aproximadamente vinte reprodutoras na Primavera seguinte. Das suas filhas constituiu mais de 1.500 colónias em 2018 [8,9].
O primeiro trabalho foi tornar visível uma qualidade que não se reconhece apenas olhando para os quadros. Uma colónia bonita, com boa criação e muitas abelhas, pode estar a acumular varroa. Randy acrescentou as lavagens de abelhas adultas à avaliação que já fazia das colónias. As primeiras contagens permitiam encontrar candidatas; as seguintes mostravam se continuavam a manter a infestação baixa. Uma lavagem a zero chamava a atenção, mas era a repetição desse resultado ao longo dos meses que dava consistência à escolha.
Este acompanhamento exigiu milhares de lavagens. No balanço publicado em Janeiro de 2026, Randy referia mais de 30.000 realizadas nos últimos anos do programa. Cada colónia candidata tinha de continuar a passar pelas avaliações, e as que deixavam de cumprir os critérios eram tratadas. A selecção fazia-se pela escolha das que forneceriam as futuras rainhas, conservando na exploração as outras colónias que podiam ser recuperadas [9].
Randy Oliver a recolher amostra de abelhas para avaliar infestação por varroa (fonte: Re-Evaluating Varroa Monitoring: Part 1 – Methods – Scientific Beekeeping)
Houve progressos pelo caminho. Em Abril de 2020, Randy referia 56 colónias já aprovadas na avaliação dessa Primavera e sete que se desenvolviam bem após dois anos completos sem tratamento [2]. Em 2022, estimava que 15–20% das suas colónias apresentavam forte resistência. Entre as mil levadas à polinização das amendoeiras, mais de 150 tinham passado um ano inteiro sem tratamento; as trinta reprodutoras escolhidas apresentavam zero ou um ácaro por lavagem de abelhas adultas [3]. O progresso era lento, mas começava a abranger mais colónias.
Entretanto, tornava-se cada vez mais evidente a importância dos zângãos. Quando escolhemos uma colónia, avaliamos o trabalho das suas obreiras. Cada uma recebeu metade da informação genética da rainha e metade de um zângão. Como a rainha acasala com vários zângãos, na mesma colónia coexistem grupos de obreiras com pais diferentes. Quando criamos filhas dessa rainha e as deixamos acasalar, os zângãos com que se cruzam introduzem nova informação genética na descendência. A recombinação e a segregação dos genes dão origem a novas combinações; se esses zângãos não forem selecionados, pode ocorrer uma diluição do ganho genético. Assim, a qualidade que observámos na colónia de origem pode deixar de se manifestar nas novas colónias.
Acasalamento natural de uma rainha Apis mellifera (vídeo autor desconhecido)
Nos primeiros anos, Randy descrevia precisamente essa dificuldade: as filhas das suas reprodutoras encontravam uma população de zângãos ainda largamente proveniente de colónias não seleccionadas para resistência. O trabalho feito na escolha das mães ficava limitado pela origem dos machos com que as filhas acasalavam. Podia criar muitas rainhas a partir das melhores colónias e continuar a encontrar poucas descendentes capazes de manter a varroa baixa [8].
A resistência à Varroa parece depender de vários genes e mecanismos. Num estudo com mais de 1500 colónias, Eynard e colaboradores identificaram associações em várias regiões do genoma, sem que uma só explicasse grande parte da variação observada [11]. A resistência tem, portanto, uma base poligénica, embora exista uma componente hereditária sobre a qual a selecção pode actuar.
Para ilustrar de forma didáctica a influência do acasalamento, imaginemos, apesar dessa complexidade, que a resistência depende de um alelo recessivo r (associado à resistência), enquanto S representa o alelo de susceptibilidade à varroa. Uma rainha rr acasalada com zângãos r produz filhas rr; com zângãos S, produz filhas Sr, que não manifestam a característica neste modelo. Se uma rainha Sr acasalar apenas com zângãos S, nenhuma das suas filhas será rr. O alelo r não desaparece, mas a combinação necessária à resistência deixa de surgir nesse cruzamento.
Esquema didáctico simplificado: r está associado à resistência e S à susceptibilidade ou não-resistência (esquema do autor)..
Na realidade, o resultado depende de muitas variantes e das combinações transmitidas em cada geração. A selecção pode aumentar a presença das variantes favoráveis, mas é necessário trabalhar tanto com as rainhas como com os zângãos. Já tinha abordado estas dificuldades em «Porquê é tão difícil criar abelhas melhores?» e «Melhoramento de abelhas: facto ou ficção?» [4–6].
Randy procurou seleccionar dos dois lados do acasalamento: substituía rainhas por filhas das colónias escolhidas, que produziriam as obreiras das novas colónias e os zângãos das gerações seguintes. Como os zângãos nascem de ovos não fecundados, recebem a informação genética da mãe. A origem das rainhas que os produzem é, por isso, parte do trabalho de selecção.
Esses zângãos só terão influência se forem numerosos nas zonas de acasalamento. Randy procurou aumentar a sua presença, saturando essas zonas com machos provenientes de colónias seleccionadas — uma dimensão da selecção que discuti em «A minha resistência à resistência: o foco no foco» [7]. Se os zângãos de outras origens continuarem a ser maioritários, um local isolado pode ajudar a controlar os acasalamentos. Na colaboração com a Olivarez Honey Bees, Randy refere ter deslocado para locais mais isolados cerca de 450 colónias produtoras de zângãos, provenientes de rainhas seleccionadas e de famílias com traços de resistência [9].
O esforço de avaliação estendeu-se também a essas colónias. No Outono de 2025, o filho Eric participou na realização de lavagens em cerca de 1.400 colónias para identificar potenciais mães de zângãos. A origem Golden West permitia entrar na avaliação, mas as contagens de ácaros, a força e a produtividade continuavam a contar. Procurava-se melhorar também a qualidade das colónias que forneceriam os pais das gerações seguintes [9].
Os resultados de Julho de 2025 mostram quanto o programa tinha avançado. Na primeira avaliação de 828 colónias de primeiro ano, distribuídas por 25 apiários, aproximadamente metade das lavagens não revelou ácaros. Os núcleos tinham recebido uma aplicação de ácido oxálico quando foram constituídos, no final de Março e início de Abril. Mais de três meses depois, algumas amostras apresentavam 20 a 40 ácaros, enquanto muitas apresentavam zero. Era uma avaliação intermédia, que precisava de acompanhamento posterior, mas Randy já descrevia um controlo da varroa mais fácil e menos dispendioso [10].
Também não exigiu que todas as colónias controlassem o ácaro da mesma maneira. A remoção de criação infestada, a desoperculação e reoperculação ou outros mecanismos podiam contribuir para o resultado. O critério era encontrar colónias que mantivessem a infestação baixa e conservassem as restantes qualidades necessárias à exploração. As lavagens permitiam acompanhar esse resultado sem ter de conhecer, em cada colónia, todos os mecanismos envolvidos.
Ao olhar para este percurso, encontro uma sequência que interessa deixar clara. Primeiro, foi necessário procurar as colónias promissoras entre muitas outras e confirmar o seu comportamento com avaliações repetidas. Depois, multiplicar as famílias escolhidas, produzir muitos zângãos dessas origens e aumentar a sua participação nos acasalamentos, recorrendo também a locais isolados. Finalmente, voltar a avaliar as colónias das filhas, porque nenhuma dessas medidas dispensava a verificação do resultado.
É essa continuidade que dá valor ao trabalho de Randy: encontrar boas mães, preparar o lado dos zângãos e medir o que acontece nas descendentes. Uma colónia excepcional pode aparecer num apiário. Tornar essa qualidade mais frequente exige trabalhar sobre a população que vai produzir a geração seguinte. E, quando as novas rainhas começam a formar as suas colónias, regressar às lavagens de abelhas adultas para perceber o que se conseguiu conservar.
Na segunda parte, voltarei a uma escolha deste percurso: porque manteve Randy os voos de fecundação, procurando controlar os zângãos disponíveis, em vez de recorrer à inseminação instrumental? A resposta está ligada ao trabalho que quis demonstrar e aos produtores que esperava ver repeti-lo.
Dez anos de resistência ou dez anos de novos inquilinos?
Depois de acompanhar o percurso de Randy Oliver, com milhares de lavagens, escolha de reprodutoras e centenas de colónias destinadas a produzir zângãos, vale a pena olhar de novo para a afirmação habitual quando se fala de abelhas resistentes em Portugal: «Naquele tronco há um enxame há dez anos e nunca ninguém o tratou. São resistentes à varroa.» Em locais onde as rainhas acasalam sobretudo com zângãos de colónias não seleccionadas para essa característica, a probabilidade de manter níveis elevados de resistência é baixa. Antes de lhe atribuir essa capacidade, há uma pergunta mais simples: sabemos que a colónia sobreviveu durante todos esses anos ou apenas que voltámos a encontrar abelhas no mesmo buraco? Uma colónia pode morrer no inverno e o abrigo receber outro enxame na primavera, sem que quem passa ocasionalmente dê pela mudança [12].
Um abrigo ocupado ano após ano pode demonstrar que o lugar é bom; não demonstra, por si só, que a mesma colónia continua viva e que é resistente.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
Gomes, E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver? Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2020). Randy Oliver animado com o evoluir das suas linhas resistentes. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2022). Criação de abelhas resistentes: os progressos difíceis e lentos de Randy Oliver. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2019). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 1. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2022). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 2. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2019). Melhoramento de abelhas: facto ou ficção? Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no foco. Abelhas à Beira. Ler
Artigos e estudos
Oliver, R. (2019). Selective Breeding for Mite Resistance: Walking the Walk — Progress Report 2019. American Bee Journal, Junho. Republicado em Scientific Beekeeping.
Oliver, R. (2026). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 5: It’s Your Turn! American Bee Journal, Janeiro. Republicado em Scientific Beekeeping.
Oliver, R. (2025). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 2: Concepts. American Bee Journal / Scientific Beekeeping.
Eynard, S. E. et al. (2025). Sequence-Based Multi Ancestry Association Study Reveals the Polygenic Architecture of Varroa destructor Resistance in the Honeybee Apis mellifera. Molecular Ecology, 34(3), e17637. DOI: 10.1111/mec.17637.
Kohl, P. L., Rutschmann, B. & Steffan-Dewenter, I. (2022). Population demography of feral honeybee colonies in central European forests. Royal Society Open Science, 9, 220565. DOI: 10.1098/rsos.220565.
Nos últimos dias, Lisboa foi palco de uma experiência que parece, à primeira vista, um pouco estranha: a libertação de milhares de mosquitos machos estéreis. São machos de Aedes albopictus, o mosquito-tigre-asiático, esterilizados e libertados para competirem com os machos selvagens. Se acasalarem com as fêmeas, desse acasalamento não resulta descendência. Durante setembro foram libertados 90 mil machos estéreis em Alvalade, numa experiência destinada, nesta primeira fase, a estudar a sua dispersão e sobrevivência e a avaliar a utilização futura desta técnica no controlo da espécie. [5]
Esta notícia levou alguns leitores do blogue a colocarem uma pergunta muito interessante: será possível fazer algo semelhante com a Vespa velutina? Poderíamos esterilizar machos — ou mesmo futuras fundadoras — e utilizá-los para reduzir a reprodução da população? A ideia parece simples. Mas, quando olhamos para a biologia reprodutiva da velutina, percebemos que o problema é bastante mais complexo.
Será possível impedir a reprodução da Vespa velutina e, dessa forma, acabar com as suas populações nos países onde se instalou? A pergunta faz sentido. Se conseguíssemos impedir a formação de novas colónias durante tempo suficiente, poderíamos actuar sobre aquilo que tem permitido à espécie continuar a expandir-se: a produção de novas fundadoras.
Mas entre esterilizar uma vespa e erradicar uma população existe uma distância enorme. Para o apicultor, interessa perceber se estas técnicas já estão disponíveis, o que conseguiram demonstrar e se poderão algum dia atingir uma escala que permita eliminar a velutina de um território.
Até agora, não dispomos de uma técnica de esterilização operacional e validada para esse objectivo. Existem experiências noutras espécies, projectos dirigidos à velutina e modelos que permitem estudar possibilidades. Merecem atenção, mas os seus resultados ainda não permitem prometer a erradicação.
Libertar machos estéreis
Uma das técnicas mais conhecidas é a Técnica do Insecto Estéril. Consiste em criar grandes quantidades de machos, esterilizá-los, geralmente através de radiação, e libertá-los para acasalarem com as fêmeas selvagens. A repetição destas libertações procura reduzir progressivamente a reprodução da população.
Esta técnica já é utilizada no controlo de outros insectos. Porém, aplicá-la à velutina exigiria resolver vários problemas: produzir machos em grande quantidade, esterilizá-los sem lhes retirar a capacidade de procurar e fecundar fêmeas e conseguir que competissem com os machos existentes no território.
Acresce que as futuras fundadoras da velutina podem acasalar com vários machos. Uma fêmea que acasale com um macho estéril poderá também receber esperma de outro fértil. Isso não torna a técnica necessariamente inútil, mas obriga a conhecer melhor o resultado desses acasalamentos.
Nas vespas, os ovos não fecundados podem originar machos; os fecundados originam normalmente fêmeas. Para formar uma colónia, a fundadora precisa de produzir obreiras. É sobre esta capacidade de estabelecer novos ninhos que uma intervenção teria de mostrar resultados.
Actualmente, não existe um programa operacional de libertação de machos esterilizados que tenha demonstrado controlo, muito menos erradicação, de populações de Vespa velutina.
Representação da possível utilização de machos esterilizados de Vespa velutina: depois de libertados, procurariam acasalar com as futuras fundadoras, tentando reduzir a produção de descendência. Uma possibilidade ainda em investigação, não disponível no terreno. (imagem IA)
E esterilizar as futuras fundadoras?
Também podemos imaginar uma intervenção dirigida às fêmeas. Mas, se para esterilizar cada fundadora tivermos primeiro de a capturar, surge uma pergunta prática: qual seria a vantagem de a tratar e libertar em vez de a eliminar?
O interesse aumentaria se fosse possível atingir muitas fundadoras sem as capturar individualmente, ou se uma intervenção produzisse efeitos que se prolongassem pela população. É aqui que entram algumas ferramentas genéticas.
No blogue, já em 2019 mencionei o siRNA e o CRISPR-Cas9 entre as linhas de investigação que mereciam investimento [1]. São ferramentas diferentes, e falar delas não significa que exista já uma solução pronta para utilizar.
Uma alteração genética que passa às gerações seguintes
O chamado gene drive procura favorecer a transmissão de uma alteração genética à descendência. Se essa alteração comprometer a fertilidade, poderá espalhar-se durante várias gerações e reduzir a reprodução da população.
O que se transmite é a alteração genética. Alguns dos seus portadores têm de continuar capazes de se reproduzir para que ela possa passar à geração seguinte.
Meiborg e colaboradores estudaram esta possibilidade num modelo adaptado à biologia da velutina [2]. Entre as estratégias consideradas, actuar sobre a fertilidade das fêmeas mostrou maior potencial. Contudo, os resultados também revelaram dificuldades importantes.
Podem surgir variantes resistentes à alteração introduzida. Além disso, as fundadoras férteis que restam podem continuar a produzir descendentes suficientes para manter a população. No modelo, tornar muitas fêmeas inférteis não provocava necessariamente uma diminuição proporcional dos ninhos.
Este é um ponto decisivo para quem pensa em erradicação. Não basta que a alteração genética se espalhe: é necessário que a reprodução diminua o suficiente para a população desaparecer.
O estudo mostra condições em que a supressão poderia ocorrer, mas não demonstra que isso seja alcançável no terreno. Não foi uma experiência de libertação de velutinas modificadas e não existe actualmente um gene drive operacional contra esta espécie.
RNA de interferência: uma possibilidade que já aqui apresentei
Outra linha de investigação é o RNA de interferência, ou RNAi. De forma simples, determinadas moléculas de RNA podem reduzir a produção de uma proteína de que o insecto necessita. Dependendo do alvo, isso poderá afectar o desenvolvimento, a sobrevivência ou a reprodução.
Em outubro de 2025 apresentei neste blogue o projecto dos estudantes da Universidade de Lausanne, desenvolvido no âmbito do iGEM 2024 [3]. A proposta procurava combinar RNAi, entrega alimentar às larvas e identificação das velutinas por imagem, para tornar o acesso ao isco mais selectivo.
Portanto, a ideia de aproximar uma intervenção molecular da alimentação da colónia já estava em estudo. Continuava, porém, a ser um projecto em desenvolvimento, sem demonstração de controlo de populações no campo.
Existe também uma experiência anterior em Polistes metricus, outra vespa social. Os investigadores administraram RNA directamente às larvas através da alimentação e conseguiram reduzir a expressão de um gene [4]. Demonstraram que essa interferência era possível por ingestão, mas não demonstraram esterilização nem eliminação de ninhos.
Para transformar esta possibilidade numa ferramenta contra a velutina seria necessário confirmar que a molécula chega aos indivíduos pretendidos, mantém a sua actividade e provoca um efeito suficiente. A selectividade para a espécie também teria de ser demonstrada.
Onde entram os Cavalos de Tróia?
Os Cavalos de Tróia procuram aproveitar uma capacidade que as obreiras já possuem: regressar ao seu ninho. Se transportarem um agente eficaz, poderão fazê-lo chegar a indivíduos que o apicultor não consegue alcançar directamente.
Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição de alimentos nas colónias de velutina [5]. Essa investigação ajuda a colocar a pergunta certa: o que a obreira leva chega a quem, dentro do ninho?
É uma questão importante para os agentes já utilizados e para uma eventual intervenção por RNAi. Conseguir que a obreira transporte uma molécula não garante que esta chegue às larvas ou às futuras fundadoras em quantidade suficiente para produzir o efeito desejado.
Ainda assim, esta possibilidade merece investigação: utilizar as obreiras para entregar no ninho uma intervenção mais selectiva, capaz de comprometer o seu desenvolvimento ou a produção da geração seguinte.
Mas poderão estas técnicas erradicar a velutina de um país?
Esse é o objectivo mais ambicioso e continua por demonstrar.
Como já discuti neste blogue, a capacidade reprodutiva da velutina permite-lhe compensar perdas muito importantes [6]. Uma técnica pode funcionar num ninho ou reduzir a pressão num apiário e continuar longe de conseguir eliminar a população de uma região.
Para alcançar a erradicação seria necessário afectar uma proporção suficientemente elevada da população, abranger os locais onde a espécie se reproduz e impedir que os sobreviventes ou novas entradas voltassem a ocupar o território.
Um gene drive procura precisamente ultrapassar parte dessa dificuldade, fazendo a alteração passar entre gerações. Uma intervenção por RNAi entregue através das obreiras procura alcançar o interior dos ninhos. São possibilidades com alcances diferentes, e nenhuma demonstrou ainda capacidade para erradicar a velutina dos países que colonizou.
Hoje, portanto, a resposta é esta: não temos uma técnica de esterilização pronta para esse trabalho, nem provas de que as propostas existentes consigam atingir esse alcance.
Isso não retira interesse à investigação. A pergunta continua a justificar investimento: conseguiremos comprometer a reprodução da velutina de forma suficientemente eficaz e abrangente para que deixe de repor as suas perdas e acabe por desaparecer de um território?
É essa passagem — de afectar alguns indivíduos para impedir a continuidade de uma população — que estas técnicas ainda têm de conseguir demonstrar.
Enquanto esperamos, é preciso proteger os apiários
A investigação sobre esterilização, RNAi ou gene drive abre caminhos interessantes, mas estamos ainda longe de saber se algum deles chegará a transformar-se numa ferramenta eficaz, segura e utilizável contra a Vespa velutina. O caminho poderá ser longo e não existe sequer a certeza de que estas tecnologias venham a alcançar os resultados que procuramos.
Entretanto, a velutina está nos apiários e os apicultores precisam de proteger as suas abelhas agora. E, embora nenhuma técnica resolva isoladamente o problema, já existem formas de reduzir a pressão de predação e dar às colónias melhores condições para resistirem.
As harpas elétricas, quando corretamente instaladas e utilizadas, podem eliminar uma parte importante das velutinas que se aproximam das colmeias. Os Cavalos de Tróia, utilizados com toda a precaução e parcimónia, procuram atuar de outra forma: aproveitar as próprias velutinas para transportar um agente até ao ninho e tentar reduzir ou eliminar a fonte de pressão sobre o apiário.
Por isso, enquanto se investigam soluções que poderão um dia atuar sobre a reprodução e sobre populações inteiras, a prioridade do apicultor continua a ser proteger o apiário com as ferramentas que já tem ao seu alcance, escolhendo-as e combinando-as de acordo com a pressão existente e as condições locais.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências — publicações do Abelhas à Beira
[1] Gomes, J. E. (2019). Vespa velutina: categorias de armadilhas e determinantes das escolhas. Abelhas à Beira. Ler.
[3] Gomes, J. E. (2025). Erradicação da V. velutina através da tecnologia de silenciamento de genes: os primeiros passos. Abelhas à Beira. Ler.
[5] Gomes, J. E. (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia. Abelhas à Beira. Ler.
[6] Gomes, J. E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.
Referências — artigos e estudos
[2] Meiborg, A. B. et al. (2023). The suppressive potential of a gene drive in populations of invasive social wasps is currently limited. Scientific Reports, 13, 1640. DOI: 10.1038/s41598-023-28867-8.
[4] Hunt, J. H., Mutti, N. S., Havukainen, H., Henshaw, M. T. & Amdam, G. V. (2011). Development of an RNA Interference Tool, Characterization of Its Target, and an Ecological Test of Caste Differentiation in the Eusocial Wasp Polistes. PLoS ONE, 6, e26641. DOI: 10.1371/journal.pone.0026641.
[5] Unidade Local de Saúde de Santa Maria (2026). «Lisboa avança para a fase experimental do controlo do Aedes albopictuscom libertação de 90 mil mosquitos estéreis». 12 de setembro de 2026.
Regressei recentemente às proximidades do rio Aguedão para uma segunda visita técnica a uma exploração apícola que tinha visitado no ano passado, então numa verdadeira situação de emergência. Nessa altura, várias colónias apresentavam taxas de infestação por varroa muito elevadas e foi necessário recorrer ao Protocolo Inovador (PI). A intervenção permitiu salvar uma parte considerável das colónias.
Desta vez encontrei, de uma forma geral, colónias num estado sanitário claramente melhor.
Colónias maioritariamente com 2 e 3 quadros com boas áreas de criação. (foto do autor)
O objetivo da visita deste ano foi sobretudo esclarecer e aperfeiçoar alguns aspetos de detalhe relacionados com a aplicação do PI para controlo da varroose.
Trata-se de um casal de apicultores com mais de 150 colmeias distribuídas por três apiários, numa exploração com dimensão profissional. Uma das coisas que mais me agradou observar foi a forma como trabalham em conjunto. Contaram-me que, durante os maneios, trocam frequentemente impressões entre si antes de tomar decisões, procurando chegar à solução que lhes parece mais adequada para cada colónia e para a gestão global dos seus apiários.
Casal de apicultores em trabalho colaborativo durante a aplicação do PI (foto do autor, 2026)
E esse cuidado percebe-se no terreno. Os apiários estão muito bem cuidados e organizados e possuem uma unidade de produção primária com um nível de qualidade que raramente encontro.
Uma paisagem de outono… e um oceano de eucaliptos
A envolvente apresentava já alguns sinais claros do outono. Nas proximidades do apiário observava-se bastante magoriça (Calluna vulgaris) em floração.
Magoriça (Calluna vulgaris) em floração nas proximidades do apiário. (foto do autor)
Mas há outra imagem que caracteriza imediatamente aquela paisagem. De um dos pontos mais elevados, o olhar perde-se num verdadeiro oceano de eucaliptos, cobrindo montes sucessivos até onde a vista alcança.
A paisagem envolvente do apiário: um extenso contínuo florestal dominado pelo eucalipto. (foto do autor)
Velutina: soluções diferentes em apiários diferentes
O controlo da Vespa velutina é outra área a que estes apicultores têm dedicado bastante atenção. Em dois dos apiários utilizam Cavalos de Tróia, enquanto noutro recorrem às harpas elétricas.
Esta diversidade de soluções mostra uma realidade que encontro muitas vezes no terreno: os apiários não são todos iguais e uma mesma técnica não tem necessariamente de ser a melhor solução para todos eles.
Várias rainhas criadas por métodos naturais
Durante a visita tive também oportunidade de observar várias belas rainhas criadas por métodos naturais pelas próprias colónias.
Questionei-os sobre a razão de estarem atualmente a trabalhar apenas com rainhas criadas por métodos naturais. Relataram-me então que, há cerca de três anos, tiveram uma experiência pouco satisfatória com rainhas adquiridas a um criador situado a sul de Lisboa. Desde então, têm dado preferência às rainhas produzidas localmente e pelas próprias colónias.
Uma das várias belas rainhas criadas por métodos naturais e observadas durante a visita. (vídeo do autor)
Naturalmente, uma experiência negativa com um determinado lote de rainhas não permite retirar conclusões gerais sobre a criação comercial de rainhas. Mas, neste caso concreto, ajuda a compreender a opção que estes apicultores passaram a seguir.
Da cresta até setembro: os números da varroa
Depois da cresta, realizada em meados de julho, os apicultores avaliaram a infestação por varroa em algumas colónias. Os valores encontrados eram muito baixos, situando-se aproximadamente entre 0,3% e 0,6%.
Logo depois aplicaram um tratamento homologado, que permaneceu nas colmeias durante as oito semanas preconizadas na bula.
Terminadas essas oito semanas, fizeram aquilo que considero essencial: voltaram a medir.
E os números já eram muito diferentes.
Em algumas colónias encontraram 15 varroas em 300 abelhas adultas, correspondentes a uma taxa de infestação de 5%.
É precisamente este tipo de situação que mostra por que razão não considero suficiente colocar um tratamento na colmeia e presumir que o problema ficou resolvido. É a avaliação realizada depois do tratamento que nos diz onde estamos realmente. Seja por uma eficácia insuficiente nas condições concretas de utilização, por reinfestação posterior ou por uma combinação de diferentes fatores, uma coisa é objetiva: 5% nesta altura do ano exige intervenção.
Afinar alguns detalhes do Protocolo Inovador
Foi neste contexto que trabalhámos alguns pormenores da aplicação do PI. Não se tratava agora de aprender o protocolo de raiz, mas de aperfeiçoar a sua execução, corrigindo pequenos detalhes que podem fazer diferença no resultado final.
Durante esta visita iniciámos a primeira ronda do Protocolo Inovador. Se tudo decorrer como espero, aproximadamente 12 dias depois será realizada uma segunda ronda, já autonomamente pelos apicultores.
O objetivo é chegar às próximas semanas com uma pressão de varroa muito mais baixa e com maior tranquilidade relativamente ao estado sanitário das colónias.
São as abelhas de inverno que agora interessam
As colónias estão neste momento a preparar e criar as abelhas que irão atravessar o inverno.
Estas abelhas não são simplesmente mais uma geração. São fisiologicamente diferentes das abelhas típicas da primavera e do verão, apresentam maior longevidade e terão um papel determinante na manutenção das colónias durante os períodos mais críticos dos meses seguintes.
É por isso que controlar a varroa agora tem uma importância tão grande.
Um ano depois
Um ano depois da primeira visita, o cenário é diferente. Na altura encontrei uma situação de emergência que exigia atuar rapidamente. Agora encontrei uma exploração onde os apicultores monitorizam, tratam, voltam a medir e procuram perceber aquilo que aconteceu depois de cada intervenção.
Desta vez o meu trabalho foi, por isso, sobretudo um trabalho de afinação: observar, discutir e melhorar alguns procedimentos.
E ficou novamente uma impressão que considero importante. Para além de instalações muito cuidadas e apiários muito organizados, encontrei dois apicultores que conversam entre si, observam, questionam e procuram tomar em conjunto as melhores decisões para as suas colónias.
Com mais de 150 colmeias, pequenas decisões repetem-se muitas vezes. E, por isso, pequenos aperfeiçoamentos nos procedimentos podem acabar por fazer uma diferença muito grande no conjunto da exploração.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
O apelo do meu querido amigo Armando Monteiro ao apoio ao gasóleo utilizado pelos apicultores merece a minha inteira solidariedade.
Quem trabalha com colmeias sabe quanto pesam as deslocações na conta da exploração: visitar apiários, acompanhar as colónias, fazer tratamentos, transportar alimento e material, recolher alças, realizar a transumância ou efectuar trabalhos de controlo da vespa velutina, como reparar harpas ou preparar cavalos de Tróia, entre outras actividades no apiário. Mesmo uma exploração que não pratica transumância precisa de se deslocar regularmente aos seus apiários. O combustível faz parte do custo de manter as abelhas e de trabalhar com elas, e pesa no rendimento que sobra ao fim do ano.
Apicultura, abelhas e veículos (foto do autor, 2025)
Ao longo dos anos tenho defendido que o valor das abelhas e da apicultura ultrapassa largamente aquilo que o apicultor recebe pela venda do mel e dos restantes produtos da colmeia. A polinização em que as nossas abelhas participam beneficia culturas agrícolas e plantas espontâneas, com ganhos que se estendem aos agricultores, aos consumidores e à sociedade. Uma parte desse trabalho pode ser remunerada através de contratos de polinização. Outra parte acontece sem pagamento directo, embora os seus benefícios sejam aproveitados muito para além dos limites da exploração apícola.
Uma parte do valor produzido pelas abelhas chega à sociedade sem passar pela conta do apicultor. É aqui que assenta a questão da justiça que venho colocando há anos: se os benefícios são partilhados, faz sentido que a sociedade participe também nos custos necessários para os manter.
Em outubro de 2018, na publicação conceito de serviços de ecossistema e orçamento do estado, defendi precisamente que o orçamento público deveria remunerar serviços que o mercado, por si só, não paga. Relacionei essa opção com a manutenção de actividades no mundo rural e com o combate ao despovoamento. Continuo a considerar que este princípio deve ter consequências nas decisões políticas e orçamentais.
A questão do gasóleo verde também me acompanha há anos. Recordo-me de a ter colocado em reuniões de dirigentes da fileira apícola portuguesa. Já então me parecia justo encontrar uma resposta para este custo da actividade. Hoje, considero essa resposta ainda mais urgente, sobretudo para quem depende da apicultura como fonte principal de rendimento.
O que se pede é um apoio adequado à realidade do trabalho apícola, que alivie efectivamente o custo do combustível necessário às deslocações e ao transporte de colmeias e material. Uma resposta acessível, com expressão nas contas das explorações e capaz de contribuir para a sua continuidade.
A transumar colónias entre apiários com cliente dos meus serviços técnicos (foto do autor, 2025)
Em 2019, já tinha alertado neste blogue para o risco de as dificuldades económicas levarem ao abandono da actividade ou à redução dos recursos destinados à saúde e ao maneio das colónias. Hoje, mantenho essa preocupação: temo que a falta de rentabilidade seja um dos principais motivos para muitos apicultores desistirem ou reduzirem fortemente o seu efectivo. A dedicação às abelhas pode levar-nos muito longe, mas não paga indefinidamente as despesas da actividade.
Quando uma exploração reduz a actividade ou encerra, perdem-se rendimento, trabalho, experiência acumulada e capacidade de manter colónias e disponibilizar serviços de polinização. A dimensão das consequências dependerá do território e das alternativas existentes, mas a perda não fica necessariamente circunscrita ao apicultor. A sociedade tem interesse em preservar esta capacidade produtiva e os benefícios que dela recebe.
É por tudo isto que me junto ao apelo do Armando. Se este apoio já era justo, considero que hoje se tornou crítico para a continuidade de uma apicultura profissional viável. Um apoio ao combustível não resolve, sozinho, os problemas do sector. Pode, contudo, aliviar uma despesa recorrente e incontornável, precisamente quando a margem disponível para a suportar é pequena.
Às associações e federações cabe insistir nesta reivindicação, fundamentá-la e dar conta aos apicultores dos passos realizados. Aos responsáveis políticos cabe construir uma resposta que chegue efectivamente às explorações. A sociedade portuguesa tem interesse em que haja apicultores capazes de continuar a trabalhar, a cuidar das suas colónias e a viver dignamente da actividade. Esperar que desistam para reconhecer o valor do que faziam será uma forma demasiado cara de aprender essa lição.
Referências do blogue
Gomes, J. E. (2018). conceito de serviços dos ecossistemas e orçamento do estado. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, J. E. (2019). a fraude do “mel” chinês. Abelhas à Beira. Ler
Desde 2011, quando ouvi falar pela primeira vez em Vespa velutina, iniciei as leituras sobre esta espécie exótica. A informação então disponível levou-me, desde logo, a olhar com preocupação para o seu potencial impacto negativo sobre a biodiversidade e, em particular, sobre as colónias de abelhas melíferas. Receios que, infelizmente, se vieram a confirmar nos anos seguintes.
De lá para cá tenho vindo a acompanhar, estudar e refletir sobre diferentes aspetos relacionados com esta espécie: o impacto sobre as colónias de abelhas, as técnicas disponíveis para proteger os apiários, a localização e neutralização dos ninhos, a ação de inimigos naturais e, numa escala mais ampla, as dificuldades em limitar a sua expansão. Desde que comecei a escrever sobre este tema no Abelhas à Beira, em 2016, publiquei mais de 90 textos relacionados com a Vespa velutina. Mais recentemente, vários destes temas foram sendo retomados e desenvolvidos à luz de nova informação científica, documental e da experiência acumulada no terreno.
À primeira vista, os assuntos parecem bastante diferentes: paralisia de voo das abelhas, água, abelharucos, harpas elétricas, Cavalos de Tróia, localização de ninhos, inimigos naturais, doenças ou capacidade reprodutiva da espécie. No entanto, quando se colocam estas peças lado a lado, começa a surgir uma linha comum. Talvez uma das principais dificuldades na discussão sobre a Vespa velutina seja precisamente misturarmos três perguntas diferentes: conseguimos proteger uma colónia de abelhas da pressão das vespas? Conseguimos neutralizar um ninho de V. velutina? E conseguimos reduzir, de forma sustentada, a população de ninhos num território? Estas perguntas remetem para diferentes dimensões, para objetivos e intervenções diferentes.
À frente da colmeia, o problema é relativamente fácil de observar. Há vespas em voo estacionário, há capturas de abelhas e, quando a pressão aumenta, há uma redução muito clara da atividade das campeiras. Mas contar abelhas capturadas não descreve completamente o impacto. Estudos experimentais mostraram que a pressão de V. velutina reduz o forrageio e que a utilização de harpas elétricas, ao diminuir essa pressão, pode produzir benefícios mensuráveis no desenvolvimento e sobrevivência das colónias [1]. Uma velutina não precisa, portanto, de capturar uma abelha para produzir um efeito sobre a colónia. A sua presença repetida diante do alvado é suficiente para alterar o comportamento das campeiras.
Foi neste contexto que coloquei também uma outra hipótese: se as abelhas reduzem fortemente as saídas durante as horas de maior pressão de V. velutina, o efeito poderá não se limitar à entrada de néctar e pólen. Também a recolha de água poderá ser afetada, precisamente em períodos quentes em que a colónia necessita dela para a termorregulação [8].
A mesma forma de pensar surgiu quando analisei a relação entre o abelharuco e a Vespa velutina. Está hoje documentado que o abelharuco captura V. velutina [2]. Isso é um facto. Outra coisa muito diferente é concluir que esta predação beneficia necessariamente o apiário. O abelharuco também exerce pressão sobre as próprias abelhas e pode contribuir para a redução do seu voo. Por isso, a pergunta que me parece mais útil para o apicultor não é quantas velutinas os abelharucos comem, mas quantos minutos ou horas de forrageio as colónias recuperam, se recuperam, como resultado dessa predação [14]. Pode haver menos velutinas à frente das colmeias sem que exista um ganho líquido de tempo de forrageio.
As harpas ajudam-nos a perceber bem esta primeira escala do problema. O seu objetivo principal é proteger o apiário, reduzindo a pressão diante dos alvados e permitindo que as abelhas recuperem parte da sua atividade normal. Mas proteger o apiário não significa necessariamente neutralizar os ninhos que estão a enviar essas vespas. É aqui que entramos numa segunda escala: o ninho de Vespa velutina.
Vespa eletrocutada em harpa (vídeo do autor)
Tenho dedicado bastante atenção aos chamados Cavalos de Tróia desde 2014. É um assunto que me tem interessado particularmente e sobre o qual fiz diversas publicações a partir de 2016 [9, 11, 13]. Conceptualmente, a diferença relativamente à captura direta é importante. Uma vespa eliminada diante de uma colmeia deixa de predar abelhas. Uma vespa que regressa ao ninho transportando um biocida pode, pelo menos em princípio, atingir outros indivíduos e contribuir para comprometer a colónia inteira.
Foi com Francis Ithurburu que me iniciei no conceito do cavalos de Tróia com o seu famoso “appât régulateur”, em 2013 ou 2014
A discussão sobre substâncias biocidas não deve ficar reduzida ao nome da molécula. O risco e a utilidade de uma aplicação dependem da forma como é utilizada, das concentrações utilizadas, da quantidade de biocida utilizada, dos suportes ou matrizes escolhidos para veicular o biocida, das técnicas aplicadas e também do tempo disponível e da perseverança de cada apicultor para atingir o objetivo pretendido.
Por essa razão elaborei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina (clicar no canto superior direito na palavra «Menu» para aceder à informação sobre este manual), que procura, entre outros assuntos, responder a estas questões de enorme pertinência para uma utilização tecnicamente fundamentada dos Cavalos de Tróia, para a escolha da técnica mais adequada ao tempo que cada apicultor tem disponível e para ultrapassar muitos dos equívocos, simplificações e divergências que ainda existem em torno desta metodologia [18]. O manual resulta da conjugação da literatura científica e técnica disponível com anos de acompanhamento do problema e de experiência prática.
A receção tem sido muito positiva. O manual está a ter uma boa adesão por parte de apicultores portugueses e já chegou também aos Países Baixos, através de um apicultor neerlandês. Este interesse mostra que existe entre os apicultores uma procura real por informação mais estruturada, tecnicamente sustentada e operacional sobre uma metodologia que se encontra cada vez mais presente na discussão do controlo da Vespa velutina.
Ernesto Astiz foi, para mim, uma fonte riquíssima de conhecimento num conjunto diversificado de aspectos verdadeiramente relevantes para o apicultor prático. Aqui a apresentar e conversar sobre biocidas e cavalos de Tróia com um grupo de apicultores espanhóis.
Há, contudo, outro fator que parece tão importante como o produto e a técnica utilizados: o momento da intervenção.
O relatório das Astúrias sobre neutralização remota de ninhos através de exemplares tratados mostrou uma associação muito interessante entre a época de início das intervenções e os resultados obtidos [7]. Os melhores resultados ocorreram onde as operações começaram mais cedo. A leitura que fiz desses dados não foi a de estabelecer julho como uma data universal para iniciar Cavalos de Tróia. Isso dependerá do território, do desenvolvimento anual da espécie e do método utilizado. Mas os resultados ajudam a colocar uma questão biologicamente importante: atingir um ninho quando ainda tem algumas centenas de indivíduos não é provavelmente equivalente a tentar fazê-lo quando já contém milhares.
Há aqui um paradoxo para o apicultor. Setembro pode ser a altura em que é mais fácil capturar V. velutina, porque dezenas delas estão diante das colmeias. Mas essa abundância é precisamente o sinal de que os ninhos atingiram uma dimensão muito maior. Capturar vinte vespas em julho pode ser logisticamente mais difícil; biologicamente, porém, essas vinte vespas podem representar uma fração muito maior da força de trabalho da colónia do que vinte vespas capturadas dois meses depois.
O passo seguinte leva-nos à terceira escala: a população de ninhos existente num território.
Há mais de dez anos que procuro perceber até que ponto outras espécies e organismos poderão contribuir para travar a expansão da Vespa velutina. Há predadores, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos [15]. O abelharuco captura adultos [2]. Vespa crabro utiliza parcialmente os mesmos recursos e existe competição. A V. velutina alberga diversos agentes patogénicos comuns a outros himenópteros [4], e foram encontradas formas replicativas de vírus associados às abelhas, incluindo DWV [5]. Até ao momento, nenhum destes fatores naturais demonstrou estar a exercer uma pressão suficiente para fazer diminuir as populações de V. velutina nas regiões europeias onde a espécie se encontra estabelecida.
O caso do bútio-vespeiro (Pernis apivorus) é particularmente esclarecedor. Num estudo recente foram identificados ninhos de V. velutina atacados por estas aves e verificou-se também uma redução significativa da abundância de vespas nas proximidades dos seus territórios de reprodução. Seria tentador parar aqui e concluir que encontramos um controlador natural eficaz. Mas os investigadores procuraram o passo seguinte: verificaram se no outono existiam menos ninhos desenvolvidos. Não encontraram uma redução significativa na densidade desses ninhos [3].
É um resultado extraordinariamente útil porque mostra, numa situação natural, precisamente a diferença entre as três escalas de que tenho vindo a falar. O predador destruiu ninhos. Reduziu localmente o número de vespas. Ainda assim, não foi possível demonstrar que tivesse reduzido a densidade final de colónias maduras no território.
Esta dificuldade começa a compreender-se melhor quando se olha para o potencial de crescimento da espécie.
Franklin e colaboradores estudaram a invasão de Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, entre 2007 e 2014. Mesmo existindo uma política local de destruição de ninhos, o número observado aumentou de quatro em 2007 para 111 em 2014. O modelo desenvolvido pelos autores estimou um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 em condições de baixa densidade [6]. Este número dá uma ideia da capacidade de crescimento existente quando a densidade ainda não impõe fortes limitações.
É também aqui que alguns resultados aparentemente extraordinários precisam de ser colocados em perspetiva. Na publicação anterior referi os dados do projeto realizado nas Astúrias: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação das vespas tratadas, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5% [7, 16]. É um resultado muito importante. Mas se uma população em baixa densidade tiver capacidade para multiplicar aproximadamente por 9,64 entre gerações, deixar sobreviver 25% dos ninhos reprodutivos não significa necessariamente que haverá menos ninhos no ano seguinte. Num exercício puramente teórico baseado naquele parâmetro, seria necessário neutralizar perto de 90% dos ninhos antes da reprodução apenas para impedir o crescimento entre gerações [16].
É talvez uma das ideias mais importantes de toda esta reflexão: uma técnica, ou mesmo um conjunto de técnicas, pode funcionar e, ainda assim, não ser suficiente para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte.
Uma harpa pode reduzir a pressão de V. velutina sobre uma colónia e cumprir perfeitamente a sua função. Um Cavalo de Tróia pode neutralizar um ninho e ser eficaz. Um bútio-vespeiro pode destruir ninhos. Uma campanha pode eliminar três quartos dos ninhos existentes numa determinada área. Todos estes resultados podem ser simultaneamente verdadeiros e biologicamente importantes, sem que nenhum deles, isoladamente, garanta que a população regional irá diminuir no ano seguinte.
Isto também ajuda a compreender por que razão a deteção precoce assume uma importância tão diferente da destruição de ninhos numa região já fortemente colonizada. Quando existem um ou dois ninhos numa nova frente de invasão, localizar e neutralizar cada um deles antes da produção de fundadoras pode decidir o futuro dessa invasão. Quando existem centenas ou milhares de ninhos espalhados por um território, localizar mais um continua a ter valor local — sobretudo para reduzir risco e pressão sobre apiários —, mas já não tem o mesmo significado populacional. Foi neste contexto que analisei a utilização de radiotelemetria, radar harmónico e termografia para localização de ninhos [10]. São tecnologias interessantes, algumas delas já demonstraram capacidade real para seguir vespas, mas o seu valor depende muito da escala do problema. Encontrar um de dois ninhos pode ser decisivo. Encontrar um de duzentos é outra coisa.
Chegamos assim a uma distinção que parece simples, mas que talvez devesse estar presente sempre que avaliamos uma técnica de controlo da Vespa velutina.
No apiário, interessa reduzir a pressão diante dos alvados e devolver às abelhas horas de voo, entrada de alimento e capacidade de funcionamento normal.
No ninho, interessa que a intervenção consiga comprometer a colónia inteira e, idealmente, fazê-lo antes da produção das novas fundadoras.
No território, o objetivo é eliminar uma proporção de ninhos superior à capacidade de reposição da população. À luz dos valores discutidos anteriormente, isso poderá significar neutralizar cerca de 90% ou mais dos ninhos antes da reprodução, para que no ano seguinte se formem menos colónias do que no anterior [6, 16]. É um objetivo extremamente difícil de alcançar. Basta pensar que uma parte importante dos ninhos permanece escondida, muitos só são descobertos tardiamente e outros se encontram muito disseminados por florestas, silvados, vales, copas de árvores e terrenos de difícil acesso.
Estas três escalas não competem entre si. São complementares. Um apicultor não pode esperar por uma estratégia regional de controlo enquanto as suas colónias permanecem paralisadas diante de dezenas de velutinas. Precisa de proteger o apiário. Mas também não devemos confundir essa proteção com uma redução da população da espécie no território.
Esta distinção foi-se tornando cada vez mais clara ao longo de anos de observação, leitura, experiência de campo e análise da informação disponível. Grande parte da discussão sobre a Vespa velutina continua centrada em quantas vespas se capturam, quantas se eliminam ou quantos ninhos se destroem. Essas métricas são úteis, mas são incompletas. Para avaliar verdadeiramente uma intervenção é necessário perguntar o que aconteceu depois.
As abelhas voltaram a voar?
O ninho de vespas deixou de estar funcional?
Produziu novas fundadoras?
E, sobretudo, havia menos ninhos reprodutivos no território no final da época ou menos colónias no ano seguinte?
É entre estas perguntas que talvez esteja a diferença entre aliviar o problema, controlar localmente a espécie e conseguir, um dia, fazer a sua população recuar.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Rojas-Nossa, S. V., Dasilva-Martins, D., Mato, S., Bartolomé, C., Maside, X. & Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78(12), 5142–5149. DOI: 10.1002/ps.7132.
[2] Onofre, N., Portugal e Castro, M. I., Nave, A. et al. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.
[3] Martín-Ávila, J. Á., Díaz-Aranda, L. M., Fernández-Pereira, J. M. & Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81(4), 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.
[4] Gabín-García, L. B., Bartolomé, C., Guerra-Tort, C., Rojas-Nossa, S. V., Llovo, J. & Maside, X. (2021). Identification of pathogens in the invasive hornet Vespa velutina and in native Hymenoptera (Apidae, Vespidae) from SW-Europe. Scientific Reports, 11, 11233. DOI: 10.1038/s41598-021-90615-7.
[5] Rodríguez-Flores, M. S., Lopes, A. R., Diéguez-Antón, A., Seijo, M. C. & Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina (Lepelieter 1836): Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.
[6] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.
[7] SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias (2023). Neutralización remota de nidos de Vespa velutina mediante ejemplares tratados con insecticida. Evaluación de las actuaciones realizadas en Asturias durante 2023. Principado de Asturias.
Referências — Abelhas à Beira
[8] Gomes, E. (2026). Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira. Ler.
[9] Gomes, E. (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Abelhas à Beira. Ler.
[10] Gomes, E. (2026). Chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno. Abelhas à Beira. Ler.
[11] Gomes, E. (2026). Cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?Abelhas à Beira. Ler.
[12] Gomes, E. (2026). O mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida. Abelhas à Beira. Ler.
[13] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler.
[14] Gomes, E. (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Abelhas à Beira. Ler.
[15] Gomes, E. (2026). Quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos. Abelhas à Beira. Ler.
[16] Gomes, E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.
[17] Gomes, E. (2026). A Vespa velutina é mais perigosa? Talvez o veneno não seja a principal razão. Abelhas à Beira. Ler.
[18] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina: um manual para apicultores. Abelhas à Beira. Ler.
Onde a Vespa velutina consegue instalar uma população suficientemente ampla, controlá-la torna-se extraordinariamente difícil, para não dizer impossível. Nas regiões europeias onde a espécie está estabelecida há vários anos, não se conhece atualmente uma técnica que, por si só ou em combinação, tenha demonstrado capacidade para fazer recuar de forma sustentada a invasão. A localização e destruição de ninhos por meio de diversas técnicas, entre outras os Cavalos de Tróia, continua a ser uma das medidas mais importantes, mas mesmo esta estratégia encontra dificuldades quando a população já atingiu densidades elevadas [1,2]. As situações em que a erradicação foi conseguida correspondem sobretudo a deteções muito precoces ou a condições particulares, como veremos mais adiante no caso de Maiorca.
Imagem gerada por IA
Uma das razões para esta dificuldade está provavelmente na enorme capacidade reprodutiva da espécie. Uma colónia madura de Vespa velutina pode produzir centenas de gines — futuras fundadoras —, sendo cerca de 350 um valor frequentemente referido na literatura [3]. A esmagadora maioria não chegará naturalmente a fundar uma colónia no ano seguinte, mas basta que uma pequena fração tenha sucesso para assegurar uma elevada reposição da população.
Franklin e colaboradores ajudam a perceber a dimensão deste fenómeno. Ao analisarem a expansão da espécie em Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, estimaram um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 [1]. Em termos simples, no cenário de baixa densidade descrito pelo modelo, cada colónia secundária que chega com sucesso à reprodução pode estar associada, em média, a quase dez novas colónias no ano seguinte.
É precisamente esta capacidade de reposição que ajuda a compreender por que razão neutralizar muitos ninhos pode produzir um excelente resultado local e, ainda assim, não ser suficiente para colocar a população em declínio.
Na publicação anterior, sobre os Cavalos de Tróia nas Astúrias, descrevi um resultado que merece atenção: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação, o número de ninhos passou de 53 para 13. É uma redução de 75,5% [6].
É um resultado importante. Mas deixa uma pergunta menos cómoda: eliminar três quartos dos ninhos chega para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte?
A estimativa de Franklin et al. permite fazer uma conta simples [1].
Ninhos neutralizados antes da reprodução
Ninhos que continuam reprodutivos
Multiplicação teórica da geração seguinte*
75%
25%
2,41×
80%
20%
1,93×
85%
15%
1,45×
90%
10%
0,96×
95%
5%
0,48×
*Cálculo: 9,64 × proporção de ninhos que continuariam reprodutivos. É uma projeção teórica baseada no parâmetro estimado por Franklin et al. [1], não uma previsão para um território concreto nem um limiar operacional de controlo.
A leitura do quadro é direta. Se fossem neutralizados 75% dos ninhos antes da reprodução, os 25% restantes poderiam, neste cálculo, originar uma geração seguinte 2,41 vezes maior. Mesmo uma redução de 85% continuaria acima de 1. Só perto dos 90% o resultado passa ligeiramente para baixo da reposição.
Um outro caso, desta vez em Oleiros, na Galiza, mostra bem a diferença entre remover muitos ninhos registados e demonstrar controlo populacional. Entre 2016 e 2019, o serviço municipal recebeu 2.490 pedidos de remoção e eliminou 2.234 ninhos; a eficiência anual de remoção dos ninhos registados variou entre 84,0% e 92,3% [2]. Ainda assim, foram registados 513 ninhos em 2016, 757 em 2017, 684 em 2018 e 536 em 2019. Mesmo removendo uma percentagem muito elevada dos ninhos conhecidos, continuaram portanto a surgir centenas em cada campanha.
É por isso que uma redução local de 75% não deve ser lida como erradicação. Pode significar uma diminuição importante da pressão sobre os apiários naquela área e naquele período — o que já é um resultado relevante — sem garantir que a população territorial entre em declínio no ano seguinte.
É aqui que o momento da intervenção ganha uma importância redobrada. Um ninho neutralizado cedo pode não chegar à fase reprodutiva. Ao atuar em julho ou agosto, não se retiram apenas obreiras que poderiam predar abelhas durante os meses seguintes; reduz-se também a possibilidade de essa colónia vir a produzir machos e gines que alimentarão a geração seguinte.
Nos dados das Astúrias, os 14 pontos onde o trabalho começou em julho registaram, no conjunto, menos 37 ninhos nos primeiros 500 metros; nos oito pontos onde começou apenas em setembro ou mais tarde, registou-se mais um ninho [6]. À luz do ciclo anual da Vespa velutina, esta diferença pode ter uma importância que ultrapassa a redução imediata da pressão sobre os apiários. Em julho, os ninhos atingidos estarão, em princípio, ainda antes da produção dos indivíduos reprodutores. Em setembro ou outubro, alguns poderão já ter entrado nessa fase. Por isso, uma intervenção precoce tem potencial para influenciar não apenas a pressão daquele ano, mas também a contribuição desses ninhos para a geração seguinte.
Num território já ocupado pela Vespa velutina, uma única técnica dificilmente resolverá o problema. A questão prática não é apenas quantos ninhos conseguimos neutralizar, mas quantos conseguimos neutralizar antes de contribuírem para a geração seguinte.
É, portanto, na capacidade de reduzir a pressão sobre os apiários e de abrandar o crescimento e a expansão da população que devemos situar estes resultados. Onde a espécie está instalada há anos, a erradicação é, em regra, um objetivo que ficou para trás. Isso não torna inútil o esforço de localizar e neutralizar ninhos; torna mais importante fazê-lo cedo.
Maiorca mostra também que nem sequer numa ilha a erradicação deve ser entendida como uma garantia permanente. A primeira população instalada na ilha foi objeto de um programa intensivo de deteção e destruição e acabou por ser declarada erradicada. Uma nova introdução ocorreu em 2021. Depois de dois anos sem deteções, a espécie voltou a aparecer: as autoridades retiraram 21 ninhos em 2024 e outros 21 em 2025, mantendo-se a deteção e o controlo em 2026 [4,5]. Ou seja, uma ilha pode oferecer condições excecionais para erradicar uma população inicial, mas continuar livre da espécie exige vigilância permanente e capacidade para responder rapidamente a novas introduções.
Eliminar 75% dos ninhos pode ser um excelente resultado local. Para diminuir a expansão, interessa sobretudo neutralizar o maior número possível antes de estes chegarem à fase reprodutiva. E, quando a Vespa velutina já está amplamente instalada, este é um objetivo mais realista — e mais útil — do que prometer uma erradicação que o território já dificilmente permite.
Uma pequena novidade no abelhas à beira
Acrescentei ao blogue uma nova área, acessível através do botão MENU (canto superior direito), onde passarei a disponibilizar alguns dos materiais que vou produzindo no âmbito da minha actividade profissional de formação e da consultoria apícola.
Para já, está disponível o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor, versão 2 (2026), com informação sobre o seu conteúdo e condições de aquisição.
Agradecia também aos leitores que experimentassem esta nova funcionalidade, tanto no computador como no telemóvel. Se puderem, confirmem-me se o botão MENU, o acesso à página Manuais e a ligação para contacto por email estão a funcionar corretamente. É uma ajuda importante nesta fase inicial.
Mais tarde, esta área deverá receber também outros conteúdos, nomeadamente sessões pré-gravadas de formação.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.
[2] Pazos, T., Álvarez-Figueiró, P., Cortés-Vázquez, J. A., Jácome, M. A. & Servia, M. J. (2022). Of Fears and Budgets: Strategies of Control in Vespa velutina Invasion and Lessons for Best Management Practices. Environmental Management, 70, 605–617. DOI: 10.1007/s00267-022-01690-z.
[3] Jones, E. P. et al. (2020). Managing incursions of Vespa velutina nigrithorax in the UK: an emerging threat to apiculture. Scientific Reports, 10, 19553. DOI: 10.1038/s41598-020-76690-2.
[4] Leza, M., Herrera, C., Picó, G., Morro, T. & Colomar, V. (2021). Six years of controlling the invasive species Vespa velutina in a Mediterranean island: the promising results of an eradication plan. Pest Management Science, 77, 2375–2384. DOI: 10.1002/ps.6264.
[5] Govern de les Illes Balears (2026). Informação oficial sobre a deteção e controlo de Vespa velutina em Maiorca.
Referências — Abelhas à Beira
[6] Gomes, J. E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler
Quando a Vespa velutina começou a expandir-se na Europa, uma das perguntas que naturalmente surgiu foi esta: encontrará por cá predadores, concorrentes ou parasitas capazes de limitar a sua expansão?
Passadas cerca de duas décadas, sabemos hoje bastante mais. A Vespa velutina é capturada por algumas aves, compete com outras vespas, pode transportar parasitas e alberga vários dos agentes patogénicos que encontramos nas abelhas. Portanto, não é correto imaginar uma espécie invasora que chegou à Europa e ficou completamente livre de inimigos naturais.
A questão verdadeiramente importante é outra: esses inimigos conseguem reduzir de forma significativa as suas populações ou impedir que continue a ocupar novos territórios?
Até agora, a resposta parece ser bastante menos animadora.
Vespa crabro: competir não é o mesmo que eliminar
A nossa Vespa crabro é maior do que a Vespa velutina e existem razões suficientes para admitir competição entre ambas. Utilizam alguns dos mesmos recursos alimentares, capturam outros insetos e podem encontrar-se nos mesmos locais de alimentação e nos mesmos apiários.
Um estudo realizado na Coreia do Sul comparou o comportamento agressivo da V. velutina com o de várias espécies nativas do género Vespa. Nos confrontos observados, espécies maiores, incluindo Vespa crabro, mostraram geralmente uma posição dominante perante a velutina [1].
Convém, contudo, não retirar deste resultado mais do que aquilo que o estudo mostra. Foram avaliadas interações agressivas e a capacidade de uma espécie dominar ou afastar outra de um recurso. O trabalho não demonstrou que a Vespa crabro mate regularmente a Vespa velutina, nem que esses confrontos provoquem uma mortalidade capaz de reduzir as suas populações.
Excerto de vídeo publicado por Trilhos da Longra
Um estudo europeu realizado em Itália procurou precisamente perceber se o aumento da V. velutina estava associado a uma diminuição das populações de V. crabro. Esse efeito não foi encontrado. Nas áreas estudadas, as duas espécies coexistiam e a abundância de V. crabro não diminuía sistematicamente à medida que aumentava a presença da velutina [2].
É também aquilo que tenho observado nos meus apiários. Já aqui escrevi que não elimino as Vespa crabro apenas porque aparecem diante das colmeias. Comem algumas abelhas, é verdade, mas até agora nunca lhes atribuí um dano económico comparável ao provocado pela velutina e fazem parte da nossa fauna [10].
Há competição e pode haver interferência entre ambas. O que não existe é evidência de que a V. crabro esteja a controlar as populações de velutina ou a impedir a sua expansão.
E os abelharucos?
Também já sabemos que o abelharuco (Merops apiaster) captura Vespa velutina. Um estudo realizado em Portugal encontrou restos de velutinas em locais de nidificação de abelharucos, demonstrando que estas fazem parte da sua alimentação [3].
O que continuamos sem saber é qual a importância quantitativa dessa predação. Tenho referido várias vezes no Abelhas à Beira que a chegada dos abelharucos a um apiário pode coincidir com uma diminuição muito visível das velutinas diante das colmeias. Algumas serão capturadas, outras poderão evitar temporariamente o local, mas nada disto permite concluir que os ninhos tenham desaparecido ou que a população regional tenha sido reduzida.
Há ainda um segundo problema para o apicultor: o abelharuco não caça apenas velutinas. Caça também abelhas e, sob forte pressão, pode condicionar durante muitas horas a saída das colónias para recolha de néctar, pólen e água. Assim, mesmo quando contribui para diminuir a presença de velutinas, o benefício líquido para o apiário não pode ser avaliado simplesmente contando as vespas que desapareceram da frente das colmeias.
Já abordei neste blogue quer a presença dos abelharucos em regiões onde a Vespa velutina está instalada, quer, mais recentemente, aquela que me parece ser a questão mais relevante do ponto de vista do apicultor: se uma menor presença de velutinas diante das colmeias se traduz efetivamente em mais minutos ou horas de forrageio para as abelhas[11,12]. Até ao momento, não conheço evidência que permita concluir que a predação exercida pelo abelharuco se traduza, no conjunto, num ganho líquido de horas de voo para as colónias. O abelharuco pode reduzir a presença de velutinas e, simultaneamente, manter uma pressão suficientemente forte sobre as próprias abelhas para continuar a limitar a sua atividade de forrageio.
O bútio-vespeiro é um caso bastante mais interessante
Há, no entanto, um predador europeu que exerce uma pressão muito mais direta sobre as colónias de velutina: o bútio-vespeiro (Pernis apivorus).
Ao contrário de uma ave que captura uma vespa adulta aqui e outra ali, o bútio-vespeiro procura ninhos de vespas e alimenta-se da sua criação. Nesse caso já não estamos apenas perante a morte de indivíduos isolados: pode ser atingida a própria colónia.
Um estudo publicado em 2025 acompanhou 11 bútios-vespeiros através de GPS e câmaras e analisou o que acontecia nas zonas em redor dos seus ninhos. Dos ninhos de V. velutina atacados e posteriormente localizados pelos investigadores, cerca de 89% encontravam-se destruídos. Além disso, a abundância de operárias de velutina diminuía nas proximidades dos ninhos do bútio-vespeiro [4].
Temos aqui algo bastante diferente do que observamos com o abelharuco. Existem ninhos atacados, colónias destruídas e uma redução mensurável da abundância local de operárias.
Mas o mesmo estudo trouxe um resultado particularmente interessante: no final da época, os investigadores não encontraram uma redução significativa da densidade de ninhos maduros de V. velutina nas zonas ocupadas pelo bútio-vespeiro [4].
Os autores avançam uma explicação plausível. Na primavera e início do verão poderão existir mais colónias jovens de Vespa velutina do que aquelas que o território consegue sustentar até ao outono. Algumas destas colónias desaparecerão por predação, outras por competição, falta de alimento ou outras causas. Assim, destruir parte das colónias de V. velutina numa fase inicial não significa necessariamente reduzir na mesma proporção o número das que chegam à maturidade.
Isto não torna o bútio-vespeiro irrelevante. Pelo contrário, se nas proximidades dos seus ninhos circulam menos operárias durante uma parte importante do verão, poderá existir um benefício ecológico local e eventualmente também para alguns apiários. Um segundo trabalho publicado em 2025 analisou inclusivamente a conservação de habitats adequados ao bútio-vespeiro como uma possível componente de estratégias integradas de gestão da velutina [5].
Varroa nas velutinas
Este é um assunto de que já falei neste blogue, em agosto de 2021, quando comentei um estudo realizado nas Astúrias sobre os insetos capturados nas chamadas armadilhas “específicas” para Vespa velutina [13].
Entre 286 velutinas examinadas, cinco apresentavam uma Varroa agarrada ao corpo, o que correspondeu a cerca de 1,75% dos exemplares [6]. É uma observação curiosa e facilmente compreensível num predador de abelhas: durante a captura ou manipulação de uma abelha parasitada, a Varroa poderá passar para a vespa.
Do ponto de vista populacional, contudo, dificilmente se imagina um efeito relevante. A reprodução de Varroa destructor está estreitamente associada à criação operculada das abelhas e não existe evidência de que consiga completar o seu ciclo reprodutivo na criação de V. velutina. Por isso, a presença ocasional de Varroa sobre velutinas será biologicamente interessante, mas dificilmente constituirá um fator importante de mortalidade desta espécie.
Mais interessantes podem ser os agentes patogénicos das próprias abelhas
Ao predar abelhas, a Vespa velutina entra inevitavelmente em contacto com muitos dos microrganismos e vírus presentes nas nossas colónias. E aqui começaram a surgir resultados que merecem atenção.
Num estudo realizado na Galiza, o vírus das asas deformadas, DWV, foi encontrado numa percentagem muito elevada das velutinas analisadas. Mais importante ainda, os investigadores detetaram formas replicativas do vírus, mostrando que não se tratava simplesmente de partículas virais ingeridas juntamente com as abelhas: o vírus conseguia efetivamente replicar-se no organismo da vespa [7].
Um trabalho português publicado em 2026 reforçou esta informação. Foram analisadas 534 amostras provenientes de 38 ninhos de Vespa velutina de Aveiro e Coimbra, abrangendo larvas, pupas, adultas e algumas rainhas. O DWV surgiu em cerca de 70% das amostras e foram também detetados outros agentes associados às abelhas, incluindo Nosema ceranae, BQCV e CBPV [8].
Estes resultados mostram que a velutina se integrou também na circulação de agentes patogénicos presentes nos ecossistemas e nos apiários que explora. O que ainda falta conhecer é a consequência dessas infeções. Para falarmos de um verdadeiro efeito populacional seria necessário demonstrar reduções relevantes na sobrevivência das operárias, no desenvolvimento da criação, no sucesso das colónias ou na produção de futuras fundadoras. Essa demonstração, até agora, não existe.
Ter inimigos não significa estar controlada
O que toda esta informação mostra é que a Vespa velutina está longe de viver num vazio ecológico. À medida que se foi estabelecendo na Europa, passou a integrar as relações já existentes entre predadores e presas, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos. A Vespa crabro compete com ela, os abelharucos capturam operárias, o bútio-vespeiro consegue localizar e destruir ninhos, Varroa pode aparecer ocasionalmente sobre os adultos e vários agentes patogénicos das abelhas conseguem chegar às suas colónias.
O ponto importante está na dimensão do efeito produzido por cada uma destas interações. Matar algumas operárias pode ter pouca importância para uma colónia capaz de produzir milhares delas. Destruir colónias jovens já constitui uma pressão muito mais forte, como mostra o caso do bútio-vespeiro, mas mesmo aí não foi demonstrada uma redução correspondente dos ninhos maduros no final da estação. Para travar realmente uma invasão seria necessário que a mortalidade e a competição reduzissem suficientemente o sucesso reprodutivo e a produção de novas fundadoras, geração após geração, até limitarem também a colonização de novos territórios.
É precisamente aqui que a extraordinária capacidade de compensação da Vespa velutina parece fazer a diferença. Uma população pode perder indivíduos e mesmo algumas colónias ao longo da estação e, ainda assim, produzir fundadoras em número suficiente para se manter e continuar a expandir-se. Um trabalho de Monceau, Bonnard e Thiéry, publicado em 2012, ajuda a perceber a dimensão deste potencial: com base nas taxas de sobrevivência estimadas para a população francesa, os autores calcularam que 10 ninhos existentes num ano poderiam dar origem a cerca de 111 fundadoras capazes de estabelecer novas colónias no ano seguinte, ou seja, aproximadamente 11 novas colónias potenciais por cada ninho da geração anterior [9]. É também por isso que um efeito muito visível num apiário ou numa pequena área, provocado pelos inimigos naturais da Vespa velutina, não deve ser automaticamente interpretado como controlo da espécie à escala local, regional e muito menos nacional.
Talvez seja esta a conclusão mais equilibrada. A natureza já começou a incorporar a Vespa velutina nas suas próprias relações ecológicas e alguns desses inimigos podem ajudar a limitar localmente a sua abundância. Mas, até agora, essa resistência biótica permanece abaixo da capacidade da invasora para compensar as perdas, produzir novas fundadoras e continuar a dispersar-se pelo território.
Nota: Perante uma pressão tão intensa da Vespa velutina, muitos apicultores acabam por recorrer às ferramentas que têm disponíveis, algumas mais simples e rudimentares, outras mais exigentes na sua aplicação. Entre essas estratégias estão os chamados Cavalos de Tróia, uma abordagem que tenho vindo a acompanhar e a sistematizar há vários anos.
Para quem pretenda conhecer melhor esta técnica, preparei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina. Para informações sobre condições de acesso e aquisição, poderá contactar-me através do endereço eduardogomesapi@outlook.com.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Kwon, O.; Choi, M. B. (2020). Interspecific hierarchies from aggressiveness and body size among the invasive alien hornet, Vespa velutina nigrithorax, and five native hornets in South Korea. PLoS ONE, 15(7), e0226934. DOI: 10.1371/journal.pone.0226934.
[2] Carisio, L.; Cerri, J.; Lioy, S.; Bianchi, E.; Bertolino, S.; Porporato, M. (2022). Impacts of the invasive hornet Vespa velutina on native wasp species: a first effort to understand population-level effects in an invaded area of Europe. Journal of Insect Conservation, 26, 663–671. DOI: 10.1007/s10841-022-00405-3.
[3] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.
[4] Martín-Ávila, J. A.; Díaz-Aranda, L. M.; Fernández-Pereira, J. M.; Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81, 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.
[5] Martín-Ávila, J. A.; Rebollo, S.; Fernández-Pereira, J. M.; Monteagudo, N.; Díaz-Aranda, L. M. (2025). Encouraging native predators of invasive yellow-legged hornets: breeding habitat preferences of European honey buzzards in exotic Eucalyptus plantations. Pest Management Science, 81, 3704–3714. DOI: 10.1002/ps.8738.
[6] Sánchez, O.; Arias, A. (2021). All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps. Biology, 10(5), 448. DOI: 10.3390/biology10050448.
[7] Rodríguez-Flores, M. S.; Lopes, A. R.; Diéguez-Antón, A.; Seijo, M. C.; Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina: Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.
[8] Santos, S. S.; Tiritelli, R.; Capela, N.; Souto, P.; Caringi, V.; Bortolotti, L.; et al. (2026). Detection of bee-associated pathogens in different developmental stages within the nest of the invasive hornet Vespa velutina nigrithorax Buysson, 1905. Biological Invasions, 28, 165. DOI: 10.1007/s10530-026-03878-4.
[9] Monceau, K.; Bonnard, O.; Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.
Referências — Abelhas à Beira
[10] Abelhas à Beira (2021). Preparando as colónias para a invernagem. Ler
[11] Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da Vespa velutina?Ler
[12] Abelhas à Beira (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo?Ler
[13] Abelhas à Beira (2021). Nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina. Ler
Nos últimos tempos tenho recebido muitos pedidos de apicultores amigos e antigos formandos que enfrentam uma pressão muito forte da Vespa velutina nos seus apiários. Em alguns casos, a predação é tão intensa que condiciona claramente a actividade das colónias e obriga a procurar respostas que vão além das medidas habituais.
Foi para responder a esses pedidos que decidi preparar o manual com 58 páginas que intitulei “Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor”. Nele procurei organizar, sistematizar e enquadrar a informação disponível sobre estas técnicas, apresentando-a numa sequência clara, prática e didáctica.
O manual não substitui a necessária prudência, o respeito pela legislação nem a avaliação de cada caso concreto. Pretende, isso sim, ajudar o apicultor a compreender melhor as possibilidades, os limites e os cuidados associados a duas abordagens que têm sido discutidas e experimentadas em diferentes contextos.
No início de julho, logo depois da cresta, um apicultor que frequentou as sessões de formação que ministrei on-line sobre o Controlo efectivo da varroose, iniciou o controlo da varroa nas suas colónias. Realizou nas semanas seguintes dois tratamentos caseiros à base de amitraz. Poderia ter considerado o assunto resolvido e seguido em frente. Felizmente não o fez, e como recomendei no curso, no início de agosto pegou em amostras de aproximadamente 300 abelhas adultas e fez aquilo que considero indispensável depois de qualquer intervenção cuja eficácia não conhecemos: mediu o que tinha ficado.
O resultado não deixou grande margem para tranquilidade. Em algumas das lavagens contou mais de 15 Varroas em cerca de 300 abelhas, apesar dos dois tratamentos com amitraz já realizados. O tratamento tinha sido feito; o controlo da varroa, claramente, não. Esta distinção é importante. Colocar um produto numa colmeia é uma ação; conseguir que a população de Varroa destructor desça para os valores que pretendemos é um resultado. Só a monitorização nos permite saber se esse resultado foi alcançado.
Não retiro deste episódio a conclusão de que o amitraz deixou de funcionar naquele apiário. Tratava-se de tratamentos caseiros e uma falha desta natureza pode ter várias explicações, desde a dose e a forma de aplicação até à quantidade de criação existente ou à própria sensibilidade da população de Varroa ao amitraz. O que sabemos objetivamente é mais simples: depois de dois tratamentos, a infestação continuava demasiado elevada.
Perante estes valores, este apicultor decidiu contactar-me e perguntou-me concretamente se poderia utilizar o Formic Pro, um dos vários medicamentos referidos por mim no curso. A sua principal preocupação, naquele momento, eram as temperaturas. Estávamos no início de agosto e as previsões apontavam para máximas bastante elevadas. Perante aquelas condições aconselhei-o a proceder de forma mais conservadora, aplicando apenas uma placa/tira de Formic Pro de cada vez, e não as duas simultaneamente previstas na bula. Foi assim que procedeu, seguindo esta orientação para as condições existentes naquele momento.
Aplicação de uma placa de Formic Pro em colónias com temperaturas elevadas (Scientific Beekeeping, 4a)
O ácido fórmico tem uma característica que o distingue de muitos outros acaricidas utilizados contra a varroa: consegue atuar também sobre uma parte dos ácaros presentes no interior da criação operculada. Esta vantagem é especialmente relevante quando existe quantidade apreciável de criação, mas não significa que o produto seja insensível às condições de aplicação. Pelo contrário, a temperatura, a ventilação, a força da colónia e a velocidade de libertação do ácido influenciam simultaneamente a eficácia e a tolerância das abelhas ao tratamento.
Terminadas as duas rondas, indiquei-lhe que avaliasse o resultado 12 a 15 dias depois, através de lavagens de aproximadamente 300 abelhas. Foi exatamente o que fez.
Já na segunda metade de setembro voltou a contactar-me com os resultados. Tinha avaliado várias colmeias e nenhuma das amostras ultrapassara duas Varroas. Duas Varroas em 300 abelhas correspondem aproximadamente a 0,7% de infestação. Comparando estes números com a situação encontrada no início de agosto, quando uma das lavagens revelara mais de 15 ácaros, o quadro era agora muito diferente.
Perguntei-lhe se tinha observado efeitos negativos sobre as rainhas, a que me respondeu que não, apenas deu conta de substituição de rainha numa colónia das muitas dezenas que tratou.
Não transformaria estes números numa estimativa experimental da eficácia do Formic Pro. Não estamos perante um ensaio desenhado para esse fim, nem todas as medições antes e depois correspondem necessariamente às mesmas colónias. Mas, para aquilo que interessa ao apicultor no terreno, a informação obtida era suficientemente útil: depois da intervenção, as amostragens mostravam níveis de infestação substancialmente mais baixos.
Nesta mesma conversa perguntou-me então se, perante amostras que não ultrapassavam duas Varroas em 300 abelhas, seria necessário voltar a tratar até ao final do ano. Respondi-lhe que, antes de lhe dar uma indicação, queria olhar para aquele valor através dos “olhos” do simulador de Varroa de Randy Oliver, fazendo uma projeção da evolução provável da população de ácaros até ao final de dezembro.
Referi-me que neste território não existe uma verdadeira interrupção da postura em novembro e dezembro, por efeito de recursos de néctar e pólen disponíveis durante uma parte importante do outono. E enquanto existe criação existe também oportunidade para a reprodução da Varroa.
Introduzi então os valores no simulador, procurando aproximar a dinâmica da criação daquilo que este apicultor me descreveu. A projeção foi bastante esclarecedora. Partindo de um nível atualmente baixo, se não fosse realizada uma nova redução da população de Varroa, o modelo projetava um crescimento muito acentuado durante o outono, chegando ao final de dezembro a uma população estimada em cerca de 2.500 Varroas por colónia. Um valor desta ordem de grandeza muda completamente a leitura das duas Varroas encontradas agora numa lavagem.
Resultados da simulação que fiz
Foi por isso que lhe respondi que, neste caso, considerava aconselhável prever um novo tratamento, preferencialmente até ao final da primeira quinzena de novembro, data até à qual a infestação não deverá superar, estimadamente, os 2%. A partir daí, mantendo-se criação e não havendo nova redução da população de ácaros, a progressão torna-se bastante mais acentuada.
Utilizo muito frequentemente o simulador de Randy Oliver, mesmo que não o considere uma máquina capaz de prever exatamente quantas Varroas teremos numa colmeia numa determinada data. Também não foi concebido para isso. É um modelo que integra aquilo que sabemos ou estimamos acerca da população de abelhas, quantidade de criação, crescimento da população de Varroa, imigração de ácaros e eficácia dos tratamentos e que permite visualizar trajetórias plausíveis. Para mim é sobretudo uma ferramenta de apoio à decisão.
Neste caso tornou visível algo que uma leitura estática das duas Varroas poderia esconder. O valor de hoje é baixo; a trajetória das semanas seguintes pode não ser. Uma colónia que mantém criação durante novembro e dezembro oferece sucessivos ciclos reprodutivos à Varroa. Assim, o mesmo nível de infestação medido em setembro pode ter consequências muito diferentes numa colónia que entra rapidamente numa pausa de postura ou noutra que continua a criar durante praticamente todo o outono.
Este caso acaba, portanto, por reunir várias ideias que tenho repetido muitas vezes neste blogue.
A primeira é que um tratamento não deve ser avaliado pelo produto que colocámos na colmeia, mas pelo número de Varroas que ficaram depois dele. Neste caso, depois da cresta do início de julho tinham sido realizados dois tratamentos caseiros com amitraz e, no início de agosto, uma lavagem continuava a revelar mais de 15 Varroas. Se este apicultor não tivesse monitorizado, poderia facilmente ter seguido pelo verão convencido de que o problema estava resolvido.
A segunda é que uma infestação baixa não significa necessariamente que podemos deixar de pensar na varroa durante vários meses. Duas Varroas hoje são poucas; a descendência dessas Varroas, somada aos ácaros que entretanto possam entrar na colónia, pode produzir uma realidade muito diferente algumas semanas depois. Neste caso, o simulador ajuda a tornar essa diferença particularmente visível: de um valor inferior a 1% em setembro para uma população potencial de cerca de 2.500 ácaros no final do ano, se a progressão não for interrompida.
E a terceira talvez seja aquela que melhor resume a maneira como atualmente procuro gerir a varroose: monitorizamos, intervimos quando necessário, voltamos a medir e utilizamos aquilo que sabemos sobre a dinâmica da colónia e da Varroa para antecipar o passo seguinte. Mais importante do que a fidelidade a determinado princípio ativo é saber onde estamos, verificar onde ficámos depois do tratamento e decidir com antecedência onde queremos estar quando se criam as abelhas que terão de atravessar o inverno.
Neste apiário o resultado conseguido até agora é bom. Mas é precisamente porque a infestação foi reduzida para valores baixos que faz sentido tentar conservá-la baixa, em vez de esperar que volte a atingir níveis que nos obriguem novamente a correr atrás da Varroa.
Referências — literatura científica e técnica
1. Direção-Geral de Alimentação e Veterinária — DGAMV (2025). Formicpro 68,2 g tiras para colmeia de abelhas melíferas — Resumo das características do medicamento, rotulagem e folheto informativo. Última revisão do texto: dezembro de 2025.
2. Bertola, M. & Mutinelli, F. (2025). Sensitivity and Resistance of Parasitic Mites (Varroa destructor, Tropilaelaps spp. and Acarapis woodi) Against Amitraz and Amitraz-Based Product Treatment: A Systematic Review. Insects, 16, 234.
3. Kosch, Y., Mülling, C. & Emmerich, I. U. (2025). Assessment of Resistance of Varroa destructor to Formic and Lactic Acid Treatment—A Systematic Review. Veterinary Sciences, 12, 144.
4. Oliver, R. & Harness, T. (2022). An Online Model for Varroa Management. Scientific Beekeeping.
4a. Randy Oliver (2023). Formic Pro and Queens in Hot Weather. Scientific Beekeeping.
Referências — Abelhas à Beira
5. Gomes, J. E. (2026). Qual é o melhor tratamento contra a varroa?Ler
6. Gomes, J. E. (2026). Varroa e muita criação: será a lavagem de abelhas adultas menos fiável?Ler
7. Gomes, J. E. (2026). Resistência ao amitraz: uma mutação não chega para contar toda a história.Ler
8. Gomes, J. E. (2023). Varroose: 4 tratamentos/ano serão suficientes?Ler
9. Gomes, J. E. (2026). Ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou?Ler