A chegada de Tropilaelaps mercedesae à Europa não é um cenário teórico — é uma realidade confirmada e recente, com estabelecimento já documentado no Cáucaso. Estamos perante um parasita com potencial destrutivo superior ao da própria Varroa destructor, sobretudo devido à sua velocidade de reprodução e à sua forte ligação à cria.

Ao contrário da Varroa, o Tropilaelaps passa muito pouco tempo nas abelhas adultas. Vive praticamente “fechado” dentro da cria operculada, entrando nas células pouco antes da operculação e reiniciando rapidamente o ciclo reprodutivo. Este detalhe biológico muda completamente o jogo: tratamentos que actuam sobretudo na fase forética tornam-se pouco eficazes.
É precisamente aqui que o ácido fórmico ganha relevância. Entre os acaricidas disponíveis, é praticamente o único com capacidade comprovada de penetrar os opérculos e atingir ácaros dentro da cria. Esta característica, muitas vezes citada mas raramente compreendida na sua real importância, torna-o uma ferramenta crítica no contexto do Tropilaelaps.
O estudo agora publicado vem trazer dados robustos em condições próximas das europeias — colónias fortes, caixas tipo Dadant e clima temperado-húmido. Isto é particularmente relevante porque grande parte da literatura anterior vinha de contextos tropicais pouco comparáveis com a apicultura europeia.

Os resultados são claros e difíceis de ignorar: o ácido fórmico (quer em formulações tipo Formic Pro®, quer em sistemas gelificados como Muraviinka®) provoca mortalidade quase total de Tropilaelaps em poucos dias. Em alguns casos, essa mortalidade atinge 100% em apenas 2,5 dias.
Mais importante ainda: essa eficácia ocorre dentro da cria, independentemente da idade da larva/pupa da abelha. Ou seja, ao contrário do que acontece com a Varroa, não existem “refúgios fisiológicos” significativos para o Tropilaelaps dentro das diferentes fases da cria.
Este ponto é absolutamente crítico do ponto de vista operacional: significa que o ácido fórmico consegue atingir o coração do problema — algo que muitos protocolos contra Varroa nunca conseguem fazer de forma consistente.
No entanto, há aqui um erro clássico que convém desmontar: assumir que um tratamento eficaz contra Tropilaelaps será automaticamente eficaz contra Varroa. O estudo mostra exactamente o contrário.
A eficácia contra Varroa destructor foi altamente variável e dependente da estação. No verão (condições quentes e húmidas), o ácido fórmico praticamente não teve impacto significativo. Já no outono, com temperaturas mais baixas e menor humidade, a eficácia aumentou claramente.
Isto confirma algo que muitos apicultores ignoram ou subestimam: não é apenas a temperatura que condiciona o fórmico — a humidade tem um papel crítico na evaporação e distribuição dentro da colmeia.
Outro ponto relevante é a influência da idade da cria na sobrevivência da Varroa. Ao contrário do Tropilaelaps, a Varroa sobrevive mais facilmente em cria jovem, onde a penetração do ácido pode ser menor. Isto cria verdadeiros “refúgios biológicos” que comprometem a eficácia global do tratamento.
Ou seja, o mesmo tratamento tem dois comportamentos completamente diferentes consoante a espécie alvo — um detalhe que deve mudar a forma como pensamos o controlo integrado.
Do ponto de vista da colónia, o ácido fórmico mostrou um perfil relativamente seguro em exposições curtas. No entanto, foram observadas perdas de abelhas adultas e algumas rainhas, sobretudo em colónias já fragilizadas por Varroa.
Isto reforça uma ideia que raramente é dita de forma frontal: o ácido fórmico não é um tratamento “benigno”. Tem uma margem de segurança estreita e o seu impacto depende fortemente do estado fisiológico da colónia.
Mas talvez o resultado mais importante — e mais negligenciado — seja o da reinfestação.
Mesmo após reduções quase totais de Tropilaelaps, as colónias voltaram a níveis elevados de infestação em apenas 20 dias.
Isto não é um detalhe — é uma mudança de paradigma. Significa que estamos perante um parasita capaz de recuperar populações extremamente rapidamente, quer por reprodução interna quer por reinvasão a partir de colónias vizinhas.
Na prática, isto destrói a ideia de “tratamento único resolutivo”.
Com Tropilaelaps, o controlo tem de ser necessariamente:
- repetido
- integrado
- sincronizado ao nível do apiário
E não apenas aplicado de forma isolada colónia a colónia.
Finalmente, o estudo deixa uma conclusão estratégica clara: o ácido fórmico é actualmente a melhor ferramenta química disponível contra Tropilaelaps, mas está longe de ser uma solução completa quando coexistem duas espécies de ácaros com biologias tão distintas.
Para levar para casa
Se há uma mensagem que este trabalho deixa — e que muitos ainda não querem ouvir — é esta:
- O modelo mental construído à volta da Varroa não serve para o Tropilaelaps.
- E mais grave ainda: pode levar a decisões completamente erradas.
O ácido fórmico deixa de ser apenas “mais uma ferramenta” e passa a ser, neste contexto, uma peça central. Mas, ao mesmo tempo, revela os seus limites quando confrontado com sistemas biológicos complexos e variáveis ambientais reais.
Com o objectivo de conseguir chegar a mais apicultores, com um serviço e produto pedagógico cada vez mais diferenciado e de elevada qualidade, prevejo no próximo mês de maio/junho disponibilizar sessões pré-gravadas sobre a aplicação do fórmico, com instruções e gravações vídeo, sempre com o necessário suporte científico e clareza de linguagem.





















