
Uma fotografia como a que acompanha esta publicação presta-se facilmente a duas leituras. E, curiosamente, a duas leituras quase opostas.
Foi exactamente isso que aconteceu. A fotografia foi publicada num grupo apícola norte-americano e rapidamente surgiram duas interpretações. Para uns, aquele padrão de criação era praticamente a imagem de uma colónia fortemente afectada pela Varroa e a caminho do colapso. Para outros, os numerosos alvéolos abertos constituíam evidência de comportamento VSH e, portanto, de uma colónia resistente à Varroa.
Não deixa de ser curioso como esta tendência para opiniões bipolarizadas, tão presente actualmente em quase todos os assuntos, também chega à apicultura. Perante a mesma fotografia parece por vezes necessário escolher imediatamente um dos lados: ou estamos perante uma colónia condenada ou perante uma extraordinária colónia resistente. Como se admitir que ainda não sabemos fosse uma posição menos válida.
Neste caso é precisamente a posição mais defensável.
A fotografia, só por si, não permite sustentar nenhuma das duas conclusões. E talvez seja justamente por isso que é interessante: as duas interpretações são possíveis, mas nenhuma está demonstrada — e, além disso, não são necessariamente equiprováveis.
O que vemos — e o que julgamos ver
O quadro apresenta aquilo que habitualmente se designa por bald brood, que poderemos traduzir por criação calva: alvéolos de criação que deveriam encontrar-se operculados aparecem abertos, deixando por vezes visível a criação no seu interior. Em algumas zonas o fenómeno é suficientemente abundante para quebrar claramente a uniformidade habitual da criação operculada.
Sabemos que comportamentos deste tipo podem estar relacionados com a Varroa. Abelhas com comportamento higiénico sensível à Varroa são capazes de detectar alterações na criação parasitada, abrir determinados alvéolos e, em alguns casos, remover a pupa infestada. Sabemos também que alguns alvéolos abertos podem posteriormente ser novamente fechados — o chamado recapping. Estes comportamentos aparecem com frequência nos estudos sobre colónias resistentes e constituem uma das peças do complexo puzzle da resistência à Varroa.
A tentação é, portanto, compreensível: muitos alvéolos abertos significariam muitas Varroas detectadas e, consequentemente, uma excelente capacidade de defesa da colónia.
Mas há aqui um salto lógico.
Criação calva não é sinónimo de VSH. Recapping não é sinónimo de VSH. E VSH, por sua vez, não deve ser confundido automaticamente com resistência funcional da colónia à Varroa.
A mesma fotografia pode contar duas histórias
Imaginemos duas colónias apresentando um quadro semelhante ao da fotografia.
Na primeira, existe uma população elevada de Varroa. A criação está afectada, algumas pupas encontram-se comprometidas, podem existir infecções virais associadas e as operárias abrem e removem criação anormal. A irregularidade que observamos seria então, pelo menos em parte, uma manifestação de um problema sanitário já importante.
Na segunda colónia, a população de Varroa poderá ser bastante diferente. As operárias possuem uma capacidade particularmente elevada para detectar alvéolos onde o ácaro está a reproduzir-se. Abrem preferencialmente esses alvéolos, interrompem o ciclo reprodutivo da Varroa e removem a criação infestada. O aspecto visual do quadro poderá novamente ser uma criação muito perfurada.
No primeiro caso poderíamos estar perante uma consequência da infestação. No segundo, perante um mecanismo que contribui para a controlar.
E existe ainda uma terceira possibilidade: as abelhas abrirem numerosos alvéolos e voltarem simplesmente a fechá-los sem eliminarem eficazmente o ácaro. O recapping tem sido encontrado em diferentes populações resistentes, mas a literatura mostra também que a sua presença, isoladamente, não constitui garantia de resistência.
É precisamente por isso que a criação calva é um fenótipo interessante para investigar, mas um mau diagnóstico quando utilizado isoladamente.
A pergunta certa não é quantos alvéolos estão abertos
Perante um quadro destes interessa fazer outra pergunta: Que alvéolos estão estas abelhas a abrir? É uma diferença aparentemente pequena, mas biologicamente enorme.
Suponhamos que abrimos 50 alvéolos calvos e encontramos Varroa em 20. Ao lado abrimos outros 50 alvéolos normalmente operculados, aproximadamente da mesma idade, e encontramos Varroa apenas em cinco.
Teríamos 40% de alvéolos infestados entre aqueles que as abelhas abriram contra 10% entre aqueles que deixaram intactos.
Nesse momento a fotografia começaria a adquirir outro significado. Já não estaríamos simplesmente perante abelhas que abrem muita criação. Teríamos evidência de que estão a escolher desproporcionalmente alvéolos infestados.
É precisamente esta selectividade que interessa quando falamos de VSH.
Depois há uma segunda pergunta: o que fazem depois de encontrar o alvéolo?
Podem voltar a fechá-lo. Podem retirar parte da criação. Podem eliminar completamente a pupa. Podem interromper a reprodução da Varroa. São resultados biologicamente diferentes, embora uma fotografia tirada num determinado momento possa mostrá-los todos simplesmente como «um buraco no opérculo».
E ainda falta perguntar o que está a acontecer às Varroas
Existe outro fenómeno particularmente interessante nas populações resistentes: uma proporção anormalmente elevada de ácaros que não consegue produzir descendência reprodutivamente viável. É aquilo que encontramos na literatura sob designações como MNR (mite non-reproduction) e, historicamente, SMR (suppressed mite reproduction).
Uma fundadora dentro de um alvéolo não significa necessariamente uma fundadora que conseguiu deixar uma filha adulta fecundada pronta a abandonar o alvéolo juntamente com a jovem abelha.
Por isso, se esta colónia despertasse o meu interesse, não me limitaria a contar alvéolos abertos. Abriria também criação operculada suficientemente avançada e procuraria saber quantas Varroas se reproduziram com sucesso e quantas não o fizeram.
Começamos assim a juntar peças: abertura selectiva de alvéolos infestados, remoção da criação, reprodução reduzida dos ácaros, recapping e outros mecanismos que podem contribuir para aquilo que verdadeiramente nos interessa.
Mas mesmo nesse momento ainda faltaria a pergunta mais importante.
Afinal, a população de Varroa cresce ou não cresce?
Uma colónia resistente não é resistente porque apresenta um comportamento que nós consideramos interessante. É resistente se o conjunto dos seus mecanismos conseguir alterar suficientemente a dinâmica populacional do parasita para permitir que a colónia sobreviva.
É aqui que a monitorização ao longo do tempo se torna indispensável.
Uma lavagem de aproximadamente 300 abelhas permite estimar a infestação num determinado momento. Outra medição algumas semanas mais tarde, na ausência de tratamento, começa a revelar-nos a trajectória da população parasitária.
Podemos então encontrar uma colónia com muita criação calva e uma população de Varroa que cresce rapidamente. Ou podemos encontrar uma colónia com este mesmo aspecto e descobrir que, apesar da presença de criação e de Varroa, a população do parasita cresce muito mais lentamente do que seria esperado.
A segunda situação merece evidentemente atenção.
Não porque a fotografia tenha demonstrado resistência, mas porque a fotografia nos levou a fazer uma pergunta que depois foi confirmada por outras observações.
Fotografias são excelentes para levantar hipóteses e perigosas para as confirmar
Há alguns anos provavelmente olharíamos para um quadro desta natureza sobretudo procurando uma doença ou um problema da rainha. Hoje conhecemos melhor a extraordinária complexidade da relação entre Apis mellifera e Varroa destructor. Sabemos que as abelhas inspeccionam criação, abrem alvéolos, voltam a operculá-los, removem pupas e respondem a sinais químicos e fisiológicos associados à criação parasitada. Sabemos também que a própria reprodução da Varroa varia entre colónias.
Quanto mais sabemos, paradoxalmente, menos legítimo se torna fazer diagnósticos rápidos a partir de um único sinal.
Por isso, perante esta fotografia, considero igualmente especulativas duas afirmações:
«Esta colónia está condenada pela varroose.»
e
«Esta colónia é resistente à Varroa.»
Ambas dizem mais do que aquilo que a observação permite dizer.
O que a fotografia permite dizer é bastante mais modesto, mas talvez cientificamente mais interessante: «Há aqui um fenómeno invulgar na criação que merece ser investigado.»
Se houver tempo e interesse em investigar, esta pode até ser uma excelente oportunidade. Marcar a zona, observar o destino dos alvéolos abertos, comparar a presença de Varroa nos alvéolos que as abelhas abriram e nos que deixaram operculados, avaliar a reprodução dos ácaros e, sobretudo, acompanhar a evolução da infestação permitiria começar a distinguir uma colónia que está a sofrer os efeitos da Varroa de outra que poderá estar activamente a limitar a sua reprodução.
Mas se não houver tempo ou interesse para fazer essa investigação, a decisão prática deve, a meu ver, ser diferente da conclusão científica: por prudência, trataria.
Não porque esta fotografia demonstre varroose grave — não demonstra —, mas porque também não demonstra resistência e as duas hipóteses não têm, à partida, a mesma probabilidade. A resistência que permite às colónias europeias manter a população de Varroa sob controlo sem tratamento existe e está bem documentada, mas continua longe de constituir a situação habitual. Numa experiência clássica de selecção natural em Gotland, por exemplo, apenas cerca de 7% das colónias iniciais chegaram a sobreviver à forte selecção imposta pela ausência de tratamentos. Noutros conjuntos de colónias deixadas sem tratamento e sem uma estratégia específica de selecção, a maioria morreu nos primeiros anos, tendo alguns estudos encontrado sobrevivências até cinco anos na ordem dos 11%. Estes números não podem ser transformados na afirmação de que «esta colónia tem 7% ou 11% de probabilidade de ser resistente». Populações, condições ambientais e protocolos são diferentes. Mostram, contudo, algo importante para a decisão do apicultor: numa colónia de origem desconhecida e sem um histórico demonstrado de resistência, a susceptibilidade à Varroa é uma hipótese de base muito mais plausível do que uma resistência suficientemente forte para dispensar tratamento.
É aqui que convém separar duas coisas que por vezes confundimos: o que podemos concluir e o que devemos fazer. Cientificamente, perante esta fotografia, não posso concluir nem que a colónia vai morrer nem que vai sobreviver. Na decisão de maneio, porém, não sou obrigado a atribuir 50% de probabilidade a cada hipótese só porque não consigo distingui-las pela fotografia. Se não puder medir, acompanhar e testar a hipótese de resistência, o custo de tratar uma colónia que eventualmente seria resistente é incomparavelmente menor do que o custo de não tratar uma colónia susceptível com uma população de Varroa em crescimento.
Só depois de observar a evolução desta colónia começaria a perceber qual das histórias a fotografia está realmente a contar.
Na apicultura, como noutras áreas, um sinal não é um diagnóstico. E o facto de duas explicações serem possíveis não significa que sejam igualmente prováveis. A criação calva pode justificar curiosidade e investigação; não justifica, por si só, a aposta de deixar uma colónia sem protecção contra a Varroa.



























