No passado dia 2 de outubro, visitei o Miguel Almeida, apicultor profissional com um efetivo numeroso e apiários na zona de Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis. A visita nasceu de uma conversa sobre nutrição apícola. O Miguel falou-me de alguns ajustes que introduziu na alimentação das colónias, inspirados em recomendações que apresentei no curso Nutrição Apícola Aplicada, que ministrei e que ele frequentou há alguns meses. Como a nutrição é um tema que me interessa particularmente — e porque, muitas vezes, são os pequenos detalhes que fazem a diferença —, marcámos a visita para falarmos sobre esses ajustes.
Depois de um belíssimo almoço, durante o qual falámos de apicultura e de outros temas com ela relacionados, fomos ver algumas colmeias. Ficou claro que o controlo da Varroa e a nutrição são duas prioridades do maneio do Miguel que também partilho: manter a infestação em níveis baixos ao longo do ano e identificar os défices nutricionais, intervindo para os corrigir. No decurso das visitas a quatro dos seus apiários, fui fazendo algumas fotografias que aqui deixo.
No que concerne ao controlo da Vespa velutina (vespa-asiática), à data da visita, o Miguel sentia que os “cavalos de Troia”, por ingestão, não estavam a funcionar tão bem como noutros anos. Entretanto, informou-me de que a situação se alterou. Na altura, com base em alguns detalhes que retirou do curso Nutrição Apícola Aplicada, estava a identificar e a corrigir os fatores nutricionais limitantes que associava à pressão da vespa-asiática. A sua leitura é que, naquele momento, o principal fator limitante não era tanto a energia, fornecida pelos açúcares, mas sobretudo a proteína. Estava a suplementar as colónias com bifes proteicos, procurando compensar défices que decorriam, em grande medida, da pressão das vespas-asiáticas e do conhecido fenómeno de paralisia de voo ou paralisia de forrageio, a que já me referi em diversas publicações.
Observei que, nas proximidades dos apiários, há muita margoriça (Calluna vulgaris). Verifica-se, de facto, entrada recente de néctar e o seu armazenamento em alguns quadros.
É aí que a atenção e a avaliação regular do contexto de cada apiário se tornam importantes. Perante a entrada de néctar, o Miguel não identifica um défice energético que justifique a suplementação com xarope neste momento. Evita também o risco de bloquear os ninhos, o que nesta altura seria contraproducente: pretende manter espaço para a postura da rainha e para a criação de novas abelhas, aumentando a população das colónias para a colheita do eucalipto que se avizinha.
Entre as colónias que abrimos, encontrámos vários enxames bem fornecidos de criação e de abelhas. Outros estavam mais atrasados, alguns por terem sido formados mais tarde neste ano e outros, possivelmente, por se encontrarem em zonas mais sombrias do apiário. Nesta altura do ano, a exposição ao sol ou à sombra começa também a pesar no desenvolvimento dos enxames.
Em função dos quadros com criação e do desenvolvimento que observámos, o Miguel está confiante de que, dentro de um mês ou mês e meio, a grande maioria das colónias estará preparada para aproveitar o fluxo de néctar do eucalipto. Referiu-me a propósito desta árvore que, após os incêndios de há cerca de seis anos naquela zona, uma parte dos eucaliptos de grande porte nas proximidades de alguns apiários deixou de florir e ainda não recuperou a floração. É um fenómeno que importa compreender e que, na prática, o obriga a deslocar colmeias para zonas mais produtivas.
No percurso entre apiários, falámos das partes mais bonitas da apicultura e também das menos fáceis, da moldagem de cera que o Miguel faz para si e para clientes, e do trabalho de eliminação de ninhos de Vespa velutina nas redondezas. Ao longo da visita, foi evidente a paixão que mantém pelas abelhas, mesmo depois de cerca de 30 anos de atividade: continua atento, a experimentar soluções e a pensar no que pode fazer melhor.
Falámos também da importância das abelhas para os ecossistemas e a biodiversidade, e da necessidade de um apoio mais forte das instituições do Estado à apicultura. São tempos difíceis, mas encontrei no Miguel coragem e vontade de continuar — um apicultor disponível para aprender, observador e confiante no trabalho que faz.
Nota: Para aprofundar os temas desta visita e levar novas ideias para o seu apiário, consulte, através dos acessos no topo da página, a informação sobre a aquisição do meu manual«Cavalos de Troia»e da sessão gravada sobre a «Preparação das colónias para a invernagem»: Biblioteca de manuaiseSessões gravadas.
A preparação para a invernagem não começa apenas quando chega o frio. É um processo que exige observar as colónias com antecedência, avaliar o seu estado e decidir, em cada caso, que intervenção faz sentido. Nesta sessão gravada, percorro os principais aspectos desse trabalho, desde a formação das abelhas que irão atravessar o inverno até à avaliação final da colónia.
Quando devemos começar a preparar as colónias? Que abelhas nos interessa ter na colmeia para enfrentar o inverno e como podemos favorecer o seu desenvolvimento? Que condições deve reunir uma colónia bem preparada? Ao longo da sessão, abordo estas questões e os pontos que devemos observar para decidir se devemos intervir e de que forma.
Falo da importância da Varroa na preparação para a invernagem: que nível de infestação almejar, como o avaliar e porque é importante não deixar este controlo para demasiado tarde. Abordo também os sinais que podem levantar suspeitas de loque americana.
Identifico também sinais presentes na colónia acerca limitações proteicas e apresento uma receita para produzir suplemento proteico validado por princípios de preparação decorrentes de investigação recente.
Que reservas energéticas são suficientes? Quanto consome uma colónia em função da sua população e quando devemos suplementar se houver défice e com a antecedência necessária? Em que circunstâncias faz sentido recorrer a candy ou fondant? E como preparar e conservar xaropes açucarados de forma adequada?
A sessão aborda ainda da pressão da Vespa velutina: o impacto que pode ter nas colónias e algumas formas de reduzir a predação e a pressão.
Inclui também a gestão do espaço e das condições térmicas da colmeia, aspectos que podem influenciar a capacidade da colónia para atravessar o período de inverno.
O objectivo é ajudar o apicultor a observar, avaliar e decidir — e, no final, a responder às perguntas essenciais: a colónia está preparada para invernar?Como a auxiliar?
A sessão
Esta é uma sessão gravada, disponível para aquisição. Para manifestar interesse e receber mais informações, nomeadamente o módico preço de aquisição, envie uma mensagem para eduardogomesapi@outlook.com
Quem adquirir a sessão poderá também enviar duas perguntas, estritamente relacionadas com o seu conteúdo, para o mesmo endereço. Responderei tão rápido quanto que me for possível. As perguntas ajudarão ainda a reunir as dúvidas mais frequentes e a preparar respostas que serão partilhadas posteriormente com quem adquirir esta sessão.
No fim do verão e durante o outono, as colónias de Vespa velutina produzem machos e fêmeas reprodutoras. As fêmeas que poderão fundar colónias na primavera seguinte são chamadas gines. A sua produção e o acasalamento marcam uma fase decisiva do ciclo anual da espécie.
Onde acasalam as gines? Há observações de cópulas fora do ninho, mas o local de acasalamento das populações invasoras europeias ainda não está bem caracterizado. Os estudos disponíveis mostram que a reprodução pode ocorrer em diferentes contextos: em áreas abertas e copas de árvores, junto de plantas em flor e no solo.
Acasalamento de Vespa velutina (imagem gerada por IA)
Na província chinesa de Yunnan, na área nativa da espécie, Wen et al. observaram gines virgens a sair dos ninhos e a dirigir-se para zonas abertas, incluindo copas de árvores. Aí exibiam comportamentos de chamada, enquanto vários machos voavam à sua volta. Quando um macho era aceite, ocorria a cópula. Os autores designaram estes locais como áreas de congregação de machos [1].
As observações decorreram entre Setembro e Dezembro. Nos locais estudados, a actividade de atracção foi maior em dias soalheiros, com temperaturas entre cerca de 15 e 22 °C, geralmente entre as 10 e as 15 horas. Os dados dão uma primeira descrição do comportamento de acasalamento da espécie na sua área de origem.
Na Galiza, Rojas-Nossa et al. observaram cópulas junto a flores de Hedera hibernica. Os pares juntavam-se no ar, a cerca de 1,2 metros do solo, e caíam depois para o chão [2]. É uma observação directa em campo de uma população europeia e mostra que plantas em floração podem coincidir com locais de acasalamento.
Em França, Poidatz descreveu cópulas no solo, perto de ninhos ou de plantas com flores [3]. Já Thiéry e Tourrain referem que o local de acasalamento permanece por identificar, apesar da presença de muitos machos na hera em flor e de observações junto a ninhos ou árvores melíferas [4]. Estes registos apontam para vários contextos possíveis, mas ainda não permitem saber qual é o mais usado pelas populações europeias.
Para Portugal, não encontrei observações publicadas que descrevam directamente locais de cópula. Os registos da China, Galiza e França são, por isso, referências úteis para orientar a observação no terreno, enquanto se aguarda informação local.
Como não encontro imagens ou vídeos de acasalamento de Vespa velutina deixo em baixo vídeo de acasalamento de Vespa crabro.
Acasalamento no solo de Vespas crabro (vídeo de autor desconhecido).
Quando aparecem os machos e as gines?
Em França, os machos reprodutores podem surgir antes das gines. Darrouzet et al. documentaram também a produção de machos precoces, meses antes do período reprodutivo habitual. Muitos dos machos analisados eram diplóides, condição associada a problemas de fertilidade nesta espécie [5]. Assim, a presença de machos num ninho ao longo do ano não significa necessariamente que estejam todos disponíveis para acasalar.
Numa publicação de 2021, ao responder a questões de um companheiro apicultor, abordei a sincronização outonal entre a emergência dos machos e das futuras fundadoras, a época de acasalamento e a hibernação das gines fecundadas [9]. Essa publicação, baseada nos estudos disponíveis na altura, continua a ser uma introdução útil ao calendário reprodutivo. No texto sobre o ciclo de vida da espécie em França, situei também a produção dos reprodutores no fim do verão e a saída das futuras fundadoras antes do inverno [10].
A época de acasalamento e as condições em que ocorre podem variar com a região e o tempo. Para Portugal, ainda não há dados publicados suficientes para definir um calendário local com o mesmo detalhe.
Com quantos machos acasala uma gine?
Os dados genéticos de colónias francesas indicam que as gines podem acasalar com vários machos. Arca et al. estimaram entre 2,44 e 4,11 parceiros por gine, consoante a análise efectuada. Numa das colónias estudadas, a estimativa foi de cinco a oito parceiros [6].
O mesmo estudo analisou a origem da população invasora europeia. Os resultados apontam para uma única fêmea fundadora, com contribuição genética equivalente a cerca de 3,6 machos haplóides [6]. Esta estimativa permite perceber que a fundadora terá transportado para a Europa descendência genética de vários parceiros.
Quantas futuras fundadoras produz um ninho?
Um ninho maduro pode produzir centenas de gines e centenas de machos. É frequentemente referida uma estimativa de cerca de 350 gines e 900 machos. O estudo de Rome et al. encontrou, em cinco ninhos examinados em Novembro, uma média de 191 gines ainda presentes, com um máximo de 563 [7]. Como a produção varia entre colónias e muitas gines já podem ter saído do ninho, os números observados num momento específico dão apenas uma parte do quadro. Rome et al. estimaram ainda uma produção total média de cerca de 6.151 indivíduos por ninho até meados de Novembro.
A produção de muitas gines ajuda a explicar a capacidade de expansão da espécie. Monceau, Bonnard e Thiéry estimaram que dez ninhos detectados numa área francesa teriam produzido 111 futuras fundadoras para a época seguinte: cerca de 11 por ninho [8]. Esta estimativa demográfica foi calculada a partir da evolução do número de ninhos detectados ao longo dos anos.
A estimativa de 10–11 futuras fundadoras por ninho relaciona-se com o tema de uma publicação anterior sobre o potencial reprodutivo da espécie e a dificuldade em controlar a sua expansão [11]. O número ajuda a compreender como uma população pode recuperar de uma redução local de ninhos, desde que uma parte das fundadoras consiga iniciar colónias na época seguinte.
As observações já disponíveis mostram que as gines de Vespa velutina podem acasalar fora do ninho, em espaços abertos, junto a plantas em flor ou no solo. Também mostram que podem acasalar com vários machos e que um ninho pode produzir centenas de futuras fundadoras. Falta agora acompanhar melhor estes comportamentos nas populações ibéricas e registar os locais, as datas e as condições em que ocorrem.
Para quem observa a espécie no terreno, vale a pena anotar a data, a hora, o local, o estado do tempo e o comportamento observado. Uma gine a chamar machos, uma perseguição ou uma cópula junto a uma sebe florida são registos diferentes, e cada um pode ajudar a esclarecer como se reproduz a Vespa velutina em Portugal, colaborando na ciência-cidadã.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
[9] Gomes, J. E. (2021). vespa velutina: repostas a questões de um companheiro apicultor. Abelhas à Beira. Ler
[10] Gomes, J. E. (2019). ciclo de vida da vespa velutina (em França). Abelhas à Beira. Ler
[11] Gomes, J. E. (2026). do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler
Artigos e estudos
[1] Wen, P. et al. (2017). The sex pheromone of a globally invasive honey bee predator, the Asian eusocial hornet, Vespa velutina. Scientific Reports, 7, 12937. DOI: 10.1038/s41598-017-13509-7.
[2] Rojas-Nossa, S. V. et al. (2023). Predator and pollinator? An invasive hornet alters the pollination dynamics of a native plant. Basic and Applied Ecology, 71, 119–128. DOI: 10.1016/j.baae.2023.07.005.
[3] Poidatz, J. (2017). De la biologie des reproducteurs au comportement d’approvisionnement des nids: vers des pistes de biocontrôle du frelon asiatique Vespa velutina en France. Tese de doutoramento, Université de Bordeaux.
[4] Thiéry, D. & Tourrain, Z. (2024). Frelon asiatique. L’Abeille de France, 1125, 27–31.
[5] Darrouzet, E. et al. (2015). Production of Early Diploid Males by European Colonies of the Invasive Hornet Vespa velutina nigrithorax. PLOS ONE, 10(9), e0136680. DOI: 10.1371/journal.pone.0136680.
[6] Arca, M. et al. (2015). Reconstructing the invasion and the demographic history of the yellow-legged hornet, Vespa velutina, in Europe. Biological Invasions, 17, 2357–2371. DOI: 10.1007/s10530-015-0880-9.
[7] Rome, Q. et al. (2015). Caste differentiation and seasonal changes in Vespa velutina colonies in its introduced range. Journal of Applied Entomology, 139, 771–782. DOI: 10.1111/jen.12210.
[8] Monceau, K., Bonnard, O. & Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.
Em maio de 2021, escrevi sobre a transmissão do conhecimento tácito e sobre uma visita em que o Marcelo Murta me acompanhou em dois dos meus apiários. Na altura, falava de como se aprende também ao observar o trabalho no terreno e de como essa troca é mais rica quando ambas as pessoas estão disponíveis para partilhar o que sabem. No passado dia 1 de outubro, fui eu que visitei um dos apiários do Marcelo, nas proximidades de Coimbra. Cinco anos depois, continuamos a trabalhar lado a lado com alguma regularidade, agora em tarefas no apiário dele.
Neste momento, este apiário tem cerca de 40 colónias. O trabalho que fizemos foi uma equalização: reforçámos algumas colónias mais pequenas com quadros com criação prestes a emergir e quadros com reservas de pão de abelha. O objetivo é ajudá-las a entrar no inverno em melhores condições, atendendo ao seu estado e às reservas que têm disponíveis. O maneio resultou de observação prévia para decidir que reforço fazia sentido em cada caso.
As colónias apresentavam uma infestação por varroa abaixo dos 0,5%, de acordo com medições efectuadas dias antes. O controlo da Varroa faz parte prioritária do trabalho neste apiário. O Marcelo tem conseguido manter a infestação sob controlo muito apertado ao longo dos últimos anos, e apoia a suas decisões na monitorização das colónias através da técnica de lavagem de abelhas adultas. Em publicações anteriores registei algumas dessas medições e decisões.
A pressão da Vespa velutina é outro desafio neste apiário. O Marcelo instalou um bom sistema de harpas, que, até agora e na sua experiência, não vai abaixo e tem permitido reduzir de forma constante essa pressão. São medidas de proteção que se juntam ao maneio de controlo apertado da varroose e à atenção regular ao que se passa no apiário.
O Marcelo é, na minha opinião, um apicultor muito bem-sucedido. Começou este ano com 20 colónias e fez 85 desdobramentos. Ficou com 20 dos enxames novos produzidos, que acrescentou ao seu efetivo, e comercializou os restantes. Este resultado mostra a sua capacidade de organizar o trabalho principal com esta actividade de fim-de-semana, e ser efectivo na prossecução dos objectivos e dos procedimentos para os atingir. O apiário que visitei, com cerca de 40 colónias, é o reflexo desse percurso.
Identificamo-nos muito na forma de olhar para a apicultura, enquanto actividade de lazer mas da qual se pode e deve retirar retorno económico. Partilhamos muitas opções sobre a condução das colónias e como efectuar o seu maneio naqueles pequenos grandes detalhes. Essa proximidade torna estas visitas muito fluidas: observamos, discutimos o que cada colónia nos mostra e ajustamos as decisões ao contexto. É uma relação que se foi construindo ao longo dos anos e que continua a fortalecer-se.
Deixo aqui o vídeo desta visita, que mostra alguns momentos do trabalho de equalização e reforço das colónias como referi em cima. Há tarefas que se explicam melhor quando se vê o quadro sair da colmeia, se observa o estado da criação e se percebe como a decisão nasce daquela colónia concreta. A visita ao apiário do Marcelo foi mais um desses momentos de acção e comunhão.
Video de equalização outonal de colónias no apiário do Marcelo Murta, em 1 de outubro deste ano. (para verem o vídeo completo: https://www.youtube.com/watch?v=B2SJgKOudLk&t=64s no canal https://www.youtube.com/@BeeAdorablePT)
Referências do blogue
Gomes, E. (2021). A transmissão do conhecimento tácito e o encontro de gerações. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2021). Reação dos enxames a um generoso fluxo de pólen: o testemunho de um amigo apicultor. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2023). Litoral centro: avaliação da taxa de infestação por varroa em julho. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2023). Litoral centro: avaliação da taxa de infestação por varroa no final de agosto e tratamento. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2025). Testagem na cria: o diabo está nos detalhes. Abelhas à Beira. Ler
No próximo domingo, dia 11, pelas 9h00, estarei em Fazendas do Cortiço, a convite dos representantes da Junta de Freguesia e da Montemormel, para uma palestra sobre a preparação das colónias para o inverno, no âmbito da 19ª Feira do Mel. Partilharei algumas ideias e critérios de maneio para ajudar a avaliar as colónias e a preparar a sua entrada no inverno.
Agradeço à Montemormel o convite, na pessoa do seu presidente, Sr. Ermenegildo Charrua, do técnico da associação, Dr. Paulo Varela, e dos restantes membros da direção.
Sinto-me muito honrado com este convite e com a oportunidade de revisitar a bela cidade de Montemor-o-Novo e reencontrar os apicultores da região, que tão bem me acolheram há cerca de dois anos.
Há dias, numa loja em Amarante, disseram à minha esposa e a uma amiga que não deviam usar colheres de inox para comer mel, porque o metal mataria as enzimas e deterioraria o produto. A minha esposa ligou-me depois para perguntar porque nunca a tinha avisado desse risco. Respondi-lhe que nunca o fiz porque essa informação é incorrecta.
Sugeriram-me que escrevesse sobre este mito no blogue. Aqui estou a fazê-lo.
Não se pode matar aquilo que não está vivo. As enzimas do mel não estão vivas: são proteínas que participam em reacções químicas. Podem perder actividade, por exemplo, devido ao calor. Mas dizer que uma colher as «mata» não descreve o que acontece. Especialistas em ciência alimentar concluíram que não há evidência de que o simples contacto com uma colher de metal afecte a actividade das enzimas do mel [1].
Colher de inox em quadro recém desoperculado (foto do autor)
O mel pode, sim, em contacto prolongado com certas superfícies, absorver chumbo. É o caso de algumas soldaduras antigas, do aço galvanizado e de ligações de latão ou bronze. O tempo e a temperatura de contacto também influenciam esse risco [2].
O Manual de Apicultura em Portugal, da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), recomenda que os equipamentos usados na extracção do mel sejam de aço inoxidável ou de outros materiais adequados ao contacto com alimentos, como plástico de uso alimentar. [3].
Fica, portanto, a tranquilidade: a minha esposa e a nossa amiga podem usar uma colher de inox para servir ou comer mel sem receio de lhe fazer mal. E, já que me sugeriram que escrevesse sobre este mito no blogue, aqui fica a explicação.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
Gomes, E. (2016). Características físico-químicas do mel, legislação e atitude. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2020). Quadros com mel cristalizado: uma proposta de maneio. Abelhas à Beira. Ler
[3] Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP). Apicultura em Portugal — Manual Técnico, capítulo 8, «Maneio produtivo — Boas práticas na produção de mel», secção «Requisitos dos equipamentos e utensílios». Ler.
Encontrar uma colónia que mantém pouca varroa durante meses chama a atenção de qualquer apicultor. Se for também produtiva, é natural querer criar rainhas a partir dela. Foi o que Randy Oliver fez. A dificuldade apareceu depois: muitas das filhas deram origem a colónias que precisavam de tratamento como as restantes. Escolher uma boa mãe era apenas o princípio. Faltava conseguir que a resistência voltasse a aparecer nas colónias das filhas.
Foi esta dificuldade que me levou, em Fevereiro de 2018, a publicar «Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?». Randy acompanhava então pouco mais de mil colónias, descendentes de aproximadamente quinze rainhas cujas colónias tinham aparentado resistência. O critério de selecção definido por Randy foi: menos de 1% nas avaliações, admitindo até 3% em Novembro, quando paravam a criação, mas exigindo uma descida para 1% ou menos até Março do ano seguinte. As colónias que tinham ultrapassado os critérios definidos eram tratadas e retiradas do grupo de candidatas à reprodução [1].
Aqueles números mostravam a distância entre encontrar uma colónia promissora e conseguir repetir a sua qualidade numa parte apreciável das descendentes. Havia mães escolhidas, acompanhamento e uma dimensão de trabalho de monitorização pouco habitual. Mesmo assim, a resistência continuava a aparecer numa pequena parte da população. Para compreender o caminho que Randy percorreu depois, vale a pena começar pela maneira como encontrou as suas primeiras reprodutoras.
Quando a varroa chegou à sua exploração, Randy já seleccionava abelhas havia muitos anos. Procurava mansidão, sanidade, bom desenvolvimento e produção de mel. Precisava também de colónias fortes para a polinização das amendoeiras. A resistência ao ácaro veio juntar-se a estas exigências. Uma colónia que mantivesse pouca varroa, mas fosse agressiva, fraca ou pouco produtiva, não reunia aquilo que procurava para a exploração.
Em 2015 encontrou a colónia que viria a ficar conhecida como Queen Zero. Mantinha-se forte, tinha passado um período prolongado sem tratamento e apresentava contagens de ácaros praticamente nulas nas lavagens de abelhas adultas. A descoberta levou-o a procurar outras semelhantes entre as suas próprias abelhas. Depois de avaliar cerca de mil colónias em 2017, utilizou aproximadamente vinte reprodutoras na Primavera seguinte. Das suas filhas constituiu mais de 1.500 colónias em 2018 [8,9].
O primeiro trabalho foi tornar visível uma qualidade que não se reconhece apenas olhando para os quadros. Uma colónia bonita, com boa criação e muitas abelhas, pode estar a acumular varroa. Randy acrescentou as lavagens de abelhas adultas à avaliação que já fazia das colónias. As primeiras contagens permitiam encontrar candidatas; as seguintes mostravam se continuavam a manter a infestação baixa. Uma lavagem a zero chamava a atenção, mas era a repetição desse resultado ao longo dos meses que dava consistência à escolha.
Este acompanhamento exigiu milhares de lavagens. No balanço publicado em Janeiro de 2026, Randy referia mais de 30.000 realizadas nos últimos anos do programa. Cada colónia candidata tinha de continuar a passar pelas avaliações, e as que deixavam de cumprir os critérios eram tratadas. A selecção fazia-se pela escolha das que forneceriam as futuras rainhas, conservando na exploração as outras colónias que podiam ser recuperadas [9].
Randy Oliver a recolher amostra de abelhas para avaliar infestação por varroa (fonte: Re-Evaluating Varroa Monitoring: Part 1 – Methods – Scientific Beekeeping)
Houve progressos pelo caminho. Em Abril de 2020, Randy referia 56 colónias já aprovadas na avaliação dessa Primavera e sete que se desenvolviam bem após dois anos completos sem tratamento [2]. Em 2022, estimava que 15–20% das suas colónias apresentavam forte resistência. Entre as mil levadas à polinização das amendoeiras, mais de 150 tinham passado um ano inteiro sem tratamento; as trinta reprodutoras escolhidas apresentavam zero ou um ácaro por lavagem de abelhas adultas [3]. O progresso era lento, mas começava a abranger mais colónias.
Entretanto, tornava-se cada vez mais evidente a importância dos zângãos. Quando escolhemos uma colónia, avaliamos o trabalho das suas obreiras. Cada uma recebeu metade da informação genética da rainha e metade de um zângão. Como a rainha acasala com vários zângãos, na mesma colónia coexistem grupos de obreiras com pais diferentes. Quando criamos filhas dessa rainha e as deixamos acasalar, os zângãos com que se cruzam introduzem nova informação genética na descendência. A recombinação e a segregação dos genes dão origem a novas combinações; se esses zângãos não forem selecionados, pode ocorrer uma diluição do ganho genético. Assim, a qualidade que observámos na colónia de origem pode deixar de se manifestar nas novas colónias.
Acasalamento natural de uma rainha Apis mellifera (vídeo autor desconhecido)
Nos primeiros anos, Randy descrevia precisamente essa dificuldade: as filhas das suas reprodutoras encontravam uma população de zângãos ainda largamente proveniente de colónias não seleccionadas para resistência. O trabalho feito na escolha das mães ficava limitado pela origem dos machos com que as filhas acasalavam. Podia criar muitas rainhas a partir das melhores colónias e continuar a encontrar poucas descendentes capazes de manter a varroa baixa [8].
A resistência à Varroa parece depender de vários genes e mecanismos. Num estudo com mais de 1500 colónias, Eynard e colaboradores identificaram associações em várias regiões do genoma, sem que uma só explicasse grande parte da variação observada [11]. A resistência tem, portanto, uma base poligénica, embora exista uma componente hereditária sobre a qual a selecção pode actuar.
Para ilustrar de forma didáctica a influência do acasalamento, imaginemos, apesar dessa complexidade, que a resistência depende de um alelo recessivo r (associado à resistência), enquanto S representa o alelo de susceptibilidade à varroa. Uma rainha rr acasalada com zângãos r produz filhas rr; com zângãos S, produz filhas Sr, que não manifestam a característica neste modelo. Se uma rainha Sr acasalar apenas com zângãos S, nenhuma das suas filhas será rr. O alelo r não desaparece, mas a combinação necessária à resistência deixa de surgir nesse cruzamento.
Esquema didáctico simplificado: r está associado à resistência e S à susceptibilidade ou não-resistência (esquema do autor)..
Na realidade, o resultado depende de muitas variantes e das combinações transmitidas em cada geração. A selecção pode aumentar a presença das variantes favoráveis, mas é necessário trabalhar tanto com as rainhas como com os zângãos. Já tinha abordado estas dificuldades em «Porquê é tão difícil criar abelhas melhores?» e «Melhoramento de abelhas: facto ou ficção?» [4–6].
Randy procurou seleccionar dos dois lados do acasalamento: substituía rainhas por filhas das colónias escolhidas, que produziriam as obreiras das novas colónias e os zângãos das gerações seguintes. Como os zângãos nascem de ovos não fecundados, recebem a informação genética da mãe. A origem das rainhas que os produzem é, por isso, parte do trabalho de selecção.
Esses zângãos só terão influência se forem numerosos nas zonas de acasalamento. Randy procurou aumentar a sua presença, saturando essas zonas com machos provenientes de colónias seleccionadas — uma dimensão da selecção que discuti em «A minha resistência à resistência: o foco no foco» [7]. Se os zângãos de outras origens continuarem a ser maioritários, um local isolado pode ajudar a controlar os acasalamentos. Na colaboração com a Olivarez Honey Bees, Randy refere ter deslocado para locais mais isolados cerca de 450 colónias produtoras de zângãos, provenientes de rainhas seleccionadas e de famílias com traços de resistência [9].
O esforço de avaliação estendeu-se também a essas colónias. No Outono de 2025, o filho Eric participou na realização de lavagens em cerca de 1.400 colónias para identificar potenciais mães de zângãos. A origem Golden West permitia entrar na avaliação, mas as contagens de ácaros, a força e a produtividade continuavam a contar. Procurava-se melhorar também a qualidade das colónias que forneceriam os pais das gerações seguintes [9].
Os resultados de Julho de 2025 mostram quanto o programa tinha avançado. Na primeira avaliação de 828 colónias de primeiro ano, distribuídas por 25 apiários, aproximadamente metade das lavagens não revelou ácaros. Os núcleos tinham recebido uma aplicação de ácido oxálico quando foram constituídos, no final de Março e início de Abril. Mais de três meses depois, algumas amostras apresentavam 20 a 40 ácaros, enquanto muitas apresentavam zero. Era uma avaliação intermédia, que precisava de acompanhamento posterior, mas Randy já descrevia um controlo da varroa mais fácil e menos dispendioso [10].
Também não exigiu que todas as colónias controlassem o ácaro da mesma maneira. A remoção de criação infestada, a desoperculação e reoperculação ou outros mecanismos podiam contribuir para o resultado. O critério era encontrar colónias que mantivessem a infestação baixa e conservassem as restantes qualidades necessárias à exploração. As lavagens permitiam acompanhar esse resultado sem ter de conhecer, em cada colónia, todos os mecanismos envolvidos.
Ao olhar para este percurso, encontro uma sequência que interessa deixar clara. Primeiro, foi necessário procurar as colónias promissoras entre muitas outras e confirmar o seu comportamento com avaliações repetidas. Depois, multiplicar as famílias escolhidas, produzir muitos zângãos dessas origens e aumentar a sua participação nos acasalamentos, recorrendo também a locais isolados. Finalmente, voltar a avaliar as colónias das filhas, porque nenhuma dessas medidas dispensava a verificação do resultado.
É essa continuidade que dá valor ao trabalho de Randy: encontrar boas mães, preparar o lado dos zângãos e medir o que acontece nas descendentes. Uma colónia excepcional pode aparecer num apiário. Tornar essa qualidade mais frequente exige trabalhar sobre a população que vai produzir a geração seguinte. E, quando as novas rainhas começam a formar as suas colónias, regressar às lavagens de abelhas adultas para perceber o que se conseguiu conservar.
Na segunda parte, voltarei a uma escolha deste percurso: porque manteve Randy os voos de fecundação, procurando controlar os zângãos disponíveis, em vez de recorrer à inseminação instrumental? A resposta está ligada ao trabalho que quis demonstrar e aos produtores que esperava ver repeti-lo.
Dez anos de resistência ou dez anos de novos inquilinos?
Depois de acompanhar o percurso de Randy Oliver, com milhares de lavagens, escolha de reprodutoras e centenas de colónias destinadas a produzir zângãos, vale a pena olhar de novo para a afirmação habitual quando se fala de abelhas resistentes em Portugal: «Naquele tronco há um enxame há dez anos e nunca ninguém o tratou. São resistentes à varroa.» Em locais onde as rainhas acasalam sobretudo com zângãos de colónias não seleccionadas para essa característica, a probabilidade de manter níveis elevados de resistência é baixa. Antes de lhe atribuir essa capacidade, há uma pergunta mais simples: sabemos que a colónia sobreviveu durante todos esses anos ou apenas que voltámos a encontrar abelhas no mesmo buraco? Uma colónia pode morrer no inverno e o abrigo receber outro enxame na primavera, sem que quem passa ocasionalmente dê pela mudança [12].
Um abrigo ocupado ano após ano pode demonstrar que o lugar é bom; não demonstra, por si só, que a mesma colónia continua viva e que é resistente.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
Gomes, E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver? Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2020). Randy Oliver animado com o evoluir das suas linhas resistentes. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2022). Criação de abelhas resistentes: os progressos difíceis e lentos de Randy Oliver. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2019). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 1. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2022). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 2. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2019). Melhoramento de abelhas: facto ou ficção? Abelhas à Beira. Ler
Gomes, E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no foco. Abelhas à Beira. Ler
Artigos e estudos
Oliver, R. (2019). Selective Breeding for Mite Resistance: Walking the Walk — Progress Report 2019. American Bee Journal, Junho. Republicado em Scientific Beekeeping.
Oliver, R. (2026). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 5: It’s Your Turn! American Bee Journal, Janeiro. Republicado em Scientific Beekeeping.
Oliver, R. (2025). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 2: Concepts. American Bee Journal / Scientific Beekeeping.
Eynard, S. E. et al. (2025). Sequence-Based Multi Ancestry Association Study Reveals the Polygenic Architecture of Varroa destructor Resistance in the Honeybee Apis mellifera. Molecular Ecology, 34(3), e17637. DOI: 10.1111/mec.17637.
Kohl, P. L., Rutschmann, B. & Steffan-Dewenter, I. (2022). Population demography of feral honeybee colonies in central European forests. Royal Society Open Science, 9, 220565. DOI: 10.1098/rsos.220565.
Nos últimos dias, Lisboa foi palco de uma experiência que parece, à primeira vista, um pouco estranha: a libertação de milhares de mosquitos machos estéreis. São machos de Aedes albopictus, o mosquito-tigre-asiático, esterilizados e libertados para competirem com os machos selvagens. Se acasalarem com as fêmeas, desse acasalamento não resulta descendência. Durante setembro foram libertados 90 mil machos estéreis em Alvalade, numa experiência destinada, nesta primeira fase, a estudar a sua dispersão e sobrevivência e a avaliar a utilização futura desta técnica no controlo da espécie. [5]
Esta notícia levou alguns leitores do blogue a colocarem uma pergunta muito interessante: será possível fazer algo semelhante com a Vespa velutina? Poderíamos esterilizar machos — ou mesmo futuras fundadoras — e utilizá-los para reduzir a reprodução da população? A ideia parece simples. Mas, quando olhamos para a biologia reprodutiva da velutina, percebemos que o problema é bastante mais complexo.
Será possível impedir a reprodução da Vespa velutina e, dessa forma, acabar com as suas populações nos países onde se instalou? A pergunta faz sentido. Se conseguíssemos impedir a formação de novas colónias durante tempo suficiente, poderíamos actuar sobre aquilo que tem permitido à espécie continuar a expandir-se: a produção de novas fundadoras.
Mas entre esterilizar uma vespa e erradicar uma população existe uma distância enorme. Para o apicultor, interessa perceber se estas técnicas já estão disponíveis, o que conseguiram demonstrar e se poderão algum dia atingir uma escala que permita eliminar a velutina de um território.
Até agora, não dispomos de uma técnica de esterilização operacional e validada para esse objectivo. Existem experiências noutras espécies, projectos dirigidos à velutina e modelos que permitem estudar possibilidades. Merecem atenção, mas os seus resultados ainda não permitem prometer a erradicação.
Libertar machos estéreis
Uma das técnicas mais conhecidas é a Técnica do Insecto Estéril. Consiste em criar grandes quantidades de machos, esterilizá-los, geralmente através de radiação, e libertá-los para acasalarem com as fêmeas selvagens. A repetição destas libertações procura reduzir progressivamente a reprodução da população.
Esta técnica já é utilizada no controlo de outros insectos. Porém, aplicá-la à velutina exigiria resolver vários problemas: produzir machos em grande quantidade, esterilizá-los sem lhes retirar a capacidade de procurar e fecundar fêmeas e conseguir que competissem com os machos existentes no território.
Acresce que as futuras fundadoras da velutina podem acasalar com vários machos. Uma fêmea que acasale com um macho estéril poderá também receber esperma de outro fértil. Isso não torna a técnica necessariamente inútil, mas obriga a conhecer melhor o resultado desses acasalamentos.
Nas vespas, os ovos não fecundados podem originar machos; os fecundados originam normalmente fêmeas. Para formar uma colónia, a fundadora precisa de produzir obreiras. É sobre esta capacidade de estabelecer novos ninhos que uma intervenção teria de mostrar resultados.
Actualmente, não existe um programa operacional de libertação de machos esterilizados que tenha demonstrado controlo, muito menos erradicação, de populações de Vespa velutina.
Representação da possível utilização de machos esterilizados de Vespa velutina: depois de libertados, procurariam acasalar com as futuras fundadoras, tentando reduzir a produção de descendência. Uma possibilidade ainda em investigação, não disponível no terreno. (imagem IA)
E esterilizar as futuras fundadoras?
Também podemos imaginar uma intervenção dirigida às fêmeas. Mas, se para esterilizar cada fundadora tivermos primeiro de a capturar, surge uma pergunta prática: qual seria a vantagem de a tratar e libertar em vez de a eliminar?
O interesse aumentaria se fosse possível atingir muitas fundadoras sem as capturar individualmente, ou se uma intervenção produzisse efeitos que se prolongassem pela população. É aqui que entram algumas ferramentas genéticas.
No blogue, já em 2019 mencionei o siRNA e o CRISPR-Cas9 entre as linhas de investigação que mereciam investimento [1]. São ferramentas diferentes, e falar delas não significa que exista já uma solução pronta para utilizar.
Uma alteração genética que passa às gerações seguintes
O chamado gene drive procura favorecer a transmissão de uma alteração genética à descendência. Se essa alteração comprometer a fertilidade, poderá espalhar-se durante várias gerações e reduzir a reprodução da população.
O que se transmite é a alteração genética. Alguns dos seus portadores têm de continuar capazes de se reproduzir para que ela possa passar à geração seguinte.
Meiborg e colaboradores estudaram esta possibilidade num modelo adaptado à biologia da velutina [2]. Entre as estratégias consideradas, actuar sobre a fertilidade das fêmeas mostrou maior potencial. Contudo, os resultados também revelaram dificuldades importantes.
Podem surgir variantes resistentes à alteração introduzida. Além disso, as fundadoras férteis que restam podem continuar a produzir descendentes suficientes para manter a população. No modelo, tornar muitas fêmeas inférteis não provocava necessariamente uma diminuição proporcional dos ninhos.
Este é um ponto decisivo para quem pensa em erradicação. Não basta que a alteração genética se espalhe: é necessário que a reprodução diminua o suficiente para a população desaparecer.
O estudo mostra condições em que a supressão poderia ocorrer, mas não demonstra que isso seja alcançável no terreno. Não foi uma experiência de libertação de velutinas modificadas e não existe actualmente um gene drive operacional contra esta espécie.
RNA de interferência: uma possibilidade que já aqui apresentei
Outra linha de investigação é o RNA de interferência, ou RNAi. De forma simples, determinadas moléculas de RNA podem reduzir a produção de uma proteína de que o insecto necessita. Dependendo do alvo, isso poderá afectar o desenvolvimento, a sobrevivência ou a reprodução.
Em outubro de 2025 apresentei neste blogue o projecto dos estudantes da Universidade de Lausanne, desenvolvido no âmbito do iGEM 2024 [3]. A proposta procurava combinar RNAi, entrega alimentar às larvas e identificação das velutinas por imagem, para tornar o acesso ao isco mais selectivo.
Portanto, a ideia de aproximar uma intervenção molecular da alimentação da colónia já estava em estudo. Continuava, porém, a ser um projecto em desenvolvimento, sem demonstração de controlo de populações no campo.
Existe também uma experiência anterior em Polistes metricus, outra vespa social. Os investigadores administraram RNA directamente às larvas através da alimentação e conseguiram reduzir a expressão de um gene [4]. Demonstraram que essa interferência era possível por ingestão, mas não demonstraram esterilização nem eliminação de ninhos.
Para transformar esta possibilidade numa ferramenta contra a velutina seria necessário confirmar que a molécula chega aos indivíduos pretendidos, mantém a sua actividade e provoca um efeito suficiente. A selectividade para a espécie também teria de ser demonstrada.
Onde entram os Cavalos de Tróia?
Os Cavalos de Tróia procuram aproveitar uma capacidade que as obreiras já possuem: regressar ao seu ninho. Se transportarem um agente eficaz, poderão fazê-lo chegar a indivíduos que o apicultor não consegue alcançar directamente.
Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição de alimentos nas colónias de velutina [5]. Essa investigação ajuda a colocar a pergunta certa: o que a obreira leva chega a quem, dentro do ninho?
É uma questão importante para os agentes já utilizados e para uma eventual intervenção por RNAi. Conseguir que a obreira transporte uma molécula não garante que esta chegue às larvas ou às futuras fundadoras em quantidade suficiente para produzir o efeito desejado.
Ainda assim, esta possibilidade merece investigação: utilizar as obreiras para entregar no ninho uma intervenção mais selectiva, capaz de comprometer o seu desenvolvimento ou a produção da geração seguinte.
Mas poderão estas técnicas erradicar a velutina de um país?
Esse é o objectivo mais ambicioso e continua por demonstrar.
Como já discuti neste blogue, a capacidade reprodutiva da velutina permite-lhe compensar perdas muito importantes [6]. Uma técnica pode funcionar num ninho ou reduzir a pressão num apiário e continuar longe de conseguir eliminar a população de uma região.
Para alcançar a erradicação seria necessário afectar uma proporção suficientemente elevada da população, abranger os locais onde a espécie se reproduz e impedir que os sobreviventes ou novas entradas voltassem a ocupar o território.
Um gene drive procura precisamente ultrapassar parte dessa dificuldade, fazendo a alteração passar entre gerações. Uma intervenção por RNAi entregue através das obreiras procura alcançar o interior dos ninhos. São possibilidades com alcances diferentes, e nenhuma demonstrou ainda capacidade para erradicar a velutina dos países que colonizou.
Hoje, portanto, a resposta é esta: não temos uma técnica de esterilização pronta para esse trabalho, nem provas de que as propostas existentes consigam atingir esse alcance.
Isso não retira interesse à investigação. A pergunta continua a justificar investimento: conseguiremos comprometer a reprodução da velutina de forma suficientemente eficaz e abrangente para que deixe de repor as suas perdas e acabe por desaparecer de um território?
É essa passagem — de afectar alguns indivíduos para impedir a continuidade de uma população — que estas técnicas ainda têm de conseguir demonstrar.
Enquanto esperamos, é preciso proteger os apiários
A investigação sobre esterilização, RNAi ou gene drive abre caminhos interessantes, mas estamos ainda longe de saber se algum deles chegará a transformar-se numa ferramenta eficaz, segura e utilizável contra a Vespa velutina. O caminho poderá ser longo e não existe sequer a certeza de que estas tecnologias venham a alcançar os resultados que procuramos.
Entretanto, a velutina está nos apiários e os apicultores precisam de proteger as suas abelhas agora. E, embora nenhuma técnica resolva isoladamente o problema, já existem formas de reduzir a pressão de predação e dar às colónias melhores condições para resistirem.
As harpas elétricas, quando corretamente instaladas e utilizadas, podem eliminar uma parte importante das velutinas que se aproximam das colmeias. Os Cavalos de Tróia, utilizados com toda a precaução e parcimónia, procuram atuar de outra forma: aproveitar as próprias velutinas para transportar um agente até ao ninho e tentar reduzir ou eliminar a fonte de pressão sobre o apiário.
Por isso, enquanto se investigam soluções que poderão um dia atuar sobre a reprodução e sobre populações inteiras, a prioridade do apicultor continua a ser proteger o apiário com as ferramentas que já tem ao seu alcance, escolhendo-as e combinando-as de acordo com a pressão existente e as condições locais.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências — publicações do Abelhas à Beira
[1] Gomes, J. E. (2019). Vespa velutina: categorias de armadilhas e determinantes das escolhas. Abelhas à Beira. Ler.
[3] Gomes, J. E. (2025). Erradicação da V. velutina através da tecnologia de silenciamento de genes: os primeiros passos. Abelhas à Beira. Ler.
[5] Gomes, J. E. (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia. Abelhas à Beira. Ler.
[6] Gomes, J. E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.
Referências — artigos e estudos
[2] Meiborg, A. B. et al. (2023). The suppressive potential of a gene drive in populations of invasive social wasps is currently limited. Scientific Reports, 13, 1640. DOI: 10.1038/s41598-023-28867-8.
[4] Hunt, J. H., Mutti, N. S., Havukainen, H., Henshaw, M. T. & Amdam, G. V. (2011). Development of an RNA Interference Tool, Characterization of Its Target, and an Ecological Test of Caste Differentiation in the Eusocial Wasp Polistes. PLoS ONE, 6, e26641. DOI: 10.1371/journal.pone.0026641.
[5] Unidade Local de Saúde de Santa Maria (2026). «Lisboa avança para a fase experimental do controlo do Aedes albopictuscom libertação de 90 mil mosquitos estéreis». 12 de setembro de 2026.
Regressei recentemente às proximidades do rio Aguedão para uma segunda visita técnica a uma exploração apícola que tinha visitado no ano passado, então numa verdadeira situação de emergência. Nessa altura, várias colónias apresentavam taxas de infestação por varroa muito elevadas e foi necessário recorrer ao Protocolo Inovador (PI). A intervenção permitiu salvar uma parte considerável das colónias.
Desta vez encontrei, de uma forma geral, colónias num estado sanitário claramente melhor.
Colónias maioritariamente com 2 e 3 quadros com boas áreas de criação. (foto do autor)
O objetivo da visita deste ano foi sobretudo esclarecer e aperfeiçoar alguns aspetos de detalhe relacionados com a aplicação do PI para controlo da varroose.
Trata-se de um casal de apicultores com mais de 150 colmeias distribuídas por três apiários, numa exploração com dimensão profissional. Uma das coisas que mais me agradou observar foi a forma como trabalham em conjunto. Contaram-me que, durante os maneios, trocam frequentemente impressões entre si antes de tomar decisões, procurando chegar à solução que lhes parece mais adequada para cada colónia e para a gestão global dos seus apiários.
Casal de apicultores em trabalho colaborativo durante a aplicação do PI (foto do autor, 2026)
E esse cuidado percebe-se no terreno. Os apiários estão muito bem cuidados e organizados e possuem uma unidade de produção primária com um nível de qualidade que raramente encontro.
Uma paisagem de outono… e um oceano de eucaliptos
A envolvente apresentava já alguns sinais claros do outono. Nas proximidades do apiário observava-se bastante magoriça (Calluna vulgaris) em floração.
Magoriça (Calluna vulgaris) em floração nas proximidades do apiário. (foto do autor)
Mas há outra imagem que caracteriza imediatamente aquela paisagem. De um dos pontos mais elevados, o olhar perde-se num verdadeiro oceano de eucaliptos, cobrindo montes sucessivos até onde a vista alcança.
A paisagem envolvente do apiário: um extenso contínuo florestal dominado pelo eucalipto. (foto do autor)
Velutina: soluções diferentes em apiários diferentes
O controlo da Vespa velutina é outra área a que estes apicultores têm dedicado bastante atenção. Em dois dos apiários utilizam Cavalos de Tróia, enquanto noutro recorrem às harpas elétricas.
Esta diversidade de soluções mostra uma realidade que encontro muitas vezes no terreno: os apiários não são todos iguais e uma mesma técnica não tem necessariamente de ser a melhor solução para todos eles.
Várias rainhas criadas por métodos naturais
Durante a visita tive também oportunidade de observar várias belas rainhas criadas por métodos naturais pelas próprias colónias.
Questionei-os sobre a razão de estarem atualmente a trabalhar apenas com rainhas criadas por métodos naturais. Relataram-me então que, há cerca de três anos, tiveram uma experiência pouco satisfatória com rainhas adquiridas a um criador situado a sul de Lisboa. Desde então, têm dado preferência às rainhas produzidas localmente e pelas próprias colónias.
Uma das várias belas rainhas criadas por métodos naturais e observadas durante a visita. (vídeo do autor)
Naturalmente, uma experiência negativa com um determinado lote de rainhas não permite retirar conclusões gerais sobre a criação comercial de rainhas. Mas, neste caso concreto, ajuda a compreender a opção que estes apicultores passaram a seguir.
Da cresta até setembro: os números da varroa
Depois da cresta, realizada em meados de julho, os apicultores avaliaram a infestação por varroa em algumas colónias. Os valores encontrados eram muito baixos, situando-se aproximadamente entre 0,3% e 0,6%.
Logo depois aplicaram um tratamento homologado, que permaneceu nas colmeias durante as oito semanas preconizadas na bula.
Terminadas essas oito semanas, fizeram aquilo que considero essencial: voltaram a medir.
E os números já eram muito diferentes.
Em algumas colónias encontraram 15 varroas em 300 abelhas adultas, correspondentes a uma taxa de infestação de 5%.
É precisamente este tipo de situação que mostra por que razão não considero suficiente colocar um tratamento na colmeia e presumir que o problema ficou resolvido. É a avaliação realizada depois do tratamento que nos diz onde estamos realmente. Seja por uma eficácia insuficiente nas condições concretas de utilização, por reinfestação posterior ou por uma combinação de diferentes fatores, uma coisa é objetiva: 5% nesta altura do ano exige intervenção.
Afinar alguns detalhes do Protocolo Inovador
Foi neste contexto que trabalhámos alguns pormenores da aplicação do PI. Não se tratava agora de aprender o protocolo de raiz, mas de aperfeiçoar a sua execução, corrigindo pequenos detalhes que podem fazer diferença no resultado final.
Durante esta visita iniciámos a primeira ronda do Protocolo Inovador. Se tudo decorrer como espero, aproximadamente 12 dias depois será realizada uma segunda ronda, já autonomamente pelos apicultores.
O objetivo é chegar às próximas semanas com uma pressão de varroa muito mais baixa e com maior tranquilidade relativamente ao estado sanitário das colónias.
São as abelhas de inverno que agora interessam
As colónias estão neste momento a preparar e criar as abelhas que irão atravessar o inverno.
Estas abelhas não são simplesmente mais uma geração. São fisiologicamente diferentes das abelhas típicas da primavera e do verão, apresentam maior longevidade e terão um papel determinante na manutenção das colónias durante os períodos mais críticos dos meses seguintes.
É por isso que controlar a varroa agora tem uma importância tão grande.
Um ano depois
Um ano depois da primeira visita, o cenário é diferente. Na altura encontrei uma situação de emergência que exigia atuar rapidamente. Agora encontrei uma exploração onde os apicultores monitorizam, tratam, voltam a medir e procuram perceber aquilo que aconteceu depois de cada intervenção.
Desta vez o meu trabalho foi, por isso, sobretudo um trabalho de afinação: observar, discutir e melhorar alguns procedimentos.
E ficou novamente uma impressão que considero importante. Para além de instalações muito cuidadas e apiários muito organizados, encontrei dois apicultores que conversam entre si, observam, questionam e procuram tomar em conjunto as melhores decisões para as suas colónias.
Com mais de 150 colmeias, pequenas decisões repetem-se muitas vezes. E, por isso, pequenos aperfeiçoamentos nos procedimentos podem acabar por fazer uma diferença muito grande no conjunto da exploração.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
O apelo do meu querido amigo Armando Monteiro ao apoio ao gasóleo utilizado pelos apicultores merece a minha inteira solidariedade.
Quem trabalha com colmeias sabe quanto pesam as deslocações na conta da exploração: visitar apiários, acompanhar as colónias, fazer tratamentos, transportar alimento e material, recolher alças, realizar a transumância ou efectuar trabalhos de controlo da vespa velutina, como reparar harpas ou preparar cavalos de Tróia, entre outras actividades no apiário. Mesmo uma exploração que não pratica transumância precisa de se deslocar regularmente aos seus apiários. O combustível faz parte do custo de manter as abelhas e de trabalhar com elas, e pesa no rendimento que sobra ao fim do ano.
Apicultura, abelhas e veículos (foto do autor, 2025)
Ao longo dos anos tenho defendido que o valor das abelhas e da apicultura ultrapassa largamente aquilo que o apicultor recebe pela venda do mel e dos restantes produtos da colmeia. A polinização em que as nossas abelhas participam beneficia culturas agrícolas e plantas espontâneas, com ganhos que se estendem aos agricultores, aos consumidores e à sociedade. Uma parte desse trabalho pode ser remunerada através de contratos de polinização. Outra parte acontece sem pagamento directo, embora os seus benefícios sejam aproveitados muito para além dos limites da exploração apícola.
Uma parte do valor produzido pelas abelhas chega à sociedade sem passar pela conta do apicultor. É aqui que assenta a questão da justiça que venho colocando há anos: se os benefícios são partilhados, faz sentido que a sociedade participe também nos custos necessários para os manter.
Em outubro de 2018, na publicação conceito de serviços de ecossistema e orçamento do estado, defendi precisamente que o orçamento público deveria remunerar serviços que o mercado, por si só, não paga. Relacionei essa opção com a manutenção de actividades no mundo rural e com o combate ao despovoamento. Continuo a considerar que este princípio deve ter consequências nas decisões políticas e orçamentais.
A questão do gasóleo verde também me acompanha há anos. Recordo-me de a ter colocado em reuniões de dirigentes da fileira apícola portuguesa. Já então me parecia justo encontrar uma resposta para este custo da actividade. Hoje, considero essa resposta ainda mais urgente, sobretudo para quem depende da apicultura como fonte principal de rendimento.
O que se pede é um apoio adequado à realidade do trabalho apícola, que alivie efectivamente o custo do combustível necessário às deslocações e ao transporte de colmeias e material. Uma resposta acessível, com expressão nas contas das explorações e capaz de contribuir para a sua continuidade.
A transumar colónias entre apiários com cliente dos meus serviços técnicos (foto do autor, 2025)
Em 2019, já tinha alertado neste blogue para o risco de as dificuldades económicas levarem ao abandono da actividade ou à redução dos recursos destinados à saúde e ao maneio das colónias. Hoje, mantenho essa preocupação: temo que a falta de rentabilidade seja um dos principais motivos para muitos apicultores desistirem ou reduzirem fortemente o seu efectivo. A dedicação às abelhas pode levar-nos muito longe, mas não paga indefinidamente as despesas da actividade.
Quando uma exploração reduz a actividade ou encerra, perdem-se rendimento, trabalho, experiência acumulada e capacidade de manter colónias e disponibilizar serviços de polinização. A dimensão das consequências dependerá do território e das alternativas existentes, mas a perda não fica necessariamente circunscrita ao apicultor. A sociedade tem interesse em preservar esta capacidade produtiva e os benefícios que dela recebe.
É por tudo isto que me junto ao apelo do Armando. Se este apoio já era justo, considero que hoje se tornou crítico para a continuidade de uma apicultura profissional viável. Um apoio ao combustível não resolve, sozinho, os problemas do sector. Pode, contudo, aliviar uma despesa recorrente e incontornável, precisamente quando a margem disponível para a suportar é pequena.
Às associações e federações cabe insistir nesta reivindicação, fundamentá-la e dar conta aos apicultores dos passos realizados. Aos responsáveis políticos cabe construir uma resposta que chegue efectivamente às explorações. A sociedade portuguesa tem interesse em que haja apicultores capazes de continuar a trabalhar, a cuidar das suas colónias e a viver dignamente da actividade. Esperar que desistam para reconhecer o valor do que faziam será uma forma demasiado cara de aprender essa lição.
Referências do blogue
Gomes, J. E. (2018). conceito de serviços dos ecossistemas e orçamento do estado. Abelhas à Beira. Ler
Gomes, J. E. (2019). a fraude do “mel” chinês. Abelhas à Beira. Ler