projectistas de parques solares e polinizadores: a simbiose

O Miguel Marques chamou-me a atenção para dois artigos de divulgação científica em torno da conjugação simbiótica entre a instalação de parques solares, a implementação de sementeiras/ plantações biodiversas com espécies vegetais nativas, e o efeito benéfico sobre os insectos polinizadores. Os resultados são de duas investigações, uma levada a cabo nos EUA e outra no RU. Fiz a tradução de alguns excertos com a divulgação dos dados recolhidos pelos investigadores norte-americanos.

“Pesquisadores nos Estados Unidos constataram que o sombreamento parcial fornecido pelos parques solares cria um microclima que favorece o crescimento mais diverso e abundante de flores e polinizadores. Eles também descobriram que o sombreamento parcial aumenta a abundância da floração ao atrasar o seu desenvolvimento, aumentando a forragem para polinizadores durante o final da estação quente e seca.

Os insetos polinizadores visitam as flores, mesmo que estas cresçam sob os painéis de um parque solar, e a sombra dos módulos também é benéfica ao atrasar o período de floração, o que, por sua vez, tem um efeito positivo na abundância e diversidade dos polinizadores.

Esta é a principal conclusão do estudo “O sombreamento parcial por painéis solares retarda o florescimento, aumenta a abundância floral durante o final da estação para polinizadores num ecossistema agrivoltaico de sequeiro”, publicado recentemente em relatórios científicos, nos quais cientistas da Universidade Estadual de Oregon nos EUA investigaram se o acoplamento de PV ao habitat para polinizadores selvagens pode ajudar a aumentar a biodiversidade.

“Alguns estados, como Minnesota, Carolina do Norte, Maryland, Vermont e Virgínia, desenvolveram diretrizes e incentivos estaduais para promover instalações solares com foco em polinizadores”, afirmam os cientistas. “Nesta prática, a forragem para polinizadores é estabelecida como o sub-bosque do painel solar, em vez da grama tradicional ou cascalho.”

fontes: https://www.pv-magazine.com/2021/04/20/pollinator-focused-solar-parks/

o controlo da enxameação ou apaixonado como um adolescente

Tenho utilizado pontualmente a técnica Demaree. Este ano, e até à data, utilizei-a em três colónias. Por mero acaso, neste conjunto de três casos acompanho neste blog o caso onde se revelou mais complicado e difícil fazer o controlo do impulso reprodutivo. Enquanto nos outros dois casos não observei a produção de mestreiros no ninho após a aplicação da técnica, este caso não seguiu exactamente esse curso como aqui descrevi.

A colónia. A descrição do caso começou aqui.

Ontem foi dia de voltar ao apiário realizar diversas tarefas, como a verificação de postura em núcleos onde introduzi virgens a 12 de abril. Em mais de 50% dos casos só ontem vi os primeiros ovos (tema para uma futura publicação).

Passados quase já 30 dias sobre o início da aplicação da técnica voltei a inspeccionar a colónia do caso em análise. Primeiro ponto a realçar: não vi mestreiros de enxameação, de substituição ou de emergência nesta colónia — aparentemente a colónia entrou em modo de produção e deixou para trás o modo de enxameação.

Quadro do sobreninho, onde se observa os primeiros apontamentos do aromático néctar da erica arbórea — não da erica lusitanica, como erradamente assumi numa publicação anterior (obrigado Filipa!). Neste território, e pela frente, ainda tenho fluxo de várias origens durante cerca de mais 6 a 8 semanas.

Segundo ponto a realçar: se no sobreninho as coisas estão a começar a acontecer, no ninho o conjunto das três fotos em baixo falam por si e dispensam-me o texto…

Quadro na posição 6.
Quadro na posição 7.
Quadro na posição 8.

Terceiro ponto a realçar: se bem me lembro no passado dia 12 de abril, transferi para o sobreninho uns 7 ou 8 quadros com criação. De lá para cá já retirei do ninho desta colónia 3 quadros com criação. No total esta colónia doou cerca de 50 mil abelhas a outras colónias — as contas são, 10 quadros cada com cerca de 5 mil abelhas para emergir. Este número de abelhas doadas enchem duas caixas Langstroth de uma ponta à outra mais uma meia-alça. Estando eu expectante que esta colónia produza até ao final da época cerca de 30-40 kgs de mel, tomara eu que todas as minhas colónias tivessem este nível de desempenho e me dessem este rendimento. Que tenho para dizer a concluir? Menos colmeias não significa necessariamente menos produção e menos rendimento. E agora é aqui que me encontro, depois de quase ter abandonado a apicultura, como um adolescente, apaixonado de novo — “Não adianta represar um rio, mais tarde ou mais cedo ele volta ao seu percurso original“.

a apicultura enquanto arte

Talvez por estar no ramo, encontro na apicultura uma dimensão artística que me passa despercebida noutros ramos da agro-pecuária. Que me perdoem alguns se estiver a ser injusto e precipitado, mas fazer a apicultura é diferente de semear batatas. Uma alma poética poderá vir a ser apicultor, dificilmente será um produtor de batatas. Ninguém é melhor que ninguém, apenas são diferentes as suas naturezas.

A apicultura e a beleza…

Enquanto homem que vive a sua vida em várias dimensões, os leitores mais atentos já terão dado conta da minha especial preferência por uma forma de arte: a música. Sempre me acompanhou, desde que me lembro.

Era ainda um jovem e fundei uma empresa promotora de concertos. Juntamente com a minha mulher e o meu amigo Gonçalo Barros fundámos a NAO — Novas Audições Objectivas — que trouxe a Portugal (Coimbra, Lisboa, Porto, Almada e Montemor-o-Velho) bandas estrangeiras acompanhadas frequentemente de bandas nacionais na primeira parte. Talvez entre os leitores deste blog se encontre alguém que tenha visto algum concerto promovido pela NAO — o mundo é pequeno, não é?

A terminar, como faço muito esporadicamente, ligo um tema de um artista que esteve em Portugal, já depois da NAO ter encerrado as portas, e fui ver ao vivo no Parque das Nações: Moby.

A escolha do tema não é acidental, mas isso fica comigo. Sejam poetas sendo apicultores!

prevenção da enxameação e aplicação da regra “não mais de 6”: o testemunho de uma amiga apicultora

A Filipa Almeida, é uma grande amiga. É também uma apicultora a quem reconheço enorme competência assim como uma dedicação inultrapassável às diversas dimensões da apicultura. Do planeamento das suas tarefas ao longo do ano, à execução das mesmas no apiário e comercialização dos produtos das suas colmeias — merecedores de prémios nacionais de internacionais de enorme prestígio — a sua atenção ao pormenor e ao detalhe são invulgares. Na descrição em baixo, a Filipa elucida-nos como faz para prevenir a enxameação e como aplica a regra “não mais de seis” ao seu contexto e objectivos.

Abril. Fluxo de pólen contante. Entrada crescente de néctar. Temperatura na ordem dos 20ºC. Colmeias a 7-8 quadros de cria. Puro Risco! Estas são as condições ideias para assistir ao instinto natural, com milhares de anos, que induz as abelhas a reproduzirem-se naturalmente.

Como gerir esta situação, conduzindo as colónias para produção?

Cada apicultor gere a sua exploração segundo a suas próprias convicções. Longe de mim, querer questioná-las. Prefiro observar, registar ao longos dos anos e, com base nesse conhecimento, tomar decisões. 

A natureza é um livro aberto e é o melhor livro que podemos ler. 

É neste contexto, que a convite do Eduardo, vou descrever como faço a gestão do instinto de enxameação (instinto de enxameação reprodutiva), onde incluo a adaptação da “regra não mais que 6”, que li no seu blog.

Depois de colocar uma alça de cera puxada em todas, e de estas apresentarem algum néctar, tenho seguido as seguintes opções:

Opção A –Desdobrar artificialmente a colmeia, antecipando o acontecimento. Em colmeias de 8 quadros de abelhas, começo por localizar a rainha, isolá-la, depois retirar 3 quadros de criação (um quadro de criação aberta e dois de criação fechada a nascer com respetivas abelhas aderentes), introduzir alvéolo real, acrescentar um quadro de reservas de pólen e mel mais uma lâmina, e, por último, sacudir amas. 

Com esta opção, muito dificilmente a colmeia enxameará nas próximas 3-4 semanas, pois estará concentrada a reconstruir o ninho e repor a população. E passadas 3-4 semanas, já terei menos pólen e o néctar estará a diminuir, portanto terei condições menos favoráveis (não tivesse eu florações curtas….). A prioridade do enxame, nessa altura, será criar reservas.

Opção B – Arrefecer o ninho, retirando 2 quadros de criação na sua maioria operculada e respetivas abelhas aderentes, especialmente aqueles quadros que têm coroa de mel e pólen, adaptando a regra “não mais de 6”. Por outras palavras, estou a dar razões às abelhas para permanecerem na colmeia e ocuparem-se a inverter a situação.  A opção de arrefecer o ninho na regra “não mais que 6” é sempre analisada em conjunto com o estado em qua a alça se encontra, sempre procurando dar às abelhas a noção de espaço vazio. A noção de vazio (esquema gráfico nº 1) é dada com a colocação de uma alça vazia imediatamente por cima do ninho, ou trocando os quadros de cera puxados cheios por quadros vazios na zona central por cima do ninho, ou mesmo, caso já tenha néctar abundante nas alças existentes, colocando alças com cera laminada e puxada alternadamente. 

Esquema gráfico nº 1 – Representação esquemática da organização do espaço ninho + alça em colmeias fortes, no sentido de controlar o instinto de enxameação reprodutiva.

Colocação de alça de cera puxada vazia, imediatamente sobre o ninho.
Colocação de alças de cheias de mel sobre a alça vazia, dando a noção de espaço vazio sobre o ninho, em conjunto com a aplicação da regra “não mais de 6”.

Opção C – Nas colmeias onde já foi feita a opção A e B, monitorizo a cada 15 dias (senão 15 é 16 ou 17 dias depois). Porquê 15 dias e não 10-12? O nº de dias também depende da força do enxame, da quantidade de pólen e néctar no exterior e, naturalmente, da posição em que coloquei as lâminas (a seguir à criação operculada, de ambos os lados, e não ao centro). Para além disso, 15-16 dias permite aferir uma quantidade superior de colmeias, encontrando algumas com alvéolos abertos e outras apenas ovos dentro de alvéolos, portanto um espectro muito maior de colmeias. Esta verificação vai permitir analisar o evoluir da situação colmeia a colmeia; identificar as colmeias que efetivamente tem propensão para enxamear; verificar se há bloqueio por mel e/ou pólen, o que pode acontecer em áreas, como a minha, onde há fontes extraordinariamente abundantes de pólen. Se sim, removo esses quadros e coloco uma lâmina em substituição. 

Em qualquer das opções, as lâminas são sempre colocadas antes e depois da criação (fotografia nº3), para ficarem sempre junto à criação, que irradia o calor necessário para aquecer as duas, de ambos os lados, em simultâneo, dando a noção clara de espaço vazio em redor. Desta forma, observo que retiro mais força ao enxame. Uma lâmina em posição ao interior, a colmeia assume-a de imediato, puxa-a num dia e prossegue no seu intento de sair.

Colocação de cera laminada na posição 2 e 8, na aplicação da regra “não mais de 6”.

Na prática, a opção A é aplicada nas colmeias com bom desempenho dois anos consecutivamente. A opção B e C são realizadas cuidadosamente nas colmeias desdobradas no ano anterior, para saber quais têm condições para continuar a acompanhar-me nesta jornada de ser apicultora e serem as mães dos desdobramentos do ano seguinte (fotografia nº4).

Padrão de colmeias a manter, onde foi realizado a gestão do espaço ninho+alça, tendo em vista a produção de mel.  

Em modo de apontamento final, é importante dizer que a regra “não mais de 6” foi criteriosamente utilizada em colmeias fortes, adaptando-a ao maneio de colmeias lusitanas, ao território da Beira Baixa (fluxo abundante e curto) e aos objetivos de produção de mel e enxames. Compete a cada apicultor interpretar a regra e adaptá-la à sua realidade. Na apicultura não há receitas, esse é o maior problema para uns e o maior desafio para outros.

as filhas temporãs ou as rainhas de enxameação

Nesta publicação descrevi a enxertia de mestreiros em duas colónias-núcleo no passado dia 17 de abril. Anteontem verifiquei que andava uma rainha em postura em cada uma delas.

A sequência de acontecimentos: no dia 02-04 eliminei a rainha deste núcleo; a 5 introduzi uma rainha virgem; como não deu resultado a 15 re-introduzo outra virgem; a 17 introduzo mestreiro enxertado porque verifiquei que a rainha estava morta dentro da gaiola. Basicamente procurei dar resposta aos déficites existentes com os recursos disponíveis no momento.

Ontem, um desses núcleos foi passado para uma caixa-colmeia.

O núcleo…
A rainha…
A postura e a criação aberta…
Da caixa-núcleo para a caixa-colmeia.

Em conclusão e remetendo para o conteúdo da publicação da hiper-ligação em cima, as abelhas guardaram e defenderam mestreiros com rainhas viáveis das intenções destrutivas das diversas rainhas virgens nascidas horas ou até dias antes.

Estas rainhas enxertadas provêm de mestreiros de enxameação! Óptimo, são as rainhas melhor alimentadas e melhor criadas de todas as que podemos deitar a mão — muito provavelmente têm um número de ovaríalos acima da média. Óptimo, porque este ano vão fazer crescer a sua família a um ritmo tal que provavelmente me vão dar uma ou duas meias-alça no castanheiro. Óptimo, porque no próximo ano antevejo que estas rainhas arranquem precocemente e me ajudem a equalizar outras colónias que se foram mais abaixo durante o inverno e/ou apresentem um arranque mais lento e tardio. Óptimo, serão colónias ideais para trabalhar com ninho e sobreninho logo em março, e colónias que dedicarei aos desdobramentos pela técnica Doolittle relativamente cedo, em meados de março — estes desdobramentos não multiplicarão a sua herança genética, apenas aproveitará a sua produção, abelhas e quadros com criação. Aproveito sem rebuço, e com este sentido estratégico, algumas rainhas provenientes de mestreiros de enxameação. Há quem lhe chame linhas enxameadoras, eu prefiro chamar-lhe linhas precoces.

Nota: nesta publicação não estou a falar de colónias que apresentam mestreiros de enxameação com meia-dúzia de quadros mal preenchidos de abelhas e /ou que enxameiam duas vezes no mesmo ano. Aos anos que não vejo colónias dessas nos meus apiários. Nesta publicação falo de colónias que sobreviveram saudavelmente ao inverno, saem dele mais desenvolvidas que a média, e são uma fonte temporã do recurso mais precisoso da apicultura à saída do inverno no meu território: abelhas.

ozono: um tratamento eficaz da varroose?

Em 2015, no Beesource, o inventor de um equipamento de tratamento da varroose por meio do ozono, Luigi Conelli, publicou esta afirmação: “

O “ozonador ” do Sr. Luigi Conelli. Um ozonador amarelo-ferrari com um preço de Ferrari!

Concluímos nossos testes usando ozono em abelhas. Os resultados são muito interessantes. Aplicando 20 minutos de ozono nas colmeias, quando todas as abelhas estão dentro, observámos como resultado a morte de todas as varroa dentro das colónias por um longo período, mais de 21 dias. Todos os estádios de varroas caíram mortas depois de algumas horas.
Observámos colónias sem varroa, loque europeia, loque americana, Nosema sp. ect.
(Luigi Conelli, Beesource, 13-07-2015)

Fez também afirmações peremptórias que o dito tratamento ao mesmo tempo que era eficaz na eliminação das bactérias nocivas, preservava vivas as bactérias benéficas presentes na colmeia!!! Achei, como outros companheiros do Beesource, que este tipo de afirmações extraordinárias requeriam provas igualmente extraordinárias. Tanto quanto é do meu conhecimento o Sr. Conelli nunca as apresentou, e acabei por me desinteressar, esquecer e continuar a tratar a varroose como sempre o fiz, “dentro da caixa”!

Contudo, recentemente num grupo de apicultura português, surgiu de novo a indagação sobre esta técnica. Lembrei-me das afirmações do inventor em 2015, estranhando que de lá para cá quer a técnica quer o equipamento tenham caído no quase completo anonimato — que em Itália e noutras partes do mundo os apicultores não tenham testemunhado massivamente a sua satisfação — e procurei informação em língua inglesa sobre esta técnica para o tratamento da varroose, não fosse dar-se o caso de que entre 2015 e a actualidade tenha merecido a atenção de alguma equipa de investigação independente. Não encontrei nada no Google Scholar, o sítio onde estão acessíveis uma grande quantidade de estudos científicos — e para um equipamento tão “super-hiper” achei no mínimo isto muito bizarro! Ontem lembrei-me de pesquisar em língua italiana, uma vez que o inventor é italiano. Terá sido feito algum teste, com o devido controle, no país do inventor? E sim, esse teste foi feito em 2015, por uma equipa de investigadores do Istituto Zooprofilattico Sperimentale del Lazio e della Toscana “M. Aleandri”  e do Istituto Superiore di Sanità. Sobre a eficácia na eliminação das bactérias de loque europeia os resultados são decepcionantes. Sobre a eficácia na eliminação dos esporos da loque americana idem aspas. Contudo o que mais me interessou foi saber sobre o efeito acaricida da aplicação do ozono durante 20 minutos em colónias de abelhas. Em baixo deixo a tradução de um excerto publicado na revista Apitalia em fevereiro de 2016, com os resultados obtidos.

“Cinco colmeias sem criação foram tratadas com ozono, aplicando-o diretamente na colmeia durante 20 minutos e seguindo as instruções do fabricante do instrumento utilizado.
Algumas colmeias usadas como controle não foram tratadas. Para avaliar a eficácia acaricida do ozono, foi realizado um tratamento 14 dias após a administração do ozono, com Apibioxal e Apivar. A eficácia acaricida obtida com o tratamento com ozono foi igual a 4,9% ± 0,8%, enquanto a queda natural encontrada no grupo controle não tratado foi igual a 4,8% ± 0,7%. A diferença de eficácia entre o grupo tratado com ozono e o grupo de controle não foi estatisticamente significativa.

A força das colmeias observadas, as populações de abelhas adultas dos dois grupos experimentais e de controlo, foi avaliada no dia do tratamento e no final do período estimado para testar a eficácia do ozono (igual a 14 dias) segundo o método descrito por Delaplane et al., 2013.

No grupo tratado com ozono houve uma redução maior na quantidade de abelhas adultas do que no grupo controle, embora não significativa. A mortalidade aguda de abelhas foi avaliada pelo cálculo do número de abelhas mortas que caíram nos dias seguintes ao tratamento, colocando recipientes especiais, chamados cestos em gaiola, colocados à frente das colmeias. Não foi encontrado nenhum fenómeno agudo de mortalidade devido ao tratamento.
A mortalidade das abelhas rainha também foi avaliada no final do período de tratamento. Não se verificou a mortalidade de rainhas, tanto no grupo tratado quanto no grupo controle.
” (fonte Apitalia, 2/2016, https://www.izslt.it/apicoltura/wp-content/uploads/sites/4/2018/06/5.-Applicazione-dellozono-in-apicoltura-risultati-preliminari.pdf)

Em conclusão, ao contrário do que eu temia este tratamento, nas doses e na duração preconizada pelo inventor, não matas as abelhas, o que já é bom… tirando o facto que também não mata as varroas.

uma breve conversa: o que aprendo e ouço aos melhores apicultores norte-americanos

Paul Hosticka

Eu não dou a mínima para o que faz alguém que perde mais de 30% de suas colónias.Paul Hosticka

Nesta era de sensacionalismo, concordo plenamente! Especialmente ignoro aqueles que parecem nunca aprender a melhorar.
Aqui na Califórnia, existem apicultores que cumprem os seus contratos de polinização de amendoeiras de forma confiável ano após ano. Se cometerem um erro e perderem colónias, eles entendem o porquê, e deitam as culpas apenas a si mesmos.
Copie o sucesso — há muitos apicultores bem-sucedidos por aí,
silenciosamente mantendo colmeias saudáveis e ganhando dinheiro.
Randy Oliver, Grass Valley, CA
530 277 4450
ScientificBeekeeping.com

in Bee-L (01-05-2021)

Nota: uma força muito grande ao Randy, neste momento difícil da sua vida. Que supere rápida e totalmente o grande desafio de saúde que tem pela frente.

grelhas excluidoras: limitando as rainhas sem as limitar

Na utilização da técnica Doolittle para fazer desdobramentos tenho de confinar a rainha ao ninho por meio de uma grelha excluidora de rainhas.

Esta colónia, que habita uma colmeia do modelo Langstroth, recebeu o sobreninho a 21-03. A rainha foi confinada ao ninho em 27-03 por uma grelha excluidora, portanto há pouco mais de um mês.

Quando se menciona grelhas excluidoras de rainhas surge inexoravelmente a questão se limita ou não a postura das rainhas. Vamos por partes!

Esta é uma lâmina de cera que costumo utilizar nos ninhos das Langstroth. Tem 19,5 cm por 42 cm.

Ontem, depois do jantar comedido que fiz, decidi contar os alvéolos desta lâmina de cera.

Tinha 41 alvéolos na altura e 78 na largura. Multiplicando estes dois números fiquei a saber com rigor que estão presentes 3198 alvéolos em cada face desta lâmina de cera. Nas duas faces são 6396. Como incrusto a cera mais próximo do travessão do fundo dos quadros, estimei a altura com mais três filas de alvéolos, neste caso 44 em altura. Fazendo novamente as contas para esta alternativa obtenho um total de 3432 alvéolos em cada face, perto dos 7000 nas duas faces.

Outra questão que importa esclarecer: uma rainha põe exactamente quantos ovos por dia? Eu não sei! Julgo que varia de acordo com vários factores. Contudo na literatura são referidos valores médios a variarem entre 1000-2000 ovos/dia. Muito bem, se assim é 8 quadros do ninho bem desbloqueados dão espaço de sobra a uma rainha com uma postura média de 2000 ovos/dia durante 20 dias. Sim, porque ao fim do vigésimo dia começam a emergir as abelhas geradas a partir dos ovos postos 20-21 dias antes. E de novo esses alvéolos ficam disponíveis para um novo ciclo de postura — de facto o reverendo Langstroth não andava sob o efeito de psicotrópicos quando idealizou as dimensões dos quadros da sua colmeia.

Em conclusão, a grelha excluidora limita o espaço de postura de uma rainha ao ninho, mas não tem forçosamente de limitar a postura em si mesma. Bem desbloqueados os 10 quadros do ninho no modelo Langstroth — e também os da Lusitana, que têm um número de alvéolos muito próximo — não limitam a postura das minhas rainhas. No período de 20 dias permitem a oviposição de 40 mil ovos. Sabendo que a população máxima de uma colónia iberisiensis ronda as 45 mil abelhas, parece-me que não é “contra-natura” a utilização da grelha excluidora nas condições que descrevo. Não noto, nestas colónias, atraso nenhum no seu desenvolvimento.

Tirei umas fotos para me convencer que também não ando sob o efeito de psicotrópicos quando trabalho nos meus apiários — desde que anteontem uma raposa se aproximou de mim, a menos de 10 metros, enquanto eu trabalhava silenciosamente no meu apiário como é meu hábito, e ambos ficámos admirados de nos vermos ali tão inesperadamente próximos, que já não sei aos certo se o que vejo existe ou se vejo o que quero ver. Se calhar é um pouco das duas coisas!

Quadros do ninho da colónia 1, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 2, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 3, com rainha confinada ao ninho.

Mas como a apicultura é feita de imprevistos e de singularidades, se alguém desejar ensaiar não deixe de ir fazendo as suas observações e os ajustamentos que achar adequados. Nem sempre tudo sai como o planeado!

Como não saiu como planeado o meu primeiro ensaio na utilização da técnica de translarve.

A minha amiga Filipa Almeida e os meus amigos David Marques, João Gomes e Francisco Rogão já me deram umas dicas preciosas para evitar este colossal fracasso na próxima vez que tentar de novo.

a prevenção e o controlo da enxameação: o testemunho de um amigo apicultor

Quando desafio um ou outro apicultor a testemunhar a sua experiência apícola em torno desta ou daquela ideia por aqui veiculadas, é muito gratificante receber os seus testemunhos a confirmarem os ganhos que obtiveram — um pequeno aparte: uma das teorias da motivação mais interessantes que conheço, afirma que o sentido de utilidade que retiramos do que fazemos é um dos factores mais estimulantes para persistir e manter o empenho no que fazemos; como sou feito da mesma matéria que todos, importa-me saber que não estou a escrever sobre o “céu azul”, sim que estou a retratar com boa fidelidade a realidade dos meus apiários e os impactos das intervenções que realizo, que mais proximamente ou mais longinquamente há alguém que ficou a reflectir, que decidiu experimentar e, cereja no topo do bolo, obtém resultados satisfatórios. Por exemplo, recentemente o Rui Martins testemunhou como a sua estratégia de luta contra a varroose melhorou significativamente quando passou a ter em consideração o timing da aplicação dos tratamentos.

Hoje, publico o testemunho do meu amigo Miguel Pais acerca do impacto que algumas das sugestões por aqui divulgadas estão a ter nos seus apiários, em particular na prevenção da enxameação e no controlo da mesma. O texto e as fotos são suas. Obrigado Miguel por teres aceite o desafio e lhe teres dado resposta tão rapidamente. Um abraço!

Iniciei-me na Apicultura há quase 4 anos. Comecei com um enxame, e neste momento tenho cerca de 60 enxames. Tendo a varroa controlada, com poucas perdas anuais e conseguido não só manter o efectivo mas até aumentá-lo gradualmente de ano para ano, sinto cada vez mais a necessidade de prevenir e controlar a enxameação de uma forma mais prática e aumentar assim a produtividade das colmeias.

Visto que muitas vezes não quero aumentar mais o efectivo por já ter feito os desdobramentos que pretendia, começo agora a experimentar vários métodos de prevenção e controlo da enxameação. É aqui que o Eduardo tem dado uma grande ajuda com alguns métodos e experiências que tem descrito no seu blog, que têm sido importantes e têm feito a diferença no meu maneio. Muitas vezes são também os relatos dele que me fazem experimentar certo método que já conhecia mas que não estava ainda convencido da sua eficácia. 

Desses métodos que li no blog do Eduardo, há dois que me deixaram muito contente, apesar de só ter começado a usar um deles este ano, mas resultaram os dois muito bem, fiquei impressionado e arrependido por não ter começado a usá-los mais cedo! 

Em primeiro lugar passei a usar, o ano passado, aquilo a que o Eduardo chama de regra “não mais de 6”. Passei a usar essa regra, principalmente com rainhas mais velhas, não deixando assim que os enxames atinjam o pico da população antes da altura desejada, algo que considero muito importante, e esta regra parece uma forma bastante prática e simples de “segurar” os enxames. 


O segundo método comecei a experimentá-lo este ano, não é um método de prevenção mas sim de controlo de enxameação, o método Demaree, sobre o qual o Eduardo tem escrito ultimamente e que eu já conhecia, mas foi por ler o relato no blog que finalmente decidi experimentar. Em alguns enxames que começaram a aparecer com sinais de febre, comecei a meter a rainha no ninho com 2 quadros e os restantes quadros no sobreninho e uma grade excluidora entre o ninho e sobreninho, não me vou alongar muito no processo, porque podem-no ler mais detalhadamente no blog do Eduardo. 

Em conclusão, usei o método Demaree a primeira vez há cerca de 20 dias em alguns enxames e perderam a febre, bastante rápido.  Sem dúvida alguma vou passar a usar este método no meu maneio a partir de agora, vejo aqui uma solução simples e prática e que é feita sem consumir muito tempo.

Um grande obrigado Eduardo pelas coisas que escreves, desde que me iniciei que tem sido uma boa ajuda, além do mais dás também a conhecer apicultores lá de fora, como por exemplo o Randy Oliver ou o Bob Binnie, que também fazem coisas bastante interessantes.

os criadores de rainhas e o caso das rainhas da madeira

Entre os criadores de rainhas tenho maior simpatia por uns que por outros. E isto para mim conta, pois por princípio só adquiro rainhas aos criadores com quem simpatizo. E no caso das rainhas não agradarem a simpatia continua mas as compras acabam. Afirmo, portanto, que a minha disponibilidade para adquirir rainhas a alguns criadores é zero ou lá muito próximo. Não atino com aqueles criadores de rainhas que mal surge uma questão um pouco mais básica nos grupos de apicultores do Facebook, gozam, diminuem e sistematicamente mandam o novato fazer uma formação; não atino com aqueles criadores de rainhas que habitualmente apresentam vídeos ao estilo circense, com as rainhas a passear nas suas mãos e que, ao mesmo tempo que se expressam com muita humildade, estão nas entrelinhas e de forma latente constantemente a afirmar que são os maiores artistas cá do bairro; não atino com os criadores que, vindos do estrangeiro prometendo linhas seleccionadas e melhoradas, me enviam rainhas iguais e piores que todas as outras e que chegam mortas ou moribundas dentro das gaiolas; não atino com criadores de rainhas que ontem diziam cobras e lagartos das ibéricas por serem uma raça enxameadora, e hoje as criam e comercializam deixando implícito que são linhas que não enxameiam, num percurso cheio de contradições e falsidades; não atino com os criadores de rainhas que amuam porque gostei das rainhas de um concorrente, e esperam uma fidelidade canina…

À entrada de segunda semana de março, estabeleci contacto com três criadores de rainhas, com quem simpatizo, para me fornecerem uma pequena quantidade de rainhas fecundadas. O André Silva foi na altura aquele que as tinhas disponíveis de imediato. Enviou-me algumas fecundadas e, na mesma encomenda, o mesmo número de virgens. O foto-filme em baixo ilustra o desempenho de uma fecundada (à data de 26-04) e o de uma virgem, que já fecundou em terras serranas, à data de hoje.

Imagem geral da colónia, ontem 26-04, em que introduzi rainha fecundada no dia 19-03. De lá para cá, foi fortalecida com dois ou três quadros com criação fechada, e ontem apresentava o ninho praticamente cheio de abelhas e 8 quadros com criação (nestas rainhas do ano não aplico, habitualmente, a regra não mais de 6).
Coloquei a 1ª meia-alça, ontem.

Agora imagens da colónia onde introduzi a 19-03 uma rainha virgem.

À data de hoje, transferi esta colónia do núcleo onde cresceu para uma caixa de 10 quadros.
Apresentava 5 quadros com um padrão de postura digno de se ver!
Passei-a para caixa-colmeia e aproveitei para lhe doar um quadro mais com criação operculada.

Algumas das rainhas do André Silva estão, até ao momento, a dar-me bons sinais. Naturalmente vou continuar a observá-las, porque o seu percurso ainda está muito no início. Vou ficar atento para ver como vão responder a um conjunto de questões: o que vão produzir? como vão responder à varroose? como vão ultrapassar a invernagem? como vão arrancar no próximo ano? como se comportarão no período de enxameação reprodutiva? qual será a sua longevidade? Cada questão terá o seu momento próprio para ser respondida.

Nota: ao contrário do que se costuma ler nos filmes, qualquer semelhança entre o descrito no primeiro parágrafo com a realidade não terá sido mera coincidência.