Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.
Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.
O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.
2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico
A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.
Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.
Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:
“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”
Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.
E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.
2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização
Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.
As doenças não precisam de passaporte.
2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola
Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.
Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.
A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”
E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”
2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos
Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.
Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.
“ Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology
A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:
crescimento populacional superior ao da Varroa;
enorme dependência da criação;
curta permanência sobre as abelhas adultas;
dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.
A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.
O que mais me impressiona
O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.
É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.
Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”
Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.
A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.
Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico
Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.
Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.
Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.
Uma última reflexão
Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.
A prevenção começa sempre muito antes da emergência.
Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.
A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.
O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.
Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.
Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.
A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.
O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.
O exemplo da Nova Zelândia
Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.
Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.
O dispositivo Vespex
À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.
O Vespex não nasceu para a Vespa velutina
Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:
Vespula germanica (vespa-germânica);
Vespula vulgaris (vespa-comum).
Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.
Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.
Colocação do isco proteico com fipronil no Vespex
Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização
O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.
Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.
Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.
Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.
Os resultados obtidos contra a vespa-germânica
Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:
redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.
Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.
Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.
A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?
Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.
Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:
radio-rastreamento;
armadilhas;
procura intensiva em campo;
drones térmicos;
sistemas de inteligência artificial.
Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:
confirmadas 77 rainhas;
destruídos 132 ninhos;
sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.
Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.
O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?
Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.
É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.
O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:
existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.
Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:
utilização operacional;
e
evidência científica consolidada.
Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.
Então porque avança a Nova Zelândia?
Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.
Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:
“Qual é o risco desta substância?”
A Nova Zelândia começa por perguntar:
“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”
Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.
É uma lógica típica da biosegurança.
O sistema é mais importante do que a molécula
Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.
Avalia todo o sistema:
estação de isco fechada;
alimento proteico específico;
período limitado de utilização;
recolha posterior;
colocação dirigida;
integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.
Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.
Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.
A grande diferença ecológica
Existe ainda outro argumento pouco conhecido.
Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:
Vespa crabro;
Vespula germanica;
Vespula vulgaris;
espécies de Polistes;
espécies de Dolichovespula.
Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.
Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.
Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.
O que a Europa deveria estudar melhor?
Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.
Temos muitos trabalhos sobre:
toxicidade do fipronil;
persistência ambiental;
riscos para organismos não-alvo.
Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:
Quantos ninhos são realmente destruídos?
Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
Qual é a redução anual da população regional?
Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?
Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.
A pergunta que continua sem resposta
Talvez a verdadeira questão não seja:
“O fipronil é perigoso?”
A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.
A questão verdadeiramente interessante é outra:
“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”
Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.
A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.
Será essa a melhor solução?
Ainda não sabemos.
Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.
Os grandes incêndios que, nos últimos dias, ameaçam Bordéus poderão ficar na história como um momento de viragem na forma como olhamos para os incêndios florestais na Europa. Não se trata apenas de mais um incêndio de grandes dimensões. Trata-se de um incêndio que, em vários momentos, apresentou um comportamento extremo, gerando a sua própria meteorologia através de intensos fenómenos de piroconvecção e da formação de nuvens de fogo (Pyrocumulonimbus ou PyroCb).
Até há poucos anos, este tipo de comportamento era considerado característico de países como a Austrália ou o Canadá. Hoje sabemos que já faz parte da realidade europeia.
Pyrocumulonimbus, Gironde 2026
De Bordéus para a Austrália… passando por Portugal
A comparação com a Austrália não surge por acaso. Nos incêndios australianos de 2019-2020 observaram-se dezenas de tempestades de fogo, capazes de produzir ventos próprios, relâmpagos, projeção de brasas a quilómetros de distância e até de injetar fumo na estratosfera.
O incêndio da Gironde não atingiu essa dimensão planetária, mas apresentou vários dos mesmos mecanismos físicos.
Curiosamente, Portugal poderá ter sido um dos primeiros países europeus onde este comportamento ocorreu. Estudos publicados nos últimos anos sugerem que os incêndios de Pedrógão Grande e de outubro de 2017 desenvolveram intensa piroconvecção, embora esse fenómeno só tenha sido plenamente compreendido pela comunidade científica após os acontecimentos.
Nesse sentido, Portugal poderá ter sido um precursor involuntário daquilo que hoje começa a repetir-se noutros países europeus.
Incêndio no pinhal de Leiria, 2017
O incêndio cria a sua própria meteorologia
Durante décadas aprendemos que o vento, a temperatura e a humidade condicionavam o comportamento do fogo.
Hoje percebemos que, quando a energia libertada ultrapassa determinado limiar, a relação inverte-se.
O incêndio aquece violentamente o ar, gera enormes colunas convectivas, cria ventos locais, modifica a circulação atmosférica e pode originar tempestades de fogo.
A partir desse momento, deixa de ser apenas a meteorologia a controlar o incêndio. É também o incêndio que passa a influenciar a meteorologia.
É esta mudança de paradigma que torna os megaincêndios tão difíceis de prever e combater.
Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
Porque é tão difícil combatê-los?
Quando um incêndio entra numa fase convectiva extrema, muitas das estratégias clássicas deixam de funcionar como habitualmente.
Os bombeiros franceses recorreram, como é habitual, a linhas de contenção, proteção de povoações, meios aéreos e, em determinadas situações, a fogo tático (backburning).
No entanto, perante um incêndio capaz de lançar brasas muito para além das linhas de defesa e de alterar continuamente a direção dos ventos, o objetivo deixa muitas vezes de ser apagar diretamente a frente de fogo.
Passa antes por proteger vidas, defender infraestruturas e limitar a propagação para zonas críticas.
Os próprios responsáveis franceses reconheceram que existem momentos em que não se combate diretamente o incêndio; tenta-se apenas gerir a sua progressão até que as condições meteorológicas permitam recuperar o controlo.
Não é possível o combate directo a este monstro! Megaincêndio ou incêndio de 6ª geração, Gironde, 2026
O papel do fogo tático
O fogo tático continua a ser uma ferramenta extremamente importante.
Na Austrália constitui uma das principais técnicas de combate, sendo utilizado por equipas altamente especializadas. Em Portugal e em França também é utilizado, embora de forma muito mais seletiva.
Contudo, importa compreender uma limitação fundamental. O fogo tático funciona porque elimina antecipadamente o combustível existente entre a linha de defesa e a frente de incêndio.
Mas quando um megaincêndio produz projeção de brasas a centenas de metros ou mesmo quilómetros de distância, pode ultrapassar essas zonas já queimadas e iniciar novos focos para além delas.
Não significa que o fogo tático tenha sido mal executado. Significa apenas que o comportamento do incêndio ultrapassou aquilo para que esta técnica foi concebida.
Será então o fogo prescrito a solução?
A resposta é mais complexa do que parece.
O fogo prescrito realizado durante o inverno reduz eficazmente a carga de combustível e diminui o risco de muitos incêndios.
Mas perante condições meteorológicas absolutamente excecionais — como várias ondas de calor sucessivas, seca extrema, humidades muito baixas e ventos intensos — também ele revela muitas limitações.
Alguns investigadores australianos explicam-no de forma muito simples. O fogo prescrito não é um tratamento intensivo. É uma vacina.
Não impede todos os incêndios, mas reduz em parte a probabilidade de que eles evoluam para comportamentos extremos.
Quanto mais cedo se reduzir o combustível, menor será a energia disponível quando surgir uma ignição. Mas em certos contextos de meteorologia extrema o fogo prescrito é um balde de água onde seria necessário um rio.
Mais importante do que reduzir combustível é reduzir continuidade
Talvez uma das maiores mudanças de pensamento dos últimos anos seja esta.
O problema não é apenas existir muito combustível. É existir combustível contínuo durante dezenas ou centenas de quilómetros.
Uma paisagem composta exclusivamente por floresta e matos densos funciona como um enorme pavio.
Pelo contrário, uma paisagem onde coexistem agricultura, pastagens, zonas recentemente geridas, diferentes tipos de floresta e áreas abertas dificulta muito mais a propagação do fogo.
É o conceito da paisagem em mosaico.
Mas quem vai manter esse mosaico?
É aqui que, provavelmente, reside o verdadeiro problema.
Durante séculos, a paisagem portuguesa foi mantida não porque existisse uma política de prevenção de incêndios, mas porque existia uma economia rural.
Pastores, agricultores, apicultores, resineiros, lenhadores e pequenos produtores geriam diariamente o território porque dele retiravam o seu sustento.
Hoje, muitas dessas atividades desapareceram ou deixaram de ser economicamente viáveis.
Sem pessoas no território, o mato regressa inevitavelmente. E regressa todos os anos.
O verdadeiro desafio não é florestal. É económico.
Podemos desenhar excelentes planos de gestão da paisagem. Podemos identificar onde criar mosaicos. Podemos definir as melhores técnicas de redução de combustível.
Mas permanece uma pergunta essencial:
Quem fará esse trabalho daqui a vinte ou trinta anos?
Se ser pastor, agricultor ou gestor florestal continuar a proporcionar rendimentos insuficientes, dificilmente haverá pessoas disponíveis para manter esse território.
Talvez seja por isso que muitos especialistas defendem uma mudança de perspetiva.
Em vez de perguntar apenas “como reduzimos o combustível?”, talvez devêssemos perguntar:
“Como tornamos economicamente interessante viver e trabalhar na floresta?”
Porque uma paisagem resistente ao fogo não depende apenas de bombeiros, aviões ou fogo prescrito.
Depende, acima de tudo, de pessoas.
E talvez essa seja a maior lição que nos deixa o incêndio de Bordéus: os megaincêndios do século XXI combatem-se no verão, mas previnem-se durante todo o ano, através da gestão da paisagem e de uma economia rural capaz de manter vivo o território.
Quem paga pela prevenção?
Chegados aqui, talvez devamos fazer a pergunta mais difícil de todas.
Todos concordamos que é necessário reduzir o combustível, criar paisagens em mosaico, manter a floresta gerida e evitar o abandono do mundo rural. Mas quem fará esse trabalho? E porquê?
Durante séculos, foi a economia rural que manteve a paisagem. Pastores, agricultores, apicultores, resineiros e produtores florestais não limpavam o território para prevenir incêndios; faziam-no porque dele retiravam o seu sustento. Hoje, muitas dessas atividades deixaram de ser suficientemente rentáveis e, por isso, desapareceram. Sem pessoas, a vegetação regressa e o combustível acumula-se.
Talvez o maior desafio não seja técnico, mas económico. Uma paisagem resistente ao fogo presta um enorme serviço à sociedade: protege vidas, habitações, infraestruturas, biodiversidade, recursos hídricos e reduz os custos do combate e da reconstrução. No entanto, quem suporta o custo diário dessa gestão é, quase sempre, o proprietário ou quem trabalha a terra.
Estas são as chamadas externalidades positivas: benefícios gerados por uma atividade privada que são usufruídos por toda a sociedade. Se todos beneficiamos de uma paisagem mais resiliente aos incêndios, faz sentido perguntar se não deveríamos também contribuir para remunerar quem a mantém.
Talvez a grande questão do futuro não seja apenas como combater os megaincêndios, mas se a sociedade está disposta a pagar pela sua prevenção. Porque, no fundo, o trabalho realizado durante todo o ano por quem vive e gere o território não é apenas uma atividade agrícola ou florestal; é também um serviço público de enorme valor.
Se continuarmos a remunerar apenas o combate ao fogo e não a gestão da paisagem, arriscamo-nos a repetir o mesmo ciclo: investir milhares de milhões de euros quando a floresta arde, mas muito menos naquilo que poderia evitar que ela ardesse com tanta violência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a prevenção também tem um preço e que esse preço deve refletir o valor das externalidades positivas produzidas por quem mantém vivo o mundo rural.
Mais do que um problema económico: uma questão de reconhecimento social
Mas existe ainda uma dimensão de que pouco se fala.
Mesmo que conseguíssemos tornar estas atividades economicamente mais interessantes, permaneceria outro problema: a falta de reconhecimento social.
Durante muitas décadas, o sucesso passou a ser associado ao trabalho urbano, aos escritórios, às profissões tecnológicas e aos serviços. Pelo contrário, profissões como pastor, agricultor, apicultor, resineiro ou produtor florestal perderam prestígio social. Para muitos jovens, trabalhar no campo deixou de ser visto como uma opção de futuro, independentemente do rendimento que possa proporcionar.
No entanto, estas profissões desempenham hoje funções que vão muito para além da produção de carne, leite, mel, resina ou madeira. São elas que mantêm caminhos abertos, reduzem a carga de combustível, conservam habitats, promovem a biodiversidade, ajudam a regular os ciclos da água e tornam a paisagem mais resistente aos incêndios.
Paradoxalmente, quanto mais reconhecemos a importância destes serviços para a sociedade, menos reconhecimento social atribuímos a quem os presta.
Talvez seja necessário recuperar não apenas a rentabilidade económica destas profissões, mas também o seu estatuto social. Porque um pastor não é apenas alguém que guarda um rebanho. Um apicultor não produz apenas mel. Um resineiro não extrai apenas resina. São, todos eles, gestores do território, prestadores de serviços ambientais e agentes ativos da prevenção dos grandes incêndios.
Uma sociedade que pretende conviver com as alterações climáticas terá provavelmente de fazer duas escolhas. A primeira é remunerar as externalidades positivas produzidas por quem vive e trabalha no mundo rural. A segunda é voltar a valorizar socialmente essas profissões, reconhecendo que são tão essenciais ao funcionamento do território como muitas outras que hoje desfrutam de maior prestígio.
Porque, no fim de contas, talvez o verdadeiro luxo do século XXI não seja viver longe da natureza, mas haver pessoas que continuem a cuidar dela todos os dias. É esse trabalho silencioso que mantém a paisagem viva e reduz a probabilidade de voltarmos a assistir aos megaincêndios que hoje começam a marcar o sul da Europa.
Portugal tem médios de elite. Vitinha, João Neves, Bernardo Silva e Bruno Fernandes são jogadores de topo, com qualidade para brilhar em qualquer grande seleção. E, no entanto, quando os vemos juntos de quinas ao peito, a sensação repete-se: há talento, mas falta fluidez; há qualidade, mas falta coerência; há nomes, mas não há uma ideia forte de jogo.
O problema, na minha leitura, não está nos jogadores. Está no facto de Portugal juntar, no mesmo onze, futebolistas que pedem contextos muito diferentes — e não ter uma estrutura coletiva suficientemente clara para os conciliar.
Vitinha, João Neves e Bernardo pedem estrutura
Vitinha, João Neves e Bernardo são jogadores que crescem em equipas organizadas, compactas e relacionais. Precisam de:
linhas de passe próximas;
mobilidade à frente da bola;
apoios entre linhas;
circulação curta e inteligente;
uma frente móvel que ofereça soluções e arraste marcações.
São médios de controlo, relação, posse limpa e inteligência posicional. Não vivem do caos. Vivem da qualidade da estrutura.
E isso ajuda a perceber porque é que Vitinha e João Neves parecem tão mais funcionais no PSG. Em Paris jogam atrás de uma frente dinâmica, com trocas posicionais, rupturas, apoios curtos e movimentos permanentes. O passe deles entra num sistema vivo. Na seleção, demasiadas vezes, entra num sistema mais rígido, mais previsível e mais preso a uma referência fixa.
Bruno Fernandes pede outra coisa
Bruno Fernandes é um grande jogador, mas o seu habitat é diferente. Bruno não é um médio de cozinhar o jogo. É um médio de o incendiar.
Vive do passe de rutura, da aceleração precoce, do risco, da verticalidade, do remate e do desequilíbrio imediato. É um jogador que muitas vezes cria do nada — e é precisamente por isso que tem tanto valor. Mas o seu jogo também parte a equipa, acelera a posse antes de ela estar estabilizada e empurra o jogo para um registo mais aberto, mais caótico, mais emocional.
O problema é que esse tipo de jogo não casa naturalmente com o futebol de Vitinha, João Neves e Bernardo. Uns pedem ordem, proximidade e circulação; Bruno pede risco, profundidade e agressão imediata.
Cristiano Ronaldo acentua a contradição
Se a isto juntarmos Cristiano Ronaldo como referência ofensiva, a tensão cresce ainda mais.
Ronaldo continua a ser um finalizador extraordinário, fortíssimo na área e no último toque. Mas já não é, nesta fase da carreira, um avançado de mobilidade constante, de pressão alta contínua ou de apoios repetidos entre linhas. Isso muda a forma como os médios podem servi-lo — e limita o tipo de jogo que a equipa consegue construir.
Vitinha e João Neves rendem mais quando têm à frente jogadores que:
aparecem no apoio;
atacam a profundidade;
trocam de posição;
abrem ângulos de passe;
arrastam defesas.
Bruno rende mais quando tem alvos móveis para os seus passes mortais. Com uma frente mais fixa e centrada em servir a referência, o jogo torna-se mais previsível, mais linear e menos favorável ao melhor de todos estes médios.
Portugal parece uma equipa que quer jogar três jogos ao mesmo tempo
É essa a sensação que a seleção transmite.
Parece uma equipa dividida entre:
o futebol associativo de Vitinha;
a agressividade lúcida de João Neves;
o jogo de relação e controlo de Bernardo;
a verticalidade caótica de Bruno;
e a centralidade finalizadora de Ronaldo.
Todos são excelentes. O problema é que não estão a ser integrados dentro de uma ideia forte — estão a ser somados.
E somar talento não basta.
O problema não é de qualidade. É de compatibilidade e de modelo
Portugal não joga pouco por falta de bons jogadores. Joga pouco porque tem jogadores excelentes a pedir contextos diferentes e não decide claramente que equipa quer ser.
Se a ideia é potenciar Vitinha, João Neves e Bernardo, então Portugal tem de assumir um futebol:
mais posicional;
com frente móvel;
com mais jogo interior;
com menos dependência de uma referência fixa.
Se a ideia é potenciar Bruno e um jogo mais vertical, então a equipa tem de viver melhor na transição e ter uma frente muito mais agressiva a atacar espaços.
O que parece mais difícil é querer tudo ao mesmo tempo. Porque nesse caso o talento não se soma — neutraliza-se.
Conclusão
Portugal tem qualidade para jogar muito mais do que joga. Mas enquanto não decidir que jogo quer realmente jogar, continuará a parecer uma seleção estranhamente pobre para a riqueza de jogadores que tem.
Vitinha, João Neves, Bernardo, Bruno e Ronaldo podem coexistir. Mas não basta colocá-los no mesmo onze. É preciso construir um modelo onde as virtudes de uns não anulem as virtudes dos outros.
Neste momento, Portugal parece menos uma equipa e mais uma negociação permanente entre estilos incompatíveis. E esse, mais do que qualquer falha individual, é o verdadeiro problema.
A Zero Velutina 2.0 é apresentada como uma evolução da anterior armadilha de uso duplo: pode ser utilizada para a captura de rainhas fundadoras entre fevereiro e maio, ou como armadilha “troiana” supervisionada entre maio e junho, sempre de acordo com a legislação e autorização aplicáveis em cada zona apícola. O produto é descrito como capaz de capturar vespas asiáticas vivas, permitindo que estas se alimentem do atrativo e, ao sair, transportem nas patas e na parte inferior do abdómen um agente letal de ação retardada, levando-o até ao ninho.
Segundo a descrição comercial, esta abordagem procura substituir o método manual dos “cavalos de Troia”, em que as vespas são capturadas uma a uma, impregnadas com o produto e libertadas. A vantagem prometida é operacional: poupa tempo, reduz o trabalho manual e permite que a própria vespa regresse viva ao ninho, podendo ainda indicar a outras obreiras a existência de uma fonte de alimento.
O fabricante afirma que, após poucos dias de uso, a pressão sobre as colmeias diminui de forma acentuada. Na fase de captura de fundadoras, a armadilha seria também eficaz por matar rainhas e, desse modo, impedir a formação de ninhos primários. A própria ficha, contudo, sublinha que este tipo de utilização requer autorização dos serviços locais de ambiente e consulta da regulamentação aplicável.
Análise crítica
Este tipo de armadilha tem uma lógica biologicamente interessante: em vez de matar imediatamente a vespa capturada, explora o seu comportamento de retorno ao ninho e de recrutamento para fontes alimentares. Em teoria, isto pode transformar uma simples armadilha individual num mecanismo de impacto sobre a colónia. Esta é precisamente a força dos chamados “cavalos de Troia”: atacar o ninho mesmo quando este ainda não foi localizado.
A principal vantagem prática é evidente. O método manual exige tempo, perícia e presença constante no apiário. Uma armadilha que automatize parte desse processo pode ser apelativa para apicultores sob forte pressão predatória. Em apiários com muitas velutinas em caça estacionária, reduzir rapidamente a pressão pode fazer a diferença entre colónias bloqueadas e colónias que ainda conseguem voar, ventilar, recolher pólen e defender-se.
Mas há três reservas importantes.
A primeira é legal e ambiental. A ficha do produto não deixa dúvidas: a utilização como “troiano” depende de autorização. Isto é essencial, porque estamos a falar da libertação de insetos contaminados com um agente letal retardado. Em Portugal, o enquadramento oficial continua a privilegiar a vigilância, a comunicação de ninhos e a sua destruição por meios autorizados; a DGAV refere a destruição dos ninhos como o melhor método para limitar localmente o impacto da Vespa velutina. O ICNF mantém também o Plano de Ação nacional para vigilância e controlo da espécie.
A segunda reserva é ecotoxicológica. Qualquer sistema baseado num agente letal transportado por vespas vivas levanta a pergunta: que substância é usada, em que dose, com que persistência, e que risco existe para outros insetos, aves insetívoras, pequenos vertebrados ou organismos decompositores? Quanto mais potente e persistente for o agente, maior a necessidade de controlo técnico. A eficácia não pode ser avaliada apenas pelo número de velutinas que desaparecem do apiário; tem de ser avaliada também pelo rasto ambiental deixado.
A terceira reserva é científica e operacional. A descrição comercial promete redução acentuada da pressão “em poucos dias”, mas não apresenta dados comparativos: número inicial de vespas, número de ninhos afetados, distância ao ninho, dose usada, seletividade, mortalidade de organismos não-alvo, repetição entre apiários, ou comparação com armadilhas convencionais e destruição de ninhos. Sem estes dados, a afirmação deve ser lida como promessa comercial e não como demonstração experimental.
Em conclusão, a Zero Velutina 2.0 parece ser uma evolução interessante das armadilhas convencionais, aproximando-se do conceito de “cavalo de Troia” automatizado. Pode ter utilidade em situações de forte pressão predatória, desde que usada por pessoas autorizadas, com produto homologado, protocolo claro e supervisão. Não deve, contudo, ser vista como solução isolada. O controlo da Vespa velutina continua a exigir uma estratégia integrada: deteção precoce, captura seletiva quando justificada, proteção dos apiários, localização e destruição de ninhos, e prudência máxima no uso de biocidas.
Durante muitos anos pensou-se que a resistência natural à Varroa destructor dependia sobretudo do comportamento das abelhas adultas. Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports acrescenta agora uma nova peça ao puzzle: algumas larvas parecem ser simplesmente menos atrativas para a varroa.
Os investigadores acompanharam durante quatro anos 236 colónias na Califórnia, comparando uma população híbrida adaptada localmente com linhas comerciais. Os resultados foram claros:
cerca de 68% menos varroas nas colónias híbridas;
muito menos colónias ultrapassaram o limiar de tratamento;
consequentemente, necessitaram de menos aplicações de acaricidas.
Mas a descoberta mais interessante surgiu no laboratório.
Quando as varroas puderam escolher entre larvas de diferentes origens genéticas, preferiram sistematicamente as larvas das linhas comerciais. As larvas híbridas eram significativamente menos escolhidas, sobretudo aos sete dias de idade, precisamente a fase em que normalmente ocorre a invasão das células antes da operculação.
O que significa isto?
A varroa apenas se reproduz dentro de células operculadas. Se encontrar menos facilidade em localizar ou reconhecer as larvas mais adequadas, a sua taxa de reprodução poderá diminuir logo na primeira etapa do ciclo.
Os autores sugerem que esta menor atratividade poderá resultar de diferenças em:
compostos voláteis emitidos pelas larvas;
perfil de hidrocarbonetos cuticulares;
sinais químicos utilizados pela varroa para identificar o momento ideal para entrar na célula;
eventualmente diferenças fisiológicas ou imunitárias das próprias larvas.
Ainda não se sabe qual destes mecanismos é o responsável, mas todos apontam para uma característica intrínseca da cria, e não do comportamento das abelhas adultas.
Este mecanismo junta-se aos já conhecidos
Hoje sabemos que a resistência natural à varroa não depende de um único fator, mas da combinação de vários mecanismos:
Comportamento higiénico sensível à varroa (VSH) – remoção da cria infestada antes da emergência.
Grooming – as abelhas removem ou danificam ácaros presentes no seu corpo.
Redução da reprodução da varroa (SMR) – muitas fêmeas produzem menos descendentes ou tornam-se inférteis.
Menor duração do período pós-operculação – reduz o tempo disponível para a reprodução da varroa.
Enxameação frequente – cria interrupções naturais da criação e quebra o ciclo reprodutivo do ácaro.
Maior tolerância aos vírus associados à varroa, permitindo que a colónia sobreviva mesmo com alguma infestação.
Novo mecanismo agora identificado:larvas menos atrativas para a entrada da varroa, reduzindo potencialmente o número de células invadidas logo no início do ciclo reprodutivo.
Porque é importante?
Este estudo muda parcialmente a forma como encaramos a resistência.
Até agora imaginávamos que a varroa entrava nas células normalmente e depois encontrava dificuldades em reproduzir-se ou era removida pelas abelhas.
Agora surge a possibilidade de existir uma etapa anterior: algumas larvas podem ser menos “visíveis” ou menos apelativas para a varroa, reduzindo a invasão desde o primeiro momento.
Se este mecanismo for confirmado noutros estudos e identificado geneticamente, poderá tornar-se um novo critério de seleção em programas de melhoramento, complementando características como o VSH e o grooming.
Na minha opinião, este é um dos trabalhos mais interessantes dos últimos anos sobre resistência natural. Não porque prove definitivamente um novo mecanismo — os próprios autores reconhecem que falta identificar a base química ou molecular — mas porque abre uma linha de investigação completamente nova: a resistência poderá começar na própria cria, antes sequer de a varroa entrar no alvéolo/célula.
Acredito que durante as últimas semanas muitos apicultores da região Centro olharam para a paisagem e fizeram a mesma pergunta: “Como é possível existir tanta vegetação, tanta floração e tão pouca entrada de néctar?”
As flores estavam presentes. As abelhas nas colónias voavam e enchiam os capta-pólen.
Ainda assim, as balanças permaneciam quase imóveis e muitos ninhos de criação consumiam praticamente todo o néctar que recolhiam no campo. Muitas colónias necessitaram, inclusivamente, de alimentação açucarada de manutenção.
Depois, bastaram poucos dias de calor mais intenso e céu limpo para o cenário mudar abruptamente. Subitamente apareceu néctar. As colónias aceleraram. Algumas começaram mesmo a “explodir” em actividade.
Este fenómeno ajuda a desmontar uma das ideias mais simplistas e repetidas na apicultura: “se há flores, há néctar”.
Não. A presença de flores e a produção efectiva de néctar são coisas completamente diferentes. Na realidade, o néctar é o resultado de uma equação fisiológica extremamente complexa onde entram diversos factores.
Este assunto é bastante mais profundo do que parece à primeira vista.
Por exemplo, poucas pessoas compreendem verdadeiramente:
porque certas florações “abrem” quase de um dia para o outro;
porque dois apiários separados por poucos quilómetros podem ter entradas radicalmente diferentes;
ou porque determinadas condições atmosféricas aparentemente excelentes resultam afinal em fluxos decepcionantes.
E aqui começamos a entrar num território onde a apicultura tradicional raramente vai: a ecofisiologia nectarífera.
Quem compreender verdadeiramente estes mecanismos ganha uma vantagem enorme:
na previsão de fluxos,
na interpretação do comportamento das colónias,
na localização e transumância de apiários,
e até na tomada de decisões nutricionais e sanitárias.
Porque uma colónia que entra em stress nutricional durante uma falsa primavera nectarífera pode sofrer consequências importantes semanas mais tarde.
Muitas vezes o problema não é falta de flores. É falta de compreensão da fisiologia por trás das flores.
Nas próximas semanas pretendo aprofundar precisamente este tema numa sessão pré-gravada que disponibilizarei através da plataforma Gumroad. Será o início de uma nova modalidade de formação, criada para fazer chegar informação apícola tecnicamente sólida, prática e directamente aplicável aos apiários, com enfoque não apenas na biologia das colónias, mas também numa gestão mais eficiente, previsível e economicamente sustentável da actividade apícola.
Ao mesmo tempo, este formato permitirá algo que muitos apicultores valorizam cada vez mais: total flexibilidade no acesso aos conteúdos. Cada participante poderá assistir às sessões no momento, ritmo e condições que lhe forem mais convenientes, conciliando a formação com a realidade do trabalho, da vida familiar e da própria gestão do apiário.
Os interessados poderão efectuar uma pré-inscrição nesta sessão pré-gravada. A simples manifestação de interesse — sem qualquer pagamento antecipado e sem compromisso de inscrição definitiva — permitirá beneficiar de um desconto de 50% sobre o valor final da sessão caso posteriormente decidam avançar com a inscrição. O pedido de pré-inscrição é obrigatória e deve ser enviada exclusivamente para meu novo endereço de e-mail: eduardogomesapi@outlook.com
Divulgo em baixo link para questionário relacionado com a termorregulação das colmeias. Convido todos os meus leitores apicultores a darem o seu contributo, respondendo ao mesmo. Muito obrigado!
Este questionário, desenvolvido dentro do projecto BETTER-B (https://www.better-b.eu/) visa estudar que alterações é que os apicultores já fizeram às suas colmeias para aumentar a termorregulação da colónia. O objectivo é recolher informações de estratégias usadas para ajudar as colmeias a resistir às variações de temperatura extremas, para depois publicar um manual com essas informações.
A chegada de Tropilaelaps mercedesae à Europa não é um cenário teórico — é uma realidade confirmada e recente, com estabelecimento já documentado no Cáucaso. Estamos perante um parasita com potencial destrutivo superior ao da própria Varroa destructor, sobretudo devido à sua velocidade de reprodução e à sua forte ligação à cria.
Ao contrário da Varroa, o Tropilaelaps passa muito pouco tempo nas abelhas adultas. Vive praticamente “fechado” dentro da cria operculada, entrando nas células pouco antes da operculação e reiniciando rapidamente o ciclo reprodutivo. Este detalhe biológico muda completamente o jogo: tratamentos que actuam sobretudo na fase forética tornam-se pouco eficazes.
É precisamente aqui que o ácido fórmico ganha relevância. Entre os acaricidas disponíveis, é praticamente o único com capacidade comprovada de penetrar os opérculos e atingir ácaros dentro da cria. Esta característica, muitas vezes citada mas raramente compreendida na sua real importância, torna-o uma ferramenta crítica no contexto do Tropilaelaps.
O estudo agora publicado vem trazer dados robustos em condições próximas das europeias — colónias fortes, caixas tipo Dadant e clima temperado-húmido. Isto é particularmente relevante porque grande parte da literatura anterior vinha de contextos tropicais pouco comparáveis com a apicultura europeia.
Os resultados são claros e difíceis de ignorar: o ácido fórmico (quer em formulações tipo Formic Pro®, quer em sistemas gelificados como Muraviinka®) provoca mortalidade quase total de Tropilaelaps em poucos dias. Em alguns casos, essa mortalidade atinge 100% em apenas 2,5 dias.
Mais importante ainda: essa eficácia ocorre dentro da cria, independentemente da idade da larva/pupa da abelha. Ou seja, ao contrário do que acontece com a Varroa, não existem “refúgios fisiológicos” significativos para o Tropilaelaps dentro das diferentes fases da cria.
Este ponto é absolutamente crítico do ponto de vista operacional: significa que o ácido fórmico consegue atingir o coração do problema — algo que muitos protocolos contra Varroa nunca conseguem fazer de forma consistente.
No entanto, há aqui um erro clássico que convém desmontar: assumir que um tratamento eficaz contra Tropilaelaps será automaticamente eficaz contra Varroa. O estudo mostra exactamente o contrário.
A eficácia contra Varroa destructor foi altamente variável e dependente da estação. No verão (condições quentes e húmidas), o ácido fórmico praticamente não teve impacto significativo. Já no outono, com temperaturas mais baixas e menor humidade, a eficácia aumentou claramente.
Isto confirma algo que muitos apicultores ignoram ou subestimam: não é apenas a temperatura que condiciona o fórmico — a humidade tem um papel crítico na evaporação e distribuição dentro da colmeia.
Outro ponto relevante é a influência da idade da cria na sobrevivência da Varroa. Ao contrário do Tropilaelaps, a Varroa sobrevive mais facilmente em cria jovem, onde a penetração do ácido pode ser menor. Isto cria verdadeiros “refúgios biológicos” que comprometem a eficácia global do tratamento.
Ou seja, o mesmo tratamento tem dois comportamentos completamente diferentes consoante a espécie alvo — um detalhe que deve mudar a forma como pensamos o controlo integrado.
Do ponto de vista da colónia, o ácido fórmico mostrou um perfil relativamente seguro em exposições curtas. No entanto, foram observadas perdas de abelhas adultas e algumas rainhas, sobretudo em colónias já fragilizadas por Varroa.
Isto reforça uma ideia que raramente é dita de forma frontal: o ácido fórmico não é um tratamento “benigno”. Tem uma margem de segurança estreita e o seu impacto depende fortemente do estado fisiológico da colónia.
Mas talvez o resultado mais importante — e mais negligenciado — seja o da reinfestação.
Mesmo após reduções quase totais de Tropilaelaps, as colónias voltaram a níveis elevados de infestação em apenas 20 dias.
Isto não é um detalhe — é uma mudança de paradigma. Significa que estamos perante um parasita capaz de recuperar populações extremamente rapidamente, quer por reprodução interna quer por reinvasão a partir de colónias vizinhas.
Na prática, isto destrói a ideia de “tratamento único resolutivo”.
Com Tropilaelaps, o controlo tem de ser necessariamente:
repetido
integrado
sincronizado ao nível do apiário
E não apenas aplicado de forma isolada colónia a colónia.
Finalmente, o estudo deixa uma conclusão estratégica clara: o ácido fórmico é actualmente a melhor ferramenta química disponível contra Tropilaelaps, mas está longe de ser uma solução completa quando coexistem duas espécies de ácaros com biologias tão distintas.
Para levar para casa
Se há uma mensagem que este trabalho deixa — e que muitos ainda não querem ouvir — é esta:
O modelo mental construído à volta da Varroa não serve para o Tropilaelaps.
E mais grave ainda: pode levar a decisões completamente erradas.
O ácido fórmico deixa de ser apenas “mais uma ferramenta” e passa a ser, neste contexto, uma peça central. Mas, ao mesmo tempo, revela os seus limites quando confrontado com sistemas biológicos complexos e variáveis ambientais reais.
Com o objectivo de conseguir chegar a mais apicultores, com um serviço e produto pedagógico cada vez mais diferenciado e de elevada qualidade, prevejo no próximo mês de maio/junho disponibilizar sessões pré-gravadas sobre a aplicação do fórmico, com instruções e gravações vídeo, sempre com o necessário suporte científico e clareza de linguagem.
Nas últimas semanas, nas visitas técnicas que tenho realizado, tenho vindo a enriquecer um arquivo cada vez mais extenso de imagens de mestreiros/alvéolos reais que expõem aquilo que realmente se passa dentro das colónias — longe dos esquemas simplistas e das “receitas universais” que continuam a circular.
A realidade é esta: nem todos os alvéolos reais significam a mesma coisa. E interpretar mal estes sinais continua a ser uma das principais causas de erros de maneio nesta fase de crescimento acelerado das nossas colónias.
As imagens abaixo, entre outras, servirão de base para a análise técnica e para o ensino das intervenções que podemos — e devemos — aplicar, partindo sempre de uma interpretação rigorosa de cenários reais como os aqui ilustrados.
O curso Zoom “Criação de rainhas por métodos naturais e desdobramentos” será o palco destas aprendizagens, nos próximos dias 17 e 24 de abril.
Últimas vagas disponíveis. Os interessados devem entrar em contacto para o email: jejgomes@gmail.com