Em setembro de 2020 escrevi neste blogue, quase de passagem, uma observação que hoje me merece atenção renovada. Ao chegar a um dos meus apiários encontrei um bando de cerca de dez abelharucos e registei:
“Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.” [5]
Não estava a tentar demonstrar qualquer relação entre as duas espécies. Registei apenas aquilo que estava a observar naquele apiário e que voltei a notar nos anos seguintes.
Passados estes anos, e depois de termos hoje mais informação sobre a dieta do abelharuco e sobre o efeito comportamental que tanto ele como a Vespa velutina exercem sobre as colónias, esta observação merece ser revisitada. Mas parece-me importante fazê-lo separando duas perguntas diferentes. Uma é saber se os abelharucos conseguem limitar a expansão territorial da Vespa velutina. Outra, e para o apicultor provavelmente mais importante, é perceber se a presença dos abelharucos e a consequente redução da pressão das velutinas se traduzem realmente em mais minutos ou horas disponíveis de forrageio para as colónias.
A escala territorial
Em 2023 publiquei neste blogue uma análise a dois mapas de distribuição, um do abelharuco e outro da Vespa velutina.[7] À primeira vista podia parecer existir uma relação inversa, com maior presença de abelharucos precisamente onde a velutina apresentava menor implantação. Quando olhei com mais atenção, essa relação deixou de me parecer convincente. No extremo nordeste transmontano encontrávamos pouca presença de abelharucos e também reduzida implantação da velutina; no Ribatejo sucedia praticamente o contrário, com uma presença importante de abelharucos a coexistir com uma implantação já significativa de V. velutina.
A informação entretanto publicada não me levou a alterar substancialmente essa leitura. Em 2023, Onofre e colaboradores demonstraram em Portugal que o abelharuco (Merops apiaster) captura efetivamente Vespa velutina.[1] Entre 128 restos de presas identificados encontraram cinco velutinas, provenientes de quatro locais diferentes. Sabemos, portanto, que a predação existe e não estamos apenas perante uma possibilidade teórica.

Outra questão é saber se essa predação tem dimensão suficiente para alterar a dinâmica populacional de uma espécie invasora que se encontra hoje distribuída por extensas áreas e sustentada por milhares de ninhos. Para produzir um efeito apreciável sobre a expansão territorial seria necessário afetar de forma suficientemente intensa a sobrevivência das colónias ou, sobretudo, a produção e sobrevivência das futuras fundadoras. Não encontrei evidência de que os abelharucos estejam a exercer esse efeito, e o próprio trabalho português chama a atenção para a sobreposição geográfica incompleta das duas espécies na Península Ibérica.[1]
Há ainda um cuidado adicional quando olhamos para estes mapas. A distribuição de ambas as espécies é fortemente condicionada pelo clima e pelo habitat. O abelharuco tende a beneficiar, durante a época de reprodução, de condições quentes e relativamente secas, enquanto a V. velutina apresenta elevada adequação em muitas regiões temperadas e húmidas e é penalizada pela secura excessiva. Parte da aparente relação inversa entre as duas espécies pode, por isso, resultar simplesmente de nichos climáticos parcialmente diferentes e não da capacidade de uma espécie limitar a outra.
Neste primeiro nível de análise continuo bastante céptico quanto a um papel importante dos abelharucos na limitação da expansão territorial da velutina.
Outra escala: aquilo que acontece no apiário
À frente de vinte colmeias a questão muda bastante. Se estiverem dez ou quinze velutinas a caçar diante dos alvados e chegar um bando de abelharucos, parece-me perfeitamente plausível que a presença destas aves faça diminuir rapidamente o número de velutinas naquele espaço. Algumas podem ser capturadas, como sabemos hoje que acontece,[1] enquanto outras poderão simplesmente afastar-se enquanto os abelharucos permanecem sobre o apiário.
A minha experiência aponta nesse sentido e vários apicultores descrevem situações semelhantes. Já em 2023 admitia neste blogue que, na melhor das hipóteses, os abelharucos poderiam afastar temporariamente as velutinas dos apiários.[7] Hoje continua a parece-me muitíssimo razoável admitir que essa redução local é real e, em determinados momentos, bastante visível.
Mas daqui não resulta automaticamente que a colónia tenha beneficiado.
Talvez estejamos a medir a coisa errada
Quando se discute o prejuízo provocado pelos abelharucos aparece frequentemente a pergunta: quantas abelhas comem? Quando se discute o seu eventual benefício perante a velutina surge outra: quantas velutinas conseguem eliminar ou afugentar?
As duas contas têm interesse, mas nenhuma me parece ser a melhor unidade de medida para avaliar o impacto final sobre a colónia. Uma velutina pode capturar relativamente poucas abelhas e, ainda assim, provocar um efeito muito superior ao número das que matou, porque a sua presença diante do alvado leva muitas outras forrageiras a atrasar ou interromper as saídas. O prejuízo mais importante pode estar menos na mortalidade direta e mais na redução coletiva da atividade de voo.
Com os abelharucos encontramos algo semelhante. Bota e colaboradores verificaram que uma maior pressão destas aves junto dos apiários estava associada a uma redução da atividade de voo das abelhas.[2] No mesmo trabalho, a pressão dos abelharucos variou ao longo do dia, sendo superior durante algumas horas da manhã e voltando a aumentar ao final da tarde, com valores mais baixos próximo do meio-dia.[2]

Assim, quando chegam abelharucos e diminuem as velutinas, as abelhas não ficam necessariamente libertas da pressão predatória. Durante algum tempo, a inibição do voo que estava a ser provocada pelas velutinas passa a ser provocada pelos próprios abelharucos.
É por isso que, para mim, a pergunta central passa a ser outra: quantos minutos ou horas efetivas de forrageio a colónia conseguiu realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos?
A rapidez com que a velutina regressa?
Há uma observação de campo que me leva a dar bastante importância a esta pergunta. Nos apiários de clientes onde temos utilizado harpas elétricas, tenho visto repetidamente que, quando existe uma pressão apreciável de V. velutina, basta por vezes desligarmos as harpas durante 15 a 30 minutos para começarmos novamente a notar um aumento do número de velutinas diante das colmeias.
Num desses apiários, que descrevi neste blogue em 2023,[8] as harpas tinham sido desligadas cerca de uma hora antes da minha chegada. Quando entrei estavam entre 20 e 30 velutinas junto das colmeias e as abelhas praticamente paralisadas. Depois de ligadas as harpas, a pressão diminuiu rapidamente.
O trabalho de Monceau e colaboradores ajuda a perceber esta capacidade de reposição.[3] Num apiário experimental com apenas seis colmeias foram marcadas 360 velutinas e estimou-se que cerca de 350 indivíduos diferentes visitavam diariamente aquele conjunto de colmeias. Mais de metade dos indivíduos marcados regressaram pelo menos uma vez e, enquanto alguns deixavam de aparecer, novos indivíduos iam chegando.
Aquilo que vemos diante das colmeias num determinado momento é, portanto, apenas uma pequena parte de um fluxo diário muito maior. Um bando de abelharucos pode fazer desaparecer grande parte das velutinas que naquele instante estão diante dos alvados e produzir uma redução visualmente impressionante; mas quando o bando segue caminho, outras vespas podem ocupar rapidamente o espaço que ficou disponível.
É também aqui que existe uma diferença importante relativamente às harpas. A harpa permanece no apiário e continua a atuar sobre as velutinas que vão chegando. Os abelharucos podem exercer uma pressão muito intensa, mas frequentemente curta. Uma coisa é baixar durante alguns minutos o número de vespas presentes; outra é manter essa pressão suficientemente baixa para que as abelhas recuperem efetivamente o trabalho no campo.
As abelhas também precisam de recuperar
Há ainda outro elemento que pode estreitar essa janela de benefício. O desaparecimento do predador não significa necessariamente que as abelhas retomem imediatamente toda a atividade de voo.
A V. velutina produz uma resposta comportamental que ultrapassa largamente as abelhas diretamente capturadas. Rojas-Nossa e colaboradores mostraram que a pressão da velutina reduz o forrageio e que as colónias protegidas por harpas, nas quais essa pressão foi persistentemente diminuída, apresentaram maior atividade, maior entrada de pólen, mais criação, maior peso das operárias e melhor sobrevivência no inverno.[4]
Também no estudo dos abelharucos a relação entre a pressão das aves e a atividade das abelhas variava ao longo das diferentes horas do dia.[2] Não estamos perante um sistema em que o predador desaparece e, imediatamente, todas as forrageiras retomam a atividade que tinham antes.
É aqui que a sequência temporal se torna particularmente importante. Os abelharucos podem chegar, reduzir fortemente as velutinas e, simultaneamente, reduzir o voo das abelhas. Quando partem, a colónia começa a recuperar; mas, se a reposição das velutinas pode ocorrer em 15 ou 30 minutos, como observo nos apiários protegidos por harpas quando estas são desligadas, parte dessa recuperação pode ser novamente interrompida antes de se transformar numa janela de forrageio significativa.
Quando os dois predadores ocupam partes diferentes do mesmo dia
Os horários conhecidos dos dois predadores acrescentam outra camada a este problema. No estudo de Bota e colaboradores, a pressão dos abelharucos foi mais elevada durante algumas horas da manhã e voltou a aumentar ao final da tarde.[2] A atividade de V. velutina nos apiários pode ser elevada desde o final da manhã e prolongar-se pela tarde, embora varie com a temperatura, a época do ano e as condições locais.
Os dois predadores não precisam, portanto, de estar permanentemente presentes ao mesmo tempo para condicionarem uma parte importante do dia. Uma janela que fica temporariamente livre de abelharucos pode coincidir com um aumento da pressão da velutina; ao final da tarde podem mesmo existir períodos de sobreposição.
Voltamos assim à mesma métrica. Não quantas abelhas morreram nem quantas velutinas desapareceram, mas quanto tempo útil de voo restou à colónia.
Menos velutinas não significa necessariamente menos pressão sobre a colónia
Continuo a não encontrar evidência de que os abelharucos estejam a impedir de forma importante a expansão territorial da Vespa velutina em Portugal.
À escala do apiário, a situação parece-me diferente. Considero hoje bastante plausível que a presença dos abelharucos possa provocar uma redução rápida e muito visível do número de velutinas que estão a caçar diante das colmeias.
Mas essa fotografia momentânea também pode enganar.
O facto de não vermos velutinas durante a presença dos abelharucos não significa necessariamente que a pressão habitual daquele apiário tenha desaparecido. As velutinas podem ter sido capturadas ou simplesmente afastadas e, quando os abelharucos abandonam o local, regressar rapidamente ou ser substituídas por outras.
No final do dia, a pressão global sobre o voo das abelhas pode ter-se mantido: primeiro devido aos abelharucos e depois novamente devido à Vespa velutina.
Enquanto estas situações não forem acompanhadas durante períodos suficientemente longos de semanas ou meses e em territórios em que estes dois predadores coincidem, contar abelhas comidas, contar velutinas comidas ou simplesmente contar as velutinas que vemos e deixamos de ver num determinado momento continuará a mostrar apenas uma parte do problema.
O que falta medir com maior rigor é o tempo: quanto dura a redução das velutinas depois da passagem dos abelharucos, quanto demora a colónia a recuperar o voo, quanto rapidamente regressa a pressão da velutina e, no final do dia, quantos minutos ou horas efetivas de forrageio as abelhas conseguiram realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos.
Nota final
Do ponto de vista estritamente ecológico, a minha preferência é evidente: entre o abelharuco, uma espécie nativa integrada nos nossos ecossistemas, e a Vespa velutina, uma espécie invasora, prefiro naturalmente o primeiro.
(Dito isto, dizer também que a presença do abelharuco é, em regra, parte natural da vida selvagem que partilha connosco estes territórios. Mas, em determinadas zonas e momentos, importa também perguntar se o aumento da sua abundância poderá estar a aproximar-se de limites tróficos que o próprio ecossistema suporta, com consequências para o equilíbrio entre a fauna selvagem e as actividades humanas, incluindo a apicultura. A comparação com o que tem acontecido com o javali serve apenas para colocar a questão: populações naturalmente presentes podem tornar-se problemáticas quando se alteram as condições que habitualmente limitavam a sua densidade. Não é uma conclusão sobre o abelharuco; é uma hipótese que merece observação séria, documentação e discussão.)
Mas não é essa a questão analisada nesta publicação. Aqui procurei apenas perceber o impacto de um e de outro sobre a atividade das colónias e, em particular, sobre o número de minutos ou horas disponíveis para o forrageio.
É nesse plano que surge a alegada vantagem do abelharuco: ao reduzir a presença de velutinas junto das colmeias, poderia devolver às abelhas algum tempo de voo. O problema é que os próprios abelharucos também inibem o forrageio e, quando se afastam, a pressão da V. velutina pode recompor-se rapidamente.
Por isso, esta publicação não pretende tomar partido entre os dois predadores. Procura apenas perceber se o benefício atribuído aos abelharucos se traduz realmente em mais horas de trabalho para as colónias. E, com a informação atualmente disponível, parece-me que essa vantagem ainda não foi avaliada com o rigor necessário para podermos afirmá-la.
Nota editorial sobre o uso de vídeos e imagens geradas por IA
Esta é a primeira vez que utilizo vídeos produzidos por mim numa publicação do Abelhas à Beira. Tenciono continuar a combiná-los com o texto, tal como tenho feito até agora com imagens estáticas e fotografias, sempre que contribuam para mostrar melhor aquilo que está a acontecer no apiário ou para tornar mais clara uma ideia desenvolvida na publicação.
É igualmente a primeira publicação em que recorro a imagens geradas por inteligência artificial. Sempre que o fizer, essa utilização será claramente identificada.
Não pretendo que o Abelhas à Beira se transforme num veículo de imagens indistinguíveis da realidade, nem que uma ilustração gerada substitua o registo fiel do que foi observado no apiário. Sempre que possível, procurarei utilizar fotografias e vídeos reais — preferencialmente meus ou, quando adequado, de outros autores devidamente identificados — para acompanhar e exemplificar os conteúdos publicados.
As imagens geradas por IA ficarão reservadas para situações em que uma fotografia ou vídeo real não esteja disponível, ou não permita ilustrar com clareza o ponto que o texto pretende explicar.
Referências — literatura científica e técnica
[1] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906.
[2] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158.
[3] Monceau, K.; Bonnard, O.; Moreau, J.; Thiéry, D. (2014). Spatial distribution of Vespa velutina individuals hunting at domestic honeybee hives: heterogeneity at a local scale. Insect Science, 21, 765–774.
[4] Rojas-Nossa, S. V.; Dasilva-Martins, D.; Mato, S.; Bartolomé, C.; Maside, X.; Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78, 5142–5149.
Referências — Abelhas à Beira
[5] PMS: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência (2020). Ler
[6] Vespa velutina: contas e reflexões (2023). Ler
[7] Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da vespa velutina? (2023). Ler
[8] Medidas de controlo dos inimigos: Vespa velutina e varroa (2023). Ler






















