os garfos ou o caso da colónia que ficou para trás

Com os dias a sucederem-se numa miscelânea de aguaceiros, sol, chuva, alguns mais frescos e outros um pouco mais quentes, as abelhas andam a 200 à hora. Eu vou procurando dar resposta a esta vertigem pois a idade, a saúde e a vontade permitem-me trabalhar a bom ritmo. Depois do dia de anteontem, em que não parei para ver este por do sol — mas a Filipa Almeida viu por mim! —, ontem as tarefas a realizar exigiram-me que o nascer do dia me fosse encontrar já no apiário.

Apesar de começar cedo, as horas e os dias passam tão ligeiros que há sempre alguma coisa a ficar para trás. Neste caso foi uma colmeia, que por ter o estrado estragado no dia de ser transumada com as outras para uma cota cerca de 300m mais baixa, acabou por se manter solitariamente no apiário onde estava. E tornou-se num daqueles projectos “amanhã tenho de a ir buscar”, só que o amanhã demorou mais de um mês a chegar e, durante esse mês, o seu maneio foi nenhum.

O estado do estrado. A colónia que vão ver em baixo passou um dos invernos mais frios que tenho memória, numa das zonas mais frias do país, nesta casa esburacada. Quando me dizem que os enxames de A, B ou C morreram de frio… tenham paciência pela minha falta de paciência para essa conversa..
Visão geral, ontem, da colónia que passou o inverno numa casa pouco aconchegante, aos nossos olhos.

Vejamos a colónia quadro a quadro.

Vista do quadro 10.
Vista do quadro 8.
Pormenor do quadro 7.

Sim, esta colónia enxameou… o enxame primário foi meter-se numa caixa com 8 quadros, que tinha a 30 metros a aguardar utilização num outro assento. Assim sendo, e uma vez que até aqui a fortuna não permitiu que perdesse abelhas deste enxame, decidi fazer o necessário para não vir ainda a perder abelhas — sabendo que o processo de enxameação ainda só tinha jogado a sua primeira parte —, desta feita por via de um aspecto muito negligenciado ou até desconhecido por alguns de nós: os enxames secundários ou garfos.

Vista de frente da colmeia que continha a colónia que enxameou e quatro caixas-núcleo de transporte. Sim, dividi-a em quatro!
A primeira divisão que fiz.
Última divisão que fiz.

E foi só porque me apeteceu fazer 4 enxames de um que fiz quatro enxames de um? Não, a razão foi esta…

Virgem 1… se apurarem o olhar vão vê-la!
Virgem 2.
Virgem 3.
Aqui, se não me engano estão três visíveis!

Desfeito o mito que a primeira rainha a nascer mata as outras? Se as abelhas deixassem e se a primeira nascesse/emergisse com um desfasamento temporal que lhe permitisse localizar as irmãs-rivais — já vi várias vezes rainhas romperem os mestreiros e emergirem com um minuto e menos entre si —, vontade para o fazer não lhe faltaria. Mas vontade apenas não chega!

Uma colónia que enxameou e continua cheia que nem um ovo? Só se o enxame primário tiver saído com meia-dúzia de abelhas, pensarão alguns. Pois nem isso também corresponde à realidade, neste caso e, muito provavelmente, na grande maioria dos casos. O enxame primário foi enfiar-se numa caixa a 30 metros de distância e ocupava cerca de 5 a 6 quadros.

As tiras de apivar coloquei-as antes de saber a proveniência do enxame… coisa que vim a saber poucos minutos depois.

Em conclusão, que o caso já vai longo e tenho que descansar que amanhã o dia vai começar cedo de novo: o grande desperdiçador de abelhas não é apenas o enxame primário; os enxames secundários ou garfos são os maiores responsáveis por chegarmos a uma altura em que na nossa colónia resta pouco mais que as abelhas que cobrem um a dois quadros.

Não estou a dizer nada de novo, Doolittle já o disse há quase 120 anos: o processo de cisão natural do enxame não termina com a enxameação primária. Para não vermos a população daquela nossa colónia, que estava pujante duas semanas antes e a prometer cinco meias-alças de mel, reduzida a 1/10 do que foi, vejo duas alternativas apenas, cada uma em função do estado em que encontremos o enxame: no caso de as rainhas virgens não terem emergido ainda, há que destruir todos os mestreiros com excepção de um; no caso de as rainhas já terem emergido há que fazer múltiplas divisões ou eliminar todas as rainhas virgens com excepção de uma.

o erro… a sua correcção

No passado dia 8 coloquei, no mesmo dia, um sobreninho e uma excluidora de rainhas numa colmeia do modelo Lusitana. O objectivo era configurar esta colónia de forma a utilizá-la esta semana para desdobramentos pela técnica Doolittle.

Foto de ontem do ninho da colónia. Oito quadros com criação e abelhas a cobrirem os 10 quadros.

Nesse mesmo dia coloquei um quadro com criação fechada no sobreninho, transferido do ninho da mesma. Hoje fui encontrar o quadro com criação como a foto em baixo ilustra.

As novas abelhas a emergir estão claramente enfraquecidas por falta de aquecimento. A falta de limpeza dos alvéolos logo após a nascença, comportamento atípico em condições normais, também denuncia essa fraqueza.

O meu erro foi ter “esticado a natureza”, isto é, ter pedido a uma colónia ainda que forte para aquecer de imediato um quadro com criação que estava no andar de cima e separado por uma excluidora. A meteorologia, com noites ainda abaixo do 8ºC, também não foi amiga — nem tem de ser, é o que é. De forma cristalina só posso afirmar que este maneio não foi prudente, que foi um erro!

Habitualmente o processo de preparação destas colónias passa por uma abordagem mais gradualista. Numa primeira fase do processo coloco o sobreninho apenas com quadros puxados vazios e/ou com ceras laminadas. Uma a duas semanas depois, caso a rainha tenha subido ao sobreninho para aí fazer postura — o que acontece frequentemente — confino-a ao ninho com recurso à excluidora, e deixo no sobreninho um ou dois quadros com criação da mesma. Só cumpridas estas etapas e observados estes pré-requisitos passo a utilizá-la para os desdobramentos pela técnica Doolittle. Este maneio é prudente e, na minha opinião, o correcto nesta altura do ano.

E foi assim que corrigi o erro. Noutra colónia confinei a rainha, que já andava em postura no sobreninho, ao ninho.

Esta rainha andava em postura neste quadro do sobreninho. Foi colocada junto com o quadro no ninho, e lá vai ficar confinada nos tempos mais próximos.
Ninho da colónia com excluidora que me permite passar a utilizá-la para efectuar os desdobramentos pela técnica Doolittle.
Nesta colónia em questão coloquei o sobreninho em 29-03, e só hoje coloquei a excluidora. Vou utilizá-la nas próximas semanas como doadora de quadros e/ou abelhas para os desdobramentos que ainda pretendo fazer. O quadro com a criação a emergir enfraquecida foi colocado neste sobreninho.

Lição re-aprendida: numa época do ano em que as temperaturas mínimas ainda podem descer abaixo do 8-10ºC, só nas colónias que naturalmente já subiram ao sobreninho e, preferencialmente, onde a rainha já ande em postura, devem ser utilizadas para este fim. Aprende Eduardo que eu não duro para sempre!

a cera e o cerieiro

Tenho falado com alguma regularidade da cera, como não poderia deixar de acontecer, pela sua importância para o bom desenvolvimento dos enxames. Nesta publicação antiga fiz algumas considerações acerca do que se supõe ser a influência do fluxo de néctar na conversão de abelhas não qualificadas em abelhas especializadas na produção de cera.

Com o passar dos anos tenho adquirido cada vez mais consciência da importância de ter cera puxada ao dispor para apoiar os enxames à saída do inverno (fevereiro e março).

No mês de abril e maio, com a conformação das minhas colónias à regra “não mais de seis“, as necessidades de cera laminada crescem exponencialmente.

Esta colónia foi conformada à regra “não mais de 6”. Os dois dois quadros novos com cera laminada, com a indicação JV21, foram colocados na semana passada.
Ontem verifiquei que estes quadros tinham sido bem aceites pelas abelhas que os puxaram de forma uniforme e pela rainha, que já os tinha aproveitado para a sua sementeira.

Sempre que experimento a moldagem de um novo companheiro/empresa cerieiro tenho por hábito marcar os quadros com uma sigla que o identifique, para depois verificar facilmente, com objectividade e rigor, a apreciação que as abelhas fizeram dessa cera.

A nova cera na caixa.
No momento da incrustação.
A identificação dos quadros com a cera laminada.

21 identifica o ano, JV identifica o cerieiro, o Apicultor José Vicente, residente ali próximo da bela Nisa, concelho onde comprei os meus primeiros enxames, em setembro de 2009.

controlo da enxameação ou a lição com 100 anos: solução tipo 2

Recentemente descrevi o maneio que utilizo mais frequentemente para fazer o controlo da enxameação. A técnica descrita é muito adequada para quem quer impedir a enxameação, quando ela já é praticamente irreversível se nada for feito e, ao mesmo tempo, deseja aumentar o número do seu efectivo apícola.

A publicação de hoje visa ilustrar um outro tipo de solução para fazer o controlo da enxameação. Utilizo-a menos frequentemente, apesar de eficaz, e é muito adequada para os apicultores que desejam evitar a enxameação mas não desejam aumentar o número de colónias de abelhas.

Em baixo deixo o foto-filme dos sinais que considerei para o diagnóstico de preparação de enxameação, procedimentos principais para o seu controlo e sua sequência.

Encosta prenhe de erica australis. O período da enxameação reprodutiva está associado ao arranque das boas condições edafoclimáticas.
Ontem nesta colónia, com ninho e sobreninho separados por uma excluidora de rainhas desde o passado dia 15 de março, encontrei alguns sinais que me levaram a crer que nos próximos 10 dias iria enxamear.

O primeiro sinal: verificar que dos dois quadros com cera laminada que coloquei na semana passada no ninho apenas um deles foi aproveitado pela rainha para fazer oviposição.

Quadro que a rainha aproveitou para encher com ovos.
Quadro que tudo indica iria ser aproveitado para armazenar néctar.

O segundo sinal: após a emergência das novas abelhas os alvéolos são utilizados para armazenar nectar e/ou pão-de-abelha (backfilling).

Área central de um quadro onde se vê claramente o backfilling.

O terceiro sinal, o mais inequívoco dos três: a presença de ovos em alguns cálices reais.

Quando vejo cálices reais com cera nova/clara nas suas paredes em geral faço a sua inspecção. Encontrando ovos parto do princípio que aquela colónia vai enxamear. Sabendo que os sinais inequívocos de enxameação são os mestreiros, isto é alvéolos reais com larvas assentes em quantidades generosas de geleia real, prefiro agir logo que presencie ovos em cálices reais.

Estes sinais concomitantes não me deixaram dúvidas que esta colónia iria enxamear em breve. Assim sendo, decidi utilizar uma das medidas de controlo da enxameação que faz parte do meu catálogo. Em baixo ilustro e descrevo as principais etapas do procedimento.

1º passo: encontrar a rainha. Como nesta colmeia a rainha estava confinada ao ninho por uma grelha excluidora encontrá-la foi… um passeio no parque!

Uma vez que não tinha levado a mola para a apanhar, o quadro foi colocado no chão. 99% das vezes as rainhas não saem dos quadros onde estão.

2º passo: retirar os restantes quadros do ninho juntamente com as abelhas aderentes, com excepção de um quadro com reservas. Feito isso coloquei o quadro onde andava a rainha ao lado do quadro com reservas.

3º passo: preencher os espaços restantes do ninho com quadros com cera laminada.

4º passo: colocar grelha excluidora de rainhas entre o ninho e o sobreninho.

5º passo: colocar os quadros com criação e abelhas aderentes no sobreninho.

Foto representativa dos quadros colocados no sobreninho.
Em resumo: a rainha está confinada ao ninho com poucas abelhas; já o sobreninho está cheio de abelhas e quadros com criação em todos os estádios de desenvolvimento e… sem rainha.

Ontem, 12-04, para controlo da enxameação não inventei nada, procurei apenas dar curso às lições com mais de 100 anos do ilustre apicultor Demaree. E assim, aos ombros de gigantes, vou fazendo o meu maneio o melhor que posso e sei!

a colocação das primeiras meias-alças/alças meleiras da época

Ontem da parte da manhã, apesar do aguaceiro ligeiro, tive de marcar presença nos meus dois apiários a cotas mais baixas para partir as patilhas de 20 gaiolas com rainhas virgens introduzidas a 5 e 6 deste mês. Uma vez que tinha de lá passar, aproveitei e levei algumas meias-alças/alças meleiras, para colocar sobre algumas das poucas colmeias lusitanas que estão dedicadas à produção de mel.

Colocação das primeiras meias-alças/alças com quadros com cera puxada.

Contudo, antes da colocação destas caixas, que visam armazenar o néctar que espero que comece a ser trazido de forma abundante nas próximas semanas, fiz uma avaliação rápida da força das colónias para re-confirmar a justeza deste maneio.

Uma das colónias onde coloquei a primeira meia-alça/alça meleira.
O padrão de postura compacta desta colónia.
Um dos quadros com cera laminada colocado cerca de 48h antes.
Após cerca de 12 semanas de permanência no ninho da colónia, as tiras de Apivar foram retiradas momentos antes da colocação da meia-alça/alça meleira (por ex. nos EUA este maneio teria de ser feito 15 dias antes da colocação das alças meleiras. Felizmente na Europa seguiu-se outro protocolo experimental para testar a presença de resíduos de amitraz e seus metabolitos nos produtos da colmeia, e a nossa regulamentação é mais conforme à realidade que a dos EUA ).
Outra das colónias que foi alvo do mesmo maneio no dia de ontem.

O fluxo até agora tem sido frouxo. Não estou muito preocupado porque o histórico diz-me que ele se torna muito abundante a partir da terceira semana de abril. Assim o vento amaine um bocado para que os efeitos destes aguaceiros recentes perdurem por mais tempo e se expressem em nectários cheios, onde as abelhas recolherão a sua recompensa, assim como quem as ajudou a sobreviver até esta altura do ano.

o trabalho num apiário e a sua dimensão lúdica

Ontem, um dia em que as previsões meteorológicas indicavam aguaceiros a seguir ao almoço, levantei-me por volta das 7h00 com o plano de fazer um maneio profundo no meu apiário de Lusitanas a 600 m de altitude. Neste apiário, onde no início de março estavam estacionadas 5 colónias, estão neste momento 78, 34 em caixas de 5 quadros, as restantes em caixas de 10 quadros.

Vista geral do apiário. Terei chegado ao apiário por volta das 9h15 e por lá andei fruindo do trabalho com as abelhas até cerca das 14h15.

Comecei por transferir 4 colónias em caixas de 5 quadros para caixas de 10 quadros e efectuar o maneio de controlo da enxameação numa das colónias (ver aqui a técnica que estou a utilizar nestes casos).

Na colónia com a velha dama que aqui referi, uma vez que a orfanei no passado dia 3 e ofereci a rainha ao João Gomes para lhe servir como matriarca, dividi-a em duas com o aproveitamento de alguns mestreiros abertos presentes em dois quadros.

Deixei intactos os dois mestreiros abertos e destruí o mestreiro fechado logo por cima.
Núcleo formado com os mestreiros da linha da velha senhora.

Outra tarefa prevista passou por colocar em núcleo outra velha senhora também de 2018, esta a nº 8.

João arranja mais um espacinho num dos teus apiários para esta senhora. Desta também vou querer umas quantas filhas.

A principal tarefa de ontem foi fazer a prevenção da enxameação com a conformação das colónias à regra “não mais de 6“.

Saem dois quadros com criação e/ou reservas e…
… entram dois quadros com cera laminada.

Os quadros retirados foram canalizados para dois tipos de colónias: para colónias armazém e para colónias com rainhas virgens introduzidas em gaiola e já fecundadas e em postura.

Colmeia armazém formada ontem para receber alguns quadros com criação.
Núcleo formado a 16-03 para introduzir rainha virgem em gaiola a 19-03. Em 05-04 verifiquei que tinha rainha em postura. Ontem coloquei um quadro com alguma criação para acelerar o seu desenvolvimento.

Foi uma agradável manhã passada na excelente companhia das minhas abelhas, num exercício de criatividade apícola, a encaixar as peças do puzzle, cuja dimensão lúdica me dá um enorme prazer e procuro repetir cada vez mais.

E ao final da tarde choveu… 5 minutos!

o controlo da enxameação e os ganhos marginais: solução tipo 1

Na manhã do passado dia 3 de abril, num dos apiários que tenho a 900 m de altitude e onde se iniciou de forma frouxa o fluxo das erica australis, tinha planeado passar para caixa-colmeia uma boa parte dos núcleos que lá estão estacionados. Assim acabei por fazê-lo em 4 dos 6 núcleos que lá fui encontrar a rebentar pelas costuras — a gestão da palmerização nestas colónias é feita no fio da navalha. A retirada semanal de um quadro com criação, e sua substituição por um quadro puxado vazio ou um quadro com cera laminada dá-lhes espaço para se desenvolverem, e fazem-no rapidamente dada a forte agregação e densidade da colónia naquele espaço mais reduzido. Contudo corrro riscos, dado que apenas uma semana passada parte destas colónias vão estar mais congestionadas que muitas das ruas centrais de Tóquio em hora de ponta.

Quando a sua função como colónias doadoras de quadros, quer a colónias mais fortes quer para desdobramentos pelo método Doolittle — foi o caso —, deixa de ser necessária, ou quando a qualidade da rainha é tal que é um tiro no pé manter esta colónia nestas funções faço a transferência para uma caixa-colmeia de 10 quadros.

Neste núcleo fui encontrar postura compacta de um travessão ao outro, num quadro Langstroth colocado vazio cerca de duas semanas antes. Este quadro irá dar, só nesta face, cerca de 3500 abelhas novas. Sabendo que um núcleo Langstroth alberga em média cerca de 10 mil abelhas, e que desde o primeiro dia de operculação do alvéolo das larvas de obreiras até à emergência da novas abelhas decorrem 12 dias, facilmente se entende porque uma cidade até ali descongestionada se torna rapidamente numa urbe onde todos andam literalmente uns em cima dos outros.
Ali vai, a dobrar a esquina, a actriz principal desta peça, uma das rainhas produzidas por mim o ano passado.
E está feita a transferência, limpa e cristalina.

Mas nem todas as transferências foram assim, do tipo chegar, ver e vencer! Duas delas foram muito diferentes e exigiram-me olho atento.

Pois… estavam nestes preparos!
Como os núcleos estavam cheios de abelhas e como vi muitos ovos decidi meter-me ao trabalho e procurar as rainhas nestes dois núcleos. Num deles foi rápido. O quadro com a rainha foi para um núcleo depois de destruídos todos os mestreiros e juntei-lhe um quadro com reservas. Os restantes 3 quadros foram para outro núcleo depois de destruídos os mestreiros, para introduzir uma rainha em gaiola (coisa que fiz ontem dia 5).
Neste tive de afinar mesmo muito o olhar. Não tanto por a malta ser muita e andar toda em cima uma da outra (e neste estado de pré-enxameação as abelhas parece que tomaram uma valente dose de Xanax, não arredam dos quadros de maneira nenhuma e deslocam-se a 5 à hora!). A grande dificuldade foi a rainha estar no último quadro e estar do tamanho de uma princesa. A largura de cintura estava já no ponto ideal para levantar voo dali a umas horas. Mas não vai não senhor… por enquanto vai continuar a fazer postura numa das minhas caixa. Com receio que levantasse voo nem me arrisquei a fotografá-la… está naquele segundo quadro na caixa nova em baixo.
E de um fiz três… o da esquerda tem os mestreiros e ficou no local original, o do meio foi levado para outro apiário para lhe introduzir uma rainha virgem em gaiola, o do lado direito tem a rainha mãe, que ficou no apiário mas noutro local… correndo tudo como habitualmente este núcleo com a rainha mãe irá começar a doar quadros cheios de criação às restantes colmeias do apiário dentro de um mês a mês e meio.

Com propensão, gosto e tempo para este tipo de maneio sinto-me amiúde um gestor de ganhos marginais, especialmente nesta altura do ano, a época da enxameação, em que faço o que me é possível fazer para que todas as rainhas fiquem nas minhas caixas, mesmo aquelas que já estavam de malas aviadas.

Nota: numa publicação próxima vou descrever a solução tipo 2 que também utilizo para controlar a enxameação. O termo controlo de enxameação é aqui utilizado para designar o maneio que realizo quando uma colónia já tem mestreiros presentes. Antes destes surgirem o maneio que faço, para evitar que os mestreiros surjam e o processo de enxameação atinja esta etapa, designo, juntamente com outros, prevenção da enxameação.

tamanho dos ovos influenciado por factores genéticos e ambientais

Em baixo deixo a tradução do sumário de um estudo que me deixou surpreendido por diversas razões. A primeira razão advém da verificação de plasticidade onde não esperava encontrá-la — plasticidade é inteligência no meu dicionário. A segunda está relacionada com o sentido dessa plasticidade — em sentido contrário ao que eram as minhas hipóteses e crenças implícitas. A terceira razão, a generosidade sub-liminar da Natureza na resposta de compensação adaptada às agruras ambientais.

Título: Plasticidade do tamanho do ovo em Apis mellifera: abelhas rainha alteram o tamanho do ovo em resposta a fatores genéticos e ambientais

Sumário: A evolução social levou a padrões e histórias de vida distintos em insetos sociais, mas muitas características individuais e ao nível da colónia, como o tamanho do ovo, não são suficientemente compreendidas. Assim, uma série de experiências foram realizadas para estudar os efeitos dos genótipos, tamanho da colónia e nutrição da colónia na variação do tamanho dos ovos produzidos por abelhas rainha (Apis mellifera). Rainhas de diferentes linhagens genéticas produziram tamanhos de ovos significativamente diferentes em condições ambientais semelhantes, indicando variação genética permanente para o tamanho do ovo que permite uma mudança evolutiva adaptativa. Investigações posteriores revelaram que os ovos produzidos por rainhas em grandes colónias eram consistentemente menores do que os ovos produzidos em colónias pequenas, e as rainhas ajustaram dinamicamente o tamanho do ovo em relação ao tamanho da colónia. Da mesma forma, as rainhas aumentaram o tamanho dos ovos em resposta à privação de comida*. Estes resultados não são explicados apenas por diferentes números de ovos produzidos nas diferentes circunstâncias, mas, ao invés disso, parecem refletir um ajuste ativo da alocação de recursos pela rainha em resposta às condições da colónia. Como resultado, os ovos maiores experimentaram maior sobrevivência subsequente do que os ovos menores**, sugerindo que as abelhas rainha podem aumentar o tamanho do ovo sob condições desfavoráveis ​​para aumentar a sobrevivência da descendência e para minimizar os custos/riscos da criação com os ovos que não se desenvolvem com sucesso e, assim, conservarem energia ao nível da colónia. A extensa plasticidade e variação genética do tamanho do ovo em abelhas melíferas tem implicações importantes para a compreensão da evolução da história de vida num contexto social e implica que este estágio negligenciado da história de vida nas abelhas pode ter efeitos transgeracionais.

* Rainhas num regime alimentar com restrição de acesso ao pólen modificaram o tamanho dos seus ovos e produziram ovos significativamente maiores do que antes de enfrentar tal restrição nutricional.

** As abelhas filhas de rainhas que produziram ovos grandes, porque estavam em colónias pequenas, sobreviveram significativamente mais do que as abelhas filhas de rainhas que produziram ovos pequenos em colónias maiores. Poderá estar aqui uma razão para o que tenho observado repetidamente ao longo dos anos: as colónias mais atrasadas à saída do inverno depressa apanham as mais adiantadas, como escrevi há uns anos atrás.

Fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jeb.13589

Apêndice: sobre a diferença de peso entre ovos de futuras rainhas e ovos de futuras obreiras ver aqui.

longevidade de abelhas rainha: um caso

São vários os determinantes da longevidade das abelhas rainha. Desde os anatómicos e fisiológicos mais comumente referidos, como o número de ovaríolos ou o volume da espermateca, aos menos conhecidos como o número de espermatozoides utilizados para fecundar cada óvulo, indo da utilização de dois ou três espermatozoides por óvulo aos dez a quinze por óvulo. Numa outra perspectiva, a longevidade de uma rainha nas nossas colmeias depende se enxameia ainda durante o primeiro ano ou se o não faz ano após ano — porque não manifesta essa tendência ou porque o maneio do apicultor na prevenção ou no controlo da enxameação foi efectivo. Sob um outro ângulo ainda a longevidade de uma rainha depende da manipulação cuidadosa dos quadros para não lhe causar um dano que provoque a sua substituição pelas abelhas, ou ainda da gestão do apicultor que opta pela eliminação de todas/ maioria das rainhas de acordo com um calendário rígido — elimina as rainhas com mais de um ano, por exemplo. Outros aspectos e pontos de vista poderão ser adicionados a esta lista de determinantes da longevidade da rainha mãe, mas para o propósito desta publicação os que mencionei são suficientes.

Muitas vezes se lê e ouve que as abelhas rainha entram em declínio acentuado após o seu segundo ano de vida. Nas minhas colónias não tenho dados confiáveis que confirmem ou infirmem esta ideia. Para o poder fazer com rigor teria de começar, desde logo, por marcar as rainhas, um projecto que é sempre adiado para o ano seguinte. Este ano estou convencido que vou mesmo levá-lo por diante!

Contudo tenho algumas rainhas marcadas, muito poucas. Foram rainhas virgens que adquiri já marcadas. Não tenho muitas porque a grande maioria seguiram nos enxames que tenho fornecido aos meus clientes. Fui, no entanto, ficando com umas poucas. E nestas poucas marcadas a maioria, três em concreto, são todas do mesmo ano e dos mesmos criadores. O ano é de 2018!!! — sim verdade… rainhas com 4 anos —e os criadores são o João Gomes e sua esposa, a Anabela, que as comercializam com a marca Apicant Queen Bees.

Por si só, a longevidade destas rainhas já é digno de menção. Contudo, tão ou mais surpreendente que sua a longevidade é o seu desempenho actual. Sobre este aspecto deixo o foto-filme em baixo que ilustra o desempenho de uma destas ilustres seniores à data de ontem, 31 de março.

Colónia do modelo lusitana da velha dama! Em 9 de março foi deslocada de um apiário a 900m de altitude para outro a 600 m de altitude e, dada a sua força, coloquei um sobreninho. Ontem, 31-03, tinha três quadros com criação no sobreninho.
O ninho apresentava 7 quadros com criação.
Um dos quadros com criação.
A dama vermelha andava calmamente em postura no sobreninho,…
… transferi-a e confinei-a ao ninho.
Telhado com notas.

O ano passado esta rainha e as outras duas “irmãs”, já debaixo de olho, serviram-me de semente para uma parte dos desdobramentos que realizei. Ainda que não seja um grande crente na heritabilidade fácil e garantida de um conjunto de traços de interesse apícola, à cautela vou fazendo assim sempre que é possível e oportuno… não vá estar enganado!

Nota: acerca da variação do número de espermatozoides utilizados para a fecundação dos óvulos ver mais aqui: https://digitalcollections.sit.edu/cgi/viewcontent.cgi?referer=https://www.google.com/&httpsredir=1&article=1916&context=isp_collection

as rainhas e os seus casos

Só pontualmente sou um “terminator” de rainhas. Eliminar rainhas não é um procedimento que utilize com frequência. Não é por incapacidade de avaliar o seu desempenho (já escrevi sobre esse assunto com algum detalhe aqui, aqui e aqui). Também não é por ter pena, e tenho alguma, de as eliminar. Na maior parte das vezes as abelhas antecipam- se e ajuízam melhor a necessidade e a oportunidade para eliminar a sua mãe. Raras vezes assumo esse papel e, quando o faço, escolho habitualmente esta altura do ano, à saída do inverno/entrada da primavera, para realizar algo que é necessário para o normal e completo desenvolvimento da colónia.

Este é um padrão de postura frequente nas rainhas por mim produzidas, com muito pouco de mim no processo! (foto de 23-03).

Contudo, ainda que raramente, nesta altura de crescimento pujante e rápido das colónias, surge um caso ou outro de uma rainha com um padrão de postura de má qualidade — este ano e até à data detectei-o em 2 das 135 colónias.

Padrão de postura de má qualidade (foto de 23-03).
Dado o bom número de abelhas nesta colónia, ainda que uma das mais fracas do apiário, a a avaliação do mau padrão de postura não é definido pela população de abelhas (foto de 23-03).
Encontrada a rainha e observada por um minuto em cima do quadro decidi eliminá-la. Apresentava uma dificuldade de locomoção provocada por uma deficiência na pata traseira esquerda (foto de 23-03).
Foto magnífica, com créditos ao meu amigo Lino João, ilustrativa de um momento relativamente frequente numa colónia de abelhas — a substituição da velha rainha mãe pelas abelhas — e que poucas vezes temos a oportunidade de observar.