Os grandes incêndios que, nos últimos dias, ameaçam Bordéus poderão ficar na história como um momento de viragem na forma como olhamos para os incêndios florestais na Europa. Não se trata apenas de mais um incêndio de grandes dimensões. Trata-se de um incêndio que, em vários momentos, apresentou um comportamento extremo, gerando a sua própria meteorologia através de intensos fenómenos de piroconvecção e da formação de nuvens de fogo (Pyrocumulonimbus ou PyroCb).
Até há poucos anos, este tipo de comportamento era considerado característico de países como a Austrália ou o Canadá. Hoje sabemos que já faz parte da realidade europeia.

De Bordéus para a Austrália… passando por Portugal
A comparação com a Austrália não surge por acaso. Nos incêndios australianos de 2019-2020 observaram-se dezenas de tempestades de fogo, capazes de produzir ventos próprios, relâmpagos, projeção de brasas a quilómetros de distância e até de injetar fumo na estratosfera.
O incêndio da Gironde não atingiu essa dimensão planetária, mas apresentou vários dos mesmos mecanismos físicos.
Curiosamente, Portugal poderá ter sido um dos primeiros países europeus onde este comportamento ocorreu. Estudos publicados nos últimos anos sugerem que os incêndios de Pedrógão Grande e de outubro de 2017 desenvolveram intensa piroconvecção, embora esse fenómeno só tenha sido plenamente compreendido pela comunidade científica após os acontecimentos.
Nesse sentido, Portugal poderá ter sido um precursor involuntário daquilo que hoje começa a repetir-se noutros países europeus.

O incêndio cria a sua própria meteorologia
Durante décadas aprendemos que o vento, a temperatura e a humidade condicionavam o comportamento do fogo.
Hoje percebemos que, quando a energia libertada ultrapassa determinado limiar, a relação inverte-se.
O incêndio aquece violentamente o ar, gera enormes colunas convectivas, cria ventos locais, modifica a circulação atmosférica e pode originar tempestades de fogo.
A partir desse momento, deixa de ser apenas a meteorologia a controlar o incêndio. É também o incêndio que passa a influenciar a meteorologia.
É esta mudança de paradigma que torna os megaincêndios tão difíceis de prever e combater.

Porque é tão difícil combatê-los?
Quando um incêndio entra numa fase convectiva extrema, muitas das estratégias clássicas deixam de funcionar como habitualmente.
Os bombeiros franceses recorreram, como é habitual, a linhas de contenção, proteção de povoações, meios aéreos e, em determinadas situações, a fogo tático (backburning).
No entanto, perante um incêndio capaz de lançar brasas muito para além das linhas de defesa e de alterar continuamente a direção dos ventos, o objetivo deixa muitas vezes de ser apagar diretamente a frente de fogo.
Passa antes por proteger vidas, defender infraestruturas e limitar a propagação para zonas críticas.
Os próprios responsáveis franceses reconheceram que existem momentos em que não se combate diretamente o incêndio; tenta-se apenas gerir a sua progressão até que as condições meteorológicas permitam recuperar o controlo.

O papel do fogo tático
O fogo tático continua a ser uma ferramenta extremamente importante.
Na Austrália constitui uma das principais técnicas de combate, sendo utilizado por equipas altamente especializadas. Em Portugal e em França também é utilizado, embora de forma muito mais seletiva.
Contudo, importa compreender uma limitação fundamental. O fogo tático funciona porque elimina antecipadamente o combustível existente entre a linha de defesa e a frente de incêndio.
Mas quando um megaincêndio produz projeção de brasas a centenas de metros ou mesmo quilómetros de distância, pode ultrapassar essas zonas já queimadas e iniciar novos focos para além delas.
Não significa que o fogo tático tenha sido mal executado. Significa apenas que o comportamento do incêndio ultrapassou aquilo para que esta técnica foi concebida.

Será então o fogo prescrito a solução?
A resposta é mais complexa do que parece.
O fogo prescrito realizado durante o inverno reduz eficazmente a carga de combustível e diminui o risco de muitos incêndios.
Mas perante condições meteorológicas absolutamente excecionais — como várias ondas de calor sucessivas, seca extrema, humidades muito baixas e ventos intensos — também ele revela muitas limitações.
Alguns investigadores australianos explicam-no de forma muito simples. O fogo prescrito não é um tratamento intensivo. É uma vacina.
Não impede todos os incêndios, mas reduz em parte a probabilidade de que eles evoluam para comportamentos extremos.
Quanto mais cedo se reduzir o combustível, menor será a energia disponível quando surgir uma ignição. Mas em certos contextos de meteorologia extrema o fogo prescrito é um balde de água onde seria necessário um rio.

Mais importante do que reduzir combustível é reduzir continuidade
Talvez uma das maiores mudanças de pensamento dos últimos anos seja esta.
O problema não é apenas existir muito combustível. É existir combustível contínuo durante dezenas ou centenas de quilómetros.
Uma paisagem composta exclusivamente por floresta e matos densos funciona como um enorme pavio.
Pelo contrário, uma paisagem onde coexistem agricultura, pastagens, zonas recentemente geridas, diferentes tipos de floresta e áreas abertas dificulta muito mais a propagação do fogo.
É o conceito da paisagem em mosaico.

Mas quem vai manter esse mosaico?
É aqui que, provavelmente, reside o verdadeiro problema.
Durante séculos, a paisagem portuguesa foi mantida não porque existisse uma política de prevenção de incêndios, mas porque existia uma economia rural.
Pastores, agricultores, apicultores, resineiros, lenhadores e pequenos produtores geriam diariamente o território porque dele retiravam o seu sustento.
Hoje, muitas dessas atividades desapareceram ou deixaram de ser economicamente viáveis.
Sem pessoas no território, o mato regressa inevitavelmente. E regressa todos os anos.

O verdadeiro desafio não é florestal. É económico.
Podemos desenhar excelentes planos de gestão da paisagem. Podemos identificar onde criar mosaicos. Podemos definir as melhores técnicas de redução de combustível.
Mas permanece uma pergunta essencial:
Quem fará esse trabalho daqui a vinte ou trinta anos?
Se ser pastor, agricultor ou gestor florestal continuar a proporcionar rendimentos insuficientes, dificilmente haverá pessoas disponíveis para manter esse território.
Talvez seja por isso que muitos especialistas defendem uma mudança de perspetiva.
Em vez de perguntar apenas “como reduzimos o combustível?”, talvez devêssemos perguntar:
“Como tornamos economicamente interessante viver e trabalhar na floresta?”
Porque uma paisagem resistente ao fogo não depende apenas de bombeiros, aviões ou fogo prescrito.
Depende, acima de tudo, de pessoas.
E talvez essa seja a maior lição que nos deixa o incêndio de Bordéus: os megaincêndios do século XXI combatem-se no verão, mas previnem-se durante todo o ano, através da gestão da paisagem e de uma economia rural capaz de manter vivo o território.

Quem paga pela prevenção?
Chegados aqui, talvez devamos fazer a pergunta mais difícil de todas.
Todos concordamos que é necessário reduzir o combustível, criar paisagens em mosaico, manter a floresta gerida e evitar o abandono do mundo rural. Mas quem fará esse trabalho? E porquê?
Durante séculos, foi a economia rural que manteve a paisagem. Pastores, agricultores, apicultores, resineiros e produtores florestais não limpavam o território para prevenir incêndios; faziam-no porque dele retiravam o seu sustento. Hoje, muitas dessas atividades deixaram de ser suficientemente rentáveis e, por isso, desapareceram. Sem pessoas, a vegetação regressa e o combustível acumula-se.
Talvez o maior desafio não seja técnico, mas económico. Uma paisagem resistente ao fogo presta um enorme serviço à sociedade: protege vidas, habitações, infraestruturas, biodiversidade, recursos hídricos e reduz os custos do combate e da reconstrução. No entanto, quem suporta o custo diário dessa gestão é, quase sempre, o proprietário ou quem trabalha a terra.
Estas são as chamadas externalidades positivas: benefícios gerados por uma atividade privada que são usufruídos por toda a sociedade. Se todos beneficiamos de uma paisagem mais resiliente aos incêndios, faz sentido perguntar se não deveríamos também contribuir para remunerar quem a mantém.
Talvez a grande questão do futuro não seja apenas como combater os megaincêndios, mas se a sociedade está disposta a pagar pela sua prevenção. Porque, no fundo, o trabalho realizado durante todo o ano por quem vive e gere o território não é apenas uma atividade agrícola ou florestal; é também um serviço público de enorme valor.
Se continuarmos a remunerar apenas o combate ao fogo e não a gestão da paisagem, arriscamo-nos a repetir o mesmo ciclo: investir milhares de milhões de euros quando a floresta arde, mas muito menos naquilo que poderia evitar que ela ardesse com tanta violência. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que a prevenção também tem um preço e que esse preço deve refletir o valor das externalidades positivas produzidas por quem mantém vivo o mundo rural.

Mais do que um problema económico: uma questão de reconhecimento social
Mas existe ainda uma dimensão de que pouco se fala.
Mesmo que conseguíssemos tornar estas atividades economicamente mais interessantes, permaneceria outro problema: a falta de reconhecimento social.
Durante muitas décadas, o sucesso passou a ser associado ao trabalho urbano, aos escritórios, às profissões tecnológicas e aos serviços. Pelo contrário, profissões como pastor, agricultor, apicultor, resineiro ou produtor florestal perderam prestígio social. Para muitos jovens, trabalhar no campo deixou de ser visto como uma opção de futuro, independentemente do rendimento que possa proporcionar.
No entanto, estas profissões desempenham hoje funções que vão muito para além da produção de carne, leite, mel, resina ou madeira. São elas que mantêm caminhos abertos, reduzem a carga de combustível, conservam habitats, promovem a biodiversidade, ajudam a regular os ciclos da água e tornam a paisagem mais resistente aos incêndios.
Paradoxalmente, quanto mais reconhecemos a importância destes serviços para a sociedade, menos reconhecimento social atribuímos a quem os presta.
Talvez seja necessário recuperar não apenas a rentabilidade económica destas profissões, mas também o seu estatuto social. Porque um pastor não é apenas alguém que guarda um rebanho. Um apicultor não produz apenas mel. Um resineiro não extrai apenas resina. São, todos eles, gestores do território, prestadores de serviços ambientais e agentes ativos da prevenção dos grandes incêndios.
Uma sociedade que pretende conviver com as alterações climáticas terá provavelmente de fazer duas escolhas. A primeira é remunerar as externalidades positivas produzidas por quem vive e trabalha no mundo rural. A segunda é voltar a valorizar socialmente essas profissões, reconhecendo que são tão essenciais ao funcionamento do território como muitas outras que hoje desfrutam de maior prestígio.
Porque, no fim de contas, talvez o verdadeiro luxo do século XXI não seja viver longe da natureza, mas haver pessoas que continuem a cuidar dela todos os dias. É esse trabalho silencioso que mantém a paisagem viva e reduz a probabilidade de voltarmos a assistir aos megaincêndios que hoje começam a marcar o sul da Europa.

























