Vespa velutina: proteger o apiário não é o mesmo que controlar a população

Desde 2011, quando ouvi falar pela primeira vez em Vespa velutina, iniciei as leituras sobre esta espécie exótica. A informação então disponível levou-me, desde logo, a olhar com preocupação para o seu potencial impacto negativo sobre a biodiversidade e, em particular, sobre as colónias de abelhas melíferas. Receios que, infelizmente, se vieram a confirmar nos anos seguintes.

De lá para cá tenho vindo a acompanhar, estudar e refletir sobre diferentes aspetos relacionados com esta espécie: o impacto sobre as colónias de abelhas, as técnicas disponíveis para proteger os apiários, a localização e neutralização dos ninhos, a ação de inimigos naturais e, numa escala mais ampla, as dificuldades em limitar a sua expansão. Desde que comecei a escrever sobre este tema no Abelhas à Beira, em 2016, publiquei mais de 90 textos relacionados com a Vespa velutina. Mais recentemente, vários destes temas foram sendo retomados e desenvolvidos à luz de nova informação científica, documental e da experiência acumulada no terreno.

À primeira vista, os assuntos parecem bastante diferentes: paralisia de voo das abelhas, água, abelharucos, harpas elétricas, Cavalos de Tróia, localização de ninhos, inimigos naturais, doenças ou capacidade reprodutiva da espécie. No entanto, quando se colocam estas peças lado a lado, começa a surgir uma linha comum. Talvez uma das principais dificuldades na discussão sobre a Vespa velutina seja precisamente misturarmos três perguntas diferentes: conseguimos proteger uma colónia de abelhas da pressão das vespas? Conseguimos neutralizar um ninho de V. velutina? E conseguimos reduzir, de forma sustentada, a população de ninhos num território? Estas perguntas remetem para diferentes dimensões, para objetivos e intervenções diferentes.

À frente da colmeia, o problema é relativamente fácil de observar. Há vespas em voo estacionário, há capturas de abelhas e, quando a pressão aumenta, há uma redução muito clara da atividade das campeiras. Mas contar abelhas capturadas não descreve completamente o impacto. Estudos experimentais mostraram que a pressão de V. velutina reduz o forrageio e que a utilização de harpas elétricas, ao diminuir essa pressão, pode produzir benefícios mensuráveis no desenvolvimento e sobrevivência das colónias [1]. Uma velutina não precisa, portanto, de capturar uma abelha para produzir um efeito sobre a colónia. A sua presença repetida diante do alvado é suficiente para alterar o comportamento das campeiras.

Foi neste contexto que coloquei também uma outra hipótese: se as abelhas reduzem fortemente as saídas durante as horas de maior pressão de V. velutina, o efeito poderá não se limitar à entrada de néctar e pólen. Também a recolha de água poderá ser afetada, precisamente em períodos quentes em que a colónia necessita dela para a termorregulação [8].

A mesma forma de pensar surgiu quando analisei a relação entre o abelharuco e a Vespa velutina. Está hoje documentado que o abelharuco captura V. velutina [2]. Isso é um facto. Outra coisa muito diferente é concluir que esta predação beneficia necessariamente o apiário. O abelharuco também exerce pressão sobre as próprias abelhas e pode contribuir para a redução do seu voo. Por isso, a pergunta que me parece mais útil para o apicultor não é quantas velutinas os abelharucos comem, mas quantos minutos ou horas de forrageio as colónias recuperam, se recuperam, como resultado dessa predação [14]. Pode haver menos velutinas à frente das colmeias sem que exista um ganho líquido de tempo de forrageio.

As harpas ajudam-nos a perceber bem esta primeira escala do problema. O seu objetivo principal é proteger o apiário, reduzindo a pressão diante dos alvados e permitindo que as abelhas recuperem parte da sua atividade normal. Mas proteger o apiário não significa necessariamente neutralizar os ninhos que estão a enviar essas vespas. É aqui que entramos numa segunda escala: o ninho de Vespa velutina.

Vespa eletrocutada em harpa (vídeo do autor)

Tenho dedicado bastante atenção aos chamados Cavalos de Tróia desde 2014. É um assunto que me tem interessado particularmente e sobre o qual fiz diversas publicações a partir de 2016 [9, 11, 13]. Conceptualmente, a diferença relativamente à captura direta é importante. Uma vespa eliminada diante de uma colmeia deixa de predar abelhas. Uma vespa que regressa ao ninho transportando um biocida pode, pelo menos em princípio, atingir outros indivíduos e contribuir para comprometer a colónia inteira.

Foi com Francis Ithurburu que me iniciei no conceito do cavalos de Tróia com o seu famoso “appât régulateur”, em 2013 ou 2014

A discussão sobre substâncias biocidas não deve ficar reduzida ao nome da molécula. O risco e a utilidade de uma aplicação dependem da forma como é utilizada, das concentrações utilizadas, da quantidade de biocida utilizada, dos suportes ou matrizes escolhidos para veicular o biocida, das técnicas aplicadas e também do tempo disponível e da perseverança de cada apicultor para atingir o objetivo pretendido.

Por essa razão elaborei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina (clicar no canto superior direito na palavra «Menu» para aceder à informação sobre este manual), que procura, entre outros assuntos, responder a estas questões de enorme pertinência para uma utilização tecnicamente fundamentada dos Cavalos de Tróia, para a escolha da técnica mais adequada ao tempo que cada apicultor tem disponível e para ultrapassar muitos dos equívocos, simplificações e divergências que ainda existem em torno desta metodologia [18]. O manual resulta da conjugação da literatura científica e técnica disponível com anos de acompanhamento do problema e de experiência prática.

A receção tem sido muito positiva. O manual está a ter uma boa adesão por parte de apicultores portugueses e já chegou também aos Países Baixos, através de um apicultor neerlandês. Este interesse mostra que existe entre os apicultores uma procura real por informação mais estruturada, tecnicamente sustentada e operacional sobre uma metodologia que se encontra cada vez mais presente na discussão do controlo da Vespa velutina.

Ernesto Astiz foi, para mim, uma fonte riquíssima de conhecimento num conjunto diversificado de aspectos verdadeiramente relevantes para o apicultor prático. Aqui a apresentar e conversar sobre biocidas e cavalos de Tróia com um grupo de apicultores espanhóis.

Há, contudo, outro fator que parece tão importante como o produto e a técnica utilizados: o momento da intervenção.

O relatório das Astúrias sobre neutralização remota de ninhos através de exemplares tratados mostrou uma associação muito interessante entre a época de início das intervenções e os resultados obtidos [7]. Os melhores resultados ocorreram onde as operações começaram mais cedo. A leitura que fiz desses dados não foi a de estabelecer julho como uma data universal para iniciar Cavalos de Tróia. Isso dependerá do território, do desenvolvimento anual da espécie e do método utilizado. Mas os resultados ajudam a colocar uma questão biologicamente importante: atingir um ninho quando ainda tem algumas centenas de indivíduos não é provavelmente equivalente a tentar fazê-lo quando já contém milhares.

Há aqui um paradoxo para o apicultor. Setembro pode ser a altura em que é mais fácil capturar V. velutina, porque dezenas delas estão diante das colmeias. Mas essa abundância é precisamente o sinal de que os ninhos atingiram uma dimensão muito maior. Capturar vinte vespas em julho pode ser logisticamente mais difícil; biologicamente, porém, essas vinte vespas podem representar uma fração muito maior da força de trabalho da colónia do que vinte vespas capturadas dois meses depois.

O passo seguinte leva-nos à terceira escala: a população de ninhos existente num território.

Há mais de dez anos que procuro perceber até que ponto outras espécies e organismos poderão contribuir para travar a expansão da Vespa velutina. Há predadores, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos [15]. O abelharuco captura adultos [2]. Vespa crabro utiliza parcialmente os mesmos recursos e existe competição. A V. velutina alberga diversos agentes patogénicos comuns a outros himenópteros [4], e foram encontradas formas replicativas de vírus associados às abelhas, incluindo DWV [5]. Até ao momento, nenhum destes fatores naturais demonstrou estar a exercer uma pressão suficiente para fazer diminuir as populações de V. velutina nas regiões europeias onde a espécie se encontra estabelecida.

O caso do bútio-vespeiro (Pernis apivorus) é particularmente esclarecedor. Num estudo recente foram identificados ninhos de V. velutina atacados por estas aves e verificou-se também uma redução significativa da abundância de vespas nas proximidades dos seus territórios de reprodução. Seria tentador parar aqui e concluir que encontramos um controlador natural eficaz. Mas os investigadores procuraram o passo seguinte: verificaram se no outono existiam menos ninhos desenvolvidos. Não encontraram uma redução significativa na densidade desses ninhos [3].

É um resultado extraordinariamente útil porque mostra, numa situação natural, precisamente a diferença entre as três escalas de que tenho vindo a falar. O predador destruiu ninhos. Reduziu localmente o número de vespas. Ainda assim, não foi possível demonstrar que tivesse reduzido a densidade final de colónias maduras no território.

Esta dificuldade começa a compreender-se melhor quando se olha para o potencial de crescimento da espécie.

Franklin e colaboradores estudaram a invasão de Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, entre 2007 e 2014. Mesmo existindo uma política local de destruição de ninhos, o número observado aumentou de quatro em 2007 para 111 em 2014. O modelo desenvolvido pelos autores estimou um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 em condições de baixa densidade [6]. Este número dá uma ideia da capacidade de crescimento existente quando a densidade ainda não impõe fortes limitações.

É também aqui que alguns resultados aparentemente extraordinários precisam de ser colocados em perspetiva. Na publicação anterior referi os dados do projeto realizado nas Astúrias: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação das vespas tratadas, o número de ninhos passou de 53 para 13, uma redução de 75,5% [7, 16]. É um resultado muito importante. Mas se uma população em baixa densidade tiver capacidade para multiplicar aproximadamente por 9,64 entre gerações, deixar sobreviver 25% dos ninhos reprodutivos não significa necessariamente que haverá menos ninhos no ano seguinte. Num exercício puramente teórico baseado naquele parâmetro, seria necessário neutralizar perto de 90% dos ninhos antes da reprodução apenas para impedir o crescimento entre gerações [16].

É talvez uma das ideias mais importantes de toda esta reflexão: uma técnica, ou mesmo um conjunto de técnicas, pode funcionar e, ainda assim, não ser suficiente para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte.

Uma harpa pode reduzir a pressão de V. velutina sobre uma colónia e cumprir perfeitamente a sua função. Um Cavalo de Tróia pode neutralizar um ninho e ser eficaz. Um bútio-vespeiro pode destruir ninhos. Uma campanha pode eliminar três quartos dos ninhos existentes numa determinada área. Todos estes resultados podem ser simultaneamente verdadeiros e biologicamente importantes, sem que nenhum deles, isoladamente, garanta que a população regional irá diminuir no ano seguinte.

Isto também ajuda a compreender por que razão a deteção precoce assume uma importância tão diferente da destruição de ninhos numa região já fortemente colonizada. Quando existem um ou dois ninhos numa nova frente de invasão, localizar e neutralizar cada um deles antes da produção de fundadoras pode decidir o futuro dessa invasão. Quando existem centenas ou milhares de ninhos espalhados por um território, localizar mais um continua a ter valor local — sobretudo para reduzir risco e pressão sobre apiários —, mas já não tem o mesmo significado populacional. Foi neste contexto que analisei a utilização de radiotelemetria, radar harmónico e termografia para localização de ninhos [10]. São tecnologias interessantes, algumas delas já demonstraram capacidade real para seguir vespas, mas o seu valor depende muito da escala do problema. Encontrar um de dois ninhos pode ser decisivo. Encontrar um de duzentos é outra coisa.

Chegamos assim a uma distinção que parece simples, mas que talvez devesse estar presente sempre que avaliamos uma técnica de controlo da Vespa velutina.

No apiário, interessa reduzir a pressão diante dos alvados e devolver às abelhas horas de voo, entrada de alimento e capacidade de funcionamento normal.

No ninho, interessa que a intervenção consiga comprometer a colónia inteira e, idealmente, fazê-lo antes da produção das novas fundadoras.

No território, o objetivo é eliminar uma proporção de ninhos superior à capacidade de reposição da população. À luz dos valores discutidos anteriormente, isso poderá significar neutralizar cerca de 90% ou mais dos ninhos antes da reprodução, para que no ano seguinte se formem menos colónias do que no anterior [6, 16]. É um objetivo extremamente difícil de alcançar. Basta pensar que uma parte importante dos ninhos permanece escondida, muitos só são descobertos tardiamente e outros se encontram muito disseminados por florestas, silvados, vales, copas de árvores e terrenos de difícil acesso.

Estas três escalas não competem entre si. São complementares. Um apicultor não pode esperar por uma estratégia regional de controlo enquanto as suas colónias permanecem paralisadas diante de dezenas de velutinas. Precisa de proteger o apiário. Mas também não devemos confundir essa proteção com uma redução da população da espécie no território.

Esta distinção foi-se tornando cada vez mais clara ao longo de anos de observação, leitura, experiência de campo e análise da informação disponível. Grande parte da discussão sobre a Vespa velutina continua centrada em quantas vespas se capturam, quantas se eliminam ou quantos ninhos se destroem. Essas métricas são úteis, mas são incompletas. Para avaliar verdadeiramente uma intervenção é necessário perguntar o que aconteceu depois.

As abelhas voltaram a voar?

O ninho de vespas deixou de estar funcional?

Produziu novas fundadoras?

E, sobretudo, havia menos ninhos reprodutivos no território no final da época ou menos colónias no ano seguinte?

É entre estas perguntas que talvez esteja a diferença entre aliviar o problema, controlar localmente a espécie e conseguir, um dia, fazer a sua população recuar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Rojas-Nossa, S. V., Dasilva-Martins, D., Mato, S., Bartolomé, C., Maside, X. & Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78(12), 5142–5149. DOI: 10.1002/ps.7132.

[2] Onofre, N., Portugal e Castro, M. I., Nave, A. et al. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.

[3] Martín-Ávila, J. Á., Díaz-Aranda, L. M., Fernández-Pereira, J. M. & Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81(4), 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.

[4] Gabín-García, L. B., Bartolomé, C., Guerra-Tort, C., Rojas-Nossa, S. V., Llovo, J. & Maside, X. (2021). Identification of pathogens in the invasive hornet Vespa velutina and in native Hymenoptera (Apidae, Vespidae) from SW-Europe. Scientific Reports, 11, 11233. DOI: 10.1038/s41598-021-90615-7.

[5] Rodríguez-Flores, M. S., Lopes, A. R., Diéguez-Antón, A., Seijo, M. C. & Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina (Lepelieter 1836): Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.

[6] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.

[7] SERPA — Sociedad de Servicios del Principado de Asturias / Principado de Asturias (2023). Neutralización remota de nidos de Vespa velutina mediante ejemplares tratados con insecticida. Evaluación de las actuaciones realizadas en Asturias durante 2023. Principado de Asturias.

Referências — Abelhas à Beira

[8] Gomes, E. (2026). Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira. Ler.

[9] Gomes, E. (2026). Iscos proteicos com fipronil: duas formas de olhar para o mesmo problema. Abelhas à Beira. Ler.

[10] Gomes, E. (2026). Chips para velutinas: da ideia sedutora à realidade no terreno. Abelhas à Beira. Ler.

[11] Gomes, E. (2026). Cavalos de Troia contra a velutina: e se a vespa levasse o insecticida dentro de uma cápsula?Abelhas à Beira. Ler.

[12] Gomes, E. (2026). O mesmo fipronil, outra escala: uma contradição que merece ser discutida. Abelhas à Beira. Ler.

[13] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler.

[14] Gomes, E. (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Abelhas à Beira. Ler.

[15] Gomes, E. (2026). Quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos. Abelhas à Beira. Ler.

[16] Gomes, E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.

[17] Gomes, E. (2026). A Vespa velutina é mais perigosa? Talvez o veneno não seja a principal razão. Abelhas à Beira. Ler.

[18] Gomes, E. (2026). Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina: um manual para apicultores. Abelhas à Beira. Ler.

do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão

Onde a Vespa velutina consegue instalar uma população suficientemente ampla, controlá-la torna-se extraordinariamente difícil, para não dizer impossível. Nas regiões europeias onde a espécie está estabelecida há vários anos, não se conhece atualmente uma técnica que, por si só ou em combinação, tenha demonstrado capacidade para fazer recuar de forma sustentada a invasão. A localização e destruição de ninhos por meio de diversas técnicas, entre outras os Cavalos de Tróia, continua a ser uma das medidas mais importantes, mas mesmo esta estratégia encontra dificuldades quando a população já atingiu densidades elevadas [1,2]. As situações em que a erradicação foi conseguida correspondem sobretudo a deteções muito precoces ou a condições particulares, como veremos mais adiante no caso de Maiorca.

Imagem gerada por IA

Uma das razões para esta dificuldade está provavelmente na enorme capacidade reprodutiva da espécie. Uma colónia madura de Vespa velutina pode produzir centenas de gines — futuras fundadoras —, sendo cerca de 350 um valor frequentemente referido na literatura [3]. A esmagadora maioria não chegará naturalmente a fundar uma colónia no ano seguinte, mas basta que uma pequena fração tenha sucesso para assegurar uma elevada reposição da população.

Franklin e colaboradores ajudam a perceber a dimensão deste fenómeno. Ao analisarem a expansão da espécie em Andernos-les-Bains, no sudoeste de França, estimaram um parâmetro de crescimento interanual de 9,64 [1]. Em termos simples, no cenário de baixa densidade descrito pelo modelo, cada colónia secundária que chega com sucesso à reprodução pode estar associada, em média, a quase dez novas colónias no ano seguinte.

É precisamente esta capacidade de reposição que ajuda a compreender por que razão neutralizar muitos ninhos pode produzir um excelente resultado local e, ainda assim, não ser suficiente para colocar a população em declínio.

Na publicação anterior, sobre os Cavalos de Tróia nas Astúrias, descrevi um resultado que merece atenção: nos primeiros 500 metros em redor dos pontos de libertação, o número de ninhos passou de 53 para 13. É uma redução de 75,5% [6].

É um resultado importante. Mas deixa uma pergunta menos cómoda: eliminar três quartos dos ninhos chega para fazer diminuir o número de ninhos no ano seguinte?

A estimativa de Franklin et al. permite fazer uma conta simples [1].

Ninhos neutralizados antes da reproduçãoNinhos que continuam reprodutivosMultiplicação teórica da geração seguinte*
75%25%2,41×
80%20%1,93×
85%15%1,45×
90%10%0,96×
95%5%0,48×

*Cálculo: 9,64 × proporção de ninhos que continuariam reprodutivos. É uma projeção teórica baseada no parâmetro estimado por Franklin et al. [1], não uma previsão para um território concreto nem um limiar operacional de controlo.

A leitura do quadro é direta. Se fossem neutralizados 75% dos ninhos antes da reprodução, os 25% restantes poderiam, neste cálculo, originar uma geração seguinte 2,41 vezes maior. Mesmo uma redução de 85% continuaria acima de 1. Só perto dos 90% o resultado passa ligeiramente para baixo da reposição.

Um outro caso, desta vez em Oleiros, na Galiza, mostra bem a diferença entre remover muitos ninhos registados e demonstrar controlo populacional. Entre 2016 e 2019, o serviço municipal recebeu 2.490 pedidos de remoção e eliminou 2.234 ninhos; a eficiência anual de remoção dos ninhos registados variou entre 84,0% e 92,3% [2]. Ainda assim, foram registados 513 ninhos em 2016, 757 em 2017, 684 em 2018 e 536 em 2019. Mesmo removendo uma percentagem muito elevada dos ninhos conhecidos, continuaram portanto a surgir centenas em cada campanha.

É por isso que uma redução local de 75% não deve ser lida como erradicação. Pode significar uma diminuição importante da pressão sobre os apiários naquela área e naquele período — o que já é um resultado relevante — sem garantir que a população territorial entre em declínio no ano seguinte.

É aqui que o momento da intervenção ganha uma importância redobrada. Um ninho neutralizado cedo pode não chegar à fase reprodutiva. Ao atuar em julho ou agosto, não se retiram apenas obreiras que poderiam predar abelhas durante os meses seguintes; reduz-se também a possibilidade de essa colónia vir a produzir machos e gines que alimentarão a geração seguinte.

Nos dados das Astúrias, os 14 pontos onde o trabalho começou em julho registaram, no conjunto, menos 37 ninhos nos primeiros 500 metros; nos oito pontos onde começou apenas em setembro ou mais tarde, registou-se mais um ninho [6]. À luz do ciclo anual da Vespa velutina, esta diferença pode ter uma importância que ultrapassa a redução imediata da pressão sobre os apiários. Em julho, os ninhos atingidos estarão, em princípio, ainda antes da produção dos indivíduos reprodutores. Em setembro ou outubro, alguns poderão já ter entrado nessa fase. Por isso, uma intervenção precoce tem potencial para influenciar não apenas a pressão daquele ano, mas também a contribuição desses ninhos para a geração seguinte.

Num território já ocupado pela Vespa velutina, uma única técnica dificilmente resolverá o problema. A questão prática não é apenas quantos ninhos conseguimos neutralizar, mas quantos conseguimos neutralizar antes de contribuírem para a geração seguinte.

É, portanto, na capacidade de reduzir a pressão sobre os apiários e de abrandar o crescimento e a expansão da população que devemos situar estes resultados. Onde a espécie está instalada há anos, a erradicação é, em regra, um objetivo que ficou para trás. Isso não torna inútil o esforço de localizar e neutralizar ninhos; torna mais importante fazê-lo cedo.

Maiorca mostra também que nem sequer numa ilha a erradicação deve ser entendida como uma garantia permanente. A primeira população instalada na ilha foi objeto de um programa intensivo de deteção e destruição e acabou por ser declarada erradicada. Uma nova introdução ocorreu em 2021. Depois de dois anos sem deteções, a espécie voltou a aparecer: as autoridades retiraram 21 ninhos em 2024 e outros 21 em 2025, mantendo-se a deteção e o controlo em 2026 [4,5]. Ou seja, uma ilha pode oferecer condições excecionais para erradicar uma população inicial, mas continuar livre da espécie exige vigilância permanente e capacidade para responder rapidamente a novas introduções. 

Eliminar 75% dos ninhos pode ser um excelente resultado local. Para diminuir a expansão, interessa sobretudo neutralizar o maior número possível antes de estes chegarem à fase reprodutiva. E, quando a Vespa velutina já está amplamente instalada, este é um objetivo mais realista — e mais útil — do que prometer uma erradicação que o território já dificilmente permite.

Uma pequena novidade no abelhas à beira

Acrescentei ao blogue uma nova área, acessível através do botão MENU (canto superior direito), onde passarei a disponibilizar alguns dos materiais que vou produzindo no âmbito da minha actividade profissional de formação e da consultoria apícola.

Para já, está disponível o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor, versão 2 (2026), com informação sobre o seu conteúdo e condições de aquisição.

Agradecia também aos leitores que experimentassem esta nova funcionalidade, tanto no computador como no telemóvel. Se puderem, confirmem-me se o botão MENU, o acesso à página Manuais e a ligação para contacto por email estão a funcionar corretamente. É uma ajuda importante nesta fase inicial.

Mais tarde, esta área deverá receber também outros conteúdos, nomeadamente sessões pré-gravadas de formação.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Franklin, D. N., Brown, M. A., Datta, S., Cuthbertson, A. G. S., Budge, G. E. & Keeling, M. J. (2017). Invasion dynamics of Asian hornet, Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae): a case study of a commune in south-west France. Applied Entomology and Zoology, 52, 221–229. DOI: 10.1007/s13355-016-0470-z.

[2] Pazos, T., Álvarez-Figueiró, P., Cortés-Vázquez, J. A., Jácome, M. A. & Servia, M. J. (2022). Of Fears and Budgets: Strategies of Control in Vespa velutina Invasion and Lessons for Best Management Practices. Environmental Management, 70, 605–617. DOI: 10.1007/s00267-022-01690-z.

[3] Jones, E. P. et al. (2020). Managing incursions of Vespa velutina nigrithorax in the UK: an emerging threat to apiculture. Scientific Reports, 10, 19553. DOI: 10.1038/s41598-020-76690-2.

[4] Leza, M., Herrera, C., Picó, G., Morro, T. & Colomar, V. (2021). Six years of controlling the invasive species Vespa velutina in a Mediterranean island: the promising results of an eradication plan. Pest Management Science, 77, 2375–2384. DOI: 10.1002/ps.6264.

[5] Govern de les Illes Balears (2026). Informação oficial sobre a deteção e controlo de Vespa velutina em Maiorca.

Referências — Abelhas à Beira

[6] Gomes, J. E. (2026). Cavalos de Tróia: começar em julho ou setembro pode fazer a diferença. Abelhas à Beira. Ler

quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos

Quando a Vespa velutina começou a expandir-se na Europa, uma das perguntas que naturalmente surgiu foi esta: encontrará por cá predadores, concorrentes ou parasitas capazes de limitar a sua expansão?

Passadas cerca de duas décadas, sabemos hoje bastante mais. A Vespa velutina é capturada por algumas aves, compete com outras vespas, pode transportar parasitas e alberga vários dos agentes patogénicos que encontramos nas abelhas. Portanto, não é correto imaginar uma espécie invasora que chegou à Europa e ficou completamente livre de inimigos naturais.

A questão verdadeiramente importante é outra: esses inimigos conseguem reduzir de forma significativa as suas populações ou impedir que continue a ocupar novos territórios?

Até agora, a resposta parece ser bastante menos animadora.

Vespa crabro: competir não é o mesmo que eliminar

A nossa Vespa crabro é maior do que a Vespa velutina e existem razões suficientes para admitir competição entre ambas. Utilizam alguns dos mesmos recursos alimentares, capturam outros insetos e podem encontrar-se nos mesmos locais de alimentação e nos mesmos apiários.

Um estudo realizado na Coreia do Sul comparou o comportamento agressivo da V. velutina com o de várias espécies nativas do género Vespa. Nos confrontos observados, espécies maiores, incluindo Vespa crabro, mostraram geralmente uma posição dominante perante a velutina [1].

Convém, contudo, não retirar deste resultado mais do que aquilo que o estudo mostra. Foram avaliadas interações agressivas e a capacidade de uma espécie dominar ou afastar outra de um recurso. O trabalho não demonstrou que a Vespa crabro mate regularmente a Vespa velutina, nem que esses confrontos provoquem uma mortalidade capaz de reduzir as suas populações.

Excerto de vídeo publicado por Trilhos da Longra

Um estudo europeu realizado em Itália procurou precisamente perceber se o aumento da V. velutina estava associado a uma diminuição das populações de V. crabro. Esse efeito não foi encontrado. Nas áreas estudadas, as duas espécies coexistiam e a abundância de V. crabro não diminuía sistematicamente à medida que aumentava a presença da velutina [2].

É também aquilo que tenho observado nos meus apiários. Já aqui escrevi que não elimino as Vespa crabro apenas porque aparecem diante das colmeias. Comem algumas abelhas, é verdade, mas até agora nunca lhes atribuí um dano económico comparável ao provocado pela velutina e fazem parte da nossa fauna [10].

Há competição e pode haver interferência entre ambas. O que não existe é evidência de que a V. crabro esteja a controlar as populações de velutina ou a impedir a sua expansão.

E os abelharucos?

Também já sabemos que o abelharuco (Merops apiaster) captura Vespa velutina. Um estudo realizado em Portugal encontrou restos de velutinas em locais de nidificação de abelharucos, demonstrando que estas fazem parte da sua alimentação [3].

O que continuamos sem saber é qual a importância quantitativa dessa predação. Tenho referido várias vezes no Abelhas à Beira que a chegada dos abelharucos a um apiário pode coincidir com uma diminuição muito visível das velutinas diante das colmeias. Algumas serão capturadas, outras poderão evitar temporariamente o local, mas nada disto permite concluir que os ninhos tenham desaparecido ou que a população regional tenha sido reduzida.

Há ainda um segundo problema para o apicultor: o abelharuco não caça apenas velutinas. Caça também abelhas e, sob forte pressão, pode condicionar durante muitas horas a saída das colónias para recolha de néctar, pólen e água. Assim, mesmo quando contribui para diminuir a presença de velutinas, o benefício líquido para o apiário não pode ser avaliado simplesmente contando as vespas que desapareceram da frente das colmeias.

Já abordei neste blogue quer a presença dos abelharucos em regiões onde a Vespa velutina está instalada, quer, mais recentemente, aquela que me parece ser a questão mais relevante do ponto de vista do apicultor: se uma menor presença de velutinas diante das colmeias se traduz efetivamente em mais minutos ou horas de forrageio para as abelhas[11,12]. Até ao momento, não conheço evidência que permita concluir que a predação exercida pelo abelharuco se traduza, no conjunto, num ganho líquido de horas de voo para as colónias. O abelharuco pode reduzir a presença de velutinas e, simultaneamente, manter uma pressão suficientemente forte sobre as próprias abelhas para continuar a limitar a sua atividade de forrageio.

O bútio-vespeiro é um caso bastante mais interessante

Há, no entanto, um predador europeu que exerce uma pressão muito mais direta sobre as colónias de velutina: o bútio-vespeiro (Pernis apivorus).

Ao contrário de uma ave que captura uma vespa adulta aqui e outra ali, o bútio-vespeiro procura ninhos de vespas e alimenta-se da sua criação. Nesse caso já não estamos apenas perante a morte de indivíduos isolados: pode ser atingida a própria colónia.

Um estudo publicado em 2025 acompanhou 11 bútios-vespeiros através de GPS e câmaras e analisou o que acontecia nas zonas em redor dos seus ninhos. Dos ninhos de V. velutina atacados e posteriormente localizados pelos investigadores, cerca de 89% encontravam-se destruídos. Além disso, a abundância de operárias de velutina diminuía nas proximidades dos ninhos do bútio-vespeiro [4].

Temos aqui algo bastante diferente do que observamos com o abelharuco. Existem ninhos atacados, colónias destruídas e uma redução mensurável da abundância local de operárias.

Mas o mesmo estudo trouxe um resultado particularmente interessante: no final da época, os investigadores não encontraram uma redução significativa da densidade de ninhos maduros de V. velutina nas zonas ocupadas pelo bútio-vespeiro [4].

Os autores avançam uma explicação plausível. Na primavera e início do verão poderão existir mais colónias jovens de Vespa velutina do que aquelas que o território consegue sustentar até ao outono. Algumas destas colónias desaparecerão por predação, outras por competição, falta de alimento ou outras causas. Assim, destruir parte das colónias de V. velutina numa fase inicial não significa necessariamente reduzir na mesma proporção o número das que chegam à maturidade.

Isto não torna o bútio-vespeiro irrelevante. Pelo contrário, se nas proximidades dos seus ninhos circulam menos operárias durante uma parte importante do verão, poderá existir um benefício ecológico local e eventualmente também para alguns apiários. Um segundo trabalho publicado em 2025 analisou inclusivamente a conservação de habitats adequados ao bútio-vespeiro como uma possível componente de estratégias integradas de gestão da velutina [5].

Varroa nas velutinas

Este é um assunto de que já falei neste blogue, em agosto de 2021, quando comentei um estudo realizado nas Astúrias sobre os insetos capturados nas chamadas armadilhas “específicas” para Vespa velutina [13].

Entre 286 velutinas examinadas, cinco apresentavam uma Varroa agarrada ao corpo, o que correspondeu a cerca de 1,75% dos exemplares [6]. É uma observação curiosa e facilmente compreensível num predador de abelhas: durante a captura ou manipulação de uma abelha parasitada, a Varroa poderá passar para a vespa.

Do ponto de vista populacional, contudo, dificilmente se imagina um efeito relevante. A reprodução de Varroa destructor está estreitamente associada à criação operculada das abelhas e não existe evidência de que consiga completar o seu ciclo reprodutivo na criação de V. velutina. Por isso, a presença ocasional de Varroa sobre velutinas será biologicamente interessante, mas dificilmente constituirá um fator importante de mortalidade desta espécie.

Mais interessantes podem ser os agentes patogénicos das próprias abelhas

Ao predar abelhas, a Vespa velutina entra inevitavelmente em contacto com muitos dos microrganismos e vírus presentes nas nossas colónias. E aqui começaram a surgir resultados que merecem atenção.

Num estudo realizado na Galiza, o vírus das asas deformadas, DWV, foi encontrado numa percentagem muito elevada das velutinas analisadas. Mais importante ainda, os investigadores detetaram formas replicativas do vírus, mostrando que não se tratava simplesmente de partículas virais ingeridas juntamente com as abelhas: o vírus conseguia efetivamente replicar-se no organismo da vespa [7].

Um trabalho português publicado em 2026 reforçou esta informação. Foram analisadas 534 amostras provenientes de 38 ninhos de Vespa velutina de Aveiro e Coimbra, abrangendo larvas, pupas, adultas e algumas rainhas. O DWV surgiu em cerca de 70% das amostras e foram também detetados outros agentes associados às abelhas, incluindo Nosema ceranae, BQCV e CBPV [8].

Estes resultados mostram que a velutina se integrou também na circulação de agentes patogénicos presentes nos ecossistemas e nos apiários que explora. O que ainda falta conhecer é a consequência dessas infeções. Para falarmos de um verdadeiro efeito populacional seria necessário demonstrar reduções relevantes na sobrevivência das operárias, no desenvolvimento da criação, no sucesso das colónias ou na produção de futuras fundadoras. Essa demonstração, até agora, não existe.

Ter inimigos não significa estar controlada

O que toda esta informação mostra é que a Vespa velutina está longe de viver num vazio ecológico. À medida que se foi estabelecendo na Europa, passou a integrar as relações já existentes entre predadores e presas, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos. A Vespa crabro compete com ela, os abelharucos capturam operárias, o bútio-vespeiro consegue localizar e destruir ninhos, Varroa pode aparecer ocasionalmente sobre os adultos e vários agentes patogénicos das abelhas conseguem chegar às suas colónias.

O ponto importante está na dimensão do efeito produzido por cada uma destas interações. Matar algumas operárias pode ter pouca importância para uma colónia capaz de produzir milhares delas. Destruir colónias jovens já constitui uma pressão muito mais forte, como mostra o caso do bútio-vespeiro, mas mesmo aí não foi demonstrada uma redução correspondente dos ninhos maduros no final da estação. Para travar realmente uma invasão seria necessário que a mortalidade e a competição reduzissem suficientemente o sucesso reprodutivo e a produção de novas fundadoras, geração após geração, até limitarem também a colonização de novos territórios.

É precisamente aqui que a extraordinária capacidade de compensação da Vespa velutina parece fazer a diferença. Uma população pode perder indivíduos e mesmo algumas colónias ao longo da estação e, ainda assim, produzir fundadoras em número suficiente para se manter e continuar a expandir-se. Um trabalho de Monceau, Bonnard e Thiéry, publicado em 2012, ajuda a perceber a dimensão deste potencial: com base nas taxas de sobrevivência estimadas para a população francesa, os autores calcularam que 10 ninhos existentes num ano poderiam dar origem a cerca de 111 fundadoras capazes de estabelecer novas colónias no ano seguinte, ou seja, aproximadamente 11 novas colónias potenciais por cada ninho da geração anterior [9]. É também por isso que um efeito muito visível num apiário ou numa pequena área, provocado pelos inimigos naturais da Vespa velutina, não deve ser automaticamente interpretado como controlo da espécie à escala local, regional e muito menos nacional.

Talvez seja esta a conclusão mais equilibrada. A natureza já começou a incorporar a Vespa velutina nas suas próprias relações ecológicas e alguns desses inimigos podem ajudar a limitar localmente a sua abundância. Mas, até agora, essa resistência biótica permanece abaixo da capacidade da invasora para compensar as perdas, produzir novas fundadoras e continuar a dispersar-se pelo território.

Nota: Perante uma pressão tão intensa da Vespa velutina, muitos apicultores acabam por recorrer às ferramentas que têm disponíveis, algumas mais simples e rudimentares, outras mais exigentes na sua aplicação. Entre essas estratégias estão os chamados Cavalos de Tróia, uma abordagem que tenho vindo a acompanhar e a sistematizar há vários anos.

Para quem pretenda conhecer melhor esta técnica, preparei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina. Para informações sobre condições de acesso e aquisição, poderá contactar-me através do endereço eduardogomesapi@outlook.com.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Kwon, O.; Choi, M. B. (2020). Interspecific hierarchies from aggressiveness and body size among the invasive alien hornet, Vespa velutina nigrithorax, and five native hornets in South Korea. PLoS ONE, 15(7), e0226934. DOI: 10.1371/journal.pone.0226934.

[2] Carisio, L.; Cerri, J.; Lioy, S.; Bianchi, E.; Bertolino, S.; Porporato, M. (2022). Impacts of the invasive hornet Vespa velutina on native wasp species: a first effort to understand population-level effects in an invaded area of Europe. Journal of Insect Conservation, 26, 663–671. DOI: 10.1007/s10841-022-00405-3.

[3] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.

[4] Martín-Ávila, J. A.; Díaz-Aranda, L. M.; Fernández-Pereira, J. M.; Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81, 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.

[5] Martín-Ávila, J. A.; Rebollo, S.; Fernández-Pereira, J. M.; Monteagudo, N.; Díaz-Aranda, L. M. (2025). Encouraging native predators of invasive yellow-legged hornets: breeding habitat preferences of European honey buzzards in exotic Eucalyptus plantations. Pest Management Science, 81, 3704–3714. DOI: 10.1002/ps.8738.

[6] Sánchez, O.; Arias, A. (2021). All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps. Biology, 10(5), 448. DOI: 10.3390/biology10050448.

[7] Rodríguez-Flores, M. S.; Lopes, A. R.; Diéguez-Antón, A.; Seijo, M. C.; Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina: Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.

[8] Santos, S. S.; Tiritelli, R.; Capela, N.; Souto, P.; Caringi, V.; Bortolotti, L.; et al. (2026). Detection of bee-associated pathogens in different developmental stages within the nest of the invasive hornet Vespa velutina nigrithorax Buysson, 1905. Biological Invasions, 28, 165. DOI: 10.1007/s10530-026-03878-4.

[9] Monceau, K.; Bonnard, O.; Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.

Referências — Abelhas à Beira

[10] Abelhas à Beira (2021). Preparando as colónias para a invernagem. Ler

[11] Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da Vespa velutina? Ler

[12] Abelhas à Beira (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Ler

[13] Abelhas à Beira (2021). Nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina. Ler

cavalos de Tróia contra a vespa velutina: um manual para apicultores

Nos últimos tempos tenho recebido muitos pedidos de apicultores amigos e antigos formandos que enfrentam uma pressão muito forte da Vespa velutina nos seus apiários. Em alguns casos, a predação é tão intensa que condiciona claramente a actividade das colónias e obriga a procurar respostas que vão além das medidas habituais.

Foi para responder a esses pedidos que decidi preparar o manual com 58 páginas que intitulei “Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor”. Nele procurei organizar, sistematizar e enquadrar a informação disponível sobre estas técnicas, apresentando-a numa sequência clara, prática e didáctica.

O manual não substitui a necessária prudência, o respeito pela legislação nem a avaliação de cada caso concreto. Pretende, isso sim, ajudar o apicultor a compreender melhor as possibilidades, os limites e os cuidados associados a duas abordagens que têm sido discutidas e experimentadas em diferentes contextos.

Se tiver interesse em adquirir o manual pode contactar-me para o e-mail: eduardogomesapi@outlook.com

um tratamento só termina quando sabemos o que ficou

No início de julho, logo depois da cresta, um apicultor que frequentou as sessões de formação que ministrei on-line sobre o Controlo efectivo da varroose, iniciou o controlo da varroa nas suas colónias. Realizou nas semanas seguintes dois tratamentos caseiros à base de amitraz. Poderia ter considerado o assunto resolvido e seguido em frente. Felizmente não o fez, e como recomendei no curso, no início de agosto pegou em amostras de aproximadamente 300 abelhas adultas e fez aquilo que considero indispensável depois de qualquer intervenção cuja eficácia não conhecemos: mediu o que tinha ficado.

O resultado não deixou grande margem para tranquilidade. Em algumas das lavagens contou mais de 15 Varroas em cerca de 300 abelhas, apesar dos dois tratamentos com amitraz já realizados. O tratamento tinha sido feito; o controlo da varroa, claramente, não. Esta distinção é importante. Colocar um produto numa colmeia é uma ação; conseguir que a população de Varroa destructor desça para os valores que pretendemos é um resultado. Só a monitorização nos permite saber se esse resultado foi alcançado.

Não retiro deste episódio a conclusão de que o amitraz deixou de funcionar naquele apiário. Tratava-se de tratamentos caseiros e uma falha desta natureza pode ter várias explicações, desde a dose e a forma de aplicação até à quantidade de criação existente ou à própria sensibilidade da população de Varroa ao amitraz. O que sabemos objetivamente é mais simples: depois de dois tratamentos, a infestação continuava demasiado elevada.

Perante estes valores, este apicultor decidiu contactar-me e perguntou-me concretamente se poderia utilizar o Formic Pro, um dos vários medicamentos referidos por mim no curso. A sua principal preocupação, naquele momento, eram as temperaturas. Estávamos no início de agosto e as previsões apontavam para máximas bastante elevadas. Perante aquelas condições aconselhei-o a proceder de forma mais conservadora, aplicando apenas uma placa/tira de Formic Pro de cada vez, e não as duas simultaneamente previstas na bula. Foi assim que procedeu, seguindo esta orientação para as condições existentes naquele momento.

Aplicação de uma placa de Formic Pro em colónias com temperaturas elevadas (Scientific Beekeeping, 4a)

O ácido fórmico tem uma característica que o distingue de muitos outros acaricidas utilizados contra a varroa: consegue atuar também sobre uma parte dos ácaros presentes no interior da criação operculada. Esta vantagem é especialmente relevante quando existe quantidade apreciável de criação, mas não significa que o produto seja insensível às condições de aplicação. Pelo contrário, a temperatura, a ventilação, a força da colónia e a velocidade de libertação do ácido influenciam simultaneamente a eficácia e a tolerância das abelhas ao tratamento.

Terminadas as duas rondas, indiquei-lhe que avaliasse o resultado 12 a 15 dias depois, através de lavagens de aproximadamente 300 abelhas. Foi exatamente o que fez.

Já na segunda metade de setembro voltou a contactar-me com os resultados. Tinha avaliado várias colmeias e nenhuma das amostras ultrapassara duas Varroas. Duas Varroas em 300 abelhas correspondem aproximadamente a 0,7% de infestação. Comparando estes números com a situação encontrada no início de agosto, quando uma das lavagens revelara mais de 15 ácaros, o quadro era agora muito diferente.

Perguntei-lhe se tinha observado efeitos negativos sobre as rainhas, a que me respondeu que não, apenas deu conta de substituição de rainha numa colónia das muitas dezenas que tratou.

Não transformaria estes números numa estimativa experimental da eficácia do Formic Pro. Não estamos perante um ensaio desenhado para esse fim, nem todas as medições antes e depois correspondem necessariamente às mesmas colónias. Mas, para aquilo que interessa ao apicultor no terreno, a informação obtida era suficientemente útil: depois da intervenção, as amostragens mostravam níveis de infestação substancialmente mais baixos.

Nesta mesma conversa perguntou-me então se, perante amostras que não ultrapassavam duas Varroas em 300 abelhas, seria necessário voltar a tratar até ao final do ano. Respondi-lhe que, antes de lhe dar uma indicação, queria olhar para aquele valor através dos “olhos” do simulador de Varroa de Randy Oliver, fazendo uma projeção da evolução provável da população de ácaros até ao final de dezembro.

Referi-me que neste território não existe uma verdadeira interrupção da postura em novembro e dezembro, por efeito de recursos de néctar e pólen disponíveis durante uma parte importante do outono. E enquanto existe criação existe também oportunidade para a reprodução da Varroa.

Introduzi então os valores no simulador, procurando aproximar a dinâmica da criação daquilo que este apicultor me descreveu. A projeção foi bastante esclarecedora. Partindo de um nível atualmente baixo, se não fosse realizada uma nova redução da população de Varroa, o modelo projetava um crescimento muito acentuado durante o outono, chegando ao final de dezembro a uma população estimada em cerca de 2.500 Varroas por colónia. Um valor desta ordem de grandeza muda completamente a leitura das duas Varroas encontradas agora numa lavagem.

Resultados da simulação que fiz

Foi por isso que lhe respondi que, neste caso, considerava aconselhável prever um novo tratamento, preferencialmente até ao final da primeira quinzena de novembro, data até à qual a infestação não deverá superar, estimadamente, os 2%. A partir daí, mantendo-se criação e não havendo nova redução da população de ácaros, a progressão torna-se bastante mais acentuada.

Utilizo muito frequentemente o simulador de Randy Oliver, mesmo que não o considere uma máquina capaz de prever exatamente quantas Varroas teremos numa colmeia numa determinada data. Também não foi concebido para isso. É um modelo que integra aquilo que sabemos ou estimamos acerca da população de abelhas, quantidade de criação, crescimento da população de Varroa, imigração de ácaros e eficácia dos tratamentos e que permite visualizar trajetórias plausíveis. Para mim é sobretudo uma ferramenta de apoio à decisão.

Neste caso tornou visível algo que uma leitura estática das duas Varroas poderia esconder. O valor de hoje é baixo; a trajetória das semanas seguintes pode não ser. Uma colónia que mantém criação durante novembro e dezembro oferece sucessivos ciclos reprodutivos à Varroa. Assim, o mesmo nível de infestação medido em setembro pode ter consequências muito diferentes numa colónia que entra rapidamente numa pausa de postura ou noutra que continua a criar durante praticamente todo o outono.

Este caso acaba, portanto, por reunir várias ideias que tenho repetido muitas vezes neste blogue.

A primeira é que um tratamento não deve ser avaliado pelo produto que colocámos na colmeia, mas pelo número de Varroas que ficaram depois dele. Neste caso, depois da cresta do início de julho tinham sido realizados dois tratamentos caseiros com amitraz e, no início de agosto, uma lavagem continuava a revelar mais de 15 Varroas. Se este apicultor não tivesse monitorizado, poderia facilmente ter seguido pelo verão convencido de que o problema estava resolvido.

A segunda é que uma infestação baixa não significa necessariamente que podemos deixar de pensar na varroa durante vários meses. Duas Varroas hoje são poucas; a descendência dessas Varroas, somada aos ácaros que entretanto possam entrar na colónia, pode produzir uma realidade muito diferente algumas semanas depois. Neste caso, o simulador ajuda a tornar essa diferença particularmente visível: de um valor inferior a 1% em setembro para uma população potencial de cerca de 2.500 ácaros no final do ano, se a progressão não for interrompida.

E a terceira talvez seja aquela que melhor resume a maneira como atualmente procuro gerir a varroose: monitorizamos, intervimos quando necessário, voltamos a medir e utilizamos aquilo que sabemos sobre a dinâmica da colónia e da Varroa para antecipar o passo seguinte. Mais importante do que a fidelidade a determinado princípio ativo é saber onde estamos, verificar onde ficámos depois do tratamento e decidir com antecedência onde queremos estar quando se criam as abelhas que terão de atravessar o inverno.

Neste apiário o resultado conseguido até agora é bom. Mas é precisamente porque a infestação foi reduzida para valores baixos que faz sentido tentar conservá-la baixa, em vez de esperar que volte a atingir níveis que nos obriguem novamente a correr atrás da Varroa.

Referências — literatura científica e técnica

1. Direção-Geral de Alimentação e Veterinária — DGAMV (2025). Formicpro 68,2 g tiras para colmeia de abelhas melíferas — Resumo das características do medicamento, rotulagem e folheto informativo. Última revisão do texto: dezembro de 2025.

2. Bertola, M. & Mutinelli, F. (2025). Sensitivity and Resistance of Parasitic Mites (Varroa destructor, Tropilaelaps spp. and Acarapis woodi) Against Amitraz and Amitraz-Based Product Treatment: A Systematic Review. Insects, 16, 234.

3. Kosch, Y., Mülling, C. & Emmerich, I. U. (2025). Assessment of Resistance of Varroa destructor to Formic and Lactic Acid Treatment—A Systematic Review. Veterinary Sciences, 12, 144.

4. Oliver, R. & Harness, T. (2022). An Online Model for Varroa Management. Scientific Beekeeping.

4a. Randy Oliver (2023). Formic Pro and Queens in Hot Weather. Scientific Beekeeping.

Referências — Abelhas à Beira

5. Gomes, J. E. (2026). Qual é o melhor tratamento contra a varroa? Ler

6. Gomes, J. E. (2026). Varroa e muita criação: será a lavagem de abelhas adultas menos fiável? Ler

7. Gomes, J. E. (2026). Resistência ao amitraz: uma mutação não chega para contar toda a história. Ler

8. Gomes, J. E. (2023). Varroose: 4 tratamentos/ano serão suficientes? Ler

9. Gomes, J. E. (2026). Ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou? Ler

visita técnica nas proximidades de S. João da Madeira — quando a varroa já deixou pouco tempo para recuperar

Ontem, dia 16 de setembro, fiz a minha primeira visita técnica a um apiário nas proximidades de S. João da Madeira. O motivo principal que levou o apicultor a contactar-me foi muito concreto: apesar de estar a utilizar tratamentos caseiros à base de amitraz, não estava a conseguir controlar a varroose e pediu-me ajuda para aprender a preparar e aplicar o Protocolo Inovador (PI).

A observação das colónias confirmou rapidamente a gravidade da situação. Se, por um lado, a pressão de Vespa velutinaestava relativamente bem controlada através da utilização de Cavalos de Tróia por via cuticular, por outro, a varroose estava, em várias colónias, numa situação que só posso descrever como muito preocupante. Algumas das colónias estavam já profundamente enfraquecidas, com populações de abelhas muito abaixo daquilo que seria desejável nesta altura do ano.

Uma parte importante da visita foi, por isso, muito prática. Mostrei ao apicultor como preparar e utilizar corretamente o PI, desde a preparação dos materiais até à sua aplicação nas colónias. Nesta fase, mais do que discutir tratamentos em abstrato, interessava-me que saísse do apiário sabendo exatamente aquilo que deveria fazer nos dias seguintes.

Ainda há colónias onde vale a pena investir o nosso empenho

Entre as colónias observadas havia diferenças importantes. Algumas mantinham uma população equivalente a aproximadamente um quadro e meio de abelhas ou mais. Apesar de serem colónias já bastante fragilizadas, estou relativamente confiante na possibilidade de se aguentarem, sobretudo pela rapidez de atuação do PI. Nesta altura, cada dia conta: é preciso reduzir rapidamente a pressão da varroa e dar às abelhas que ainda restam condições para manter a colónia em funcionamento.

Quadro de colónia muito parasitada, mas onde acredito que o PI venha a ser muito útil para a sua recuperação (foto do autor)

Noutras, contudo, a situação era muito mais difícil. Encontrei colónias com menos de meio quadro de abelhas. Nesses casos, o meu prognóstico é bastante mais reservado. Mesmo que consigamos reduzir rapidamente a população de varroas, já não estamos apenas perante um problema de controlar o parasita; estamos perante colónias que ficaram com uma população tão pequena que a sua própria capacidade de recuperação pode estar seriamente comprometida.

Esta diferença é importante. Um tratamento pode matar varroas rapidamente, mas não consegue devolver à colónia, de um dia para o outro, as abelhas que entretanto perdeu.

Velutina controlada, mas ainda com margem para aperfeiçoar

O apicultor já estava a utilizar Cavalos de Tróia cuticulares contra a Vespa velutina e, pelo que pude observar, estava a conseguir manter a pressão das vespas razoavelmente controlada. Aproveitámos, ainda assim, para rever alguns aspetos da técnica e deixei-lhe várias recomendações destinadas a melhorar a preparação e utilização dos Cavalos de Tróia.

Disse-me, contudo, que a captura e preparação das vespas para aplicação cuticular lhe consumia bastante tempo. Por essa razão, vou enviar-lhe também informação fundamentada sobre a produção de Cavalos de Tróia por ingestão, para que possa conhecer uma alternativa potencialmente menos exigente em mão de obra e decidir, com informação suficiente, qual das abordagens melhor se adapta ao seu apiário.

Marcar uma rainha também se aprende fazendo

Houve ainda tempo para um maneio mais simples, mas que considero igualmente importante numa visita deste género. Encontrámos uma rainha e aproveitámos para fazer a sua marcação, mostrando ao apicultor os diferentes passos do procedimento e os cuidados a ter.

Etapa do processo de marcação de uma rainha (foto do autor)

São pequenos gestos técnicos, mas a melhor maneira de os aprender continua a ser vê-los fazer e depois repeti-los.

Flora de outono, mas pouco pão de abelha recente

Na envolvente do apiário observavam-se algumas florações outonais, nomeadamente de Calluna vulgaris — magoriça— e de tágueda (Dittrichia viscosa). Havia, portanto, recursos florais disponíveis na paisagem.

Calluna vulgaris — magoriça — em floração nas proximidades do apiário (foto do autor).

Tágueda (Dittrichia viscosa) em floração na envolvente do apiário (foto do autor)

Apesar disso, encontrei pouco pão de abelha recentemente armazenado nas colónias.

A minha leitura, no contexto concreto deste apiário, é que isso poderá estar relacionado com dois fatores que estavam bem presentes: por um lado, a fraqueza populacional de vários enxames, que naturalmente limita o número de abelhas disponíveis para o forrageio; por outro, a pressão de Vespa velutina, que, mesmo quando não paralisa completamente a atividade das colónias, pode condicionar as saídas e reduzir a intensidade do forrageio.

Há flores no campo. Isso não significa necessariamente que todas as colónias tenham população e liberdade de voo suficientes para as aproveitar.

Agora, reduzir rapidamente a pressão da varroa

Saí deste apiário com sensações diferentes conforme as colónias observadas. Nas que ainda mantêm cerca de um quadro e meio de abelhas, há uma janela de oportunidade que me parece ainda aproveitável. O PI começa a atuar rapidamente e, nesta fase, essa rapidez pode fazer uma diferença importante.

Nas colónias reduzidas a menos de meio quadro de abelhas, o caminho será muito mais difícil. A varroa pode ser controlada; resta saber se ainda existe população suficiente para reconstruir aquilo que entretanto se perdeu.

Foi precisamente para distinguir estas duas situações que a visita me pareceu particularmente útil. Tratar é necessário. Mas há um momento em que já não basta matar varroas: é preciso que ainda exista colónia suficiente para responder ao tratamento.

Esta visita junta-se a outras que tenho vindo a relatar neste blogue, em diferentes regiões do país e fora da minha zona habitual de trabalho em Coimbra: de Oliveira do Hospital, a Cardigos, passando por Torre de Moncorvo, Marco de Canaveses, Pombal e, muito recentemente, por um pequeno apiário junto ao rio Sabor. São territórios, apicultores e problemas diferentes, mas o propósito destas visitas é sempre muito semelhante: observar as colónias no seu contexto real, identificar os problemas concretos de cada apiário e deixar ao apicultor conhecimento e procedimentos que possa depois aplicar autonomamente. abelhas à beira

Mais uma vez, fui recebido com grande simpatia e disponibilidade. É algo que tenho encontrado habitualmente nestas deslocações e que não quero deixar de agradecer. Para além do trabalho técnico realizado dentro das colmeias, fica também esse lado humano das visitas, que tantas vezes torna o dia tão interessante como aquilo que encontramos quando levantamos a tampa de uma colmeia.

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varroa e muita criação: será a lavagem de abelhas adultas menos fiável?

Há vários anos que, quando quero saber o nível de infestação de uma colónia e tomar decisões sobre o controlo da varroose, a minha técnica preferida é a contagem de Varroa em abelhas adultas. Tenho boas razões para isso. Consigo fazer recolhas relativamente padronizadas, repetir o mesmo procedimento ao longo do ano e comparar os resultados entre colónias e entre datas. Há também referenciais de intervenção melhor estabelecidos para este método e, no meu caso, uma vantagem adicional: os resultados podem ser introduzidos diretamente no simulador de Varroa de Randy Oliver, permitindo enquadrar a infestação observada na dinâmica previsível da população de ácaros.

De vez em quando observo também a presença de Varroa na criação. Já o mostrei algumas vezes neste blogue. Quanto à queda natural de ácaros no fundo da colmeia, não costumo utilizá-la como técnica de monitorização, a não ser por razões didáticas. Isso não significa que não forneça informação útil. Fornece-a naturalmente. A questão que me interessa aqui é mais limitada: porque considero a amostragem de abelhas adultas particularmente adequada para acompanhar a infestação e apoiar as decisões de tratamento?

Lindo quadro de cera nova com criação fechada (foto do autor)

O princípio da técnica que utilizo é simples. Recolho aproximadamente 300 abelhas adultas da zona de criação, depois de localizar a rainha e afastar o quadro onde se encontra. Sacudo abelhas de um ou dois quadros com bastante criação aberta para um recipiente largo, deixo levantar voo parte das abelhas mais velhas e recolho aproximadamente 125 ml das que permanecem. São cerca de 300 abelhas. Faço depois a lavagem em álcool e conto as Varroas libertadas. Já descrevi este procedimento detalhadamente numa publicação anterior deste blogue [3].

Com esta dimensão de amostra as contas são simples. Uma Varroa corresponde aproximadamente a 0,33%; três a 1%; seis a 2%; nove a 3%. Naturalmente não estou a contar todas as Varroas existentes na colónia, nem sequer todas as que naquele momento se encontram sobre as abelhas adultas. Estou a trabalhar com uma amostra. A vantagem está precisamente em conseguir fazer uma recolha relativamente padronizada e repetir posteriormente a avaliação em condições semelhantes.

Varroas caídas no álcool e sua filtragem para contagem (vídeo do autor, Zona Centro, 2026)

Há uma ideia que pretendo discutir nesta publicação. É frequente ouvir que, quando uma colónia tem muita criação, a lavagem de abelhas adultas deixa de representar adequadamente a infestação, porque uma grande parte das Varroas se encontra dentro dos alvéolos operculados. Daqui retira-se muitas vezes uma segunda conclusão: nessas circunstâncias, a avaliação da Varroa diretamente na criação é um método mais fiável e representa melhor a infestação real da colónia. A primeira parte deste raciocínio tem fundamento biológico. O que importa perceber é se a segunda também se confirma quando olhamos para os dados.

Um dos trabalhos clássicos sobre esta questão é o de Lee et al. (2010) [1]. Os investigadores trabalharam em 31 apiários comerciais e fizeram uma amostragem particularmente intensiva em 62 colónias. Procuraram perceber até que ponto a infestação encontrada nas abelhas adultas podia representar aquilo que se passava na população global de Varroa.

O resultado foi bastante claro. A infestação encontrada nas abelhas adultas estava fortemente relacionada com a quantidade de Varroa existente no conjunto das abelhas adultas e pupas. Utilizando apenas a infestação medida nas adultas, o modelo explicava cerca de 83% da variação observada na densidade global de ácaros (R² = 0,83) [1]. Dito de forma simples, quando a lavagem encontrava mais Varroa nas abelhas adultas, isso correspondia, na maior parte dos casos, a uma população global de Varroa também mais elevada na colónia. Não era uma medida perfeita, mas acompanhava bastante bem aquilo que se passava no conjunto da colónia.

O contraste com a avaliação da criação torna-se particularmente interessante num estudo de dinâmica populacional publicado em 2024 [2]. Durante dez meses, os investigadores acompanharam dez colónias, estimando repetidamente a população total de Varroa e medindo, entre outras variáveis, a infestação nas abelhas adultas, a infestação da criação e a quantidade de criação existente.

A infestação nas abelhas adultas apresentou uma correlação de r = 0,73 com a população total estimada de Varroa. Na criação, a correlação foi bastante mais baixa, apenas r = 0,40. [2].

Dito de forma simples: quando encontramos mais Varroa nas abelhas adultas, isso tende a corresponder também a mais Varroa no conjunto da colónia. Na criação, essa correspondência é bastante menos consistente.

E é aqui que surge o ponto que considero particularmente importante. A quantidade de criação, tantas vezes apresentada como uma fragilidade da lavagem de abelhas adultas, influenciava de facto essa medição: quanto mais criação existia, menor tendia a ser a infestação encontrada nas adultas, com uma correlação de r = −0,30. Mas esse efeito era muito mais forte precisamente na avaliação da própria criação: r = −0,65 [2]. Os autores referem a este propósito um «efeito de diluição»: aumentando a quantidade de criação disponível, os ácaros ficam distribuídos por um número maior de alvéolos e a percentagem de criação infestada tende a baixar. E os próprios dados mostram que este efeito de diluição se manifestou de forma bastante mais marcada na criação do que nas abelhas adultas.

Há ainda outra dificuldade na avaliação da criação: a Varroa não está distribuída por igual em todos os alvéolos. Um estudo de 2020 encontrou diferenças de infestação entre diferentes zonas do mesmo favo e também entre favos [3]. Na prática, isto significa que o resultado pode depender bastante da zona de criação que decidimos abrir. A avaliação da criação, apesar de parecer uma observação mais direta, também está sujeita a uma variabilidade de amostragem importante.

Isto significa que passar da lavagem de abelhas adultas para a avaliação da criação não elimina o problema da quantidade de criação nem da variabilidade de amostra.

Um exemplo simples ajuda a perceber porquê. Imagine duas colónias com o mesmo número de Varroas. Se uma tiver muita criação operculada, os ácaros ficam distribuídos por milhares de alvéolos e a percentagem de criação infestada pode parecer baixa. Se a outra tiver pouca criação, os mesmos ácaros ficam concentrados num número muito menor de alvéolos e a percentagem sobe. Portanto, uma percentagem baixa de alvéolos infestados não significa necessariamente uma população baixa de Varroa. Pode significar também que aquela população de ácaros está distribuída por uma quantidade muito maior de criação disponível e de forma irregular.

A isto soma-se outra dificuldade. Se abrirmos criação de zângão, normalmente encontraremos muito mais Varroa do que na criação de obreira da mesma colónia. A percentagem que obtemos depende, portanto, não apenas da população de ácaros existente, mas também da quantidade e do tipo de criação que decidimos observar.

Corte dos opérculos em criação de zângão para posterior observação da infestação (foto do autor)

Há naturalmente variabilidade também nas adultas. A Varroa não está distribuída uniformemente por todas as abelhas de uma colónia. Se recolhermos abelhas das meias-alças, da entrada ou de zonas afastadas da criação obtemos uma amostra diferente daquela que retiramos junto da criação. Por isso, padronizar o local de recolha é quase tão importante como padronizar o número de abelhas recolhidas.

A objeção da muita criação não é, portanto, falsa. Em períodos de extensa criação, uma parte muito grande da população de Varroa está dentro dos alvéolos operculados e não aparece na lavagem. Já mostrei neste blogue uma simulação em que, entre fevereiro e março, a população total de Varroa quase triplicava, passando de aproximadamente 165 para 461 ácaros, enquanto a lavagem continuava a revelar apenas uma Varroa em cerca de 300 abelhas [4].

É precisamente por isso que não faz sentido utilizar o mesmo limiar de intervenção em todas as épocas do ano. Quando há muita criação e sabemos que uma proporção maior dos ácaros está nos alvéolos, podemos trabalhar com um limiar de intervenção mais baixo. A limitação deixa assim de ser uma razão para abandonar a amostragem nas adultas e passa a ser uma razão para interpretar melhor o número que ela nos dá.

O que significa «correlação»?

Uma correlação diz-nos simplesmente até que ponto duas coisas tendem a variar juntas.

Se as colónias onde encontramos mais Varroa nas adultas são também, em geral, as colónias onde existe mais Varroa no conjunto da colónia, a correlação é forte.

Quanto mais o valor de r se aproxima de 1, mais forte é essa relação. Assim, 0,73 representa uma relação bastante mais forte do que 0,40. Quando o valor é negativo, como −0,65, significa que uma variável tende a diminuir quando a outra aumenta: neste caso, quanto maior era a quantidade de criação, menor tendia a ser a percentagem de criação infestada.

Isto não significa que possamos converter exatamente uma medida na outra. Significa apenas que uma acompanha melhor a outra.

É precisamente isso que procuro numa técnica de monitorização. Não preciso de saber exatamente quantas Varroas existem em toda a colónia. Preciso de uma medida suficientemente consistente para perceber se a infestação está baixa, a aumentar ou já entrou numa zona em que devo intervir.

Conclusão (por enquanto)

A presença de muita criação não torna a lavagem de abelhas adultas perfeita. Mas também não constitui, por si só, um argumento para a substituir pela abertura e avaliação da criação. Os dados não sustentam a ideia de que, quando há muita criação, seja mais fiável procurar a Varroa na própria criação. Pelo contrário, quando havia muita criação, a testagem na própria criação dava uma imagem menos fiel da infestação real da colónia; por outro lado, a infestação nas abelhas adultas retratou melhor as variações da população total de Varroa.

O efeito de diluição é particularmente importante para mim porque a minha estratégia não é esperar que a infestação se torne elevada para decidir tratar. Procuro tomar essa decisão quando os valores ainda são baixos, precisamente numa fase em que uma leitura menos fiel pode fazer diferença entre intervir a tempo ou deixar a população de Varroa continuar a crescer. Quando a infestação já é muito elevada, praticamente qualquer método acabará por mostrar que existe um problema. É nas infestações baixas ou intermédias, quando ainda estamos a decidir se devemos intervir e em que momento, que se torna mais importante saber qual é o indicador que melhor retrata a evolução da população de Varroa.

Por isso, o efeito de diluição não é uma limitação que eu ignore quando utilizo a lavagem. É uma limitação que tenho em conta na interpretação do resultado e também na escolha dos limiares de intervenção. Mas os dados que vimos mostram que esse problema não desaparece quando passamos para a avaliação da criação e pode, aliás, ser ainda mais marcado aí. Entre esta razão e as outras já referidas — padronização da amostra, repetibilidade, possibilidade de comparar resultados ao longo do tempo e boa relação com a infestação global — continuo a preferir a monitorização através da lavagem de abelhas adultas.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Lee, K. V., Moon, R. D., Burkness, E. C., Hutchison, W. D. & Spivak, M. (2010). Practical Sampling Plans for Varroa destructor (Acari: Varroidae) in Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae) Colonies and Apiaries. Journal of Economic Entomology, 103(4), 1039–1050. DOI: 10.1603/EC10037.

[2] Medina-Flores, C. A., Saucedo Rojas, A., Guzman-Novoa, E. & Alaniz Gutiérrez, L. (2024). Population Dynamics of the Mite Varroa destructor in Honey Bee (Apis mellifera) Colonies in a Temperate Semi-Arid Climate. Insects, 15(9), 696. DOI: 10.3390/insects15090696.

[3] Floris, I., Pusceddu, M. & Satta, A. (2020). How the Infestation Level of Varroa destructor Affects the Distribution Pattern of Multi-Infested Cells in Worker Brood of Apis mellifera. Veterinary Sciences, 7(3), 136. DOI: 10.3390/vetsci7030136.

Referências — Abelhas à Beira

[3] Testagem de taxa de infestação por varroa em abelhas adultas: os nossos procedimentos (2024). Ler.

[4] Das limitações da monitorização e sua superação (2025). Ler.

abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo?

Em setembro de 2020 escrevi neste blogue, quase de passagem, uma observação que hoje me merece atenção renovada. Ao chegar a um dos meus apiários encontrei um bando de cerca de dez abelharucos e registei:

“Hoje, por volta das 9h30, estava a entrar no meu segundo apiário a 600 m de altitude, e não pude deixar de notar um bando de cerca de 10 abelharucos a levantar voo. Não sei se coincidência ou não, o ano passado tinha algumas velutinas à frente dos alvados das colmeias neste território e não dei conta dos abelharucos. Este ano dou conta dos abelharucos e não vi, até agora, uma velutina ou crabro em frente dos alvados das colmeias.” [5]

Não estava a tentar demonstrar qualquer relação entre as duas espécies. Registei apenas aquilo que estava a observar naquele apiário e que voltei a notar nos anos seguintes.

Passados estes anos, e depois de termos hoje mais informação sobre a dieta do abelharuco e sobre o efeito comportamental que tanto ele como a Vespa velutina exercem sobre as colónias, esta observação merece ser revisitada. Mas parece-me importante fazê-lo separando duas perguntas diferentes. Uma é saber se os abelharucos conseguem limitar a expansão territorial da Vespa velutina. Outra, e para o apicultor provavelmente mais importante, é perceber se a presença dos abelharucos e a consequente redução da pressão das velutinas se traduzem realmente em mais minutos ou horas disponíveis de forrageio para as colónias.

A escala territorial

Em 2023 publiquei neste blogue uma análise a dois mapas de distribuição, um do abelharuco e outro da Vespa velutina.[7] À primeira vista podia parecer existir uma relação inversa, com maior presença de abelharucos precisamente onde a velutina apresentava menor implantação. Quando olhei com mais atenção, essa relação deixou de me parecer convincente. No extremo nordeste transmontano encontrávamos pouca presença de abelharucos e também reduzida implantação da velutina; no Ribatejo sucedia praticamente o contrário, com uma presença importante de abelharucos a coexistir com uma implantação já significativa de V. velutina.

A informação entretanto publicada não me levou a alterar substancialmente essa leitura. Em 2023, Onofre e colaboradores demonstraram em Portugal que o abelharuco (Merops apiaster) captura efetivamente Vespa velutina.[1] Entre 128 restos de presas identificados encontraram cinco velutinas, provenientes de quatro locais diferentes. Sabemos, portanto, que a predação existe e não estamos apenas perante uma possibilidade teórica.

Imagem gerada por IA

Outra questão é saber se essa predação tem dimensão suficiente para alterar a dinâmica populacional de uma espécie invasora que se encontra hoje distribuída por extensas áreas e sustentada por milhares de ninhos. Para produzir um efeito apreciável sobre a expansão territorial seria necessário afetar de forma suficientemente intensa a sobrevivência das colónias ou, sobretudo, a produção e sobrevivência das futuras fundadoras. Não encontrei evidência de que os abelharucos estejam a exercer esse efeito, e o próprio trabalho português chama a atenção para a sobreposição geográfica incompleta das duas espécies na Península Ibérica.[1]

Há ainda um cuidado adicional quando olhamos para estes mapas. A distribuição de ambas as espécies é fortemente condicionada pelo clima e pelo habitat. O abelharuco tende a beneficiar, durante a época de reprodução, de condições quentes e relativamente secas, enquanto a V. velutina apresenta elevada adequação em muitas regiões temperadas e húmidas e é penalizada pela secura excessiva. Parte da aparente relação inversa entre as duas espécies pode, por isso, resultar simplesmente de nichos climáticos parcialmente diferentes e não da capacidade de uma espécie limitar a outra.

Neste primeiro nível de análise continuo bastante céptico quanto a um papel importante dos abelharucos na limitação da expansão territorial da velutina.

Outra escala: aquilo que acontece no apiário

À frente de vinte colmeias a questão muda bastante. Se estiverem dez ou quinze velutinas a caçar diante dos alvados e chegar um bando de abelharucos, parece-me perfeitamente plausível que a presença destas aves faça diminuir rapidamente o número de velutinas naquele espaço. Algumas podem ser capturadas, como sabemos hoje que acontece,[1] enquanto outras poderão simplesmente afastar-se enquanto os abelharucos permanecem sobre o apiário.

A minha experiência aponta nesse sentido e vários apicultores descrevem situações semelhantes. Já em 2023 admitia neste blogue que, na melhor das hipóteses, os abelharucos poderiam afastar temporariamente as velutinas dos apiários.[7] Hoje continua a parece-me muitíssimo razoável admitir que essa redução local é real e, em determinados momentos, bastante visível.

Mas daqui não resulta automaticamente que a colónia tenha beneficiado.

Talvez estejamos a medir a coisa errada

Quando se discute o prejuízo provocado pelos abelharucos aparece frequentemente a pergunta: quantas abelhas comem? Quando se discute o seu eventual benefício perante a velutina surge outra: quantas velutinas conseguem eliminar ou afugentar?

As duas contas têm interesse, mas nenhuma me parece ser a melhor unidade de medida para avaliar o impacto final sobre a colónia. Uma velutina pode capturar relativamente poucas abelhas e, ainda assim, provocar um efeito muito superior ao número das que matou, porque a sua presença diante do alvado leva muitas outras forrageiras a atrasar ou interromper as saídas. O prejuízo mais importante pode estar menos na mortalidade direta e mais na redução coletiva da atividade de voo.

Paralisia de voo por efeito da presença de V. velutina (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Com os abelharucos encontramos algo semelhante. Bota e colaboradores verificaram que uma maior pressão destas aves junto dos apiários estava associada a uma redução da atividade de voo das abelhas.[2] No mesmo trabalho, a pressão dos abelharucos variou ao longo do dia, sendo superior durante algumas horas da manhã e voltando a aumentar ao final da tarde, com valores mais baixos próximo do meio-dia.[2]

Imagem gerada por IA

Assim, quando chegam abelharucos e diminuem as velutinas, as abelhas não ficam necessariamente libertas da pressão predatória. Durante algum tempo, a inibição do voo que estava a ser provocada pelas velutinas passa a ser provocada pelos próprios abelharucos.

É por isso que, para mim, a pergunta central passa a ser outra: quantos minutos ou horas efetivas de forrageio a colónia conseguiu realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos?

A rapidez com que a velutina regressa?

Há uma observação de campo que me leva a dar bastante importância a esta pergunta. Nos apiários de clientes onde temos utilizado harpas elétricas, tenho visto repetidamente que, quando existe uma pressão apreciável de V. velutina, basta por vezes desligarmos as harpas durante 15 a 30 minutos para começarmos novamente a notar um aumento do número de velutinas diante das colmeias.

Retorno da V. velutina após algum tempo com as harpas desligadas (vídeo do autor, Coimbra 2026)

Num desses apiários, que descrevi neste blogue em 2023,[8] as harpas tinham sido desligadas cerca de uma hora antes da minha chegada. Quando entrei estavam entre 20 e 30 velutinas junto das colmeias e as abelhas praticamente paralisadas. Depois de ligadas as harpas, a pressão diminuiu rapidamente.

O trabalho de Monceau e colaboradores ajuda a perceber esta capacidade de reposição.[3] Num apiário experimental com apenas seis colmeias foram marcadas 360 velutinas e estimou-se que cerca de 350 indivíduos diferentes visitavam diariamente aquele conjunto de colmeias. Mais de metade dos indivíduos marcados regressaram pelo menos uma vez e, enquanto alguns deixavam de aparecer, novos indivíduos iam chegando.

Aquilo que vemos diante das colmeias num determinado momento é, portanto, apenas uma pequena parte de um fluxo diário muito maior. Um bando de abelharucos pode fazer desaparecer grande parte das velutinas que naquele instante estão diante dos alvados e produzir uma redução visualmente impressionante; mas quando o bando segue caminho, outras vespas podem ocupar rapidamente o espaço que ficou disponível.

É também aqui que existe uma diferença importante relativamente às harpas. A harpa permanece no apiário e continua a atuar sobre as velutinas que vão chegando. Os abelharucos podem exercer uma pressão muito intensa, mas frequentemente curta. Uma coisa é baixar durante alguns minutos o número de vespas presentes; outra é manter essa pressão suficientemente baixa para que as abelhas recuperem efetivamente o trabalho no campo.

As abelhas também precisam de recuperar

Há ainda outro elemento que pode estreitar essa janela de benefício. O desaparecimento do predador não significa necessariamente que as abelhas retomem imediatamente toda a atividade de voo.

A V. velutina produz uma resposta comportamental que ultrapassa largamente as abelhas diretamente capturadas. Rojas-Nossa e colaboradores mostraram que a pressão da velutina reduz o forrageio e que as colónias protegidas por harpas, nas quais essa pressão foi persistentemente diminuída, apresentaram maior atividade, maior entrada de pólen, mais criação, maior peso das operárias e melhor sobrevivência no inverno.[4]

Também no estudo dos abelharucos a relação entre a pressão das aves e a atividade das abelhas variava ao longo das diferentes horas do dia.[2] Não estamos perante um sistema em que o predador desaparece e, imediatamente, todas as forrageiras retomam a atividade que tinham antes.

É aqui que a sequência temporal se torna particularmente importante. Os abelharucos podem chegar, reduzir fortemente as velutinas e, simultaneamente, reduzir o voo das abelhas. Quando partem, a colónia começa a recuperar; mas, se a reposição das velutinas pode ocorrer em 15 ou 30 minutos, como observo nos apiários protegidos por harpas quando estas são desligadas, parte dessa recuperação pode ser novamente interrompida antes de se transformar numa janela de forrageio significativa.

Quando os dois predadores ocupam partes diferentes do mesmo dia

Os horários conhecidos dos dois predadores acrescentam outra camada a este problema. No estudo de Bota e colaboradores, a pressão dos abelharucos foi mais elevada durante algumas horas da manhã e voltou a aumentar ao final da tarde.[2] A atividade de V. velutina nos apiários pode ser elevada desde o final da manhã e prolongar-se pela tarde, embora varie com a temperatura, a época do ano e as condições locais.

Os dois predadores não precisam, portanto, de estar permanentemente presentes ao mesmo tempo para condicionarem uma parte importante do dia. Uma janela que fica temporariamente livre de abelharucos pode coincidir com um aumento da pressão da velutina; ao final da tarde podem mesmo existir períodos de sobreposição.

Voltamos assim à mesma métrica. Não quantas abelhas morreram nem quantas velutinas desapareceram, mas quanto tempo útil de voo restou à colónia.

Menos velutinas não significa necessariamente menos pressão sobre a colónia

Continuo a não encontrar evidência de que os abelharucos estejam a impedir de forma importante a expansão territorial da Vespa velutina em Portugal.

À escala do apiário, a situação parece-me diferente. Considero hoje bastante plausível que a presença dos abelharucos possa provocar uma redução rápida e muito visível do número de velutinas que estão a caçar diante das colmeias.

Mas essa fotografia momentânea também pode enganar.

O facto de não vermos velutinas durante a presença dos abelharucos não significa necessariamente que a pressão habitual daquele apiário tenha desaparecido. As velutinas podem ter sido capturadas ou simplesmente afastadas e, quando os abelharucos abandonam o local, regressar rapidamente ou ser substituídas por outras.

No final do dia, a pressão global sobre o voo das abelhas pode ter-se mantido: primeiro devido aos abelharucos e depois novamente devido à Vespa velutina.

Enquanto estas situações não forem acompanhadas durante períodos suficientemente longos de semanas ou meses e em territórios em que estes dois predadores coincidem, contar abelhas comidas, contar velutinas comidas ou simplesmente contar as velutinas que vemos e deixamos de ver num determinado momento continuará a mostrar apenas uma parte do problema.

O que falta medir com maior rigor é o tempo: quanto dura a redução das velutinas depois da passagem dos abelharucos, quanto demora a colónia a recuperar o voo, quanto rapidamente regressa a pressão da velutina e, no final do dia, quantos minutos ou horas efetivas de forrageio as abelhas conseguiram realmente “ganhar” com a presença dos abelharucos.

Nota final

Do ponto de vista estritamente ecológico, a minha preferência é evidente: entre o abelharuco, uma espécie nativa integrada nos nossos ecossistemas, e a Vespa velutina, uma espécie invasora, prefiro naturalmente o primeiro.

(Dito isto, dizer também que a presença do abelharuco é, em regra, parte natural da vida selvagem que partilha connosco estes territórios. Mas, em determinadas zonas e momentos, importa também perguntar se o aumento da sua abundância poderá estar a aproximar-se de limites tróficos que o próprio ecossistema suporta, com consequências para o equilíbrio entre a fauna selvagem e as actividades humanas, incluindo a apicultura. A comparação com o que tem acontecido com o javali serve apenas para colocar a questão: populações naturalmente presentes podem tornar-se problemáticas quando se alteram as condições que habitualmente limitavam a sua densidade. Não é uma conclusão sobre o abelharuco; é uma hipótese que merece observação séria, documentação e discussão.)

Mas não é essa a questão analisada nesta publicação. Aqui procurei apenas perceber o impacto de um e de outro sobre a atividade das colónias e, em particular, sobre o número de minutos ou horas disponíveis para o forrageio.

É nesse plano que surge a alegada vantagem do abelharuco: ao reduzir a presença de velutinas junto das colmeias, poderia devolver às abelhas algum tempo de voo. O problema é que os próprios abelharucos também inibem o forrageio e, quando se afastam, a pressão da V. velutina pode recompor-se rapidamente.

Por isso, esta publicação não pretende tomar partido entre os dois predadores. Procura apenas perceber se o benefício atribuído aos abelharucos se traduz realmente em mais horas de trabalho para as colónias. E, com a informação atualmente disponível, parece-me que essa vantagem ainda não foi avaliada com o rigor necessário para podermos afirmá-la.

Nota editorial sobre o uso de vídeos e imagens geradas por IA

Esta é a primeira vez que utilizo vídeos produzidos por mim numa publicação do Abelhas à Beira. Tenciono continuar a combiná-los com o texto, tal como tenho feito até agora com imagens estáticas e fotografias, sempre que contribuam para mostrar melhor aquilo que está a acontecer no apiário ou para tornar mais clara uma ideia desenvolvida na publicação.

É igualmente a primeira publicação em que recorro a imagens geradas por inteligência artificial. Sempre que o fizer, essa utilização será claramente identificada.

Não pretendo que o Abelhas à Beira se transforme num veículo de imagens indistinguíveis da realidade, nem que uma ilustração gerada substitua o registo fiel do que foi observado no apiário. Sempre que possível, procurarei utilizar fotografias e vídeos reais — preferencialmente meus ou, quando adequado, de outros autores devidamente identificados — para acompanhar e exemplificar os conteúdos publicados.

As imagens geradas por IA ficarão reservadas para situações em que uma fotografia ou vídeo real não esteja disponível, ou não permita ilustrar com clareza o ponto que o texto pretende explicar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906.

[2] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158.

[3] Monceau, K.; Bonnard, O.; Moreau, J.; Thiéry, D. (2014). Spatial distribution of Vespa velutina individuals hunting at domestic honeybee hives: heterogeneity at a local scale. Insect Science, 21, 765–774.

[4] Rojas-Nossa, S. V.; Dasilva-Martins, D.; Mato, S.; Bartolomé, C.; Maside, X.; Garrido, J. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony development. Pest Management Science, 78, 5142–5149.

Referências — Abelhas à Beira

[5] PMS: a factura que as minhas abelhas estão a pagar pela minha incompetência (2020). Ler

[6] Vespa velutina: contas e reflexões (2023). Ler

[7] Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da vespa velutina? (2023). Ler

[8] Medidas de controlo dos inimigos: Vespa velutina e varroa (2023). Ler

colmeias que ficam vazias: uma nova peça para explicar o desaparecimento das abelhas

Nesta altura do ano começam a aparecer, como praticamente todos os anos, relatos de apicultores que encontram uma colmeia vazia ou reduzida a um pequeno punhado de abelhas quando, poucas semanas antes, a recordavam bem povoada. Em muitos casos a explicação fica por aí: as abelhas desertaram, abandonaram a colmeia, foram-se embora. A possibilidade de a colónia ter colapsado, nomeadamente por níveis elevados de infestação por Varroa, nem sequer é considerada.

Noutros relatos a Varroa é mencionada, mas de uma forma diferente: a infestação teria sido tão elevada que levou as abelhas a abandonar a colmeia. Temos assim duas explicações aparentemente diferentes para a mesma caixa vazia — numa, a Varroa nem entra na história; na outra, entra como causa da deserção. Vale a pena perceber se aquilo que estamos a observar é realmente uma deserção.

Colmeia sem abelhas (autor desconhecido)

A deserção, ou absconding, é um comportamento bem definido. Toda ou praticamente toda a colónia, incluindo a rainha, abandona definitivamente o local onde estava instalada e procura outro lugar para nidificar. É diferente da enxameação: nesta sai uma parte das abelhas com a rainha, mas fica para trás uma colónia funcional; na deserção, a casa é abandonada.

Já escrevi algumas vezes sobre esta questão no Abelhas à Beira. Em 2019, na publicação «Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem?» [5], deixei uma observação resultante daquilo que tinha visto ao longo dos anos nas centenas de colónias que então acompanhava nos meus apiários: colónias muito infestadas iam perdendo gradualmente as suas abelhas, mas «um abandono súbito e massivo de abelhas por causa da infestação da varroa nunca me apercebi dele».

Voltei ao assunto em 2021, em «Porque se foram embora as abelhas da colmeia» [6]. Uma colónia que perde diariamente muitas centenas ou mesmo milhares de abelhas e não consegue repô-las ao mesmo ritmo pode passar, num intervalo relativamente curto entre duas visitas do apicultor, de aparentemente populosa para quase vazia. Para quem não acompanhou o processo, é fácil transformar esse desaparecimento numa partida: «as abelhas foram-se embora».

A verdadeira deserção existe nas abelhas melíferas, mas a sua frequência varia bastante entre subespécies. É muito mais comum em várias subespécies africanas e nas abelhas africanizadas das regiões neotropicais, onde pode ocorrer em resposta à seca, à falta prolongada de recursos ou a perturbações importantes do ninho. Nas subespécies europeias é bastante menos habitual. Para Apis mellifera iberiensis não encontrei evidência que permita considerar este comportamento frequente ou característico.

Uma observação antiga e uma peça nova

Quando escrevi aquelas publicações, a explicação que me parecia mais consistente com aquilo que observava era relativamente simples: as abelhas das colónias fortemente infestadas não levantavam voo em massa para procurar outra casa. Iam desaparecendo. Morte natural, doença, alguma deriva e, sobretudo, uma renovação das gerações que deixava de compensar as perdas podiam transformar, num intervalo relativamente curto, uma colónia populosa numa caixa quase vazia.

Esta dificuldade de renovação da população já foi por mim referida em diversas publicações no Abelhas à Beira [7,8]. Quando a infestação atinge níveis elevados, uma parte das abelhas parasitadas durante o desenvolvimento nem sequer chega em condições de integrar a geração adulta. Algumas morrem ainda como pupas ou quando estão prestes a emergir; outras chegam a nascer, mas apresentam sinais que o apicultor reconhece facilmente: asas deformadas, abdómen atrofiado, menor tamanho e, por vezes, dificuldade em caminhar [2–4]. Tenho observado estes sinais sobretudo em colónias com infestações já muito elevadas — frequentemente na ordem dos 8–10% ou superiores nas abelhas adultas— embora não exista aqui um limiar fixo e a virulência dos vírus associados à Varroa possa fazer aparecer sintomas visíveis com infestações inferiores [2–4].

Em 2021 escrevi: “Alguns números podem elucidar o fenómeno do “desaparecimento súbito” de abelhas. Nesta altura do ano, entre julho e setembro, morrem de velhice cerca de 1000-2000 abelhas/dia. Em dez dias, morrem entre 10 000 e 20 000 abelhas por colónia. Se as novas gerações de abelhas não chegam a emergir dos alvéolos ou estão seriamente comprometidas e sobrevivem poucos dias, não é surpreendente que um apicultor encontre uma colónia vazia duas a três semanas depois da última visita. Quando a natural renovação de gerações não se dá, uma colmeia a bordejar de abelhas na visita realizada 3 semanas antes surge-nos agora “subitamente” vazia.” [6]

Em 2016, por exemplo, descrevi no blogue colónias onde encontrava «abelhas com asas deformadas e abdómens atrofiados» e abelhas prestes a nascer já mortas [8]. Mais tarde voltei várias vezes ao problema da multi-infestação da criação e à redução da longevidade das futuras abelhas [7]. O resultado populacional é fácil de compreender: enquanto morrem diariamente as abelhas adultas mais velhas, uma parte das que deveriam substituí-las morre antes de nascer ou entra na população adulta já profundamente comprometida [2–4]. A renovação deixa de compensar as perdas e a população começa a afundar-se.

Quadro com poucas abelhas, borboleta da traça e com reservas de mel (autor desconhecido)

Foi precisamente por isso que achei particularmente interessante um estudo publicado em 2024 [1]. Ellis e Rangel foram procurar um efeito muito menos visível. Para os ensaios com Varroa utilizaram criação proveniente de colónias com 4% ou mais de infestação nas abelhas adultas e, depois da emergência, verificaram individualmente quais as abelhas que tinham sido efectivamente parasitadas durante o desenvolvimento. Mas fizeram algo especialmente importante para aquilo que aqui nos interessa: excluíram do ensaio as abelhas que apresentavam deformações visíveis [1].

Ou seja, já não estamos a falar das abelhas com asas deformadas, abdómen atrofiado ou outras manifestações que nos fazem perceber imediatamente que alguma coisa está muito mal. Estamos a falar de abelhas que, à observação exterior, parecem normais, provenientes de colónias que podiam apresentar níveis de infestação a partir dos 4%, portanto bastante abaixo daqueles em que, pela minha experiência de campo, começo habitualmente a encontrar em quantidade sintomas exteriores evidentes de varroose.

Os investigadores acompanharam 738 abelhas que tinham sido parasitadas durante o desenvolvimento e 749 abelhas não parasitadas, marcando-as individualmente antes de as introduzirem em colmeias de observação [1].

E algumas das abelhas parasitadas começaram a fazer uma coisa estranha. Com apenas alguns dias de idade, caminhavam até à saída da colmeia e saíam. Eram demasiado jovens para voar. Caíam da plataforma de voo e, no exterior, permaneciam praticamente imóveis ou continuavam a caminhar, acabando por morrer. A idade média destas abelhas era de apenas 4,66 dias [1].

Não parecia tratar-se de expulsão pelas outras abelhas. Os investigadores não observaram as companheiras a arrastá-las para fora e a taxa inicial de aceitação das abelhas parasitadas foi semelhante à das não parasitadas. Mais curioso ainda: quando algumas das abelhas que tinham saído eram recolocadas dentro da colmeia, voltavam a sair [1].

A parasitação por Varroa aumentou significativamente a ocorrência deste comportamento. Mas os investigadores verificaram também que ele não era exclusivo da Varroa: abelhas submetidas durante o desenvolvimento a stress térmico, tanto por frio como por calor, apresentaram igualmente mais saídas prematuras [1].

Quando analisaram as glândulas hipofaríngeas, encontraram talvez uma das pistas mais interessantes do estudo. Estas glândulas estão particularmente desenvolvidas nas abelhas jovens que desempenham funções de nutrizes e vão diminuindo à medida que a abelha envelhece e progride para outras tarefas. Nas abelhas jovens que saíam prematuramente da colmeia estavam muito menos desenvolvidas do que nas abelhas normais da mesma idade e, neste parâmetro, aproximavam-se das encontradas em abelhas com idade de campeira [1].

Os autores colocam por isso a hipótese de estarmos perante uma aceleração anormal do polietismo etário [1]. Uma abelha com apenas quatro ou cinco dias, que deveria estar ainda a desempenhar tarefas no interior da colmeia, apresenta já alguns sinais fisiológicos associados a uma fase muito mais avançada da sua vida. É como se o stress sofrido durante o desenvolvimento, incluindo a parasitação por Varroa, estivesse a fazê-la envelhecer funcionalmente depressa demais. O programa comportamental que normalmente a levaria mais tarde para o exterior parece antecipar-se, quando a abelha ainda nem sequer está fisicamente preparada para voar e desempenhar as funções de uma campeira.

Esta é a peça nova que podemos hoje acrescentar àquilo que eu observava nos meus apiários e escrevi em 2019 e 2021 [5,6]. As abelhas de uma colónia fortemente infestada podem ir desaparecendo uma a uma. Sabemos agora que algumas abelhas parasitadas durante o desenvolvimento podem começar esse desaparecimento muito cedo: com quatro ou cinco dias saem pelo alvado, sem sequer conseguirem voar, afastam-se a pé e acabam por morrer no exterior [1].

E há um pormenor que ajuda a compreender porque podemos não encontrar diante da colmeia a quantidade de abelhas mortas que esperaríamos. Depois de saírem e caírem da plataforma de voo, algumas destas abelhas continuavam a caminhar para longe da colmeia antes de morrer [1]. Aos olhos do apicultor, simplesmente desapareceram.

Passados alguns dias ou semanas, o apicultor volta ao apiário e abre a colmeia. Onde havia muitas abelhas encontra agora muito poucas. Também não vê no fundo da caixa ou diante do alvado os milhares de cadáveres que poderiam explicar essa redução.

Parece que as abelhas se foram embora.

Talvez muitas delas tenham realmente saído pela porta.

Mas uma coisa é as abelhas irem desaparecendo da colmeia, outra é a colónia desertar.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Ellis, J. T.; Rangel, J. (2024). Stress drives premature hive exiting behavior that leads to death in young honey bee (Apis mellifera) workers. Biological Research, 57, 92.

[2] Rosenkranz, P.; Aumeier, P.; Ziegelmann, B. (2010). Biology and control of Varroa destructor. Journal of Invertebrate Pathology, 103, S96–S119.

[3] Traynor, K. S.; Mondet, F.; de Miranda, J. R.; Techer, M.; Kowallik, V.; Oddie, M. A. Y.; Chantawannakul, P.; McAfee, A. (2020). Varroa destructor: A Complex Parasite, Crippling Honey Bees Worldwide. Trends in Parasitology, 36, 592–606.

[4] Noël, A.; Le Conte, Y.; Mondet, F. (2020). Varroa destructor: how does it harm Apis mellifera honey bees and what can be done about it? Emerging Topics in Life Sciences, 4, 45–57.

Referências — Abelhas à Beira

[5] Bombas de ácaros ou engodos para pilhagem? Os papéis da deriva e pilhagem na transmissão de ácaros Varroa de colónias de abelhas a colapsar para colónias vizinhas (2019). Ler

[6] Porque se foram embora as abelhas da colmeia (2021). Ler

[7] O fenómeno da multi-infestação: alguns dados que nos ajudam a compreender a tempestade perfeita (2021). Ler

[8] Abelhas na Beira à saída do outono 2016 (2016). Ler

[9] Foi a varroa que matou a colmeia? Ler

[10] Morte de uma colónia de abelhas por varroa: foto-filme. Ler

abelharucos: não são apenas as abelhas que eles comem

Nos grupos apícolas das redes sociais espanholas e portuguesas são frequentes, sobretudo durante o verão, as publicações de apicultores que mostram bandos de abelharucos junto dos apiários e lhes atribuem efeitos importantes sobre as suas colónias.

Relato e pergunta de um apicultor português (retirado do Facebook)

Durante bastante tempo, uma das formas mais intuitivas de avaliar este problema passou por responder a uma pergunta aparentemente simples: quantas abelhas come um abelharuco? Se estamos perante um predador e queremos conhecer o prejuízo que provoca, contamos as presas que elimina e comparamos esse número com a população disponível. O problema é que, no caso de uma colónia de abelhas, esta poderá não ser a melhor unidade de medida.

Há números razoavelmente bons para estimar a mortalidade direta. Num estudo realizado no sudeste de Espanha, Farinós-Celdrán e colaboradores estimaram um consumo médio de cerca de 1.333 ± 760 abelhas melíferas por abelharuco durante a sua permanência na região.[1] Na Sardenha, Galeotti e Inglisa estimaram que a predação correspondia, em média, a cerca de 0,37% das forrageadoras disponíveis, embora representasse aproximadamente 6,1% da mortalidade diária destas abelhas.[2]

Vistos desta forma, os números não parecem particularmente alarmantes. Uma colónia forte, com dezenas de milhares de abelhas e capacidade para produzir continuamente novas operárias, poderá compensar a perda de algumas centenas ou mesmo de alguns milhares de forrageadoras distribuídas por várias semanas.

Mas talvez seja precisamente aqui que começamos a medir mal o problema.

Não são apenas as abelhas que o abelharuco come

Uma colónia depende diariamente de milhares de viagens entre a colmeia e o exterior. Enquanto umas abelhas saem, outras regressam com néctar, pólen, água ou resinas. Retirar algumas centenas de abelhas a uma população de dezenas de milhares pode parecer pouco; alterar durante horas o comportamento de milhares delas é outra coisa.

Nos últimos anos começaram a surgir trabalhos que olharam para o problema precisamente deste outro lado. Em vez de perguntarem apenas quantas abelhas eram capturadas, procuraram perceber o que acontecia à atividade das restantes quando os predadores estavam presentes.

Um dos estudos mais interessantes foi realizado na Extremadura e acompanhou 58 apiários. Foram registados mais de 3 milhões de movimentos de entrada e saída de abelhas. Quanto maior era a presença dos abelharucos junto dos apiários, menor tendia a ser a atividade das abelhas; e nos apiários sujeitos a maior pressão foram também observadas menores quantidades de abelhas, criação, mel e pólen. O efeito tornou-se particularmente evidente durante agosto.[3]

Alguns anos depois, um trabalho realizado na região de Lleida aprofundou este ponto. Os investigadores relacionaram a atividade dos abelharucos com contadores que registavam o movimento das abelhas nas colmeias. A conclusão principal foi clara: quando aumentava a pressão dos abelharucos, diminuía o movimento das abelhas, mas essa resposta variava bastante ao longo do dia.[4]

Momento do diaPresença/atividade dos abelharucosResposta das abelhas à presença dos abelharucosLeitura simples
09h15ElevadaForte redução do vooUma das fases mais sensíveis: muita pressão e forte resposta das abelhas
11h15Já inferior à das 09hEfeito por unidade de pressão ainda muito forteMesmo com menos abelharucos, o forrageio continua bastante condicionado
13h15MínimaO efeito ainda existeMenor pressão global e uma janela relativamente mais favorável ao voo
15h15Relativamente baixaEfeito menorA atividade das abelhas parece menos condicionada
17h15Volta a aumentarMuito menor efeito sobre o vooHá novamente mais abelharucos, mas as abelhas mantêm melhor a atividade
19h15ElevadaA relação com a redução do voo torna-se muito fracaAo fim do dia, a tendência para intensificar o forrageio parece sobrepor-se parcialmente ao risco

Este quadro resulta de 1.526 registos horários e mostra algo que me parece importante: não basta contar quantos abelharucos estão presentes num apiário. A mesma pressão de predadores não produz necessariamente a mesma redução do forrageio às dez da manhã e ao fim da tarde.[4]

Em vez das abelhas comidas, contar o forrageio perdido

Podemos então fazer uma pergunta diferente. Em lugar de procurarmos apenas saber quantas abelhas come um abelharuco, talvez devamos tentar conhecer quanto forrageio deixa uma colónia de fazer devido à sua presença.

Uma abelha capturada desaparece. Uma abelha que, perante a pressão do predador, não sai da colmeia continua viva, mas durante esse período também não recolhe néctar, pólen ou água. Quando essa alteração envolve muitas abelhas, várias horas por dia e se repete durante dias ou semanas, o número de indivíduos efetivamente capturados deixa de descrever uma parte importante do impacto.

Podemos traduzir este fenómeno, apenas para facilitar a compreensão, em horas equivalentes de forrageio perdidas.

Imaginemos que a pressão dos abelharucos é importante durante quatro horas de um determinado dia:

Redução média do forrageio durante essas 4 horasForrageio equivalente perdido por diaEm 20 dias
25%1 hora20 horas
50%2 horas40 horas
75%3 horas60 horas

Estes valores são apenas uma forma de visualizar o efeito acumulado. Se durante vinte dias uma colónia perder diariamente o equivalente a duas horas de forrageio, serão quarenta horas durante as quais uma parte importante do trabalho que poderia ter sido realizado no exterior não aconteceu.

O estudo da Extremadura dá-nos uma ideia da escala envolvida. Os contadores registaram, em média, valores próximos de 4.000 movimentos de entrada e saída por hora.[3] Se imaginarmos uma redução de 50% durante quatro horas, teremos cerca de 8.000 movimentos a menos num dia e, repetida a situação durante vinte dias, aproximadamente 160.000 movimentos que não ocorreram.

É esta ordem de grandeza que me parece particularmente interessante. Enquanto contamos as centenas ou poucos milhares de abelhas efetivamente capturadas, a alteração comportamental pode afetar dezenas ou centenas de milhares de movimentos.

Este efeito faz lembrar muito aquilo que já conhecemos da pressão exercida pela Vespa velutina. Também neste caso, o prejuízo para a colónia não resulta apenas das abelhas capturadas à frente da colmeia, mas da chamada paralisia do forrageio: perante uma pressão predatória suficientemente elevada, as abelhas reduzem fortemente as saídas, entra menos pólen e essa redução acaba por se refletir na criação e no desenvolvimento da colónia.[6] O próprio artigo sobre os abelharucos chama a atenção para esta semelhança. Predadores muito diferentes podem, portanto, produzir uma resposta semelhante nas abelhas: para além das forrageadoras que capturam, condicionam o trabalho de muitas outras que permanecem dentro da colmeia ou reduzem as suas saídas. [7]

Talvez seja por aqui que se explique pelo menos parte da distância entre alguns trabalhos que estimaram um efeito relativamente reduzido dos abelharucos e aquilo que certos apicultores descrevem no terreno. Uma coisa é a capacidade da colónia para substituir as abelhas mortas; outra é substituir trabalho que simplesmente não foi realizado.

Do forrageio perdido ao mel, ao pólen e à criação

Ainda não conseguimos converter diretamente determinada redução do voo em determinado número de quilos de mel ou em determinada área de criação. Mas os estudos disponíveis mostram que os dois fenómenos caminham no mesmo sentido.

Na Extremadura, maior presença de abelharucos coincidiu com menor atividade das abelhas e também com menores quantidades de mel, pólen, criação e abelhas adultas, sobretudo durante agosto.[3]

E numa situação muito mais intensa, observada em Israel durante a passagem de grandes bandos migratórios, foram comparadas colmeias protegidas da pressão das aves com colmeias não protegidas. As primeiras aumentaram de peso, em média, 26,4 kg, enquanto as não protegidas aumentaram apenas 4,1 kg: uma diferença de 6,44 vezes.[5] O aumento de peso refletia sobretudo a acumulação de mel.

Não transportaria diretamente estes valores para Portugal ou Espanha, porque se tratava de uma pressão migratória muito forte. Mas o resultado mostra até onde o efeito pode chegar quando a redução do forrageio se torna intensa e persistente.

Agosto merece atenção especial

Nos trabalhos espanhóis, agosto aparece repetidamente como um período importante. Depois da reprodução, os abelharucos começam a concentrar-se e a deslocar-se antes da migração. Na Extremadura foi também durante agosto que a relação entre abundância de abelharucos e menores recursos nas colónias se tornou mais evidente.[3]

Este calendário não é indiferente para uma colónia. Em muitas regiões da Península Ibérica, agosto coincide com temperaturas elevadas e menor disponibilidade floral, numa altura em que interessa manter entrada de pólen, conservar uma boa área de criação e preparar a população das semanas seguintes.

Não é necessário assumir que uma abelha comida em agosto vale mais do que uma abelha comida em maio. Basta admitir que uma redução importante do forrageio pode ocorrer numa altura em que a margem da colónia para compensar essa redução já é menor.

Talvez tenhamos estado a medir a parte mais fácil

Não pretendo concluir que os abelharucos sejam responsáveis por todos os efeitos que lhes são atribuídos pelos apicultores. Há situações em que a sua presença será pequena e o efeito também o será; e há apiários em que alimentação, calor, seca, varroose ou a própria evolução sazonal das colónias terão muito mais peso.

Também não devemos deixar de contabilizar as abelhas capturadas. São uma perda real. Mas os trabalhos dos últimos anos sugerem que o número de abelhas comidas é uma medida incompleta do impacto dos abelharucos sobre um apiário. Uma colónia pode substituir parte das operárias que desaparecem; não recupera da mesma forma o néctar, o pólen e a água que não entraram durante horas de atividade reduzida.

Talvez, portanto, a pergunta mais útil deixe de ser apenas «quantas abelhas come um abelharuco?» e passe também a ser «quantas horas de forrageio perde a colónia enquanto os abelharucos estão presentes?».

Porque talvez tenhamos passado demasiados anos a contar as abelhas que o abelharuco come e poucos a contar as que, por causa dele, deixam de sair.

Referências

[1] Farinós-Celdrán, P.; Zapata, V. M.; Martínez-López, V.; Robledano, F. (2016). Consumption of honey bees by Merops apiaster Linnaeus, 1758 (Aves: Meropidae) in Mediterranean semiarid landscapes: a threat to beekeeping? Journal of Apicultural Research, 55(2), 193–201. DOI: 10.1080/00218839.2016.1195630.

[2] Galeotti, P.; Inglisa, M. (2001). Estimating predation impact on honey bees Apis mellifera L. by European bee-eater Merops apiaster L. Revue d’Écologie (La Terre et la Vie), 56(4), 373–388. DOI: 10.3406/revec.2001.2373.

[3] Moreno-Opo, R.; Núñez, J. C.; Pina, M. (2018). European bee-eaters (Merops apiaster) and apiculture: understanding their interactions and the usefulness of nonlethal techniques to prevent damage at apiaries. European Journal of Wildlife Research, 64, 55. DOI: 10.1007/s10344-018-1215-9.

[4] Bota, G.; Traba, J.; Sardà-Palomera, F.; Giralt, D.; Pérez-Granados, C. (2022). Passive acoustic monitoring for estimating human-wildlife conflicts: The case of bee-eaters and apiculture. Ecological Indicators, 142, 109158. DOI: 10.1016/j.ecolind.2022.109158.

[5] Łangowska, A.; Yosef, R.; Skórka, P.; Tryjanowski, P. (2018). Mist-Netting of Migrating Bee-Eaters Positively Influences Honey Bee Colony Performance. Journal of Apicultural Science, 62(1), 67–78. DOI: 10.2478/jas-2018-0008.

[6] Gomes, J. E. Eficácia de harpas elétricas na redução da pressão de predação de Vespa velutina e consequências para o desenvolvimento de colónias de abelhas. Abelhas à Beira. Ler

[7] Gomes, J. E. Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle? Abelhas à Beira, 2026. Ler