como as abelhas atrasam/impedem a emergência das rainhas

Ainda acerca deste caso, com um pouco de tempo disponível decidi fazer alguma investigação. Neste artigo “Absence of nepotism toward imprisoned young queens during swarming in the honey bee” encontrei uma parte da resposta. Não relativamente às razões mas relativamente aos mecanismos/comportamentos utilizados pelas abelhas para atrasarem/aprisionarem as rainhas virgens nos seus casulos para lá dos habituais 16 dias de maturação desde o ovo até ao estádio de insecto adulto. Deixo em baixo a tradução de um pequeno excerto deste artigo que me parece elucidativo.

Todos os estudos sobre a influência das operárias na seleção de novas rainhas focaram-se nas interações entre operárias e rainhas imaturas (Châline et al., 2003; Noonan, 1986; Page et al., 1989; Schneider e DeGrandi-Hoffman, 2002; Visscher , 1998) ou entre operárias e rainhas adultas que já saíram de suas realeiras (Gilley, 2001, 2003; Tarpy e Fletcher, 1998). No entanto, algumas rainhas adultas permanecem nos seus casulos de rainhas por mais tempo, até uma semana após os 16 dias da sua maturação (Bruinsma et al., 1981; Fletcher, 1978; Grooters, 1987) antes de emergirem. Durante este tempo, as operárias agrupam-se em cada realeira aprisionando a rainha adulta e alimentam-na através de fendas na ponta do casulo (Figura 1c), que são vedadas novamente. As abelhas vibram sobre os casulos da rainha e impedem que as rainhas saiam reparando as aberturas nas realeiras. As operárias às vezes até pressionam a cabeça contra a ponta da realeira para evitar que a rainha saia enquanto outras operárias a fecham (Fletcher, 1978). Elas também protegem as rainhas impedindo agressivamente o acesso às rainhas que já emergiram (Gilley, 2001).”

Fotografias da configuração experimental e dos comportamentos das operárias em relação a rainhas adultas confinadas em suas realeiras. (a) Montagem experimental com a tampa modificada na caixa de criação principal da colónia à qual está anexada a caixa de observação de três quadros modificada com as realeiras acessíveis através de uma abertura. (b) Realeiras com rainhas presas às barras de madeira na caixa de observação prontas para serem instaladas na colónia de teste. (c) Operária alimentando uma rainha através de uma abertura na realeira. A língua da rainha é visível. (d) Cela da rainha equipada com o aparato de estrela para evitar a saída da rainha. O pedaço de acetato é visível no final da seta. As aberturas feitas pela rainha confinada tentando emergir podem ser vistas, e a operária à direita está no processo de fechá-las.

Nota: há mais de um século Doolittle afirmava coisas muito próximas (ver aqui). É admirável a sua competência observacional.

por que razão as abelhas atrasam/impedem a emergência das rainhas?

É da natureza das rainhas emergirem do seu casulo 16 dias, mais doze horas para trás mais doze horas para a frente, após a data da postura do ovo que lhes deu origem. É consensual. Para a maioria dos casos assim será, acredito eu!

Mas será assim em todos os casos? Da minha observação não. Ver aqui um caso em que não foi assim. Hoje apresento outro caso mais que se passou no mesmo apiário e noutra colónia também orfanada a dia 2 de abril.

No passado dia 24 de abril deparei-me com um novo caso ainda mais extremado e sublinhado. Numa colónia que orfanei como disse a 2 de abril, fiz a incisão com x-acto num mestreiro que vi ainda fechado e para minha grande surpresa saiu de lá não uma abelha — que às vezes as abelhas metem-se nos mestreiros depois da rainha ter emergido e fecham-nos novamente ficando no seu interior — mas uma rainha. Para mim este caso foi tão inesperado que me faltou o telemóvel à mão para tirar a respectiva foto deste acontecimento. Fica a foto do telhado onde vou registando os eventos que considero mais importantes.

Por que razão as abelhas atrasam/impedem a emergência de algumas rainhas? A explicação que encontro é que este comportamento permite salvaguardar melhor a colónia de uma orfandade irremediável com um plano B, caso o plano A não seja bem sucedido, isto é, têm uma ou outra rainha emergida mais tarde caso a(s) que tenha(m) emergido no tempo “regulamentar” não fecundem ou todas tenham partido com os enxames secundários. Do ponto de vista dos ganhos evolutivos para a espécie, resultante deste comportamento das abelhas atrasarem a emergência de algumas rainhas, de momento não encontro outra explicação.

Nunca tinha lido/ouvido da possibilidade de rainhas emergirem 22 dias após a postura do último ovo de onde poderiam ter tido origem. Os experientes amigos e companheiros de lides apícolas que informação têm sobre este tipo de casos? Que ganhos advêm para a colónia deste comportamento?

caldeira para derreter cera

Nestes dois dias anteriores, com chuva frequente e frio, optei por ficar por casa e iniciar uma tarefa que me provoca sentimentos mistos: derreter cera.

Foi altura de estrear a minha nova caldeira para derreter cera, adquirida o ano passado, que substitui uma outra com mais de 25 anos e por onde passaram alguns milhares de quilogramas de cera.

Uma caldeira para derreter cera é um investimento que, na minha opinião, tem um retorno rápido tendo alguma cera para derreter. Por exemplo, nestes dois dias derreti cerca de 60 kgs de opérculos. Com esta cera pronta a entregar na troca por cera laminada a poupança na aquisição da mesma quantidade de cera laminada é superior ao custo da caldeira.

Deixo em baixo algumas fotos que fui tirando.

Pronta a estrear.
Carregada… um pouco demais como me apercebi mais adiante (ainda estou a aprender os segredos desta máquina).
A gás… caro mas muito cómodo.
Fluindo…
… este oiro precioso.
Limpeza do bagaço da cera. Devia tê-lo feito mais amiúde ((ainda estou a aprender os segredos desta máquina).
Uma das placas/broas de cera obtidas.
A velhinha, com mais de 25 anos ao serviço cá em casa.

cura radical da enxameação: primeira observação dos resultados

Do conhecimento da técnica, ao ensaio da mesma e, hoje, à primeira observação dos resultados. A minha liberdade passa também por isto, adquirir o conhecimento que acredito necessitar, testá-lo e avaliar os seus impactos.

Nas duas colónias submetidas à cura radical da enxameação neste apiário num contexto com um forte fluxo das urgueiras roxas (Erica australis) as meias -alças colocadas há 19 dias atrás estão praticamente cheias. Nas restantes colónias não submetidas à técnica o cenário é semelhante. Do ponto de vista da produção a utilização desta técnica não teve um impacto negativo, a julgar pelo que consegui observar.

Estas duas colónias não enxamearam neste período de 19 dias, isto apesar de estarem claramente debaixo do impulso de enxameação desde há mais de 19 dias. A técnica aparentementente inibiu estas duas colónias de concretizarem o seu impulso de reprodução. Hoje marquei a rainha de uma destas duas colónias para melhor a controlar e seguir nas próximas inspecções.

Observei que entre quadros repletos de criação e sem qualquer mestreiro de enxameação…

… encontrei alguns quadros com mestreiros de enxameação.

Nestas duas colónias a intervenção realizada há 19 dias não foi suficiente para lhes eliminar a pulsão para enxamearem. Como o proponente da técnica refere a eventual necessidade de se aplicar a técnica uma segunda vez, para debelar de vez o impulso de enxameação, assim o fiz nestas duas colónias. Numa próxima inspecção irei estar atento a dois aspectos: (i) quantidade de armazenamento de mel nestas duas colónias quando comparado com colónias não submetidas à técnica; (ii) situação relativa ao impulso de enxameação: mantém-se ou evanesceu-se finalmente?

Entretanto, voltei a testar a eficácia do primeiro tratamento anual da varroose. Os resultados estão ilustrados na foto em baixo.

três casos, três caminhos

Caso 1: Hoje, finalmente tive disponibilidade para partir as patilhas das 19 gaiolas com rainhas virgens que introduzi no passado dia 20. Neste momento o meu maior cuidado e preocupação é verificar se existem mestreiros iniciados nestas colónias orfanadas. Na minha experiência tenho constatado que a presença e a não destruição destes mestreiros são um sério obstáculo à aceitação das rainhas virgens que irão sair das gaiolas nas próximas horas. Por esta razão procuro destruir todos estes mestreiros momentos antes de abrir as patilhas das gaiolas.

Mestreiro iniciado neste período de orfanação com larva a nadar em geleia real.

Caso 2: Na semana passada, dividi 3 colónias que se preparavam para enxamear. No momento desta divisão não encontrei a rainha numa destas colónias. Ainda assim dividi-a e introduzi rainha em gaiolas em ambas as colónias—filha. Hoje verifiquei que numa dessas divisões, onde acabou por ficar a rainha-mãe que afinal ainda não tinha enxameado, a rainha virgem e suas acompanhantes estavam todas muito mortas — isto com a gaiola ainda fechada.

Com a gaiola ainda fechada a rainha virgem e suas acompanhantes foram muito provavelmente picadas até à morte.

Caso 3: Quase como compensação, uma das colónia orfanada no passado dia 3, hoje cheias de abelhas e com várias virgens visíveis, foi dividida. Cada uma das divisões ficou com uma ou mais virgens e dividiram o local original.

Colónia orfanada no passado dia 3.
Avistadas pelo menos uma rainha virgem em cada quadro inserido nas caixas-núcleo, correndo tudo normalmente, serão mais duas colónias a juntar ao efectivo.
As duas divisões a partilharem o local da caixa-colmeia.
Uma das diversas virgens que me passaram à frente no dia de hoje.

o que faz a qualidade da rainha: o ponto de vista de Randy Oliver

Recentemente foi iniciada no fórum apícola Bee-L uma conversa sobre a qualidade das rainhas, quando um apicultor interveniente trouxe para a mesa os resultados obtidos por Tarpy, já apresentados neste blog em 2020 nesta publicação. Os resultados publicados por Tarpy estão sintetizados nestas duas afirmações: “Observámos que os padrões de criação de rainhas originárias de colónias com padrão de postura fraco melhoraram significativamente após a colocação em colónias com padrão de postura bom após 21 dias, sugerindo outros fatores que não a rainha contribuíram para a alteração do padrão de postura. Nosso estudo desafia a noção de que o padrão de postura é suficiente para julgar a qualidade da rainha.” Ontem, no Bee-L, Randy Oliver fez uma publicação que traduzo em baixo e que, como habitualmente, é uma excelente sinopse do seu pensamento acerca do que faz a qualidade das rainhas.

“Se você montar um apiário com vários núcleos idênticos, todos contendo
rainhas irmãs e, em seguida, acompanhar o desempenho destas colónias à medida que vão crescendo (ou não), você normalmente verá que alguns terão um desempenho melhor do que outros. Um histograma de seus desempenhos normalmente mostrará um curva “normal” em forma de sino. O quanto das diferenças no desempenho foi devido às suas rainhas, não sei.

Muitos de nós notamos que uma colónia atrasada pode repentinamente “virar” e sem mudar sua rainha tornar-se uma grande colónia. Então, obviamente, nem sempre podemos culpar a rainha.

Para colocar a importância da rainha em perspectiva, tenha em mente
que a rainha desempenha vários papéis na fábrica chamada colónia de abelhas.

Papel 1: Ela é a mãe da equipe de filhas descendentes de inúmeras linhas paternas que compõem a força de trabalho. Toda rainha, mesmo filha de mesma mãe, e acasalada no mesmo território, em virtude de sua genética individual, junta com a genética muito diversa de suas filhas por ter acasalado com diferentes zângãos [dados recentes apontam acasalamentos com até 50 zângãos], produz uma equipe de trabalhadores geneticamente variada. E tantos de nós observamos, dependendo da aleatoriedade com que os espermatozoides são misturados sua espermateca* e utilizados ao acaso na fertilização dos óvulos, a mesmo a colónia muito gentil pode de repente mudar para uma colónia hiper-defensiva. A lição a tirar — a genética da equipa das trabalhadoras não é uma “constante”, e a genética de suas filhas abelhas pode mudar subitamente (sem contar que uma parte substancial da força de trabalho de qualquer colónia num apiário lotado pode se feita de abelhas que derivam de outras colmeias).

Papel 2: Ela pode transmitir viriões** ou outros patógenos através de seus ovos. Mas ela também pode transmitir algum grau de herança imunitária transgeracional para seu filhos. Patógenos e morbidade causada por patógenos (doença) vêm e vão em qualquer colónia. O desempenho e a recuperação da colónia pode estar mais associado aos patógenos com os quais a colónia está lutando atualmente, e pouco a haver diretamente com a rainha.

Papel 3: Ela é o coração e a alma feromonal de uma colónia, suprimindo o
desenvolvimento dos ovários de suas filhas, e produzindo uma série de feromonas que são tomados como sinais pela força de trabalho. Suas feromonas afetam a coesão e o moral da colónia, o que pode influenciar o desempenho geral.

Papel 4: Mais importante ainda, a rainha funciona como o ovário da colónia.
Ela atua como a máquina de produção de ovos para a fábrica que chamamos de
“colónia.” E isso não é necessariamente uma função de sua aparência, de como ela “parece” – muitos de nós observamos que uma colónia surpreendente pode ser liderada por uma rainha de aparência esquelética, ou uma colónia fraca pode ser liderada por uma rainha digna de aparecer na capa de uma revista de abelhas.

Meu ponto é que são as abelhas-ama que condicionam o desempenho da rainha. Sua capacidade de colocar todo o seu potencial depende quão bem as abelhas -ama a alimentam hora a hora (já que uma rainha em plena produção — postura de 1-2 ovos por minuto, 24 horas por dia — pode colocar o equivalente ao seu peso corporal em ovos num dia). Sabendo que o estado nutricional das amas é totalmente dependente da quantidade e qualidade do pólen e néctar que chegam, que por sua vez é um função do sucesso das operárias forrageiras, o “campo” é um determinante crítico a considerar na avaliação de uma rainha.

Uma rainha bem desenvolvida tem o potencial de preencher cerca de 10 quadros com criação, mas raramente vemos uma colónia ter suficientes alvéolos vazios para ela fazer isso, ou em que as amas decidem permitir que ela ponha ovos em todos os quadros do ninho, e não canibalizem ovos ou larvas quando percebem que as pistas ambientais são desfavoráveis .

A substituição ou não de uma rainha avaliada com baixo desempenho depende do apicultor. Substituo rainhas mais velhas antes de serem substituídas quando não há zângãos por perto, ou aquelas cujas colónias não estão à altura. Se, por outro lado, as abelhas sentem que ela não está à altura do trabalho, elas a substituirão rapidamente. Eu não removo as células substituição e deixo para suas filhas decidir o que querem.”

Por estas e por outras gosto tanto do que o Randy escreve. Vemos e interpretamos de forma semelhante o que se passa com as nossa abelhas. Sem marketing falacioso, sem romantismo desajustado, sem antropomorfismo enviesante, sem simplismo simplório e empobrecedor. Enquanto assim for, e acredito que seja, continuarei a ser um dos seus aprendizes.

Em baixo repito as fotos e o que escrevi em junho de 2020.

Núcleo que em 24.03 não apresentava postura e que em 02.04 classifico a rainha como fraca de acordo com o padrão de postura que observo. Nestas situações costumo dar mais 15 a 20 dias para ver se o padrão de postura da rainha evolui e me faz alterar a ideia que se trata de uma rainha a eliminar. E muitas das vezes altero! Este foi mais um desses casos.
De lá para cá este núcleo já doou vários quadros com criação e hoje voltou a fazê-lo, este quadro que vemos na foto. O que provocou a reviravolta na qualidade da postura? Há muito me convenci que são as abelhas, isto é, a qualidade e a quantidade de abelhas que compõem a colónia, que fazem, na grande maioria dos casos que observo nos meus apiários, a qualidade das rainhas.

* logo após o acasalamento os espermatozoides são armazenados em lotes de acordo com a sequência dos acasalamentos ocorridos, isto é, o primeiro lote de espermatozoides é do primeiro zângão com qua a rainha acasalou, o segundo lote é do segundo zângão, o terceiro lote é do terceiro zângão, … E assim ficam armazenados, em lotes, durante algumas semanas. Passadas essas semanas os epermatozoides dos diversos lotes são misturados de forma aleatória na espermateca. Por exemplo, em 1000 ovos colocados uns a seguir aos outros pela rainha durante um dia, as abelhas que daí emergirão provavelmente terão pais diferentes. No caso do translarve como facilmente se depreende, as larvas transferidas pelo apicultor, mesmo as escolhidas no mesmo quadro, têm uma forte probabilidade de serem geneticamente bastante diferentes entre si.

** partícula viral completa, ou seja, infecciosa.

a introdução de rainhas de translarve: alguns detalhes

Na minha apicultura não recorro apenas a rainhas de emergência, muito longe disso. Utilizo variadas vezes rainhas criadas por translarve para iniciar novas colónias. Por exemplo, o ano passado utilizei 146 rainhas criadas por translarve.

Gosto da minha apicultura assim, uma apicultura com diversas opções no cinturão, opções que procuro utilizar de forma selectiva e pertinente de acordo com as condições de partida, condições estas determinadas sobremaneira pela imbrincagem entre a evolução mais lenta ou mais rápida das colónias, a maior ou menor disponibilidade para acompanhar de perto essa evolução, os equipamentos que tenho ou não disponíveis para fazer esse acompanhamento, e tudo isto temperado e envolto pela meteorologia que ora ajuda ora é um empecilho.

Conhecer os limites e utilizar as virtudes existentes tanto numa como noutra opção, rainhas de emergência ou rainhas de translarve, qualifica-me na minha profissão. Esta publicação aborda alguns detalhes em torno dos procedimentos a que dou preferência quando introduzo rainhas virgens.

Como referi nesta publicação, anteontem, a 19 de abril, preparei 5 colónias, confinando a rainha no ninho, deixando-as preparadas para serem desdobradas pela técnica Doolittle. Ontem entro no apiário com 10 rainhas virgens nos bolsos e 1o caixas-núcleo e pus mãos à obra. Deixo o foto-filme.

Comecei por colocar 2 núcleos junto de cada uma das cinco colónias a serem desdobradas.
Fui abrindo estas colónias para retirar estes quadros para os núcleos.
Fui retirando um ou dois quadros desta colónia, dois de outra, e um ou dois de outra ainda, até encher os núcleos com 5 quadros com abelhas provenientes de pelo menos três colónias distintas.
Depois de todos os 10 núcleos estarem preenchidos e no local, foi altura de os deixar repousar e ir ver as minhas pobres rainhas de emergência. E passados cerca de 10-15 minutos foi altura de iniciar a introdução destas ricas rainhas de translarve.
Estas rainhas vão ficar confinadas à gaiola cerca de 2 a 3 dias, a libertarem as suas sedutoras feromonas reais, para que as abelhas que lhe couberam em sorte as aceitem mais facilmente quando finalmente forem libertadas da sua gaiola.
Os núcleos foram estrategicamente colocados nas extremidade dos assentos e com o alvado virado no sentido contrário ao das colónias de produção, que ainda lá não estavam porque só hoje as coloquei no espaço entre os núcleos. Com estes cuidados pretendo diminuir o mais possível a deriva das rainhas no regresso do(s) seu(s) voo(s) de fecundação.

Para estas 10 rainhas foi assim. Para as outras 9 que introduzi ontem segui outro percurso, porque as condições de partida foram diferentes.

Ontem, as colónias doadoras submetidas à técnica ficaram com o sobreninho vazio.

Aspecto de um sobreninho ontem no final da generosa doação.

Hoje, entre várias outras tarefas, voltei a estas colónias para lhes terminar este vazio.

Todos estes sobreninhos foram fornecidos de quadros com cera clara puxada. A excluidora mantém-se para evitar o desastre que seria deixar as rainhas subirem ao sobreninho, aí assentarem acampamento, abandonarem o ninho às abelhas, que depressa o encheriam de pão de abelha em quantidades absurdas.

Hoje, a terminar o dia, foi altura de dizer adeus a várias colónias, que foram apanhar os ares de Lamego.

Uma das colónias que ganhou um novo dono.

pobres rainhas de emergência: à frente dos meus olhos

Quem me lê assiduamente já conhece a minha posição sobre as rainhas de emergência: criadas num ambiente com muitas abelhas e boas fontes de nutrição nada ficam a dever a rainhas de translarve.

Hoje decidi fotografar alguns detalhes numa das minhas colónias que ilustram alguns aspectos do processo de criação de rainhas de emergência, e que aparentam refutar a tese de que as rainhas de emergência são de qualidade inferior porque provêem de larvas demasiado velhas e deficientemente nutridas. A linha do tempo dos acontecimentos descrevo-a agora e as fotos ilustram os aspectos que me importa realçar.

No passado dia 2 de abril decidi orfanar algumas colónias como descrevi aqui.

Ontem, numa destas colónias vi duas rainhas virgens em vigorosas correrias sobre os quadros. Desde o dia da sua orfanação e até ao dia de ontem esta colónia não tinha sido inspeccionada. E até ao dia de hoje não foi sujeita a qualquer tipo de maneio. É inquestionável que o último ovo fertilizado foi posto no dia 2 de abril. E hoje, para satisfazer uma curiosidade, voltei a abrir esta colónia. A razão esteve no facto de ontem ter visto 4 mestreiros fechados. Como sabemos a literatura é consensual acerca do período de tempo médio que medeia desde o primeiro dia do ovo e a emergência da rainha: 16 dias.

Como já haviam passado 19 dias desde que o último ovo foi posto fiz questão de, com ajuda de um x-acto, abrir cuidadosamente os 4 mestreiros para verificar o seu conteúdo à frente dos meus olhos. Um deles estava vazio, num outro estava uma rainha atrofiada e morta. Nos outros dois, depois da pequena incisão que fiz na ponta dos mestreiros, emergiram duas rainhas vigorosas e com muito bom aspecto.

Um dos dois mestreiros do qual ajudei a emergir uma rainha viva e com muito bom aspecto. Este mestreiro foi criado numa condição de emergência.
Fiz uma pequena incisão para confirmar a presença de uma rainha viva. Entre a incisão, pegar no telemóvel e tirar a foto já a rainha andava em correria pela quadro…
… e focá-la melhor foi impossível.
O segundo mestreiro de onde ajudei a emergir uma rainha viva e com muito bom aspecto. Neste consegui fotografar a rainha prestes a sair do mestreiro. Também este mestreiro foi criado numa condição de emergência.

Com esta publicação reconfirmo o seguinte:

  • uma vez mais a primeira rainha a nascer não eliminou as irmãs ainda nos mestreiros — lembro que ontem vi duas rainhas virgens nesta mesma colónia (ver aqui);
  • aparentemente alguns mestreiros são defendidos e protegidos pelas abelhas das investidas das rainhas já emergidas;
  • as rainhas criadas numa condição de emergência não são necessariamente criadas a partir de larvas demasiado velhas — ver estudo aqui;
  • neste caso, que descrevi e ilustrei, o mais provável é que estas duas rainhas tenham tido origem em larvas que à data da orfanação ainda eram ovos;
  • sendo assim, acredito que desde o primeiro minuto estas larvas tiverem acesso à melhor alimentação que as abelhas podem dar a uma futura rainha;
  • aparentemente a emergência das rainhas não é um processo automático e independente da vontade e acção das abelhas;
  • parece que abelhas conseguem atrasar a emergência de rainhas por horas ou até por dias.
Isto tudo com as moitas de rosmaninho com as suas habituais inflorescências nesta época do ano.

dos 900m aos 600m: a mescla de técnicas para atingir objectivos vários

Ontem, após 150 km feitos e 100 € deixados na bomba de combustível, entrei no apiário a 900 m de altitude com três objectivos principais: (i) identificar colónias com boa população e rainha com bom padrão de postura para entregar a um cliente; (ii) identificar e preparar colónias para uma pequena transumância de 10 Km, descendo dos 900m para uma altitude de 600m onde um significativo fluxo de néctar se iniciou nos últimos dias; (iii) palmerizar alguns núcleos.

Uma das tarefas de ontem: palmerizar núcleos muito/excessivamente povoados, antes de os transferir para colmeia nos próximos dias.

Hoje, num dos apiários de 600m e depois de colocadas nos assentos as colónias transumadas, apliquei uma mescla de técnicas para atingir diversos objectivos: (i) prevenir a enxameação; (ii) controlar a enxameação; (iii) preparar núcleos para introduzir rainhas virgens em gaiola. Para optimizar da melhor forma o material que tinha disponível, caixas-núcleo e excluidoras de rainhas, e o tempo de que dispunha, tive de utilizar alguma capacidade inventiva e sair da minha zona de conforto.

Uma das colónias muito povoada onde decidi confinar a rainha ao ninho com recurso a excluidora de rainhas e submetê-la parcialmente à “cura radical da enxameação”. Uma mescla de técnicas com resultados a avaliar em inspecções futuras.

No segundo apiário a 600m de altitude, os objectivos eram sobretudo dois: (i) espreitar algumas colónias orfanadas faz hoje 17 dias; (ii) preparar 5 colónias para serem desdobradas pela técnica Doolittle.

Neste pedaço de quadro andam pelo menos duas rainhas virgens.
A cronologia dos principais eventos desta colónia. Não manipulei esta colónia desde a sua orfanação para verificar a minha tese: ainda que não tendo ocorrido a enxameação primária esta colónia irá formar enxames secundários/garfos — espero enganar-me!
Colónia muito povoada, com ninho e sobreninho desde 17 de março.
Quadro onde andava a rainha. Colocado no ninho, separei o ninho do sobreninho com grade excluidora.
A cronologia dos principais eventos desta colónia. Sempre que possível, só depois de um período de uma a duas semanas após a verificação de postura no sobreninho (05-04) tenho por hábito confinar a rainha no ninho por meio de exluidora (19-04). Os quadros que coloco/deixo no ninho devem ter pelo menos cerca de 80% da sua área desbloqueada de pólen e/ou néctar.
Este quadro em cima, como não cumpre os critérios foi retirado do ninho e colocado no sobreninho, sobre a grelha excluidora.
Primeiros sinais de armazenamento do excesso de néctar.

notas sobre a resistência a acaricidas: o caso dos piretroides

Nesta publicação faço referência à provável reversão dos mecanismos de resistência ao taufluvalianto nas minhas colónias. No decurso da mesma decidi pesquisar mais focadamente literatura acerca da resistência a piretroides, a família de sintéticos onde se inclui o taufluvalinato, veiculado pelas conhecidas tiras com a marca Apistan.

Aspectos gerais sobre o fenómeno de resistência a pesticidas

Como definem os especialistas da área um fenómeno de resistência a um determinado pesticida? A resistência a pesticidas é um fenómeno pelo qual os organismos podem sobreviver a doses ou concentrações mais altas de uma substância tóxica que anteriormente resultava em altos níveis de mortalidade. A resistência a muitas classes e tipos de pesticidas ocorre em muitas espécies de artrópodes. A resistência pode desenvolver-se muito rapidamente, ocorrer numa ampla área geográfica, evoluir em instâncias múltiplas e independentes, e os níveis de resistência podem ser extremamente altos. Os principais mecanismos de resistência incluem desintoxicação melhorada, insensibilidade no local-alvo do tóxico e penetração cuticular reduzida (ver esquema em baixo).

Os três principais mecanismos de resistência aos piretróides e seu local de ação geral.

O caso da resistência ao taufluvalinato e flumetrina

A capacidade de desenvolver resistência a uma ampla gama de pesticidas é um fenómeno generalizado entre os ácaros, por isso era quase inevitável que a varroa se tornasse resistente aos acaricidas comumente usados, como os piretroides, taufluvalinato (Apistan®) e flumetrina ( Bayvarol®). Estudos descobriram que, comparando a concentração de um composto que causa 50% de mortalidade na população de ácaros de teste (CL50), os ácaros resistentes aumentaram os valores de CL50 de 2 vezes em Israel, 11 vezes no Reino Unido e de 36 a 440 vezes em Itália.

Propagação de ácaros resistentes na Europa
Os ácaros resistentes aos piretroides foram detectados pela primeira vez na região de Lombardia, no noroeste da Itália, por volta de 1991. […] Os ácaros resistentes espalharam-se rapidamente através do movimento das abelhas para as regiões vizinhas do sul da Suíça, Eslovénia e sul da França. A partir daí, continuou a sua propagação por toda a Europa seguindo as rotas comerciais estabelecidas em França, finalmente chegando à Alemanha em 1997, através da via possível do movimento de abelhas da Itália em 1998 e Reino Unido em agosto de 2001. No Reino Unido, o primeiro surto descoberto limitou-se a apenas 25 apiários mas em Junho de 2004 já tinha alastrado a cerca de 140 apiários, alguns dos quais estão a muitas centenas de quilómetros da fonte original. O padrão de propagação de ácaros resistentes em toda a Europa continental e no Reino Unido foi muito semelhante ao padrão de propagação exibido pelos ácaros varroa “originais”. Esta é uma propagação local lenta por abelhas que derivam que transferem ácaros entre colónias, com saltos irregulares de longa distância causados por apicultores que efectuam transumância de colónias infestadas com ácaros resistentes. […] No entanto, nos casos em que nenhum movimento óbvio de abelhas é conhecido, muitas vezes assume-se que a resistência surgiu de forma independente.

Propagação de ácaros resistentes fora da Europa
Em 1997, ácaros resistentes a piretróides foram detectados nos EUA. Embora os primeiros relatos de resistência fossem do Dakota do Sul, foi rapidamente estabelecido que estava relacionado com colónias e abelhas vindas da Flórida, onde os testes confirmaram que ácaros resistentes a piretroides também estavam presentes. Aliás, a Flórida também foi o local onde os ácaros varroa originais entraram os EUA em 1987. A Flórida é um importante centro de criação e distribuição de abelhas por via dos pacotes de abelhas enviados para todos os EUA. Este comércio ajudou na disseminação a longa distância tanto da varroa original quanto agora de suas irmãs resistentes a piretroides. Em apenas sete anos, os ácaros resistentes espalharam-se por todo o país nos EUA, com quase todos os estados relatando problemas devido a ácaros resistentes. Como a varroa foi originalmente introduzida na Flórida permanece um enigma, mas permanece a possibilidade de que os ácaros resistentes a piretróides tenham usado a mesma rota ou uma rota semelhante. Fora dos EUA e da Europa, ácaros resistentes a piretroides também foram relatados em Israel e Argentina.

Mecanismos de resistência aos piretróides em ácaros varroa
Os três principais mecanismos não comportamentais pelos quais os animais se tornaram resistentes a uma ampla gama de pesticidas (esquema em cima) são modificar a dose reduzindo a sua penetração, melhorando sua desintoxicação por enzimas (resistência metabólica) ou alterando a forma do próprio local-alvo, ou seja, o canal de sódio, tornando-se menos sensível ao pesticida.

Atualmente não existe confirmação se populações de ácaros resistentes são capazes de reduzir ou impedir a penetração de piretroides por alterações nas propriedades físicas da cutícula. Na Europa e em Israel, a resistência à varroa pode ser parcialmente explicada pela resistência metabólica, pois há uma maior desintoxicação (quebra) de piretroides por meio de enzimas, em particular monooxigenases, e possivelmente por um pequeno aumento na atividade da esterase. No entanto, dados dos EUA indicaram que essas vias metabólicas não surgiam na sua população de ácaros resistentes.

Nos EUA, a resistência aos piretroides (fluvalinato) na varroa foi associada a quatro novas mutações pontuais no gene do canal de sódio. Sabe-se que mutações pontuais semelhantes num gene do canal de sódio associada ao transporte de iões sódio, reduz a sensibilidade das células aos piretroides. Estas mutações do gene do canal de sódio encontradas na população de ácaros dos EUA necessitam investigação na população europeia de ácaros resistentes. Isto porque se diferentes mecanismos de resistência fossem evidenciados nas populações de ácaros da Europa e dos EUA, esta seria a melhor evidência para o aparecimento de duas estirpes independentes de ácaros resistentes.

Custo da resistência
Muitas vezes, a resistência em populações de artrópodes pode ser cara, por exemplo pela superexpressão de certas enzimas de desintoxicação. Isto, na ausência do pesticida, leva à redução da aptidão dos indivíduos resistentes devido à menor capacidade reprodutiva. Foi sugerido que a varroa resistente a piretroides tem uma aptidão menor em comparação com ácaros suscetíveis, mas nenhum dado foi apresentado. No entanto, um estudo detalhado da capacidade reprodutiva de populações de ácaros resistentes e suscetíveis nos EUA não revelou diferenças entre as duas populações.

Em Itália nenhuma desvantagem ou apenas uma pequena redução na aptidão associado à resistência ao fluvalinato foi encontrado em varroas, o que é consistente com observações em insetos quando a resistência é devido a monooxigenases. Além disso, se o mecanismo de resistência é devido a mutações pontuais, a carga metabólica em ácaros resistentes pode novamente ser muito pequena e, portanto, não seriam esperadas diferenças na reprodução dos ácaros.

Conclusão
Todas as evidências atuais (ou seja, não temos nenhuma evidência em contrário) sugerem que a resistência dos ácaros aos piretroides surgiu apenas uma ou duas vezes e que a principal causa da rápida disseminação de ácaros resistentes é o movimento de colónias de abelhas feito pelos apicultores. Enquanto a seleção positiva ocorre apenas como consequência do uso de um acaricida (removendo os ácaros não resistentes da população, permitindo que os ácaros resistentes se desenvolvam), as mutações que dão origem à resistência ocorrem independentemente da exposição, pois são eventos casuais. Não há evidências de que o mau uso dos tratamentos selecione mais rapidamente os ácaros resistentes do que os tratamentos aplicados corretamente. Portanto, a ocorrência de ácaros resistentes não está associada ao uso indevido de tratamentos como muitas vezes tem sido alegado, pois o mesmo resultado final ocorrerá independentemente de o tratamento ter sido utilizado corretamente ou não.”

fonte: “Acaricide (pyrethroid) resistance in Varroa destructor”, Stephen J Martin (2015).

Nota: as conclusões retiradas, em especial as duas últimas afirmações produzidas pelo autor do artigo, não são consensuais na comunidade científica, na comunidade dos apicultores e mesmo entre os fabricantes de acaricidas, como sabemos. Neste documento — https://www.ema.europa.eu/en/documents/scientific-guideline/reflection-paper-resistance-ectoparasites_en.pdf — uma publicação de revisão sobre este assunto publicado pela EMA (European Medicines Agency), fica evidente como este é um assunto complexo e cuja solução está a ser abordada com recurso e avaliação de estratégias múltiplas.