resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato em regiões de França

Na sequência do seu trabalho de doutoramento, Gabrielle Almecija tem vindo a publicar diversos artigos com os resultados que obteve na sua pesquisa de avaliação da resistência ao amitraz (princípio activo dos medicamentos comercializados com o nome Apivar e Apitraz, por exemplo) e ao tau-fluvalinato (princípio activo do medicamento comercializados com o nome Apistan), em algumas regiões de França nos anos de 2018 e 2019.

Apresento em baixo alguns dos dados obtidos.

Localização das populações de varroa testadas e suas sensibilidades (suscetível (S), moderadamente resistente (MR), fortemente resistente (FR)) ao tau-fluvalinato (A) e ao amitraz (B).
Proporção das populações de varroa de acordo com sua sensibilidade ao tau-fluvalinato na França em 2018 e 2019, (n = 22).
Proporção de populações varroa de acordo com sua sensibilidade ao amitraz na França em 2018 e 2019, (n = 35).

Do primeiro quadro podemos ver que o fenómeno de resistência moderada e resistência forte para o amitraz e para o tau-fluvalinato é heterogéneo entre regiões e, inclusivamente, na mesma região. Há apiários com uma predominância de populações de varroas sensíveis ao amitraz ou ao tau-fluvalinato e outros apiários onde predominam populações de varroas moderadamente ou fortemente resistentes ao amitraz ou ao tau-fluvalinato. Ainda que as minhas observações sejam a olho, sem qualquer carácter científico (avaliar a susceptibilidade vs. resistência das varroas a este ou aquele princípio activo segue um protocolo muito complexo, que não está ao meu alcance), também encontro esta heterogeneidade nos resultados finais, isto é, o Apivar colocado da mesma maneira, na mesma altura, resulta melhor nuns apiários que noutros, resulta melhor numas colónias que noutras do mesmo apiário. Das minhas observações resulta melhor, em regra, em colónias que foram desdobradas, em enxames novos, em enxames mais pequenos, por exemplo em núcleos de 5 quadros.

Da comparação dos dois gráficos em baixo destaco a maior percentagem de populações de varroas sensíveis ao tau-fluvalinato, 50%, por comparação com as populações de varroas sensíveis ao amitraz, 29%. Uma explicação possível, com base científica, pode ter a haver com o fenómeno de “reversão para a sensibilidade”. O tempo necessário para se passar de uma população resistente a susceptível é denominado “período de reversão”. Para os ácaros varroa, poucas informações sobre a duração do período de reversão são conhecidas hoje. Levará entre 4 e 6 anos para uma população de ácaros altamente resistentes ao tau-fluvalinato recuperar sua sensibilidade (Norberto Milani e Vedova 2002). Até ao momento, nenhuma informação é conhecida sobre o período de reversão do amitraz. No meu caso, e como o último ano em que tratei com tau-fluvalianto (Apistan) foi em 2011, este medicamento está novamente em cima da minha mesa de opções para ser utilizado em 2022.

fonte: https://www.apinov.com/wp-content/uploads/2021/08/Lutte-contre-le-varroa-Gabrielle-Almecija.pdf

Nota: agradeço ao meu amigo João Gomes por me ter posto na pista do trabalho e publicações de Gabrielle Almecija. Tenciono fazer mais publicações sustentado na tese de doutoramento desta jovem doutora, pois quero partilhar muito do sumo do seu trabalho com os meus leitores.

o número de varroas à saída do inverno: 20 ou 182 fará assim tanta diferença?

Depois dos tratamentos de final de inverno contra a varroose — de acordo com o meu calendário início os tratamentos entre a última semana de janeiro e a primeira semana de fevereiro —, tendo eles sido eficazes, ficam habitualmente alguns ácaros que darão continuidade às geração seguintes. Todos desejamos que esse número seja o mais baixo possível, mas fará assim tanta diferença sobreviverem 200 em lugar de apenas 20?

No blog The Apiarist, David o autor, exemplifica claramente como é muito diferente iniciarmos a nova época com 20 ácaros ou, por exemplo, 182. Recorre, para fazer as suas estimativas, ao simulador on-line construído e disponibilizado por Randy Oliver (ver aqui o simulador).

Ele pergunta: “O que é um punhado de ácaros entre amigos? Faz realmente diferença se a sua colmeia contém 20, 74 ou 146 ácaros no início da temporada seguinte?

Ele responde: “Sim. Isso faz uma enorme diferença.

Ele explica: “Os ácaros presentes no início de janeiro se reproduzirão de forma rompante na criação de primavera. Portanto, em qualquer momento específico da estação – assumindo que todas as outras coisas sejam iguais – haverá uma carga de ácaros significativamente maior numa colónia que começou o ano com mais ácaros do que numa que começou o ano com menos ácaros.

Sabemos bastante sobre a reprodução da Varroa. Por exemplo, sabemos que mais varroas são geradas em pupas de zângãos do que em pupas de operárias (por causa da maior duração da pupação). Há uma série de parâmetros adicionais que influenciam a taxa de reprodução da população de ácaros — a proporção de criação de zângãos para a criação de operárias, a disponibilidade de criação, a duração da fase forética/fase de dispersão dos ácaros (por sua vez, provavelmente influenciada pela disponibilidade de abelhas amas, e assim por diante …

Tudo isso significa que podemos prever o número de ácaros presentes numa colmeia durante a temporada com base no número de ácaros no início, se fizermos uma série de suposições sobre a força da colónia, momento da temporada, taxa de crescimento da colónia, etc. .

Gráfico de colunas com estimativas da população de varroas em setembro (eixo dos Y) de acordo com o número de varroas em janeiro (eixo dos X).

E conclui: “Mesmo considerando várias limitações, que inevitavelmente restringem a reprodução dos ácaros, o aumento de ácaros entre janeiro e setembro é “apenas” cerca de 100 vezes. Isso significa que uma colónia que começou a temporada com 20 ácaros conterá pouco mais de 2.000 em setembro, enquanto uma colónia que começou com 182 ácaros vai acabar com mais de 18.000 até ao final do verão. […] Ou, mais cientificamente, é um nível de infestação com o qual a colónia provavelmente não sobreviverá. 18.000 ácaros é provavelmente bem mais de um ácaro para cada duas abelhas adultas na colónia [em setembro]. Com esse nível de ácaros, você pode esperar que todas as pupas sejam parasitadas [multi-infestadas digo eu, pupas a serem sugadas por 2, 3 ou mais varroas fundadoras]. A colónia está condenada.

fonte: https://www.theapiarist.org/contact-killer/

Nota: nesta simulação o valor atribuído ao influxo de varroas por via da pilhagem de colónias a colapsar nas redondezas foi zero.

esterilização das varroas pelo ácido fórmico: que evidências?

De quando em quando ouço e leio que ocorre um processo de esterilização das varroas com a utilização do ácido fórmico. Um fabricante de medicamentos acaricidas baseados no ácido fórmico faz mesmo esta afirmação “In our research and testing, we found out that mites surviving the treatment are in 80% infertile and will not reproduce.” (Na nossa pesquisa e testes, descobrimos que os ácaros que sobrevivem ao tratamento 80% são inférteis e não se reproduzem. fonte: http://www.mitegone.com/media.asp#reproduction) Por razões que desconheço, esta pesquisa e os testes estão omissos da bibliografia de suporte da página de marketing do produto, e a bibliografia de suporte que é apresentada, salvo melhor leitura, não confirma esta afirmação.

Da pouca bibliografia que alguns companheiros me sugeriram ler para esclarecer se de facto existem evidências sobre este efeito do ácido fórmico na fertilidade das varroas destaco estes dois artigos:

  • The Effect of Formic Acid in the Sealed Brood Cells (http://www.moraybeedinosaurs.co.uk/varroa/Effect_Formic_Acid.htm?fbclid=IwAR2zHBO_nEHWziZqF0npBmoBOnO2hN3SWzOqJPqSpI9W6pyLwGZRM9T-Yqc)
  • Results of 50% formic acid fumigation of honey bee hives [Apis mellifera ligustica (Hymenoptera : Apidae)] to control varroa mites (Acari : Varroidae) in brood combs in Florida, USA (Autores: Jim Amrine e outros. Amrine é/foi um dos grandes divulgadores dos benefícios dos tratamentos “flash” com ácido fórmico).

Depois de passar umas horas a analisar esta e outra bibliografia, acerca da hipótese da esterilização das varroas sobreviventes não encontrei evidência nenhuma. Encontrei sim dados sobre a mortalidade que o ácido fórmico provoca nas varroas que estão “protegidas” pelos opérculos. Esta informação já a possuo há mais de seis anos, contudo é sempre agradável reavivar os nossos conhecimentos, e não dei o meu tempo por completamente perdido! Evidências nestes estudos, e outros que consultei, acerca da possibilidade de esterilização das varroas, decorrente da utilização do ácido fórmico, não as encontrei.

O ciclo de vida da abelha operária começa quando a rainha coloca o ovo no alvéolo. O ovo (Figura 1) eclode após 72 horas, e cada um dos primeiros quatro ínstares larvais ocorre com 24 horas de intervalo (por exemplo, imagem # 2). O quinto ínstar larval (Figura 3) é operculado enquanto ainda está se alimentando, e a operculação é feita pelas abelhas adultas 8-8,5 dias após a postura do ovo. A pupação não ocorre até cerca de 3 dias após a operculação. O último instar larval alimenta-se durante o primeiro dia pós-operculação, mas torna-se imóvel (um estágio que chamamos de pré-pupa, Figura 4) à medida que se prepara para a pupagem. Os ácaros Varroa
invadem os alvéolos com larvas de último ínstar (Figura 3) poucas horas antes da operculação.

A propósito deste assunto, e para terminar, recentemente (2020), Häußermann et al. revelou a possibilidade de um ácaro virgem iniciar a fase forética/fase de dispersão. Posteriormente esta varroa virgem entra num opérculos com uma larva no 5º ínstar larval, põe um ovo não fertilizado e acasala com seu filho macho. Isto confirma que as fêmeas Varroa não precisam acasalar para fazer postura e que podem ser fecundadas por seus filhos, dias depois. (fonte: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13592-019-00713-9).

Nota: aceito que sou um bocado obcecado pelos detalhes. Mas nos detalhes é que está o diabo. Como irão perceber quando publicar o meu plano de tratamentos para a varroose do próximo ano, a alegada esterilização das varroas pela utilização do ácido fórmico teria a sua importância se ela se confirmasse. Este plano, muito simples como poderão depois ver, será primeiramente apresentado no próximo Encontro de Apicultores da Guarda (ver aqui).

abelhas Primorsky resistentes? não tanto como isso

Li este artigo há uns três anos atrás. Ficou na gaveta dos meus rascunhos à espera do momento que me parecesse adequado mencioná-lo. E este parece-me o momento.

A abelha melífera Primorsky, alegadamente resistente aos ácaros varroa é uma estirpe de abelhas melíferas com origem na região de onde retirou seu nome, a região russa de Primorsky Krai. Julga-se que terá sido a primeira A. mellifera a ser exposta à varroa, isto no início do sec. XX. Algumas linhas de A. mellifera desta região parecem ter desenvolvido algum grau de resistência, de natureza genética, à varroa. O USDA Agricultural Research Service avaliou estas estirpes e, em 1997, foram importadas para os Estados Unidos, no âmbito de um plano que tinha como objectivo disseminar estas linhas por todas as principais explorações apícolas dos EUA. Hoje, passados quase 25 anos, este plano está muito longe de ser concretizado. A adesão dos apicultores tem sido mais baixa do que o esperado, por diversas razões. Estas razões decorrem de um facto simples da vida dos enxames no campo: as rainhas Primorsky quando acasalam naturalmente em campo aberto, num ambiente em que não se controla os zângãos de outras linhagens, criam colónias que são geneticamente híbridas. Um número considerável destes híbridos ‘não controlados’ exibem aumento da agressividade, redução da produção de mel e diminuição na sua capacidade de resistir aos ácaros, assim como outras características com expressões pouco satisfatórias para os apicultores. Um plano que prometia muito e que tinha tudo para correr bem, esqueceu dois factos muito simples da vida: (i) características como a resistência à varroa, assente em genes raros, recessivos, de natureza aditiva e epistática depressa se diluem num contexto de acasalamentos não controlados; (ii) os apicultores, gente habituada a ouvir muitas promessas mas poucos resultados, aprendeu a desconfiar deste tipo de conversa e marketing; ora isto dificulta a adesão massiva dos apicultores, tão necessária à saturação zonal de indivíduos com estas características raras num território “inimigo”.

Para agravar ainda mais o “flop” deste plano, surgiu em 2017 este estudo que conclui que as abelhas russas em contextos diria normais, sem nada de excepcional, isto é, em locais em que colónias vizinhas estão a colapsar devido à elevada infestação por varroa (infelizmente é o pão nosso de cada dia!), não estão à altura dos seus pergaminhos. Em baixo deixo a tradução de um excerto das conclusões do artigo em questão.

A abelha melífera Primorsky. Aqui, uma rainha das abelhas russas cercada por operárias.

Os esforços para desenvolver linhagens resistentes à Varroa em abelhas melíferas tem-se concentrado amplamente em fatores que afetam o sucesso reprodutivo (por exemplo, remoção de criação parasitada ou redução da fertilidade de ácaros; Harbo e Harris 1999, Boecking et al. 2000, Locke and Fries 2011) ou aumento da mortalidade de ácaros foréticos por meio de comportamentos como o catar [grooming] (Peng 1988). Embora estas características possam limitar a taxa intrínseca de crescimento das populações de ácaros, não há garantia de que o número de ácaros irá permanecer baixo, especialmente no outono. As linhagens resistentes/tolerantes a ácaros podem manter populações de Varroa baixas em áreas com baixo número de colónias e populações de Varroa altamente controladas. No entanto, em zonas com elevado número de colmeias que podem ou não ter as populações de ácaros controladas, a linha resistente a ácaros não se sai melhor do que a linha não resistente. As futuras seleções de abelhas resistentes a ácaros podem precisar incluir características em que as forrageadoras que derivam de outras não são aceites nestas colónias resistentes, especialmente se as forrageadoras carregarem ácaros.

fonte: https://academic.oup.com/jee/article/110/3/809/3072898

Neste outro artigo, este de divulgação científica, a investigadora que liderou este estudo, DeGrandi- Hoffman, refere: “Infelizmente, as mudanças climáticas podem agravar o problema da Varroa. As populações de ácaros dentro de uma colónia aumentam no outono, assim como o número de abelhas forrageiras que transportam ácaros do exterior. À medida que as temperaturas de outono ficam mais quentes e os períodos de tempo de vôo se prolongam por novembro, não apenas as abelhas voam no final do outono, quando deveriam estar na colmeia no cacho de inverno, mas os ácaros continuam a migrar para as colónias sobre as forrageadoras. Linhagens de abelhas melíferas que não admitem forrageadoras de outras colmeias ou que excluem forrageadoras com ácaros podem ajudar a controlar as infestações por Varroa. Mas, enquanto isso, as abelhas russas podem ser capazes de resistir à Varroa apenas em áreas nas quais os ácaros já estão bem controlados – ou, em outras palavras, em zonas onde as abelhas provavelmente não vão dar boleia às Varroas.”

nesta publicação mencionei como forte hipótese para a relativa ineficácia dos meus tratamentos de verão/outono neste últimos dois anos o influxo de ácaros indesejados vindos de fora por via da pilhagem. No estudo em cima são mencionados estes valores que vou deixar escritos a bold: “Houve um aumento particularmente acentuado após setembro, quando a infestação das larvas aumentou de 1% para 39% em outubro e 25% em novembro. […] em setembro a média era de 305 ± 47 ácaros foréticos por colónia (2,6 ± 0,6 ácaros por 100 abelhas), e esta taxa aumentou para 1220 ± 199 ácaros foréticos em novembro (12,6 ± 1,5 ácaros por 100 abelhas).” Neste panorama de apiários vizinhos tratados tarde e mal, com colónias a colapsar em cadeia a 2 ou 3 km de distância, infelizmente tão frequente no nosso país, não há abelhas resistentes que resistam e não há acaricidas que possam valer. Não será caso para dizer “volta Apivar que estás perdoado!”, este próximo ano vai ficar no banco como afirmei, mas é importante ter em consideração o contexto e os números desse contexto: aumento de infestação das larvas de 1% para 39% em um mês apenas!!!

re-visitando um antigo estudo valenciano

O que de bom têm os documentos escritos, sejam eles de que tipo forem, é que se podem re-visitar sempre que o desejamos, como fazemos com os nossos velhos e bons amigos.

Neste caso, e considerando um contexto de quase calamidade apícola tanto em Portugal como em Espanha, com inúmeros relatos sobre a razia que a varroa tem feito pelos apiários desta Península, acho importante re-visitar e deixar a bold, de forma vívida, carregada, algumas conclusões/observações de um antigo estudo valenciano por aqui referenciado há quase quatro anos atrás:

Cidade das artes e das ciências, Valência, Espanha.
  1. As colónias que não foram tratadas com acaricidas morreram num espaço de 10 e 12 meses após a infestação inicial;
  2. os meses de fevereiro e março são os meses em que se assiste ao pico da criação para esta região de acordo com o ecotipo de abelhas, as condições climáticas, e as florações (predominância de laranjeiras) segundo os autores;
  3. as colmeias não tratadas não enxameiam e a diminuição da população de abelhas adultas é gradual ao longo de quatro meses, março a junho, até à sua morte.
  4. a infestação pela varroa nas abelhas adultas quase que triplica no período de um mês apenas, entre abril e maio;
  5. a queda natural/mortalidade de ácaros varroa mais que quadriplica entre o início de fevereiro e meados de março;
  6. quando a infestação das abelhas adultas ultrapassa os 20% as abelhas nascem mais pequenas e pesam menos.

Notas:

  1. se fosse um teste “bond” à John Kefuss, “Live and let Die”, daqui não se retiraria uma única colónia para semente de futuras linhas resistentes; mas alguns continuam a acreditar que é por aqui o caminho!
  2. disponibilidade de pólen e crescimento dos enxames, uma das correlações mais fortes que conheço do que vou observando nos meus enxames;
  3. ao contrário do que muitas vezes é repetido estes enxames muito infestados não enxamearam; posso dizer o mesmo dos meus;
  4. no período de um mês a infestação não se multiplicou por 1,5, nem por 2; foi por 3;
  5. a mortalidade e queda natural de ácaros nos tabuleiros multiplicou por 4 em cerca de mês e meio; continuo a duvidar se algum dia confiarei na fiabilidade deste tipo de contagem para avaliar a eficácia do tratamento x ou y, pois não está escrito nos ácaros quais os que caíram por morte natural e aqueles que caíram por efeito do acaricida;
  6. este foi um aspecto que me levou também a considerar que o Apivar este ano estava a ser ineficaz em 20-25% das minhas colónias: para além de encontrar algumas abelhas com asas deformadas 12 semanas após o início do tratamento, o que quer dizer que estas abelhas já foram criadas e emergiram em pleno período do tratamento, para agravar a minha pré-ocupação vi algumas abelhas recém-emergidas com os abdómenes mais curtos.

terceiro encontro de apicultores do distrito da Guarda

É a terra onde fui parido há quase 55 anos. Lá estarei no próximo dia 11 de Dezembro com o mesmo prazer com que estive nos dois encontros anteriores.

Encontram o link para fazer a vossa inscrição aqui: https://www.facebook.com/profile.php?id=100014118912429

Mais uns momentos para continuarmos esta conversa inesgotável sobre as abelhas e a relação que vamos tendo com elas.

o distanciamento social das abelhas quando parasitadas pelo ácaro varroa

Este estudo, publicado em outubro deste ano, é muito interessante a diversos níveis e as minhas observações a olho, nas minhas colónias no campo, também apontam no mesmo sentido: em colónias muito parasitadas pelo ácaro varroa as abelhas andam mais dispersas nos quadros, menos agregadas e coesas. Desde há anos, quando abro uma colónia no verão/outono e observo as abelhas muito dispersas pelos quadros mais laterais, isto em pleno tratamento, desconfio que algo não está bem. E geralmente não está. Esta investigação vem confirmar esta minha constatação.

Resumo: O distanciamento social em resposta a doenças infecciosas é uma estratégia exibida por animais humanos e não humanos para neutralizar a disseminação de patógenos e/ou parasitas. As colónias de abelhas (Apis mellifera) são modelos ideais para estudar este comportamento devido à estrutura compartimentada dessas sociedades, evoluindo sob a exposição à pressão do parasita e a necessidade de garantir um funcionamento eficiente. Aqui, usando uma combinação de abordagens espaciais e comportamentais, investigamos se a presença do ácaro ectoparasita Varroa destructor induz mudanças na organização social das colónias de A. mellifera que poderiam reduzir a disseminação do parasita. Nossos resultados demonstraram que as abelhas reagem à intrusão de V. destructor modificando o uso do espaço e as interações sociais para aumentar o distanciamento social entre coortes de abelhas jovens (amas) e velhas (forrageadoras). Estes dados sugerem fortemente uma estratégia comportamental não relatada anteriormente em abelhas para limitar a transmissão intra-colónia do parasita.

Imunidade organizacional induzida. Mudança espacial nas danças de forrageamento (A) e comportamento de auto/hetero-limpeza (B) observada na colónia.

fonte: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.abj1398

Nota 1: para além das hipóteses explicativas que encontro para a menor eficácia das tiras de Apivar nos dois últimos anos durante os tratamentos de verão (até agora o Apivar tem-se revelado muito eficaz nos tratamentos de final de inverno) que identifiquei na Nota 2 da publicação anterior, é possível que este distanciamento social contribua para uma insuficiente distribuição do amitraz entre todos os indíviduos da colónia, em particular entre as abelhas amas e as abelhas forrageiras. Na minha prática, coloco as tiras entre quadros com criação, e vou-as deslocando de forma a acompanharem a contracção da zona de criação. Se as abelhas forrageiras, vindas do campo pilharam colónias a colapasar por varroose nos apiários dos vizinhos e trouxerem agarradas ao seu corpo varroas do exterior, estas varroas poderão sobreviver sem serem expostas à dose letal de acaricida, dado que as abelhas amas não contactam o suficiente com as suas irmãs mais velhas para lhes passar a quantidade desejável de acaricida.

Nota 2: parece-me, neste contexto, que veículos celulósicos do amitraz, que permitam às abelhas roê-los, espalhar os pequenos pedaços de cartão pelo espaço da colmeia, poderá contrabalançar os efeitos do distanciamento social na distribuição do acaricida por todos os indivíduos da colónia.

Nota 3: como sabemos bem as abelhas na presença de tiras de cartão roem-nas afanosamente. Este comportamento de limpeza (que nada tem a haver com comportamento higiénico, são comportamentos independentes um do outro, isto é, as abelhas podem ser muito limpas e, contudo, não retirarem rapidamente dos alvéolos pupas ou larvas mortas, este sim o comportamento que expressa o comportamento higiénico) está bem disseminado nas populações de abelhas, creio eu. Indo um pouco mais longe, este comportamento de limpeza instintivo poderá agregar as abelhas sobre as tiras. Se assim for este instinto de limpeza pode contrabalançar o comportamento instintivo de distanciamento social num contexto de elevada parasitação pelo ácaro varroa, contribuindo para a agregação e contacto mais intenso entre as abelhas de diferentes gerações, o ideal para o aumento da eficácia dos tratamentos que funcionam por contacto. Um bom tema para ser investigado na minha opinião, e que seria de muita utilidade para todos nós. A ver se algum aluno de doutoramento pega nesta deixa!

apivar provavelmente o pior acaricida

Em 2016, escrevi no título de uma publicação “apivar provavelmente o melhor acaricida” (ver aqui a publicação). Hoje, sustentado nos dados do ano passado e nos dados recolhidos até ao dia de hoje, atinjo novamente uma taxa de ineficácia do tratamento do verão, com Apivar, entre os 20-25% das colónias. Chego a esta taxa de ineficácia contabilizando o número de colónias onde vejo uma ou mais abelhas com asas deformadas, isto após 2 ou 3 meses o início do tratamento.

Abelha com asas deformadas, sintoma provocada por um vírus que tem como veículo preferencial o ácaro varroa.

Até agora ainda não levei para casa nenhuma colmeia morta neste outono. As colónias estão a ser retratadas, inclusive, aquelas onde não encontro sintomas de varroose. Como as que apresento em baixo, que aparentam boa saúde.

O trabalho de retirada das tiras de apivar das colónias está a ser mais demorada que o habitual. De pé atrás com a experiência menos boa do ano passado com o Apivar e porque as temperaturas altas o permitem, estou a mergulhar em profundidade nos ninhos uma vez mais. Vejo, pelo menos, 5 a 6 quadros por colónia. Tenho vindo a utilizar este método para monitorizar a eficácia dos medicamentos acaricidas, nestes últimos anos. E tenho-me dado muito bem com este sistema de avaliação da eficácia dos acaricidas. Acho-o menos falível que os outros sistemas de monitorização.

Mas será o Apivar provavelmente o pior acaricida? Um amigo, com quem conversei hoje, tratou com fórmico a 60% e contou-me que já levou 25% das colónias para casa. No meu caso, como referi em cima, ainda não levei nenhuma. Talvez porque estava mal habituado, com elevadas eficácias do Apivar até há dois anos atrás, agora acho mais prudente entender o Apivar como provavelmente o pior acaricida, mesmo não tendo a certeza que haja algum melhor dentro do menu dos homologados. Assim para o próximo ano vai para o banco, não será titular!

Nota 1: hesitei no título desta publicação. Pensei intitular esta publicação com a expressão do latim medieval “mutatis mutandis” que significa “mudando o que tem de ser mudado”. De facto não acho o apivar o pior acaricida, apenas já não o acho o melhor, acho-o tão falível como os outros. A lentidão com que liberta o amitraz, julgo que é o seu principal defeito, aliás este defeito foi referido na publicação de 2016.

Nota 2: Tenho várias hipótese explicativas para a maior ineficácia do Apivar nos meus apiários, entre elas: acréscimo de resistência dos ácaros (a dose necessária para matar pelo menos 50% dos ácaros, o LD50, terá provavelmente aumentado um pouco); acréscimo da virulência do vírus das asas deformadas (conhecem-se duas estripes de VAD, uma mais virulenta que a outra, e a importação de rainhas do estrangeiro é o veículo da entrada em território nacional de todos os patógenos não endémicos); melhor prevenção e controlo da enxameação (se os meus enxames enxameiam menos uma parte das varroas não vai para as árvores em cima das abelhas enxameadas, ficam todas em casa); quebra mais abrupta da postura no início do verão devido às temperaturas elevadas e/ou à velutina (as larvas multi-infestadas pelo ácaros aumentam nos períodos de contracção de postura e larvas multi-infestadas ficam mais susceptíveis à virulência dos vírus); mais apiários na vizinhança dos meus apiários (a pilhagem de colónias a colapsar por varroa traz um fluxo indesejado destes ácaros para o interior das minhas colmeias).

eureka, tenho uma colónia de abelhas resistente à varroa!

O titulo desta publicação é um “click bait” (caça cliques, muito utilizado nas redes sociais, vulgarmente utilizando títulos sensacionalistas). Mas já que aqui estão aproveitem para ler o resto. Serei breve.

Num dos dois apiários a 600 m de altitude, onde fui confrontado no início de setembro com algumas das colónias mais fortes na temporada com sinais de infestação pelo ácaro varroa, isto com o tratamento de final de verão iniciado na primeira semana de agosto, fui encontrar uma colónia com um padrão de postura estranhíssimo, mas que não apresentava sinais de varroose. Identifiquei este padrão de postura duvidoso no dia 09.09.

O padrão de postura é terrivelmente medíocre, muito mau para ser mais preciso.

Tem muitos ovos, tem larvas cor de pérola… mas parece-me que algures no processo, entre o quarto “instar” larval e a fase pré-pupal ou pupal, as abelhas eliminam boa parte da criação.

Ovos e larvas em vários estadios de desenvolvimento.
Não observo, inclusive, sinais de guanina (excrementos das varroas) no fundo e nas paredes dos alvéolos.

A rainha e abelhas novas fazem parte da comunidade… aparentemente cheias de saúde.

Rainha e uma das abelha novas assinaladas pelo meu filho, num desafio que lhe lancei para as identificar.

Voltando ao título. Na ilha sueca de Gotland, foram identificados vários enxames “naturais” resistentes ao varroa. Estes enxames resistentes foram muito estudados ao longo de vários anos. Entre outros mecanismos associados à resistência, verificou-se que muitas destas colónias perduravam com pouca criação e que os ninhos se mantinham pequenos ano após ano. Lembrei-me deste caso quando observava a minha colónia e a questão instalou-se em mim: será que este problema na criação ajudou e está a ajudar na manutenção de níveis de varroose aparentemente baixos desde o final do verão? Como o Randy Oliver gosta de afirmar “the easiest person to fool is always yourself” (a pessoa mais fácil de enganarmos somos nós mesmo) e, portanto, afirmar que tenho aqui uma colónia que apresenta um comportamento VSH, ou um outro comportamento supressor da reprodução do ácaro, será muito provavelmente um delírio. Contudo, sobrevivendo ao inverno, e acho que vai sobreviver, vou prestar muita atenção a esta colónia. Resta dizer, a terminar, que esta colónia foi das mais produtivas ao longo da temporada.

mais uma ronda neste verão índio

Ontem, dia de S. Martinho, iniciei mais uma ronda pelos meus apiários.

Com a temperatura em torno dos 16ºC, dei-me ao luxo de abrir as colmeias e inspeccionar algumas colónias no final do tratamento de verão/outono para a varroose. Como da última vez pareceu-me tudo bem! Não vi abelhas com abdómenes pequenos/atrofiados, não vi abelhas com asas deformadas.

E chegou a altura de retirar as tiras, após as 12 semanas passadas.

As colónias estão cheias de abelhas, apesar de as manchas de criação serem reduzidas. Estas são abelhas de vida longa (diutinus). Que bom as rainhas terem reduzido substancialmente a postura! Menos rotação de abelhas, menos abelhas novas a provocarem o envelhecimento precoce das gerações de abelhas mais velhas, menos reprodução da varroa, temperatura mais baixa nos ninhos, logo menos consumo, menos alimento suplementar, menos despesa.

Contudo… algumas colónias mais leves estão a ser suplementadas. Tratar de forma igual desiguais é um erro que procuro o mais possível evitar.

Na envolvente, a folhagem dos castanheiros, ali pelo chão, alguns tiros dos caçadores, um pouco lá ao longe. Mais um verão índio.