minimizando riscos do trabalho apícola

Assim como outros apicultores procuro o mais possível evitar os riscos habituais desta profissão ou, não sendo possível, tento minimizá-los. Entre outros cuidados, raramente sou picado e muito raramente me cai carga nos caminhos de acesso aos apiários.

Nesta publicação vou focar-me noutras medidas que visam minimizar os riscos nesta altura da época apícola. Uma destas medidas é planear o dia por forma a trabalhar no apiário com temperaturas inferiores a 25ºC. Hoje por exemplo, entre as 8h00 e as 10h30, estive ocupado a inspeccionar cerca de 80 colónias com o objectivo de identificar quais as que estavam a pedir mais uma meia-alça. Acabei por colocar mais 37. Por volta das 10h30 a temperatura estava a chegar aos 25ºC, isto a 900 m de altitude, e foi a hora em que iniciei o regresso a casa com o trabalho concluído.

Imagem parcial do apiário a 900 m.
Meia-alça praticamente cheia e…
… colocação de mais uma meia-alça.

Antes, no dia de hoje e por volta das 6h00, entrei no apiário das Lusitanas a 600 m de altitude para efectuar a cresta dos sobreninhos ali presentes. E a este respeito, aproveito para referir o segundo cuidado para minimizar riscos. Na cresta destes sobreninhos divido os quadros por várias caixas. A intenção é não ter de levantar mais de 15 kgs. Com 12 anos de apicultura a tempo inteiro, até agora não tenho problemas cervicais ou lombares. Assim espero continuar, tendo este e outros cuidados!

Na altura da cresta destes sobreninhos a máxima é dividir para vencer. Afinal é de apicultura mobilista que se trata.

mel claro: início da cresta de 2022

Hoje, o meu dia começou às 5h10m. 

Por volta das 6h00 estava a entrar no apiário de Lusitanas a 600m, território das 1000 flores, para iniciar a cresta dos méis claros deste ano. O plano era crestar as meias-alças lá presentes. Por volta das 7h15 estava de regresso a casa, com a carga que tinha planeado trazer. As imagens são do início da extracção deste néctar prístino, intocado, que fluiu de forma natural e primitiva entre as abelhas.

A todos nós que iniciámos a cresta, ou a vamos iniciar, desejo uma boa cresta e colheita. Que o semeado ao longo de meses tenha agora correspondência no que colhemos.

ficar ou partir: as pistas que as varroas seguem para fugirem de uma colónia que está a colapsar

Nas colónias colapsadas por altas taxas de infestação por varroa encontramos mais frequentemente os excrementos das mesmas nas paredes dos alvéolos do que as próprias varroas — sobre a autópsia e sinais de uma colónia que morreu devido à varroose já escrevi diversas vezes (ver, por exemplo aqui), sendo que a guanina/excrementos das varroas é uma pista inequívoca da sua presença num passado recente.

E o que terá sucedido às varroas que infestavam a colónia? Nas minha opinião, as duas hipóteses mais sólidas são: (i) no período que decorreu entre as visitas do apicultor uma parte da população de varroas terá morrido por velhice ou por desnutrição, caído nos estrados das colmeias e acabaram como alimento de formigas e outros necrófagos; (ii) a outra parte da população terá saído às costas de abelhas forrageiras que derivaram para colónias mais saudáveis.

Sendo este comportamento das varroas, transferirem-se das abelhas mais novas para as abelhas mais velhas, as que lhes oferecem “boleia” para outras colónias vizinhas, uma estratégia vencedora do ponto de vista da sua sobrevivência enquanto espécie, quais são os mecanismos subjacentes e as pistas que as varroas seguem para decidirem partir, fugirem de uma colónia prestes a colapsar que nada mais tem para lhes dar?

Deixo em baixo a tradução de um artigo de divulgação científica que traz luz sobre as pistas que as varroas poderão seguir, ficando uma vez mais claro como este parasita está perfeitamente moldado ao ambiente interno das colónias de abelhas, como se ajusta como uma luva aos diversos aspectos biológicos inerentes às colónias e assim consegue prosperar.

Os ácaros varroa geralmente preferem alimentar-se de abelhas ama, as que cuidam da criação, porque lhes dá mais oportunidades de transitarem e parasitarem as larvas das abelhas. No entanto, estas abelhas amas ficam geralmente dentro da colmeia, então os ácaros precisam apanhar boleia noutras abelhas para infestar outras colmeias.

Então, como sabem os ácaros quando ficar e quando ir? Depois de levar uma colmeia próximo do colapso, os ácaros são confrontados com um dilema: ficar parado e perecer com a colónia ou preparar-se para infestar outra colmeia vizinha mais saudável.

Investigadores em Itália acham que têm uma resposta para esta pergunta, e os resultados de seu estudo foram publicados no Journal of Experimental Biology.

Rita Cervo e seus colegas da Università degli Studi Firenze testaram as preferências dos ácaros para se alimentarem nas abelhas ama que não saem da colmeias ou forrageadoras itinerantes, incluindo abelhas ladras de outras colónias. Estes investigadores observaram que os ácaros das colmeias com baixas taxas de infestação preferiam transitar sobre abelhas ama. No entanto, à medida que as taxas de infestação de ácaros nas colmeias aumentaram, os ácaros se tornaram menos exigentes e pareciam igualmente satisfeitos em transitar em forrageadoras e amas.

A equipe analisou a mistura de substâncias cerosas que revestiam a superfície quitinosa das abelhas e descobriu que em colmeias com baixas taxas de infestação por ácaros, a cera das amas era muito diferente da cera das forrageadoras – aspecto que os ácaros provavelmente são capazes de detectar.

No entanto, as misturas de cera em amas e forrageadoras em colmeias com altos níveis de infestação pelo ácaro Varroa foram mais semelhantes, tornando mais difícil para os ácaros distinguir entre amas e forrageadoras. A presença dos ácaros alterou os revestimentos cerosos das forrageiras.

Quando a abundância de ácaros aumenta na colónia, a falta de diferenças nas pistas químicas entre amas e forrageadoras provavelmente não permite que os ácaros discriminem abelhas com tarefas diferentes e faz com que os ácaros montem em ambas”, escreveram.

Ao perder a capacidade de distinguir entre amas e forrageadoras quando as taxas de infestação são altas, os ácaros aumentam as possibilidade de obter uma boleia de uma forrageira que deriva para outra colmeia, aumentando as suas hipóteses de sobrevivência quando sua colmeia atual enfrenta a extinção.

fonte: https://entomologytoday.org/2014/08/29/how-do-varroa-mites-know-when-to-leave-honey-bee-hives-its-all-in-the-bees-wax/

as abelhas sabem melhor

Sou um leitor assíduo do blog The Apiarist. Esta assiduidade deve-se a três características que ali encontro regularmente: qualidade do conteúdo, qualidade na forma como esse conteúdo é apresentado, pertinência do conteúdo.

Na última publicação o autor, David, escreve sobre os dados de um estudo que abordei em 2016, nesta publicação que intitulei pobres rainhas de emergência. É reconfortante verificar que o David também destaca os dados deste estudo: Worker regulation of emergency queen rearing in honey bee colonies and the resultant variation in queen quality  (Insectes soc. 46, 372–377 (1999)).

A construção não aleatória de mestreiros.

Em torno dos dados, David destaca na sua publicação que as abelhas no processo de construção de mestreiros/realeiras de emergência:

  • Elas escolhem predominantemente ovos.
  • Quase 70% das realeiras iniciadas foram iniciadas quando o alvéolo continha um ovo, em vez de uma larva. Além disso, a maioria dos ovos escolhidos tinha três dias de idade.
  • Se você considerar que havia 6 escolhas possíveis (ovos de 1, 2 ou 3 dias e larvas de 1, 2 e 3 dias), é impressionante que 34% de todas as realeiras produzidas eram de ovos de 3 dias.
  • Na verdade, verifica-se que apenas cinco escolhas foram feitas, pois nenhuma das realeira foi iniciada a partir de larvas de 3 dias.
  • Além disso, mais de 60% das realeiras produzidas a partir de larvas de 2 dias foram subsequentemente demolidas.
  • As abelhas escolhem fazer rainhas a partir dos ovos mais velhos ou das larvas mais jovens.

como Chris Hiatt, apicultor com 20 mil colónias de abelhas, controla a varroose

Em baixo deixo a tradução de uma parte de um guia com a descrição da estratégia seguida por Chris Hiatt, apicultor “comercial” (profissional) norte-americano com 20 mil colónias, para controlar a varroose nas suas colónias. Recomendo a leitura de todo o documento, que apresenta testemunhos de mais apicultores com operações apícolas de grande dimensão e assim como uma abordagem sumária onde se identifica as vantagens e limitações de uma variedade de medicamentos e protocolos utilizados por estes apicultores para o controlo da varroose.

“Nos últimos anos, Chris usou uma combinação de métodos para controlar o Varroa:
• monitorização;
• interrupção da criação;
• uma variedade de tratamentos químicos.

Essa combinação geralmente contribui para a sua operação atingir sua meta de não mais de 35% de perdas de colónias, o que é melhor que a média nacional. Chris observou que uma perda anual de 15% era a norma há 15 anos, e era de 10% antes disso.

Monitorização
A empresa monitoriza os ácaros na primavera e no outono, e a amostragem é feita em apiários escolhidos e em 10 a 15 colmeias por apiário. Chris refere que espera ter altas cargas de ácaros depois de extrair o mel, e a monitorização é o foco depois da extracção. “Você tem que acompanhar e monitorizar, especialmente no outono e na primavera quando faz tratamentos contra os ácaros. É preciso voltar e verificar se funcionou e reduziu os ácaros abaixo do limiar”, disse ele. “Se você deixar os números de ácaros ficarem muito altos, os vírus já estão lá e são bombas-relógio.”

Rotação dos medicamentos com a utilização do timol
A operação de Chris usa o produto com timol Apiguard® na sua rotação de tratamentos químicos. A empresa aplica Apiguard® na primavera, entre as florações da amendoeiras e macieiras, e novamente em maio antes
de as colónias irem para o Dakota do Norte. Em julho, a empresa usa ácido oxálico entre a primeira e a segunda extração de mel. No final de agosto e início de setembro, Chris usa amitraz na forma de tiras Apivar®. Assim que as colónias voltam à Califórnia, a empresa aplica o Apiguard® novamente em outubro e novembro. “Depois de termos feito um tratamento com Apivar®, tratando com Apiguard®, isso realmente as limpa”, disse ele. As colmeias que invernam indoor em Idaho também recebem um tratamento com oxálico. No total, soma cinco ou seis tratamentos por ano.

Evitar a resistência nos ácaros tornou-se uma prioridade depois da empresa familiar ter sofrido grandes perdas no final dos anos 90 e início dos anos 2000, quando a resistência dos ácaros aumentou para o tau-fluvalinato e depois ao cumafos. Chris refere que os benefícios de usar esta rotação de medicamentos superam os custos. “Apiguard® é muito caro, mas nós o vemos apenas como uma rotação necessária ao amitraz”, disse ele. “O Apivar® também é caro, mas você precisa manter suas colmeias vivas, então nós apenas vemos isso como um mal necessário.” Ele disse que o oxálico é mais barato, mas o trabalho necessário para aplicá-lo torna-o caro.

Divisão e introdução de novas rainhas
Chris referiu que a operação também divide todas as suas colónias depois das amendoeiras e novamente depois das macieiras, e as contagens de ácaros ficam mais baixas por causa desta interrupção da cria. “Esta é uma forma de controle de ácaros”, disse ele. A empresa também introduz novas rainhas em 75% a 80% das suas colónias todos os anos. A sua operação começou ainda a usar várias centenas de rainhas do projeto de criação em Hilo, Havai, com o traço Varroa Sensitive Hygiene (VSH). Chris também usa linhas de rainhas Purdue Mite-Biter na renovação de rainhas de verão e outono. “Estamos tentando tudo”, disse Chris. A empresa usava apenas um tratamento por ano até cerca de 2010. “Fazíamos um no outono e dividimos tudo na primavera, e isso era o suficiente … mas esta nova realidade bateu-nos à porta como a todo mundo.

Ele vai precisar de adicionar outro tratamento à rotação num futuro próximo e está a considerar invernar mais colónias em ambientes fechados (indoor).
Como conselhos gerais, Chris recomenda ir a convenções e networking e disse que ele e sua família aprenderam muito com as conversas com outros apicultores e com o envolvimento no setor.”

fonte: https://honeybeehealthcoalition.org/wp-content/uploads/2021/06/Commercial_Beekeeping_060621.pdf

entrevista a um ácaro varroa

Em baixo deixo a tradução da entrevista que a investigadora francesa Gabrielle Almecija fez a um ácaro varroa.

Entrevista a um ácaro varroa
O ácaro varroa (Varroa destructor) é uma das maiores ameaças às abelhas e tem causado perdas de colónias em quase todo o mundo. Pequeno e secreto, esconde-se nas abelhas e em alvéolos, na maioria das vezes fora da vista do apicultor. Para controlar o ácaro, têm sido usados acaricidas desde os primeiros dias de sua descoberta, mas o ácaro sobrevive. Perguntei a um ácaro varroa como fazem isso.

Desde a sua chegada às colónias de Apis mellifera, os apicultores tentaram muitos métodos para mantê-lo afastado. Como você combate essas ações?
É difícil! Os métodos dos apicultores têm eficácia variável e temos de nos adaptar constantemente para sobreviver. Esperamos que, como muitos de nossos primos, possamos desenvolver formas de resistir e tornar os tratamentos ineficazes. Podemos resistir de várias maneiras: mudando nossa fisiologia (engrossando nossa cutícula para criar uma barreira física), através do metabolismo (excretando o acaricida) e por mutação (modificando o alvo acaricida para que o tratamento seja menos eficaz). Algumas formas de resistir têm um alto custo fisiológico para nós, por isso só desenvolvemos resistência se for necessário.

O que você desenvolveu contra o acaricida tau-fluvalinato que é o ingrediente ativo em produtos como o Apistan?
Bem, usamos estratégias diferentes dependendo de onde estávamos localizados. Na Europa e nos EUA, por exemplo, desenvolveram resistência de maneiras diferentes. Para entender como desenvolvemos resistência, necessitamos saber como o tau-fluvalinato nos mata. O taufluvalinato é um inseticida da família dos piretróides II. Este grupo de inseticidas é neurotóxico. Quando o tau-fluvalinato entra em nós, ele tem como alvo o canal de sódio. Quando encontra seu alvo, ele se liga a ele e faz com que nosso sistema nervoso funcione mal. Algumas horas depois, ficamos paralisados ​​e morremos.
Para evitar isso, desenvolvemos dois tipos de resistência. A primeira é metabólica. Aumentamos nossas enzimas desintoxicantes (oxigenase, Cytrochompe P450).
A segunda é uma mutação do alvo do acaricida (modificamos ou aumentamos o alvo). As mutações muitas vezes tornam o alvo muito difícil de reconhecer, de modo que o acaricida torna-se ineficaz. Na Europa, parece que desenvolvemos a mutação L925V. No entanto, alguns ácaros nos EUA desenvolveram outras mutações. Ambos os métodos de resistência têm um custo para nós e, após alguns anos sem exposição ao tau-fluvalinato, baixamos a guarda e voltamos a ficar suscetíveis.

Os apicultores usam amitraz há muitos anos. Você encontrou uma maneira de resistir a isso?
Vivemos com amitraz há mais de 40 anos, mas é difícil desenvolver-lhe resistência. No entanto, alguns dos meus primos ácaros (Rhipicephalus spp. e Tetranychus spp.) desenvolveram resistência ao amitraz. Mutações do alvo e resistência metabólica foram descritas por pesquisadores. Esses primos precisam sobreviver vários tratamentos de amitraz a cada ano. Na apicultura é diferente. Devemos sobreviver apenas a um único tratamento com Amitraz por ano, mas é um tratamento longo. Hoje, alguns de nós podem sobreviver a isso. No momento, ninguém entende completamente como fazemos isso. Sobrevivemos melhor agora do que há alguns anos, quando os apicultores usavam o mesmo acaricida ano após ano. Desde então, reduzimos lentamente nossa vulnerabilidade ao tratamento, mas muitos apicultores ainda não perceberam isso.

Os apicultores podem usar uma estratégia para forçá-lo a permanecer sensível a um acaricida?
Não temos interesse em desenvolver ou permanecer resistentes a um acaricida se não estivermos expostos a ele. Em alguns casos, alguns de nós que desenvolveram resistência a um acaricida têm menos descendentes do que aqueles que não desenvolveram. Hoje, vários acaricidas com diferentes ingredientes ativos estão disponíveis. Se os apicultores usaram um acaricida diferente de um ano para o outro, somos forçados a desenvolver resistência ao acaricida mais recente usado. Achamos muito difícil manter diferentes tipos de resistência, então precisamos perder um tipo de resistência para poder desenvolver outro. A alternância de acaricidas reduz nossa resistência. Mas se os apicultores não usarem essa estratégia, nossa resistência ao amitraz provavelmente aumentará, assim como aconteceu com o tau-fluvalinato.

Avaliação da resistência do ácaro ao tau-fluvalinato e amitraz
Em França, APINOV, um centro científico de apicultura e treinamento, está trabalhando com a Vita Bee Health neste projeto. A suscetibilidade aos ácaros é avaliada com um bioensaio. Os ácaros são contaminados com diferentes concentrações de amitraz e tau-fluvalinato. Ao aplicar diferentes concentrações, a suscetibilidade ao amitraz e ao tau-fluvalinato pode ser categorizada em três classes:
• suscetível: mortalidade superior a 75%
• moderadamente resistente: mortalidade entre 40% e 75% • altamente resistente: mortalidade inferior a 40%.

O ensaio foi conduzido de 2018 a 2020. Um total de 41 populações de ácaros foi testada para resistência ao amitraz e 33 ao taufluvalinato. A suscetibilidade ao ácaro foi mapeada para tau-fluvalinato e amitraz.
Na França, as populações de ácaros mostram um alto nível de suscetibilidade
a amitraz e tau-fluvalinato (conforme confirmado em ensaios de campo).
As variações resultam das diferentes práticas de apicultores individuais. Por exemplo, os apicultores orgânicos têm ácaros que são principalmente suscetíveis a amitraz e tau-fluvalinato. Apicultores que usam amitraz há muitos anos têm ácaros suscetíveis ao tau-fluvalinato. Essas diferenças resultam do custo para o ácaro desenvolver resistência – se o acaricida não for aplicado, não há necessidade de desenvolver resistência.
No entanto, o desaparecimento do traço de resistência pode levar muitos anos (quatro anos para o tau-fluvalinato; desconhecido para o amitraz). O alto nível de suscetibilidade ao amitraz e ao tau-fluvalinato observado na França é uma boa notícia no combate ao ácaro: ácaros suscetíveis ainda estão presentes na população em geral e podem reduzir a velocidade de desenvolvimento de resistência em outras populações.
O objetivo deste trabalho é determinar maneiras de reduzir a resistência da varroa ao acaricida por:
• estratégias de tratamento que podem ser usadas para reduzir a resistência ao acaricida
• alterando os parâmetros do tratamento (por exemplo, duração e tempo dos tratamentos).

fonte: https://www.vita-europe.com/beehealth/wp-content/uploads/BC-FEBRUARY-2021-Gabrielle-Almecija.pdf

comparação entre a eficácia e a sensibilidade de duas técnicas de avaliação da taxa de infestação por varroa em abelhas adultas

Todos pretendemos que as técnicas que utilizamos para avaliar a taxa de infestação por varroa em abelhas adultas sejam muito precisas, não dêem falsos negativos e contribuam para melhorar as nossas tomadas de decisão acerca da necessidade de tratar e em que momento tratar. Como podemos ver os resultados mais confiáveis para avaliar a taxa de infestação em abelhas adultas são alcançados com a utilização de água com sabão/detergente quando comparados com os obtidos através de outra técnica submetida a avaliação, a polvilhação de abelhas com açúcar de pasteleiro.

Detergente limpa vidros, o detergente que prefiro utilizar pata testar a taxa de infestação em abelhas adultas.

Sumário: A infestação de colónias causada por Varroa destructor é uma grande preocupação na indústria apícola, pois muitas vezes resulta em perdas de produção e redução da sobrevivência das colónias. Ao longo dos anos, vários métodos de diagnóstico foram desenvolvidos para estimar os níveis de infestação de Varroa em uma colónia, sendo a Lavagem com Água com Sabão (SWW) e o Sugar Shake (SS) [polvilhação de abelhas com açúcar de pasteleiro] os métodos mais utilizados. No entanto, a eficácia e a sensibilidade deste último permanecem obscuras. Isso representa um risco potencial para os apicultores que usam SS [polvilhação de abelhas com açúcar de pasteleiro], pois pode levá-los a subestimar o nível de infestação de suas colónias, potencialmente retardando a aplicação do tratamento. O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia e sensibilidade do SS em comparação ao SWW “padrão ouro”, para a detecção de V. destructor em abelhas adultas. Noventa e nove amostras foram coletadas e divididas em 3 grupos de acordo com a taxa de infestação (IR): baixa (<3%); médio (3,01-5,0%); e alta (≥5,01%). Verificou-se que os métodos SS e SWW apresentaram 76,6% e 100% de eficácia na remoção do ácaro, respectivamente (p< 0,05). A sensibilidade do SS foi menor em relação ao SWW. Em amostras com IR baixo, 5 delas resultaram em falsos negativos e 23 tiveram IR mal estimado. Isso não ocorreu em amostras com IR médio ou alto. Nossos resultados sugerem que o método SS é menos eficiente na detecção e remoção de ácaros foréticos em amostras de abelhas adultas, o que pode subestimar os níveis de infestação de Varroa, especialmente quando o número de ácaros é baixo.

fonte: http://revistas.udec.cl/index.php/chjaas/article/view/7446/6756

Abelhas polvilhadas com açúcar de pasteleiro para avaliar a taxa de infestação por varroa.

avaliação da infestação por varroa através do corte da criação de zângãos

Hoje, entrei num dos meus apiários a 600 m de altitude mesmo em cima das 7h30, e tinha na agenda fazer 4 tarefas: 1) fazer a última inspecção a meia-dúzia de núcleos para entregar a um cliente; 2) colocar quadros com criação a emergir em núcleos com rainha em postura desde há uma semana para os “acelerar” e produzirem este ano no castanheiro; 3) avaliar a infestação por varroa através do corte da criação de zângãos em 10% das colónias do apiário — neste caso em três colónias; 4) transferir meia-dúzia de colónias para os 900 m de altitude. Por volta das 12h30 estava a chegar a casa para almoçar. Agora no período pós-almoço faço este descanso activo escrevendo estas linhas.

Sobre o a tarefa 1) acho que o meu cliente vai ficar satisfeito. O padrão de postura das rainhas é este que o quadro da foto em baixo ilustra.

Sobre as tarefas 2) e 4) não há fotos para as ilustrar. Mas garanto que foram realizadas ; )!

O que mais me importa nesta publicação é ilustrar a tarefa 3): avaliar a infestação por varroa através do corte da criação de zângãos em 10% das colónias do apiário — neste caso em três colónias. Relativamente a este tipo de avaliação devo deixar três notas: é menos fidedigno que o teste da lavagem de abelhas adultas segundo os especialistas; enquanto na lavagem de abelhas adultas o limiar de infestação a recomendar um tratamento imediato é de 3% em regra, já o limiar de infestação por varroa avaliado na criação de zângãos a partir do qual se recomenda um tratamento imediato é de 15%; a avaliação de apenas 10% das colónias nos apiários deve ser feita nas colónias mais fortes e em zonas do apiário susceptíveis de receberem mais abelhas da deriva, isto é nas extremidades dos assentos.

Tendo tudo isto em consideração deixo em baixo o foto-filme do procedimento numa das colónias que representa o realizado também nas outras duas.

Uma das colónias mais fortes do apiário: mais abelhas, mais altura, mais armazenamento, mais criação, … mais varroa!
E como fazer a desmontagem deste gigante sem partir as “molas”? Primeiro etapa, tecto voltado para cima e colocado em cima de uma das caixas ao lado para evitar/minimizar o esmagamento de abelhas. Há cerca de dois anos vi um especialista em apicultura colocar meias-alças de chapão em cima da superfície lisa do tecto da colmeia vizinha… fiquei arrepiado!
Tirar a meia-alça, ainda vazia. Vergonhosamente fácil!
Tirar os quadros necessários do sobreninho para este ficar com um peso razoável, antes de o mobilizar. Afinal é de apicultura mobilista que se trata meus amigos e amigas. Os quadros são móveis, não há necessidade de pegar em tudo de uma só vez. Não estou a treinar para o campeonato mundial de alterofilismo!
E depois da carga em cima ter sido tirada, no ninho e na posição 9 tenho estes quadros de criação intensiva de zângãos. É a este quadro que eu pretendo chegar…
… para cortar os opérculos da criação de zângão…
… e a sacudir em cima de uma superfície plana e contrastante — um tecto por exemplo. A olho parece-me que a taxa de infestação é inferior a 2-3%, muito aquém do limiar de 15% que recomenda um tratamento imediato. Ok, mais tranquilo… até daqui mais ou menos um mês.
O quadro voltou ao local original. Interessa-me ter estes zângãos das colónias mais fortes nas redondezas.
O prenúncio das próximas semanas.

a grelha excluidora de rainhas: um equipamento que ajuda na prevenção e/ou controlo da enxameação?

Na publicação do passado dia 19 de abril mencionei a utilização de uma mescla de técnicas para, entre outros objectivos, levar a cabo o controlo da enxameação numa das colónias do apiário. Nesta colónia, a da foto em baixo, tirada a 19 de abril, passam hoje 23 dias — tempo para se ter cumprido um ciclo completo da criação de obreiras.

Colónia do modelo Langstroth submetida a uma mescla de técnicas: rainha foi confinada ao ninho e este submetido parcialmente à técnica “cura radical da enxameação”.

Hoje na inspecção às colónias do apiário, iniciada por volta das 7h30 e terminada por volta das 11h30, voltei a esta colónia, uma das sete ali estacionadas que apresentam a configuração ninho+sobreninho com a excluidora de rainhas a confinar a rainha no ninho desde o passado dia 19 de abril.

Vista parcial do apiário.
Os principais eventos: a 3 de março coloquei o sobreninho; a 19 de abril terei visto alguns cálices reais com ovos e procedi a uma versão mais leve da “cura radical da enxameação”; sacudi as abelhas para o ninho; a rainha terá também caído para o ninho? sim caiu, confirmado a 24 de de abril.

O passado recente deste colónia está relatado. Vamos agora ao seu presente. Como referi em cima, hoje inspeccionei todas as colónias deste apiário, coloquei mais 7 meias-alças e dois sobreninhos. Das 21 colónias em produção neste apiário estimo vir a colher um mínimo de 400 kgs de mel e um máximo de 600 kgs, tudo dependendo da meteorologia nas próximas 4 semanas. Sobre esta colónia em particular, que representa muito bem 6 das 7 colónias nesta configuração, as fotos ajudam a fazer a descrição.

Nesta foto estão as peças constituintes daquilo em que esta colmeia se tornou desde o dia 3 de março até ao dia de hoje. O ninho, a excluidora, o sobreninho e a meia-alça.
Ninho desbloqueado. Foto do quadro 9. Os restantes são semelhantes.
Foto do quadro 10. Esta colónia hoje tinha criação nos 10 quadros Langstroth.
Coloquei uma cera laminada no ninho, não porque este estivesse bloqueado, mas porque precisei de tirar um quadro com criação para uma das várias colónias onde introduzi rainha em gaiola e para acelerar o seu desenvolvimento (ver aqui).

Inspeccionado o ninho, sem ter observado sinais de qualquer impulso enxameatório, poderei concluir que a utilização da técnica “cura radical da enxameação” surtiu efeito nesta colónia? Em duas outras colónias, noutro apiário, o resultado da utilização desta técnica não foi o pretendido (ver aqui no primeiro parágrafo). Neste caso, foi a técnica a causar o efeito desejado? Para mim é impossível concluir definitivamente por um sim ou por um não relativamente à técnica e a uma eventual relação de causa-efeito. Como convivo bem com a ausência de conclusões definitivas, convivo bem com questões em aberto, vou continuar a experimentar e a observar.

No sobreninho por cima da excluidora, o “desastre” era este:

Quadros com as dimensões do ninho praticamente cheios de néctar/mel novo. Ano após ano, é este o resultado final na grande maioria das colónias com esta configuração. Nada de novo debaixo do céu, portanto.

Nas restantes 6 colónias com a configuração igual à desta (relembro, ninho+excluidora+sobreninho) em 5 encontrei praticamente o mesmo: ninho bastante desbloqueado; ausência de sinais de impulso para enxamearem; rainha a dominar o ninho, reclamando aquele espaço para si, não se deixando bloquear por mel e pão-de-abelha; sobreninhos com os 10 quadros praticamente cheios de néctar a uma semana de se iniciar a sua operculação, comunidades produtivas e estabilizadas aos meus olhos.

Sobre este sobreninho adicionei hoje uma meia-alça. A ver se a enchem! Estou optimista, o rosmaninho ainda está a dar alguma coisa, vem a silva e os cardos mais adiante e ainda algum castanheiro lá para a terceira semana de junho.

Voltando ao título e para concluir: uma vez mais nas minhas colónias, no meu território, com as minhas abelhas e com o meu maneio habitual 6 em 7 colónias cheias de abelhas que nem um ovo cheio, não apresentaram indícios de “febre” de enxameação. Na sétima, vi alguns mestreiros, 4 ou 5. Enxameação ou substituição? Vi a rainha, já delgada, e inclino-me para enxameação. Vou deixar seguir em frente para tirar a limpo.

Assim sendo, e porque esta observação de hoje se correlaciona positivamente com as observações deste ano efectuadas noutros apiários e com as observações realizadas em anos anteriores, a questão para mim deve ser formulada nesta forma: a grelha excluidora de rainhas: um equipamento que ajuda na prevenção e/ou controlo da enxameação? e não na forma habitual: a grelha excluidora promove a enxameação?

demaree: alguns detalhes

Sobre Demaree e sua proposta para controlar a enxameação sem aumentar o efectivo escrevi várias vezes, por exemplo aqui e aqui.

Ontem voltei a utilizar a técnica na colónia da qual apresento as fotos.

Ontem, 10 de maio esta colónia foi sujeita à técnica Demaree.
Tendo encontrado mestreiros abertos decidi iniciar o controlo da enxameação com esta solução, por forma a não aumentar o meu efectivo.
Localizei a rainha no quadro que coloquei na posição 9. Todos os restantes espaços do ninho foram preenchidos com quadros com cera laminada.
Após os procedimentos tenho, no plano inferior, ninho com rainha confinada por grelha excluidora e, no plano superior, sobreninho com os restantes 9 quadros que transferi do ninho e mais um de cera laminada.

Hoje dia 11, passadas menos de 24 horas sobre este maneio, por volta das 12h30 — com 6 horas de trabalho já realizadas, porque cedo é que se anda melhor — decidi satisfazer uma curiosidade. Como estava o ninho? O que tinha ocorrido neste período de menos de 24 horas? As fotos que tirei falam por si.

O ninho hoje, passadas cerca de 22 horas sobre o procedimento.
O quadro 8, adjacente ao quadro onde encontrei a rainha ontem.
Os alvéolos foram puxados a cerca de 2/3 da altura e a rainha tinha lá iniciado a oviposição.
Detalhe da envolvente próxima.