varroose: repliquem os números, não a estratégia

Na publicação anterior descrevi o caso de um apicultor amigo que depois de 5 tratamentos anuais chegou à última contagem de varroas do ano (em 22 de dezembro) com uma infestação abaixo dos 0,3%.

É possível que alguns leitores tenham feito uma leitura enviezada do fulcro da mensagem, que julguei ter deixado clara. A mensagem para nos lembrarmos é: não deixar a taxa de infestação subir acima de 1% para decidir tratar, tratar um a dois meses antes desta atingir os 3 a 4%, tratar quando a contagem de varroas por 300 abelhas nos dá 3 a 4 varroas e não 9 a 12 — ter bem presente que o número de varroas duplica a cada 30 dias.

Naturalmente que a estratégia tem a sua importância, quanto mais não seja para comunicar aos outros o caminho que seguimos para chegar aos resultados. Mas o caminho pode ser outro, e até um caminho melhor. Dito isto, o que mais deve relevar do caso descrito não são os meios mas sim os números, a taxa de infestação quando iniciamos os tratamentos e a taxa de infestação quando concluímos os tratamentos, e esta na minha opinião e de outros, como Russel Heitkam, desejavelmente não deve ultrapassar 1% em qualquer circunstância.

Se para isso são necessários cinco, três ou dez tratamentos é uma reposta que cada um tem que ser capaz de dar em função das avaliações que fizer das taxas de infestação nas suas colónias.

Para ilustrar estas ideia recorro uma vez mais ao simulador do Randy para nos ajudar a perceber que o que mais importa é replicar os números (os resultados, as taxas de infestação que o meu amigo atingiu a partir de agosto) e não o caminho (os caminhos podem ser outros).

Exemplo de um caso simulado em que 5 tratamentos ao longo do ano não salvam as colónias. Quando tratamos colónias demasiado tarde (com mais de 3 a 5 % de infestação) a eficácia dos tratamentos é mais baixa e o número de varroas presentes no final do tratamento mantém-se elevado. Nestes casos a escalada da infestação para valores estratosféricos acontece rapidamente (num intervalo de tempo de um a dois meses), levando os apicultores à perda do controlo da situação e à perda de quantidade apreciável de suas colónias.

varroose: estudo de um caso

Nos últimos 6 meses tenho acompanhado com uma certa regularidade o maneio levado a cabo por um jovem e amigo apicultor de Coimbra. Entre outros aspectos como a defesa das suas colónias frente à vespa velutina, é o seu maneio para o controlo da varoose que suscita as linhas desta publicação.

Do que sei, em 18 de Julho tratou as suas colónias com Amicel quando a taxa de infestação atingia os 8% em amostras de 300 abelhas adultas. Até esta data tinha efectuado dois tratamentos, um em fevereiro e outro maio. Em finais de agosto uma nova avaliação da taxa de infestação em abelhas adultas indicava uma infestação a rondar 1%. Para se verificar esta evolução de 8% para 1%, e utilizando o simulador do Randy Oliver, a eficácia deste tratamento com Amicel rondou os 95%.

8% de infestação no terreno é equivalente a 24 varroas numa amostra de 300 abelhas. Para se assistir à redução de 24 varroas para cerca de 3 varroas em amostras de 300 abelhas, o simulador indica ser necessário que o tratamento de Amicel utilizado atinja uma eficácia próxima de 95%.

Nada mais fazendo, estas colónias iriam terminar o ano com taxas de infestação a rondar 13% (40 varroas em amostras de 300 abelhas adultas), a colapsarem ou próximo disso.

Mas este jovem e competente apicultor a partir dessa data fez mais dois tratamentos: um no final de agosto com ácido oxálico gotejado e outro no final de outubro com tiras de libertação lenta de ácido oxálico misturado em glicerina. Medida a taxa de infestação pelo procedimento habitual, em 22 de dezembro era inferior a 0,3%, isto é menos de 1 varroa em 300 abelhas.

Partindo de 3 varroas por amostra em finais de agosto para alcançar zero varroas por cada amostra de 300 abelhas adultas em 22 de dezembro a eficácia de cada um dos dois tratamentos de ácido oxálico aproximou-se dos 95%.

No final do ano este apicultor amigo e competente realizou 5 tratamentos e seguiu de perto a filosofia de Randy Oliver nestes meses finais do ano, assim como a de Russell Heitkman. Este último, apicultor californiano, com a família há 40 anos no sector, produz cerca de 90 mil rainhas/ano e trabalha +3000 colónias, tem como princípio não esperar que a taxa de infestação chegue aos 3%, para ele um limiar já demasiado alto e com riscos de os tratamentos falharem; prefere tratar para ter os níveis de infestação abaixo ou igual a 1%: trata não para fazer descer os níveis de infestação mas para evitar que eles subam; não confia cegamente em nenhum medicamento, acredita neles todos, na sua utilização frequente e diversificada**.

Como já escrevi “Assim como para a prevenção da enxameação é necessário andar um mês à frente das colónias, também o controlo da varroose nos obriga a estar, não um, mas dois meses à sua frente.

*https://scientificbeekeeping.com/oxalic-acid-treatment-table/

**https://honeybeehealthcoalition.org/wp-content/uploads/2021/06/Commercial_Beekeeping_060621.pdf

questionário “levantamento de problemáticas na notificação de doenças apícolas”

O investigador João Santos solicitou-me a divulgação do questionário em baixo junto da comunidade dos leitores deste blog. Apelo aos companheiros apicultores para que participem, respondendo ao mesmo. Desde já o meu agradecimento para com a V. disponibilidade e deixo o texto que o João Santos me enviou para acompanhar esta publicação, assim como a hiperligação (a azul sublinhado) para acederem ao questionário.

Um dos projetos principais do Laboratório de Genómica Microbiana e Simbiose do Instituto Gulbenkian de Ciência foca-se  nas bactérias do intestino da abelha do mel. Sabemos que as pragas e doenças interferem significativamente no estado destas bactérias benéficas, e estamos interessados em conhecer em maior detalhe quais as principais dificuldades por que passam os apicultores em Portugal, quais os conhecimentos base que possuem na identificação de doenças apícolas e como lidam com as doenças/pragas que surgem nos seus apiários.
Este é um pequeno questionário (cerca de 5 minutos), construído com o auxílio de outros colegas apicultores, para que os participantes o possam preencher de forma completamente anónima. Pretende-se com este questionário organizar os dados e compreender como tem evoluído o conhecimento nesta área e quais os maiores desafios à apicultura atualmente. Por favor, não deixe de colaborar e de enviar a outros colegas apicultores, no sentido de obtermos uma maior participação.

Obrigado pela sua colaboração.

João Santos,
Microbial Genomics and Symbiosis Lab

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdP7ueTC7mWOW5Me-62tXg8ugjoC1ZgZt1ayYm1vjRETVjr3g/viewform

substituição de rainhas com introdução de alvéolos reais: uma técnica falhada

No livro de sumários da Apimondia 2023, que aconteceu recentemente no Chile, podemos encontrar na pg. 133 o sumário do artigo Requeening queenright honey bee colonies with queen cells in honey supers, e que traduzo em baixo:

Introdução de um alvéolo real numa colónia (foto do magnífico blog The Apiarist)

Sumário: Os apicultores canadianos substituem anualmente um subconjunto de suas abelhas rainhas, no entanto, o processo de introdução de uma nova
rainha numa colónia de abelhas não tem garantia de sucesso. Apesar do consenso de que é mais eficaz introduzir rainhas em colónias sem rainha, alguns apicultores profissionais introduzem alvéolos reais na alça meleira
em colónias com rainha.

Testámos a taxa de sucesso desta prática introduzindo alvéolos reais em 100
colónias com rainha no sul de Alberta durante um fluxo de mel. A maternidade dos zângãos descendentes resultantes foi determinada usando DNA mitocondrial para identificar as rainhas em postura.

Nossos resultados mostram que as novas rainhas substituíram com sucesso a
rainha original em apenas 6% das colónias, sugerindo que a prática não resulta na aquisição de liderança pela nova rainha na maioria das colónias. Além disso, nossos resultados mostram que a substituição por rainhas filhas é mais comum (13%) do que a substituição de novas rainhas ao introduzir alvéolos reais em colónias durante um fluxo de mel.

Esta técnica de substituição de rainhas de forma massiva e com pouca mão de obra foi-me sugerida em tempos no ano de 2012/2013 por um conhecido técnico apícola nacional. Porque não confiei no sucesso da mesma nunca a utilizei. Boa intuição!

abelha africanizada, a abelha assassina… de ácaros varroa

No artigo de revisão Varroa destructor infestation levels in Africanized honey bee colonies in Brazil from 1977 when first detected to 2020, publicado este ano na revista Apidologie, é apresentada a dinâmica dos níveis de infestação por Varroa destructor em abelhas africanizadas no Brasil nos últimos 45 anos e são elencados os factores que mais vezes são sugeridos pela comunidade científica para explicar o baixo dano nas colónias de abelhas africanizadas no país. Deixo em baixo a tradução do sumário do artigo desejando que a apicultura brasileira assim continue nos próximos 45 anos.

fonte: https://www.apacame.org.br/mensagemdoce/87/artigo.htm

Sumário: Os objetivos deste artigo de revisão foram examinar a dinâmica dos níveis de infestação por Varroa destructor em abelhas africanizadas (AHB) no Brasil, desde que esse ácaro parasita foi detectado pela primeira vez em 1977. Dados de artigos de pesquisa publicados, resumos de conferências, resumos de congressos dados obtidos de pesquisadores académicos e inéditos, foram incluídos. Embora as infestações por ácaros tenham variado significativamente ao longo dos anos, não houve indicações de que a varroa tenha impactado negativamente a apicultura brasileira. Os níveis médios de infestação permaneceram em torno de 4,5 ácaros por 100 abelhas adultas, com uma mediana de 3,8, durante os últimos 45 anos. As taxas de infestação de abelhas adultas e de crias operárias foram semelhantes, embora com alguma variação geográfica, incluindo uma tendência para infestações mais elevadas nas regiões do sul do país. Vários pesquisadores sugeriram que os baixos níveis de infestação podem ser uma consequência do clima tropical e subtropical, da hibridização das abelhas, dos comportamentos higiénicos e catação (grooming), dos fatores genéticos das abelhas e dos ácaros, do baixo stresse nutricional, das práticas de maneio, do baixo stresse migratório e das condições ambientais. A ausência de necessidade de tratamento químico das infestações por varroa facilita o maneio do apiário e favorece a apicultura orgânica em todo o país. No entanto, embora as colónias de AHB e a apicultura no Brasil prosperem sem a necessidade de medidas de tratamento, mais pesquisas devem ser realizadas para avaliar melhor o impacto que as baixas infestações por ácaros Varroa têm na saúde e produtividade das colónias de AHB.”

fonte: https://www.apacame.org.br/mensagemdoce/87/artigo.htm

tiras de libertação lenta de oxálico vão ser colocadas no mercado dos homologados?

A empresa Vita Bee Health, maior empresa mundial de produtos sanitários para abelhas melíferas, está a lançar no mercado um novo acaricida de libertação lenta de ácido oxálico veiculado através de tiras de fibra, com a marca VarroxSan.

VarroxSan, by Vita Bee Health

Segundo a empresa: “VarroxSan utiliza uma tira de fibra resistente, evitando ou retardando a remoção pelas abelhas, permitindo que o produto funcione bem em todas as condições e garantindo uma elevada eficácia com uma dose relativamente baixa de ingrediente ativo. Nosso sistema de impregnação exclusivo garante que cada tira contenha uma quantidade idêntica de ingrediente ativo, proporcionando sempre uma dose confiável e consistente.

Através de uma série de estudos realizados por laboratórios independentes e institutos de investigação, em diversas condições geográficas e climáticas, o VarroxSan alcançou uma eficácia média de 96,80%.

O ácido oxálico di-hidratado é um acaricida de contato letal para os ácaros varroa em contato físico com ele. O modo de ação ainda não é compreendido totalmente, mas sabe-se que o baixo pH desempenha um papel fundamental.” (fonte: https://www.vita-europe.com/beehealth/products/varroxsan-varroa-control/)

Respondendo à questão do título, vindo de quem vem, Vita Bee Health, será muito provável que este novo acaricida venha a ser homologado na Europa. Vamos ver a que preços!

vespa velutina: um quarto das receitas do mel não chegam para pagar o dano

Economic Costs of the Invasive Asian Hornet on Honey Bees é um artigo que vai ser publicado no próximo novembro, na revista Science of The Total Environment. É um artigo muito elucidativo e enfático sobre o impacto económico que a Vespa velutina tem sobre a apicultura francesa nos dias de hoje.

O estudo procurou dar uma resposta precisa, com base em dados de grande escala e técnicas de modelagem, aos custos económicos da predação da V. velutina sobre as abelhas melíferas em França, através de estimativas relativas a estes três pontos: (i) o risco de mortalidade das colónias de abelhas relacionado com as vespas, (ii) o custo económico da perda de colónias para os apicultores e (iii) o impacto económico da substituição de colónias em comparação com as receitas do mel às escalas regional e nacional.

As conclusões são: “Estimamos uma densidade global de 1,07 ninhos de vespas asiáticas/km2 na França, com base no registro de campo de 1.260 ninhos em uma área pesquisada de 28.348 km2. No entanto, esta densidade de predadores estava espalhada de forma heterogénea por todo o país, bem como a distribuição das colónias de abelhas geridas. No geral, este risco de mortalidade de colónias de abelhas relacionado com vespas pode atingir até 29,2% das colónias dos apicultores à escala nacional todos os anos num cenário de elevada predação. Este custo nacional poderá atingir 30,8 milhões de euros por ano devido à perda de colónias, o que representa para os apicultores um impacto económico da substituição de colónias de 26,6% das receitas do mel.

Esta publicação visa colocar o “problema velutina” na exacta magnitude do mesmo: é um problema enorme para a apicultura dos países onde já está instalada e sê-lo-á naqueles onde se vier a instalar num futuro próximo — segundo alguns estudos a V. velutina será capaz de colonizar uma grande diversidade de habitats na Europa e regiões de fronteira, dos países nórdicos até às zonas costeiras do norte de África.

varroose: como trataria as minhas colmeias no litoral centro em 2024

Se… tivesse colmeias no litoral centro como as trataria em 2024? Vou utilizar alguns dados do terreno obtidos no acompanhamento que fiz conjuntamente com o Marcelo às suas colmeias e apresentar algumas simulações feitas no simulador do Randy Oliver parametrizado por mim para o ciclo de desenvolvimento de colónias no litoral centro.

Simulador parametrizado para o litoral centro: aumento da postura de meados de setembro a meados de março e declínio da postura de início de abril até início de setembro.
Nesta simulação introduzi os dados que recolhi no apiário do Marcelo, de acordo com o que foi feito e avaliado a partir de julho, para simular o número de varroas que teria no final de 2023: não fazendo mais nada as colónias não colapsarão e a população de varroas será de 2109 indivíduos no final do ano.

Se por hipótese começar o ano de 2024 nas minhas colmeias com uma população de 2109 varroas, o seu controlo ao longo do ano será muito difícil e arriscado. Mesmo com 4 tratamentos eficazes (80%-90%) e muito eficazes (95% ou acima) as minhas colmeias ultrapassariam os limiares de dano económico — mais de 15 varroas por 300 abelhas, como se pode ver na simulação em baixo.

A opção de fazer o primeiro tratamento de 2024 apenas em março prende-se com estes dois aspectos: 1) a impossibilidade legal de utilizar sintéticos num período de colecta de néctares no litoral centro, o período de janeiro a março; 2) temperaturas habituais abaixo das desejáveis nos meses de janeiro e fevereiro para a aplicação dos orgânicos de acordo com o recomendado pelos fabricantes.

Como vemos da simulação em cima os quatro tratamentos, nas condições simuladas, são suficientes para evitar o colapso das colónias, mas não são suficientes para evitar o prejuízo económico na sequência de se terem atingido taxas de infestação demasiado altas — acima das 15 varroas por 300 abelhas. Chegado aqui, entre a espada e a parede, decidi simular adicionando um quinto tratamento. Vejamos em baixo o resultado:

Com a adição deste quinto tratamento com eficácia elevada, no outono, permite-me chegar ao final do ano com uma população de varroa baixa: 211 indivíduos.

Começar o ano de 2024 com 211 varroas em lugar das mais de duas mil é um aspecto crítico para ter a população abaixo dos limiares de dano económico, com as colónias em pleno estado de saúde e com o máximo potencial produtivo ao longo de todo o ano como me mostra a simulação seguinte:

Com 211 varroas no início do ano, com os mesmo 5 tratamentos com uma taxa de eficácia de 90%, tratar as colónias um mês antes do estritamente necessário, isto é com taxas de infestação de 1% em lugar das taxas recomendadas de 3%, seria o caminho que seguiria em 2024.

Como vemos a introdução do quinto tratamento nas condições simuladas muda o jogo a nosso favor: permite entrar num circulo virtuoso e atingir o final do ano com um número de varroas inferior a 200 que me permitirá olhar para o ano seguinte com mais tranquilidade no que respeita ao controlo da varroose.

E se… decidisse voltar aos dois tratamentos anuais, tratando quando a varroa atinge os 3% de taxa de infestação?

Entrando com 191 varroas no início do ano e mudando para uma estratégia de dois tratamentos com 95% de eficácia colocados em colónias no momento que atingissem cerca de 3% de infestação terminaria o ano com 6562 varroas.
No ano seguinte, e mantendo a mesma estratégia, em setembro teria as colónias a colapsar.

Pois, qualquer semelhança com a realidade…

Notas: 1) não vou esquecer que são apenas simulações, não é a realidade. Mas é uma ferramenta mais que me ajudará a reflectir e até a planear de forma mais informada.

2) Será altura de se mudar o paradigma do PAN atribuir uma comparticipação para apenas dois medicamentos, que em muitos casos serão insuficientes para um efectivo controlo da varroose ao longo do ano. Só os meus dois cêntimos para a conversa!

varroose: 4 tratamentos ano serão suficientes?

Nesta publicação descrevo o caso dos tratamentos e monitorização de infestação que o meu amigo Marcelo Murta levou a cabo nas suas colmeias.

Da monitorização feita a 19 de julho obteve taxas de infestação a rondar os 8%, isto é 24 varroas por cada 300 abelhas. Utilizando o simulador do Randy Oliver para obter 24 varroas nessa data foi necessário partir do pressuposto de que as colónias entraram no ano com uma população de 180 varroas (simulei este valor porque não possuo dados reais da taxa de infestação anteriores a esta data; ver quadrícula “mite population”, no fundo à esquerda ).

Para obter um valor próximo das 24 varroas em meados de julho (26 é valor, a azul claro na quadrícula sobreposta à linha azul claro, obtido por lavagem em alcool de “1/2 cup of bees”, isto é, cerca de 300 abelhas). Podemos ver que caso nada tivesse sido feito as colónias colapsariam à entrada de setembro, de acordo com o simulador.

Como descrito na publicação, o Marcelo fez um tratamento em finais de Julho para fazer baixar a taxa de infestação. No último dia de agosto fez uma segunda monitorização da taxa de infestação e os valores encontrados andavam em torno de 1% (3 varroas em 300 abelhas).

Para baixar das 24 varroas em meados de julho para 3 varroas no final de agosto é necessário introduzir no simulador um tratamento com cerca de 95% de eficácia, isto é, que mata 95 varroas em cada 100 (ver triângulo negro na quadrícula referente à primeira quinzena de agosto com um tratamento com 95% de eficácia).

Como vemos da simulação em cima, mesmo com a elevada eficácia do tratamento de finais de julho, de outubro em diante o simulador apresenta valores superiores a 15 ácaros (ver valores azul no interior dos pequenos quadrados brancos), valor a partir do qual se observa um declínio no desempenho da colónia, em geral (Randy Oliver).

Em boa hora o Marcelo optou por fazer, nesse último dia de agosto, o quarto tratamento do ano, recorrendo ao ácido oxálico gotejado. De acordo com Randy Oliver é expectável este tratamento atingir uma eficácia entre 80%-95%, quando as colónias não apresentam criação operculada. Fiz mais uma simulação para contemplar este tratamento, como podem ver em baixo.

Introduzi no simulador este tratamento com uma estimativa de 85%, um valor intermédio no intervalo de eficácia prevista para este tratamento (ver triângulo negro na quadrícula referente à primeira quinzena de setembro com um tratamento com 85% de eficácia). Nada fazendo até ao final do ano, e de acordo com o simulador, as colónias terão 535 ácaros no final de dezembro — um valor 10x superior ao aconselhado pelos especialistas franceses, 50 ácaros à entrada do novo ano.

Sei que é intenção do Marcelo, fazer um 5º tratamento antes de finalizar o ano, até porque provavelmente terá uma taxa de infestação superior uma vez que não se verifica um ligeiro aumento de criação no outono, típico de um clima temperado do interior do país, mas um aumento de criação pronunciado, o típico no litoral norte e centro.

Finalizando com a questão do título, a resposta é que neste caso e neste ano muito provavelmente 4 tratamentos será curto para o Marcelo atingir as suas expectativas. E cada caso é uma boa fonte de reflexão, desde que não se façam generalizações apressadas. A partir deste não vamos concluir que de norte a sul e de este a oeste do nosso país sejam necessários os mesmos tratamentos e nas mesmas datas. Se for para generalizar apenas isto: 12 dias depois de cada tratamento monitorizem a sua eficácia e utilizem este ou outro bom simulador que vos ajude a tomar decisões informadas. Bom combate!

Simulador do Randy aqui: https://scientificbeekeeping.com/randys-varroa-model/

vespa velutina: os cavalos de troia são ineficazes?

Nos três primeiros vídeos um apicultor galego apresenta-nos a sua experiência e conclusões dos efeitos alcançados com a utilização de cavalos de troia num ninho localizado no interior de uma habitação nos últimos dias de agosto.

Aspectos que considero relevantes: 1) o apicultor verificou que tendo colocado fipronil no abdómen de uma velutina, esta estava morta passada 1h30m mas as restantes que ocupavam o mesmo espaço limitado de uma jaula não estavam; 2) o apicultor enviou no total 175 troianos ao longo de 5 dias, 50 dos quais ao pé do ninho; 3) verificou que dos 50 troianos libertados junto ao ninho nenhum voo directamente para o mesmo; 4) no final destes 5 dias, o ninho localizado continua activo; 5) foram detectados outros 5 ninhos activos nas proximidades, entre 437m e 1100m de distância;

O apicultor conclui que os troianos com fipronil não têm capacidade de eliminar os ninhos. No final confessa que esperava que os troianos com fipronil seria o suficiente para eliminar os ninhos. Neste ponto pergunto se as expectativas deste apicultor são realistas, isto é, podemos esperar realisticamente que libertar 175 troianos num ambiente com 6 ninhos activos os elimine por completo?

Na sequência do vídeo anterior o apicultor colocou este onde nos mostra como eliminou o ninho no dia 29 de agosto, com recurso a várias mechas tóxicas (cipermetrina?) colocadas no mesmo. Aspectos que considero relevantes: 1) o ninho estava instalado quase na totalidade no interior da habitação, ao abrigo das agruras ambientais, em princípio teve condições óptimas para se desenvolver; 2) o ninho tem cerca de 60 cm de altura.
Na sequência dos dois vídeos anteriores o apicultor apresenta este terceiro, onde apresenta o resultado da dissecação que fez do ninho. Tiro o chapéu a este apicultor pelo trabalho que fez e documentação do mesmo. Aspectos que considero relevantes: 1) o ninho apresentava 8 discos com muito poucas larvas, cerca de 150; 2) estima que a população total de indíviduos adultos sejam 1500; 3) mostra um frasco com uma ou duas dezenas do que acha que são futuras fundadoras; 4) refere que no dia 1 de setembro na Galícia as velutinas já baixaram do pico de criação e que isso explica a diminuição de predação das velutinas porque não há necessidade de proteína; 5) conclui que os troianos porque não se dirigem ao ninho não são efectivos; 6) conclui que a diminuição dos ataques às colmeias não se deve aos troianos mas à diminuição de necessidade de proteínas no ninho.
Neste último vídeo temos uma posição oposta acerca da efectividade dos cavalos de troia por parte de um outro apicultor asturiano.

Nesta publicação, com dois anos, observou-se que cada velutina distribui o alimento por oito 8-10 irmãs. Sustentando e informado por estes dados escrevi: “Proposta quantitativa para a preparação de Cavalos de Tróia: Operando com esta média de distribuição de alimento por cada operária V. velutina, e sabendo que no pico de desenvolvimento dos ninhos existem cerca de 2000 a 4000 indivíduos adultos presentes, teremos que preparar entre 50 e 100 vespas se pretendemos eliminar 25% da população do ninho, entre 100 e 200 se o objectivo é eliminar 5o% da população do ninho, entre 200 e 400 se o objectivo é eliminar 100% da população do ninho.

A terminar pergunto se as expectativas deste apicultor são realistas, isto é, podemos esperar realisticamente que libertar 175 troianos num ambiente com 6 ninhos activos os elimine por completo? Será que num ninho com 60 cm de altura, em excelentes condições de abrigo e em finais de agosto, não seria de esperar encontrar mais do que 1500 adultos e 150 larvas e uma a duas dezenas de futuras fundadoras? É de descartar um efeito letal dos troianos em parte da população adulta e larvas que explique estes números baixos? Será possível que todas as diminuições de predação que se relatam após a libertação dos troianos se devam à coincidência de acontecerem precisamente na altura de diminuição de criação?

Na minha opinião não encontro nos três primeiros vídeos evidências que os cavalos de troia não produzam efeito nenhum sobre os ninhos; encontro contudo aspectos que me fortalecem a convicção de que é necessário enviar uma grande quantidade de troianos para eliminar por completo um ninho, como já era minha convicção há dois anos atrás. Na minha opinião, a questão que cada um terá que responder para si, caso acredite nos efeitos desta técnica, é se o procedimento de besuntar o abdómen ou o tórax das velutinas será o mais prático para enviar o número suficiente de velutinas para que causem um grande dano no ninho ou ninhos envolventes aos nossos apiários.