preparar as colónias para o eucalipto que se aproxima: nutrição, controlo da Varroa e gestão da pressão da vespa-asiática

No passado dia 2 de outubro, visitei o Miguel Almeida, apicultor profissional com um efetivo numeroso e apiários na zona de Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis. A visita nasceu de uma conversa sobre nutrição apícola. O Miguel falou-me de alguns ajustes que introduziu na alimentação das colónias, inspirados em recomendações que apresentei no curso Nutrição Apícola Aplicada, que ministrei e que ele frequentou há alguns meses. Como a nutrição é um tema que me interessa particularmente — e porque, muitas vezes, são os pequenos detalhes que fazem a diferença —, marcámos a visita para falarmos sobre esses ajustes.

Depois de um belíssimo almoço, durante o qual falámos de apicultura e de outros temas com ela relacionados, fomos ver algumas colmeias. Ficou claro que o controlo da Varroa e a nutrição são duas prioridades do maneio do Miguel que também partilho: manter a infestação em níveis baixos ao longo do ano e identificar os défices nutricionais, intervindo para os corrigir. No decurso das visitas a quatro dos seus apiários, fui fazendo algumas fotografias que aqui deixo.

No que concerne ao controlo da Vespa velutina (vespa-asiática), à data da visita, o Miguel sentia que os “cavalos de Troia”, por ingestão, não estavam a funcionar tão bem como noutros anos. Entretanto, informou-me de que a situação se alterou. Na altura, com base em alguns detalhes que retirou do curso Nutrição Apícola Aplicada, estava a identificar e a corrigir os fatores nutricionais limitantes que associava à pressão da vespa-asiática. A sua leitura é que, naquele momento, o principal fator limitante não era tanto a energia, fornecida pelos açúcares, mas sobretudo a proteína. Estava a suplementar as colónias com bifes proteicos, procurando compensar défices que decorriam, em grande medida, da pressão das vespas-asiáticas e do conhecido fenómeno de paralisia de voo ou paralisia de forrageio, a que já me referi em diversas publicações.

Observei que, nas proximidades dos apiários, há muita margoriça (Calluna vulgaris). Verifica-se, de facto, entrada recente de néctar e o seu armazenamento em alguns quadros.

É aí que a atenção e a avaliação regular do contexto de cada apiário se tornam importantes. Perante a entrada de néctar, o Miguel não identifica um défice energético que justifique a suplementação com xarope neste momento. Evita também o risco de bloquear os ninhos, o que nesta altura seria contraproducente: pretende manter espaço para a postura da rainha e para a criação de novas abelhas, aumentando a população das colónias para a colheita do eucalipto que se avizinha.

Entre as colónias que abrimos, encontrámos vários enxames bem fornecidos de criação e de abelhas. Outros estavam mais atrasados, alguns por terem sido formados mais tarde neste ano e outros, possivelmente, por se encontrarem em zonas mais sombrias do apiário. Nesta altura do ano, a exposição ao sol ou à sombra começa também a pesar no desenvolvimento dos enxames.

Em função dos quadros com criação e do desenvolvimento que observámos, o Miguel está confiante de que, dentro de um mês ou mês e meio, a grande maioria das colónias estará preparada para aproveitar o fluxo de néctar do eucalipto. Referiu-me a propósito desta árvore que, após os incêndios de há cerca de seis anos naquela zona, uma parte dos eucaliptos de grande porte nas proximidades de alguns apiários deixou de florir e ainda não recuperou a floração. É um fenómeno que importa compreender e que, na prática, o obriga a deslocar colmeias para zonas mais produtivas.

No percurso entre apiários, falámos das partes mais bonitas da apicultura e também das menos fáceis, da moldagem de cera que o Miguel faz para si e para clientes, e do trabalho de eliminação de ninhos de Vespa velutina nas redondezas. Ao longo da visita, foi evidente a paixão que mantém pelas abelhas, mesmo depois de cerca de 30 anos de atividade: continua atento, a experimentar soluções e a pensar no que pode fazer melhor.

Falámos também da importância das abelhas para os ecossistemas e a biodiversidade, e da necessidade de um apoio mais forte das instituições do Estado à apicultura. São tempos difíceis, mas encontrei no Miguel coragem e vontade de continuar — um apicultor disponível para aprender, observador e confiante no trabalho que faz.

Nota: Para aprofundar os temas desta visita e levar novas ideias para o seu apiário, consulte, através dos acessos no topo da página, a informação sobre a aquisição do meu manual «Cavalos de Troia» e da sessão gravada sobre a «Preparação das colónias para a invernagem»: Biblioteca de manuais e Sessões gravadas.

reforçar as colónias antes do inverno: uma visita ao apiário do Marcelo Murta

Em maio de 2021, escrevi sobre a transmissão do conhecimento tácito e sobre uma visita em que o Marcelo Murta me acompanhou em dois dos meus apiários. Na altura, falava de como se aprende também ao observar o trabalho no terreno e de como essa troca é mais rica quando ambas as pessoas estão disponíveis para partilhar o que sabem. No passado dia 1 de outubro, fui eu que visitei um dos apiários do Marcelo, nas proximidades de Coimbra. Cinco anos depois, continuamos a trabalhar lado a lado com alguma regularidade, agora em tarefas no apiário dele.

Neste momento, este apiário tem cerca de 40 colónias. O trabalho que fizemos foi uma equalização: reforçámos algumas colónias mais pequenas com quadros com criação prestes a emergir e quadros com reservas de pão de abelha. O objetivo é ajudá-las a entrar no inverno em melhores condições, atendendo ao seu estado e às reservas que têm disponíveis. O maneio resultou de observação prévia para decidir que reforço fazia sentido em cada caso.

As colónias apresentavam uma infestação por varroa abaixo dos 0,5%, de acordo com medições efectuadas dias antes. O controlo da Varroa faz parte prioritária do trabalho neste apiário. O Marcelo tem conseguido manter a infestação sob controlo muito apertado ao longo dos últimos anos, e apoia a suas decisões na monitorização das colónias através da técnica de lavagem de abelhas adultas. Em publicações anteriores registei algumas dessas medições e decisões.

A pressão da Vespa velutina é outro desafio neste apiário. O Marcelo instalou um bom sistema de harpas, que, até agora e na sua experiência, não vai abaixo e tem permitido reduzir de forma constante essa pressão. São medidas de proteção que se juntam ao maneio de controlo apertado da varroose e à atenção regular ao que se passa no apiário.

O Marcelo é, na minha opinião, um apicultor muito bem-sucedido. Começou este ano com 20 colónias e fez 85 desdobramentos. Ficou com 20 dos enxames novos produzidos, que acrescentou ao seu efetivo, e comercializou os restantes. Este resultado mostra a sua capacidade de organizar o trabalho principal com esta actividade de fim-de-semana, e ser efectivo na prossecução dos objectivos e dos procedimentos para os atingir. O apiário que visitei, com cerca de 40 colónias, é o reflexo desse percurso.

Identificamo-nos muito na forma de olhar para a apicultura, enquanto actividade de lazer mas da qual se pode e deve retirar retorno económico. Partilhamos muitas opções sobre a condução das colónias e como efectuar o seu maneio naqueles pequenos grandes detalhes. Essa proximidade torna estas visitas muito fluidas: observamos, discutimos o que cada colónia nos mostra e ajustamos as decisões ao contexto. É uma relação que se foi construindo ao longo dos anos e que continua a fortalecer-se.

Deixo aqui o vídeo desta visita, que mostra alguns momentos do trabalho de equalização e reforço das colónias como referi em cima. Há tarefas que se explicam melhor quando se vê o quadro sair da colmeia, se observa o estado da criação e se percebe como a decisão nasce daquela colónia concreta. A visita ao apiário do Marcelo foi mais um desses momentos de acção e comunhão.

Video de equalização outonal de colónias no apiário do Marcelo Murta, em 1 de outubro deste ano. (para verem o vídeo completo: https://www.youtube.com/watch?v=B2SJgKOudLk&t=64s no canal https://www.youtube.com/@BeeAdorablePT)

Referências do blogue

  1. Gomes, E. (2021). A transmissão do conhecimento tácito e o encontro de gerações. Abelhas à Beira. Ler
  2. Gomes, E. (2021). Reação dos enxames a um generoso fluxo de pólen: o testemunho de um amigo apicultor. Abelhas à Beira. Ler
  3. Gomes, E. (2023). Litoral centro: avaliação da taxa de infestação por varroa em julho. Abelhas à Beira. Ler
  4. Gomes, E. (2023). Litoral centro: avaliação da taxa de infestação por varroa no final de agosto e tratamento. Abelhas à Beira. Ler
  5. Gomes, E. (2025). Testagem na cria: o diabo está nos detalhes. Abelhas à Beira. Ler

o pólen que chega em setembro: preparar agora as abelhas que terão de viver no inverno

Ontem, numa das muitas visitas técnicas que tenho feito aos apiários da Quinta da Machada, na região de Coimbra, algumas imagens chamaram particularmente a minha atenção. Trabalhei em três dos apiários e quase todas as fotografias que acompanham esta publicação são originais e foram tiradas durante esse mesmo dia de trabalho. Num dos quadros havia uma quantidade apreciável de pão de abelha recentemente armazenado, destacando-se numerosos alvéolos com pólen de cor laranja intensa; noutro, algumas abelhas transportavam cargas corbiculares claramente amarelas; e encontrei também aquilo que, neste território, considero perfeitamente normal nesta altura do ano quando as colónias estão em boas condições: colónias a avançarem para três a quatro quadros com boas áreas de criação. A pergunta impõe-se: o que significa para estas colónias receberem agora, no início de setembro, uma entrada apreciável e diversificada de pólen, acompanhada também por algum néctar?

Quadro com uma boa área de criação. Na região de Coimbra é habitual encontrar nesta altura dois a três quadros nestas condições, assim a varroose esteja devidamente controlada e a pressão da Vespa velutina não esteja a condicionar fortemente a actividade das colónias.

A fotografia da criação é importante para compreender tudo o resto. No nosso território, setembro não significa necessariamente uma colónia a encerrar rapidamente a criação. É habitual encontrar três a quatro quadros com boas áreas de criação, naturalmente com diferenças entre anos e colónias, desde que dois dos principais factores que nesta época podem comprometer o seu desenvolvimento estejam devidamente controlados: a varroose e a pressão da Vespa velutina. Isto distingue o nosso contexto mediterrânico da imagem clássica, muitas vezes construída a partir da apicultura do Centro e Norte da Europa, de uma colónia que, terminado o verão, entra rapidamente numa redução muito acentuada da criação. E se ainda temos criação em quantidade apreciável, temos milhares de larvas para alimentar. É aqui que aquilo que encontrei nos restantes quadros ganha particular significado.

Abelhas transportando cargas corbiculares amarelas. Nas proximidades dos apiários existe nesta altura bastante tágueda (Dittrichia viscosa), cujo pólen é descrito como amarelo. É uma hipótese para estas cargas, não uma identificação.

Nas proximidades destes apiários encontro nesta altura bastante tágueda (Dittrichia viscosa). O seu pólen é descrito como amarelo, pelo que constitui uma hipótese plausível para algumas das cargas que fotografei. A coincidência entre cor, época de floração e abundância da planta torna-a uma candidata interessante, mas não permite fazer uma identificação segura: para isso seria necessário observar as abelhas directamente nas flores ou recorrer à identificação microscópica do pólen.

Mais intrigante é aquilo que aparece noutra das fotografias.

Pão de abelha recentemente armazenado, destacando-se vários alvéolos de cor laranja intensa. A sua origem botânica permanece por identificar.

Uma possibilidade para este laranja é a calêndula-dos-campos (Calendula arvensis), cujo pólen é efectivamente descrito como laranja. Outra encontra-se entre algumas Asteraceae da tribo Cichorieae, onde se incluem Taraxacum, Crepis, Picris e Hypochaeris. Sabemos que algumas destas plantas podem originar cargas corbiculares nitidamente alaranjadas. O dente-de-leão propriamente dito (Taraxacum) não me parece, pela época, o candidato mais provável para explicar uma entrada importante no início de setembro em Coimbra, mas alguns dos seus parentes mediterrânicos continuam a florir nesta altura. Por enquanto deixaria, portanto, duas ou três possibilidades em aberto: Calendula, alguma Cichorieae ou outra Asteraceae tardia ainda não identificada. A cor é uma pista, não uma identificação botânica.

Também identifiquei nas proximidades grandes trepadeiras cobrindo muros e vedações, com flores grandes, rosadas a arroxeadas e em forma de funil, muito provavelmente Ipomoea purpurea, a glória-da-manhã. Estas plantas fornecem pólen e também néctar. Em I. purpurea foram medidos experimentalmente cerca de 2,4 µL de néctar por flor, com uma concentração próxima de 39% de açúcares [1]. Uma flor representa pouco, mas um muro coberto por centenas ou milhares delas já constitui um recurso diferente. Nas próximas semanas deverá juntar-se a este mosaico a hera (Hedera helix), uma das fontes europeias mais importantes de pólen e néctar no final da estação.

 Ipomoea purpurea, a glória-da-manhã (fotografia de autor desconhecido)

A identificação das plantas interessa-me, mas não é o cerne destas fotografias. Setembro e outubro podem constituir no nosso território uma segunda janela nutricional depois da escassez estival. Um estudo recente realizado na Sardenha acompanhou durante um ano o pólen efectivamente recolhido pelas colónias e encontrou uma segunda fase de desenvolvimento no final do verão, característica das condições mediterrânicas. Em setembro a hera começou a adquirir importância e em outubro tornou-se a principal origem polínica nos quatro locais estudados. Mais importante ainda, a quantidade, a riqueza de origens botânicas e a diversidade do pólen recolhido estavam positivamente relacionadas com o desenvolvimento das colónias [2]. Coimbra não é a Sardenha, mas esta comparação mediterrânica parece-me bastante mais próxima daquilo que observo nos nossos apiários do que transpor directamente os calendários biológicos do Norte da Europa.

O pólen que entra agora pode constituir parte da matéria-prima utilizada para produzir as abelhas que terão de atravessar o outono e o inverno. Estas abelhas não são simplesmente operárias de verão que vivem durante mais tempo. A sua fisiologia caracteriza-se por maiores reservas no corpo gordo, níveis elevados de vitelogenina e uma longevidade muito superior. No nosso clima esta transição é mais gradual e a criação prolonga-se durante mais tempo, mas isso não diminui a importância da nutrição nesta fase. Aquilo que a colónia conseguir construir fisiologicamente durante setembro e outubro terá consequências vários meses depois.

E quando escrevo nutrição não estou a falar apenas de proteína. O pólen fornece também lípidos, esteróis e ácidos gordos essenciais. Um caso particularmente interessante é o ácido α-linolénico (ALA), da família ómega-3. Trabalhos experimentais mostraram que dietas deficientes em ómega-3 podem prejudicar o desenvolvimento das glândulas hipofaríngeas e algumas capacidades de aprendizagem das abelhas [3]. Num estudo realizado em ambiente mediterrânico foram encontrados níveis relativamente baixos de ácido linolénico na dieta polínica durante o outono [4]. Isto não significa que todos os pólenes de outono sejam pobres em ALA; significa que podemos ter bastante pão de abelha armazenado e, apesar disso, existir uma limitação nutricional específica.

É precisamente um dos aspectos que abordo nos meus cursos de Nutrição Apícola Aplicada. Não se trata apenas de saber quanto de proteína tem uma pasta. Abordamos os diferentes componentes da dieta e, entre outros aspectos, como corrigir um défice ou desequilíbrio em ácido α-linolénico/ómega-3, escolhendo e combinando adequadamente as fontes lipídicas. Proteína bruta não é sinónimo de dieta completa. Também por isso gosto de encontrar várias cores de pólen nestes quadros. Não demonstram, por si mesmas, uma dieta equilibrada, mas sugerem diversidade botânica e a possibilidade de diferentes pólenes compensarem algumas das limitações nutricionais uns dos outros.

O néctar que acompanha estas florações também não deve ser desprezado simplesmente porque provavelmente nunca dará origem a uma cresta. Fornece energia para o voo, termorregulação, processamento dos alimentos e manutenção da criação, permite poupar reservas já existentes e, havendo excedente, acrescenta alguma coisa ao que estará disponível nos meses seguintes. Avaliamos demasiadas vezes uma planta pelo mel que poderá chegar ao extractor. Uma floração pode valer pouco para o extractor e valer muito para as abelhas.

Mas há uma razão adicional para a fotografia da criação ter, para mim, particular significado. Não chegámos a setembro simplesmente à espera que estas colónias encontrassem pólen. Nas semanas anteriores estivemos a trabalhar para que estivessem sanitariamente preparadas para o aproveitar. Temos vindo a tratar as colónias da Quinta da Machada com o Protocolo Inovador (PI) para controlo da varroose, com um objectivo muito concreto: entrar no período de criação das abelhas que constituirão uma parte importante da população de inverno com taxas de infestação em abelhas adultas não superiores a 0,3%.

Uma boa entrada de pólen permite manter criação, mas essa criação representa simultaneamente novas oportunidades reprodutivas para Varroa destructor. Trabalhos realizados no Sul de Espanha mostram como setembro e outubro podem coincidir precisamente com níveis elevados de infestação [5]. Uma boa floração de outono pode, portanto, ter consequências muito diferentes: com varroa baixa ajuda a produzir novas abelhas bem nutridas; com varroa elevada sustenta também criação onde o parasita continuará a reproduzir-se, precisamente quando começamos a produzir abelhas que deveriam ser particularmente longevas.

É por isso que o nosso objectivo de ≤0,3% de infestação em abelhas adultas antes desta fase não é apenas um número numa folha de registo. Pretendemos começar esta janela nutricional com uma população de varroa suficientemente baixa para que a nova criação possa ser convertida, tanto quanto possível, em abelhas e não em varroas. Naturalmente, uma taxa baixa hoje não dispensa novas monitorizações: continuamos a ter criação e existe também o risco de reinvasão. Mas é muito diferente começar setembro com 0,3% ou menos de infestação do que chegar a esta fase com uma população de varroa já elevada.

E a varroa não é o único problema que pode impedir as colónias de aproveitar esta oportunidade.

Vespa velutina no momento em que é atingida por uma das harpas eléctricas instaladas nos apiários da Quinta da Machada. Fotografia tirada durante o mesmo dia de trabalho das imagens anteriores.

A fotografia mostra uma Vespa velutina a ser eliminada por uma das harpas eléctricas que utilizamos na protecção destes apiários. A ligação com as fotografias do pólen é mais directa do que poderá parecer. Podemos ter tágueda, Ipomoea, Asteraceae e, dentro de pouco tempo, hera em floração; mas esses recursos só têm valor se as abelhas conseguirem sair, trabalhar e regressar ao alvado. Quando uma pressão elevada de velutina desencadeia comportamento defensivo e reduz fortemente a actividade de voo, uma paisagem rica em flores pode coexistir com uma colónia que recebe muito menos pólen e néctar do que teria disponível

É por isso que, neste território e nesta altura do ano, associo cada vez mais três variáveis: criação, varroa e pressão de velutina. Podemos acrescentar uma quarta, que condiciona as restantes: a disponibilidade de recursos florais. Não basta que existam flores; as abelhas têm de conseguir explorá-las. Não basta que entre pólen; a colónia tem de estar suficientemente saudável para o transformar em boas abelhas. E não basta produzir muita criação; interessa que essa criação não esteja a servir simultaneamente para multiplicar uma população elevada de varroa.

As fotografias que acompanham esta publicação são, por isso, mais do que imagens escolhidas para ilustrar posteriormente um texto. São todas fotografias originais (com excepção da Ipomoea purpurea) tiradas ontem durante o meu trabalho técnico em três apiários da Quinta da Machada, e representam diferentes momentos daquilo que encontrei no mesmo território e no mesmo dia: boas áreas de criação, abelhas a chegar com pólen amarelo, alvéolos preenchidos com pão de abelha laranja recentemente armazenado e uma velutina a ser eliminada por uma harpa eléctrica.

Continuarei curioso para descobrir quem está a fornecer aquele pólen laranja. Mas essa já não é, para mim, a questão principal. No início de setembro, a paisagem está novamente a oferecer pólen fresco de várias origens e algum néctar; as colónias estão/vão crescer para dois a três quadros com boas áreas de criação muito provavelmente nestes dois próximos meses; procurámos que chegassem a esta janela com a varroa muito baixa e estamos simultaneamente a tentar impedir que a velutina lhes retire a capacidade de explorar esses recursos. Se conseguirmos reunir estas condições, o verdadeiro valor destas florações provavelmente não aparecerá no extractor. Aparecerá daqui a 4 a 6 semanas, na quantidade e, sobretudo, na qualidade das abelhas que encontrarmos dentro das colmeias.

Referências

  1. Galetto, L. & Bernardello, G. Estudos sobre produção e composição do néctar em espécies de Ipomoea, incluindo I. purpurea.
  2. Satta, A. et al. (2024). How seasonality, semi-natural habitat cover and compositional landscape heterogeneity affect pollen collection and development of Apis mellifera colonies in Mediterranean agro-sylvo-pastoral systems. Landscape Ecology, 39.
  3. Arien, Y., Dag, A., Zarchin, S., Masci, T. & Shafir, S. (2015). Omega-3 deficiency impairs honey bee learning. Proceedings of the National Academy of Sciences.
  4. Avni, D., Hendriksma, H. P., Dag, A., Uni, Z. & Shafir, S. (2014). Nutritional aspects of honey bee-collected pollen and constraints on colony development in the eastern Mediterranean. Journal of Insect Physiology, 69, 65–73.
  5. Barroso-Arévalo, S. et al. (2019). High Load of Deformed Wing Virus and Varroa destructor Infestation Are Related to Weakness of Honey Bee Colonies in Southern Spain. Frontiers in Microbiology, 10.

Publicações relacionadas no Abelhas à Beira: Na prática e no terreno: o controlo da varroose ao longo de mais de 8 meses; A eficácia e consistência de um protocolo inovador de controlo da varroose; e publicações anteriores sobre nutrição, pólen, Vespa velutina e acompanhamento técnico das colónias da Quinta da Machada.

varroose: aplicação de medidas mecânicas nas colónias

No passado sábado, num dos apiários de um cliente dos meus serviços de apoio técnico, a tarefa principal passou por preparar as colmeias para a produção de novos enxames, ao longo de 2,5 meses, mantendo as colónias doadoras/mãe com o seu potencial produtivo intacto. Foi também o dia de corte de criação de zângão.

Na hora do haraquiri… é por uma causa nobre
Quadro de criação intensiva de zângãos, muito muito low tech
O apicultor, high tech, com o quadro low tech
Lusitana profundo
Em casa a medição… um redondo zero

Ainda que a estratégia esteja sustentada na abordagem química (orgânicos + sintéticos) —como poderia ser de outra forma? lanço mão do que sei ser mais eficaz e exequível que encontro na estratégia mecânica/biotécnica, para que a mortalidade por varroa, que nos últimos 12 meses foi outro zero, se mantenha assim nos próximos 12 meses.

Nota: para os seguidores do blogue, abri um novo tema nas sessões Zoom: “Criação de rainhas por métodos orgânicos”. Os interessados entrem em contacto para o e-mail jejgomes@gmail.com

Ao Vosso dispor. Por uma apicultura informada!

testagem na cria: o diabo está nos detalhes

No passado dia 30 de janeiro, acompanhei o Marcelo Murta ao seu apiário onde, entre outras tarefas, recolhi um pedaço de favo com criação de obreira operculada para efectuar uma monitorização da infestação por varroa na fase de reprodução, conhecido por teste na cria.

Na semana anterior, o Marcelo, tinha feito a avaliação da taxa de infestação em abelhas adultas com os procedimentos habituais. A colónia com a taxa mais alta de infestação que encontrou com esta testagem foi uma que nas 300 abelhas lavadas apresentou 4 varroas, o que corresponde a uma infestação de 1,3%.

Foi nesta colónia que recolhi o favo com 98 pupas de obreira, que apresento em baixo.

Feita a avaliação de acordo com o protocolo da FNOSAD (federação nacional francesa das organizações sanitárias departamentais) encontrei uma pupa infestada, portanto 1% de infestação na cria.

Surpreendeu-me a infestação na cria não ser 3 a 4 vezes superior comparada com a infestação nas abelhas adultas, mas a introdução dos dados no simulador de varroa do Randy Oliver depressa me esclareceu que o estranho seria ter obtido 3-4% de infestação na cria nas condições actuais das colónias neste apiário.

Este, é apenas um detalhe que abordo nas sessões que estou a orientar pelo Zoom. Na sessão do dia 18 de fevereiro, às 21h30, tenho duas vagas disponíveis por agora. Caso esteja interessado pode enviar e-mail para jejgomes@gmail.com

abelhas resistentes em Coimbra: resultados intermédios de uma experiência

O Nuno Capela, investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, iniciou o ano passado um teste com vista a verificar a resistência natural ao ácaro Varroa num conjunto de 40 colónias de abelhas ibéricas.

Este teste está integrado numa linha de investigação internacional, com o objectivo de aplicar e testar protocolos simples e muito orgânicos de identificação de colónias resistentes e sua futura multiplicação. A inspiração deste protocolo tem raízes no trabalho de John Kefuss e no célebre lema “live and let die”, ou seja “não faças nada e espera para ver o que acontece”.

Em Fevereiro falámos e o Nuno colocou-me ao corrente do que desejava fazer e solicitou a minha orientação e guidelines para planear os desdobramentos. Colaborei com ele na planificação e linha temporal dos procedimentos a realizar com vista a passar das 20 colónias mãe que estavam disponíveis em março, para 80 até meados/finais de abril. Uma condição importante que tinha de ser respeitada era que as novas rainhas fossem criadas pelas colónias-mãe num estado de orfanação e de forma completamente orgânica, com um nível de intervenção mínimo. Indiquei-lhe os detalhes a respeitar para operacionalizar e concretizar estes objectivos e, ao mesmo tempo, conseguir produzir rainhas de qualidade neste contexto.

Em maio o objectivo tinha sido alcançados a um nível muito aceitável. Tínhamos cerca de 70 colónias filhas funcionais, 20 com as rainhas mãe originais e cerca de 50 com rainhas novas de boa qualidade. Destas, 40 foram integradas no projecto resistência e, desde essa altura, deixaram de ser tratadas contra a varroa.

Em setembro começam a surgir os primeiros colapsos neste grupo de 40. Em outubro, novembro e dezembro as colónias continuam a “cair”, consequência da varroa e viroses associadas.

No final do ano, das 40 inicias, 4 colónias estavam vivas. Na passada sexta-feira o Nuno e eu fomos ver essas e outras colónias do apiário experimental de Coimbra) e encontrámos 2 vivas. Uma com cerca de 5 a 6 quadros de abelhas e outra, que me deixou muito admirado, com 9 a 10 quadros de abelhas. Dadas as pobres condições metereológicas, não fizemos a revisão que gostaríamos a estas duas colónias, que foi adiada para uma próxima visita.

Neste momento temos duas sobreviventes, que poderão vir a ser mães de algumas dezenas de colmeias este ano. Temos uma certeza: este será o primeiro passo de uma caminhada muito interessante, atinja-se algo mais ou não, a caminhada por si já é muito estimulante. Mais, sabendo e estando apoiados num estudo recente que concluiu que os traços de resistência são herdados do lado materno, e que se conseguem melhorias significativas em duas ou três gerações, seguramente não perderemos a ilusão.

O Nuno a tirar notas para o telemóvel e com a colónia resistente dos 10 quadros de abelhas.
A colónia resistente com cerca de 9 a 10 quadros com abelhas.

As fotos em baixo, tiradas na sexta-feira, são de uma das duas colónias que colapsou nestes últimos dias. O cenário habitual, que muito nos custa observar, com a excepção de que desta vez estas vítimas poderão contribuir para algo maior e melhor.

abrindo caminhos

Hoje, com o Nuno Capela, prosseguimos e demos seguimento às tarefas realizadas na anterior visita de campo (ver aqui).

À chegada ao apiário a manhã já ía relativamente quente, a rondar os 12ºC, e o Nuno agarrou na motoroçadora que levou para abrir uma passagem entre silvas e que muito nos irá facilitar o acesso ao apiário.

O investigador, a motoroçadora, a abertura do caminho, literalmente.

Enquanto o Nuno se entretinha a com a motoroçadora, fui fazendo o que tinha ficado agendado da visita anterior: colocar medicamentos de actuação lenta e prolongada (neste caso o Apitraz) numa altura em que as colónias apresentam, na sua maioria, taxas de infestação abaixo dos 2%.

Acho que faz sentido utilizar medicamentos de acção lenta numa fase de crescimento lento da população de varroas. A testagem posterior nos dirá. O que não faz sentido, para nós bem-entendido, é utilizar medicamentos de acção lenta em momentos em que o crescimento da população de varroas já é demasiado rápido. Esta assíncronia resulta, inúmeras vezes, em tratamentos falhados.

Como a próxima semana promete chuva do início ao fim, renovámos o fondant em algumas colmeias.

Fico tranquilo quando as vejo a consumir o fondant desta forma, circular.

Deixámos 4 colmeias por tratar, com vista a abertura e teste de novos caminhos no controlo da varroa. Outros caminhos se estão a abrir, é um imperativo.

O novo caminho.

Eduardo Gomes: serviços de formação presencial e on-line, consultoria presencial e on-line e apoio técnico em apiário (contactos: 935 251 670; jejgomes@gmail.com)

trabalho de campo no início do ano

Hoje, acompanhei o Nuno Capela, investigador no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, a dois dos apiários experimentais que estabeleceu nas proximidades de Coimbra.

Os objectivos desta saída para o campo eram fundamentalmente três:

  • avaliar a taxa de infestação por varroa em amostras de 300 abelhas adultas;
  • “abrir os ninhos” que estivessem bloqueados por mel, néctar ou pão de abelha;
  • colocar sobreninhos sobre as colmeias mais desenvolvidas.

Relativamente ao primeiro ponto, passados dois meses e meio sobre a conclusão do último tratamento (com Apitraz, aplicado do início de setembro e concluído em finais de outubro) as taxas de infestação encontradas situavam-se entre 1,3% (4 varroas) e 3% (9 varroas).

Só controlamos o que medimos.
Não vimos varroa alguma nas abelhas, mas esta colmeia terá cerca de 1500 varroas a parasitar as abelhas e a transmitir-lhes vírus.

Quanto ao segundo ponto, “abrimos” aproximadamente 70% dos ninhos.

Colónia com criação nos quadros na posição 3, 4 e 5. “Abertura” do ninho com colocação de um quadro desbloqueado escuro (a cera preferida pelas rainhas nesta altura do ano) na posição 6.

No que respeita ao terceiro ponto colocámos 13 sobreninhos em colónias muito fortes, num universo de 46.

Colónia muito forte, com as abelhas a cobrirem em elevado número os 10 quadros do ninho.
A colocação do sobreninho é, a nosso ver, uma ferramenta essencial para o prosseguimento dos objectivos de prevenção da enxameação e preparação para a produção de novas colónias, numa altura e zona de fluxo constante mas não muito forte.

Como é habitual, nesta visita de campo fui brindado com uma surpresa relativa: uma colónia com uma rainha nova, não marcada, com postura recente, o que me faz levantar a hipótese de ter sido fecundada em Dezembro.

Eduardo Gomes: serviços de formação presencial e on-line, consultoria presencial e on-line e apoio técnico em apiário (contactos: 935 251 670; jejgomes@gmail.com)

varroose: uma testagem de confirmação

Ontem, numa manhã muito agradável, acompanhei o Marcelo Murta nas várias tarefas planeadas fazer no seu apiário onde tem instaladas 14 colónias em colmeias do modelo Langstroth.

Vista geral de um dos dois apiários do Marcelo.

Entre outras tarefas voltámos a testar a taxa de infestação através da lavagem em álcool de amostras com cerca de 300 abelhas adultas. Nas 8 amostras que retirámos de 8 colónias, uma “largou” 2 varroas, outra uma varroa, e as restantes 6 amostras não “largaram” varroa alguma.

Numa das colónias onde a queda de varroas na amostra foi zero, uma colónia com ninho e sobreninho, com criação no ninho e criação no sobreninho, em suma uma colónia forte, fiz o corte de dois pedaços de favo com criação de zângão. Trouxe esses pedaços de favo para casa e coloquei-os no congelador. Hoje meti mão à obra e desoperculei cerca de 50 + 35 larvas/alvéolos nesses favos à procura de varroas. Encontrei zero varroas.

Este exercício visou refutar a testagem em abelhas adultas. Não o consegui. Caso o número de alvéolos de zângão infestados tivesse sido superior a 8-10 poderia ficar um pouco céptico em relação à fiabilidade dos números de varroa obtidos por lavagem de abelhas adultas. Claramente não foi o que aconteceu neste caso particular, esta segunda verificação confirma a fiabilidade da testagem em abelhas adultas desta colónia.

Em baixo deixo fotos deste procedimento um bocado entediante: contar o número de alvéolos de zângão infestados por varroa. São estes exercícios entediantes que muitas das vezes nos permitem deixar de trabalhar na dimensão da auto-ilusão, do “opinismo” fracote, para pisarmos com mais solidez a dimensão da realidade.

Os favos e as ferramentas utilizadas.
Cerca de 50 larvas de zângão, onde não encontrei varroas, com pequenos pedaços de cera que não se devem confundir com os ácaros.
Fundo de mais cerca de 35 alvéolos ampliados por lupa, onde também não encontrei varroas.

medidas de controlo dos inimigos: vespa velutina e varroa

Na passada sexta-feira o Armando Monteiro convidou-me para ir aos seus dois apiários situados nas proximidades de Coimbra. Pretendeu 1) mostrar-me o efeito quase imediato das suas harpas combinado com a utilização de rede na redução da pressão das velutinas sobre as suas colónias de abelhas; 2) ajuda na medição da taxa de infestação por varroa em abelhas adultas.

Relativamente ao ponto 1) e começando pelo princípio, dizer que o Armando teve o cuidado de desligar as harpas cerca de uma hora antes de eu chegar ao seu apiário, para que pudesse ver ao vivo a rapidez da dissuasão das mesmas. Assim, quando cheguei ao apiário estavam 20-30 vespas a pairar nas proximidades das colónias, com as abelhitas paralisadas de medo no interior e entradas das colmeias. Ligadas as harpas observei rapidamente o seu efeito: velutinas “chocadas” de forma dolorosa (a dor tem um efeito aversivo sobre todos os animais) e até letal (muitas delas morriam ou ficavam com as asas queimadas) por aqueles fios. Após 10-15 minutos estarem ligadas, a presença de velutinas reduziu-se para próximo do zero.

O apiário, com harpas colocadas de 7 em 7 colmeias, envoltas numa rede de plástico com uma malha de 13mm, que cai à frente apenas até 20 cm do solo com a intenção de permitir a entrada rápida das abelhas nos voos de homing (voos de regresso a casa). O Armando diz-me que neste sistema as poucas velutinas que entram para o interior desta muralha de rede, quando apanham uma abelha tendem a subir, batem no tecto de rede, e acabam por tentar sair pela lateral… onde chocam literalmente nas harpas.
A rede chega até cerca de 20 cm do chão, para que esteja sensivelmente à altura das rampas de voo, com a intenção de facilitar o voo de saída e entrada das abelhas. A passagem das velutinas por debaixo das harpas está impedido.
Uma das várias velutinas mortas ou incapazes de levantar voo.

Quanto ao ponto 2), depois de nos livrarmos das velutinas estávamos a abrir as colmeias passados cerca de 15 minutos a nossa entrada no apiário. O primeiro passo foi localizar o quadro onde andava a rainha nas colmeias que nos serviram de amostra. Esse quadro era posto de lado por momentos enquanto procedíamos à recolha de abelhas em quadros com criação. Das abelhas recolhidas e lavadas libertaram-se duas varroas, número que dá uma taxa de infestação de 0,6%.

O meu amigo Armando compara a mortalidade de colónias que teve o ano passado por varroose, cerca de 50%, com a mortalidade deste ano, 0%. Quando o questionei sobre o que estava a fazer de diferente este ano, referiu-me que no ano que corre decidiu introduzir um tratamento intermédio. De forma generosa disse-me que este blog o influenciou nesta mudança no regime de tratamentos deste ano.

Nota: 1) nesta publicação relato a experiência do meu amigo Fernando Moreira com as harpas e nesta outra a experiência do meu amigo Marcelo Murta com a monitorização da taxa de infestação por varroa em abelhas adultas.