
Numa recente visita técnica a um apiário de um cliente, situado no interior Centro do país, houve oportunidade para observar e discutir vários aspectos da condução das colónias. Uma parte importante da visita centrou-se na exemplificação prática da aplicação do Protocolo Inovador (PI) de controlo da varroose, mas houve outro pormenor que rapidamente me chamou a atenção: o cuidado que este apicultor dedicava ao isolamento térmico das colmeias. Não era uma preocupação ocasional nem uma solução improvisada para os dias mais frios. Sobre a prancheta utilizava placas de cortiça, colocadas entre esta e o tecto, e nos enxames mais fracos recorria também a partições isolantes laterais — as chamadas partitions chaudes da apicultura francesa — para reduzir o espaço ocupado pela colónia e melhorar o isolamento nas suas extremidades. O assunto acabou naturalmente por ocupar parte da conversa porque toca numa questão a que tenho regressado várias vezes no Abelhas à Beira e que, à luz do que hoje sabemos sobre a termorregulação das colónias, merece ser revisitada.
Este é, aliás, um assunto antigo neste blogue. Já em 2018, quando escrevi sobre frio, humidade e condensação nas colmeias, defendia que o apicultor deveria melhorar o isolamento, «em especial nas suas zonas superiores (tecto e pranchetas)». Noutros textos posteriores voltei à diferença, frequentemente esquecida, entre humidade e condensação e ao papel dos materiais colocados sobre a prancheta. Aquilo que muitas vezes é descrito apenas como uma forma de «absorver a humidade» pode ter uma função ainda mais importante: aumentar a resistência térmica do topo da colmeia e manter a sua superfície interior mais quente. Passados alguns anos, a literatura científica e técnica permite compreender melhor por que razão começar pelo isolamento superior continua a parecer uma opção particularmente racional.
Uma colónia de Apis mellifera não é simplesmente um conjunto de insectos cuja temperatura acompanha passivamente a temperatura ambiente. Funciona, deste ponto de vista, como um verdadeiro superorganismo termorregulador. Durante o inverno as abelhas organizam-se em cacho, alteram a sua densidade e produzem metabolicamente calor; quando existe criação, a região do ninho onde esta se encontra é mantida aproximadamente nos 34–35 °C, mesmo quando no exterior estão temperaturas muito inferiores. Os trabalhos de Southwick e, posteriormente, de Stabentheiner e colaboradores mostraram até que ponto esta regulação resulta da combinação entre comportamento colectivo, produção metabólica de calor e organização espacial das abelhas. Mas produzir esse calor custa energia. A colmeia não produz calor; são as abelhas que o produzem. A caixa determina, entre outras coisas, a rapidez com que parte desse calor se perde.
Se houver apenas uma zona onde seja possível melhorar substancialmente o isolamento, continuo por isso a considerar que a primeira escolha deve ser o topo da colmeia. E foi precisamente aí que encontrei uma das soluções utilizadas neste apiário: placas de cortiça entre a prancheta e o tecto. Uma placa de cortiça com cerca de 20 mm de espessura parece-me uma solução particularmente interessante nas nossas condições: é simples, durável, facilmente disponível entre nós e apresenta uma capacidade isolante muito superior à mesma espessura adicional de madeira. Poderão naturalmente ser utilizados outros materiais com resistência térmica equivalente; interessa menos o nome do material do que a sua capacidade para dificultar a transferência de calor. Mas dois centímetros de cortiça constituem uma solução muito simples para melhorar substancialmente aquela que considero ser a zona prioritária da colmeia.

A importância do topo não resulta apenas das perdas térmicas. Existe também a questão da condensação. As abelhas produzem vapor de água através da respiração e do metabolismo dos alimentos e a existência desse vapor não constitui, por si só, um problema. A dificuldade surge quando o ar húmido encontra uma superfície cuja temperatura esteja abaixo do ponto de orvalho. Forma-se então condensação. Se essa superfície fria for o tecto ou a prancheta, as gotas podem formar-se precisamente sobre o cacho. Pelo contrário, um topo bem isolado mantém a superfície interior mais quente e pode deslocar a condensação para superfícies laterais mais frias, onde a água pode escorrer sem cair directamente sobre as abelhas. Por isso, humidade elevada e condensação perigosa não são necessariamente a mesma coisa.
É neste ponto que surge outra questão interessante: devemos promover deliberadamente uma ventilação vertical através do óculo da prancheta? Durante muito tempo foi comum recomendar uma abertura superior para deixar sair o ar quente e húmido. É intuitivo, mas essa abertura cria também um efeito de chaminé e modifica as correntes de convecção que se estabelecem dentro da colmeia. A literatura não permite concluir que uma abertura superior seja sempre prejudicial — em determinadas condições de calor poderá mesmo aumentar a remoção de calor e vapor de água —, mas também não sustenta a ideia de que uma «chaminé» permanentemente aberta seja uma necessidade das colónias.
Sabemos, pelo contrário, que as abelhas conseguem organizar uma ventilação muito eficaz através de uma única entrada. Southwick e Moritz mostraram já há várias décadas que as ventiladoras conseguem produzir alternadamente fluxos de saída e entrada de ar, e trabalhos posteriores demonstraram como grupos de abelhas se auto-organizam junto da entrada, criando regiões distintas de entrada e saída e ajustando activamente a ventilação às necessidades da colónia. A ventilação de um ninho de abelhas não resulta, portanto, apenas de abrirmos dois buracos para que a física faça o resto; é também um processo activamente controlado pela própria colónia. Trabalhos mais recentes mostram igualmente a capacidade das colónias para manter regimes internos de temperatura e CO₂ apesar de alterações experimentais nas características de ventilação da caixa.
Há ainda uma observação particularmente interessante: as abelhas tendem a propolizar aberturas adicionais, incluindo aberturas superiores que lhes são disponibilizadas. Isto não demonstra que uma abertura superior seja sempre indesejável, mas aconselha alguma prudência antes de assumirmos que as abelhas querem necessariamente uma corrente vertical permanente durante todo o verão. Foi precisamente por esta razão que durante anos utilizei uma solução muito simples no óculo da prancheta: no verão não retirava completamente a pequena tampa que o fechava; deslocava-a apenas parcialmente, deixando parte do óculo acessível às abelhas (ver aqui: https://abelhasabeira.com/oculo-da-prancheta-fechado-ou-aberto/?utm_source=chatgpt.com). Se a colónia entendesse vantajoso conservar aquela abertura podia fazê-lo; se pretendesse reduzi-la ou eliminá-la, podia fechá-la progressivamente com própolis. Era, no fundo, uma maneira de deixar parte da decisão às próprias abelhas. Não conheço um ensaio experimental que tenha comparado especificamente esta técnica, mas ela parece-me coerente com aquilo que sabemos sobre a capacidade da colónia para regular activamente a ventilação do ninho.
Depois do isolamento superior chegamos às paredes laterais e, novamente, aquilo que observei neste apiário ilustra uma solução interessante. Nos enxames mais fracos o apicultor utilizava partições isolantes, reduzindo o volume efectivo da caixa àquele que a população conseguia ocupar. É uma prática particularmente desenvolvida na apicultura francesa, onde estas partitions chaudes são utilizadas para «apertar» a colónia, sobretudo no inverno, em núcleos, enxames e colónias que não ocupam todos os quadros. Existem diferentes construções, desde placas isolantes simples até quadros preenchidos com poliestireno e revestidos com material reflector. A própria imprensa apícola francesa descreve sistemas de nid serré, nos quais o ninho de criação fica delimitado lateralmente por partições quentes.

A lógica parece-me particularmente interessante nas colónias mais fracas. Não se trata necessariamente de envolver toda a colmeia num espesso casulo isolante, mas de adaptar o espaço termicamente relevante à dimensão da população. Uma partição ocupa aproximadamente o lugar de um quadro e permite deslocar lateralmente a fronteira do espaço disponível à medida que a colónia cresce ou diminui. Na própria apicultura francesa encontramos esta utilização recomendada em enxames jovens que ainda não ocupam toda a caixa, retirando ou deslocando progressivamente a partição à medida que se desenvolvem. É exactamente esta utilização selectiva que me parece mais interessante: não transformar as partições isolantes numa obrigação para todas as colónias, mas utilizá-las onde a relação entre população e volume da caixa as torna particularmente úteis.
Do ponto de vista físico, o princípio é simples. A madeira das nossas colmeias é um isolante relativamente modesto e a introdução de uma pequena espessura de um verdadeiro material isolante reduz substancialmente as trocas térmicas. Não é necessário alongar demasiado esta discussão com valores de resistência térmica: para a prática apícola interessa sobretudo perceber que alguns centímetros de cortiça, poliestireno ou material equivalente isolam muito mais do que aumentar alguns milímetros à espessura da parede de madeira. Isto ajuda também a compreender por que razão uma placa de cortiça no topo e uma boa partição junto de um enxame pequeno podem ter efeitos termicamente relevantes sem obrigar a reconstruir toda a colmeia.
Seria, contudo, um erro reduzir toda esta discussão ao inverno. Um isolante não aquece uma colmeia: dificulta a transferência de calor. No inverno reduz a velocidade a que o calor produzido pelas abelhas se perde para o exterior; no verão pode reduzir a velocidade a que o calor exterior entra. Esta questão ganha particular importância durante as ondas de calor. Perante temperaturas elevadas, as abelhas aumentam a ventilação, transportam água, utilizam o arrefecimento evaporativo, redistribuem-se e podem formar a conhecida «barba» no exterior. São mecanismos extraordinariamente eficientes, mas representam trabalho e consumo de recursos. Uma caixa termicamente mais estável não elimina esses mecanismos, mas pode reduzir a rapidez e a amplitude das alterações a que a colónia necessita de responder.
No verão aparece ainda outra variável que não devemos confundir com isolamento: a radiação solar. Uma cobertura metálica exposta directamente ao sol pode atingir temperaturas muito superiores à temperatura do ar e transformar o topo da colmeia numa importante fonte de calor. Por isso, isolamento, sombra e reflectância da cobertura devem ser pensados em conjunto. Mais uma vez, o topo aparece como uma zona crítica: no inverno interessa evitar que se transforme numa superfície excessivamente fria sobre o cacho; no verão interessa impedir que se transforme numa placa de aquecimento colocada sobre ele.
Talvez, portanto, a pergunta mais interessante não seja simplesmente se uma colmeia está «quente» ou «fria». Num texto que publiquei em 2018 já chamava a atenção para as oscilações térmicas. Uma caixa com baixa resistência térmica responde rapidamente às mudanças exteriores; uma colmeia melhor isolada funciona como um amortecedor, reduzindo a velocidade dessas alterações e a sua amplitude. Os trabalhos de Derek Mitchell acrescentaram a esta discussão a comparação com as cavidades naturais das árvores, cujas paredes apresentam frequentemente propriedades térmicas muito diferentes das caixas relativamente finas utilizadas na apicultura moderna. Isto não significa que devamos transformar as colmeias em troncos de árvore. Significa apenas que não existe razão biológica para considerar os habituais 20 ou 25 mm de madeira uma solução térmica ideal apenas porque nos habituámos a construir assim as colmeias.
A visita a este apiário acabou, portanto, por proporcionar algo que considero sempre particularmente interessante nestas visitas técnicas. Fomos ali trabalhar sobretudo outras questões, entre elas a aplicação prática do Protocolo Inovador, e foram soluções adoptadas pelo próprio apicultor — as placas de cortiça sobre a prancheta e as partições isolantes nos enxames mais fracos — que trouxeram novamente para primeiro plano um problema antigo. Depois de vários anos a regressar a este assunto, a hierarquia que adoptaria continua bastante simples: começar por isolar muito bem o topo, sendo uma placa de cortiça com cerca de 20 mm uma solução particularmente simples; nas colónias mais fracas, ponderar a utilização de partições isolantes que aproximem o volume da caixa da dimensão real da população; e evitar transformar automaticamente uma abertura superior permanente numa regra de verão. Quanto ao óculo da prancheta, continuo a gostar da solução que utilizei durante anos: dar às abelhas a possibilidade de decidirem se querem aquela abertura disponível ou se preferem fechá-la.
No fundo, talvez seja esta a melhor maneira de olhar para o isolamento e a ventilação das colmeias. Não se trata de tentar fazer pelas abelhas aquilo que elas sabem fazer extraordinariamente bem há milhões de anos. Trata-se de lhes proporcionar uma caixa que não as obrigue a gastar desnecessariamente energia e água para corrigir aquilo que nós próprios lhes impomos e, sempre que possível, deixar-lhes alguma margem para fazerem aquilo em que são seguramente mais competentes do que nós: regular o microclima do seu próprio ninho.
Referências anteriores no Abelhas à Beira
- Abelhas à Beira (2018) — publicação sobre frio, humidade, condensação e isolamento das colmeias, salientando a importância do isolamento das zonas superiores — tecto e prancheta.
- Abelhas à Beira (2018) — discussão das oscilações térmicas da colmeia e da sua importância durante o inverno.
- Abelhas à Beira (publicação posterior sobre humidade e condensação) — distinção entre humidade relativa elevada e formação de condensação sobre superfícies frias.
- Abelhas à Beira (publicação sobre os materiais colocados sobre a prancheta) — discussão do seu papel não apenas como absorventes de humidade, mas como elementos de isolamento térmico.
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