tratamento intermédio contra a varroose: resposta a quatro questões

No decurso de duas das últimas publicações, onde refiro a execução de um tratamento intermédio contra a varroose, têm surgido no meu e-mail e na caixa de comentários do blog basicamente quatro tipos de questões e comentários:

  • que medicamento estou a utilizar;
  • onde adquiri esse tratamento;
  • por que razão faço este tratamento intermédio;
  • que resíduos deixa no mel se aplicado durante o fluxo e com meias alças nas colmeias.
Colocação das tiras de cartão com ácido oxálico impregnado em glicerina.

Resposta à primeira questão: estou a utilizar tiras de cartão com ácido oxalico impregnado em glicerina. Estas tiras são fabricadas pela empresa polaca Lyson.

Resposta à segunda questão: adquiri estas tiras na Golden Bee, situada em Mira.

Resposta à terceira questão: no plano de tratamentos contra a varroose deste ano achei que devia experimentar fazer um tratamento intermédio, com vista a manter a taxa de infestação baixa até à colocação do último tratamento do ano e, em simultâneo, eliminar eventuais varroas resistentes ao amitraz, princípio activo dos dois tratamentos principais com Apivar, tratamentos que inicio no final de janeiro e na primeira semana de agosto.

Resposta à última questão: sobre a questão dos resíduos deixados no mel por estas tiras, deixo a tradução de um excerto de um estudo científico, referenciado por mim em 2016 nesta publicação. “

Detecção de ácido oxálico em abelhas, mel e cera de abelha.
A Tabela III resume as medições de ácido oxálico (AO) em todas as amostras tiradas antes e depois do tratamento. O teor de ácido oxálico natural variou entre 2,5 e 33,8 mg / kg. Não houve aumento no teor de ácido oxálico do mel, cera e abelhas após os tratamentos, em todos os três ensaios (P> 0,05). Todas as amostras de abelhas e cera de abelha foram negativas antes e depois do tratamento com AO.
[…] A maioria dos vegetais contém quantidades muito maiores de ácido oxálico do que o mel, então a ingestão diária total é insignificante. Assim, do ponto de vista nutricional, o ácido oxálico deve, como o ácido fórmico, também ter um status geralmente reconhecido como seguro (GRAS — generally recognized as safe). Além disso, nenhum resíduo significativo é esperado após os tratamentos com ácido oxálico, conforme demonstrado em nossa pesquisa. Na verdade, não há risco de resíduos de mel após todos os tipos de tratamentos com ácido oxálico (Radetzki 1994; Mutinelli et al. 1997; Del Nozal et al. 2000; Bernardini e Gardi 2001; Radetzki e Barmann 2001; Bogdanov et al. 2002). — fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s13592-015-0405-7

Desde 2016 que conheço estes dados. Desde 2014 que acedi e acedo a informação, acessível a todos nós, reveladora da tremenda falta de informação no que concerne aos resíduos deixados pelas tiras de Apivar no mel. Tenho uma grande preocupação e sensibilidade para a questão dos resíduos dos acaricidas no mel; passei horas e horas a pesquisar, ler, comparar e reflectir sobre este assunto. Por esta razão peço a melhor compreensão para uma resposta eventualmente mais impaciente a um ou outro comentário no FaceBook, quando sou interpelado por alguém que “sabe tudo” sobre resíduos dos acaricidas, sem ter lido uma linha sequer sobre este assunto, repetindo acriticamente chavões. Sobre este e outros assuntos a minha opção é clara: na dúvida informo-me em fontes fidedignas e de preferência em fontes sustentadas em dados experimentalmente controlados; em fontes não influenciadas por interesses comerciais evidentes; em fontes que resistem à persuasão de seguir um “meme” acriticamente, que resistem a papaguear o que a maioria diz, que utilizam a sua cabeça para decidir o seu caminho e inspirar outros.

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
” Cântico Negro, José Régio

ozono: um tratamento eficaz da varroose?

Em 2015, no Beesource, o inventor de um equipamento de tratamento da varroose por meio do ozono, Luigi Conelli, publicou esta afirmação: “

O “ozonador ” do Sr. Luigi Conelli. Um ozonador amarelo-ferrari com um preço de Ferrari!

Concluímos nossos testes usando ozono em abelhas. Os resultados são muito interessantes. Aplicando 20 minutos de ozono nas colmeias, quando todas as abelhas estão dentro, observámos como resultado a morte de todas as varroa dentro das colónias por um longo período, mais de 21 dias. Todos os estádios de varroas caíram mortas depois de algumas horas.
Observámos colónias sem varroa, loque europeia, loque americana, Nosema sp. ect.
(Luigi Conelli, Beesource, 13-07-2015)

Fez também afirmações peremptórias que o dito tratamento ao mesmo tempo que era eficaz na eliminação das bactérias nocivas, preservava vivas as bactérias benéficas presentes na colmeia!!! Achei, como outros companheiros do Beesource, que este tipo de afirmações extraordinárias requeriam provas igualmente extraordinárias. Tanto quanto é do meu conhecimento o Sr. Conelli nunca as apresentou, e acabei por me desinteressar, esquecer e continuar a tratar a varroose como sempre o fiz, “dentro da caixa”!

Contudo, recentemente num grupo de apicultura português, surgiu de novo a indagação sobre esta técnica. Lembrei-me das afirmações do inventor em 2015, estranhando que de lá para cá quer a técnica quer o equipamento tenham caído no quase completo anonimato — que em Itália e noutras partes do mundo os apicultores não tenham testemunhado massivamente a sua satisfação — e procurei informação em língua inglesa sobre esta técnica para o tratamento da varroose, não fosse dar-se o caso de que entre 2015 e a actualidade tenha merecido a atenção de alguma equipa de investigação independente. Não encontrei nada no Google Scholar, o sítio onde estão acessíveis uma grande quantidade de estudos científicos — e para um equipamento tão “super-hiper” achei no mínimo isto muito bizarro! Ontem lembrei-me de pesquisar em língua italiana, uma vez que o inventor é italiano. Terá sido feito algum teste, com o devido controle, no país do inventor? E sim, esse teste foi feito em 2015, por uma equipa de investigadores do Istituto Zooprofilattico Sperimentale del Lazio e della Toscana “M. Aleandri”  e do Istituto Superiore di Sanità. Sobre a eficácia na eliminação das bactérias de loque europeia os resultados são decepcionantes. Sobre a eficácia na eliminação dos esporos da loque americana idem aspas. Contudo o que mais me interessou foi saber sobre o efeito acaricida da aplicação do ozono durante 20 minutos em colónias de abelhas. Em baixo deixo a tradução de um excerto publicado na revista Apitalia em fevereiro de 2016, com os resultados obtidos.

“Cinco colmeias sem criação foram tratadas com ozono, aplicando-o diretamente na colmeia durante 20 minutos e seguindo as instruções do fabricante do instrumento utilizado.
Algumas colmeias usadas como controle não foram tratadas. Para avaliar a eficácia acaricida do ozono, foi realizado um tratamento 14 dias após a administração do ozono, com Apibioxal e Apivar. A eficácia acaricida obtida com o tratamento com ozono foi igual a 4,9% ± 0,8%, enquanto a queda natural encontrada no grupo controle não tratado foi igual a 4,8% ± 0,7%. A diferença de eficácia entre o grupo tratado com ozono e o grupo de controle não foi estatisticamente significativa.

A força das colmeias observadas, as populações de abelhas adultas dos dois grupos experimentais e de controlo, foi avaliada no dia do tratamento e no final do período estimado para testar a eficácia do ozono (igual a 14 dias) segundo o método descrito por Delaplane et al., 2013.

No grupo tratado com ozono houve uma redução maior na quantidade de abelhas adultas do que no grupo controle, embora não significativa. A mortalidade aguda de abelhas foi avaliada pelo cálculo do número de abelhas mortas que caíram nos dias seguintes ao tratamento, colocando recipientes especiais, chamados cestos em gaiola, colocados à frente das colmeias. Não foi encontrado nenhum fenómeno agudo de mortalidade devido ao tratamento.
A mortalidade das abelhas rainha também foi avaliada no final do período de tratamento. Não se verificou a mortalidade de rainhas, tanto no grupo tratado quanto no grupo controle.
” (fonte Apitalia, 2/2016, https://www.izslt.it/apicoltura/wp-content/uploads/sites/4/2018/06/5.-Applicazione-dellozono-in-apicoltura-risultati-preliminari.pdf)

Em conclusão, ao contrário do que eu temia este tratamento, nas doses e na duração preconizada pelo inventor, não matas as abelhas, o que já é bom… tirando o facto que também não mata as varroas.

tratamentos para a varroose: a experiência de Bob Binnie

Nesta recente conversa de Bob Binnie, que me foi sinalizada pelo Marcelo Murta, uma parte importante da mesma é dedicada a considerações interessantes sobre diversos tratamentos/medicamentos, a saber: toalhetes de ácido oxálico misturado em glicerina (propostos e desenvolvidos por Randy Oliver); Apivar; Apiguard; ácido oxálico sublimado.

Os toalhetes de ácido oxálico misturado em glicerina foram submetidos a um estudo de eficácia pela Universidade da Geórgia em colónias fornecidas pelo Bob Binnie. Os resultados foram muito pouco satisfatórios como revela o próprio. A elevada humidade da região é a razão provável para estes maus resultados. Randy Oliver já havia referido, há algum tempo atrás no seu blog e/ou Bee-L, resultados decepcionantes deste veículo de ácido oxálico em territórios com elevada humidade ambiental, contudo sugere outra explicação, como veremos noutra publicação a surgir num futuro próximo. O Randy está novamente a ensaiar a opção de um veículo em cartão, opção mais próxima da originalmente proposta pela cooperativa argentina que tornou conhecida esta modalidade de tratamento com o nome Aluen Cap.

Sobre o Apivar, Binnie refere que na aplicação que fez no passado mês de agosto a sua eficácia não foi tão boa como tem sido no passado. Apesar disso diz que vai voltar a utilizá-lo este próximo mês de agosto. Nas entrelinhas da conversa parece-me que está céptico em relação à tese de estar na presença de varroas resistentes ao amitraz.

Relativamente ao Apiguard, faz a habitual recomendação acerca do cuidado que deve haver quando se aplica com temperaturas elevadas, isto é temperaturas acima dos 30ºC-35ºC, e recomenda um regime de aplicação de metade da dose (25 gr.), repetida três vezes, com uma renovação da dose 7 a 10 dias após o início da aplicação anterior. Esmiuçando para ficar muito claro, significa por ex. colocar a primeira dose de 25 grs. dia 1, renovar com segunda aplicação dia 8 e, finalmente, aplicar terceira dose dia 15.

Fogger ou nebulizador/vaporizador

Quanto ao tratamento por sublimação do ácido oxalico com o “fogger”, Joe May refere a simplicidade na sua utilização, mas com resultados inconsistentes devido a um débito inconstante destes nebulizadores. Por seu lado Bob Binnie aponta a baixa eficácia de vários programas de tratamento com ácido oxálico sublimado na presença de criação (não me surpreende! Já desde 2016 que leio relatos de resultados insatisfatórios no Beesource). Os programas de tratamento com sete dias de intervalo, repetidos por três vezes, são um fracasso de acordo com a sua opinião. Mais, refere um estudo conduzido por Jennifer Berry, ainda por publicar, onde se avaliou um regime 5 a 6 de aplicações a cada cinco dias e no qual não se conseguiu baixar a taxa de infestação. Refere que o número de ácaros no final das rondas era igual ao número de ácaros presentes no início do tratamento. Refere que alguma investigação tem identificado uma fase de dispersão dos varroas (fase forética) de apenas 4 dias. Posso acrescentar a este propósito que testes em laboratório identificaram varroas com a fase de dispersão a durar menos de 24 horas — ver Rosenkranz et al., 2010, num artigo que permanece um dos melhores feitos até à data sobre o ciclo de vida e biologia deste irredutível inimigo das abelhas. Bob Binnie diz que Jennifer Berry vai prosseguir a sua investigação e reduzir os intervalos entre aplicações a 3 dias. Isto significa que para apanhar um ciclo completo de criação (21 dias para obreiras e 24 dias para os zângãos) serão necessário fazer entre 7 a 8 aplicações de um ácido muito potente sobre as abelhas e sua rainha. Para além dos custos em tempo, trabalho, deslocações e gasto de material, fico apreensivo sobre os efeitos que poderá ter sobre o elemento mais longevo da colónia, a rainha, 7 a 8 aplicações de um químico tão potente como é o ácido oxálico em tão curto espaço de tempo. Caso fosse eu a dirigir este programa quereria avaliar também eventuais efeitos sub-letais deste regime intensivo de aplicações de ácido oxálico sobre as rainhas.

Felizmente há um maneio alternativo, entre outros, muito mais amigável para as abelhas e creio também para o apicultor, para quem deseje utilizar o ácido oxálico sublimado numa fase da vida da colónia em que há muita criação operculada presente.

interrupção artificial da postura da rainha para aumentar a eficácia do tratamento da varroose

Todos nós sabemos que a existência de criação operculada nas colónias diminui a eficácia dos tratamentos contra a varroose, em particular a eficácia dos tratamentos “flash” ou de curta duração. Por exemplo, os tratamentos com ácido oxálico, na forma gotejada ou sublimada, são muito eficazes quando a colónia não apresenta criação fechada, contudo essa eficácia fica seriamente comprometida quando ela está presente.

Algumas técnicas apícolas, ao alcance de todos, permitem promover a interrupção, total ou parcial, da postura. Em baixo deixo a descrição de uma destas técnicas, a partir de uma proposta de Randy Oliver:

  • Dia 1: Com recurso a quadros confinadores de rainha*, confinar a rainha a um quadro normal, que servirá de “quadro armadilha para o varroa”;
  • Dia 14: Solte a rainha;
  • Dia 21: Remover o “quadro armadilha para o varroa” e gotejar (ou sublimar) com ácido oxálico as abelhas da colónia.
* Exemplar de um quadro confinador de rainha, fabricado por Randy Oliver.

Nota: A programação em cima é para facilitar a execução no mesmo dia da semana. Se houver muita criação de zângãos, pode aumentar os intervalos para os dias 17 e 24, para uma eficácia ligeiramente superior. 

limiares de tratamento em função da fase de vida da colónia

Trato e controlo a varroose de acordo com o calendário (ver aqui outros dois programas, alternativos a este que utilizo). Realizo habitualmente dois tratamentos por ano, o primeiro iniciado no final de janeiro/início de fevereiro e o segundo iniciado no final de julho/início de agosto. Na altura do primeiro tratamento as colónias estão, em geral, na fase de aumento da população de abelhas. Na altura do segundo tratamento estão na fase de diminuição da população de abelhas. Como podemos ver no quadro em baixo não devo deixar que a infestação, medida em abelhas adultas, ultrapasse os 3% para estas alturas do ano em que habitualmente faço os tratamentos.

Este ano, pretendo avaliar mais precisamente a eficácia do apivar e eventualmente efectuar algumas afinações ao calendário de tratamentos. Para isso tenciono fazer a avaliação das taxas de infestação pós-tratamentos e avaliar a taxa de infestação no pico da população (ver estes três excelentes vídeos com os procedimentos). O pico da população ocorre, na generalidade das minhas colónias, na última quinzena de maio (sobre a dinâmica populacional ver mais aqui). Caso a testagem feita nesta fase me dê uma taxa de infestação entre os 2%-3% vou fazer por baixar a taxa de infestação, com um acaricida não-sintético em finais de maio (uma possibilidade aqui referida, entre outras), para que o medicamento colocado no verão, em agosto, não seja colocado em colónias com uma taxa de infestação superior a 3%. Sei que vários dos acaricidas homologados, sintéticos e não-sintéticos, tendem a apresentam resultados de eficácia baixa quando a taxa de infestação ultrapassa os 3% (ver estudo aqui).

Fase da colóniaAceitável
Não é necessário um controle próximo
Cuidado
O controle pode ser necessário
Perigo Controlo urgente
Dormente com criação<1%1%–2%>2%
Dormente sem criação<1%1%–3%>3%
Aumento da População<1%1%–3%>3%
Pico da População <2%2%–5%>5%
Diminuição da População<2%2%–3%>3%
Aceitável: as populações atuais de ácaros não são uma ameaça imediata. 
Cuidado: a população de ácaros está a atingir níveis que podem causar danos em breve; um acaricida não-sintético pode ser utilizado; um acaricida sintético pode ser necessário dentro de um mês. Continue a testar e esteja preparado para intervir. 
Perigo: a perda da colónia é provável, a menos que o apicultor controle o Varroa imediatamente e eficazmente.

fonte*: https://edis.ifas.ufl.edu/in1257

Nota: nesta publicação* da Universidade da Florida é referida também uma fórmula para calcular a taxa de infestação a partir do número de varroas caídas numa cartolina pegajosa ou estrado sanitário. Dizem o que habitualmente é dito acerca desta técnica de cálculo: é muito falível e pode induzir o apicultor a tratar tardiamente. Na fórmula (“x = 3.76-y/-0.01 divided by the number of days in a colony, where y represents the total number of Varroa captured on the sticky board and x represents the actual mite population within the colony. (Dr. Keith Delaplane, personal communication“)) despertou-me interesse o factor 3,76, que representa, no entender do prestigiado entomólogo Dr. Keith Delaplane, a relação entre o número de varroas na fase de dispersão (fase forética) e o número de varroas na fase de reprodução, isto é, o número de varroas alojadas nas abelhas adultas num dado momento é 3,76 vezes menor que o número de varroas que se reproduzem nos alvéolos, protegidas pelos opérculos de cera da acção imediata de quase todos os acaricidas, com excepção do ácido fórmico.

a importância do timing no tratamento da varroose: o testemunho de um amigo apicultor

Em baixo deixo o testemunho, em resposta à minha solicitação, que o meu amigo Rui Martins, apicultor com apiários no distrito da Guarda, enviou no passado dia 27 de janeiro, acerca da sua experiência no combate ao varroa. Na conversa que tivemos lembro-me de lhe referir que seria importante este testemunho para sensibilizar outros companheiros, com apiários em territórios com características edafo-climáticas semelhantes às nossas, e não esqueço a sua imediata e generosa disponibilidade para o fazer.

Há uns dias atrás o meu amigo José Eduardo lançou-me o desafio de escrever um texto para o blog “Abelhas à Beira” sobre o calendário da aplicação dos tratamentos contra a varroose.

Eu e o meu irmão entrámos no mundo da apicultura em 2016 quando nos inscrevemos num curso de iniciação à apicultura na Lousamel. Até lá, não tínhamos tido qualquer contacto com esta realidade.

A nossa aventura começou no ano de 2017 quando compramos os primeiros enxames. Atualmente temos mais de 100 colónias. Mas não foi fácil chegar até aqui. Cometemos muitos erros, apesar da boa formação inicial que tivemos e com a leitura de livros e informação veiculada em sítios da internet (já há vários anos que acompanhamos o blog “Abelhas à Beira”). Também contámos com ajuda e partilha de experiências de apicultores que fomos conhecendo nesta caminhada.

Deparámo-nos desde o início da atividade apícola com grandes perdas invernais de colónias. Inexplicavelmente algumas colmeias ficavam vazias e noutras as abelhas morriam de “frio” em pequenos cachos. Informo que os nossos apiários localizam-se a altitudes que variam entre os 600 m e os 900 m, na zona da Beira Interior. Mas o verdadeiro assassino das colónias tem pelo nome Varroa destructor. Sempre fizemos dois tratamentos um no fim do Inverno (início de março) e o outro no início do Outono (início de Outubro) / fim do Verão (Setembro). O resultado foi catastrófico, todos os anos tivemos perdas anuais superiores a 30 %. Durante este período usámos dois medicamentos diferentes e o resultado foi sempre o mesmo.

Na comunidade apícola não há um consenso, nem relativamente ao medicamento, nem em relação ao timing do tratamento contra a varroose. Este ano até à data as perdas invernais são de apenas 2,9 % e a maioria das colónias estão fortes. O que mudou? Já tínhamos conhecimento da importância dos timings na colocação do tratamento ao lermos as publicações do José Eduardo no blog “Abelhas à Beira” e em conversas informais, onde este alertava para a colocação atempada do tratamento (1º tratamento em início de fevereiro/fim de janeiro e o 2ª tratamento no início de agosto) e a sua duração (10 a 12 semanas). Este ano decidimos seguir os conselhos do José Eduardo e de outros apicultores da região que já praticam esta metodologia e como já mencionei anteriormente a taxa de sucesso do tratamento aumentou significativamente. Já agora, o princípio ativo do medicamento que usámos é o amitraz.

O tema da sanidade apícola é muito complexo e depende de várias variáveis: da genética das abelhas (comportamento higiénico), do maneio, da nutrição das abelhas (floração variada), etc. Não podemos, assim, reduzir este assunto apenas ao tratamento fitofarmacêutico. Mas enfatizo a importância de se tratar a varroose com medicamentos homologados nas alturas certas e com a duração adequada.

Nota: relacionado com o testemunho do meu amigo Rui Martins sugiro a leitura desta publicação.

as tiras de ácido oxálico de libertação lenta: uma ferramenta para fazer a rotação entre tratamentos

Tiras de cartão com ácido oxálico,
produzidas pela polaca Lyson.

Em novembro de 2017 escrevi acerca do Aluen CAP: “Tanto quanto sei a eficácia do Aluen CAP não está dependente da temperatura e humidade exterior como é  caso de outros tratamentos formulados com base no timol ou ácido fórmico. Este produto argentino parece-me uma opção muito interessante para os apicultores portugueses, pensando nos constrangimentos climatéricos que podem limitar/impedir a aplicação atempada do fórmico ou timol nas nossas colmeias, nomeadamente no período crítico de infestação pela varroa no final de verão/início do outono (meses de agosto/setembro). O Aluen CAP poderá ser o utensílio adequado no sentido de promover a adequada rotação entre produtos acaricidas eficazes.  Aguardemos que o Aluen CAP seja homologado em breve na Europa e em Portugal.”

Para além da vantagem referida em cima, as tiras com ácido oxálico são um tratamento de longa duração, garantindo taxas de elevada eficácia mesmo em épocas de criação presente nas colónias. Este aspecto é realçado num artigo recente (2020), sobre um ensaio de campo realizado em Veracruz, México, do qual que traduzo alguns excertos em baixo:

Acerca das vantagens das tiras de libertação longa de ácido oxálico (AO): “o método de aplicação de AO por gotejamento restringe sua eficácia, apresentando uma eficácia média de apenas 66% quando a criação está presença. Assim, o poder acaricida do AO é limitado durante as longas temporadas de criação, típicas de climas quentes. Neste cenário, Aluen Cap é uma formulação alternativa de AO, cuja aplicação exibe altos níveis de eficácia mesmo quando há criação. Esta formulação nunca foi testada em abelhas africanizadas em climas tropicais. Nesse contexto, este trabalho avalia a utilização e a eficácia de uma formulação acaricida à base de ácido oxálico (Aluen Cap) contra o Varroa destructor em abelhas africanizadas mexicanas, onde a criação operculada sempre esteve presente ao longo do ano.

Acerca das condições de temperatura e humidade presentes no território: “Este território apresenta um clima tropical húmido ao longo do ano, com temperatura média mínima em torno de 26 ° C e máxima em torno de 38 ° C, e precipitação média em torno de 1500 mm. Este estudo foi realizado de 29 de junho a 30 de agosto de 2016, coincidindo com o período mais quente e húmido do ano. O valor da temperatura média máxima oscilou em torno dos 32 ° C, e a média mínima em redor dos 24 ° C. A precipitação média durante a estação chuvosa oscilou entre 214-293 mm por mês.

Os resultados:  “A eficácia média do Aluen Cap foi de 92,1% […] Não houve diferenças significativas nos valores de força inicial e final entre as colónias tratadas e de controle, tanto para valores de abelhas adultas quanto de criação […] Mortalidade nas rainhas ou criação de abelhas não foi detectada durante ou após o tratamento. […] A maioria dos ácaros morreu nos primeiros 21 dias […].

fonte: Sóstenes Rafael Rodríguez Dehaibes, Facundo René Meroi Arcerito, Elissa Chávez-Hernández, Gonzalo Luna-Olivares, Jorge Marcangeli, Martin Eguaras & Matias Maggi (2020) Control of Varroa destructor development in Africanized Apis mellifera honeybees using Aluen Cap (oxalic acid formulation), International Journal of Acarology, 46:6, 405-408

Nota: infelizmente, as tiras de libertação lenta de ácido oxálico não fazem parte da lista dos tratamentos homologados no nosso país. A sua utilização pode estar sujeita a uma contra-ordenação. Não promovo nem deixo de promover a sua utilização, nunca me coloquei nesse papel, apresento sim informação sobre a sua eficácia, medida de forma controlada.

tratamento com formivar: os dados de um apicultor amigo

Apresento em baixo um documento de trabalho de um apicultor amigo, de grande competência na minha opinião, acerca dos resultados que obteve este ano com a aplicação do formivar, um medicamento com ácido fórmico. Podem ver aqui o protocolo de utilização. Nunca experimentei, mas segundo o que li e agora re-confirmado por estes dados, tenho a convicção que este tratamento pode ter uma boa eficácia em casos de uma infestação elevada, em casos de re-infestação ou em casos de baixa eficácia com o tratamento principal.

Foram estabelecidos dois grupos de colónias de acordo com o veículo utilizado para veicular o Formivar como se vê na tabela em baixo.

Tabela com os testes de contagem de varroas com açúcar em pó

Legenda: gr – peso das abelhas
nº – número de varroas caídas
% – percentagem de infestação, calculada/fórmula nºx10/gr

Algumas notas de detalhe:

  • Apiário composto por 18 colmeias reversíveis e 3 lusitanas que foram as usadas na aplicação com vaporizador;
  • As colmeias tinham sido tratadas com timol em junho/julho e sofreram, provavelmente, uma reinfestação nos inícios de setembro;
  • Nas colmeias reversíveis, dada a sua menor capacidade, foram utilizados 2,5ml por quadro de abelhas, sendo que nunca foram ultrapassados os 15ml;
  • Foram feitas 3 contagens, a inicial para avaliar o nível de infestação, a segunda ao 8º dia coincidindo com a terceira aplicação nos panos/esponja e a última 30 dias depois do início do tratamento;
  • Nas colmeias lusitanas foi introduzido o máximo da capacidade do vaporizador (entre 100 e 120ml) e com as aberturas a meio. No dia 7/10, as aberturas foram totalmente abertas, quando foi feita 2a contagem;
  • A partir do 8º dia notou-se uma melhoria significativa na qualidade da criação com posturas homogéneas e que se consolida no estado geral quando nasce a 1a geração de abelhas pós-tratamento.

Tiro daqui o chapéu a todos os apicultores que em modo de produção biológica têm perdas por varroose relativamente baixas (entre os 5 e 15%). Creio ser o caso deste amigo, que tenho ouvido com ganhos pessoais, com o objectivo de montar uma estratégia mista, convencional e biológica, para gerir eventuais resistências aos princípios activos dos acaricidas que tenho utilizado regularmente.

resistência aos acaricidas: alguns apontamentos e reflexões

Apontamentos

A resistência a pesticidas é um fenómeno que ocorre quando os organismos-alvo sobrevivem a doses ou concentrações de uma substância tóxica que anteriormente provocava níveis elevados de mortalidade. Os principais mecanismos de resistência hoje conhecidos incluem desintoxicação melhorada, insensibilidade do local-alvo e penetração cuticular reduzida.

Daqui decorre que para avaliar resistências seja indispensável conhecer/determinar um “valor-base de referência” da concentração necessária de uma determinada substância activa para que esta provoque elevados níveis de mortalidade em populações-alvo susceptíveis. Mais, é de todo desejável que se defina o que são níveis elevados de mortalidade na população-alvo.

No caso concreto dos pesticidas utilizados pelos apicultores para controlar as populações do varroa é uma tarefa complexa determinar com rigor se se está na presença de um fenómeno de resistência ao acaricida que se utilizou. Episodicamente há apicultores a testemunhar a baixa eficácia dos tratamentos, referindo com alguma frequência a possibilidade de resistências. Para termos uma noção da complexidade que envolve avaliar com o rigor necessário este fenómeno nada como analisar os protocolos utilizados na sua investigação.

Frank D. Rinkevich, um grande especialista na área (ver aqui excelente entrevista que deu), numa publicação recente dá-nos a conhecer um exemplo desse percurso/protocolo. Acerca da resistência ao amitraz e baixa eficácia do Apivar em alguns casos pontuais de operações apícolas profissionais nos EUA o autor sentiu, entre outros aspectos, a necessidade de apresentar uma definição funcional de resistência, e definiu-a assim: populações de varroa que apenas são susceptíveis a concentrações do amitraz 10 vezes superiores ao “valor-base de referência” e cuja eficácia do Apivar® é inferior a 80% podem ser classificadas como funcionalmente resistentes ao amitraz.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6968863/

Reflexões

Neste outro estudo de 2019, acerca da eficácia de tratamentos baseados no ácido fórmico, verificamos que dois dos três tratamentos avaliados apresentam uma eficácia inferior a 80%. Será um caso de varroas resistentes ao ácido fórmico? Aumentar em 10 vezes a dosagem do ácido fórmico está fora de questão porque as abelhas não iam sobreviver. De qualquer forma a resistência dos ácaros ao ácido fórmico, tanto quanto é do meu conhecimento, nunca foi rigorosamente testada com qualquer protocolo. Assume-se que a falta de eficácia dos tratamentos com fórmico não se pode dever à existência de varroas resistentes ao mesmo. Como esta hipótese não foi testada faltam evidências da resistência ao fórmico. A questão que me fica é se esta falta de evidências é uma evidência da falta de resistência? Não sei, não estou convencido, é um aspecto que na minha opinião merece mais estudo e menos partis pris!**

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2019.1656788

Nota: destes dois estudos, e sem querer tornar esta análise numa questão de tipo “clubístico”, noto que mesmo quando o Apivar é menos eficaz elimina os varroas numa percentagem semelhante ou até superior a dois dos tratamentos com fórmico.

** Neste aspecto estou bem acompanhado. Randy Oliver escreveu: “Tem sido frequentemente afirmado que os acaricidas naturais serão “sustentáveis”, isto é, que é improvável que o ácaro lhes desenvolva resistência. Eu não compro isso. Milani (2001) fala pelos biólogos quando afirma: “Não há razão para acreditar que o ácaro varroa não possa desenvolver resistência contra acaricidas de origem natural ou moléculas simples (por exemplo, ácido fórmico). Existem centenas de espécies de insetos e ácaros que se alimentam de plantas que contêm toxinas naturais. ”. fonte: http://scientificbeekeeping.com/the-arsenal-natural-treatments-part-1/

e se… 20% das colmeias tratadas ainda apresentarem abelhas com asas deformadas

Vamos imaginar este cenário: 20% das colmeias de dois apiários tratadas este ano (por exemplo 9 em 59), e supostamente a tempo, com um medicamento que se tem mostrado eficaz nos últimos anos, numa percentagem a rondar os 99% (menos de 1% das colónias morreu por varroose), apresentam a meio do período do tratamento várias abelhas com asas deformadas e uma ou outra jovem abelha a emergir moribunda do alvéolo.

Abelha moribunda a emergir do opérculo com o probóscide (língua) estirado e abelha com asas deformadas.

Vamos imaginar ainda este cenário: um amigo envia uma proposta de acção alternativa/correctiva, que decides experimentar nessas nove colónias.

Uma proposta de acção alternativa/correctiva!

Vamos ser imaginativos e criar mais este cenário: que estas 9 colónias venham a estar como as restantes 50, cheias de pão-de-abelha fresco e com criação saudável e compacta.

Pão-de-abelha fresco, ensilado recentemente, que se torna o motor da expansão de criação de abelhas de inverno muito saudáveis.
Criação compacta e aparentemente saudável.

A terminar não um cenário mas um desejo: num mundo próximo do ideal (o ideal seria o varroa nunca ter saído do território onde é autóctone) constar da lista dos medicamentos homologados um ou dois que entre outras coisas:

  • não sejam dependentes das temperaturas;
  • sejam de libertação lenta;
  • sejam de aplicação única e cubram 3 a 4 ciclos reprodutivos do varroa (40 a 50 dias);
  • sejam eficazes acima dos 90%;
  • não matem as jovens larvas numa altura em que é crítico ter o maior número possível de abelhas jovens a emergir até ao início de novembro;
  • não matem por vezes as rainhas;
  • apresentem substâncias activas suficientemente diferentes do medicamento mais eficaz que utilizamos frequentemente, para fazer a necessária rotação.

Nota: Alguns de nós, guiados pelo Randy Oliver, já transpuseram para a sua realidade estes aspectos que cenarizo. Muito sucesso para todos!