resistência ao amitraz: uma mutação não chega para contar toda a história

Quero começar por agradecer ao Nuno Capela o envio da apresentação que está na origem desta publicação e aos seus autores a autorização para me referir a ela. Trata-se de um trabalho de Maira Costa, Antonio Pérez-Pérez, Carlos A. Yadro Garcia, Ana R. Lopes, Raquel Martín-Hernández, Maria Alice Pinto, Mariano Higes e Dora Henriques, apresentado no EurBee 11, em Bolonha. O título é longo, mas a pergunta é muito simples: o que aconteceu, ao longo dos anos, às varroas de Portugal e Espanha quando olhamos para genes associados à resistência aos acaricidas?

É uma pergunta que merece atenção porque a varroa não responde hoje aos tratamentos como uma população única e igual em todos os apiários. Há apiários onde um medicamento continua a baixar muito bem a infestação; noutros, o resultado é menos seguro. Parte dessa diferença pode estar na época, na criação existente, na reinfestação, no modo de aplicação ou no próprio medicamento. Parte pode estar nas varroas. E é aqui que a genética começa a entrar na conversa.

Em 2016 escrevi que o Apivar era provavelmente o melhor acaricida entre os então homologados em Portugal [1]. Era a conclusão prática a que chegara depois de ponderar eficácia, facilidade de aplicação, resíduos, segurança para o aplicador e impacto na colónia. Mas já então via um limite na lentidão com que o amitraz é libertado pelas tiras: quando a infestação está muito adiantada, esperar que um tratamento de acção lenta recupere uma colónia pode ser pedir-lhe mais do que consegue dar.

Cinco anos mais tarde, em «Apivar, provavelmente o pior acaricida» [2], o título era deliberadamente provocatório. Não achava que o Apivar fosse de facto o pior medicamento disponível. Achava apenas que tinha deixado de ser tão bom como fora anteriormente nos apiários que acompanhava. Essa diferença levou-me a alterar a estratégia, a introduzir tratamentos intermédios e, em 2022, a mudar para o Amicel, mantendo o mesmo princípio activo mas mudando a galénica: das tiras de plástico para as tiras de cartão [3,4].

Não atribuí então aquelas observações a uma causa única. A menor eficácia aparente pode resultar de muita coisa: criação presente, infestação inicial elevada, chegada de varroas de colónias vizinhas, momento do tratamento, transferência do produto pelas abelhas ou uma população de varroas menos sensível. A ciência entretanto avançou bastante. E não simplificou a questão e muito menos a resposta.

Uma história com várias peças

Quando um tratamento com amitraz começa a falhar, a explicação pode não estar toda no mesmo sítio. Pode haver varroas que mudaram o local onde o produto actua; outras podem conseguir eliminá-lo mais depressa; e pode ainda haver diferenças na quantidade de produto que realmente chega ao ácaro. Por isso, procurar uma mutação é útil, mas não é o mesmo que encontrar uma explicação completa.

Uma das alterações mais estudadas chama-se F290L. O nome parece complicado, mas descreve apenas uma pequena mudança numa proteína da varroa. O amitraz actua, entre outros locais, num recetor do sistema nervoso chamado Octβ2R. Podemos imaginá-lo como uma fechadura. Na posição 290 dessa proteína, a peça habitual, identificada pela letra F, é substituída por outra, identificada por L. Se essa mudança alterar a forma da fechadura, o amitraz pode deixar de actuar com a mesma eficácia.

Em 2024, Hernández-Rodríguez e colaboradores acompanharam, durante dois anos, colónias experimentais sujeitas a tratamentos repetidos [5]. Nas colónias tratadas com amitraz, a variante L290 tornou-se mais frequente. Além disso, as varroas com maior presença desta variante demoraram mais a morrer quando expostas ao amitraz. É um resultado relevante porque aproxima três coisas: o uso repetido do tratamento, a alteração genética e uma menor suscetibilidade das varroas.

Dois anos depois, Pérez-Pérez e colaboradores encontraram uma situação diferente, mas que não contradiz necessariamente a primeira [6]. Analisaram 83 varroas de 14 apiários do centro de Espanha, alguns tratados com amitraz e outros com ácido oxálico. F290L apareceu em 89% das varroas, muitas delas com a alteração nas duas cópias do gene. Não encontraram diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos de apiários.

A leitura mais simples é esta: naquele território, F290L já está muito espalhada. Quando uma variante se torna tão comum, a sua presença deixa de bastar para antecipar, por si só, se o amitraz irá funcionar bem numa determinada colónia. Pode ser um sinal relevante, mas não substitui o teste que verdadeiramente interessa ao apicultor: medir a infestação antes e depois do tratamento.

A apresentação que Nuno Capela me enviou acrescenta uma peça importante. Os autores compararam 267 varroas de Portugal e Espanha, incluindo amostras antigas, recolhidas entre 2006 e 2010, e amostras recentes, de 2019 a 2025. Nas amostras antigas não encontraram mutações associadas à resistência ao amitraz; nas recentes, a mutação F290L apareceu em 85% das varroas. A comparação sugere, portanto, que esta variante se tornou comum mais tarde nas populações ibéricas.

Não é ainda uma conclusão definitiva. Trata-se de uma apresentação de congresso e não demonstra que o amitraz tenha sido a única força a seleccionar F290L. Mas ajuda a perceber duas coisas: a mutação merece atenção e, ao mesmo tempo, não deve ser transformada numa explicação única para todas as falhas de tratamento.

Quando a varroa não muda apenas a fechadura

Se F290L não explica tudo, onde devemos procurar o resto da explicação? Um estudo publicado em 2025 por Mavridis e colaboradores ajuda a responder [7]. Os autores trabalharam com uma população de varroas resistente tanto ao amitraz como à flumetrina. Nos ensaios, apenas 35% das varroas morreram com amitraz, enquanto nas populações suscetíveis usadas para comparação a mortalidade ultrapassou 90%. Apesar disso, F290L apareceu apenas em 8,6% das varroas resistentes.

Os investigadores encontraram nessa população uma enzima mais activa, chamada CYP3002B2. Depois produziram essa enzima em laboratório e demonstraram que ela consegue transformar o amitraz e a flumetrina em compostos menos activos. É uma forma de desintoxicação: em vez de apenas mudar a fechadura onde o produto actua, a varroa pode desfazer parte do produto antes de este produzir o efeito esperado.

Em 2026, dois trabalhos norte-americanos acrescentaram outra defesa. As varroas têm transportadores da família ABC, pequenas bombas que ajudam a retirar substâncias das células. Fine e colaboradores [8] verificaram que, ao bloquear farmacologicamente estes transportadores, o amitraz se tornava mais tóxico para varroas resistentes — aspecto referido pelo Frederico Passas na conversa que tivemos no black.bee talks https://open.spotify.com/show/1pQeYpBGDf1NDoB2d4aB1H. Ricigliano e colaboradores obtiveram resultado convergente reduzindo, por RNAi, a expressão de transportadores ABCB1-like [9]. A imagem mais simples é esta: depois de o amitraz entrar, a varroa pode tentar expulsar uma parte antes de ele fazer estragos.

Há ainda um terceiro caminho possível. Na população resistente estudada por Mavridis e colaboradores, vários genes ligados à cutícula estavam mais activos. A cutícula é a camada exterior dura da varroa. Uma alteração nessa barreira pode fazer com que um acaricida de contacto entre mais devagar ou em menor quantidade. Esta parte ainda é hipótese: o estudo encontrou o sinal nos genes, mas não mediu directamente a passagem de amitraz através da cutícula. Ao contrário da enzima CYP3002B2 e dos transportadores ABC, falta aqui a demonstração funcional.

Quando juntamos estas peças, a resistência deixa de parecer uma questão de tudo ou nada. Uma varroa pode ter uma alteração no recetor, pode transformar parte do amitraz, pode expulsar uma parte do que entrou na célula e talvez possa também dificultar essa entrada. Nenhum destes mecanismos precisa de estar presente da mesma forma em todas as populações. É por isso que dois apiários tratados com o mesmo princípio activo podem não responder da mesma maneira.

O que esta história pede ao apicultor

É tentador olhar para uma mutação como F290L e procurar uma resposta rápida: está presente, o amitraz falha; está ausente, o amitraz funciona. A investigação ainda não permite essa simplificação. A mutação fornece uma pista importante, sobretudo quando se conhece a população onde foi estudada. Mas uma pista genética não substitui saber o que aconteceu à infestação depois do tratamento.

Também não basta mudar de princípio activo e presumir que o problema ficou resolvido. A variedade de mecanismos que começa agora a aparecer reforça uma prática que deveria acompanhar qualquer estratégia de controlo: medir antes de tratar, aplicar o medicamento de acordo com o seu rótulo e voltar a medir depois — aspecto referido por mim na conversa que tive com o Frederico no black.bee talks https://open.spotify.com/show/1pQeYpBGDf1NDoB2d4aB1H#login. É a segunda medição que nos diz se a infestação baixou realmente e se a colónia ficou numa situação mais segura.

No apiário, isto exige um método comparável de monitorização, uma amostra com dimensão conhecida e o registo do resultado. Sem isso, uma boa queda de varroas no estrado pode dar uma impressão reconfortante sem responder à pergunta principal: quantas varroas ficaram? Perante uma resistência que pode ter mais do que um mecanismo, a monitorização pós-tratamento deixa de ser apenas uma boa prática. É a forma de saber se o tratamento com amitraz — ou com outro princípio activo — resultou de facto naquela colónia.

O amitraz não se tornou subitamente inútil. Continua a ser uma ferramenta importante, mas já não pode ser tratado como uma resposta garantida. O caminho mais prudente não é abandonar a ferramenta por antecipação, nem confiar nela por hábito. É olhar para a colónia, medir a varroa e deixar que o resultado do tratamento tenha a última palavra.

Referências do blogue

  1. Gomes, J. E. (2016). Apivar, provavelmente o melhor acaricida. Abelhas à Beira. Ler
  2. Gomes, J. E. (2021). Apivar, provavelmente o pior acaricida. Abelhas à Beira. Ler
  3. Gomes, J. E. (2022). Estudo de sensibilidade/resistência de Varroa destructor ao amitraz. Abelhas à Beira. Ler
  4. Gomes, J. E. (2022). Amicel: uma galénica diferente para veicular o amitraz. Abelhas à Beira. Ler

Artigos e estudos

  1. Hernández-Rodríguez, C. S., Moreno-Martí, S., Emilova-Kirilova, K. & González-Cabrera, J. (2025). A new mutation in the octopamine receptor associated with amitraz resistance in Varroa destructor. Pest Management Science, 81, 308–315. DOI: 10.1002/ps.8434.
  2. Pérez-Pérez, A., Bartolomé, C., Sagastume, S., Meana, A., Martín-Hernández, R., Maside, X. & Higes, M. (2026). Short communication: Amitraz treatments do not increase the frequency of mutations in the β2-adrenergic octopamine receptor in Varroa destructor: a field study in Central Spain. Research in Veterinary Science, 203, 106101. DOI: 10.1016/j.rvsc.2026.106101.
  3. Mavridis, K. et al. (2025). Identification and functional characterization of CYP3002B2, a cytochrome P450 associated with amitraz and flumethrin resistance in the major bee parasite Varroa destructor. Pesticide Biochemistry and Physiology, 210, 106364. DOI: 10.1016/j.pestbp.2025.106364.
  4. Fine, J. D. et al. (2026). Amitraz toxicity in resistant Varroa mites can be increased by inhibiting ABC efflux transporters. Journal of Apicultural Research, 65, 385–396. DOI: 10.1080/00218839.2026.2620209.
  5. Ricigliano, V. A. et al. (2026). RNAi targeting ABCB1-like efflux transporters improves miticide efficacy in resistant Varroa mites. Parasites & Vectors, 19, 280. DOI: 10.1186/s13071-026-07461-7.

Apresentação referida

Costa, M. et al. (2026). Temporal shifts in acaricide receptor gene mutations in Varroa destructor from Portugal and Spain. Comunicação apresentada no EurBee 11, Bolonha. Dados cedidos pelos autores para referência nesta publicação.

qual é o melhor tratamento contra a varroa?

Quando um apicultor pergunta qual é o melhor tratamento contra a varroa, provavelmente está a fazer uma pergunta demasiado simples para um problema que não é simples. Todos gostaríamos de ter um produto suficientemente eficaz, barato, fácil de aplicar e independente da temperatura, da quantidade de criação, da época do ano e da resistência que as varroas possam ter desenvolvido. Aplicá-lo-íamos quando chegasse a altura e o problema ficaria resolvido. Infelizmente, a varroa não nos facilita assim a vida.

Um estudo publicado este ano por Mazur e colaboradores ajuda a perceber porquê [1]. Os investigadores analisaram 8.655 apicultores da Áustria, Chéquia, Polónia e Eslováquia, correspondentes a 171.756 colónias, relacionando as estratégias de controlo da varroa com a mortalidade. O resultado que considero mais interessante não é a vitória de determinado produto. Essa vitória, simplesmente, não aparece. As práticas variavam bastante entre países e entre explorações de diferentes dimensões. E as estratégias associadas às menores perdas combinavam, em diferentes momentos, métodos biotécnicos, ácidos orgânicos e acaricidas sintéticos [1].

Estudo de Mazur e colegas

Talvez seja, portanto, mais útil deixarmos de pensar apenas em tratamentos e começarmos a pensar em estratégias de controlo. Um tratamento excelente pode produzir um resultado insuficiente no nosso apiário. Pode ter sido aplicado demasiado tarde; pode existir demasiada criação operculada para um produto que actua sobre as varroas expostas; a temperatura pode ser inadequada; ou as varroas podem apresentar resistência à substância utilizada. O medicamento não mudou. Mudou aquilo que estava à volta dele.

E há uma variável que me parece particularmente importante: o timing. Não é uma ideia nova neste blogue. Em janeiro de 2017 publiquei «o timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças». A partir dos dados dos meus apiários, da dinâmica populacional da varroa e da literatura então disponível, concluía que tratar tarde podia significar chegar depois do momento em que deveríamos estar a proteger as abelhas que atravessariam o inverno. Escrevia então que «mais tarde poderá ser tarde demais». [2]

Oito anos depois voltei ao assunto em «uma das principais causas da falha dos tratamentos contra a varroa». Um estudo baseado em 4.339 apicultores e 18.700 colónias de Inglaterra e País de Gales encontrava menores perdas de inverno associadas ao momento correcto da aplicação do tratamento e não simplesmente ao facto de este ter sido realizado [3]. Entretanto a evidência foi-se acumulando, mas a ideia essencial pouco mudou. Uma infestação de 2% não significa exactamente a mesma coisa em março, em julho ou quando estamos a produzir as abelhas de inverno. Enquanto existe criação, a população de varroa pode crescer rapidamente. O modelo clássico de Stephen Martin mostrou bem como uma população inicialmente modesta pode transformar-se numa população muito diferente alguns meses depois [4].

Há aqui uma diferença importante entre matar varroas e controlar a varroa. Matar varroas é relativamente fácil. Controlá-las durante um ano inteiro obriga a pensar no momento das intervenções, na sequência dos tratamentos, na existência de criação, na reinfestação e naquilo que pretendemos proteger em cada momento.

É aqui que entram as janelas de oportunidade. Uma interrupção natural ou provocada da criação, por exemplo, expõe uma proporção muito maior da população de varroa à acção do ácido oxálico. O produto é exactamente o mesmo; aquilo que mudou foi a oportunidade que lhe demos para actuar. Com criação presente e nas condições adequadas, o ácido fórmico oferece outras possibilidades. E haverá circunstâncias em que um acaricida sintético autorizado, correctamente utilizado e perante varroas sensíveis ao princípio activo, será a ferramenta mais adequada. A estratégia começa quando deixamos de perguntar qual destas ferramentas é a melhor e passamos a perguntar quando cada uma delas nos pode ser mais útil.

E o timing não é tudo. Já em 2017, numa publicação sobre mortalidade de colónias e maneio, referi dados apresentados por Dennis vanEngelsdorp mostrando associações importantes entre as opções tomadas pelo apicultor e a sobrevivência das colónias [5]. Um grande estudo epidemiológico pan-europeu publicado nesse mesmo ano, envolvendo 5.798 apiários de 17 países, encontrou igualmente uma associação forte entre sobrevivência, experiência/formação do apicultor e controlo das doenças [6]. O novo trabalho de Mazur e colaboradores acrescenta agora uma peça particularmente interessante. As melhores estratégias variaram entre países e entre explorações de diferentes dimensões [1]. Os autores admitem que diferenças de experiência, formação, fontes de conhecimento e organização do maneio possam ajudar a explicar por que razão estratégias diferentes conseguem resultados satisfatórios.

Isto interessa-me particularmente porque reforça uma ideia que tenho repetido neste blogue: não podemos separar completamente o tratamento do apicultor que o utiliza e do sistema de maneio em que ele é utilizado.Curiosamente, no estudo de Mazur as explorações maiores apresentaram consistentemente mortalidades inferiores. Isto não significa que ter muitas colmeias faça morrer menos abelhas. Pode reflectir, entre outras coisas, maior experiência, organização e disciplina na execução das estratégias [1].

E isso leva-nos à monitorização. Um tratamento não é eficaz simplesmente porque o aplicámos. Só sabemos se foi suficientemente eficaz quando verificamos o que ficou depois dele. 

Monitorizando a taxa de infestação numa amostra de aproximadamente 300 abelhas adultas, numa visita técnica a apiário recente

Entre outros aspectos, a rapidez ou lentidão de acção do acaricida ajuda a perceber por que razão aquilo que «sempre resultou» pode deixar de resultar em contextos de elevada infestação.

Por isso a procura do «melhor tratamento» me parece cada vez menos interessante. Para perceber por que razão um tratamento resultou ou falhou temos de saber quando foi aplicado, qual era a infestação, quanta criação existia, qual a sensibilidade das varroas, que eficácia se conseguiu e o que foi feito a seguir. O nome escrito na embalagem conta apenas uma parte da história.

Também não retiraria daqui a conclusão confortável de que «cada apiário é um caso» e, portanto, cada um pode fazer o que entender. Há princípios que continuam válidos. Uma população elevada de varroa é perigosa; tratar demasiado tarde tem consequências; e uma substância perante a qual as varroas desenvolveram resistência não recupera eficácia por mudarmos a nossa filosofia de maneio. O que muda é a maneira de aplicar esses princípios às circunstâncias concretas.

Talvez seja essa a principal utilidade do estudo de Mazur e colaboradores. Não nos oferece a receita que muitos gostariam de encontrar. Mostra que os melhores resultados estão associados a estratégias, ao momento e à combinação das ferramentas, e não simplesmente à escolha de um produto [1]. A pergunta deixa então de ser apenas «qual é o melhor tratamento contra a varroa?» e passa a ser:

quanto tenho agora, para onde poderá caminhar esta população, que abelhas preciso de proteger, que janela de oportunidade tenho à minha frente e que ferramenta faz mais sentido utilizar neste momento?

Parece apenas uma mudança na pergunta. Na prática, é uma maneira bastante diferente de controlar a varroa.

Referências bibliográficas

[1] Mazur, E., Biemann, O., Brodschneider, R., Chlebo, R., Gajda, A., Iller, M., Vencálek, O., Brus, J. & Danihlík, J. (2026). Varroa control strategies of different beekeeper groups and corresponding honey bee colony mortality in Central Europe. Journal of Advanced Research. DOI: 10.1016/j.jare.2026.06.003.

[2] Gomes, E. (2017). O timing do tratamento contra a varroa: juntando as peças. Abelhas à Beira, 30 de janeiro de 2017.

[3] Gomes, E. (2025). Uma das principais causas da falha dos tratamentos contra a varroa. Abelhas à Beira, 7 de setembro de 2025. Baseado em A large-scale study of Varroa destructor treatment adherence in apiculture.

[4] Martin, S. J. (1998). A population model for the ectoparasitic mite Varroa jacobsoni in honey bee (Apis mellifera) colonies. Ecological Modelling, 109, 267–281. DOI: 10.1016/S0304-3800(98)00059-3.

[5] Gomes, E. (2017). Mortalidade de colónias de abelhas nos EUA: que relação com o maneio. Abelhas à Beira, 27 de dezembro de 2017.

[6] Jacques, A., Laurent, M., Ribière-Chabert, M., Saussac, M., Bougeard, S., Budge, G. E. et al. (2017). A pan-European epidemiological study reveals honey bee colony survival depends on beekeeper education and disease control. PLOS ONE, 12, e0172591. DOI: 10.1371/journal.pone.0172591.

[7] Bertola, M. & Mutinelli, F. (2025). Sensitivity and resistance of parasitic mites (Varroa destructor, Tropilaelaps spp. and Acarapis woodi) against amitraz and amitraz-based product treatment: a systematic review. Insects, 16, 234. DOI: 10.3390/insects16030234.

Outras publicações relacionadas no Abelhas à Beira

— Programas de tratamento do ácaro varroa.

— Acaricidas rápidos e acaricidas lentos.

— Inventário da susceptibilidade do Varroa destructor ao amitraz e tau-fluvalinato em França, 10 de novembro de 2020.

— Resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato em regiões de França.

— Publicações sobre monitorização da taxa de infestação e verificação da eficácia dos tratamentos.

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CO2 contra a varroa: quando a juventude do investigador contrasta com a maturidade do projecto

Há alguns dias começou a circular nas redes sociais uma notícia com todos os ingredientes para despertar simultaneamente curiosidade e desconfiança: um jovem de 17 anos, na Florida, teria desenvolvido um aparelho que utiliza dióxido de carbono para eliminar a Varroa destructor, sem acaricidas, a um custo quase insignificante e com resultados extraordinários em dezenas de colmeias. Como frequentemente acontece, os títulos vão mais depressa do que a ciência. Seria fácil colocar tudo isto na gaveta das notícias demasiado boas para serem verdade. Neste caso, porém, seria igualmente precipitado fazê-lo. Por detrás do exagero existe um trabalho real, desenvolvido ao longo de vários anos, assente numa hipótese biologicamente plausível e que já chegou a ensaios de campo com dezenas de colónias.

O jovem chama-se Aakash Manaswi e o princípio que explora é relativamente simples: abelhas e Varroa não toleram da mesma maneira atmosferas muito enriquecidas em dióxido de carbono. Trabalhos anteriores já tinham mostrado que concentrações elevadas de CO₂ podem provocar o desprendimento das varroas das abelhas e aumentar a sua mortalidade. A originalidade de Manaswi está sobretudo na tentativa de transformar este fenómeno fisiológico num método utilizável numa colmeia.

De uma experiência de estudante a 60 colónias

O percurso começou há cerca de três anos. Em 2024, Manaswi procurou determinar se existia uma combinação de concentração e tempo de exposição ao CO₂ capaz de afetar fortemente a Varroa sem provocar danos equivalentes nas abelhas. Em 2025 o projeto passou para 45 colónias e é desta fase que provém a alegação, divulgada pelo Young Scientist Lab, de uma redução da Varroa superior a 96%. Desenvolveu também um sistema de visão artificial para identificar e contar os ácaros caídos.

Em 2026 deu outro salto: no Regeneron International Science and Engineering Fair apresentou um ensaio com 60 colónias durante dez semanas, comparando o CO₂ com acaricidas convencionais e avaliando também indicadores de saúde das abelhas. O projeto recebeu o primeiro prémio na categoria Animal Sciences e o Peggy Scripps Award for Science Communication.

Portanto, não estamos perante alguém que colocou CO₂ numa colmeia, viu cair algumas varroas e publicou um vídeo na Internet. Existe um programa experimental continuado. Mas também não estamos ainda perante um tratamento cientificamente validado. É entre estas duas afirmações que convém colocar esta história.

O «Mite Blower»

Uma entrevista recente de Manaswi ao Beekeeping Today Podcast permitiu conhecer alguns pormenores importantes. O dispositivo, a que chama Mite Blower, coloca-se sobre a colmeia e distribui o gás através de nove tubos perfurados posicionados sobre os quadros. Depois de testar dez concentrações, Manaswi chegou a uma mistura com aproximadamente 30% de CO₂, aplicada a cerca de 2 litros por minuto durante aproximadamente um minuto.

Não se trata simplesmente de «sufocar a Varroa». O interesse está na diferente susceptibilidade fisiológica do ácaro e da abelha à hipercapnia: aparentemente existe uma janela em que a Varroa é fortemente afetada enquanto a abelha ainda tolera a exposição.

Há, contudo, uma pergunta que qualquer apicultor familiarizado com a biologia da Varroa fará imediatamente: e as varroas que estão dentro da criação operculada?

O opérculo continua no caminho

Esta talvez seja a informação mais importante de toda a história. Questionado diretamente, Manaswi reconhece que o método atua essencialmente sobre as varroas foréticas; não resolve o problema das varroas protegidas dentro dos alvéolos operculados.

Isto obriga a olhar com prudência para o número mágico dos 96%. Numa colónia com criação abundante, uma grande proporção da população de Varroa pode encontrar-se precisamente onde o tratamento não chega. Eliminar 96% das varroas presentes sobre as abelhas adultas não significa necessariamente eliminar 96% da população total existente na colónia.

Manaswi reconhece, aliás, que ainda não experimentou o sistema numa colónia sem criação. Essa poderá ser uma das experiências mais esclarecedoras: qual é a eficácia do CO₂ quando praticamente toda a população de Varroa está exposta?

O investigador propõe aplicações aproximadamente de quatro em quatro semanas. Também aqui haverá muito para esclarecer, porque a Varroa transita continuamente entre a fase protegida na criação e a fase de dispersão sobre as abelhas. Se o CO₂ atuar essencialmente sobre esta última, o intervalo ótimo deverá resultar dessa dinâmica. Pode mesmo acontecer que esta tecnologia venha a ter particular interesse durante uma interrupção de criação, natural ou provocada, quando praticamente todas as varroas ficam temporariamente expostas. Por enquanto, é apenas uma hipótese, mas uma hipótese que me parece particularmente interessante.

Resultados promissores, mas ainda não publicados

O projeto de 2026 comparou também indicadores de saúde das abelhas submetidas a CO₂ com os das colónias tratadas com acaricidas, recorrendo inclusivamente a análise histológica. Segundo os resultados apresentados no ISEF, o CO₂ conseguiu um controlo da Varroa comparável ou superior aos acaricidas utilizados no ensaio, enquanto as abelhas tratadas com CO₂ apresentaram melhores indicadores de saúde. Estas colónias teriam produzido também mais mel.

São resultados interessantes, mas há uma palavra que importa conservar: apresentados.

Até à data, não consegui localizar uma publicação científica sujeita a revisão por pares que descreva estes ensaios. O próprio Manaswi afirmou que pretende publicar os resultados. Não podemos ainda, portanto, escrutinar os dados completos, a análise estatística, a variabilidade entre colónias e, sobretudo, a forma exata como foi calculada a eficácia anunciada. Isto não diminui o mérito do trabalho; apenas coloca a evidência no lugar onde atualmente se encontra.

E um tratamento pode mesmo custar quase nada?

Este é outro aspeto da notícia que merece atenção porque os números são impressionantes. Manaswi refere ter utilizado uma garrafa com cerca de 200 libras de gás, adquirida por aproximadamente 200 dólares, estimando que permita cerca de 15 500 tratamentos. A divisão é simples:

200 dólares ÷ 15 500 = cerca de 0,013 dólares por tratamento, pouco mais de um cêntimo de dólar por colmeia.

Considerando apenas o gás consumido, é um custo extraordinariamente baixo e explica as comparações com acaricidas que podem custar vários dólares por colmeia.

Mas o custo do gás não é o custo do tratamento.

É necessária uma garrafa, um regulador de pressão e caudal, mangueiras e o dispositivo de distribuição. A garrafa tem de ser comprada ou alugada, transportada e recarregada; há ainda o tempo necessário para colocar o equipamento, tratar a colmeia e passar à seguinte. Uma garrafa de 200 libras também dificilmente será prática num apiário, razão pela qual o próprio Manaswi aponta garrafas de 15–20 libras como solução mais adequada no campo.

E falta uma variável decisiva: quantas aplicações serão necessárias por ano? Se forem feitas de quatro em quatro semanas durante o período de criação, o custo económico terá de considerar várias intervenções.

Não será, portanto, correto concluir que tratar uma colmeia custa um cêntimo. O que estes números mostram é algo diferente e ainda assim muito interessante: o CO₂ consumido em cada tratamento poderá custar apenas alguns cêntimos por colmeia. Equipamento, amortização, transporte e mão-de-obra terão depois de ser acrescentados. Mesmo assim, um equipamento reutilizável associado a um consumível tão barato poderá apresentar uma economia muito favorável, particularmente quando utilizado em muitas colónias.

Uma ideia que não nasceu do nada

Há outra razão para não descartarmos o projeto. A sensibilidade da Varroa ao dióxido de carbono já tinha sido observada por outros investigadores. Kozak e colaboradores estudaram os efeitos de atmosferas enriquecidas em CO₂ sobre abelhas e Varroa. Bahreini e colaboradores publicaram em 2015 The Potential of Bee-Generated Carbon Dioxide for Control of Varroa Mites. Mais recentemente, Onayemi e colaboradores mostraram que concentrações elevadas de CO₂ durante o inverno aumentavam a mortalidade de Varroa destructor.

Existe, portanto, uma sequência científica anterior ao Mite Blower:

CO₂ elevado → Varroa particularmente sensível → diferença de tolerância entre parasita e hospedeiro → possibilidade de transformar essa diferença num tratamento.

É nesta última etapa que entra Manaswi.

Nem milagre nem curiosidade

Talvez a pior maneira de olhar para este trabalho seja escolher um dos dois extremos que habitualmente dominam estas discussões. Num deles, um adolescente descobriu um gás quase gratuito que elimina 96% das varroas e vai substituir os acaricidas. No outro, tudo não passa de mais uma história sensacionalista sem interesse para a apicultura.

A informação disponível não sustenta nenhuma destas conclusões.

Há um mecanismo biologicamente plausível, investigação independente anterior, três anos de desenvolvimento e ensaios com 45 e depois 60 colónias. Há ainda uma característica economicamente muito atraente: o consumível poderá custar apenas alguns cêntimos por aplicação. Mas faltam a publicação científica, os dados completos e a reprodução independente dos resultados. E falta separar inequivocamente a eficácia sobre a Varroa forética da eficácia sobre a população total existente na colónia.

Aos 17 anos, Aakash Manaswi ainda não demonstrou que encontrou uma nova solução para a varroose. Mas fez algo suficientemente importante para merecer atenção: transformou uma observação fisiológica numa hipótese de tratamento e levou essa hipótese até dezenas de colmeias.

Agora vem a parte mais exigente: publicar os dados, permitir que sejam escrutinados e conseguir que outros investigadores repitam a experiência.

Se passar essas provas, voltaremos a falar do CO₂. E provavelmente já não como uma curiosidade.

ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou?

Ontem, a propósito da publicação anterior, um apicultor deixou uma observação que me pareceu suficientemente interessante para aprofundar e sistematizar nesta publicação o que se sabe sobre o assunto. Tinha tratado algumas colmeias com ácido fórmico em maio. No final de junho, durante a cresta, trouxe por engano num sobreninho um quadro com criação e aproveitou a oportunidade para procurar Varroa. Encontrou apenas dez fundadoras adultas. O que verdadeiramente lhe chamou a atenção foi outra coisa: as dez estavam sozinhas nos alvéolos, sem descendência. A criação estava já suficientemente desenvolvida, com os olhos das pupas pigmentados e o corpo a começar a escurecer. A pergunta que colocou foi simples: tinha ouvido dizer que o ácido fórmico, mesmo quando não mata as varroas que estão dentro da criação operculada, pode torná-las estéreis. Poderia ser esta a explicação?

A observação merece atenção porque entre o tratamento de maio e aquilo que foi visto no final de junho decorreram várias semanas. As fundadoras encontradas não podiam ter permanecido desde maio naqueles mesmos alvéolos. Teriam sobrevivido ao tratamento, passado novamente pela fase de dispersão sobre as abelhas adultas e entrado posteriormente em nova criação. E a fase de desenvolvimento das pupas também é importante. A fundadora entra no alvéolo pouco antes da operculação e inicia normalmente a postura cerca de 60–70 horas depois, seguindo-se novos ovos aproximadamente a intervalos de 30 horas. Quando os olhos da pupa estão já bem pigmentados e o corpo começa a escurecer, uma Varroa que esteja a reproduzir normalmente deverá apresentar descendência facilmente observável. Encontrar apenas a fundadora significa, portanto, que naquele alvéolo a reprodução não ocorreu normalmente.

Da direita para a esquerda: ovo; protoninfa; deutoninfa masculina (em baixo); deutoninfa feminina (em cima); macho adulto (em baixo);fêmea adulta (em cima). Sobre o ciclo de vida e reprodução da varroa ver https://abelhasabeira.com/o-ciclo-de-vida-do-acaro-varroa-uma-actualizacao/)

Encontrar uma fundadora sem descendência não tem, por si só, nada de extraordinário. Há Varroas que não reproduzem num determinado ciclo e a percentagem varia bastante entre colónias e populações. Há também colónias com características de resistência nas quais a reprodução da Varroa é mais frequentemente interrompida. Encontrar dez fundadoras e estarem as dez sozinhas é uma observação diferente, embora dez continue a ser uma amostra pequena e não exista neste caso uma colónia controlo que permita saber qual seria a taxa de não reprodução sem o tratamento.

Creio que esta ideia sobre a esterilização das varroas por acção do ácido fórmico tem origem na história do MiteGone, sistema de libertação prolongada de ácido fórmico desenvolvido por Bill Ruzicka. E vale a pena contar esta história com algum cuidado porque a afirmação de que o fórmico “esteriliza 80% das Varroas” acabou por circular durante anos, mas a sua origem é menos simples do que a frase sugere.

Em 2000, Adony Melathopoulos, Bill Ruzicka e John Gates realizaram um ensaio comparando diferentes formas de utilização do MiteGone, ácido fórmico a 65%, com Apistan e colónias não tratadas. O ensaio mostrou que a colocação vertical dos dispensadores proporcionava um controlo apreciável da Varroa, enquanto a colocação horizontal funcionava bastante pior. Mas esse trabalho não estudou a fertilidade das fundadoras. Portanto, o ensaio original do MiteGone não demonstra qualquer esterilização.

A origem do conhecido número 80% contra 20% aparece mais tarde. Ruzicka relata que em 2007, na Florida, examinou criação de colónias submetidas ao tratamento. Na criação que já se encontrava operculada antes da aplicação, aproximadamente 80% das fundadoras apresentavam reprodução. Posteriormente foram examinados cerca de 500 alvéolos que tinham sido operculados cinco dias depois do início do tratamento e apenas cerca de 20% das Varroas apresentavam reprodução. Em 2020 repetiu a observação num pequeno número de colónias e afirma ter voltado a encontrar aproximadamente a mesma diferença. Daqui terá resultado a afirmação de que uma grande proporção das Varroas sobreviventes ao MiteGone ficaria “infertile”. MiteGone — documentação técnica

Imagem da aplicação do Mitegone (medicamento comercializado no Canadá).

É uma observação interessante, sobretudo porque o protocolo utilizado procurava criação suficientemente desenvolvida para que a reprodução pudesse ser avaliada. Curiosamente, aproxima-se bastante do relato que originou esta publicação: fundadoras presentes, criação suficientemente avançada e ausência de descendência. Mas há uma diferença importante. Os resultados de Ruzicka não foram, tanto quanto consegui encontrar, publicados num trabalho científico independente e revisto por pares que tivesse acompanhado individualmente as Varroas depois da exposição. Encontrar uma fundadora sem descendência permite dizer que ela não reproduziu naquele ciclo; não permite concluir que ficou definitivamente estéril.

Há razões fisiológicas para considerar plausível algum efeito reprodutivo. Bolli, Bogdanov, Imdorf e Fluri mostraram já em 1993 que o ácido fórmico provoca uma forte diminuição do consumo de oxigénio da Varroa, chegando a respiração praticamente a cessar em determinadas condições de exposição. Outros trabalhos reforçaram posteriormente a importância da interferência do fórmico com a respiração celular e com a produção de energia. Uma Varroa pode, portanto, sobreviver a uma determinada exposição sem necessariamente sair dela nas mesmas condições fisiológicas em que entrou. Numa reprodução dependente de uma sequência temporal apertada, uma perturbação suficientemente prolongada pode ser suficiente para perder um ciclo reprodutivo sem que a fundadora tenha necessariamente ficado estéril para sempre.

É precisamente aqui que a literatura científica independente obriga a moderar o entusiasmo pela hipótese.

Ao procurar trabalhos que acompanharam as populações depois de tratamentos com fórmico encontramos repetidamente efeitos que se prolongam para além da aplicação. Plamondon e colaboradores, por exemplo, acompanharam 45 colónias submetidas a diferentes tratamentos. Uma semana depois de retirado o Formic Pro, a queda média diária era muito inferior nas colónias anteriormente tratadas com fórmico e, algumas semanas mais tarde, quando foi utilizado amitraz para avaliar a população residual, continuavam a existir significativamente menos Varroas. Ao mesmo tempo, os próprios autores observam que durante esse intervalo as sobreviventes tiveram oportunidade para voltar a reproduzir-se. Há portanto uma recuperação da população, o que combina mal com uma interpretação em que a generalidade das sobreviventes ficou definitivamente estéril. Plamondon et al. (2024)

Também sabemos que parte deste efeito prolongado pode ter uma explicação mais simples. Estudos posteriores aos tratamentos continuam a encontrar Varroas mortas dentro da criação. Uma fundadora atingida pelo fórmico pode morrer mais tarde, a sua descendência pode ser atingida e os ácaros mortos podem permanecer dentro do alvéolo até à emergência da abelha. Mortalidade imediata, mortalidade retardada, morte da descendência e perturbação da reprodução podem, portanto, contribuir simultaneamente para aquilo que observamos depois do tratamento.

Mas talvez o argumento que mais me faz hesitar perante a afirmação da esterilização venha daquilo que não encontramos.

Uma revisão recente e abrangente da utilização do ácido fórmico contra Varroa destructor, publicada em 2025 por Kosch, Mülling e Emmerich, percorreu décadas de trabalhos sobre este princípio ativo, a sua eficácia, diferentes formas de aplicação e a possibilidade de aparecimento de resistência. A esterilização das fundadoras sobreviventes não aparece estabelecida como um dos mecanismos demonstrados que explicam a eficácia do fórmicoKosch, Mülling & Emmerich (2025)

Esta ausência não demonstra que o fenómeno não exista. Mas também não deve ser ignorada.

O ácido fórmico é utilizado contra a Varroa há várias décadas, em muitos países, e foi objeto de numerosos ensaios independentes. A reprodução do ácaro também tem sido intensamente estudada. Se uma proporção muito elevada das Varroas sobreviventes ao tratamento — 80%, como chegou a ser afirmado — ficasse permanentemente estéril, seria razoável esperar que um efeito desta dimensão tivesse aparecido repetidamente em trabalhos independentes e acabasse incorporado nas revisões sobre o mecanismo de ação do fórmico. Até agora não encontrei essa confirmação.

Isto altera bastante a forma como interpreto os 80% contra 20% observados por Ruzicka. Não vejo razão para os rejeitar, mas também não vejo fundamento suficiente para transformar “não reproduziu naquele alvéolo” em “ficou permanentemente estéril”. O tratamento estava a decorrer quando foi observada aquela forte redução da reprodução. As fundadoras poderiam estar metabolicamente perturbadas, a postura poderia ter sido atrasada, a descendência poderia ter morrido ou algumas fundadoras poderiam posteriormente recuperar a capacidade reprodutiva. Todas estas situações produziriam exatamente aquilo que foi observado: uma fundadora sozinha.

É por isso interessante fazer um pequeno exercício de dinâmica populacional. Partindo das mesmas 100 Varroas vivas depois do tratamento podemos imaginar três situações. Na primeira, todas continuam férteis. Na segunda, apenas 20% reproduzem imediatamente e as restantes 80% perdem temporariamente a capacidade de reprodução, recuperando-a mais tarde. Na terceira, mais extrema, essas 80% ficaram permanentemente inférteis.

As três populações começam exatamente com as mesmas 100 Varroas. Se nesse momento avaliássemos o tratamento contando apenas os ácaros vivos, seriam indistinguíveis. Ao longo dos meses deixam rapidamente de o ser. Uma fundadora que perde um ciclo não deixa apenas de produzir as filhas que nasceriam nesse alvéolo; também deixam de existir as descendentes que essas filhas produziriam posteriormente. É por isso que mesmo uma interrupção temporária da reprodução pode deixar uma marca populacional que persiste bastante depois de a fundadora recuperar.

Este exercício não pretende prever quantas Varroas existirão numa colónia seis meses depois. A disponibilidade de criação, a mortalidade natural, a preferência pela criação de zângão, a reinfestação e muitas outras variáveis tornam a dinâmica real bastante mais complexa. Serve apenas para mostrar que duas Varroas vivas não têm necessariamente o mesmo significado para a população futura se uma estiver a reproduzir e a outra não.

E regressamos assim às dez fundadoras encontradas pelo apicultor no final de junho.

É uma observação compatível com a hipótese de um efeito reprodutivo posterior ao tratamento e, por isso, merece ser registada. Torna-se ainda mais interessante quando sabemos que Ruzicka descreveu anteriormente uma redução muito grande da reprodução durante tratamentos prolongados com fórmico. Mas não permite concluir que aquelas dez Varroas tenham sido esterilizadas pelo tratamento realizado semanas antes. Poderiam existir características particulares daquela colónia, infertilidade temporária espontânea ou outros fatores que não conhecemos.

Depois desta análise sistemática, portanto, ficaria a meio caminho entre rejeitar a ideia e aceitá-la.

Há fundamento para suspeitar que o efeito do ácido fórmico sobre uma população de Varroa possa ser mais complexo do que simplesmente matar ou não matar. O produto entra na criação operculada, atinge fundadoras e descendentes, pode produzir mortalidade retardada e existem observações sugestivas de uma redução do sucesso reprodutivo das sobreviventes. O que não encontrei foi evidência independente suficientemente forte para afirmar que uma elevada proporção dessas sobreviventes fica permanentemente estéril. A experiência que falta nem sequer é difícil de imaginar: identificar fundadoras, expô-las a concentrações subletais conhecidas de ácido fórmico, confirmar a sobrevivência e permitir-lhes posteriormente entrar em nova criação, acompanhando a reprodução durante um ou vários ciclos. Se recuperarem rapidamente, teremos sobretudo uma interrupção temporária; se continuarem sem reproduzir, a hipótese de esterilidade ganhará finalmente outro peso.

E o facto de, depois de várias décadas de utilização e investigação do ácido fórmico, essa demonstração continuar ausente também é informação.

Talvez por isso a pergunta inicial — “o ácido fórmico esteriliza as Varroas?” — seja demasiado fechada. Neste momento parece-me mais interessante perguntar até que ponto uma exposição subletal ao fórmico compromete temporariamente a reprodução das Varroas que sobrevivem e durante quanto tempo esse efeito persiste.

Até lá, continuarei a considerar a expressão “comprometimento do sucesso reprodutivo” mais adequada do que “esterilização”.

Porque talvez a eficácia de um tratamento não esteja completamente descrita pela pergunta habitual — quantas Varroas matou?

Pode haver outra igualmente interessante: que estado ficaram as que não matou?

Referências principais

Bolli, H.K., Bogdanov, S., Imdorf, A. & Fluri, P. (1993). Zur Wirkungsweise von Ameisensäure bei Varroa jacobsoni Oud und der Honigbiene (Apis mellifera L.)Apidologie, 24, 51–57.

vanEngelsdorp, D., Underwood, R.M. & Cox-Foster, D.L. (2008). Short-Term Fumigation of Honey Bee Colonies with Formic and Acetic Acids for the Control of Varroa destructorJournal of Economic Entomology, 101, 256–264. PubMed

Căuia, E. & Căuia, D. (2022). Improving the Varroa (Varroa destructor) Control Strategy by Brood Treatment with Formic Acid—A Pilot Study on Spring ApplicationsInsects, 13, 149. Artigo completo

Plamondon et al. (2024). Estudo de acompanhamento das populações de Varroa destructor após diferentes tratamentos acaricidas. Journal of Insect Science, 24Artigo

Kosch, Mülling & Emmerich (2025). Revisão da utilização do ácido fórmico no controlo de Varroa destructor, eficácia e possível desenvolvimento de resistência. Veterinary Sciences, 12, 144. Artigo completo

Ruzicka, B. — documentação técnica e observações associadas ao desenvolvimento do MiteGone. Os resultados relativos à redução da reprodução são considerados evidência observacional, não demonstração independente de esterilidade permanente. MiteGone — Science

tiras de ácido oxálico durante os fluxos de néctar: impacto nos resíduos de mel

Uma das principais preocupações quando se fala na aplicação de tiras de ácido oxálico com glicerina durante o fluxo de néctar é a eventual contaminação do mel. A evidência científica disponível começa, contudo, a clarificar esta questão de forma objetiva.

Num estudo recente publicado na revista Pathogens (Efficacy and Safety of an Oxalic Acid and Glycerin Formulation for Varroa destructor Control in Honey Bee Colonies During Summer in a Northern Climate, 2025), verificou-se que as colónias tratadas com tiras de ácido oxálico e glicerina não apresentaram níveis significativamente superiores de resíduos de ácido oxálico no mel quando comparadas com colónias controlo, quer em amostras recolhidas antes quer durante e após o tratamento. Mais ainda: nenhuma das concentrações registadas ultrapassou o intervalo considerado normal para o ácido oxálico naturalmente presente no mel (11,3–160 μg/g).

Estes resultados estão em linha com trabalhos anteriores. Maggi et al. (2016) não encontraram aumento significativo de resíduos de ácido oxálico no mel, cera ou abelhas de colónias tratadas. Da mesma forma, Plamondon et al. (2024) demonstraram que nem o ácido oxálico nem a glicerina apresentaram níveis residuais superiores no mel das colónias tratadas quando comparadas com o controlo — utilizando formulações semelhantes.

Importa recordar que o ácido oxálico é um composto naturalmente presente no mel, variando a sua concentração consoante a origem botânica e geográfica. Ou seja, estamos perante uma substância que já faz parte da matriz natural do produto. A questão científica relevante não é a sua presença, mas sim se o tratamento altera os níveis naturais de forma significativa — e os dados disponíveis sugerem que, nas doses estudadas, isso não acontece.

Reflexão: Dos cerca de 20 medicamentos homologados em Portugal para o controlo da varroose, nenhum está autorizado para utilização durante os fluxos de néctar e respetivo armazenamento para consumo humano.
Perante a evidência científica disponível sobre determinadas formulações, será legítimo perguntar se, em Portugal e na Europa, não estaremos perante um excesso de prudência — talvez até medo da própria sombra — nos processos de homologação.

Também nos próximos dias 13, 20 e 27 de março, no curso Nutrição Apícola Aplicada (via zoom), analisaremos com base em evidência científica sólida várias práticas correntes na apicultura moderna, questionando pressupostos instalados e apresentando alternativas técnicas inovadoras, economicamente sustentáveis e fisiologicamente fundamentadas.

Tal como no domínio da gestão sanitária, também na nutrição das colónias importa distinguir tradição de ciência, hábito de evidência (contacte através do e-mail jejgomes@gmail.com para receber mais informação sobre o curso).

uma nova esperança no controlo da varroose: Vadescana/Norroa

Nos últimos anos, o combate à Varroa destructor tornou-se um dos maiores desafios da apicultura moderna. Muitos tratamentos tradicionais perderam eficácia devido à resistência crescente dos ácaros, e a procura por alternativas mais seguras e sustentáveis é cada vez maior.

É neste contexto que surge o Vadescana, uma molécula inovadora de RNA de dupla cadeia (dsRNA) desenvolvida para atuar de forma altamente específica sobre a Varroa, interferindo na expressão de genes essenciais à sua reprodução e sobrevivência — sem prejudicar as abelhas nem outros organismos.


🔬 Como funciona

O Vadescana baseia-se no princípio da interferência por RNA (RNAi), uma tecnologia biológica de ponta que “silencia” genes-alvo.
Nos ácaros da Varroa, o Vadescana bloqueia a expressão do gene Calmodulina (CAM), fundamental para processos fisiológicos e reprodutivos.
Ao impedir a ação desse gene, os ácaros tornam-se estéreis ou incapazes de completar o seu ciclo de vida, levando à redução natural da população dentro da colmeia.

Ensaios laboratoriais mostraram que, após exposição ao Vadescana, a maioria dos ácaros não produziu descendência viável, enquanto as abelhas mantiveram elevadas taxas de sobrevivência, sem efeitos adversos detetados nas larvas ou pupas.


🌍 Um passo inovador na luta biotecnológica

O Vadescana é o primeiro produto aprovado que utiliza esta tecnologia de RNAi em apicultura.
Nos Estados Unidos, a EPA (Environmental Protection Agency) aprovou recentemente o seu uso sob o nome comercial Norroa, desenvolvido pela empresa GreenLight Biosciences.

Segundo os dados de campo, o tratamento com Vadescana/Norroa oferece controlo eficaz da varroa durante 16 a 18 semanas, sem deixar resíduos nocivos no mel, cera ou abelhas.
O produto degrada-se rapidamente no ambiente, representando baixo risco ecológico e uma ferramenta sustentável a longo prazo.


⚠️ Limitações e cuidados

Apesar do entusiasmo, o Vadescana não está isento de precauções:

  • Doses incorretas podem afetar negativamente as abelhas, pelo que o cumprimento rigoroso das instruções de uso é essencial.
  • A tecnologia RNAi, embora precisa, pode ocasionalmente interagir com genes semelhantes de outras espécies (efeito cruzado).
  • A eficácia depende da absorção adequada pelo ácaro e de fatores ambientais (temperatura, humidade e densidade populacional da colónia).
  • O custo e a disponibilidade comercial ainda estão a ser definidos em vários países europeus.

O que esperar no futuro

A introdução do Vadescana marca um novo capítulo na apicultura de precisão.
Trata-se de uma abordagem científica que alia biotecnologia e segurança ambiental — uma alternativa ao uso repetido de acaricidas químicos convencionais.

O objetivo é integrar o Vadescana em programas de maneio integrado da varroose (IPM), combinando monitorização regular, tratamentos biológicos e estratégias preventivas.


📌 Em resumo

AspectoDetalhe
NomeVadescana (molécula de dsRNA)
FabricanteGreenLight Biosciences
Nome comercialNorroa
MecanismoSilenciamento do gene CAM da Varroa
Duração do efeito16–18 semanas
Impacto ambientalDegrada-se rapidamente, baixo risco ecológico
Situação regulatóriaAprovado pela EPA nos EUA (em análise na UE)

🧑‍🔬 Conclusão:
O Vadescana representa uma das inovações mais promissoras dos últimos anos no controlo da varroose. Embora ainda não disponível em todos os mercados, esta tecnologia de RNAi pode redefinir a forma como os apicultores combatem este parasita, garantindo colónias mais saudáveis e sustentáveis no futuro.

controlo efectivo da varroose: sessões via zoom

Estou a aceitar inscrições para a próxima sessão via Zoom, a realizar nos dia 18 de fevereiro, com início às 21h30m.

Esta sessão, como outras que realizei, tem como foco o Controlo efectivo da Varroose.

Quem desejar inscrever-se pode enviar mensagem por meio deste blogue ou, em alternativa, para o e-mail jejgomes@gmail.com.

Porque a varroa não tem fins de semana nem tira férias, porque o amitraz está a mostrar cada vez mais que deixou de ser um princípio activo miraculoso, há que avançar noutras direcções e por outros caminhos. Venha conhecer as propostas fundamentadas que tenho para apresentar.

Hoje a testar os resultados de uma formulação inovadora. Só os testes confiáveis nos podem dizer se as alternativas que tenho vindo a experimentar são eficientes e eficazes e em que condições o são.

quantos tratamentos por ano?

É possível definir, de forma universal, para todas as colónias do nosso país, quantos tratamentos por ano devemos efectuar para manter a varroa controlada ao longo do ano?

Não, é a resposta mais correcta que conheço.

Cada colónia é um planeta próprio e particular; cada apiário é uma galáxia diferente e única.

Num mesmo apiário podemos ter colónias com taxas de infestação muito baixas, abaixo de 0,5%, e outras com taxas de infestação superiores a 5%. Entre colónias e apiários podemos ter medicamentos com taxas de eficácia acima de 90% e, o mesmo medicamento, ter eficácias abaixo de 70%, aplicados com os mesmos procedimentos e na mesma altura.

A diversidade das taxas de infestação e a imprevisibilidade da eficácia dos medicamentos, homologados e não homologados, convoca-nos a melhorarmos os nossos conceitos e práticas; exige da nossa parte conhecimentos realistas e fundamentados e a monitorização frequente das taxas de infestação.

E são estas, as taxas de infestação, que determinarão quantos tratamentos devemos efectuar ao longo do ano, para, ao longo do ano, termos a varroa bem controlada.

E, se me permitem uma sugestão amiga, varroa bem controlada significa o mais possível nunca acima de 2% numa amostra de 300 abelhas adultas, devidamente lavadas em álcool a 96%.

Em época de gripe, uma colherzinha orgânica e sem sínteses…

A ferramenta que poderia ter ajudado a evitar a morte, estimada, de mais de 150 mil colmeias este ano por varroa e no nosso país.

nebulizadores de ácido oxálico: uma opinião fundamentada de Dick Cryberg

Os nebulizadores de ácido oxálico (fogger) são equipamentos relativamente populares para o controlo da varroose. Esta popularidade advém do facto de, em comparação com os sublimadores convencionais, serem em geral mais rápidos e dispensam a utilização de energia eléctrica ou de baterias, pois recorrem a chama alimentada por uma pequena botija de gás propano.

Sobre a real eficácia dos tratamentos aplicados através deste equipamento as opiniões dividem-se (ver, entre outros, o fórum Beesource). Verifica-se da leitura no fórum um padrão: que quem está satisfeito não apresenta números sobre a contagem de varroas em abelhas adultas presentes antes e após o tratamento com o nebulizador. Alguns prometem apresentar esses dados mas, tanto quanto li, ainda não o fizeram até à data. Como nunca utilizei este equipamento não tenho opinião fundada na minha experiência. Assim sendo voltei-me, como habitualmente, para o Mestre dos dados em apicultura, Randy Oliver. Ele como Peter Drucker e outros, onde me incluo, acreditam que só se pode controlar o que se quantifica, que só se pode qualificar o que se mede. E no blogue do Randy encontrei a propósito dos nebulizadores a citação de uma experiência pessoal e controlada levada a cabo pelo apicultor e químico reformado Dick Cryberg, com quem eu tive a oportunidade de conversar há uns anos atrás no Beesource sobre outros assuntos. Randy cita este apicultor, por quem mostra grande respeito, no seu blogue scientific beekeeping. Deixo em baixo a tradução.

Um exemplo de um nebulizador (fogger) utilizado na aplicação de ácido oxálico misturado com água, álcool e/ou glicerina.

“Randy Oliver —Circulam no YouTube recomendações para o uso de um nebulizador térmico para aplicar ácido oxálico. O químico aposentado Dick Cryberg, que é uma pessoa muito perspicaz e cujas observações respeito profundamente, postou o seguinte no Bee-L:
Dick Cryberg — Nebulizei com ácido oxálico a 10% dissolvido em água. Nebulizei dez núcleos uma vez por semana com 0,6 g de ácido oxálico dihidratado durante oito semanas consecutivas neste verão. Eu tinha dez núcleos não tratados lado a lado para controle. O núcleo com taxa mais alta de infestação em abelhas adultas após o tratamento (3%), determinada por lavagem com álcool, foi um núcleo tratado. Não vi claramente nenhuma evidência de que matei um número significativo de ácaros. No geral, os enxames tratados e os controles tiveram contagens de ácaros equivalentes. Todos estavam com um pouco mais de 1% de ácaros no início. O tratamento ocorreu a partir de meados de junho até o final de julho. […] Passei várias horas brincando com o nebulizador para descobrir como administrar uma dose consistente. Tive que fazer um furo na parte superior da alça e empurrar o gatilho totalmente para baixo com uma chave de fenda após cada disparo para obter um volume consistente a cada vez. Também tive que puxar o gatilho o mais rápido possível para obter volumes consistentes. Verifiquei, ao capturar e analisar a névoa, que nem todo o oxálico era nebulizado. Pensei que não estava a nebulizar a quantidade suficiente para impactar a varroa. Também esperei 20 segundos entre os acionamentos do gatilho para permitir a recuperação total do calor na bobina. Mesmo assim, muito do que saiu pelo bico foi líquido que acabou no fundo do núcleo. Achei o processo entediante e não tão rápido, com mais de três minutos por núcleo em cada tratamento. Vi os vídeos do You Tube e vi muita discussão sobre tratamento. Eu sou o primeiro, ao que sei, a fazer contagens de ácaros antes e depois e incluir controles negativos, os núcleos não tratatados, lado a lado. Neste momento vejo todas as afirmações no YouTube como banha da cobra pura, com o valor usual que a banha da cobra normalmente tem, mas estou aberto a provarem que estou errado. Estou um pouco recesoso de utilizar álcool devido à inflamabilidade, embora ninguém tenha relatado um problema de incêndio.
Além disso, o ácido oxálico reagirá muito rapidamente com o álcool formando um éster e o éster descarbonizará muito rapidamente e não matará os ácaros. Se nebulizar com soluções de etanol (álcool etílico), provavelmente precisará preparar uma solução nova pouco antes da nebulização para evitar a inevitável formação de ésteres que ocorrerá durante o armazenamento, mesmo à temperatura ambiente. Esta reacção química não é um problema na solução aquosa, mas precisa ser considerada no álcool ou particularmente na glicerina que alguns estão usando.”

fonte: https://scientificbeekeeping.com/oxalic-dribble-tips/

Nota: esta publicação sobre este equipamento, que não me despertou interesse particular até à data, vem na sequência de um pedido de ajuda de um companheiro apicultor que utilizou o nebulizador com oxálico misturado em álcool e glicerina, 4 vezes com intervalos de 7 dias entre aplicações e que relata que continua a encontrar muita varroa na criação de zângão. Sugeri que na próxima visita às colónias avaliasse a taxa de infestação em abelhas adultas para verificar se de facto está a conseguir baixar a mesma, que estava antes da primeira ronda bastante alta, a 6%.

varroose: a importância crítica de um tratamento proactivo

A noção de tratamento proactivo que Randy Oliver segue e que acompanho é em linhas simples esta: tratar logo que as lavagem de amostras de 300 abelhas adultas fazem soltar uma varroa, o equivalente a uma taxa de infestação pouco superior a 0,3%. Fazer este tratamento proactivo, que não tem um cariz urgente, está muito longe das práticas de 99% dos apicultores. No entanto o facto de não ser urgente não lhe retira importância, pelo contrário reforça-a.

Fazer um tratamento proactivo durante o ano traz dois ganhos evidentes para o apicultor e para as colónias de abelhas: (i) para o apicultor, permite-lhe dilatar no tempo o tratamento seguinte, por exemplo torna possível não tratar durante o fluxo primaveril, o que pode ser muito útil para os mais legalistas uma vez que foi recentemente retirado do mercado o único medicamento que estava homologado para utilizar durante o período de produção de mel para consumo humano, o MAQS; (ii) para as abelhas, mantendo tudo o resto igual, este tratamento proactivo será muito provavelmente a diferença entre a sobrevivência e o colapso da colónia.

Apresento em baixo duas simulações exactamente iguais, excepto o facto que na primeira não foi utilizado um tratamento proactivo na segunda quinzena de janeiro quando caía somente uma varroa, e na segunda simulação foi feito esse tratamento proactivo nessa data.

Nestas duas simulações é claro que este tratamento proactivo não sendo urgente foi de importância decisiva na evolução posterior do crescimento da população de varroas: sem o tratamento proactivo a população de varroas no mês de julho ronda as 10 mil, e a colónia colapsa poucos dias depois; com tratamento proactivo e no mesmo mês a população de varroas ronda as 600. No primeiro caso, sem o tratamento proactivo, adiar o tratamento para evitar fazê-lo durante os fluxos primaveris de néctar foi uma opção mal sucedida. No segundo caso essa mesma opção foi realista, segura e bem sucedida e a justificação está no tratamento proactivo feito em janeiro.

Simulação sem tratamento proactivo. Entrada no ano com uma baixa população de varroas. Na segunda quinzena de março introduzi uma quebra de 50% na população dos ácaros por efeito do corte-de-zangão ou desdobramento. Na segunda quinzena de julho simulo um tratamento com 80% de eficácia, que é demasiado tardio como resulta do simulador, com a colónia a colapsar nos 15 dias seguintes.
Simulação com tratamento proactivo na segunda quinzena de janeiro. Mantendo tudo o resto igual, a importância deste tratamento proactivo é clara quando se pretende dilatar datas entre tratamentos, entre outras razões para evitar fazer tratamentos durante os fluxos primaveris de néctar.