tratamento intermédio: preparação de tiras de cartão com ácido oxálico misturado em glicerina

Tendo optado pelo ácido oxálico em detrimento do ácido fórmico para realizar o tratamento intermédio das minhas colónias (ver aqui a razão mais forte), esta publicação visa esmiuçar com bom detalhe uma opção possível para tratar colónias com muita criação presente, garantindo a qualidade do mel e eficácia satisfatória: as tiras de cartão com ácido oxálico misturado em glicerina alimentar.

Como sabemos o ácido oxálico pode ser utilizado em tratamentos flash pelo método de gotejamento e por sublimação. Contudo estes dois modos de tratamento são muito pouco eficazes em enxames com muita criação operculada, como é o caso das minhas colónias nos meses de abril ou maio, os meses em que tenciono efectuar este tratamento intermédio. Neste contexto as tiras de cartão impregnadas de uma mistura de glicerina e ácido oxálico têm-se mostrado razoavelmente eficazes e são uma opção a considerar. Estas tiras, de libertação lenta do ácido oxálico, permitem atingir as varroas ao longo de um ciclo ou mais de criação, à medida que vão ficando expostas de acordo com o ritmo a que as novas abelhas vão emergindo dos alvéolos operculados onde foram criadas.

Em baixo deixo uma formulação para se fazerem estas tiras em casa. Esta formulação é copiada de um dossier técnico apícola publicado por instituições apícolas francesas idóneas (ver aqui o link para o dossier). É inabitual eu dar receitas caseiras de acaricidas (esta é a segunda vez que o faço), contudo abro esta excepção considerando a completa ausência na lista dos medicamentos homologados de um tratamento de longa duração, que não deixe resíduos preocupantes no mel e que apresente uma boa eficácia média na presença de criação operculada. Chamo a atenção para o facto que o ácido oxálico é um ácido muito forte e que deve ser manipulado com toda a precaução e com os EPI adequados. Finalmente, afirmar que pretendo apenas informar os apicultores que seguem este blog, como outros já fizeram em língua francesa ou espanhola, em dossiers técnicos apícolas, publicados por instituições que reputo de responsáveis e credíveis, que estão atentas aos problemas efectivos dos apicultores, que apresentam propostas de solução para necessidades reais sentida por muitos de nós, neste caso e em concreto a necessidade de controlar a taxa de infestação durante a temporada de fluxo.

Preparação: As tiras são feitas de tiras de cartão imersas numa mistura de glicerina (65%) e ácido oxálico (35%) por 24 horas (relação peso/peso).

Exemplo para 1000g de solução de impregnação:
“Para 50 tiras de cartão, utilize 350g de ácido oxálico e 650g de glicerina de qualidade alimentar. A glicerina é aquecida a 60°C e então o ácido oxálico é gradualmente misturado com a glicerina quente, mexendo levemente. As tiras são imersas na mistura aquecida a 40-50°C, depois deixadas à temperatura ambiente durante 24 horas (uma tira absorve entre 18 e 21 g de solução). As tiras devem ser drenadas para remover o excesso de mistura (não devem pingar na colmeia) e devem ser armazenadas em sacos herméticos longe do calor e da luz à temperatura ambiente.

Aplicação: São colocadas 4 tiras por colmeia no ninho (nos espaços entre quadros). São deixados nas colónias por 21 dias para abranger um ciclo de criação e renovadas uma vez ao final de 21 dias.

Resultados: As tiras de ácido oxalico foram aplicadas no final do verão em diferentes apiários durante 42 dias, com renovação a meio do tratamento, aos 21 dias (LAOx2 no quadro em baixo) ou sem renovação a meio do tratamento (LAO).

Dados de 2015, 2017 e 2018 da eficácia do AluenCap e das tiras preparadas (gráfico em cima) e das varroas residuais após os tratamentos (gráfico em baixo). Em 2017, a eficácia média para as tiras preparadas e com renovação a meio do tratamento (LAOx2) foi de 88,5%; o valor médio de varroas residuais* no final do tratamento foi 357. No ano de 2018, a eficácia média para as tiras preparadas e com renovação a meio do tratamento (LAOx2) foi de 83,5%; o valor médio de varroas residuais encontradas no final do tratamento foi 512. Nesse mesmo ano a eficácia média para as tiras preparadas e sem renovação a meio do tratamento (LAO) foi de 71,4%; o valor médio de varroas residuais encontradas no final do tratamento foi 582. * Ter em consideração que o número óptimo de varroas residuais após qualquer tratamento de final de verão se situa abaixo das 50 varroas.

Conclusão: As tiras preparadas em casa não são tão eficazes como as tiras de AluenCap, contudo apresentam resultados interessantes ainda que com eficácia heterogénea, dependendo dos apiários, das colónias no mesmo apiário e, sobretudo, do ano**. A renovação das tiras a meio do tratamento (21 dias) proporciona um ganho significativo na eficácia e garante uma melhor homogeneidade de resultados. […] a renovação das tiras é realmente um ponto a não ser descurado na utilização das tiras de ácido oxálico porque permite obter melhores resultados quer para as tiras preparadas quer para o Aluen CAP®. Para as tiras preparadas, essa renovação das tiras no meio do tratamento é quase obrigatória.”

** os autores do relatório destacam a heterogeneidade de resultados inter-anuais. As razões não estão ainda devidamente identificadas. A minha hipótese é esta: a humidade relativa (HR) na altura da realização deste tipo de tratamento influi na eficácia — HR mais elevada menor eficácia; HR menos elevada maior eficácia.

fonte: http://w3.avignon.inra.fr/lavandes/biosp/DocTechADA/cahierVarroaN1_2019.pdf

Nota: nesta publicação fiz a primeira menção a uma formulação caseira, publicada num reputado blog apícola espanhol, e também relativa à mistura de ácido oxálico com glicerina em suportes celulósicos.

tratamento intermédio: fórmico ou oxálico?

À luz das minhas observações e nos meus apiários faz cada vez mais sentido realizar um tratamento intermédio da varroose, isto no mês de abril ou maio. Entre outras variáveis, os invernos amenos como o actual, que não forçam as rainhas a uma paragem da sua postura, contribuem para este desfecho: a necessidade de fazer um tratamento intermédio com um bom nível de eficácia. Esta constatação é cada vez mais transversal como se pode ler neste relatório francês: “Apesar dos tratamentos anti-varroa utilizados entre duas épocas de produção, algumas colónias ainda estão demasiado infestadas na primavera. Que tratamentos estão disponíveis? Que intervenção melhora o desempenho da colónia reduzindo o nível de infestação? Dependendo do tratamento utilizado, quais são os riscos para as colónias de abelhas e para a qualidade do mel? Para responder a essas perguntas, o ITSAP-Bee Institute e a rede ADA experimentaram o uso de ácido fórmico ou ácido oxálico contra a Varroa durante a temporada apícola.

Como sabemos a questão dos resíduos no mel coloca-se com muita agudeza nos tratamentos intermédios e limita muito a opção por princípios activos. Neste contexto em regra a opção dos apicultores recai nos ácidos orgânicos naturalmente presentes no mel e que conjuguem um bom potencial acaricida: o ácido fórmico (AF) e o ácido oxálico (AO). Vejamos agora com mais detalhe se de facto estes dois ácidos não deixam resíduos anormais no mel.

Não há limite máximo de resíduos (LMR) para AF e AO no mel, mas de acordo com o Codex Alimentarius os níveis não devem alterar o sabor do mel e nenhum composto pode ser removido ou adicionado. […] As amostras de colmeias tratadas com MAQS® apresentam um teor de ácido fórmico superior ao valor usual em 8 de 14 análises, ou seja, 57% dos casos (ver Tabela em baixo). As concentrações são consideradas incomuns. […] Os níveis de ácido oxálico nas amostras analisadas não são detectáveis ​​para a maioria das amostras retiradas das colmeias tratadas com ácido oxálico dihidratado por sublimação. […] Assim, para os dois métodos de tratamento testados, apenas o tratamento MAQS® apresenta risco significativo de aumento grande de ácido fórmico além dos valores usuais no mel. Charriere et al. (2012) alertaram para a presença de resíduos de ácido fórmico no mel após tratamento contra Varroa durante a estação. Assim, o uso de MAQS® como tratamento corretivo na primavera deve ser reservado para colónias muito infestadas, mas que devem ser removidas do circuito de produção: mesmo a produção de verão pode ser poluída apesar do intervalo de tempo entre a aplicação do tratamento e a colheita mel. […] o uso de MAQS® durante o fluxo deve ser dissociado da produção de mel: várias experiências sobre o uso de ácido fórmico na primavera contra a Varroa, assim como para o tratamento contra a traça da cera, revelam resíduos de AF no mel produzido posteriormente. É necessário um período de vários meses (tipicamente: o período de invernada após a sua utilização no final do verão) para evitar qualquer risco de acumulação de ácido fórmico no mel. […] o tratamento MAQS® na primavera aumentou o teor de ácido fórmico do mel, mesmo o produzido mais tarde no verão, consolidando as observações feitas noutros estudos: tratar com ácido fórmico ou produzir, é preciso optar!

Legenda: ND-não detectável; fundo verde – conteúdo de ácido normal; fundo vermelho – conteúdo de ácido anormal.

fonte: Renforcer la lutte contre Varroa : comment réguler l’infestation en cours de saison? Julien Vallon (ITSAP-Institut de l’abeille)

Com estes dados presentes a minha opção pelo ácido oxálico para os tratamentos intermédios que pretendo realizar durante a temporada está justificada. Em próximas publicações tenciono descrever com mais detalhe algumas das opções de maneio para aumentar a eficácia do ácido oxálico nesta época do ano.

dez anos de ensaios com ácido oxálico

Ainda que neste inverno só tenha encontrado duas colónias mortas por efeitos diferidos da varroose, valor que representa pouco mais que 1% das colónias, estou a estudar, a aprender e a planear novas técnicas que poderão vir a fazer parte da minha estratégia de tratamentos para a próxima época apícola de 2023 (a de 2022 já está definida e será apresentada no III encontro de apicultores do distrito da Guarda) .

Os que me seguem mais assiduamente já terão notado que estou a dar uma atenção particular à estratégia de paragem artificial da postura da rainha conjugado com a utilização de tratamentos baseados no ácido oxálico — foi em 2016 que tomei conhecimento desta estratégia, através das referências que alguns apicultores italianos lhe foram fazendo no fórum Beesource. Ainda este ano conto fazer alguns ensaios preliminares para testar não apenas a sua eficácia contra a infestação por varroa e vírus associados mas também a carga de trabalho associada à sua aplicação no terreno, assim como o impacto na população das colónias, na produção de mel e na enxameação.

Como é meu hábito, tenho lido documentação variada acerca desta estratégia e, entre outra, vou destacar este excelente dossier técnico publicado pelo INRA, ITSAP e 3 ADAs, que sintetiza os resultados de ensaios com “mais de 40.000 medições (varroas/100 abelhas) realizadas pelas ADAs durante os últimos dez anos e agrupadas pelo INRA num banco de dados com as “cargas de Varroa” em diferentes regiões francesas, em diferentes operações apícolas e estações do ano.

Irei fazer mais algumas publicações sobre esta estratégia no futuro próximo, contudo, deixo o link para quem quiser ler o documento na íntegra. Boa leitura!

Clique na imagem para aceder ao dossier.

interrupção artificial da postura da rainha para aumentar a eficácia do tratamento da varroose: que eficácia?

Há cerca de um ano atrás escrevia nesta publicação: “

“Todos nós sabemos que a existência de criação operculada nas colónias diminui a eficácia dos tratamentos contra a varroose, em particular a eficácia dos tratamentos “flash” ou de curta duração. Por exemplo, os tratamentos com ácido oxálico, na forma gotejada ou sublimada, são muito eficazes quando a colónia não apresenta criação fechada, contudo essa eficácia fica seriamente comprometida quando ela está presente. 

Algumas técnicas apícolas, ao alcance de todos, permitem promover a interrupção, total ou parcial, da postura. Em baixo deixo a descrição de uma destas técnicas, a partir de uma proposta de Randy Oliver: 

  • Dia 1: Com recurso a quadros confinadores de rainha*, confinar a rainha a um quadro normal, que servirá de “quadro armadilha para o varroa”;
  • Dia 14: Solte a rainha;
  • Dia 21: Remover o “quadro armadilha para o varroa” e gotejar (ou sublimar) com ácido oxálico as abelhas da colónia.”
* Exemplar de um quadro confinador de rainha, fabricado por Randy Oliver.

Esta técnica foi amplamente investigada por Ralph Büchler e colegas, durante duas épocas apícolas, em 10 países europeus, num total de 370 colónias. Os resultados obtidos divergiram de acordo com o modo de aplicação do ácido oxálico, contudo dois deles são demasiado promissores para não lhes dar atenção: “A eficácia do enjaulamento da rainha dependeu do modo de aplicação do ácido oxálico e variou de 48,16% a 89,57% de remoção de ácaros. As maiores eficácias foram alcançadas com gotejamento de solução a 4,2% (89,57%) e com a sublimação de 2 g de ácido oxálico (média de 88,25%) no período sem criação. […] Concluímos que a aplicação adequada de um dos métodos de interrupção de criação descritos pode contribuir significativamente para um controle eficiente de Varroa e para a produção de produtos apícolas atendendo aos mais altos padrões de qualidade e segurança alimentar. […] Embora os apicultores possam ficar preocupados com os efeitos negativos do enjaulamento de longo prazo naa rainha, nenhum aumento da mortalidade de rainhas devido ao tratamento de enjaulamento foi observado durante as duas estações da experiência. […] O controlo da Varroa com a técnica de enjaulamento da rainha durante o início da estação (final do inverno/início da primavera) foi capaz de reduzir a taxa de infestação sem causar repercussões negativas na colheita de mel ou no desenvolvimento e desempenho sazonal da colónia. Além disso, o enjaulamento da rainha pode ser utilizado como técnica para controlar o desenvolvimento da colónia ao longo do ano, por diversos motivos, como regular o desenvolvimento da colónia de acordo com o fluxo de néctar ou para controlar a enxameação. […] O enjaulamento oportuno da rainha, considerando a floração do fluxo principal de verão, poderá libertar parte da força de trabalho das abelhas que cuidam da criação para se dedicar à coleta de néctar. Infelizmente, os efeitos das técnicas testadas na produtividade do mel não foram medidos no nosso estudo. Um efeito positivo da remoção de crias durante o fluxo principal na colheita de mel nos 14 dias seguintes foi relatado na Alemanha (Buchler & Uzunov, 2016), mas as diferenças regionais e sazonais devem ser consideradas.[…] Um fator importante que limita a adoção generalizada destes métodos pode ser o tempo necessário para localizar a rainha e o nível individual de experiência necessário para lidar com a rainha. No nosso estudo, com um grupo heterogéneo de pesquisadores com diferentes níveis de experiência em apicultura e sob condições de apicultura variáveis, uma estimativa média realista de menos de 20 minutos é a estimativa para o tempo de trabalho necessário para aplicar o método de gotejamento de solução a 4,2%.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/343181331_Summer_brood_interruption_as_integrated_management_strategy_for_effective_Varroa_control_in_Europe

estudo de sensibilidade/resistência de Varroa destructor ao amitraz

Li, não me recordo onde, que alguém assumiu que tinha varroas resistentes porque uma vez viu uma varroa a passear sobre as tiras de Apivar. Esta afirmação ou era uma piadola ou, se era a sério, mostra muito desconhecimento — o desconhecimento em si mesmo não é questionável, mas é questionável fazer uma parangona/soundbite a partir de uma afirmação ignorante como se fosse uma evidência sólida. Esta publicação tem sobretudo como objectivo elucidar-nos sobre a complexidade e rigor do método de testagem da sensibilidade/resistência preconizado pelo The COLOSS BEEBOOK, Volume I e II: standard methods for Apis mellifera research, e elucidar-nos que se nem tudo tem a complexidade da investigação espacial, da mesma forma muito na apicultura não tem o simplismo de colocar o nariz fora da porta para ver se faz frio. Os resultados e as conclusões, que também aproveito para apresentar, devem ser lidas com alguma prudência sabendo que este teste foi realizado em 2016 em França (ver aqui um estudo mais recente).

“Desde 2007, a FNOSAD realiza testes anuais de eficácia em duzentas a trezentas colónias com o objetivo de verificar o percentual de eficácia da maioria desses medicamentos, sua velocidade de ação e o número de varroa residual após o tratamento. No entanto, o que acontece à eficácia de uma droga se a população de parasitas desenvolve resistência à substância acaricida que entra na sua composição? Recordamos os fenómenos de resistência observados ao Apistan (Tau-fluvalinato). Em relação ao Apivar, o feedback de observações de campo por apicultores experientes pode sugerir, para certos lotes de medicamentos, falta de eficácia ou fenómenos de resistência sem que nenhum estudo possa invalidar ou confirmar estas impressões.

O Apivar é hoje o fármaco homologado mais utilizado na França, porém poucos estudos com o objetivo de testar a sensibilidade/resistência de populações de varroa ao amitraz foram realizados. Para suprir essa carência, a FNOSAD coordenou um estudo realizado pelo Laboratório Departamental de Análises do Jura, cujos resultados estão aqui resumidos.

Apresentação do método
O estudo de resistência consiste em determinar a concentração letal para 50% (CL50) de uma população de ácaros varroa suspeitos de serem resistentes e compará-la com uma CL50 de referência determinada para uma população de ácaros não resistentes ou sensíveis. O método utilizado neste estudo é o recomendado pelo Coloss Beebook para moléculas lipossolúveis agindo por contato. O amitraz é incorporado em diferentes concentrações em cápsulas de parafina. O intervalo de concentrações utilizado é de 0,1 ppm (partes por milhão) a 5.000 ppm. Os ácaros são então postos em contato com a parafina tratada e, após um determinado período de tempo, a mortalidade de ácaros é quantificada.

Os ácaros Varroa foram retirados de quadros de criação (o equivalente a dois quadros de ninhada por apicultor, dando preferência à criação de zângão) fornecidos por apicultores voluntários de 18 apiários espalhados pelo território.

Localização dos diferentes apiários que forneceram amostras de criação.

As amostras, foram colhidas entre 21 de maio de 2016 e 2 de agosto de 2016. Os ácaros varroa foram colhidos com uma escova e com uma pinça fina após desoperculaçao dos alvéolos. Dos 18 apiários amostrados, 17 receberam tratamento de final de verão (2015) com amitraz e um com tau-fluvalinato. Apenas três apiários receberam um tratamento adicional de inverno (2015/2016) à base de ácido oxálico. Apenas indivíduos/ácaros do sexo feminino maduros foram recolhidos para o estudo. Dez ácaros foram colocados em cada cápsula (correspondente a cada concentração de amitraz a ser testada) durante quatro horas: esta é a fase de contaminação durante a qual os ácaros varroa são colocados em contato com parafina impregnada de amitraz. Eles são depois observados com uma lupa binocular antes de serem transferidos para placas de Petri. Quando observados com uma lupa binocular, os Varroa foram classificados em três categorias: móveis, paralisados ​​ou mortos. As observações foram repetidas após 24 h e 48 h. Os ácaros Varroa foram alimentados com larvas/pupas de abelhas durante toda a experiência. Para cada concentração testada, o efeito percentual do acaricida é calculado da seguinte forma: (número de ácaros paralisados ​​+ número de ácaros mortos – número de ácaros perdidos ou mortos acidentalmente) / (número de ácaros iniciais – número de ácaros perdidos ou mortos acidentalmente) .

Resultados
Das 18 amostras recebidas, os resultados dos testes realizados só puderam ser considerados em 13 delas. Para todas as populações de varroa, o efeito (paralisia ou mortalidade) é total em t0 + 4h para todas as concentrações maiores ou iguais a 100 ppm [partes por milhão]. E após 24 horas, o efeito é completo para todas as concentrações maiores ou iguais a 10 ppm. Para as 13 populações estudadas, as CL50s obtidas variam entre 0,08 e 1,66 ppm, sendo a média de 0,49 ppm. Os 13 Intervalos de Confiança sobrepõem-se e, portanto, não há diferença significativa na sensibilidade ao amitraz nestas 13 populações de ácaros testadas.

Discussão – Conclusão
Embora originárias de colónias de abelhas com diferentes níveis de infestação, as 13 populações de varroa testadas não apresentaram diferença marcante na suscetibilidade ao amitraz.
O resultado obtido para todas as 13 amostras pode constituir uma referência LC50 para uma população de ácaros sensíveis em torno de 0,5 ppm, ou 15,5 ng/cm2 de parafina. Como indicação, as tiras comerciais de Apivar têm um teor de amitraz entre 4,2 e 6,4 x106 ng/cm2, (ou seja, cerca de 30.000 vezes mais do que o valor de CL50 para uma população de ácaros varroa suscetíveis determinada por este estudo).
Para tornar este valor de LC50 ainda mais robusto, seria necessário multiplicar estes testes na zona de 0,5 ppm. Mas para isso precisamos de mais ácaros varroa. Se o método de coleta favos com criação e sua entrega por correio ao laboratório se mostraram satisfatórios, a coleta de ácaros varroa dentro dos alvéolos é entediosa e muito demorada …
Este é o primeiro estudo para pesquisar a possível resistência dos ácaros varroa ao amitraz realizado usando um dos métodos recomendados pelo Coloss Beebook. Assim, é possível obter pela primeira vez um valor de referência LC50 para uma população de ácaros varroa suscetíveis.

Esses resultados interessantes, apesar do número relativamente pequeno de amostras estudadas, levantam questões sobre as falhas de eficácia por vezes observadas com as tiras do medicamento Apivar. É certo que o método de teste de sensibilidade/resistência foi realizado aqui por contacto com a substância amitraz e não após contato direto com as tiras de Apivar. Estes vários elementos tenderiam a nos levar a pensar que as falhas de eficiência observadas estariam antes ligadas a questões de formulação do medicamento (galénica*), um medicamento que, como vimos, teoricamente contém substância ativa suficiente.”

fonte: https://www.apiservices.biz/documents/articles-fr/etude_sensibilite_resistance_amitraz_varroa.pdf

* Galénica é o processo que transforma uma substância activa num medicamento pronto a administrar, que pode ser doseado conforme necessário. O medicamento compreenderá um contentor da substância ativa (comprimido, creme, suspensão, solução), excipientes (ingredientes inativos como a lactose), e embalagem/dispositivo de administração (blister, frasco, inalador, frasco para injetáveis seringa pré-cheia).

Reflexão: Como sempre disse uma coisa é o amitraz, o princípio activo, outra coisa é o Apivar, o medicamento. Uma possibilidade forte que coloco actualmente é que a galénica do Apivar não é a mais eficaz para responder a alguns ganhos eventuais de resistência das varroas nas minhas colónias, para as relações que se estabelecem entre as dinâmicas populacionais das minha colónias de abelhas e populações de ácaros que hospedam e para o influxo de ácaros de colónias vizinhas. Por essa razão este ano vai para o banco de suplentes como afirmei aqui e vou substituí-lo, no tratamento de verão, por um outro medicamento baseado no amitraz mas com uma galénica diferente: o Amicel.

medicamentos contra o Varroa: resultados dos testes de eficácia em 2020

Escrevia em 2016, nesta publicação: “Em França verificar a eficácia dos medicamentos utilizados na luta contra o ácaro varroa é, desde 2007, uma atribuição coordenada pela FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) que reúne a grande maioria dos OSAD (Organisations Sanitaires Apicoles Départementales), representando mais de 30.000 apicultores, profissionais e amadores.

Estes tratamentos/acaricidas que beneficiam de homologação são testadas anualmente por forma a mostrarem que garantias dão no controle da infestação pelo ácaro varroa abaixo dos limites considerados  prejudiciais às colónias de abelhas. Os principais parâmetros avaliados por estes testes são a eficácia global, avaliado através dos ácaros residuais encontrados após os tratamentos, assim como a velocidade de ação desses mesmos tratamentos sobre os ácaros.”

Em 2020, e como habitual, a mesma Federação testou novamente um grupo de medicamentos acaricidas: o Apivar, o Apitraz, o Apistan, o Apiguard e o Oxybee, este último um medicamento recente baseado em ácido oxálico.

Protocolo de teste de eficácia de 2020.

Eficácia dos medicamentos testados

Sabendo que para os medicamentos sintéticos (neste caso o Apivar, o Apitraz, o Apistan) se considera atingirem o limiar de eficácia desejável acima dos 95% de mortalidade das varroas, enquanto para os medicamentos não sintéticos (neste caso o Apiguard e o Oxybee) se considera atingirem o limiar de eficácia desejável acima dos 90% de mortalidade das varroas, apresento em baixo os resultados de 2020, tendo como referência estes critérios:

  • Para o Apivar e Apistan, o limiar de eficácia de 95% é alcançado apenas em 49% e 45% das colónias, respectivamente. Isto significa que em mais da metade das colónias estes dois medicamentos não apresentam a eficácia desejável .
  • Para o Apitraz, a percentagem de colónias nas quais o limiar de 95% é atingido é de 67%, portanto em mais de um terço das colónias a eficácia é insuficiente.
  • Nota: com uma aplicação de apenas seis semanas o Apitraz (duração prevista na Autorização de Introdução no Mercado francês, portanto a bula submetida a homologação), o percentual de eficácia foi satisfatório em apenas 7% das colónias.
  • Em relação aos medicamentos à base de substâncias de origem natural, os resultados também não são satisfatórios.
  • Com o Apiguard, o limiar de 90% de eficácia não foi atingido em nenhuma das 20 colmeias testadas. Em 2019, o limiar de 90% de eficácia foi atingido em 26% das colónias.
  • Com o medicamento Oxybee, o limiar de 90% de eficácia só é atingido por 39% das colónias. Na medida em que este fármaco foi aplicado após o enjaulamento da rainha por vinte e cinco dias, portanto a aplicação deste medicamento foi realizada na ausência de cria. É surpreendente obter esta percentagem baixa, longe dos valores alcançados em 2015, 2016 e 2017 com o mesmo método, mas com outro medicamento ((o Api-Bioxal) com a mesma substância ativa (o ácido oxálico).

Velocidade média de acção dos medicamentos testados sobre a mortalidade de varroas

Uma vez mais os dados deste ano confirmam que a velocidade média de acção sobre a varroa difere entre os diversos medicamentos. Julgo ter sido este blog a trazer, em primeira mão, para a língua portuguesa o conceito de acaricidas lentos e acaricidas rápidos.

Gráfico com a velocidade de queda de varroas ao longo dos dias de aplicação do medicamento
  • Em termos médios, o medicamento mais rápido deste teste é o Oxybee, com aplicação por gotejamento e com rainha previamente enjaulada para criar uma condição de criação ausente, tão necessária para aumentar a eficácia deste método. Quatro dias após o gotejamento, quase 50% dos ácaros varroa caíram e foram contados. Esta velocidade de ação também se caracteriza pela sua brevidade, já que uma semana depois a percentagem de varroa caída atingirá um total de 56%, patamar que não ultrapassará nas semanas seguintes.
  • Quatro dias após a aplicação das tiras Apivar, Apitraz e Apistan, a percentagem de ácaros caídos é de apenas 21, 11 e 27%, respectivamente, do total de ácaros (que caíram durante todo o tratamento — tratamento teste e tratamento de controle).
  • Após quatro semanas de aplicação, esse percentual sobe para 57%, 53% e 74%, respectivamente.
  • Para ultrapassar uma queda de 80% dos ácaros Varroa, temos que esperar oito semanas com Apivar, sete semanas com Apitraz e seis semanas com Apistan.
  • Notemos que com o medicamento Apitraz, após seis semanas (tempo de aplicação previsto na Autorização de Introdução no Mercado francês, isto é o período de tempo de utilização recomendado na bula do medicamento), a mortalidade média é de 77%.
  • Esses resultados confirmam que a libertação do ingrediente ativo é lenta e prolongada, seja nos medicamentos com base de amitraz ou tau-fluvalinato.
  • No caso do medicamento Apitraz, estes testes mostram que o tempo de aplicação previsto, seis semanas, é insuficiente no contexto dos testes.

Maior volatilidade dos resultados

Os resultados de 2020 confirmam que os níveis de eficácia são muito heterogéneos entre as colónias, mas sobretudo que uma alta percentagem delas não está devidamente protegida após o final dos tratamentos de verão.
Notamos também a grande volatilidade dos resultados de um ano para o outro, conforme ilustrado pela eficácia do Apivar, por exemplo. Na tabela em baixo, podemos observar que 94% das colónias testadas em 2016 ultrapassaram o limiar de 95% de eficácia. Nos quatro anos seguintes, esta percentagem tem descido, ainda que de uma forma irregular.

fonte: https://www.sante-de-labeille.com/docs/resultats_tests_efficacite_varroa_2020.pdf

Bob Binnie entrevista: tratamento da varroose com ácido oxálico

Grato ao Nuno Cascais por me ter chamado a atenção para este conjunto de entrevistas conduzidas pelo apicultor norte-americano Bob Binnie a dois investigadores da Universidade do Estado da Georgia. Jennifer Berry e Lewis Bartlett estão a conduzir esta investigação sobre o tratamento da varroose com recurso ao ácido oxalico. O meu interesse pelos tratamentos com ácido oxálico não é de agora (ver aqui e aqui). Contudo, o aumento substancial de apicultores a recorrerem a este químico simples para fazerem os tratamentos tem provocado um interesse cada vez maior nos investigadores. E assim, os estudos controlados que têm surgido recentemente ajudam-nos a compreender melhor as virtudes e limitações desta opção com o ácido oxálico.

Em baixo elenco um conjunto de dados e conclusões que estes dois especialistas têm retirado nos seus ensaios com a utilização de ácido oxálico:

  • ao contrário de Randy Oliver, que no clima quente e seco do norte da Califórnia, tem tido sucesso com os dispensadores lentos de ácido oxálico, isto é, com os suportes celulósicos com uma mistura de glicerina e ácido oxálico, no clima quente mas húmido da Geórgia os dispensadores celulósicos não são efectivos no controlo/abaixamento do número de varroas de acordo com os resultados obtidos por esta equipa de investigadores; a ecologia do local, em particular a maior humidade relativa do ecossistema do estado georgiano, parece estar na causa desta pouca efectividade, associado ao facto de neste estado as colónias terem criação presente ao longo de 12 meses, ou próximo disso;
  • outro aspecto que esta equipa testou foi o regime de tratamentos utilizado. Por exemplo vaporizaram com ácido oxálico as colónias num regime de 7 vaporizações com 5 dias de intervalo entre vaporizações; conseguiram estabilizar o número de varroas mas não conseguiram que a população de varroas decrescesse até números abaixo do limiar de danos económicos, isto é menos de uma varroa por cem abelhas adultas;
  • o pressuposto de que todas as colónias têm a mesma taxa de infestação no início dos tratamentos e, consequentemente, a mesma taxa de infestação no final do tratamento não é realista. Nesta publicação “arrisquei a pele” dizendo isto mesmo; é reconfortante ouvir agora a Jennifer Berry defender basicamente o mesmo: monitorizar sim, mas monitorizar todas as colónias porque todas as colónias apresentam à partida do tratamento e no final do tratamento diferentes taxas de infestação;
  • numa abordagem de Gestão Integrada de Pragas estas opções com ácido oxálico e neste contexto, presença de criação durante quase todo o ano e clima quente e húmido, podem não servir os objectivos dos apicultores;
  • Binnie coloca a questão sobre a extensão do período forético/fase de dispersão, se este pode ser inferior a 4 dias. Resposta: esqueçam tudo o que julgam saber. Pode ser menos de 4 dias. Como já referi em publicações anteriores, em laboratório, Rosankranz e colegas, identificaram varroas com um período forético de cerca de um dia;
  • o conceito tão caro à Gestão Integrada de Pragas de apenas tratar as colónias que atingiram o limiar de dano económico (2 a 3% de infestação de abelhas adultas) deve ser revisto. O “super-organismo” é o apiário todo, não a colónia. Os fenómenos de deriva, de pilhagem, os zângãos vagabundos, permite às varroas viajarem rapidamente entre colónias do mesmo apiário e entre colónias de apiários diferentes. Quando se identifica uma colónia que ultrapassou o limiar de dano económico devem tratar-se todas as colónias desse apiário;
  • com os métodos mais comuns de monitorização dos níveis de infestação, como a lavagem de abelhas adultas para fazer soltar os ácaros ou a queda destes em cartolinas/tabuleiros colocados no fundo das colmeias, podemos não obter uma boa representação, um número fidedigno, do nível de infestação das colónias.

resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato em regiões de França

Na sequência do seu trabalho de doutoramento, Gabrielle Almecija tem vindo a publicar diversos artigos com os resultados que obteve na sua pesquisa de avaliação da resistência ao amitraz (princípio activo dos medicamentos comercializados com o nome Apivar e Apitraz, por exemplo) e ao tau-fluvalinato (princípio activo do medicamento comercializados com o nome Apistan), em algumas regiões de França nos anos de 2018 e 2019.

Apresento em baixo alguns dos dados obtidos.

Localização das populações de varroa testadas e suas sensibilidades (suscetível (S), moderadamente resistente (MR), fortemente resistente (FR)) ao tau-fluvalinato (A) e ao amitraz (B).
Proporção das populações de varroa de acordo com sua sensibilidade ao tau-fluvalinato na França em 2018 e 2019, (n = 22).
Proporção de populações varroa de acordo com sua sensibilidade ao amitraz na França em 2018 e 2019, (n = 35).

Do primeiro quadro podemos ver que o fenómeno de resistência moderada e resistência forte para o amitraz e para o tau-fluvalinato é heterogéneo entre regiões e, inclusivamente, na mesma região. Há apiários com uma predominância de populações de varroas sensíveis ao amitraz ou ao tau-fluvalinato e outros apiários onde predominam populações de varroas moderadamente ou fortemente resistentes ao amitraz ou ao tau-fluvalinato. Ainda que as minhas observações sejam a olho, sem qualquer carácter científico (avaliar a susceptibilidade vs. resistência das varroas a este ou aquele princípio activo segue um protocolo muito complexo, que não está ao meu alcance), também encontro esta heterogeneidade nos resultados finais, isto é, o Apivar colocado da mesma maneira, na mesma altura, resulta melhor nuns apiários que noutros, resulta melhor numas colónias que noutras do mesmo apiário. Das minhas observações resulta melhor, em regra, em colónias que foram desdobradas, em enxames novos, em enxames mais pequenos, por exemplo em núcleos de 5 quadros.

Da comparação dos dois gráficos em baixo destaco a maior percentagem de populações de varroas sensíveis ao tau-fluvalinato, 50%, por comparação com as populações de varroas sensíveis ao amitraz, 29%. Uma explicação possível, com base científica, pode ter a haver com o fenómeno de “reversão para a sensibilidade”. O tempo necessário para se passar de uma população resistente a susceptível é denominado “período de reversão”. Para os ácaros varroa, poucas informações sobre a duração do período de reversão são conhecidas hoje. Levará entre 4 e 6 anos para uma população de ácaros altamente resistentes ao tau-fluvalinato recuperar sua sensibilidade (Norberto Milani e Vedova 2002). Até ao momento, nenhuma informação é conhecida sobre o período de reversão do amitraz. No meu caso, e como o último ano em que tratei com tau-fluvalianto (Apistan) foi em 2011, este medicamento está novamente em cima da minha mesa de opções para ser utilizado em 2022.

fonte: https://www.apinov.com/wp-content/uploads/2021/08/Lutte-contre-le-varroa-Gabrielle-Almecija.pdf

Nota: agradeço ao meu amigo João Gomes por me ter posto na pista do trabalho e publicações de Gabrielle Almecija. Tenciono fazer mais publicações sustentado na tese de doutoramento desta jovem doutora, pois quero partilhar muito do sumo do seu trabalho com os meus leitores.

esterilização das varroas pelo ácido fórmico: que evidências?

De quando em quando ouço e leio que ocorre um processo de esterilização das varroas com a utilização do ácido fórmico. Um fabricante de medicamentos acaricidas baseados no ácido fórmico faz mesmo esta afirmação “In our research and testing, we found out that mites surviving the treatment are in 80% infertile and will not reproduce.” (Na nossa pesquisa e testes, descobrimos que os ácaros que sobrevivem ao tratamento 80% são inférteis e não se reproduzem. fonte: http://www.mitegone.com/media.asp#reproduction) Por razões que desconheço, esta pesquisa e os testes estão omissos da bibliografia de suporte da página de marketing do produto, e a bibliografia de suporte que é apresentada, salvo melhor leitura, não confirma esta afirmação.

Da pouca bibliografia que alguns companheiros me sugeriram ler para esclarecer se de facto existem evidências sobre este efeito do ácido fórmico na fertilidade das varroas destaco estes dois artigos:

  • The Effect of Formic Acid in the Sealed Brood Cells (http://www.moraybeedinosaurs.co.uk/varroa/Effect_Formic_Acid.htm?fbclid=IwAR2zHBO_nEHWziZqF0npBmoBOnO2hN3SWzOqJPqSpI9W6pyLwGZRM9T-Yqc)
  • Results of 50% formic acid fumigation of honey bee hives [Apis mellifera ligustica (Hymenoptera : Apidae)] to control varroa mites (Acari : Varroidae) in brood combs in Florida, USA (Autores: Jim Amrine e outros. Amrine é/foi um dos grandes divulgadores dos benefícios dos tratamentos “flash” com ácido fórmico).

Depois de passar umas horas a analisar esta e outra bibliografia, acerca da hipótese da esterilização das varroas sobreviventes não encontrei evidência nenhuma. Encontrei sim dados sobre a mortalidade que o ácido fórmico provoca nas varroas que estão “protegidas” pelos opérculos. Esta informação já a possuo há mais de seis anos, contudo é sempre agradável reavivar os nossos conhecimentos, e não dei o meu tempo por completamente perdido! Evidências nestes estudos, e outros que consultei, acerca da possibilidade de esterilização das varroas, decorrente da utilização do ácido fórmico, não as encontrei.

O ciclo de vida da abelha operária começa quando a rainha coloca o ovo no alvéolo. O ovo (Figura 1) eclode após 72 horas, e cada um dos primeiros quatro ínstares larvais ocorre com 24 horas de intervalo (por exemplo, imagem # 2). O quinto ínstar larval (Figura 3) é operculado enquanto ainda está se alimentando, e a operculação é feita pelas abelhas adultas 8-8,5 dias após a postura do ovo. A pupação não ocorre até cerca de 3 dias após a operculação. O último instar larval alimenta-se durante o primeiro dia pós-operculação, mas torna-se imóvel (um estágio que chamamos de pré-pupa, Figura 4) à medida que se prepara para a pupagem. Os ácaros Varroa
invadem os alvéolos com larvas de último ínstar (Figura 3) poucas horas antes da operculação.

A propósito deste assunto, e para terminar, recentemente (2020), Häußermann et al. revelou a possibilidade de um ácaro virgem iniciar a fase forética/fase de dispersão. Posteriormente esta varroa virgem entra num opérculos com uma larva no 5º ínstar larval, põe um ovo não fertilizado e acasala com seu filho macho. Isto confirma que as fêmeas Varroa não precisam acasalar para fazer postura e que podem ser fecundadas por seus filhos, dias depois. (fonte: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs13592-019-00713-9).

Nota: aceito que sou um bocado obcecado pelos detalhes. Mas nos detalhes é que está o diabo. Como irão perceber quando publicar o meu plano de tratamentos para a varroose do próximo ano, a alegada esterilização das varroas pela utilização do ácido fórmico teria a sua importância se ela se confirmasse. Este plano, muito simples como poderão depois ver, será primeiramente apresentado no próximo Encontro de Apicultores da Guarda (ver aqui).