o caminho para a homologação de um medicamento de uso veterinário

Não sendo uma absoluta novidade para mim o quão complexo e dispendioso é o processo de homologação de um medicamento de uso veterinário, encontrei no Bee-L uma descrição informal do processo de homologação requerido nos EUA. Na nossa UE não será muito diferente. No caso da apicultura apenas os tratamentos para a varoose estão homologados. Todas as outras doenças que afectam as colónias de abelhas não têm tratamentos homologados pela UE.

Contextualizando brevemente, esta é uma descrição de um apicultor, que por acaso é químico ou bio-químico e que trabalhou no âmbito da sua actividade profissional em vários laboratórios de produção de medicamentos, tanto quanto eu percebi até agora. As iniciais do seu nome são R.C. Esta descrição está ligada a uma questão que surgiu no Bee-L acerca do processo de homologação dos famosos toalhetes com oxálico e glicerina que têm vindo a ser testados pelo Randy Oliver. Tenho ideia que a EPA será a congénere norte-americana da nossa Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a FDA a congénere da nossa Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

De vez em quando virei ler esta publicação para me lembrar o caminho que tem de ser percorrido (já nem falando em tudo o que está a montante em I&D) para alguém ver o seu medicamento para a varroose homologado. Não quero também esquecer-me do que alguns entre nós fizeram, e bem, para que esses medicamentos tenham comparticipação da UE e do Estado português no seu custo de aquisição. Por exemplo, nos EUA essa comparticipação não existe.

Os toalhetes de ácido oxálico diluído em glicerina
criados e testado por Randy Oliver.

R.C. : “Eu realmente não sei quais dados a EPA gostaria de ver. No mínimo, eles provavelmente gostariam de ver os dados de resíduos no mel e na cera para o ácido oxálico quando o produto for usado de acordo com o protocolo proposto. Portanto, a primeira coisa necessária é um rótulo com o protocolo de de uso proposto. Não creio que os resíduos de glicerina sejam motivo de preocupação. Afinal, nosso próprio corpo produz glicerina todos os dias como parte do metabolismo normal. De acordo com sua prática de longa data sobre dados, eles (EPA) gostariam que os dados fossem gerados com boas práticas de laboratório (BPL). O BPL não tem quase nada a ver com fazer boa ciência e obter resultados corretos. Em vez disso, as BPL se referem à manutenção de registros e inspeções de qualidade, registros de laboratório e procedimentos operacionais padrão escritos e de forma muito detalhada para cada operação. Coisas como qual foi o número do lote de todos os reagentes usados, qual foi a data em que esses frascos foram abertos e se estavam devidamente rotulados e registros de quem abriu o frasco e prazo de validade. Se você usou um frasco de acetona, se o rótulo era atualizado toda vez que era recarregado, mesmo que você o recarregasse três vezes ao dia. Você tem registros escritos mostrando qual balança que foi usada para cada pesagem e você tem registros escritos que teve sua calibração verificada com algum peso padrão e foi documentado todos os dias em que a balança foi usada? Seus cadernos são devidamente conferidos diariamente? Se você usou uma geleira, você tem documentação em papel que mostra o registro de temperatura nessa geleira para todos os dias em que fez parte do estudo? Você tem arquivos protegidos à prova de fogo onde pode armazenar todos os registros de estudo para sempre? O BPL realmente resulta no corte de uma floresta de árvores de para fornecer todo o papel necessário a esta extensa tarefa de registrar tudo ao mais pequeno pormenor. Todo o objetivo do BPL é fornecer documentação mais do que suficiente para que alguém versado na técnica possa repetir o estudo como feito originalmente e obter os mesmos resultados e também demonstrar que todos os equipamentos usados ​​estava em boas condições de funcionamento no dia em que foram usados ​​e que um inspetor de Qualidade verificou essas coisas e verificou todos os cálculos para ter certeza de que foram feitos corretamente. Em geral, a EPA não tem interesse em qualquer estudo que não seja feito em conformidade com as BPL.

O trabalho de Randy é determinar como usar o material para obter eficácia na eliminação de ácaros. A EPA não tem interesse real em saber se a substância realmente mata os ácaros e não quer estudos de eficácia. Estas são as perguntas que a FDA faz, porque se focam em avaliar se as coisas realmente funcionam. Para os pesticidas que não funcionam ou funcionam, mas causando alguns danos colaterais indesejados, como matar a rainha, estes problemas são resolvido por um utilizador (apicultor) que processa o fornecedor por danos, em tribunais civis. Lembre-se que a EPA deseja dados que digam que o material é seguro para o aplicador usar, os produtos produzidos são seguros para o consumidor usar e o produto químico não causa danos ambientais inaceitáveis. Eu não acho que eles tenham muitas dúvidas com a segurança do utilizador (apicultor) ou o ambiente, seja pelo ácido oxálico ou pela glicerina. Mas há limites para a quantidade de ácido oxálico que uma pessoa pode comer por dia, então algum tipo de dado de resíduo terá de ser indicado para proteger o consumidor. Todos nós sabemos que não é possível usar ácido oxálico em quantidades que venha a causar um problema de saúde ao consumidor por comer mel de colmeias tratadas. Mas saber e ter provas são duas coisas diferentes e os funcionários da EPA vão-se proteger de um erro pedindo algum tipo de dado sobre resíduos. No caso de um tratamento por gotejamento ou por sublimação de oxálico, eles podem contar com dados de registros estrangeiros, como Canadá ou UE. Talvez você possa convencê-los a confiar nos dados da UE neste caso, pois acho que uma mistura de glicerina oxálica está registrada na UE para gotejamento. No pior cenário esta análise pode ter que passar por algum laboratório contratado que tenha BPL (há muitos deles) e gastar $ 30.000 ou $ 60.000 para o trabalho analítico e respectivo relatório. Alguém precisaria fazer o trabalho de campo para obter as amostras e o BPL também é necessário para o trabalho de campo. Os registos dos testes de campo necessários assim como o que o apicultor fez e tudo isto em conformidade com as BPL (Boas Práticas Laboratoriais).

Lembre-se também de que a EPA estava sendo pressionada por Michelle Obama para registrar o gotejamento e a sublimação com oxálico e, como resultado, homologou com menos dados do que jamais os vi homologar qualquer coisa no passado. Se não fosse por sua influência política, provavelmente não teríamos estas utilizações do oxálico homologadas nos Estados Unidos hoje. Ela não é mais a primeira-dama, então não tem mais clube para bater à porta. E, como a Brushy (empresa apícola norte-americana), a empresa que submeteu este processo de homologação, não está mais no mercado, a atual homologação para o gotejamento e a sublimação só é válido até que a agência tenha alguma dúvida que exija uma resposta e como a empresa que o homologou não existe, talvez a homologação seja cancelada. Toda a homologação é totalmente revista pelo menos a cada 15 anos então em algum momento isso vai acontecer com os processos de gotejamento e a sublimação actualmente homologados e alguém deve solicitar essa essa revisão.“R.C.

fonte: Bee-L (fórum apícola norte-americano), 02-09-2020

fortalecendo a luta contra o varroa: como controlar a infestação durante a temporada de fluxo?

Não tenho observado este fenómeno de níveis de infestação elevada (acima dos 3%) durante a temporada de fluxo de néctar, entre finais de abril e finais de julho nos meus apiários (dois a 600 m de altitude e outros dois a 900m de altitude), nos últimos anos, mas não deixo de me preocupar com esta questão.

No sítio do ITSAP (Institut d’Abeille), encontrei referência a um estudo relativamente recente orientado para esta questão. Os resultados não são muito encorajadores nem muito surpreendentes para mim: a baixa eficácia do ácido oxalico sublimado no controlo do varroa em colónias com muita criação operculada nesta época e a boa eficácia do ácido fórmico (MAQS), mas de curta duração, no controlo do ácaro nesta época do ano. Já a alteração do mel pelo aumento do teor de ácido fórmico após o tratamento com MAQS deixou-me surpreendido, sabendo que é o único tratamento que conheço que está homologado para uma utilização durante a temporada de fluxo. Deixo a tradução em baixo.

Aplicação do MAQS para controlar a infestação pelo ácaro varroa.

“Diante da dificuldade enfrentada pelos apicultores em controlar a infestação dos apiários pelo Varroa, a ênfase é colocada na monitorazação regular dos níveis de infestação em momentos chave. Assim, apesar dos tratamentos anti-varroa usados ​​entre duas estações de produção, algumas colónias ainda surgem muito infestadas na primavera.

Quais são, então, os tratamentos corretivos disponíveis? Que intervenção melhora o desempenho das colónias, reduzindo o nível de infestação? Dependendo do tratamento utilizado, quais são os riscos para as colónias de abelhas e para a qualidade do mel? Para responder a essas perguntas, o ITSAP-Institut de l’Abeille e a rede ADA experimentaram o uso de ácido fórmico e o uso de ácido oxálico contra o Varroa durante a temporada de apicultura.

Durante o experimento realizado no ano de 2016 em mais de 300 colónias, o nível médio de infestação foi de mais de 1 varroa / 100 abelhas em abril. O uso do MAQS® (ácido fórmico) possibilitou reduzir a infestação das colónias por um período de aproximadamente dois meses, até o final de junho / início de julho, e permitiu iniciar o fluxo de mel de verão com menos de 3 varroas / 100 abelhas. Em contraste, as colónias tratadas por sublimação repetida de ácido oxálico na presença de criação começaram a melada de verão com uma infestação superior a 3 varroas / 100 abelhas, como as colónias não tratadas.

O efeito do tratamento de primavera com ácido fórmico sobre a infestação diminuiu e não era observável no final do verão. Portanto, não foi possível ignorar as intervenções de fim de verão, apesar da redução da infestação obtida na primavera. A redução da infestação abaixo de 3 varroas / 100 abelhas foi acompanhada por melhor produção de colónias durante a melada de verão. Porém, o tratamento MAQS® na primavera aumentou o teor de ácido fórmico do mel, mesmo aquele produzido no final do verão, consolidando os achados de outros experimentos: tratar (com ácido fórmico) ou produzir, você tem que escolher!”

fonte: http://blog-itsap.fr/renforcer-la-lutte-contre-varroa-comment-reguler-linfestation-en-cours-de-saison/

concluindo o primeiro tratamento contra a varroose em 2020

Tendo iniciado o tratamento de final de inverno/início da primavera com as tiras de Apivar na passagem da 2ª para a 3ª semana de fevereiro, de acordo com o calendário que fui afinando e com resultados muito positivos nos últimos 4 a 5 anos, esta semana estou a proceder à sua retirada, ao fim de cerca de 10 semanas. Terei sido, tanto quanto sei, dos primeiros apicultores em Portugal a referir e estender o tratamento para além das habituais 6 a 8 semanas. Actualmente o fabricante (Veto Pharma) também recomenda 10 semanas para a duração do tratamento em colónias com muita criação. É o meu caso nesta altura do ano, assim como o caso de larga maioria dos apicultores nas zonas temperadas do hemisfério norte.

É um excelente sinal esta coloração amarelo-acastanhado nas tiras, sinal inequívoco que foram tocadas e calcorreadas pelas abelhas inúmeras vezes..

Em casa junto-as, para depois as entregar na minha associação de apicultores, que por sua vez as entregará à Valormed, para que procedam à sua destruição em condições devidamente controladas

Neste período de tempo perdi uma colónia, em cerca de 200 tratadas, para o Varroa (0,5%). Não sendo um utilizador convicto e frequente de nenhuma das várias técnicas de controlo da taxa de infestação, faço o controlo por observação a olho nú das abelhas e criação com muita regularidade, durante o maneio do ninho nestas 10 semanas. Contudo hoje fiz um controlo pouco habitual na minha prática.

Por uma razão específica e pouco habitual, no maneio de hoje tive de cortar este favo com criação de zângão, que tinha sido construído por debaixo do travessão do quadro de meia-alça que habitualmente coloco no ninho.
E aproveitei para re-confirmar a elevada eficácia deste primeiro tratamento da varroose deste ano.
Zângãos limpos de varroa.

No quadro do meu maneio, tendo em conta o timing, duração e eficácia do tratamento, é um disparate estar a fazer o designado “corte de zângão”. Caso o fizesse, estaria a eliminar maioritariamente zângãos limpos com impacto pouco significativo na infestação, mas que consumiram uma quantidade apreciável de recursos da colónia até serem operculados. Neste quadro estou convicto que a colónia ganha mais deixando os “boys” nascer.

varroas mais resistentes ao amitraz no outono que na primavera?

Inside The Hive TV: entrevista ao Dr. Frank Rinkevich investigador de abelhas do USDA em Baton Rouge, em 27 de setembro de 2019.

Como apicultor que utiliza frequentemente o Apivar procuro com alguma frequência dados acerca do mesmo e acerca do amitraz, o princípio activo presente nestas tiras. Entre outros dados os que mais me importam para o meu maneio são o timing/altura para efectuar os tratamentos com apivar, sabendo que o mesmo é um acaricida de libertação lenta, que deve permanecer nas colmeias entre 10 a 12 semanas e que perde grande parte da sua eficácia quando a taxa de infestação ultrapassa os 3%.

Neste vídeo confirmo que os casos estudados de resistência dos ácaros ao amitraz continua a ser pontual, talvez porque o amitraz actua ao nível de vários receptores nervosos e não apenas um e talvez porque o amitraz contamina pouco as cera (é não-lipofílico), ao contrário do que se verifica com outros acaricidas sintéticos.

Contudo o que achei mais surpreendente neste vídeo foi o que o investigador Frank Rinkevich refere a partir do minuto 22 e 35 segundos na resposta à questão: os ácaros são mais ou menos resistentes em diferentes meses do ano?

Os dados recolhidos e apresentados indicam que os ácaros testados nos meses de outubro e novembro de 2018 são menos susceptíveis/sensíveis, isto é são mais resistentes ao amitraz que os ácaros recolhidos no mesmo apiário (Baton Rouge) nos meses de abril e maio do ano seguinte. Dados de grande interesse na minha opinião que merecem ser revisitados através de mais investigação.

Confirmando-se os resultados será interessante, seguidamente, procurar esclarecer as razões para tal acontecer com o amitraz e sobretudo verificar se o mesmo fenómeno se verifica com outros acaricidas. Aos meus olhos o que se vier a concluir será de extrema importância para as decisões de maneio que todos temos de tomar para manter as nossas colónias vivas e, o mais possível, saudáveis.

acaricidas naturais: três reflexões

R. C, apicultor norte-americano, escreveu recentemente no Bee-L o seguinte acerca do Hopguard, um acaricida orgânico/biológico, que tem sido criticado pela sua falta de eficácia:

Princípios activos do Hopguard: Potassium Salt of Hop Beta Acids. Segundo o fabricante pode ser utilizado durante o fluxo de néctar.

“Você precisa se lembrar de que os registros de pesticidas em todo o mundo não dizem nada sobre a eficácia do produto. Toda agência reguladora de pesticidas vê a eficácia como algo entre o vendedor e o utilizador e, se o utilizador não estiver satisfeito, estará livre para ir a tribunal e processar o fabricante por danos.
As agências de registro de pesticidas estão preocupadas com três coisas:1. O produto é seguro para o aplicador quando aplicado de acordo com as instruções da etiqueta? 2. O produto é seguro para o consumidor de alimentos tratados com esse pesticida de acordo com o rótulo? 3. O produto é seguro para o meio ambiente?
Se falhar num desses aspectos significa que nenhum registro é concedido.
Para produtos naturais como o Hopguard, o regulador diminui consideravelmente o nível de exigência dos três itens listados. A suposição é que é um produto natural, e que você é exposto a ele na comida normal que come. No caso do Hopguard, suponho que todos os componentes estejam na cerveja, por exemplo. Portanto, para produtos naturais, você tem muito menos certeza de que, se usado de acordo com o rótulo, o produto será realmente seguro.”


As reflexões do companheiro norte-americano são de três tipos, como fica bem claro:

  • a satisfação/insatisfação acerca da eficácia de um acaricida natural, e sobre isso os companheiros apicultores que estão em biológico poderão dizer mais e melhor que eu;
  • o foco da entidade reguladora no processo de registro/aprovação de um acaricida/pesticida, natural ou sintético ;
  • a segurança alimentar, sabendo que o escrutínio por parte das entidades reguladoras parece ser menor que o desejável, quando comparado por exemplo com o escrutínio feito aos acaricidas sintéticos. Sobre esta última questão já aqui escrevi, ainda que noutro contexto, e que coincidem na opinião do questionável “baixo” escrutínio a que estão sujeitos os químicos naturais presentes nos produtos alimentares.

uso de métodos químicos e não químicos para o controle do varroa destructor (Acari: Varroidae) e perdas associadas de colónias no inverno em operações de apicultura nos EUA

Traduzo, em baixo, um artigo muito recente (abril de 2019) acerca de uma das principais causas de mortalidade de colónias nos EUA (o ácaro varroa destructor) e sua relação com as opções de tratamento e controlo por parte dos apicultores. Os resultados não me surpreendem e seguem em grande medida um padrão já evidenciados através dos inquéritos aos apicultores da região da Alsácia em França (ver aqui e aqui). Tenho utilizado estes resultados como guião para as minhas opções no controlo do varroa, e estou muito satisfeito até ao momento com os resultados.

“O ácaro Varroa destructor (Acari: Varroidae) é uma das principais causas de perdas de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera) nos Estados Unidos, sugerindo que os apicultores devem controlar as populações de Varroa para manter as colónias viáveis. Os apicultores têm acesso a vários químicos e práticas não químicas para controlar as populações de Varroa. No entanto, nenhum estudo examinou padrões de larga escala nos métodos de controle Varroa nos Estados Unidos. Aqui usamos as respostas de 4 anos de inquéritos anuais a apicultores representando todas as regiões e tamanhos de operação nos Estados Unidos para investigar o uso de métodos de controle do Varroa e perdas de colónias no inverno associadas ao uso de diferentes métodos. Nós concentrámo-nos em sete produtos varroacidas (amitraz, cumafos, fluvalinato, óleo de lúpulo (HopGuard), ácido oxálico, ácido fórmico e timol) e seis práticas não químicas (remoção de cria de zângão, favos com alvéolos pequenos, estrados de rede, açúcar em pó, abelhas resistentes a ácaros e divisão de colónias) sugeridas para ajudar no controle do Varroa. Descobrimos que quase todos os apicultores de grande escala usavam pelo menos um varroacida, enquanto os apicultores de pequena escala eram mais propensos a usar apenas práticas não químicas ou não usar qualquer controle de Varroa. O uso de varroacidas foi consistentemente associado com as menores perdas de inverno, com o amitraz estando associado a perdas mais baixas do que qualquer outro produto varroacida. Entre as práticas não químicas, a divisão de colónias está associada às menores perdas de inverno, embora as perdas associadas ao uso exclusivo de práticas não químicas fossem altas no geral. […]

Utilização de um único produto varroacida como o único controle do Varroa e perdas Associadas

No total, 843 entrevistados (agrupando todos os tipos de operação) indicaram que usaram apenas um produto varroacida e nenhuma prática não química ao longo de um ano. Os produtos mais relatados entre esses entrevistados foram timol (35,3% dos entrevistados), ácido fórmico (28,1% dos entrevistados), ácido oxálico (15,3% dos entrevistados) e amitraz (8,9% dos entrevistados).

Os apicultores que relataram o uso de um produto à base de amitraz tiveram a menor perda de inverno em média (18,8% de perda; Fig. 1). Aqueles que relataram o uso de ácido oxálico, timol ou ácido fórmico relataram 32,4%, 36,8% e 38,8% de perdas, respectivamente (Fig. 1). Os produtos de varroacida menos utilizados (cumafos, fluvalinato e óleo de lúpulo (hopguard)) foram associados às maiores perdas de inverno (Fig. 1).

Fig. 1: Perda de colónias no inverno por produto varroacida para os entrevistados que relataram usar um único produto de varroacida como o único método de controle de Varroa ao longo de um ano. A linha tracejada representa a perda média geral no inverno. Os números dentro das barras indicam o tamanho das amostras. Barras de erro representam intervalos de confiança de 95%. Letras diferentes acima das barras indicam que as perdas no inverno são significativamente diferentes com base nos testes de Tukey-Kramer. […]

Utilização de uma única prática não-química como o único método de controle do Varroa e perdas associadas

Entre os 3.459 entrevistados que indicaram que usaram uma única prática de maneio não química e nenhum uso de varroacida, 59,8% indicaram que usaram tabuleiros de rede. O uso relatado de qualquer outra prática não química como o único método de controle Varroa foi muito menos frequente, com a segunda prática mais comum (divisão de colónias) relatada por apenas 15% dos entrevistados.

As perdas médias de inverno para os entrevistados que relataram usar apenas uma única prática não química para controlar o Varroa foram maiores do que a perda média geral no inverno, independentemente da prática não química que relataram usar. Aqueles que relataram a divisão de colónias tiveram a perda de inverno mais baixa (perda de 32,8%), e essa perda foi significativamente diferente das perdas daqueles que usaram todas as outras práticas não químicas com a excepção da utilização de favo com alvéolos pequenos (Fig. 2). Aqueles que relataram o uso da remoção de cria de zângão ou açúcar em pó perderam em média aproximadamente 62% das colónias, e essas perdas foram significativamente maiores do que as perdas daqueles que relataram o uso de todas as outras práticas não químicas (Fig. 2).

Fig. 2: Perdas de colónias no inverno por práticas de maneio não químicas para os entrevistados que relataram o uso de uma única prática não química e nenhum uso de varroacida ao longo de um ano. A linha tracejada representa a perda média geral de inverno. Os números dentro das barras indicam o tamanho das amostras. Barras de erro representam intervalos de confiança de 95%. Letras diferentes acima das barras indicam que as perdas no inverno são significativamente diferentes com base nos testes de Tukey-Kramer.

fonte: https://academic.oup.com/jee/advance-article/doi/10.1093/jee/toz088/5462560

PolyVar yellow®: avaliação da eficácia e segurança por um estudo independente

Foi recentemente homologado em Portugal, pela DGAV, um novo tratamento contra o varroa com a designação comercial  PolyVar yellow®. Para os menos familiarizados com este novo tratamento fica em baixo um vídeo acerca do mesmo. Aproveito o ensejo para colocar a tradução do primeiro estudo controlado independente que conheço acerca deste produto. Termino este post com algumas breves reflexões.

O vídeo 

O estudo

Avaliação da eficácia e segurança da Flumetrina 275 mg em tiras para entrada de colmeias (PolyVar Yellow®) contra o Varroa destructor em colónias de abelhas de mel infestadas naturalmente num estudo controlado

Um estudo controlado e parcialmente cego foi realizado para avaliar a segurança e eficácia do tratamento com 275 mg de flumetrina 275 por colmeia veiculada pelas tiras PolyVar yellow® (Bayer) no tratamento de final de verão / outono contra infestação com Varroa destructor em colónias de abelhas. Trinta colónias receberam o produto teste (PolyVar yellow® ) aplicado como um “portão” na entrada da colmeia durante 116 dias, outras um produto de controle positivo (flumetrina em tiras, Bayvarol®) durante 42 dias ou permaneceram sem tratamento como controle negativo. No dia 117, um tratamento de acompanhamento com coumafos em solução (Perizin®) foi aplicada a todas os três grupos. Para a avaliação da eficácia, os ácaros mortos foram contados com frequência durante 2 semanas após aplicação do tratamento de acompanhamento. Para a avaliação da segurança do tratamento as abelhas mortas foram coletadas durante todo o período de tratamento e acompanhamento por armadilhas de abelhas mortas e vários exames às colónias foram conduzidos até ao verão seguinte. A eficácia do produto aqui testadado (PolyVar yellow®) contra Varroa foi claramente demonstrado com uma redução de 99,9% de ácaros relativamente ao grupo de controle negativo (p = 0,0008). A sobrevida de colónias tratadas com o produto de teste ou o produto de controle positivo foi de 80% e 90%, respectivamente, enquanto a sobrevivência no grupo controle negativo foi de apenas 30%. Um número significativamente menor de abelhas mortas foi observado nos grupos tratados em comparação com controle negativo. Além disso, não há diferenças no desenvolvimento das colónias observados entre os grupos que foram considerados clinicamente relevantes. Assim, a flumetrina 275 mg em tiras colocadas na entrada das colmeia foi confirmado ser um tratamento eficaz e seguro para varroose em abelhas de mel causadas por Varroa destructor sensíveis à flumetrina.

Fonte: https://www.wur.nl/upload_mm/a/b/8/51a1a2b2-3e32-422e-82f3-a5d5eeb11a4c_Blacqui-re_et_al-2017-Parasitology_Research.pdf

Reflexões

  • Mais estudos controlados serão desejáveis, sobretudo em zonas com climas diferentes;
  • Será imprudente, no mínimo, os apicultores desdenharem desta nova modalidade de tratamento com flumetrina, baseados somente nos maus resultados que tiveram com o Bayvarol. Estamos em presença de um novo veículo e de uma quantidade substancialmente superior de flumetrina (3,6 mg por tira de Bayvarol contra 275 mg por tira de PolyVar Yellow);
  • Qual a eficácia deste novo tratamento em zonas fortemente predadas pela velutina, onde o movimento de entrada e saída de abelhas forrageadoras se encontra bastante reduzido nos períodos de final de verão/início de outono?
  • Será imprudente, no mínimo, desdenhar deste novo tratamento levantando o fantasma/papão dos resíduos no mel sem dados confiáveis, medidos e devidamente controlados. Qual é a quantidade de resíduos encontrada no mel e qual é o LMR (Limite máximo de resíduos) para a flumetrina no mel quando aplicado este tratamento? Se alguém tiver resposta, se a DGAV tiver resposta, agradeço que me enviem esses dados para poder completar este post.

luta contra a varroa: aluen CAP alternativa ao Apilife Var?

No relatório das actividades desenvolvidas no biénio 2015/2016 pelo ITSAP (Institut technique et scientifique de l’apiculture et de la pollinisation) podemos aceder aos dados de um estudo comparativo da eficácia de três tratamentos orgânicos contra a varroa: Hive Clean*, Apilife Var e Aluen CAP** (pgs. 19-22).

 

Os resultados globais ali apresentados são os seguintes:

  • Hive Clean: eficácia média de 40%;
  • Apilife Var: eficácia média de 70%;
  • Aluen CAP: eficácia média de 75,2%.

(fonte: http://blog-itsap.fr/wp-content/uploads/2017/05/compte-rendu-activite-itsap-2015-2016-3.pdf)

Apesar do Aluen CAP neste estudo apresentar uma eficácia inferior à relatada por outros (ver mais aqui), segundo os especialistas franceses pode constituir uma alternativa muito interessante ao Apilife Var e outros acaricidas no mercado.

Como consequência é referido neste relatório que estão a ser feitos esforços para a homologação do Aluen CAP em território europeu.

Dos três acaricidas aqui referidos actualemente apenas o Apilife Var está homologado quer em Portugal quer em França (país onde se realizou este estudo) como acaricida para utilização em colónias de abelhas.

* O Hive Clean é um produto da empresa austríaca Bee Vital, disponibilizado como solução líquida composta por ácido oxálico, ácido fórmico, ácido cítrico (vulgo sumo de limão), óleos essenciais e própolis. Aplica-se por gotejamento.

** Tanto quanto conheço este é o único estudo controlado realizado em território europeu em que a eficácia do Aluen CAP é avaliada. Alguma discepância entre os valores europeus e sul-americanos poderá ser explicada pela virulência mais baixa da estirpe de varroa existente no continente sul-americano (ver mais aqui).

tratamento contra a varroa: ácido oxálico e glicerina

Neste artigo Joshua Ivars apresenta a receita para “cozinhar” dois tipos de tratamentos com ácido oxálico e glicerina:

  • toalhas com ácido oxálico e glicerina (desenvolvido por Randy Oliver);
  • tiras de cartão com ácido oxálico e glicerina (desenvolvido por apicultores sul-americanos).

Acerca destes tratamentos devo fazer algumas notas:

  1. estes dois tipos de tratamentos não estão homologados no nosso país;
  2. o ácido oxálico é um produto muito perigoso e deve ser manipulado com todo o cuidado;
  3. não incentivo a preparação e utilização destes tratamentos, deixando a cada um a responsabilidade de agir como bem entender;
  4. as autoridades portuguesas e espanholas deveriam estimular o  fabricante do Aluen CAP (ver aqui ) a submeter um processo de homologação, para preencher o vazio que existe actualmente na lista de tratamentos homologados nos nossos países.

varroas resistentes ao amitraz ou a excepção à regra

Neste artigo, publicado recentemente em maio de 2017 no prestigiado The New Zealand Beekeeper, o cientista Pablo German descreve o estado-da-arte em torno do funcionamento de vários tratamentos contra a varroa e a probabilidade destes ácaros se tornarem resistentes a cada um deles.

Como tenho tratado com frequência com Apivar as minhas colónias de abelhas, fazendo um ciclo de 3 tratamentos consecutivos ao longo de um ano meio com esta marca, fazendo depois um tratamento com um princípio activo de uma família química diferente, importa-me entender melhor a forma como actua o amitraz e sobretudo qual a probabilidade de surgirem varroas resistentes a este químico, por ex. no âmbito de um programa que como o meu o utiliza três vezes consecutivas antes de fazer a rotação com  um tratamento diferente.

Lendo o que escreve Pablo German acerca do Apivar, confirma a minha convicção construída sobre a minha experiência desde 2009: as probabilidades de surgirem varroas resistentes ao amitraz num programa de tratamentos como o meu são muito baixas. Caso venham a surgir a solução é simples: aumentar marginalmente a dose do acaricida e/ou fazer rotações dos ingredientes activos mais frequentemente.

Traduzo estes dois excertos do artigo que me parecem os mais relevantes para a análise desta questão:

  • O amitraz parece agir ligando-se ao(s) receptor(es) de octopamina, o que leva a uma resposta de stresse agudo com diferentes efeitos em insetos e ácaros. A maioria dos apicultores já percebeu que o amitraz é mais lento na matança de ácaros que a flumetrina, por exemplo. A razão para isso parece ser que, causando essa resposta  stresse, o ácaro não morre imediatamente, mas seu comportamento é completamente alterado, o que leva à sua morte mais tarde. Diz-se que amitraz age por efeitos sub-letais e não por efeitos letais. Os seres humanos, e de fato todos os vertebrados, não possuem receptores de octopamina, razão pela qual o amitraz é relativamente seguro para os seres humanos.

 

  • O percurso lento e baixo da resistência do ácaro varroa ao amitraz – quando comparado à resistência à flumetrina por exemplo – parece indicar que o amitraz atua em mais alvos do que apenas um tipo de receptor de octopamina. De fato, a resistência ao amitraz foi relatada em menos casos do que a relativa aos dois acaricidas anteriores (fluvalinato e flumetrina), e estudos mostraram que o nível de resistência também é menor (a dose de amitraz necessária para matar os ácaros resistentes ao amitraz não é muito maior). De fato, o amitraz ainda é o acaricida mais eficaz usado nos EUA, apesar de resistências terem sido relatadas há duas décadas. Isso parece apontar para o fato de que uma única mutação em um gene não é suficiente para proporcionar resistência.

 

Esq.: Molécula de amitraz

Na Alsácia francesa continua a ser o acaricida mais eficaz e isto ao longo dos sete anos avaliados (ver mais aqui).