limiares de tratamento em função da fase de vida da colónia

Trato e controlo a varroose de acordo com o calendário (ver aqui outros dois programas, alternativos a este que utilizo). Realizo habitualmente dois tratamentos por ano, o primeiro iniciado no final de janeiro/início de fevereiro e o segundo iniciado no final de julho/início de agosto. Na altura do primeiro tratamento as colónias estão, em geral, na fase de aumento da população de abelhas. Na altura do segundo tratamento estão na fase de diminuição da população de abelhas. Como podemos ver no quadro em baixo não devo deixar que a infestação, medida em abelhas adultas, ultrapasse os 3% para estas alturas do ano em que habitualmente faço os tratamentos.

Este ano, pretendo avaliar mais precisamente a eficácia do apivar e eventualmente efectuar algumas afinações ao calendário de tratamentos. Para isso tenciono fazer a avaliação das taxas de infestação pós-tratamentos e avaliar a taxa de infestação no pico da população (ver estes três excelentes vídeos com os procedimentos). O pico da população ocorre, na generalidade das minhas colónias, na última quinzena de maio (sobre a dinâmica populacional ver mais aqui). Caso a testagem feita nesta fase me dê uma taxa de infestação entre os 2%-3% vou fazer por baixar a taxa de infestação, com um acaricida não-sintético em finais de maio (uma possibilidade aqui referida, entre outras), para que o medicamento colocado no verão, em agosto, não seja colocado em colónias com uma taxa de infestação superior a 3%. Sei que vários dos acaricidas homologados, sintéticos e não-sintéticos, tendem a apresentam resultados de eficácia baixa quando a taxa de infestação ultrapassa os 3% (ver estudo aqui).

Fase da colóniaAceitável
Não é necessário um controle próximo
Cuidado
O controle pode ser necessário
Perigo Controlo urgente
Dormente com criação<1%1%–2%>2%
Dormente sem criação<1%1%–3%>3%
Aumento da População<1%1%–3%>3%
Pico da População <2%2%–5%>5%
Diminuição da População<2%2%–3%>3%
Aceitável: as populações atuais de ácaros não são uma ameaça imediata. 
Cuidado: a população de ácaros está a atingir níveis que podem causar danos em breve; um acaricida não-sintético pode ser utilizado; um acaricida sintético pode ser necessário dentro de um mês. Continue a testar e esteja preparado para intervir. 
Perigo: a perda da colónia é provável, a menos que o apicultor controle o Varroa imediatamente e eficazmente.

fonte*: https://edis.ifas.ufl.edu/in1257

Nota: nesta publicação* da Universidade da Florida é referida também uma fórmula para calcular a taxa de infestação a partir do número de varroas caídas numa cartolina pegajosa ou estrado sanitário. Dizem o que habitualmente é dito acerca desta técnica de cálculo: é muito falível e pode induzir o apicultor a tratar tardiamente. Na fórmula (“x = 3.76-y/-0.01 divided by the number of days in a colony, where y represents the total number of Varroa captured on the sticky board and x represents the actual mite population within the colony. (Dr. Keith Delaplane, personal communication“)) despertou-me interesse o factor 3,76, que representa, no entender do prestigiado entomólogo Dr. Keith Delaplane, a relação entre o número de varroas na fase de dispersão (fase forética) e o número de varroas na fase de reprodução, isto é, o número de varroas alojadas nas abelhas adultas num dado momento é 3,76 vezes menor que o número de varroas que se reproduzem nos alvéolos, protegidas pelos opérculos de cera da acção imediata de quase todos os acaricidas, com excepção do ácido fórmico.

a importância do timing no tratamento da varroose: o testemunho de um amigo apicultor

Em baixo deixo o testemunho, em resposta à minha solicitação, que o meu amigo Rui Martins, apicultor com apiários no distrito da Guarda, enviou no passado dia 27 de janeiro, acerca da sua experiência no combate ao varroa. Na conversa que tivemos lembro-me de lhe referir que seria importante este testemunho para sensibilizar outros companheiros, com apiários em territórios com características edafo-climáticas semelhantes às nossas, e não esqueço a sua imediata e generosa disponibilidade para o fazer.

Há uns dias atrás o meu amigo José Eduardo lançou-me o desafio de escrever um texto para o blog “Abelhas à Beira” sobre o calendário da aplicação dos tratamentos contra a varroose.

Eu e o meu irmão entrámos no mundo da apicultura em 2016 quando nos inscrevemos num curso de iniciação à apicultura na Lousamel. Até lá, não tínhamos tido qualquer contacto com esta realidade.

A nossa aventura começou no ano de 2017 quando compramos os primeiros enxames. Atualmente temos mais de 100 colónias. Mas não foi fácil chegar até aqui. Cometemos muitos erros, apesar da boa formação inicial que tivemos e com a leitura de livros e informação veiculada em sítios da internet (já há vários anos que acompanhamos o blog “Abelhas à Beira”). Também contámos com ajuda e partilha de experiências de apicultores que fomos conhecendo nesta caminhada.

Deparámo-nos desde o início da atividade apícola com grandes perdas invernais de colónias. Inexplicavelmente algumas colmeias ficavam vazias e noutras as abelhas morriam de “frio” em pequenos cachos. Informo que os nossos apiários localizam-se a altitudes que variam entre os 600 m e os 900 m, na zona da Beira Interior. Mas o verdadeiro assassino das colónias tem pelo nome Varroa destructor. Sempre fizemos dois tratamentos um no fim do Inverno (início de março) e o outro no início do Outono (início de Outubro) / fim do Verão (Setembro). O resultado foi catastrófico, todos os anos tivemos perdas anuais superiores a 30 %. Durante este período usámos dois medicamentos diferentes e o resultado foi sempre o mesmo.

Na comunidade apícola não há um consenso, nem relativamente ao medicamento, nem em relação ao timing do tratamento contra a varroose. Este ano até à data as perdas invernais são de apenas 2,9 % e a maioria das colónias estão fortes. O que mudou? Já tínhamos conhecimento da importância dos timings na colocação do tratamento ao lermos as publicações do José Eduardo no blog “Abelhas à Beira” e em conversas informais, onde este alertava para a colocação atempada do tratamento (1º tratamento em início de fevereiro/fim de janeiro e o 2ª tratamento no início de agosto) e a sua duração (10 a 12 semanas). Este ano decidimos seguir os conselhos do José Eduardo e de outros apicultores da região que já praticam esta metodologia e como já mencionei anteriormente a taxa de sucesso do tratamento aumentou significativamente. Já agora, o princípio ativo do medicamento que usámos é o amitraz.

O tema da sanidade apícola é muito complexo e depende de várias variáveis: da genética das abelhas (comportamento higiénico), do maneio, da nutrição das abelhas (floração variada), etc. Não podemos, assim, reduzir este assunto apenas ao tratamento fitofarmacêutico. Mas enfatizo a importância de se tratar a varroose com medicamentos homologados nas alturas certas e com a duração adequada.

Nota: relacionado com o testemunho do meu amigo Rui Martins sugiro a leitura desta publicação.

as tiras de ácido oxálico de libertação lenta: uma ferramenta para fazer a rotação entre tratamentos

Tiras de cartão com ácido oxálico,
produzidas pela polaca Lyson.

Em novembro de 2017 escrevi acerca do Aluen CAP: “Tanto quanto sei a eficácia do Aluen CAP não está dependente da temperatura e humidade exterior como é  caso de outros tratamentos formulados com base no timol ou ácido fórmico. Este produto argentino parece-me uma opção muito interessante para os apicultores portugueses, pensando nos constrangimentos climatéricos que podem limitar/impedir a aplicação atempada do fórmico ou timol nas nossas colmeias, nomeadamente no período crítico de infestação pela varroa no final de verão/início do outono (meses de agosto/setembro). O Aluen CAP poderá ser o utensílio adequado no sentido de promover a adequada rotação entre produtos acaricidas eficazes.  Aguardemos que o Aluen CAP seja homologado em breve na Europa e em Portugal.”

Para além da vantagem referida em cima, as tiras com ácido oxálico são um tratamento de longa duração, garantindo taxas de elevada eficácia mesmo em épocas de criação presente nas colónias. Este aspecto é realçado num artigo recente (2020), sobre um ensaio de campo realizado em Veracruz, México, do qual que traduzo alguns excertos em baixo:

Acerca das vantagens das tiras de libertação longa de ácido oxálico (AO): “o método de aplicação de AO por gotejamento restringe sua eficácia, apresentando uma eficácia média de apenas 66% quando a criação está presença. Assim, o poder acaricida do AO é limitado durante as longas temporadas de criação, típicas de climas quentes. Neste cenário, Aluen Cap é uma formulação alternativa de AO, cuja aplicação exibe altos níveis de eficácia mesmo quando há criação. Esta formulação nunca foi testada em abelhas africanizadas em climas tropicais. Nesse contexto, este trabalho avalia a utilização e a eficácia de uma formulação acaricida à base de ácido oxálico (Aluen Cap) contra o Varroa destructor em abelhas africanizadas mexicanas, onde a criação operculada sempre esteve presente ao longo do ano.

Acerca das condições de temperatura e humidade presentes no território: “Este território apresenta um clima tropical húmido ao longo do ano, com temperatura média mínima em torno de 26 ° C e máxima em torno de 38 ° C, e precipitação média em torno de 1500 mm. Este estudo foi realizado de 29 de junho a 30 de agosto de 2016, coincidindo com o período mais quente e húmido do ano. O valor da temperatura média máxima oscilou em torno dos 32 ° C, e a média mínima em redor dos 24 ° C. A precipitação média durante a estação chuvosa oscilou entre 214-293 mm por mês.

Os resultados:  “A eficácia média do Aluen Cap foi de 92,1% […] Não houve diferenças significativas nos valores de força inicial e final entre as colónias tratadas e de controle, tanto para valores de abelhas adultas quanto de criação […] Mortalidade nas rainhas ou criação de abelhas não foi detectada durante ou após o tratamento. […] A maioria dos ácaros morreu nos primeiros 21 dias […].

fonte: Sóstenes Rafael Rodríguez Dehaibes, Facundo René Meroi Arcerito, Elissa Chávez-Hernández, Gonzalo Luna-Olivares, Jorge Marcangeli, Martin Eguaras & Matias Maggi (2020) Control of Varroa destructor development in Africanized Apis mellifera honeybees using Aluen Cap (oxalic acid formulation), International Journal of Acarology, 46:6, 405-408

Nota: infelizmente, as tiras de libertação lenta de ácido oxálico não fazem parte da lista dos tratamentos homologados no nosso país. A sua utilização pode estar sujeita a uma contra-ordenação. Não promovo nem deixo de promover a sua utilização, nunca me coloquei nesse papel, apresento sim informação sobre a sua eficácia, medida de forma controlada.

tratamento com formivar: os dados de um apicultor amigo

Apresento em baixo um documento de trabalho de um apicultor amigo, de grande competência na minha opinião, acerca dos resultados que obteve este ano com a aplicação do formivar, um medicamento com ácido fórmico. Podem ver aqui o protocolo de utilização. Nunca experimentei, mas segundo o que li e agora re-confirmado por estes dados, tenho a convicção que este tratamento pode ter uma boa eficácia em casos de uma infestação elevada, em casos de re-infestação ou em casos de baixa eficácia com o tratamento principal.

Foram estabelecidos dois grupos de colónias de acordo com o veículo utilizado para veicular o Formivar como se vê na tabela em baixo.

Tabela com os testes de contagem de varroas com açúcar em pó

Legenda: gr – peso das abelhas
nº – número de varroas caídas
% – percentagem de infestação, calculada/fórmula nºx10/gr

Algumas notas de detalhe:

  • Apiário composto por 18 colmeias reversíveis e 3 lusitanas que foram as usadas na aplicação com vaporizador;
  • As colmeias tinham sido tratadas com timol em junho/julho e sofreram, provavelmente, uma reinfestação nos inícios de setembro;
  • Nas colmeias reversíveis, dada a sua menor capacidade, foram utilizados 2,5ml por quadro de abelhas, sendo que nunca foram ultrapassados os 15ml;
  • Foram feitas 3 contagens, a inicial para avaliar o nível de infestação, a segunda ao 8º dia coincidindo com a terceira aplicação nos panos/esponja e a última 30 dias depois do início do tratamento;
  • Nas colmeias lusitanas foi introduzido o máximo da capacidade do vaporizador (entre 100 e 120ml) e com as aberturas a meio. No dia 7/10, as aberturas foram totalmente abertas, quando foi feita 2a contagem;
  • A partir do 8º dia notou-se uma melhoria significativa na qualidade da criação com posturas homogéneas e que se consolida no estado geral quando nasce a 1a geração de abelhas pós-tratamento.

Tiro daqui o chapéu a todos os apicultores que em modo de produção biológica têm perdas por varroose relativamente baixas (entre os 5 e 15%). Creio ser o caso deste amigo, que tenho ouvido com ganhos pessoais, com o objectivo de montar uma estratégia mista, convencional e biológica, para gerir eventuais resistências aos princípios activos dos acaricidas que tenho utilizado regularmente.

resistência aos acaricidas: alguns apontamentos e reflexões

Apontamentos

A resistência a pesticidas é um fenómeno que ocorre quando os organismos-alvo sobrevivem a doses ou concentrações de uma substância tóxica que anteriormente provocava níveis elevados de mortalidade. Os principais mecanismos de resistência hoje conhecidos incluem desintoxicação melhorada, insensibilidade do local-alvo e penetração cuticular reduzida.

Daqui decorre que para avaliar resistências seja indispensável conhecer/determinar um “valor-base de referência” da concentração necessária de uma determinada substância activa para que esta provoque elevados níveis de mortalidade em populações-alvo susceptíveis. Mais, é de todo desejável que se defina o que são níveis elevados de mortalidade na população-alvo.

No caso concreto dos pesticidas utilizados pelos apicultores para controlar as populações do varroa é uma tarefa complexa determinar com rigor se se está na presença de um fenómeno de resistência ao acaricida que se utilizou. Episodicamente há apicultores a testemunhar a baixa eficácia dos tratamentos, referindo com alguma frequência a possibilidade de resistências. Para termos uma noção da complexidade que envolve avaliar com o rigor necessário este fenómeno nada como analisar os protocolos utilizados na sua investigação.

Frank D. Rinkevich, um grande especialista na área (ver aqui excelente entrevista que deu), numa publicação recente dá-nos a conhecer um exemplo desse percurso/protocolo. Acerca da resistência ao amitraz e baixa eficácia do Apivar em alguns casos pontuais de operações apícolas profissionais nos EUA o autor sentiu, entre outros aspectos, a necessidade de apresentar uma definição funcional de resistência, e definiu-a assim: populações de varroa que apenas são susceptíveis a concentrações do amitraz 10 vezes superiores ao “valor-base de referência” e cuja eficácia do Apivar® é inferior a 80% podem ser classificadas como funcionalmente resistentes ao amitraz.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6968863/

Reflexões

Neste outro estudo de 2019, acerca da eficácia de tratamentos baseados no ácido fórmico, verificamos que dois dos três tratamentos avaliados apresentam uma eficácia inferior a 80%. Será um caso de varroas resistentes ao ácido fórmico? Aumentar em 10 vezes a dosagem do ácido fórmico está fora de questão porque as abelhas não iam sobreviver. De qualquer forma a resistência dos ácaros ao ácido fórmico, tanto quanto é do meu conhecimento, nunca foi rigorosamente testada com qualquer protocolo. Assume-se que a falta de eficácia dos tratamentos com fórmico não se pode dever à existência de varroas resistentes ao mesmo. Como esta hipótese não foi testada faltam evidências da resistência ao fórmico. A questão que me fica é se esta falta de evidências é uma evidência da falta de resistência? Não sei, não estou convencido, é um aspecto que na minha opinião merece mais estudo e menos partis pris!**

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2019.1656788

Nota: destes dois estudos, e sem querer tornar esta análise numa questão de tipo “clubístico”, noto que mesmo quando o Apivar é menos eficaz elimina os varroas numa percentagem semelhante ou até superior a dois dos tratamentos com fórmico.

** Neste aspecto estou bem acompanhado. Randy Oliver escreveu: “Tem sido frequentemente afirmado que os acaricidas naturais serão “sustentáveis”, isto é, que é improvável que o ácaro lhes desenvolva resistência. Eu não compro isso. Milani (2001) fala pelos biólogos quando afirma: “Não há razão para acreditar que o ácaro varroa não possa desenvolver resistência contra acaricidas de origem natural ou moléculas simples (por exemplo, ácido fórmico). Existem centenas de espécies de insetos e ácaros que se alimentam de plantas que contêm toxinas naturais. ”. fonte: http://scientificbeekeeping.com/the-arsenal-natural-treatments-part-1/

e se… 20% das colmeias tratadas ainda apresentarem abelhas com asas deformadas

Vamos imaginar este cenário: 20% das colmeias de dois apiários tratadas este ano (por exemplo 9 em 59), e supostamente a tempo, com um medicamento que se tem mostrado eficaz nos últimos anos, numa percentagem a rondar os 99% (menos de 1% das colónias morreu por varroose), apresentam a meio do período do tratamento várias abelhas com asas deformadas e uma ou outra jovem abelha a emergir moribunda do alvéolo.

Abelha moribunda a emergir do opérculo com o probóscide (língua) estirado e abelha com asas deformadas.

Vamos imaginar ainda este cenário: um amigo envia uma proposta de acção alternativa/correctiva, que decides experimentar nessas nove colónias.

Uma proposta de acção alternativa/correctiva!

Vamos ser imaginativos e criar mais este cenário: que estas 9 colónias venham a estar como as restantes 50, cheias de pão-de-abelha fresco e com criação saudável e compacta.

Pão-de-abelha fresco, ensilado recentemente, que se torna o motor da expansão de criação de abelhas de inverno muito saudáveis.
Criação compacta e aparentemente saudável.

A terminar não um cenário mas um desejo: num mundo próximo do ideal (o ideal seria o varroa nunca ter saído do território onde é autóctone) constar da lista dos medicamentos homologados um ou dois que entre outras coisas:

  • não sejam dependentes das temperaturas;
  • sejam de libertação lenta;
  • sejam de aplicação única e cubram 3 a 4 ciclos reprodutivos do varroa (40 a 50 dias);
  • sejam eficazes acima dos 90%;
  • não matem as jovens larvas numa altura em que é crítico ter o maior número possível de abelhas jovens a emergir até ao início de novembro;
  • não matem por vezes as rainhas;
  • apresentem substâncias activas suficientemente diferentes do medicamento mais eficaz que utilizamos frequentemente, para fazer a necessária rotação.

Nota: Alguns de nós, guiados pelo Randy Oliver, já transpuseram para a sua realidade estes aspectos que cenarizo. Muito sucesso para todos!

o caminho para a homologação de um medicamento de uso veterinário

Não sendo uma absoluta novidade para mim o quão complexo e dispendioso é o processo de homologação de um medicamento de uso veterinário, encontrei no Bee-L uma descrição informal do processo de homologação requerido nos EUA. Na nossa UE não será muito diferente. No caso da apicultura apenas os tratamentos para a varoose estão homologados. Todas as outras doenças que afectam as colónias de abelhas não têm tratamentos homologados pela UE.

Contextualizando brevemente, esta é uma descrição de um apicultor, que por acaso é químico ou bio-químico e que trabalhou no âmbito da sua actividade profissional em vários laboratórios de produção de medicamentos, tanto quanto eu percebi até agora. As iniciais do seu nome são R.C. Esta descrição está ligada a uma questão que surgiu no Bee-L acerca do processo de homologação dos famosos toalhetes com oxálico e glicerina que têm vindo a ser testados pelo Randy Oliver. Tenho ideia que a EPA será a congénere norte-americana da nossa Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e a FDA a congénere da nossa Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

De vez em quando virei ler esta publicação para me lembrar o caminho que tem de ser percorrido (já nem falando em tudo o que está a montante em I&D) para alguém ver o seu medicamento para a varroose homologado. Não quero também esquecer-me do que alguns entre nós fizeram, e bem, para que esses medicamentos tenham comparticipação da UE e do Estado português no seu custo de aquisição. Por exemplo, nos EUA essa comparticipação não existe.

Os toalhetes de ácido oxálico diluído em glicerina
criados e testado por Randy Oliver.

R.C. : “Eu realmente não sei quais dados a EPA gostaria de ver. No mínimo, eles provavelmente gostariam de ver os dados de resíduos no mel e na cera para o ácido oxálico quando o produto for usado de acordo com o protocolo proposto. Portanto, a primeira coisa necessária é um rótulo com o protocolo de de uso proposto. Não creio que os resíduos de glicerina sejam motivo de preocupação. Afinal, nosso próprio corpo produz glicerina todos os dias como parte do metabolismo normal. De acordo com sua prática de longa data sobre dados, eles (EPA) gostariam que os dados fossem gerados com boas práticas de laboratório (BPL). O BPL não tem quase nada a ver com fazer boa ciência e obter resultados corretos. Em vez disso, as BPL se referem à manutenção de registros e inspeções de qualidade, registros de laboratório e procedimentos operacionais padrão escritos e de forma muito detalhada para cada operação. Coisas como qual foi o número do lote de todos os reagentes usados, qual foi a data em que esses frascos foram abertos e se estavam devidamente rotulados e registros de quem abriu o frasco e prazo de validade. Se você usou um frasco de acetona, se o rótulo era atualizado toda vez que era recarregado, mesmo que você o recarregasse três vezes ao dia. Você tem registros escritos mostrando qual balança que foi usada para cada pesagem e você tem registros escritos que teve sua calibração verificada com algum peso padrão e foi documentado todos os dias em que a balança foi usada? Seus cadernos são devidamente conferidos diariamente? Se você usou uma geleira, você tem documentação em papel que mostra o registro de temperatura nessa geleira para todos os dias em que fez parte do estudo? Você tem arquivos protegidos à prova de fogo onde pode armazenar todos os registros de estudo para sempre? O BPL realmente resulta no corte de uma floresta de árvores de para fornecer todo o papel necessário a esta extensa tarefa de registrar tudo ao mais pequeno pormenor. Todo o objetivo do BPL é fornecer documentação mais do que suficiente para que alguém versado na técnica possa repetir o estudo como feito originalmente e obter os mesmos resultados e também demonstrar que todos os equipamentos usados ​​estava em boas condições de funcionamento no dia em que foram usados ​​e que um inspetor de Qualidade verificou essas coisas e verificou todos os cálculos para ter certeza de que foram feitos corretamente. Em geral, a EPA não tem interesse em qualquer estudo que não seja feito em conformidade com as BPL.

O trabalho de Randy é determinar como usar o material para obter eficácia na eliminação de ácaros. A EPA não tem interesse real em saber se a substância realmente mata os ácaros e não quer estudos de eficácia. Estas são as perguntas que a FDA faz, porque se focam em avaliar se as coisas realmente funcionam. Para os pesticidas que não funcionam ou funcionam, mas causando alguns danos colaterais indesejados, como matar a rainha, estes problemas são resolvido por um utilizador (apicultor) que processa o fornecedor por danos, em tribunais civis. Lembre-se que a EPA deseja dados que digam que o material é seguro para o aplicador usar, os produtos produzidos são seguros para o consumidor usar e o produto químico não causa danos ambientais inaceitáveis. Eu não acho que eles tenham muitas dúvidas com a segurança do utilizador (apicultor) ou o ambiente, seja pelo ácido oxálico ou pela glicerina. Mas há limites para a quantidade de ácido oxálico que uma pessoa pode comer por dia, então algum tipo de dado de resíduo terá de ser indicado para proteger o consumidor. Todos nós sabemos que não é possível usar ácido oxálico em quantidades que venha a causar um problema de saúde ao consumidor por comer mel de colmeias tratadas. Mas saber e ter provas são duas coisas diferentes e os funcionários da EPA vão-se proteger de um erro pedindo algum tipo de dado sobre resíduos. No caso de um tratamento por gotejamento ou por sublimação de oxálico, eles podem contar com dados de registros estrangeiros, como Canadá ou UE. Talvez você possa convencê-los a confiar nos dados da UE neste caso, pois acho que uma mistura de glicerina oxálica está registrada na UE para gotejamento. No pior cenário esta análise pode ter que passar por algum laboratório contratado que tenha BPL (há muitos deles) e gastar $ 30.000 ou $ 60.000 para o trabalho analítico e respectivo relatório. Alguém precisaria fazer o trabalho de campo para obter as amostras e o BPL também é necessário para o trabalho de campo. Os registos dos testes de campo necessários assim como o que o apicultor fez e tudo isto em conformidade com as BPL (Boas Práticas Laboratoriais).

Lembre-se também de que a EPA estava sendo pressionada por Michelle Obama para registrar o gotejamento e a sublimação com oxálico e, como resultado, homologou com menos dados do que jamais os vi homologar qualquer coisa no passado. Se não fosse por sua influência política, provavelmente não teríamos estas utilizações do oxálico homologadas nos Estados Unidos hoje. Ela não é mais a primeira-dama, então não tem mais clube para bater à porta. E, como a Brushy (empresa apícola norte-americana), a empresa que submeteu este processo de homologação, não está mais no mercado, a atual homologação para o gotejamento e a sublimação só é válido até que a agência tenha alguma dúvida que exija uma resposta e como a empresa que o homologou não existe, talvez a homologação seja cancelada. Toda a homologação é totalmente revista pelo menos a cada 15 anos então em algum momento isso vai acontecer com os processos de gotejamento e a sublimação actualmente homologados e alguém deve solicitar essa essa revisão.“R.C.

fonte: Bee-L (fórum apícola norte-americano), 02-09-2020

fortalecendo a luta contra o varroa: como controlar a infestação durante a temporada de fluxo?

Não tenho observado este fenómeno de níveis de infestação elevada (acima dos 3%) durante a temporada de fluxo de néctar, entre finais de abril e finais de julho nos meus apiários (dois a 600 m de altitude e outros dois a 900m de altitude), nos últimos anos, mas não deixo de me preocupar com esta questão.

No sítio do ITSAP (Institut d’Abeille), encontrei referência a um estudo relativamente recente orientado para esta questão. Os resultados não são muito encorajadores nem muito surpreendentes para mim: a baixa eficácia do ácido oxalico sublimado no controlo do varroa em colónias com muita criação operculada nesta época e a boa eficácia do ácido fórmico (MAQS), mas de curta duração, no controlo do ácaro nesta época do ano. Já a alteração do mel pelo aumento do teor de ácido fórmico após o tratamento com MAQS deixou-me surpreendido, sabendo que é o único tratamento que conheço que está homologado para uma utilização durante a temporada de fluxo. Deixo a tradução em baixo.

Aplicação do MAQS para controlar a infestação pelo ácaro varroa.

“Diante da dificuldade enfrentada pelos apicultores em controlar a infestação dos apiários pelo Varroa, a ênfase é colocada na monitorazação regular dos níveis de infestação em momentos chave. Assim, apesar dos tratamentos anti-varroa usados ​​entre duas estações de produção, algumas colónias ainda surgem muito infestadas na primavera.

Quais são, então, os tratamentos corretivos disponíveis? Que intervenção melhora o desempenho das colónias, reduzindo o nível de infestação? Dependendo do tratamento utilizado, quais são os riscos para as colónias de abelhas e para a qualidade do mel? Para responder a essas perguntas, o ITSAP-Institut de l’Abeille e a rede ADA experimentaram o uso de ácido fórmico e o uso de ácido oxálico contra o Varroa durante a temporada de apicultura.

Durante o experimento realizado no ano de 2016 em mais de 300 colónias, o nível médio de infestação foi de mais de 1 varroa / 100 abelhas em abril. O uso do MAQS® (ácido fórmico) possibilitou reduzir a infestação das colónias por um período de aproximadamente dois meses, até o final de junho / início de julho, e permitiu iniciar o fluxo de mel de verão com menos de 3 varroas / 100 abelhas. Em contraste, as colónias tratadas por sublimação repetida de ácido oxálico na presença de criação começaram a melada de verão com uma infestação superior a 3 varroas / 100 abelhas, como as colónias não tratadas.

O efeito do tratamento de primavera com ácido fórmico sobre a infestação diminuiu e não era observável no final do verão. Portanto, não foi possível ignorar as intervenções de fim de verão, apesar da redução da infestação obtida na primavera. A redução da infestação abaixo de 3 varroas / 100 abelhas foi acompanhada por melhor produção de colónias durante a melada de verão. Porém, o tratamento MAQS® na primavera aumentou o teor de ácido fórmico do mel, mesmo aquele produzido no final do verão, consolidando os achados de outros experimentos: tratar (com ácido fórmico) ou produzir, você tem que escolher!”

fonte: http://blog-itsap.fr/renforcer-la-lutte-contre-varroa-comment-reguler-linfestation-en-cours-de-saison/

concluindo o primeiro tratamento contra a varroose em 2020

Tendo iniciado o tratamento de final de inverno/início da primavera com as tiras de Apivar na passagem da 2ª para a 3ª semana de fevereiro, de acordo com o calendário que fui afinando e com resultados muito positivos nos últimos 4 a 5 anos, esta semana estou a proceder à sua retirada, ao fim de cerca de 10 semanas. Terei sido, tanto quanto sei, dos primeiros apicultores em Portugal a referir e estender o tratamento para além das habituais 6 a 8 semanas. Actualmente o fabricante (Veto Pharma) também recomenda 10 semanas para a duração do tratamento em colónias com muita criação. É o meu caso nesta altura do ano, assim como o caso de larga maioria dos apicultores nas zonas temperadas do hemisfério norte.

É um excelente sinal esta coloração amarelo-acastanhado nas tiras, sinal inequívoco que foram tocadas e calcorreadas pelas abelhas inúmeras vezes..

Em casa junto-as, para depois as entregar na minha associação de apicultores, que por sua vez as entregará à Valormed, para que procedam à sua destruição em condições devidamente controladas

Neste período de tempo perdi uma colónia, em cerca de 200 tratadas, para o Varroa (0,5%). Não sendo um utilizador convicto e frequente de nenhuma das várias técnicas de controlo da taxa de infestação, faço o controlo por observação a olho nú das abelhas e criação com muita regularidade, durante o maneio do ninho nestas 10 semanas. Contudo hoje fiz um controlo pouco habitual na minha prática.

Por uma razão específica e pouco habitual, no maneio de hoje tive de cortar este favo com criação de zângão, que tinha sido construído por debaixo do travessão do quadro de meia-alça que habitualmente coloco no ninho.
E aproveitei para re-confirmar a elevada eficácia deste primeiro tratamento da varroose deste ano.
Zângãos limpos de varroa.

No quadro do meu maneio, tendo em conta o timing, duração e eficácia do tratamento, é um disparate estar a fazer o designado “corte de zângão”. Caso o fizesse, estaria a eliminar maioritariamente zângãos limpos com impacto pouco significativo na infestação, mas que consumiram uma quantidade apreciável de recursos da colónia até serem operculados. Neste quadro estou convicto que a colónia ganha mais deixando os “boys” nascer.

varroas mais resistentes ao amitraz no outono que na primavera?

Inside The Hive TV: entrevista ao Dr. Frank Rinkevich investigador de abelhas do USDA em Baton Rouge, em 27 de setembro de 2019.

Como apicultor que utiliza frequentemente o Apivar procuro com alguma frequência dados acerca do mesmo e acerca do amitraz, o princípio activo presente nestas tiras. Entre outros dados os que mais me importam para o meu maneio são o timing/altura para efectuar os tratamentos com apivar, sabendo que o mesmo é um acaricida de libertação lenta, que deve permanecer nas colmeias entre 10 a 12 semanas e que perde grande parte da sua eficácia quando a taxa de infestação ultrapassa os 3%.

Neste vídeo confirmo que os casos estudados de resistência dos ácaros ao amitraz continua a ser pontual, talvez porque o amitraz actua ao nível de vários receptores nervosos e não apenas um e talvez porque o amitraz contamina pouco as cera (é não-lipofílico), ao contrário do que se verifica com outros acaricidas sintéticos.

Contudo o que achei mais surpreendente neste vídeo foi o que o investigador Frank Rinkevich refere a partir do minuto 22 e 35 segundos na resposta à questão: os ácaros são mais ou menos resistentes em diferentes meses do ano?

Os dados recolhidos e apresentados indicam que os ácaros testados nos meses de outubro e novembro de 2018 são menos susceptíveis/sensíveis, isto é são mais resistentes ao amitraz que os ácaros recolhidos no mesmo apiário (Baton Rouge) nos meses de abril e maio do ano seguinte. Dados de grande interesse na minha opinião que merecem ser revisitados através de mais investigação.

Confirmando-se os resultados será interessante, seguidamente, procurar esclarecer as razões para tal acontecer com o amitraz e sobretudo verificar se o mesmo fenómeno se verifica com outros acaricidas. Aos meus olhos o que se vier a concluir será de extrema importância para as decisões de maneio que todos temos de tomar para manter as nossas colónias vivas e, o mais possível, saudáveis.