varroa e muita criação: será a lavagem de abelhas adultas menos fiável?

Há vários anos que, quando quero saber o nível de infestação de uma colónia e tomar decisões sobre o controlo da varroose, a minha técnica preferida é a contagem de Varroa em abelhas adultas. Tenho boas razões para isso. Consigo fazer recolhas relativamente padronizadas, repetir o mesmo procedimento ao longo do ano e comparar os resultados entre colónias e entre datas. Há também referenciais de intervenção melhor estabelecidos para este método e, no meu caso, uma vantagem adicional: os resultados podem ser introduzidos diretamente no simulador de Varroa de Randy Oliver, permitindo enquadrar a infestação observada na dinâmica previsível da população de ácaros.

De vez em quando observo também a presença de Varroa na criação. Já o mostrei algumas vezes neste blogue. Quanto à queda natural de ácaros no fundo da colmeia, não costumo utilizá-la como técnica de monitorização, a não ser por razões didáticas. Isso não significa que não forneça informação útil. Fornece-a naturalmente. A questão que me interessa aqui é mais limitada: porque considero a amostragem de abelhas adultas particularmente adequada para acompanhar a infestação e apoiar as decisões de tratamento?

Lindo quadro de cera nova com criação fechada (foto do autor)

O princípio da técnica que utilizo é simples. Recolho aproximadamente 300 abelhas adultas da zona de criação, depois de localizar a rainha e afastar o quadro onde se encontra. Sacudo abelhas de um ou dois quadros com bastante criação aberta para um recipiente largo, deixo levantar voo parte das abelhas mais velhas e recolho aproximadamente 125 ml das que permanecem. São cerca de 300 abelhas. Faço depois a lavagem em álcool e conto as Varroas libertadas. Já descrevi este procedimento detalhadamente numa publicação anterior deste blogue [3].

Com esta dimensão de amostra as contas são simples. Uma Varroa corresponde aproximadamente a 0,33%; três a 1%; seis a 2%; nove a 3%. Naturalmente não estou a contar todas as Varroas existentes na colónia, nem sequer todas as que naquele momento se encontram sobre as abelhas adultas. Estou a trabalhar com uma amostra. A vantagem está precisamente em conseguir fazer uma recolha relativamente padronizada e repetir posteriormente a avaliação em condições semelhantes.

Varroas caídas no álcool e sua filtragem para contagem (vídeo do autor, Zona Centro, 2026)

Há uma ideia que pretendo discutir nesta publicação. É frequente ouvir que, quando uma colónia tem muita criação, a lavagem de abelhas adultas deixa de representar adequadamente a infestação, porque uma grande parte das Varroas se encontra dentro dos alvéolos operculados. Daqui retira-se muitas vezes uma segunda conclusão: nessas circunstâncias, a avaliação da Varroa diretamente na criação é um método mais fiável e representa melhor a infestação real da colónia. A primeira parte deste raciocínio tem fundamento biológico. O que importa perceber é se a segunda também se confirma quando olhamos para os dados.

Um dos trabalhos clássicos sobre esta questão é o de Lee et al. (2010) [1]. Os investigadores trabalharam em 31 apiários comerciais e fizeram uma amostragem particularmente intensiva em 62 colónias. Procuraram perceber até que ponto a infestação encontrada nas abelhas adultas podia representar aquilo que se passava na população global de Varroa.

O resultado foi bastante claro. A infestação encontrada nas abelhas adultas estava fortemente relacionada com a quantidade de Varroa existente no conjunto das abelhas adultas e pupas. Utilizando apenas a infestação medida nas adultas, o modelo explicava cerca de 83% da variação observada na densidade global de ácaros (R² = 0,83) [1]. Dito de forma simples, quando a lavagem encontrava mais Varroa nas abelhas adultas, isso correspondia, na maior parte dos casos, a uma população global de Varroa também mais elevada na colónia. Não era uma medida perfeita, mas acompanhava bastante bem aquilo que se passava no conjunto da colónia.

O contraste com a avaliação da criação torna-se particularmente interessante num estudo de dinâmica populacional publicado em 2024 [2]. Durante dez meses, os investigadores acompanharam dez colónias, estimando repetidamente a população total de Varroa e medindo, entre outras variáveis, a infestação nas abelhas adultas, a infestação da criação e a quantidade de criação existente.

A infestação nas abelhas adultas apresentou uma correlação de r = 0,73 com a população total estimada de Varroa. Na criação, a correlação foi bastante mais baixa, apenas r = 0,40. [2].

Dito de forma simples: quando encontramos mais Varroa nas abelhas adultas, isso tende a corresponder também a mais Varroa no conjunto da colónia. Na criação, essa correspondência é bastante menos consistente.

E é aqui que surge o ponto que considero particularmente importante. A quantidade de criação, tantas vezes apresentada como uma fragilidade da lavagem de abelhas adultas, influenciava de facto essa medição: quanto mais criação existia, menor tendia a ser a infestação encontrada nas adultas, com uma correlação de r = −0,30. Mas esse efeito era muito mais forte precisamente na avaliação da própria criação: r = −0,65 [2]. Os autores referem a este propósito um «efeito de diluição»: aumentando a quantidade de criação disponível, os ácaros ficam distribuídos por um número maior de alvéolos e a percentagem de criação infestada tende a baixar. E os próprios dados mostram que este efeito de diluição se manifestou de forma bastante mais marcada na criação do que nas abelhas adultas.

Há ainda outra dificuldade na avaliação da criação: a Varroa não está distribuída por igual em todos os alvéolos. Um estudo de 2020 encontrou diferenças de infestação entre diferentes zonas do mesmo favo e também entre favos [3]. Na prática, isto significa que o resultado pode depender bastante da zona de criação que decidimos abrir. A avaliação da criação, apesar de parecer uma observação mais direta, também está sujeita a uma variabilidade de amostragem importante.

Isto significa que passar da lavagem de abelhas adultas para a avaliação da criação não elimina o problema da quantidade de criação nem da variabilidade de amostra.

Um exemplo simples ajuda a perceber porquê. Imagine duas colónias com o mesmo número de Varroas. Se uma tiver muita criação operculada, os ácaros ficam distribuídos por milhares de alvéolos e a percentagem de criação infestada pode parecer baixa. Se a outra tiver pouca criação, os mesmos ácaros ficam concentrados num número muito menor de alvéolos e a percentagem sobe. Portanto, uma percentagem baixa de alvéolos infestados não significa necessariamente uma população baixa de Varroa. Pode significar também que aquela população de ácaros está distribuída por uma quantidade muito maior de criação disponível e de forma irregular.

A isto soma-se outra dificuldade. Se abrirmos criação de zângão, normalmente encontraremos muito mais Varroa do que na criação de obreira da mesma colónia. A percentagem que obtemos depende, portanto, não apenas da população de ácaros existente, mas também da quantidade e do tipo de criação que decidimos observar.

Corte dos opérculos em criação de zângão para posterior observação da infestação (foto do autor)

Há naturalmente variabilidade também nas adultas. A Varroa não está distribuída uniformemente por todas as abelhas de uma colónia. Se recolhermos abelhas das meias-alças, da entrada ou de zonas afastadas da criação obtemos uma amostra diferente daquela que retiramos junto da criação. Por isso, padronizar o local de recolha é quase tão importante como padronizar o número de abelhas recolhidas.

A objeção da muita criação não é, portanto, falsa. Em períodos de extensa criação, uma parte muito grande da população de Varroa está dentro dos alvéolos operculados e não aparece na lavagem. Já mostrei neste blogue uma simulação em que, entre fevereiro e março, a população total de Varroa quase triplicava, passando de aproximadamente 165 para 461 ácaros, enquanto a lavagem continuava a revelar apenas uma Varroa em cerca de 300 abelhas [4].

É precisamente por isso que não faz sentido utilizar o mesmo limiar de intervenção em todas as épocas do ano. Quando há muita criação e sabemos que uma proporção maior dos ácaros está nos alvéolos, podemos trabalhar com um limiar de intervenção mais baixo. A limitação deixa assim de ser uma razão para abandonar a amostragem nas adultas e passa a ser uma razão para interpretar melhor o número que ela nos dá.

O que significa «correlação»?

Uma correlação diz-nos simplesmente até que ponto duas coisas tendem a variar juntas.

Se as colónias onde encontramos mais Varroa nas adultas são também, em geral, as colónias onde existe mais Varroa no conjunto da colónia, a correlação é forte.

Quanto mais o valor de r se aproxima de 1, mais forte é essa relação. Assim, 0,73 representa uma relação bastante mais forte do que 0,40. Quando o valor é negativo, como −0,65, significa que uma variável tende a diminuir quando a outra aumenta: neste caso, quanto maior era a quantidade de criação, menor tendia a ser a percentagem de criação infestada.

Isto não significa que possamos converter exatamente uma medida na outra. Significa apenas que uma acompanha melhor a outra.

É precisamente isso que procuro numa técnica de monitorização. Não preciso de saber exatamente quantas Varroas existem em toda a colónia. Preciso de uma medida suficientemente consistente para perceber se a infestação está baixa, a aumentar ou já entrou numa zona em que devo intervir.

Conclusão (por enquanto)

A presença de muita criação não torna a lavagem de abelhas adultas perfeita. Mas também não constitui, por si só, um argumento para a substituir pela abertura e avaliação da criação. Os dados não sustentam a ideia de que, quando há muita criação, seja mais fiável procurar a Varroa na própria criação. Pelo contrário, quando havia muita criação, a testagem na própria criação dava uma imagem menos fiel da infestação real da colónia; por outro lado, a infestação nas abelhas adultas retratou melhor as variações da população total de Varroa.

O efeito de diluição é particularmente importante para mim porque a minha estratégia não é esperar que a infestação se torne elevada para decidir tratar. Procuro tomar essa decisão quando os valores ainda são baixos, precisamente numa fase em que uma leitura menos fiel pode fazer diferença entre intervir a tempo ou deixar a população de Varroa continuar a crescer. Quando a infestação já é muito elevada, praticamente qualquer método acabará por mostrar que existe um problema. É nas infestações baixas ou intermédias, quando ainda estamos a decidir se devemos intervir e em que momento, que se torna mais importante saber qual é o indicador que melhor retrata a evolução da população de Varroa.

Por isso, o efeito de diluição não é uma limitação que eu ignore quando utilizo a lavagem. É uma limitação que tenho em conta na interpretação do resultado e também na escolha dos limiares de intervenção. Mas os dados que vimos mostram que esse problema não desaparece quando passamos para a avaliação da criação e pode, aliás, ser ainda mais marcado aí. Entre esta razão e as outras já referidas — padronização da amostra, repetibilidade, possibilidade de comparar resultados ao longo do tempo e boa relação com a infestação global — continuo a preferir a monitorização através da lavagem de abelhas adultas.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Lee, K. V., Moon, R. D., Burkness, E. C., Hutchison, W. D. & Spivak, M. (2010). Practical Sampling Plans for Varroa destructor (Acari: Varroidae) in Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae) Colonies and Apiaries. Journal of Economic Entomology, 103(4), 1039–1050. DOI: 10.1603/EC10037.

[2] Medina-Flores, C. A., Saucedo Rojas, A., Guzman-Novoa, E. & Alaniz Gutiérrez, L. (2024). Population Dynamics of the Mite Varroa destructor in Honey Bee (Apis mellifera) Colonies in a Temperate Semi-Arid Climate. Insects, 15(9), 696. DOI: 10.3390/insects15090696.

[3] Floris, I., Pusceddu, M. & Satta, A. (2020). How the Infestation Level of Varroa destructor Affects the Distribution Pattern of Multi-Infested Cells in Worker Brood of Apis mellifera. Veterinary Sciences, 7(3), 136. DOI: 10.3390/vetsci7030136.

Referências — Abelhas à Beira

[3] Testagem de taxa de infestação por varroa em abelhas adultas: os nossos procedimentos (2024). Ler.

[4] Das limitações da monitorização e sua superação (2025). Ler.

quadros iscados: porque deixei de os recomendar

A minha experiência com quadros iscados terá ocorrido por volta de 2012–2013. Foi também por essa altura que comecei a ler sobre as vantagens que lhes eram atribuídas e sobre os problemas que poderiam colocar. Chamava quadros iscados aos quadros onde, em vez de colocar uma lâmina completa de cera estampada, colocava apenas uma pequena tira de cera junto à travessa superior, deixando às abelhas a construção do restante favo. Experimentei-os em pouco mais de uma dezena de colónias. A experiência não se prolongou: aquilo que observei levou-me logo depois a deixar de utilizar esta técnica.

Exemplo de um quadro iscado

Só bastante mais tarde, em 21 de janeiro de 2019, escrevi sobre o assunto neste blogue, em «Quadros iscados: vantagens e desvantagens» [1]. Nessa altura já não os utilizava. A publicação recuperava a experiência feita cerca de seis anos antes e as leituras que tinha iniciado nesse período e continuado entretanto. Havia boas razões para experimentar: utilizar menos cera laminada, introduzir menos resíduos eventualmente presentes nessa cera, permitir às abelhas escolherem a dimensão dos alvéolos e deixá-las construir um favo mais próximo daquele que fariam sem a matriz imposta pelo apicultor.

Abelhas livres para construirem o favo

O que encontrei nas colónias foi outra coisa que também fazia parte dessa liberdade. Quando introduzia quadros iscados em colónias fortes, sobretudo durante a época em que estavam fisiologicamente orientadas para a reprodução, uma parte muito importante do novo favo era construída com alvéolos de zângão. Na publicação de 2019 referi situações em que estes representavam 25 a 50% da nova construção [1]. Foi sobretudo esse resultado que me levou a abandonar a prática logo depois daquela experiência em cerca de dez colónias.

Hoje consigo olhar para essas observações com bastante mais informação. Dez colónias, num determinado território e sob o mesmo maneio, não constituem um ensaio científico. O que me parece mais interessante, mais de uma década depois, é verificar até que ponto aquilo que observei localmente aparece também quando o problema é estudado experimentalmente.

No projecto Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control, as colónias que construíram sem a matriz imposta pela fundação apresentaram 33 ± 3,5% de favo de zângão [2]. O resultado aproxima-se bastante daquilo que eu próprio tinha encontrado nos quadros iscados. Seeley e Morse encontraram nos ninhos naturais cerca de 17 ± 3% da área de favo constituída por alvéolos de zângão [3]. Os trabalhos clássicos de Allen mostram, por outro lado, que a quantidade de criação de zângão é fortemente influenciada pela disponibilidade de favo apropriado [4]. Randy Oliver, apoiando-se no trabalho de Allen, utiliza cerca de 5% da área de criação como valor habitual de referência, referindo que, quando existe abundância de favo de zângão, esta componente pode aproximar-se dos 20% [5]. Os estudos não medem exactamente a mesma variável — nuns casos área de favo, noutros área de criação —, mas em todos aparece a mesma tendência: quando se dá liberdade de construção às abelhas aumenta a componente destinada aos zângãos.

Produzir zângãos faz parte da estratégia reprodutiva de uma colónia. Allen e posteriormente Free e Free & Williams mostraram ainda que essa produção é regulada pela quantidade de favo de zângão que já existe no ninho [4,6,7]. Quando a colónia dispõe de favo deste tipo, diminui a construção adicional de alvéolos de zângão noutros locais. A época, a força da colónia e a disponibilidade prévia de favo adequado entram nesta regulação. Aquilo que eu via nos quadros iscados durante a época reprodutiva era, afinal, uma manifestação bastante previsível dessa biologia.

Há um custo produtivo associado. Produzir e manter milhares de zângãos exige recursos. Seeley comparou durante três anos colónias às quais disponibilizou aproximadamente 20% de favo de zângão com colónias onde essa disponibilidade era muito menor. As primeiras aumentaram em média 25,2 kg de peso durante a estação, enquanto as segundas aumentaram 48,8 kg [8]. Não transformaria estes números numa regra de conversão entre quantidade de zângãos e quilogramas de mel, mas a diferença encontrada por Seeley é demasiado grande para ignorar o investimento que a produção de machos representa para a colónia.

Há depois a Varroa. A criação de zângão constitui o substrato reprodutivo preferencial de Varroa destructor. O período de desenvolvimento mais longo permite ao ácaro produzir mais descendentes viáveis e esta criação é desproporcionalmente infestada quando está disponível. Se os quadros iscados aumentam a quantidade de favo e de criação de zângão, aumentam também a disponibilidade do substrato onde a Varroa consegue reproduzir-se mais eficazmente.

Randy Oliver permite visualizar a dimensão deste efeito no seu simulador de dinâmica populacional da Varroa. Utilizando cerca de 5% de criação de zângão como situação de referência, quando aumenta esse valor para 10% a população de ácaros cresce apreciavelmente mais depressa [5]. Os 10% são um cenário introduzido na simulação, e não uma média medida nas colónias. A diferença entre as duas curvas ao longo da estação ajuda a perceber por que razão passei a olhar de outra forma para a quantidade de criação de zângão que encontrava nos quadros iscados.

Mas havia vantagens que me tinham levado a experimentar esta técnica e vale a pena regressar a elas. Uma das que mais me interessava era reduzir a quantidade de cera laminada introduzida na colmeia. A preocupação com a qualidade dessa cera não era infundada. Em 2016 comecei a escrever neste blogue sobre resíduos de acaricidas em «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas» [9] e «Mudança do princípio activo do acaricida» [10], regressando posteriormente várias vezes ao assunto. A cera funciona como reservatório de diversos compostos lipossolúveis utilizados dentro e fora da colmeia e a sua reciclagem permite que alguns regressem às colónias através das novas lâminas. Se em vez de uma lâmina completa utilizarmos apenas uma pequena tira, introduzimos obviamente muito menos dessa cera.

A questão mais difícil é saber o que isso representa para a colónia. Um trabalho de Payne e colaboradores, publicado em 2019 e que apresentei neste blogue em julho de 2023 [11], permite colocar o problema num terreno experimental particularmente útil. Os autores constituíram colónias sobre cera laminada sem pesticidas ou sobre cera contaminada, em concentrações consideradas representativas das encontradas no campo, com amitraz, com uma mistura de tau-fluvalinato e cumafos, ou com clorotalonil e clorpirifos. Acompanharam a construção dos favos, a quantidade de criação, as reservas alimentares, a população adulta e a sobrevivência durante o inverno. Não encontraram diferenças significativas no crescimento das colónias nem na sobrevivência invernal entre os diferentes tratamentos com cera contaminada e o controlo [12]. Encontraram, pelo contrário, uma associação particularmente importante com a Varroa: as colónias que entraram no outono com uma infestação superior a 3% apresentaram menor probabilidade de sobreviver ao inverno [12].

O estudo de Payne não resolve a questão das exposições crónicas, das concentrações mais elevadas ou das misturas complexas que podem resultar de sucessivos ciclos de reciclagem da cera. Mas, nas condições testadas, a vantagem aparentemente óbvia de começar com cera menos contaminada não se traduziu numa diferença mensurável no desenvolvimento ou na sobrevivência das colónias.

Também a possibilidade de as abelhas escolherem livremente a dimensão dos alvéolos fazia parte das vantagens que encontrava nas minhas leituras daqueles primeiros anos. Esta questão acabou por se cruzar com a hipótese de que alvéolos mais pequenos poderiam dificultar a reprodução da Varroa. O favo natural apresenta diversidade de dimensões e zonas de transição que uma lâmina industrial não reproduz, mas os ensaios controlados com alvéolos pequenos não demonstraram um controlo suficientemente consistente de Varroa destructor para que esta possa ser considerada uma técnica sanitária [13].

Há ainda a questão da cera que as próprias abelhas têm de produzir. As estimativas clássicas apontam para vários quilogramas de mel equivalente por cada quilograma de cera produzido, embora esta relação seja muito mais variável do que a conhecida fórmula dos seis ou oito quilogramas por quilograma de cera faz supor. A idade das abelhas, a temperatura, a força da colónia, a entrada de néctar e a necessidade de espaço interferem nesse custo. E uma lâmina estampada também não entrega às abelhas um favo acabado: é necessário levantar as paredes dos alvéolos e acrescentar cera. Ainda assim, num quadro iscado praticamente toda a estrutura terá de ser produzida pela colónia.

O balanço que hoje faço é diferente daquele que me levou a experimentar a técnica em 2012–2013. A construção natural reduz a quantidade de cera reciclada que introduzimos na colmeia, mas as vantagens sanitárias que frequentemente lhe são atribuídas não têm a demonstração científica que por vezes se supõe. A escolha natural da dimensão dos alvéolos também não demonstrou controlar eficazmente a Varroa. Construir praticamente todo o favo tem um custo. E aquilo que mais me chamou a atenção na minha pequena experiência — a quantidade de favo de zângão que as colónias construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem — encontra hoje confirmação em trabalhos realizados muito longe dos meus apiários.

Hoje já não tenho colmeias, mas continuo a acompanhar regularmente apiários através dos meus serviços de apoio técnico. Nesses apiários não recomendo a utilização de quadros iscados no ninho. Prefiro utilizar cera laminada para orientar a construção de favo de obreira e dar à colónia um espaço deliberadamente escolhido onde possa satisfazer a sua necessidade sazonal de construir favo de zângão.

Para isso recomendo a colocação de um quadro de meia-alça na posição 9 do ninho. Abaixo desse quadro fica um espaço livre que, durante a época em que a colónia apresenta forte impulso para produzir machos, tende a ser ocupado com construção natural de favo de zângão. Em vez de deixar essa construção aparecer de forma dispersa em vários quadros iscados, concentra-se num local conhecido, facilmente observado e facilmente removível.

Quadro de meia alça para criação dirigida de zângão no ninho (foto minha)

É aqui que os trabalhos de Allen, Free, Free & Williams e Seeley voltam a ser particularmente úteis [4,6,7,8]. A quantidade de favo de zângão já disponível influencia a quantidade adicional que a colónia procura construir. Dar-lhe um espaço próprio para essa construção pode ajudar a concentrá-la nesse local. E há uma diferença relativamente a colocar simplesmente um quadro completo de fundação de zângão: com a meia-alça são as abelhas que decidem quando ocupar o espaço inferior. A construção aparece quando o impulso para produzir machos é forte e tende a desaparecer quando esse impulso diminui. O próprio quadro fornece assim informação sobre o estado sazonal da colónia.

Depois de a criação de zângão estar operculada e antes da emergência, o favo construído abaixo da meia-alça pode ser cortado. Retiram-se os zângãos em desenvolvimento e, com eles, as varroas que entraram nesses alvéolos para se reproduzir. O corte de criação de zângão é uma técnica complementar de controlo da varroose e não substitui a monitorização da infestação nem os tratamentos quando estes são necessários.

Há alguma ironia neste percurso. Uma das razões pelas quais abandonei os quadros iscados foi a quantidade de favo de zângão que as abelhas construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem. Hoje continuo a dar-lhes essa liberdade, mas apenas num espaço escolhido para esse efeito. O que antes aparecia espalhado pelo ninho e aumentava a criação disponível para a Varroa fica concentrado num local onde pode ser retirado antes da emergência.

Quando comecei a ler sobre quadros iscados, em 2012–2013, as vantagens atribuídas ao favo natural pareceram-me suficientemente plausíveis para as testar. Fi-lo em cerca de dez colónias e os resultados foram suficientes para me levar a abandonar rapidamente a prática. Continuei, contudo, a ler sobre o assunto. Mais de uma década depois, algumas das vantagens então anunciadas continuam sem a demonstração experimental que seria desejável, enquanto aquilo que me levou a abandonar a técnica — a forte tendência para aumentar a construção de favo de zângão quando se dá liberdade às abelhas para o fazerem — revelou-se bastante mais universal do que a minha pequena experiência poderia demonstrar.

Foi precisamente a observação daquilo que as abelhas faziam com a liberdade dada pelos quadros iscados que me levou a deixar de os utilizar e, agora, anos mais tarde, a recomendar aos clientes dos meus serviços técnicos que também não os utilizem.

Referências — Abelhas à Beira

[1] Gomes, E. (2019). «Quadros iscados: vantagens e desvantagens». Abelhas à Beira, 21 de janeiro de 2019. — Ler

[9] Gomes, E. (2016). «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas». Abelhas à Beira, 28 de março de 2016. — Ler

[10] Gomes, E. (2016). «Mudança do princípio activo do acaricida». Abelhas à Beira, 31 de julho de 2016. — Ler

[11] Gomes, E. (2023). «A exposição a agroquímicos na cera laminada causa efeitos insignificantes no crescimento e na sobrevivência no inverno de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera)». Abelhas à Beira, 8 de julho de 2023. — Ler

Referências — literatura científica e técnica

[2] Wilson, M. E. et al. Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control. Sustainable Agriculture Research and Education, Project FS07-221.

[3] Seeley, T. D. & Morse, R. A. (1976). The nest of the honey bee (Apis mellifera L.). Insectes Sociaux, 23, 495–512.

[4] Allen, M. D. (1965). The effect of a plentiful supply of drone comb on colonies of honeybees. Journal of Apicultural Research, 4(2), 109–119.

[5] Oliver, R. (2017). The Varroa Problem: Part 13 — Using the Mite Model. Scientific Beekeeping.

[6] Free, J. B. (1967). The production of drone comb by honeybee colonies. Journal of Apicultural Research, 6(1), 29–36.

[7] Free, J. B. & Williams, I. H. (1975). Factors determining the rearing and rejection of drones by the honeybee colony. Animal Behaviour, 23, 650–675.

[8] Seeley, T. D. (2002). The effect of drone comb on a honey bee colony’s production of honey. Apidologie, 33, 75–86.

[12] Payne, A. N., Walsh, E. M. & Rangel, J. (2019). Initial exposure of wax foundation to agrochemicals causes negligible effects on the growth and winter survival of incipient honey bee (Apis mellifera) colonies. Insects, 10(1), 19.

[13] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a Varroa mite (Varroa destructor) control. Experimental and Applied Acarology, 47, 311–316.

varroa e alvéolos de 4,9 mm: quando uma ideia biologicamente plausível não chega

Há ideias em apicultura que têm tudo para nos convencer à primeira vista. A utilização de alvéolos mais pequenos para dificultar a reprodução da varroa é uma delas. O raciocínio é simples e até bastante elegante: a fundação utilizada correntemente levou as abelhas a criar em alvéolos maiores do que aqueles que muitas vezes constroem quando lhes damos liberdade para o fazer; a varroa reproduz-se dentro do alvéolo operculado; se reduzirmos o espaço disponível e, eventualmente, também algum tempo de desenvolvimento da abelha, talvez consigamos dificultar a reprodução do ácaro. Não há nada de disparatado nesta hipótese. O problema começa quando passamos de uma hipótese biologicamente plausível para a afirmação de que os 4,9 mm são uma forma eficaz de controlar a varroa.

Muito cedo na minha apicultura li sobre as experiências de Dee Lusby e Michael Bush com o alvéolo pequeno — e também sobre a posição Housel — como possíveis peças determinantes no controlo da varroa. A posição Housel — uma proposta sobre a orientação e organização do favo no ninho — surgia, no mesmo universo de ideias, como outra peça de um maneio mais “natural”.

Cheguei, aliás, a tocar no assunto neste blogue em 2016, ao resumir uma conferência de António Gómez Pajuelo e ao contrapor os argumentos a favor e contra do alvéolo de 4,9 mm. Mais tarde, uma revisão sobre a ecologia comportamental da varroa levou-me a regressar brevemente à mesma conclusão. Mas não fiz dele então uma reflexão autónoma: as evidências não eram consensuais. Havia relatos de campo convictos, mecanismos biologicamente plausíveis e experiências interessantes; havia também ensaios controlados que não encontravam um efeito fiável. Não queria acrescentar ruído a uma questão sanitária já cheia de promessas fáceis.

Volto agora ao tema porque a tese do alvéolo pequeno ganhou nova tração nas redes sociais. Surge muitas vezes apresentada como uma solução simples: trocar favo convencional por 4,9 mm, deixar as abelhas “regredir” e a varroa deixará de ser o problema que conhecemos. É precisamente essa simplicidade que merece ser examinada.

Vejamos um pouco a história desta tese. A sua divulgação deve bastante ao trabalho e à experiência de campo de Dee Lusby, no Arizona. Perante os problemas provocados pelos ácaros, Dee e Ed Lusby foram reduzindo a dimensão dos alvéolos das suas colónias e acabaram por adoptar os 4,9 mm, dimensão que consideravam mais próxima daquela que as abelhas construíam antes da generalização da fundação de alvéolos maiores. Lusby atribuiu a esta «regressão» um papel importante na capacidade das suas colónias sobreviverem à varroa sem tratamentos acaricidas. Mais tarde, Michael Bush, depois de conhecer os trabalhos de Lusby, experimentou também fundação de 4,9 mm e favo natural. Acabou por dar preferência a este último e relata igualmente ter conseguido manter colónias sem tratamentos, defendendo que no centro do ninho as abelhas constroem naturalmente muitos alvéolos abaixo dos 5 mm [6,7]. São experiências de campo suficientemente interessantes para terem colocado uma boa pergunta à investigação. Mas continuam a ser precisamente isso: experiências e observações de apicultores, nas quais a dimensão do alvéolo aparece juntamente com outras alterações de maneio. Saber se os 4,9 mm, isoladamente, explicavam o controlo da varroa exigia outro tipo de teste.

O blog de Michael Bush merece ser lido, mas não transformado numa bíblia. A apicultura é local e suficientemente idiossincrática para desconfiarmos de receitas universais: aquilo que resulta com ele e com as suas colónias não tem necessariamente de resultar connosco e com as nossas colónias.

Os defensores desta prática apresentam normalmente dois argumentos principais. Num alvéolo menor, a pupa ocuparia proporcionalmente mais espaço, deixando menos espaço livre à varroa fundadora e, sobretudo, à sua descendência. Por outro lado, as abelhas criadas nesses alvéolos seriam ligeiramente menores e poderiam completar o desenvolvimento um pouco mais cedo, roubando à varroa algumas horas preciosas para que as últimas filhas atinjam a maturidade antes da emergência da abelha.

Há alguma biologia que permite compreender de onde nasceu esta ideia. Martin e Kryger encontraram, em abelhas sul-africanas, maior mortalidade de varroas quando obreiras relativamente grandes de Apis mellifera capensis eram criadas nas pequenas células de A. m. scutellata [1]. É um resultado interessante, mas convém reparar num pormenor importante: estava ali criado um desajuste bastante particular entre o tamanho da abelha e o espaço onde ela se desenvolvia. Não significa necessariamente que passar, nas nossas abelhas europeias, de cerca de 5,3 ou 5,4 mm para 4,9 mm produza o mesmo efeito.

E é precisamente aqui que os ensaios de campo começam a arrefecer o entusiasmo.

Ellis e colaboradores compararam colónias utilizando fundação de alvéolo pequeno e não encontraram uma redução significativa da varroa, quer quando esta era medida ao nível da colónia, quer nas abelhas adultas ou na criação [2]. Berry, Owens e Delaplane fizeram três experiências de campo comparando aproximadamente 4,9 mm com 5,3 mm. Também não verificaram que os alvéolos pequenos impedissem o crescimento da população de varroa. Em algumas das medições finais aconteceu mesmo o contrário do que seria esperado [3].

Talvez ainda mais esclarecedor seja o ensaio de Seeley e Griffin com abelhas de origem europeia. Colocaram lado a lado colónias comparáveis, umas exclusivamente em favos de 4,8 mm e outras em favos de 5,4 mm, partiram de infestações semelhantes e acompanharam a evolução da varroa durante o verão. No final, a dimensão dos alvéolos não produziu diferenças na carga de varroa [4]. Referir que Seeley é um investigador de grande prestígio e um defensor das teses da apicultura “natural” ou “darwinista”.

Isto não significa que o tamanho do alvéolo seja biologicamente indiferente à varroa. Essa seria também uma conclusão excessiva. Significa apenas que, quando saímos da explicação teórica e perguntamos se a redução do alvéolo é suficiente para controlar a população do ácaro numa colónia, os resultados experimentais conhecidos não acompanham a promessa [2–4].

Há ainda outro aspecto desta discussão que sempre me pareceu particularmente interessante: os nossos velhos cortiços.

Durante muito tempo as abelhas viveram neles sem lâminas de cera estampada a determinar a dimensão dos alvéolos. Construíam os favos que queriam construir. Se o simples regresso ao favo natural constituísse uma protecção suficientemente forte contra a varroa, seria razoável esperar encontrar aí uma vantagem muito evidente. Ora os cortiços não ficaram, por esse facto, protegidos das consequências da chegada de Varroa destructor. Este argumento, por si só, não demonstra que a dimensão do alvéolo não tenha qualquer efeito. Há demasiadas outras variáveis envolvidas — genética, enxameação, interrupções de criação, vírus, tratamentos ou ausência deles — para fazer uma comparação tão simples. Mas é uma observação difícil de conciliar com a versão mais forte da ideia de que basta devolver às abelhas o seu alvéolo «natural» para resolver uma parte substancial do problema.

Também convém não confundir favo natural com 4,9 mm. Quando constroem livremente, as abelhas não levam consigo uma régua de 4,9 mm. A dimensão dos alvéolos varia dentro do próprio favo, entre colónias e entre populações de abelhas. Transformar um número concreto numa espécie de dimensão natural universal é simplificar uma realidade bastante mais variável.

Há, contudo, uma parte desta história que merece ser preservada. Muitos dos apicultores que trabalham com favo natural ou alvéolo pequeno e relatam sobrevivência sem tratamentos não mudaram apenas a dimensão dos alvéolos. Seleccionam colónias sobreviventes, permitem ou provocam interrupções de criação, renovam favos, aceitam frequentemente maior enxameação e acompanham as colónias de maneira diferente. Quando todas estas coisas aparecem juntas e algumas colónias sobrevivem, atribuir o resultado apenas aos 4,9 mm é dar como demonstrado precisamente aquilo que seria necessário demonstrar.

Por isso não colocaria o alvéolo pequeno no saco das ideias absurdas. Há uma hipótese biológica interessante por detrás dele e há aspectos da relação entre dimensão da abelha, dimensão do alvéolo e reprodução da varroa que continuam a merecer investigação. O estudo de Oddie e colaboradores, comparando colónias susceptíveis e populações naturalmente sobreviventes, é mais um exemplo de que esta relação pode ser bastante mais complexa do que simplesmente «alvéolo pequeno = menos varroa» [5].

Mas uma coisa é procurar compreender essa relação; outra é aconselhar um apicultor a confiar nela para manter a varroa abaixo de níveis perigosos.

Quem quiser experimentar 4,9 mm ou deixar as abelhas construir naturalmente o favo tem aqui, aliás, uma experiência interessante para fazer no seu próprio apiário. Medir realmente os alvéolos construídos, acompanhar regularmente a infestação, comparar colónias e repetir as observações durante mais de um ano ensina provavelmente muito mais do que escolher antecipadamente um dos lados desta discussão.

Até porque a pergunta que verdadeiramente interessa não é se um alvéolo de 4,9 mm incomoda um pouco mais uma varroa. É saber se esse incómodo é suficiente para mudar o destino de uma colónia infestada.

Até agora, os melhores ensaios de campo dizem-nos que não [2–4].

Referências

[1] Martin, S. J. & Kryger, P. (2002). Reproduction of Varroa destructor in South African honey bees. Apidologie, 33, 51–61. DOI: 10.1051/apido:2001007.

[2] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a varroa mite control. Experimental and Applied Acarology, 47, 311–316.

[3] Berry, J. A., Owens, W. B. & Delaplane, K. S. (2010). Small-cell comb foundation does not impede Varroa mite population growth. Apidologie, 41, 40–44. DOI: 10.1051/apido/2009049.

[4] Seeley, T. D. & Griffin, S. R. (2011). Small-cell comb does not control Varroa mites in colonies of honeybees of European origin. Apidologie, 42, 526–532. DOI: 10.1007/s13592-011-0054-4.

[5] Oddie, M. A. Y. et al. (2019). Cell size and Varroa destructor mite infestations in susceptible and naturally-surviving honeybee colonies. Apidologie, 50. DOI: 10.1007/s13592-018-0610-2.

das limitações da monitorização e sua superação

Ian Steppler, apicultor canadiano e meu amigo virtual, publicou recentemente um vídeo focado na “informação incompleta” que os testes de infestação realizados em abelhas adultas podem dar relativamente à população global de varroas em cada colónia e sua evolução. E de facto dão! Tive a oportunidade para alertar para esse aspecto quer os clientes dos meus serviços de acompanhamento técnico, quer os formandos dos workshops realizados por mim, em conjunto com o Nuno Capela e o Marcelo Murta, o ano passado.

(Um pequeno parêntesis para referir que duas outras técnicas de monitorização, a avaliação através da criação e a queda natural de varroa também apresentam limitações, tema para uma publicação posterior).

O vídeo do Ian Steppler, colocado no seu canal de YTube, a Canadian Beekeeper.

A principal limitação da monitorização por lavagem de abelhas adultas resulta do facto de, nos períodos de extensa criação nos ninhos, 75%-90% das varroas estarem na fase de reprodução e apenas 10%-25% estarem na fase de dispersão (antes designada fase forética). Este fenómeno conduz a eventuais e prováveis subestimações da população total de varroas, quando a interpretação dos resultados das lavagens é feita desconsiderando o estatuto da colónia, em particular se está numa fase de intensa criação de novas abelhas.

Atentemos na simulação que apresento em baixo parametrizada para colónias na zona de Coimbra, realizada no simulador de Randy Oliver.

Simulação ilustrativa das limitações da testagem e da sua superação se utilizarmos os dados das testagens em conjunto com este simulador. Explicação em baixo.

Como vemos nesta simulação, iniciando o ano com 50 varroas, surge uma varroa caída na lavagem na segunda quinzena de fevereiro. Nesse momento, de acordo com a simulação, a população de varroas é de 165 indivíduos, dos quais 75% estão na fase de reprodução (no interior dos alvéolos e tapadas por opérculos) e apenas 25% na fase de dispersão (no corpo das abelhas). Um mês adiante, na segunda quinzena de março, a queda de varroas na testagem continua a ser de uma, mas… a população de varroas é agora de 461 indivíduos, dos quais 73% estão na fase de reprodução, inatingíveis pela lavagem de abelhas adultas (e também pela quase totalidade dos acaricidas que utilizamos). Este é um exemplo claro de como a monitorização das taxas de infestação por lavagens de abelhas adultas tende a subestimar o crescimento da população de varroas em períodos de intensa criação de novas abelhas. A população total multiplicou-se por 2,80, mas… no copo continua a surgir apenas uma varroa.

Pelo contrário, em períodos de forte diminuição de criação de novas abelhas esta técnica de testagem tende a sobrestimar a população de varroas. Utilizando a mesma simulação reparem que na testagem na primeira quinzena de setembro irão cair 4 varroas, quando a população total é de apenas 355 indivíduos. Voltando atrás, relembro que na segunda quinzena de março a queda de varroas na testagem é de uma, mas… a população de varroas é de 461 indivíduos. A explicação para estes dados, aparentemente absurdos, tem que levar em linha de conta o seguinte: enquanto em março 73% das varroas estavam no interior dos alvéolos, protegidas pelos opérculos, inalcançáveis pela técnica usada, em setembro apenas 53% estão nessa condição (ver linha % mites in brood, no simulador). Assim, enquanto em março o potencial de captura de varroas pela técnica incide sobre 25% da população total de varroas, em setembro incide sobre 47% da população total de varroas.

Para levar para casa: em períodos de intensa criação de abelhas novas, a minha sugestão, para evitar os dissabores que o Ian Steppler refere no seu vídeo, passa por complementar a testagem de abelhas adultas no campo com a utilização do simulador do Randy Oliver; sempre que a contagem de varroas nos testes de lavagem atinja os 2% ou sempre que os resultados da testagem introduzidos no simulador indiquem uma população total a rondar as 1000 varroas (mais ou menos 200), o que se atingir primeiro, iniciem os tratamentos. Neste período podem também, caso não utilizem o simulador, multiplicar por 3 ou 4 o número de varroas caídas na lavagem para terem uma ideia aproximada da taxa de infestação que irão ter passados cerca de 25 dias. No caso de avaliarem preferencialmente a infestação na criação de zângãos iniciem os tratamentos se a taxa estiver entre os 5%-10%. Se utilizarem a queda natural de varroas como técnica de monitorização multipliquem a média diária obtida por 30 para calcular a população total de varroas; uma queda média de 30-35 varroas/dia em períodos de criação intensa de novas abelhas deve fazer acender as luzes vermelhas.

Nota final: Já em 2017, Randy Oliver, nos alertava para esta limitação da avaliação da taxa de infestação por lavagem de abelhas adultas em períodos de intensa criação de abelhas novas:

Conhecer as limitações das técnicas, porque não conheço técnicas de medição perfeitas, ajuda-me a interpretar melhor os dados obtidos, a complementar os mesmos com outras técnicas e recursos… para não deitar o bébé fora juntamente com a água do banho.

Eduardo Gomes: serviços de formação presencial e on-line, consultoria presencial e on-line e apoio técnico em apiário (contactos: 935 251 670; jejgomes@gmail.com)

testagem de taxa de infestação por varroa em abelhas adultas: os nossos procedimentos

Esta publicação serve para identificar e descrever os equipamentos e procedimentos que utilizamos nos apiários para avaliar a taxa de infestação por varroa em abelhas adultas.

De casa são levados um copo de testes, um frasco com cerca de 300 ml de álcool puro ou diluído até 25%, um coador com malha inferior a 1,5mm e uma colher com um volume de 125ml — os equipamentos estão ilustrados nas fotos em baixo.

Copo de testes.
Componentes do copo de testes.
Interior do copo com um receptáculo sobre o qual irão ser despejadas as abelhas da amostra.
Frasco para transportar o álcool, coador e colher para recolher abelhas.

No apiário procuramos recolher amostras de pelo menos 30% das colónias ali assentes. Estas colónias devem ser as mais fortes do apiário. As etapas são as seguintes:

  1. Despejamos os cerca de 300 ml de álcool no copo de testes.
  2. Numa das colónias fortes que pretendemos testar localizamos o quadro onde anda a rainha e colocamo-lo de lado para termos a certeza de que não vamos sacudir a rainha para o copo com álcool.
  3. Sacudimos as abelhas de um ou dois quadros com muita criação aberta para o interior de um telhado. Este procedimento permite que as abelhas mais velhas, que não devem fazer parte da amostra, levantem voo e permaneçam sobretudo as abelhas mais novas, as que devem fazer parte da amostra.
  4. Enchemos a colher, com capacidade de 125 ml. Sabemos que esta colher cheia contém cerca de 300 abelhas.
  5. Despejamos esta colher de abelhas no copo de testes e fechamo-lo. Agitamos o copo com movimentos circulares durante cerca de 1 minuto para que as varroas se soltem das abelhas e caiam no fundo do copo.
  6. Contamos as varroas caídas no fundo do copo e fazemos o registo das varroas caídas nesta colónia.
  7. Coamos o álcool com o coador de malha fina para o limpar de resíduos e varroas e utilizar na testagem seguinte.
Quadro com muita criação aberta de onde foram sacudidas abelhas para amostragem. A rainha não andava neste quadro, andava noutro quadro que obviamente não foi sacudido.
As abelhas foram sacudidas para o telhado. As abelhas mais velhas levantaram voo e são recolhidas as que permanecem até encher a colher — são cerca de 300 abelhas. Imediatamente de seguida são depejadas no interior do copo. As que não foram recolhidas na amostra são devolvidas à colmeia.
Lavagem das abelhas com movimentos circulares durante cerca de 1 minuto.
Verificação e contagem das varroas caídas no fundo do copo. Neste caso para além de uma abelha que acidentalmente caiu no fundo do copo, não encontramos varroas caídas.

Esta testagem é feita com uma regularidade mensal ou bimensal e/ou antes do início de um tratamento e 12 dias após o tratamento concluído. As colónias são tratadas logo que ultrapassem 1%-1,5% de taxa de infestação. O monstro deve ser combatido quando é pequeno, é o nosso lema. Esperar que ele fique gigante diminui a capacidade de o combater no nosso terreno, aumenta o número de tratamentos necessários e diminui a eficácia das nossas armas.

Ainda que outros procedimentos possam ser utilizados, estes são os que levamos a cabo para atingir o objectivo: avaliar a taxa de infestação em abelhas adultas o que nos permite fazer os tratamentos de forma eficiente, oportuna e até proactiva se necessário for. A meta ou objectivo geral é passar 24 meses sem perder uma única colónia para a varroose. Destes 24 meses já passaram 8 meses e o caminho está a fazer-se como previsto. Que outros se entusiasmem e passem a adoptar estas boas práticas.

substituição de rainhas com introdução de alvéolos reais: uma técnica falhada

No livro de sumários da Apimondia 2023, que aconteceu recentemente no Chile, podemos encontrar na pg. 133 o sumário do artigo Requeening queenright honey bee colonies with queen cells in honey supers, e que traduzo em baixo:

Introdução de um alvéolo real numa colónia (foto do magnífico blog The Apiarist)

“Sumário: Os apicultores canadianos substituem anualmente um subconjunto de suas abelhas rainhas, no entanto, o processo de introdução de uma nova
rainha numa colónia de abelhas não tem garantia de sucesso. Apesar do consenso de que é mais eficaz introduzir rainhas em colónias sem rainha, alguns apicultores profissionais introduzem alvéolos reais na alça meleira
em colónias com rainha.

Testámos a taxa de sucesso desta prática introduzindo alvéolos reais em 100
colónias com rainha no sul de Alberta durante um fluxo de mel. A maternidade dos zângãos descendentes resultantes foi determinada usando DNA mitocondrial para identificar as rainhas em postura.

Nossos resultados mostram que as novas rainhas substituíram com sucesso a
rainha original em apenas 6% das colónias, sugerindo que a prática não resulta na aquisição de liderança pela nova rainha na maioria das colónias. Além disso, nossos resultados mostram que a substituição por rainhas filhas é mais comum (13%) do que a substituição de novas rainhas ao introduzir alvéolos reais em colónias durante um fluxo de mel.
“

Esta técnica de substituição de rainhas de forma massiva e com pouca mão de obra foi-me sugerida em tempos no ano de 2012/2013 por um conhecido técnico apícola nacional. Porque não confiei no sucesso da mesma nunca a utilizei. Boa intuição!

apicultura darwiniana: análise crítica

Deixo em baixo a tradução/adaptação de um texto que analisa de forma crítica algumas das reivindicações mais frequentemente utilizadas pelo grupo de apicultores que abraçou uma abordagem radical dos pontos de vista expostos por Tom Seeley no artigo de 2017, Darwinian beekeeping: An evolutionary approach to apiculture (American Bee Journal. 157. 277-282).

“Nos últimos anos, algumas formas de apicultura alternativa foram revitalizadas, como a apicultura sem tratamentos (treatment free), biodinâmica e “natural”. Estas práticas ganharam popularidade quando o professor Tom Seeley divulgou as suas experiências e conclusões em 2017 e introduziu o conceito “Apicultura darwiniana”. Seeley argumenta que o conceito de evolução através da seleção natural raramente é usado na apicultura. Segundo ele imitando as condições naturais das abelhas e a seleção natural, podemos levá-las a superar os seus problemas. As soluções surgirão rapidamente se o apicultor estiver sintonizado com esta visão.

No passado, o campo da apicultura “natural” foi inspirado por uma filosofia da new age: “as abelhas superam tudo com o poder da natureza”. Ao longo do caminho, as intervenções de Seeley e outros cientistas, introduziram formas alternativas de apicultura, envolvendo os princípios da biologia evolutiva. Neste texto, explicarei como essa combinação de apicultura alternativa e ciência produziu uma cultura pseudo-darwiniana de práticas extremas. Meu principal problema com a chamada “apicultura darwiniana” é que ela não é verdadeiramente darwiniana. E não quero dizer que não seja radical o suficiente, muito pelo contrário. Este ramo da apicultura usa constantemente o apelo à natureza, criando uma retórica particularmente atraente para os apicultores orgânicos e alguns apicultores de pequena dimensão adeptos da lazy beekeeping (apicultura preguiçosa).

Estes apicultores tentam a apicultura “natural” e sem tratamentos sustentados alegadamente em argumentos darwinianos. Vou desenvolvê-los a seguir. É de realçar que Seeley é bastante cuidadoso nas suas palavras e instruções, mas as suas ideias são distorcidas e usadas de forma excessivamente rígida e radical. Na demanda da “naturalidade”, qualquer método natural de apicultura nunca será natural o suficiente. Surgirá sempre uma forma mais “natural” e “pura”.

Primeira reivindicação: “As abelhas sobreviveram milhões de anos enfrentando doenças e pragas sem intervenção humana. Portanto, têm, ou podem desenvolver, os mecanismos para lidar com a varroa, etc., desde que deixemos a natureza fazer o seu trabalho.”

Na história natural, inúmeras espécies bem adaptadas extinguiram-se por mudanças súbitas no meio. O Varroa destructor mudou o meio subitamente e teria exterminado as abelhas europeias se os humanos não tivessem intervindo.

Segunda reivindicação: a natureza tem o método de seleção natural para eliminar os desajustados e escolher os ajustados. A apicultura natural está mais próxima da seleção natural.

A seleção natural é um processo de eliminação/selecção ao longo de milhares de anos. Na verdade, estes métodos apícolas alegadamente naturais exercem muitas vezes uma pressão de seleção excessivamente rápida, expondo as abelhas ao stresse crónico (parasitário e dietético) e à morte de milhares de milhões de abelhas. O esquecimento destas perdas incontáveis é bem explicado pelo viés da sobrevivência. Além disso, a evolução das espécies envolve três outros mecanismos além da seleção natural: deriva genética, mutação genética e fluxo genético. Não encontramos referências a estes três mecanismos na apicultura darwiniana porque estragam qualquer narrativa credível acerca da sua efectividade.

Terceira reivindicação: Qualquer intervenção ou assistência com substâncias químicas, biológicas ou mesmo naturais retarda a adaptação natural das abelhas contra patógenos e parasitas.

Outro erro fundamental em torno do qual a apicultura sem tratamentos é construída. Pelo contrário, a intervenção dá às abelhas tempo para se adaptarem. Quanto tempo tiveram as primeiras colónias de abelhas europeias quando entram em contato com varroa? Muito pouco… e sucumbiram.

Quarta reivindicação: Através de métodos naturais de apicultura, o ácaro Varroa perde sua natureza agressiva e desenvolve uma relação simbiótica com as abelhas.

O Varroa destructor é um parasita europeu das abelhas melíferas. É improvável que perca essa característica rapidamente, só porque algumas pessoas colocam as abelhas dentro de troncos de árvores e as deixam enxamear todos os anos. Lembrem-se de que os parasitas e predadores permaneceram os mesmos por milhões de anos e não mudam facilmente. Por exemplo, vespas predadoras, esses ancestrais das abelhas, permanecem predadoras.

Quinta reivindicação: As abelhas na natureza escolhem as suas novas rainhas, enquanto nós, com nossas técnicas, as impedimos de escolhê-las.

Esta é uma das reivindicações mais fracas no texto de Seeley. Uma análise meticulosa da enxameação revela que há uma aleatoriedade na criação natural de rainhas. É como se as operárias “optassem por não escolher” suas rainhas, fazendo numerosos cálices que serão utilizados pela rainha de forma aleatória. As operárias simplesmente descartam algumas larvas mal alimentadas, enquanto retêm o elemento aleatório. Surpreendentemente, muitas das técnicas de translarve de rainhas mantêm um elemento análogo de aleatoriedade.”

fonte: https://thebeekeepinglab.com/2023/07/08/pseudo-darwinism-in-beekeeping/?fbclid=IwAR26HCU8BeHf1DAyYguCRS-49_SaEqVIsdlSfJ317AhhXm3v5mPuXJMhD5Q_aem_Ae9BTGDi31rgF_uwnNsrzVInb1J306DJoYO0rkoJz9NA7BszGhVCPk-7dByljzkWzMU

Notas:

1) na minha opinião a publicação “a minha resistência à resistência: o foco no foco” complementa esta adequadamente.

2) Aceitando que esta abordagem darwiniana seja a melhor maneira de lidar com os ácaros varroa, nunca funcionará se não for adoptada por praticamente TODOS os apicultores e ao mesmo tempo, isto para evitar a deriva/diluição genética dos traços que conferem resistência.

3) E se TODOS aderirem ao projecto… como se resolverá a falência da polinização, a escassez de alimentos e os efeitos sociais e económicos decorrentes de mortalidade massiva de 95-99% das colónias de abelhas e isto durante os anos que o efectivo apícola levará a recuperar?

4) Esta experiência com animais sociais, com milhões de milhões de abelhas condenadas ao sofrimento e à morte desnecessária, às mãos de uma ideologia que por uma triste ironia se diz apicentrada e que procura o bem-estar das abelhas, é um paradoxo ético.

5) Ninguém sabe que abelha resultará de um processo de selecção tão esmagador como o desta proposta “vive e deixa morrer”, que conduzirá inevitavelmente a um enorme empobrecimento do pool genético, aspecto que contraria a tendência natural de promoção da diversidade genética das abelhas .

6) Que garantias há que o ácaro varroa não evoluirá também para se adaptar a colónias pequenas, que enxameiem muito e que não são tratadas, como proposto pelos mais acérrimos defensores desta via, a única respeitadora das abelhas na sua opinião.

7) Como percepcionamos deixar de tratar os nossos outros animais domésticos, cães, gatos, …, para que a natureza elimine os indivíduos susceptíveis às doenças e para as quais temos medicamentos?

óculo da prancheta, fechado ou aberto?

A ventilação das colónias e o seu maneio é um clássico nas conversas entre apicultores. Quando se fala de ventilação há que discriminar entre (i) a ventilação inferior, ao nível do estrado — sólido ou em rede? — e do alvado — com ou sem grelha de entrada?; (ii) a ventilação superior — óculo da prancheta, fechado ou aberto?

Vou apresentar as minhas opções relativamente à ventilação superior, que não são nem melhores nem piores que outras, são as que me pareceram favorecer mais os meus enxames no seu território. Lembro que é um território no distrito da Guarda, de temperaturas bastante baixas no inverno e altas no verão. As amplitudes térmicas diárias são elevadas no final do inverno, primavera e outono. É um clima de ar seco, aspecto a que dou particular importância, porque não tão atreito ao desenvolvimento de bolores e micoses no ninho. Lembro ainda que tinha as colmeias em assentos a cerca de 30 cm do solo, aspecto que também potencia a ventilação.

Tendo em conta estas particularidades, as minhas colónias no final da primavera (desde que as temperaturas diurnas atingiam os 25-27ºC e as noturnas se estabilizavam acima dos 13-15ºC) passavam a ter o óculo aberto em apenas cerca de 1/3 do seu diâmetro. Esta opção permitia às abelhas escolherem a sua ventilação superior. Quem melhor do que elas para decidir?

… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fechavam com própolis este espaço aberto…
… enquanto outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto.

No outono/inverno e parte da primavera, com temperaturas nocturnas estabilizadas abaixo do 10-12ºC e diurnas abaixo dos 23-25ºC, fechava o óculo da prancheta. Com esta opção procurava evitar o efeito chaminé, a saída rápida pelo orifício da prancheta do ar quente e húmido proveniente do ninho. Como sabemos a criação de larvas beneficia muito por dispor de um nível relativamente alto e estável de humidade no ninho. Caso deixasse o óculo aberto, o ar seco do território entraria mais intensamente no ninho, podendo desidratar demasiado o ambiente interno do ninho e criar dificuldades suplementares às abelhas no cuidado às larvas.

Óculo fechado para estabilizar o mais possível a temperatura, mas sobretudo a humidade relativa no ninho. A humidade relativa no ninho de uma colónia forte e saudável situa-se entre os 50% e 60%. Com níveis inferiores a 50% de humidade relativa os ovos não eclodem. Com o óculo aberto o efeito de chaminé no ninho intensifica-se, podendo desidratá-lo em demasia.

quadros de cera laminada no ninho: como interpretar a sua utilização pelas abelhas

Na época da enxameação reprodutiva (abril e maio no território onde tinha os meus apiários), a aplicação da regra não mais de 6 para fazer a prevenção da enxameação de forma sistemática permitiu-me ir fazendo um conjunto numeroso de observações acerca da utilização e finalidade que as abelhas davam aos quadros de cera laminada que lhes ía colocando regularmente no ninho. Havia colónias que aproveitavam estes quadros para a rainha aí fazer postura de travessão a travessão num primeiro ciclo de postura, e nos ciclos seguintes ía aumentando a abóbada de mel permanecendo uma área generosa desses quadros para a postura da rainha. Contudo outras colónias aproveitavam estes quadros com cera nova sobretudo para armazenarem pólen e/ou néctar.

Das minhas observações verifiquei que esta apropriação e utilização diferente entre colónias dos quadros de cera laminada que ía colocando com intervalos de 15 dias e durante o período da enxameação reprodutiva (período com cerca de 45 dias no território onde tinha os apiários) estava associada frequentemente a dois modos diferentes das colónias:

  • as colónias que aproveitavam os quadros para a rainha aí fazer abundante postura não estavam em modo de enxameação;
  • as colónias que aproveitavam os quadros para aí armazenarem pólen e néctar estavam em modo de enxameação.
Quadro langstroth com cera laminada colocado na posição 2 do ninho 10 dias antes desta fotografia. Está cheio de larvas de travessão a travessão.
Quadro lusitana colocado na posição 9 no âmbito da aplicação da regra não mais de 6 com criação em mais de 90% da sua área. As abóbadas de mel aparecem somente no ciclo posterior de postura nesta época do ano.

A utilização que as colónias faziam dos quadros com cera laminada que lhes ía colocando em intervalos de cerca de 15 dias funcionavam para mim como bio-sensores do modo em que estavam as minhas colónias: em modo de crescimento ou em modo de enxameação.

minimizando riscos do trabalho apícola

Assim como outros apicultores procuro o mais possível evitar os riscos habituais desta profissão ou, não sendo possível, tento minimizá-los. Entre outros cuidados, raramente sou picado e muito raramente me cai carga nos caminhos de acesso aos apiários.

Nesta publicação vou focar-me noutras medidas que visam minimizar os riscos nesta altura da época apícola. Uma destas medidas é planear o dia por forma a trabalhar no apiário com temperaturas inferiores a 25ºC. Hoje por exemplo, entre as 8h00 e as 10h30, estive ocupado a inspeccionar cerca de 80 colónias com o objectivo de identificar quais as que estavam a pedir mais uma meia-alça. Acabei por colocar mais 37. Por volta das 10h30 a temperatura estava a chegar aos 25ºC, isto a 900 m de altitude, e foi a hora em que iniciei o regresso a casa com o trabalho concluído.

Imagem parcial do apiário a 900 m.
Meia-alça praticamente cheia e…
… colocação de mais uma meia-alça.

Antes, no dia de hoje e por volta das 6h00, entrei no apiário das Lusitanas a 600 m de altitude para efectuar a cresta dos sobreninhos ali presentes. E a este respeito, aproveito para referir o segundo cuidado para minimizar riscos. Na cresta destes sobreninhos divido os quadros por várias caixas. A intenção é não ter de levantar mais de 15 kgs. Com 12 anos de apicultura a tempo inteiro, até agora não tenho problemas cervicais ou lombares. Assim espero continuar, tendo este e outros cuidados!

Na altura da cresta destes sobreninhos a máxima é dividir para vencer. Afinal é de apicultura mobilista que se trata.