a invernagem de colónias de abelhas: maneio de preparação

Iniciei hoje a minha semana de trabalho no campo. Estive ocupado com a inspecção das colónias instaladas em dois dos quatro apiários activos. Nestes dias tenho no plano realizar um conjunto de tarefas que visam atingir dois objectivos principais:

  1. Preparar as colónias o melhor possível para o período de invernagem que se aproxima;
  2. avaliar o efeito das acções remediativas encetadas para o controlo da varroose.

Para alcançar o primeiro objectivo publico o foto-filme das acções empreendidas e observações realizadas:

Colocação das réguas de entrada da colmeia na posição de inverno.

Se no periodo do ano em que as temperaturas máximas ultrapassa os 25ºC deixo o óculo da prancheta semi-aberto para que elas decidam se querem ou não a ventilação superior…

… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fecham com própolis este espaço aberto…
… outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto…

… nesta época em que as temperaturas máximas ficam de forma regular abaixo dos 25ºC fecho completamente o óculo da prancheta.

Outras das tarefas passou por avaliar as reservas de mel e reforçar as colónias que me pareceram escassas neste recurso. Tenho como referência a necessidade de ter 4 quadros bem preenchidos de mel por colónia. Estes 4 quadros garantem um total de 10 a 12 kgs de mel, o suficiente para que as minhas abelhas passem os próximos meses 3 meses com hidratos de carbono de qualidade e na quantidade indispensável para a manutenção dos mecanismos individuais e colectivos a uma eficiente termorregulação. Assim substituo os quadros leves com poucas reservas por quadros pesados bem fornecidos de reservas.

Quadros leves retirados e…
… substituídos por quadros pesados com boa quantidade de mel.

De que “cartola mágica” sairam estes quadros com mel?

… das inevitáveis “colmeia armazém“, e que vai receber os quadros leves.

Foi também a oportunidade para verificar/confirmar as novas reservas de pão-de-abelha fresco tão importante para a alimentação desta geração de abelhas de inverno que está agora a ser criada, assim como indispensável para a alimentação da futura primeira geração de abelhas do próximo ano, lá para meados de janeiro.

Criação larvar com aquela boa cor pérola e a “nadar” em papa larval.
Stong bees a serem criadas exclusivamente com os recursos naturais do território!

a solução de um caso concreto de uma colónia com pms

Hoje a chegada ao apiário, onde localizei ontem uma colónia com sinais inequívocos de PMS, foi anunciada novamente pelo levantar voo da comunidade de abelharucos que por ali está instalada. Já os começo a ver com alguma simpatia e até esperança de que possam estar a contribuir para as zero velutinas que vi este ano nos meus apiários.

O que me levou ao apiário não foi contudo a intenção de observar as acrobacias aéreas dos abelharucos. Fui solucionar, o mais rapidamente possível, o caso da colónia com PMS.

Desta colónia, retirei 8 quadros com reservas que não apresentavam criação absolutamente nenhuma e coloquei esses quadros valiosos numa colmeia armazém deste apiário depois de sacudidas todas as abelhas.

A colónia doente, que ficou apenas com os dois quadros que apresentavam criação e respectivas abelhas, foi fechada e retirada do apiário.

Foi transportada para minha casa e colocada num cantinho da horta. Para eliminar as abelhas decidi introduzir água com detergente pelo óculo da prancheta.

Esta foi a solução que achei ser a melhor para este caso concreto de uma colónia já demasiado fragilizada pelo PMS, com uma população de abelhas que não chega para cobrir as duas faces de um quadro e muitas delas doentes pelas viroses, em particular o VAD.

Caso esta colónia tivesse mais abelhas e caso o PMS não estivesse tão avançado, muito provavelmente teria sido tentado a retratar e fazer um esforço mais para a apoiar . Não sendo isso o que vi, decidi retirá-la com a máxima urgência do apiário e eliminar este super-organismo moribundo, como recomenda qualquer manual de boas práticas da pecuária.

Conto em breve, e com um pouco mais de tempo, voltar ao caso desta colónia, que por ser único nos meus apiários nos últimos anos, pretendo aprofundar um pouco mais, agora na perspectiva da formulação de 3 ou 4 hipóteses alternativas que possam explicar as causas deste conjunto infeliz de eventos.

das abelhas resistentes e das cabras sapadores

No passado dia 4 de agosto informaram-me que, num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, as cabras de um pastor que partilham o mesmo território tinham derrubado uma colmeia. Ao final da tarde desloquei-me a esse apiário para recolocar no assento não uma mas duas colmeia que estavam tombadas pelo chão completamente viradas ao contrário. Não mereceria este episódio ser trazido aqui, outros semelhantes já me têm acontecido esporadicamente (nesses outros casos provocados não por cabras mas por vitelos e/ou vacas), não fossem dois aspectos do maneio que julgo poderão interessar outros companheiros de lide.

As duas colmeias que se cruzaram no caminho das cabras sapadores!

Hoje tive oportunidade de regressar ao apiário e analisar o estado do ninhos de todas as colónias deste apiário, nomeadamente as duas colónias que haviam sido tombadas.

Na colónia da esquerda verifiquei que estava zanganeira apresentando criação fechada de zângão em alvéolos de obreira. Fazendo alguns cálculos leva-me a supor que as colmeias foram tombadas por volta de 27 de Julho: a postura das obreiras poedeiras intensifica-se passados cerca de 28 dias após a postura do último ovo da rainha perdida, e as larvas de zângão são operculadas após 9 dias a contar do ovo de primeiro dia; sendo assim e recuando 37 dias a partir do dia de hoje encontramos a data provável do choque frontal entre as cabras e o assento das colmeias tombadas.

Este é um dos três quadros que a colónia apresentava com postura de poedeiras. Ainda que existam sempre abelhas poedeiras em todas as colónias o seu número aumenta, assim como a expressão da sua postura, numa situação de orfandade irresolúvel pelas abelhas.
Nesta altura do ano a minha solução passa por eliminar a colónia zanganeira e colocar estes quadros com a criação raspada numa colónia viável para que esta aproveite a proteína destas larvas de zângão.

Na colónia da direita verifico que este acidente não provocou um desfecho semelhante ao da colónia da esquerda. Tem rainha ao dia de hoje, com uma postura vibrante, mas… vi meia-dúzia de abelhas com as asas deformadas e vi “isto” num dos quadros…

… alguns alvéolos com pupas desoperculados pelas abelhas (na foto conto 7 que não me levantam dúvidas).

Este comportamento de desoperculação de alvéolos é a manifestação de um certo grau de comportamento higiénico por parte das abelhas, e surge habitualmente na presença de um grau de infestação pelo ácaro varroa relativamente elevado**. Se alguns apicultores acham que este comportamento é por si só sinónimo de abelhas resistentes ao varroa e/ou de linhas excepcionalmente higiénicas e com genética a explorar e desenvolver, eu e outros achamos que este comportamento é um comportamento banal e padrão presente em quase todas as colónias quando sujeitas a uma taxa de infestação que está a atingir valores elevados. Não há neste comportamento nada de excepcional nem superlativo! Pelo que vou vendo estas colónias irão sucumbir aos ácaros e aos vírus por eles transmitidos, não se fazendo nada para ajudar as abelhas. A natureza, intensidade e extensão deste comportamento nas minhas colónias revelou-se até agora insuficiente para me permitir cruzar os braços e esperar que as colónias resolvam o problema. Como não acho correcto fazer marketing com afirmações despudoradas e mal fundamentadas sobre ter abelhas resistentes e, ao mesmo tempo, devo tirar as devidas implicações desta “filosofia céptica” sobre o que é ou não é um traço de resistência, apoiei esta colónia com os recursos disponíveis no momento: dupliquei a dosagem de Apivar.

Colmeia da direita com 4 tiras de Apivar.

E porque adicionei mais duas tiras de Apivar às duas que já lá estão há cerca de mês e meio? Lembro que esta colónia esteve tombada, de pernas para o ar, cerca de 8 a 10 dias, com as duas tiras de Apivar, que tinha colocado cerca de 15 dias antes, fora do sítio indicado. No dia em que as voltei a recolocar no assento não estive com grandes preocupações de colocar as tiras no sítio adequado dada a agitação das abelhas, e só hoje passados 37 dias da data que estimo ter ocorrido o acidente fiz uma inspecção mais atenta. Como só nesta colónia vi o fenómeno de “cria calva” (designação espanhola para o fenómeno que descrevi) atribuo a causa da falta de eficácia no controlo do ácaro à incorrecta localização das tiras. Como entretanto as tiras foram perdendo “potência” pela exposição ao ar (o amitraz degrada-se na presença do oxigénio) e a infestação foi ganhando “potência” entendi que colocar mais duas tiras iria equilibrar as premissas deste jogo de vida ou morte entre as abelhas e o ácaro.

** a traça da cera também provoca a desoperculação dos alvéolos das pupas. Neste caso surgem habitualmente meia-dúzia de alvéolos adjacentes desoperculados e em linha uns com os outros.

verificação da eficácia do tratamento da varroose: a minha opção

Tendo verificado no início da semana passada a eficácia do tratamento de verão da varroose num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, hoje fiz essa mesma verificação no segundo apiário que tenho à mesma altitude. Também neste apiário, com cerca de 40 colmeias, as impressões que retirei por observação são francamente animadoras. Para confiar nestas verificações “a olho”, sem recurso a outro tipo de testagem, socorro-me de um conjunto de imagens mentais daquilo que não desejo ver e daquilo que desejo ver.

Não desejo ver:

  • Padrão de criação irregular;
  • Criação calva (criação desoperculada);
  • Ácaros varroa presentes nas abelhas adultas;
  • Os ácaros deslocando-se sobre os opérculos da criação selada;
  • Ácaros sobre as larvas (geralmente as larvas apresentam-se distorcidas ou semi-devoradas);
  • Número relativamente baixo de abelhas adultas;
  • Ausência de ovos e de larvas (devido à falta de abelhas nutrizes para as alimentarem);
  • Mestreiros de substituição (parece que as abelhas “culpam” a rainha pelo seu estado deplorável de infestação);
  • Abelhas rastejando na entrada da colmeia;
  • Abelhas com asas deformadas.

 Quando se começa a ver pupas com a cabeça devorada (em vários alvéolos), isso é um sinal de que os níveis do ácaro estão altos.

Passadas 4 semanas o início do tratamento (com Apivar) não verificar nenhum dos sintomas em cima identificados reforçam em mim duas convicções: primeira, o tratamento foi iniciado num momento oportuno (taxa de infestação das abelhas adultas inferior a 3%) e, segunda, o tratamento está a ser eficaz.

Desejo ver:

  • Colónias bem povoadas;
  • Colónias com criação nos três estádios de desenvolvimento (ovos, larvas e pupas);
  • Colónias com criação operculada compacta;
  • Colónias equilibradas quanto a reservas (mel e pão-de-abelha) e com espaço para a rainha fazer postura;
  • Abelhas novas ou a emergir com asas bem formadas.
Foto de uma colónia típica deste apiário à data de hoje.
Foto de hoje de um quadro com criação compacta, o que me deixa muito tranquilo acerca da eficácia do tratamento no controle da varroose.

Como trato de acordo com o calendário (não faço tratamentos profiláticos, nem faço tratamentos debaixo da filosofia de gestão integrada de pestes), como tenho muitas dúvidas acerca da fidedignidade da avaliação da taxa de infestação de todas as colónias de um apiário com base numa amostra de 20% a 30% das colónias desse apiário, tenho recorrido este método expedito: durante o período de tratamento, que se prolonga por 10 a 12 semanas, faço em média 3 ou 4 vezes esta verificação a olho de cada uma das colónias do apiário. Esta verificação permite-me também ajustar as tiras à câmara de criação e realizar outras tarefas na preparação para a invernagem, como por exemplo substituir algum quadro por outro mais adequado ao período que se avizinha.

Antes do ajustamento das tiras de Apivar à actual câmara de criação.
Depois do ajustamento à actual câmara de criação.
Os quadros como os da direita foram retirados e substituídos por quadros como os da esquerda. Acredito que ainda não há suplemento alimentar, por muita qualidade que tenha, que ajude a criar abelhas de inverno mais longevas e saudáveis que o mel e o pão-de-abelha.
Os quadros com mel estavam ali ao lado, nas colmeias-armazém!

bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha: a solução que me encontrou

Surgiu há poucos dias no Bee-L (fórum de apicultura de origem norte-americana) uma questão muito interessante de um apicultor e que serve de motivo para esta publicação. Perguntava esse apicultor o que poderia fazer para evitar que os quadros do ninho ficassem bloqueados com pão-de-abelha. Para o necessário contexto desta questão falta dizer que este apicultor utilizava a configuração ninho+sobreninho, criando assim aquilo que alguns denominam de forma feliz um “ninho infinito”, em colmeias do modelo Langstroth. Ora este bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha é uma situação relativamente inconveniente, e que se agudiza a partir de meio/final do verão. Já passei por isso, já dei voltas à cabeça para encontrar uma solução, e acabou por ser a solução a encontrar-me. O processo, passo a descrevê-lo.

Até há três anos atrás (2017) a grelha excluidora era uma peça do meu equipamento que raramente ía para o apiário e, quando a utilizava, era de forma muito temporária. Neste período anterior a 2017, vinha a encontrar a meio/final do verão, e nas colmeias com ninho+sobreninho, boa parte dos ninhos abandonados pela rainha, que entretanto se tinha instalado de modo permanente no sobreninho. Em resultado deste comportamento natural das rainhas, os ninhos ficavam entregues às obreiras que, provavelmente, viveriam os seus dias mais felizes a encher com pólen todos os alvéolos assim que o último ciclo de cria nascia, enchendo de travessão a travessão os quadros com pão-de-abelha devidamente enzimado e compactado à cabeçada. Tenho ideia que havendo espaço, este é o modo natural de armazenagem das abelhas quando a postura da rainha começa a diminuir com o avançar da época ou quando na presença do ninho infinito: mel na abóbada superior, zona de criação na zona intermédia e pão-de-abelha na abóbada inferior do quadro ou, no caso, na caixa inferior da colmeia.

Nesta foto parcial de um quadro vemos pão-de-abelha armazenado junto ao travessão inferior, alvéolos vazios na zona intermédia e…
… pequena abóbada com mel operculado junto ao travessão superior do quadro (quadro invertido relativamente à sua orientação normal).

Em 2017, e para satisfazer a demanda de enxames e quadros com criação optei por utilizar mais frequentemente a grelha excluidora nas colónias que dediquei à produção de abelhas e criação. Para não ter que ter a preocupação de localizar a rainha sempre que retirava abelhas ou quadros com criação de um conjunto de colónias, a grelha excluidora foi uma peça importantíssima desta estratégia. Tendo terminado esta tarefa com sucesso, decidi deixar a excluidora em algumas colónias, até porque já tinha lido um número apreciável de opiniões positivas acerca da mesma, em particular por apicultores norte-americanos, canadianos e australianos. Resolvi testar, ainda que um conjunto de crenças em mim me dissessem que provavelmente iria correr mal. Para minha surpresa já na altura colhi boas impressões, mas como eram ao arrepio de muitas das minhas crenças da altura, decidi continuar o teste nestes últimos anos, antes de assumir para mim próprio e em público as conclusões que tenho vindo a publicar sobre as bem-feitorias das grelhas excluidoras de rainhas. Entre outras que já identifiquei e referi, verifico de forma reiterada que as colónias com a configuração ninho+sobreninho e com a rainha confinada no ninho por uma excluidora me surgem nesta altura do ano muito menos bloqueados pelo pão-de-abelha. Atribuo este efeito ao facto de a rainha, com a sua postura limitada ao ninho, ocupar uma parte significativa do mesmo com a oviposição. Naturalmente nos alvéolos onde a rainha põe um ovo, e as abelhas criam as suas larvas, não podem ser utilizados em simultâneo para armazenar pão-de-abelha. Como as duas tarefas são mutuamente exclusivas, a colónia encontra aquilo que me parece ser um melhor equilíbrio na gestão do espaço do ninho: um compromisso entre o espaço dedicado à oviposição e criação de abelhas e o espaço dedicado à armazenagem de pão-de-abelha.

Em jeito de conclusão, se tivesse que dar uma resposta ao apicultor que colocou a questão no Bee-L, dir-lhe-ía para colocar uma grelha excluidora de rainhas entre o ninho e sobreninho a partir de meio do período da enxameação reprodutiva. Nas minhas colmeias foi esta a resposta natural que as minhas abelhas me deram. O meu trabalho foi apenas ter a atenção necessária para as ouvir, apesar do ruído provocado pelas minhas crenças da altura.

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: desdobramentos e colocação da grade excluidora

Geralmente só realizo desdobramentos no período da enxameação reprodutiva, de finais de março a meados de maio nos apiários a 600 m de altitude, de meados de abril ao início de junho nos apiários a 900 m de altitude.

Colmeia armazém (foto de 15-04-2020).

Uma parte destes desdobramentos são realizados a partir de algumas das colmeias armazém que arrancaram bem. Num primeiro momento transfiro a rainha juntamente com um ou dois quadros com criação e um ou dois quadros com reservas para uma caixa núcleo.

Quadro com a rainha-mãe.

Este núcleo com a rainha-mãe é formado com pelo menos um quadro com abelhas a emergir.

Quadro com abelhas a emergir.

Cerca de 5 a 7 dias depois de orfanada esta colónia armazém é divida em 2 a 4 colónias filhas, cada uma fornecida de 2 ou três mestreiros já iniciados.

Mestreiros iniciados em situação de orfanação.
Divisão da colmeia armazém.

Nas colónias não desdobradas: passados sensivelmente de 2/3 do período de enxameação reprodutiva passo da configuração “ninho infinito” (ninho e sobreninho sem excluidora) à configuração ninho+grade excluidora+sobreninho.

Ninho de uma colmeia-armazém.
Colocação da grade excluidora com a rainha no ninho.
Colónia que irá receber quadros com reservas resultantes dos desbloqueios de outras colónias e, eventualmente, alguns quadros com cera laminada.

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: meses do crescimento linear das colónias

Nos meses de fevereiro, março e até meados de abril as colónias entram gradualmente na fase de crescimento linear da sua população nos territórios onde as tenho assentes.

O território à saída do inverno (foto da erica australis na pré-floração, em 18-03-2019).

A postura das rainhas, que parou ou abrandou significativamente nos meses de novembro e dezembro, inicia-se/aumenta com a passagem do solstício de inverno, e na primeira quinzena fevereiro já é comum encontrar colónias com 3 e 4 quadros com boas áreas com criação.

Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de fevereiro (foto de 17-02-2020).
Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de março (foto de 10-03-2020).

No início de março estas colónias estão a 40 ou 50 dias de distância do início da principal floração da primavera, o rosmaninho. Interessa-me iniciar o desbloqueamento dos ninhos substituindo os quadros mais bloqueados e colocando quadros desbloqueados com cera puxada no ninho, numa primeira fase (até meados de março), e quadros com cera laminada numa segunda fase (depois de meados de março).

Quadros que foram retirados do ninho para o desbloquear e que são colocados nas colmeias armazém ou em colónias com poucas reservas.
Quadros desbloqueados que foram retirados das colmeias armazém, de colónias mais fracas ou zanganeiras, ou que vieram da casa armazém onde foram guardados.

Os quadros mais bloqueados com mel e/ou pólen são colocados nas colmeias armazém, quando necessário; os quadros desbloqueados são fornecidos por algumas colmeias armazém, colónias mais fracas ou que ficaram zanganeiras durante o inverno, ou são os quadros que foram guardados, depois de crestados no verão do ano anterior.

Mais adiante, em março, quando a meteorologia e as abelhas dão os sinais que iniciaram a puxada da cera inicio a substituição de alguns quadros do ninho que apresentam pequenas áreas de criação por quadros com cera laminada.

A introdução de cera laminada na altura certa permite…
que uma quinzena depois, aproximadamente, as abelhas e a rainha apresentem quadros como os desta foto.

A partir da segunda quinzena de março costumo criar mais algumas colmeias armazém — entretanto algumas das que vieram do inverno são re-condicionadas somente ao ninho quando se justifica — para receberem quadros resultantes dos desbloqueios e da aplicação da regra “não mais de seis”. Estas novas colmeias armazém são formadas em colónias que arrancaram bem, que apresentam um rainha prolífica e que irão fazer bom uso desse novo espaço.

Formação de uma nova colmeia armazém entre meados de março e meados de abril.
Para receber os quadros resultantes dos desbloqueios ou…
… da aplicação da regra “não mais de seis”.
Porque elas desejam muito espaço no ninho nesta fase de crescimento!

Numa próxima publicação descreverei a gestão que faço destas colmeias armazém durante o período dos desdobramentos e forte fluxo de néctar (de meados de abril a meados de julho).

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: outono e inverno

A grande maioria das minhas colónias passa o outono-inverno confinada a uma só caixa (Langstroth ou Lusitana).

Apiário a 600 m durante o inverno de 2018-2019

Contudo algumas delas passam este período invernal com ninho e sobreninho nos apiários a 600m e 900m de altitude.

Colmeia armazém que passou o outono-inverno nesta configuração (foto 17.02.2020).

São colónias que saem muito fortes no final do verão e que destino à guarda, durante os meses seguintes, de quadros não crestados.

Quadros não crestados em 2019, armazenados nas colmeias armazém durante o inverno (foto 17.02.2020).

Estes quadros são de extrema utilidade, por ex., para repor as reservas das colónias que em fevereiro/março arrancaram muito bem, e que consumiram boa parte das seu stock de mel.

Colónia que, pela posição das tiras de Apivar, apresentava em fevereiro/março 8 quadros com criação e, naturalmente, as reservas em baixo.
Quadro com poucas reservas que foi substituído por outro com reservas mais abundantes (foto 27.02.2020).

Numa próxima publicação abordarei o maneio que habitualmente realizo durante os meses de arranque e crescimento linear da população de abelhas nos meus apiários (meses de fevereiro, março e abril).

as coisas que eu vejo!!!

É este o castanheiro que me serve de farol para ter a certeza que os castanheiros da minha terra estão para começar a floração. Ano após ano é dos primeiros a florir. Aprendi com a boa gente da minha terra que o tempo da floração varia um pouco de acordo com as castas dos castanheiros: se a casta é longal mais cedo um pouco, se é martainha mais tarde um pouco.

Dos que eu vejo costuma ser dos primeiros.

Vieram pois na altura certa, espero eu, as colónias com as novas rainhas formadas nos apiários a 600 m, para os dois apiários que neste momento estão activos no território dos soutos. E se nas novas colónias langstroth tive oportunidade e os recursos para “palmerizar” com relativa frequência, os recursos para efectuar esse maneio no apiário das lusitanas foram mais escassos. Como consequência, para além de ter transumado colónias que pesavam mais que um burro, estive hoje a desbloquear os ninhos destas lusitanas que apresentavam quadros a mais de mel no ninho e, portanto, quadros a menos com espaço para a oviposição das novas rainhas.

Como poderá uma rainha num quadro como este…
… fazer este lindo serviço?

O maneio é simples, que já não tenho idade nem talento para coisas muito complicadas. Crio uma colmeia armazém, colocando nesta altura e desde logo uma excluidora de rainhas sobre o ninho e um sobreninho no topo. Este sobreninho vai doando quadros com cera laminada aos ninhos parcialmente bloqueados das colónias nas proximidades e recebendo quadros bloqueados com mel ou néctar, de preferência quadros claros para serem posteriormente crestados.

Colmeia armazém, criada hoje, com 4 quadros com mel/néctar recebidos de outras colónias e com 6 quadros com ceras laminadas para doar a mais algumas colónias parcialmente bloqueadas.
Colocação hoje de um quadro de cera laminada no ninho porque…
… estas rainhas de emergência precisam de uma “tela” adequada para expressarem com toda a liberdade o seu potencial.

Ah, e será a grade excluidora uma merda? como opinou recentemente e publicamente um conhecido apicultor da nossa praça. O que posso dizer é que as minhas abelhas não ligam nenhuma ao que este companheiro diz das excluidoras. Hoje em várias das minhas colónias (friso, das minhas, das de cada um, cada um saberá melhor), com exluidoras colocadas em 17 de maio entre o ninho e sobreninho, constato uma vez mais que o resultado em nada confirma três pré-juízos: não impede/dificulta a armazenagem de mel nas caixas que lhe estão sobrepostas; as excluidoras não aumentaram a taxa de enxameação; não limitaram o potencial de oviposição das minhas rainhas. Se assim não fosse como seria eu capaz de explicar que todas as minhas colónias com ninho e sobreninho, e com grelhas excluidoras colocadas a 17 de maio, tenham neste momento armazenado entre 30 e 50 kgs de mel/néctar?

Com cerca de 50 kgs de mel/néctar já armazenado…
… a caminho dos 60… e com o castanheiro todo para fazer!

Nas minhas colónias o grande factor limitante à expressão do potencial de oviposição de rainha é um ninho parcialmente bloqueado… com mel ou pólen, ou os dois em conjunto. Não se verificando este bloqueio, os mais de 3500 alvéolos por face de lâmina de cera (langstroth ou lusitana) são suficientes para as minhas jovens rainhas, expressarem devidamente o seu vigor. A utilização do “ninho infinito”, como já o utilizei inúmeras vezes, mostraram-me vezes e vezes, que as minhas rainhas, assim como as rainhas de criadores profissionais, não precisavam mais que 7 a 8 quadros bastante desbloqueados para completarem um ciclo de 21 dias de postura.

Com 7 a 8 quadros no ninho com este padrão, para elas é suficiente e, portanto, para mim também, que remédio!

Falta fazer este disclaimer: qualquer semelhança das minhas observações, nas minhas colmeias, com as observações nas colmeias de qualquer companheiro de lide, é mera coincidência. Digo isto porque não me recordo de ouvir algum apicultor no nosso país referir que o ninho das suas langstroth ou lusitana é suficiente para albergar o ritmo/quantidade de oviposição das suas rainhas. Mais uma vez me encontro a ver coisas que mais ninguém vê!!! Como hoje quando parei para almoçar eram 14, 15h, e já tinha 8h de trabalho no pêlo, tudo isto pode muito bem ser fruto de uma alucinação por exaustão! Por isso vou fazendo um registo fotográfico porque, tanto quanto é do meu conhecimento, os “smartphones” não sofrem de alucinações. Ficava mais um pouco, mas tenho de ir a um outro apiário ainda hoje. Bom trabalho para todos… e não bloqueiem com os disparates que vou vendo!

agir de acordo com o abelhês

Hoje eram 9.00h, de acordo com o relógio da torre, quando arranquei para o meu apiário a 900 m de altitude. O objectivo principal era fazer a prevenção e controlo da enxameação, porque é por lá que agora “as coisas estão mais quentes”. Dado as condições climatéricas relativamente atípicas do ano o período propício à enxameação iniciou-se mais tarde e está, naturalmente, a prolongar-se um pouco para lá da época habitual. Para além desta razão de natureza racional, é também um apiário que gosto bastante de frequentar por ser o único num terreno meu, por ter sido aqui que instalei o meu primeiro apiário, faz quase 11 anos, e porque é deveras magnífica a vista quando levanto o olhar para o horizonte e contemplo a plantação de diversas árvores que o meu saudoso pai lá fez.

Durante o maneio das colónias deparei-me, em 3 delas, com três situações idênticas, estavam a construir mestreiros, mas com significados diferentes, isto pelo menos de acordo com o meu domínio actual do abelhês. É uma língua que pressupõe alguns pré-requisitos (experiência e leituras) e em simultâneo um espirito livre que esteja disposto a deixar fluir o melhor possível a experiência actual, integrá-la no já aprendido ou, pelo contrário, questionar esse “já aprendido”, para submergir mais e melhor no “falar” daquelas abelhas, naquele momento e naquele local. Admito pacificamente que haja aspectos universais desta linguagem, mas nem tudo é igual em todos os locais, e é, quantas vezes nas nuances, nos detalhes do “abelhês” regional, o local onde vou encontrar Deus e o Diabo.

Constatei e decidi que o melhor a fazer era nada fazer!
Observei e decidi que o melhor a fazer era nada fazer!
Aqui o meu pequeno domínio do abelhês disse-me que era melhor fazer alguma coisa!
Sim a mãe andava ainda por lá… ali!
À falta de um núcleo foi para dentro de uma caixa de 10!
Com este padrão de postura dei por bem dispendido os cerca de 3 minutos que me levou a localizá-la!
O restante do enxame foi divido em dois, com recurso ao tabuleiro divisor, para evitar os garfos (o Vasco Correia Paixão e outros escrevem a palavra no masculino e não no feminino, e sigo essa escola).

Por volta das 13.ooh estava de regresso a casa com um incremento no meu património, correndo tudo bem, na ordem dos 250€. Sim, porque também vou fazendo estas contas. Ainda que não pareça, ainda sou um apicultor profissional, e esta componente financeira, com menos peso que no passado é verdade, continua a ter o seu peso.

Nota: uma questão final, que ainda não compreendi do abelhês: qual a vantagem evolutiva que as abelhas encontraram em continuar a enxamear após o primeiro enxame, em enxames cada vez mais pequenos (os garfos), uns atrás dos outros, condenados a enorme maioria deles ao insucesso?