bob binnie: a equalização e a regra “não mais de 6” como ferramenta para a prevenção da enxameação

Neste vídeo, o apicultor norte-americano Bob Binnie refere “depois do trabalho de equalização terminado todas as colónias ficam com uma média de 6 quadros com criação” (aos 9’42”). Binnie publicou o vídeo em março de 2020.

Em abril de 2017, na publicação intitulada a regra “não mais de 6, já o humilde escriba deste blog pisava o mesmo terreno.

expandindo o apiário: o cruzamento da experiência de Bob Binnie com a minha

Há cerca de um ano atrás conheci Bob Binnie através das suas palestras virtuais e do seu canal no YouTube. Como alguém diz num comentário “Existem muitos especialistas com 2 ou 3 anos de apicultura ensinando no YouTube como lidar com as abelhas. Este não é um deles. É uma das poucas apresentações que assisti até ao fim e aproveitei cada minuto.”. Também para mim as palestras de Bob Binnie estão noutro patamar.

Bob Binnie e colaborador num dos seus apiários.

Neste vídeo do seu canal Bob Binnie apresenta a sua experiência de cerca de 40 anos no que respeita a alguns pontos da caminhada feita para expandir os seus apiários. Eu, com apenas 11 anos de experiência apícola, revejo-me e identifico-me com muito do que ali é descrito e aconselhado. Acho, de uma forma difícil de qualificar, que o meu percurso seguiu muitas das directrizes e cruzou-se inúmeras vezes com as experiências deste apicultor norte-americano, ainda que não as conhecesse na altura. Há coisas assim!

A palestra de Bob Binnie de março de 2019

Bob inicia a sua palestra sobre a justificação da expansão do(s) apiário(s) subordinando-a ao objectivo que queremos atingir. No meu caso em setembro e outubro de 2009 adquiri 50 colónias com o objectivo de passar a viver em exclusividade da apicultura. Larguei por completo a minha actividade profissional anterior e desde essa data passei a ocupar-me a tempo inteiro com as minhas abelhas.

De seguida pergunta quantas colónias os presentes desejam ter. No meu caso desejava atingir as 1000 colónias em cerca de 5 a 7 anos. Atingi as 700 passados 8 anos, mas teria chegado às mil e até ultrapassado este número caso não tivesse vendido inúmeras colónias ao longo dos anos.

Bob refere que tem 2500 colónias e que deseja baixar este número. De há dois anos para cá tenho reduzido significativamente o número das minhas colónias.

Refere que de há dois anos para cá “perdeu” 6 a 7 colaboradores experimentados e que ficou apenas ele e um colaborador experimentado para gerirem 2500 colónias. E, em razão desta situação, está a chegar atrasado às colónias para as tratar contra os ácaros varroa. A minha realidade difere neste aspecto, primeiro reduzi o número de colónias e só depois terminei a minha relação contratual com o meu empregado. Contudo, algumas vezes, também cheguei atrasado a algumas colónias para as tratar. Quem me segue com mais assiduidade e atenção sabe bem a importância que desde há anos dou à necessidade de fazer os tratamentos atempadamente. Parece-me que esta ideia começa a fazer o seu caminho na nossa comunidade apícola.

Bob alerta a sua audiência que não funciona passar de 5 a 10 colónias para 500 com um “estalar de dedos”. Infelizmente em Portugal e num passado recente as vozes e os estímulos iam num sentido contrário, e vários “jovens apicultores” sentiram o sabor amargo do fracasso, resultado de um projecto megalómano que tinha tudo para fracassar.

Aconselha a “crescer com as abelhas” e de forma gradual. Nos primeiros anos triplicou o número de colónias de ano para ano… de 8 para 25, de 25 para 75,… em 5 anos tinha 500 colónias. No meu caso das primeiras 50 passei para as 90, e no ano seguinte tinha 170,… e passados 5 anos tinha cerca de 450. Crescemos ambos com um saber acumulado de ano para ano que nos permitiu gerir eficazmente o número crescente de colónias de um ano para o outro.

Voltarei a esta palestra e, por agora, termino com esta afirmação de Bob Binnie: “As competências que são adquiridas com a experiência são a “arte” da apicultura. A apicultura é 50% ciência e 50% arte. A arte é o desconhecido, a arte é a forma de fazermos as coisas, arte é como trabalhamos as abelhas, a arte vai crescer durante o percurso, caso contrário falhamos.

tabuleiro divisor: fase final do maneio

Hoje, entre outras tarefas, transferi alguns dos últimos enxames produzidos este ano com recurso ao tabuleiro divisor para caixas-núcleo ou caixas-colmeia. Procuro sempre colocar estes novos enxames em caixas completamente independentes ao longo da estação e antes da invernagem. Assim, evito as dificuldades na alimentação do enxame situado na caixa inferior e a eventual entrada de humidade excessiva por entre o tabuleiro divisor.

Configuração da colmeia: a colónia 1 habita o ninho inferior com entrada no sentido oposto ao visível; tabuleiro divisor com entrada no sentido visível a separar as duas colónias; e colónia 2 no ninho superior.
Vista interior da colónia 2 que ocupa cerca de 5 quadros.
Transferência dos 5 quadros para uma caixa-núcleo; a rainha foi transferida sobre este segundo quadro.
O tabuleiro divisor.
Vista interior da colónia 1 que habita a caixa inferior.
Vista do exterior logo após a transferência dos quadros para a caixa-núcleo, caixa que irá permanecer no local original durante uns dias, antes de ser transferida para outro apiário.
Vista exterior 15-20 minutos após a transferência.

Deixo um vídeo muito interessante do apicultor profissional Bob Binnie, que conjuntamente com sua esposa Suzette, possui e opera a Blue Ridge Honey Co. em Lakemont, Geórgia, uma operação apícola com 2.000 colónias. Bob Binnie também faz uso dos tabuleiros divisores e descreve aqui as vantagens que observa da sua utilização. Binnie foi eleito o “Apicultor do ano” pela Associação de Apicultores da Geórgia em 2003 e tem uma operação apícola com quase quatro décadas.

a invernagem de colónias de abelhas: maneio de preparação

Iniciei hoje a minha semana de trabalho no campo. Estive ocupado com a inspecção das colónias instaladas em dois dos quatro apiários activos. Nestes dias tenho no plano realizar um conjunto de tarefas que visam atingir dois objectivos principais:

  1. Preparar as colónias o melhor possível para o período de invernagem que se aproxima;
  2. avaliar o efeito das acções remediativas encetadas para o controlo da varroose.

Para alcançar o primeiro objectivo publico o foto-filme das acções empreendidas e observações realizadas:

Colocação das réguas de entrada da colmeia na posição de inverno.

Se no periodo do ano em que as temperaturas máximas ultrapassa os 25ºC deixo o óculo da prancheta semi-aberto para que elas decidam se querem ou não a ventilação superior…

… e algumas colónias aparentemente desejam esta ventilação superior porque não fecham com própolis este espaço aberto…
… outras aparentemente não desejam esta ventilação superior porque fecham com própolis o espaço aberto…

… nesta época em que as temperaturas máximas ficam de forma regular abaixo dos 25ºC fecho completamente o óculo da prancheta.

Outras das tarefas passou por avaliar as reservas de mel e reforçar as colónias que me pareceram escassas neste recurso. Tenho como referência a necessidade de ter 4 quadros bem preenchidos de mel por colónia. Estes 4 quadros garantem um total de 10 a 12 kgs de mel, o suficiente para que as minhas abelhas passem os próximos meses 3 meses com hidratos de carbono de qualidade e na quantidade indispensável para a manutenção dos mecanismos individuais e colectivos a uma eficiente termorregulação. Assim substituo os quadros leves com poucas reservas por quadros pesados bem fornecidos de reservas.

Quadros leves retirados e…
… substituídos por quadros pesados com boa quantidade de mel.

De que “cartola mágica” sairam estes quadros com mel?

… das inevitáveis “colmeia armazém“, e que vai receber os quadros leves.

Foi também a oportunidade para verificar/confirmar as novas reservas de pão-de-abelha fresco tão importante para a alimentação desta geração de abelhas de inverno que está agora a ser criada, assim como indispensável para a alimentação da futura primeira geração de abelhas do próximo ano, lá para meados de janeiro.

Criação larvar com aquela boa cor pérola e a “nadar” em papa larval.
Stong bees a serem criadas exclusivamente com os recursos naturais do território!

a solução de um caso concreto de uma colónia com pms

Hoje a chegada ao apiário, onde localizei ontem uma colónia com sinais inequívocos de PMS, foi anunciada novamente pelo levantar voo da comunidade de abelharucos que por ali está instalada. Já os começo a ver com alguma simpatia e até esperança de que possam estar a contribuir para as zero velutinas que vi este ano nos meus apiários.

O que me levou ao apiário não foi contudo a intenção de observar as acrobacias aéreas dos abelharucos. Fui solucionar, o mais rapidamente possível, o caso da colónia com PMS.

Desta colónia, retirei 8 quadros com reservas que não apresentavam criação absolutamente nenhuma e coloquei esses quadros valiosos numa colmeia armazém deste apiário depois de sacudidas todas as abelhas.

A colónia doente, que ficou apenas com os dois quadros que apresentavam criação e respectivas abelhas, foi fechada e retirada do apiário.

Foi transportada para minha casa e colocada num cantinho da horta. Para eliminar as abelhas decidi introduzir água com detergente pelo óculo da prancheta.

Esta foi a solução que achei ser a melhor para este caso concreto de uma colónia já demasiado fragilizada pelo PMS, com uma população de abelhas que não chega para cobrir as duas faces de um quadro e muitas delas doentes pelas viroses, em particular o VAD.

Caso esta colónia tivesse mais abelhas e caso o PMS não estivesse tão avançado, muito provavelmente teria sido tentado a retratar e fazer um esforço mais para a apoiar . Não sendo isso o que vi, decidi retirá-la com a máxima urgência do apiário e eliminar este super-organismo moribundo, como recomenda qualquer manual de boas práticas da pecuária.

Conto em breve, e com um pouco mais de tempo, voltar ao caso desta colónia, que por ser único nos meus apiários nos últimos anos, pretendo aprofundar um pouco mais, agora na perspectiva da formulação de 3 ou 4 hipóteses alternativas que possam explicar as causas deste conjunto infeliz de eventos.

das abelhas resistentes e das cabras sapadores

No passado dia 4 de agosto informaram-me que, num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, as cabras de um pastor que partilham o mesmo território tinham derrubado uma colmeia. Ao final da tarde desloquei-me a esse apiário para recolocar no assento não uma mas duas colmeia que estavam tombadas pelo chão completamente viradas ao contrário. Não mereceria este episódio ser trazido aqui, outros semelhantes já me têm acontecido esporadicamente (nesses outros casos provocados não por cabras mas por vitelos e/ou vacas), não fossem dois aspectos do maneio que julgo poderão interessar outros companheiros de lide.

As duas colmeias que se cruzaram no caminho das cabras sapadores!

Hoje tive oportunidade de regressar ao apiário e analisar o estado do ninhos de todas as colónias deste apiário, nomeadamente as duas colónias que haviam sido tombadas.

Na colónia da esquerda verifiquei que estava zanganeira apresentando criação fechada de zângão em alvéolos de obreira. Fazendo alguns cálculos leva-me a supor que as colmeias foram tombadas por volta de 27 de Julho: a postura das obreiras poedeiras intensifica-se passados cerca de 28 dias após a postura do último ovo da rainha perdida, e as larvas de zângão são operculadas após 9 dias a contar do ovo de primeiro dia; sendo assim e recuando 37 dias a partir do dia de hoje encontramos a data provável do choque frontal entre as cabras e o assento das colmeias tombadas.

Este é um dos três quadros que a colónia apresentava com postura de poedeiras. Ainda que existam sempre abelhas poedeiras em todas as colónias o seu número aumenta, assim como a expressão da sua postura, numa situação de orfandade irresolúvel pelas abelhas.
Nesta altura do ano a minha solução passa por eliminar a colónia zanganeira e colocar estes quadros com a criação raspada numa colónia viável para que esta aproveite a proteína destas larvas de zângão.

Na colónia da direita verifico que este acidente não provocou um desfecho semelhante ao da colónia da esquerda. Tem rainha ao dia de hoje, com uma postura vibrante, mas… vi meia-dúzia de abelhas com as asas deformadas e vi “isto” num dos quadros…

… alguns alvéolos com pupas desoperculados pelas abelhas (na foto conto 7 que não me levantam dúvidas).

Este comportamento de desoperculação de alvéolos é a manifestação de um certo grau de comportamento higiénico por parte das abelhas, e surge habitualmente na presença de um grau de infestação pelo ácaro varroa relativamente elevado**. Se alguns apicultores acham que este comportamento é por si só sinónimo de abelhas resistentes ao varroa e/ou de linhas excepcionalmente higiénicas e com genética a explorar e desenvolver, eu e outros achamos que este comportamento é um comportamento banal e padrão presente em quase todas as colónias quando sujeitas a uma taxa de infestação que está a atingir valores elevados. Não há neste comportamento nada de excepcional nem superlativo! Pelo que vou vendo estas colónias irão sucumbir aos ácaros e aos vírus por eles transmitidos, não se fazendo nada para ajudar as abelhas. A natureza, intensidade e extensão deste comportamento nas minhas colónias revelou-se até agora insuficiente para me permitir cruzar os braços e esperar que as colónias resolvam o problema. Como não acho correcto fazer marketing com afirmações despudoradas e mal fundamentadas sobre ter abelhas resistentes e, ao mesmo tempo, devo tirar as devidas implicações desta “filosofia céptica” sobre o que é ou não é um traço de resistência, apoiei esta colónia com os recursos disponíveis no momento: dupliquei a dosagem de Apivar.

Colmeia da direita com 4 tiras de Apivar.

E porque adicionei mais duas tiras de Apivar às duas que já lá estão há cerca de mês e meio? Lembro que esta colónia esteve tombada, de pernas para o ar, cerca de 8 a 10 dias, com as duas tiras de Apivar, que tinha colocado cerca de 15 dias antes, fora do sítio indicado. No dia em que as voltei a recolocar no assento não estive com grandes preocupações de colocar as tiras no sítio adequado dada a agitação das abelhas, e só hoje passados 37 dias da data que estimo ter ocorrido o acidente fiz uma inspecção mais atenta. Como só nesta colónia vi o fenómeno de “cria calva” (designação espanhola para o fenómeno que descrevi) atribuo a causa da falta de eficácia no controlo do ácaro à incorrecta localização das tiras. Como entretanto as tiras foram perdendo “potência” pela exposição ao ar (o amitraz degrada-se na presença do oxigénio) e a infestação foi ganhando “potência” entendi que colocar mais duas tiras iria equilibrar as premissas deste jogo de vida ou morte entre as abelhas e o ácaro.

** a traça da cera também provoca a desoperculação dos alvéolos das pupas. Neste caso surgem habitualmente meia-dúzia de alvéolos adjacentes desoperculados e em linha uns com os outros.

verificação da eficácia do tratamento da varroose: a minha opção

Tendo verificado no início da semana passada a eficácia do tratamento de verão da varroose num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, hoje fiz essa mesma verificação no segundo apiário que tenho à mesma altitude. Também neste apiário, com cerca de 40 colmeias, as impressões que retirei por observação são francamente animadoras. Para confiar nestas verificações “a olho”, sem recurso a outro tipo de testagem, socorro-me de um conjunto de imagens mentais daquilo que não desejo ver e daquilo que desejo ver.

Não desejo ver:

  • Padrão de criação irregular;
  • Criação calva (criação desoperculada);
  • Ácaros varroa presentes nas abelhas adultas;
  • Os ácaros deslocando-se sobre os opérculos da criação selada;
  • Ácaros sobre as larvas (geralmente as larvas apresentam-se distorcidas ou semi-devoradas);
  • Número relativamente baixo de abelhas adultas;
  • Ausência de ovos e de larvas (devido à falta de abelhas nutrizes para as alimentarem);
  • Mestreiros de substituição (parece que as abelhas “culpam” a rainha pelo seu estado deplorável de infestação);
  • Abelhas rastejando na entrada da colmeia;
  • Abelhas com asas deformadas.

 Quando se começa a ver pupas com a cabeça devorada (em vários alvéolos), isso é um sinal de que os níveis do ácaro estão altos.

Passadas 4 semanas o início do tratamento (com Apivar) não verificar nenhum dos sintomas em cima identificados reforçam em mim duas convicções: primeira, o tratamento foi iniciado num momento oportuno (taxa de infestação das abelhas adultas inferior a 3%) e, segunda, o tratamento está a ser eficaz.

Desejo ver:

  • Colónias bem povoadas;
  • Colónias com criação nos três estádios de desenvolvimento (ovos, larvas e pupas);
  • Colónias com criação operculada compacta;
  • Colónias equilibradas quanto a reservas (mel e pão-de-abelha) e com espaço para a rainha fazer postura;
  • Abelhas novas ou a emergir com asas bem formadas.
Foto de uma colónia típica deste apiário à data de hoje.
Foto de hoje de um quadro com criação compacta, o que me deixa muito tranquilo acerca da eficácia do tratamento no controle da varroose.

Como trato de acordo com o calendário (não faço tratamentos profiláticos, nem faço tratamentos debaixo da filosofia de gestão integrada de pestes), como tenho muitas dúvidas acerca da fidedignidade da avaliação da taxa de infestação de todas as colónias de um apiário com base numa amostra de 20% a 30% das colónias desse apiário, tenho recorrido este método expedito: durante o período de tratamento, que se prolonga por 10 a 12 semanas, faço em média 3 ou 4 vezes esta verificação a olho de cada uma das colónias do apiário. Esta verificação permite-me também ajustar as tiras à câmara de criação e realizar outras tarefas na preparação para a invernagem, como por exemplo substituir algum quadro por outro mais adequado ao período que se avizinha.

Antes do ajustamento das tiras de Apivar à actual câmara de criação.
Depois do ajustamento à actual câmara de criação.
Os quadros como os da direita foram retirados e substituídos por quadros como os da esquerda. Acredito que ainda não há suplemento alimentar, por muita qualidade que tenha, que ajude a criar abelhas de inverno mais longevas e saudáveis que o mel e o pão-de-abelha.
Os quadros com mel estavam ali ao lado, nas colmeias-armazém!

bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha: a solução que me encontrou

Surgiu há poucos dias no Bee-L (fórum de apicultura de origem norte-americana) uma questão muito interessante de um apicultor e que serve de motivo para esta publicação. Perguntava esse apicultor o que poderia fazer para evitar que os quadros do ninho ficassem bloqueados com pão-de-abelha. Para o necessário contexto desta questão falta dizer que este apicultor utilizava a configuração ninho+sobreninho, criando assim aquilo que alguns denominam de forma feliz um “ninho infinito”, em colmeias do modelo Langstroth. Ora este bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha é uma situação relativamente inconveniente, e que se agudiza a partir de meio/final do verão. Já passei por isso, já dei voltas à cabeça para encontrar uma solução, e acabou por ser a solução a encontrar-me. O processo, passo a descrevê-lo.

Até há três anos atrás (2017) a grelha excluidora era uma peça do meu equipamento que raramente ía para o apiário e, quando a utilizava, era de forma muito temporária. Neste período anterior a 2017, vinha a encontrar a meio/final do verão, e nas colmeias com ninho+sobreninho, boa parte dos ninhos abandonados pela rainha, que entretanto se tinha instalado de modo permanente no sobreninho. Em resultado deste comportamento natural das rainhas, os ninhos ficavam entregues às obreiras que, provavelmente, viveriam os seus dias mais felizes a encher com pólen todos os alvéolos assim que o último ciclo de cria nascia, enchendo de travessão a travessão os quadros com pão-de-abelha devidamente enzimado e compactado à cabeçada. Tenho ideia que havendo espaço, este é o modo natural de armazenagem das abelhas quando a postura da rainha começa a diminuir com o avançar da época ou quando na presença do ninho infinito: mel na abóbada superior, zona de criação na zona intermédia e pão-de-abelha na abóbada inferior do quadro ou, no caso, na caixa inferior da colmeia.

Nesta foto parcial de um quadro vemos pão-de-abelha armazenado junto ao travessão inferior, alvéolos vazios na zona intermédia e…
… pequena abóbada com mel operculado junto ao travessão superior do quadro (quadro invertido relativamente à sua orientação normal).

Em 2017, e para satisfazer a demanda de enxames e quadros com criação optei por utilizar mais frequentemente a grelha excluidora nas colónias que dediquei à produção de abelhas e criação. Para não ter que ter a preocupação de localizar a rainha sempre que retirava abelhas ou quadros com criação de um conjunto de colónias, a grelha excluidora foi uma peça importantíssima desta estratégia. Tendo terminado esta tarefa com sucesso, decidi deixar a excluidora em algumas colónias, até porque já tinha lido um número apreciável de opiniões positivas acerca da mesma, em particular por apicultores norte-americanos, canadianos e australianos. Resolvi testar, ainda que um conjunto de crenças em mim me dissessem que provavelmente iria correr mal. Para minha surpresa já na altura colhi boas impressões, mas como eram ao arrepio de muitas das minhas crenças da altura, decidi continuar o teste nestes últimos anos, antes de assumir para mim próprio e em público as conclusões que tenho vindo a publicar sobre as bem-feitorias das grelhas excluidoras de rainhas. Entre outras que já identifiquei e referi, verifico de forma reiterada que as colónias com a configuração ninho+sobreninho e com a rainha confinada no ninho por uma excluidora me surgem nesta altura do ano muito menos bloqueados pelo pão-de-abelha. Atribuo este efeito ao facto de a rainha, com a sua postura limitada ao ninho, ocupar uma parte significativa do mesmo com a oviposição. Naturalmente nos alvéolos onde a rainha põe um ovo, e as abelhas criam as suas larvas, não podem ser utilizados em simultâneo para armazenar pão-de-abelha. Como as duas tarefas são mutuamente exclusivas, a colónia encontra aquilo que me parece ser um melhor equilíbrio na gestão do espaço do ninho: um compromisso entre o espaço dedicado à oviposição e criação de abelhas e o espaço dedicado à armazenagem de pão-de-abelha.

Em jeito de conclusão, se tivesse que dar uma resposta ao apicultor que colocou a questão no Bee-L, dir-lhe-ía para colocar uma grelha excluidora de rainhas entre o ninho e sobreninho a partir de meio do período da enxameação reprodutiva. Nas minhas colmeias foi esta a resposta natural que as minhas abelhas me deram. O meu trabalho foi apenas ter a atenção necessária para as ouvir, apesar do ruído provocado pelas minhas crenças da altura.

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: desdobramentos e colocação da grade excluidora

Geralmente só realizo desdobramentos no período da enxameação reprodutiva, de finais de março a meados de maio nos apiários a 600 m de altitude, de meados de abril ao início de junho nos apiários a 900 m de altitude.

Colmeia armazém (foto de 15-04-2020).

Uma parte destes desdobramentos são realizados a partir de algumas das colmeias armazém que arrancaram bem. Num primeiro momento transfiro a rainha juntamente com um ou dois quadros com criação e um ou dois quadros com reservas para uma caixa núcleo.

Quadro com a rainha-mãe.

Este núcleo com a rainha-mãe é formado com pelo menos um quadro com abelhas a emergir.

Quadro com abelhas a emergir.

Cerca de 5 a 7 dias depois de orfanada esta colónia armazém é divida em 2 a 4 colónias filhas, cada uma fornecida de 2 ou três mestreiros já iniciados.

Mestreiros iniciados em situação de orfanação.
Divisão da colmeia armazém.

Nas colónias não desdobradas: passados sensivelmente de 2/3 do período de enxameação reprodutiva passo da configuração “ninho infinito” (ninho e sobreninho sem excluidora) à configuração ninho+grade excluidora+sobreninho.

Ninho de uma colmeia-armazém.
Colocação da grade excluidora com a rainha no ninho.
Colónia que irá receber quadros com reservas resultantes dos desbloqueios de outras colónias e, eventualmente, alguns quadros com cera laminada.

o maneio das colmeias armazém ao longo da época: meses do crescimento linear das colónias

Nos meses de fevereiro, março e até meados de abril as colónias entram gradualmente na fase de crescimento linear da sua população nos territórios onde as tenho assentes.

O território à saída do inverno (foto da erica australis na pré-floração, em 18-03-2019).

A postura das rainhas, que parou ou abrandou significativamente nos meses de novembro e dezembro, inicia-se/aumenta com a passagem do solstício de inverno, e na primeira quinzena fevereiro já é comum encontrar colónias com 3 e 4 quadros com boas áreas com criação.

Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de fevereiro (foto de 17-02-2020).
Exemplo de um quadro típico no ninho de uma colmeia durante a primeira quinzena de março (foto de 10-03-2020).

No início de março estas colónias estão a 40 ou 50 dias de distância do início da principal floração da primavera, o rosmaninho. Interessa-me iniciar o desbloqueamento dos ninhos substituindo os quadros mais bloqueados e colocando quadros desbloqueados com cera puxada no ninho, numa primeira fase (até meados de março), e quadros com cera laminada numa segunda fase (depois de meados de março).

Quadros que foram retirados do ninho para o desbloquear e que são colocados nas colmeias armazém ou em colónias com poucas reservas.
Quadros desbloqueados que foram retirados das colmeias armazém, de colónias mais fracas ou zanganeiras, ou que vieram da casa armazém onde foram guardados.

Os quadros mais bloqueados com mel e/ou pólen são colocados nas colmeias armazém, quando necessário; os quadros desbloqueados são fornecidos por algumas colmeias armazém, colónias mais fracas ou que ficaram zanganeiras durante o inverno, ou são os quadros que foram guardados, depois de crestados no verão do ano anterior.

Mais adiante, em março, quando a meteorologia e as abelhas dão os sinais que iniciaram a puxada da cera inicio a substituição de alguns quadros do ninho que apresentam pequenas áreas de criação por quadros com cera laminada.

A introdução de cera laminada na altura certa permite…
que uma quinzena depois, aproximadamente, as abelhas e a rainha apresentem quadros como os desta foto.

A partir da segunda quinzena de março costumo criar mais algumas colmeias armazém — entretanto algumas das que vieram do inverno são re-condicionadas somente ao ninho quando se justifica — para receberem quadros resultantes dos desbloqueios e da aplicação da regra “não mais de seis”. Estas novas colmeias armazém são formadas em colónias que arrancaram bem, que apresentam um rainha prolífica e que irão fazer bom uso desse novo espaço.

Formação de uma nova colmeia armazém entre meados de março e meados de abril.
Para receber os quadros resultantes dos desbloqueios ou…
… da aplicação da regra “não mais de seis”.
Porque elas desejam muito espaço no ninho nesta fase de crescimento!

Numa próxima publicação descreverei a gestão que faço destas colmeias armazém durante o período dos desdobramentos e forte fluxo de néctar (de meados de abril a meados de julho).