a minha resistência à resistência: o foco no foco

Nos EUA os projectos para criarem abelhas resistentes ao ácaro varroa já têm cerca de 30 anos, e foram/são levados a cabo tanto em instituições governamentais como em empresas privadas. Na Europa estes projectos surgiram um pouco mais tarde, pela mão de grupos de instituições e de apicultores. Por exemplo, próximo de nós, um grupo de técnicos da Universidade de Córdova trabalhou na selecção de linhas resistentes em abelhas ibéricas na década passada… até ao momento em as colónias desapareceram, alegadamente roubadas.

Os mecanismos de resistência conhecidos são vários, entre os quais o SMR, o VSH e o REC. Esta heterogeneidade de mecanismos origina dificuldades na selecção de um traço e na sua avaliação rigorosa (ver este artigo publicado em outubro de 2021, em que um dos co-autores é Peter Rosenkranz, um dos especialistas em varroa mais reconhecido e citado pelos seus pares: Reproduction of Varroa destructor does not elicit varroa sensitive hygiene (VSH) or recapping behaviour in honey bee colonies (Apis mellifera)).

Os programas de selecção de abelhas resistentes melhor documentados que eu conheço são os de Keith Delaplane e os de Randy Oliver. Ambos referem as dificuldades, em seleccionar, replicar e estabilizar a um bom nível estas linhas resistentes (ver aqui e aqui). Obviamente, um e outro, são cientistas/experimentadores, não são vendedores de rainhas resistentes!

Artigos de revisão acerca dos avanços destes programas de criação de linhas resistentes e da transferência destas linhas para os apiários de todos nós, referem resultados muito modestos para tanta investigação, tanto conhecimento gerado, tantas linhas escritas e tantas esperanças depositadas (ver este artigo, publicado em 2020, de revisão da literatura nos últimos 30 anos: Three Decades of Selecting Honey Bees that Survive Infestations by the Parasitic Mite Varroa destructor: Outcomes, Limitations and Strategy).

Olhando para a Natureza e procurando aprender com as lições que nos dá, verificamos que os enxames naturalmente resistentes estão massificados num continente, África, e num sub-continente, América do Sul. O que nos está a dizer a Natureza?

  • A seleção natural pode resultar na resistência de toda a população em grandes populações panmíticas apenas quando uma grande proporção da população sobrevive à invasão inicial de Varroa. Foi o que aconteceu em África e na América do Sul.
  • Quando, após a invasão de Varroa, uma grande parte da população de abelhas entra em colapso ou é protegida contra os ácaros por tratamentos químicos, a seleção natural para resistência não tem sucesso. Foi o que ocorreu na Europa e na América do Norte.
  • A estrutura panmítica de acasalamento das abelhas evita a seleção natural local para resistência, porque os genes de resistência se dispersam em populações vizinhas a uma taxa maior ou igual à taxa local de recrutamento desses genes por seleção.
  • A seleção por cruzamento pode aumentar o nível de resistência das colónias e, assim, aumentar a proporção de colónias resistentes na população como um todo. Quando essa proporção é alta o suficiente, os apicultores podem interromper o tratamento químico e a seleção natural pode prosseguir.
  • Em populações fechadas, como nas ilhas, a seleção natural não é neutralizada pela dispersão de genes de resistência, e a seleção natural pode prosseguir, a menos que seja restringida pela endogamia.

fonte: Natural selection, selective breeding, and the evolution of resistance of honeybees (Apis mellifera) against Varroa (2020)

Terje Reinertsen, um dos poucos apicultores europeus a trabalhar com linhas alegadamente resistentes.

Dando de barato que sabemos muito bem o que estamos a selecionar e que sabemos muito bem o que estamos a avaliar (não, não o sabemos!); dando de barato que as afirmações dos vendedores de rainhas resistentes não são exageradas (e muito provavelmente são-no!); dando de barato que nos últimos 30 anos se deram enormes progressos e estes foram transferidos para os apiários de todos nós (e sabemos muito bem que não, não foram!), o foco do foco da minha resistência à resistência enquanto “a solução” para a apicultura dos dias de hoje está descrito no parágrafo em baixo.

Se dou de barato os aspectos em cima, não posso ignorar o caminho que a Natureza seguiu: os programas de criação de abelhas resistentes terão um real impacto na apicultura europeia quando estes conseguirem de uma forma massificada e rápida substituir as linhas não resistentes. A proporção de linhas resistentes tem de estar generalizada pelos apiários europeus num curto espaço de tempo. Se com a oferta diminuta de linhas resistentes dos últimos 30 anos, se com projectos de micro-escala não alcançamos nada de especial nestas últimas três décadas, por que razão acreditarei que nos próximos 30 anos com a mesma abordagem, os resultados serão diferentes? Ou a introdução de rainhas resistentes é massiva e súbita ou, se assim não for, temo que o sistema de acasalamentos ao acaso, típico destes insectos, fará soçobrar estes esforços.

No caso português, onde existem cerca de 700 mil colónias, em tese seria necessário substituir cerca de 95% das actuais 700 mil rainhas não resistentes por rainhas resistentes de matriz iberiensis. Até lá ou levamos as poucas colónias resistentes para uma ilha sem abelhas, ou aprendemos a controlar os acasalamentos, ou aprendemos a criar uma relação preferencial com o nosso fornecedor de linhas resistentes, confiando que terá sempre stock disponível para nós, ou … aprendemos a gerir e utilizar melhor os acaricidas que temos actualmente e outros que irão surgir.

Nota: Quem lê com atenção e sem pre-conceitos as publicações que já fiz sobre linhas resistentes há muito verificou a atenção e carinho que dou a esta abordagem, à qual reconheço muitos méritos. Contudo isso não implica uma cegueira e uma obstinação na aceitação que será “A solução” para a varroose na apicultura. Não o é hoje, não o será num futuro próximo e duvido que alguma vez o venha a ser pelas razões que refiro em cima. Mesmo que o venha a ser interrogo-me que garantias temos que as varroas não evoluirão e não conseguirão aprender a esquivar-se e sobreviver aos mecanismos que seleccionámos para as nossas abelhas resistentes? O que a varroa mais nos tem mostrado é a sua enorme adaptabilidade, tão típico das espécies que se reproduzem em ciclos muito curtos.

3 comentários em “a minha resistência à resistência: o foco no foco”

  1. Nas ilhas pode procurar-se exterminar a varroa, o que foi conseguido em algumas ilhas dos Açores e na ilha do Porto Santo. Nesta depois de colonias de abelhas terem morrido e após um período de quarentena, foram introduzidas novos enxames sem varroa.

  2. Viva, Eduardo!
    Obrigado por “mais um” EXCELENTE relato, retrato perfeito da realidade que se nos afigura no mundo da apicultura (sobretudo, no nosso Portugal!!!).
    Sou pertinaz seguidor das suas múltiplas composições. Embora algo principiante nesta área, muito tenho aprendido e tendo, uma vez mais, a dar-lhe toda a razão e a concordar a 100% com o que (tão bem!!!) ajuíza e redige. Precisamos desta linha de pensamentos (pensadores!!!) e não de créditos desbaratos nos fornecedores/vendedores de acaricidas ou nos produtores de rainhas selecionadas (cuja génese, poucos tempos depois, poderá cruzar-se arbitrariamente com linhagens comuns e mais propensas a…).
    A ver vamos como será o futuro; ao que vemos, continuaremos a passo de caracol e sem grande fio condutor, sem apoios, sem certezas e sem uma verdadeira luz ao fundo do túnel em vários campos deste sector.
    Cumprimentos.

  3. Boas Eduardo
    Já há muito que também é a minha preocupação, porque ja há muito vi a resistência da varroa e a troca de tratamentos é uma mais valia.
    E os teus comentários a cerca deste assunto vão em direção ao que penso.
    Obrigado pela partilha e boa continuação.

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