a importância do acasalamento controlado na selecção e melhoria de abelhas

Será expectável seleccionar e melhorar as abelhas no caso de as rainhas fecundarem livremente num ambiente em que não se controlam os zângãos? Vejamos primeiro o que nos dizem os especialistas.

Rainha regressando do seu voo de acasalamento.

Contexto: Os procedimentos de acasalamento controlados são amplamente aceites como um aspecto chave para o sucesso da selecção em quase todas as espécies animais. Nas abelhas, no entanto, o acasalamento controlado é difícil de conseguir. Contudo, tem havido várias tentativas de melhorar as abelhas usando rainhas acasaladas livremente. Nestes esquemas de melhoria, a seleção ocorre apenas do lado materno, uma vez que os zângãos são casos aleatórios da população.

Resultados: Nossas simulações mostraram uma redução do sucesso das melhorias entre 47 e 99% se o acasalamento não é controlado. Nos casos mais drásticos, praticamente nenhum ganho genético é gerado sem acasalamento controlado.

Conclusões: Concluímos que […] o acasalamento controlado é imperativo para esforços de melhoria bem-sucedidos.

fonte: https://gsejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12711-019-0518-y

Com alguma frequência leio e ouço apicultores afirmarem que estão a seleccionar e melhorar as suas abelhas, isto num contexto em que não têm qualquer tipo de controlo sobre os zângãos presentes no território. Tenho, portanto, muitas dúvidas acerca do rigor e realismo destas afirmações. Ou sabem alguma coisa que eu desconheço, ou desconhecem aspectos básicos que deveriam conhecer. Sabemos que 90% dos acasalamentos ocorrem a uma distância até 7,5 km (ver nesta publicação).  Não é credível que em Portugal, um dos países da Europa com uma das mais elevadas densidades de colónias por Km2, exista uma área com 15 km de circunferência com zângãos todos eles provenientes de colónias “melhoradas”. Sabendo que as melhorias que mais nos interessam estão muitas vezes associadas a conjuntos de genes alelos recessivos e/ou aditivos (ver nesta publicação) e/ou epistáticos, portanto com contributos de origem paterna, seria um jackpot acontecer melhorias sistemáticas e sustentáveis num contexto de acasalamento natural, com várias dezenas de zângãos na jogada (ver nesta publicação). Estas minhas dúvidas estão fortemente interiorizadas porque desde os meus 6 anos que vou a apiários e, no geral, as abelhas de hoje parecem-me muito semelhantes às de cerca de 50 gerações atrás. Outros poderão ter opinião diferente, estranho seria que não tivessem. A estes, peço que identifiquem especificamente em que aspectos as suas abelhas divergiram notavelmente nos últimos 40 a 50 anos?

Nota: em 2017 já tinha feito considerações acerca deste tema.

os Varroa destructor de inverno são menos fecundos que os de verão

No seguimento desta publicação, traduzo em baixo o sumário de um estudo que revela um conjunto de dados com muito interesse para a compreensão da questão que coloquei: qual a razão para as aparentes diferenças na resposta aos tratamentos entre as gerações de varroas que surgem no inverno quando comparadas com as gerações de verão. Os dados deste estudo revelam que a fecundidade e fertilidade dos ácaros é mais baixa no inverno que no verão. No seguimento deste estudo, valeria a pena dar-lhe continuidade com o intuito de tentar perceber melhor os mecanismos subjacentes e intervenientes na maior mortalidade dos ácaros macho no inverno e, posteriormente, verificar se é possível replicar esses mecanismos, por algum tipo de maneio exequível em campo, com vista à sua utilização durante o verão pelos apicultores.

Antes da tradução do sumário, julgo que será pedagógico re-lembrar esquematica e sumariamente o ciclo reprodutivo do varroa.

Os varroas mãe colocam o primeiro ovo aproximadamente 70 horas após a operculação do alvéolo onde está a larva de abelha hospedeira. Este ovo não é fertilizado e dá origem a um macho, enquanto os três a quatro ovos subsequentes, que são postos com intervalos de aproximadamente 30 horas, dão origem a fêmeas filha que serão fecundadas pelo ácaro macho seu irmão. Estas descendentes fêmeas fecundadas e férteis emergem do opérculo com as novas abelhas dando continuidade ao ciclo de vida destes parasitas.

Título: Reprodução do Varroa destructor durante o inverno nas colónias de Apis mellifera no Reino Unido

Sumário: “O ciclo reprodutivo do Varroa destructor inicia-se com a invasão dos alvéolos com larvas de abelha durante os meses de inverno (janeiro a meados de março) e foi investigado em quatro colónias de Apis mellifera no Reino Unido. O número de descendentes viáveis ​​produzidos durante o ciclo reprodutivo, por ácaro, foi de apenas 0,5 durante o inverno em comparação com 1,0 durante o verão. Isso deveu-se principalmente a um grande aumento na população de ácaros inférteis (inverno 20%, verão 8%). Esse aumento pode ser explicado pelo alto nível de mortalidade de filhos machos observada no inverno (42% no inverno contra 18% no verão), o que resulta em quase metade dos ácaros fêmeas recém-criados não fecundados. Uma vez que os ácaros mãe põem um número semelhante de ovos no inverno (X = 4,7) e no verão (X = 4,9), e o nível de mortalidade sofrido pela descendência feminina é semelhante no inverno (7%) e no verão (6% ), provavelmente não é o estado fisiológico do hospedeiro que causa o alto nível de não fecundação no inverno, como se suspeitava anteriormente.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/11746259_Varroa_destructor_reproduction_during_the_winter_in_Apis_mellifera_colonies_in_UK

perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2019-2020: dados, análise e discussão

Esta publicação, com a tradução de excertos do mais recente relatório da Chambre d’Agriculture d’Alsace acerca das perdas de colónias de abelhas ocorridas no inverno de 2019-2020 nas três regiões da região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine), segue uma tradição já com vários anos de atenção dada aos excelentes relatórios produzidos por esta Câmara — seguindo as hiperligações encontram as traduções de sucessivos relatórios publicados em 2016, 2017 e 2018.

Aspectos gerais do relatório: 1) apresenta a quantificação objetiva da perda de colmeias no inverno 2019-2020, a partir das respostas recolhidas pelo inquérito enviado aos apicultores da região; 2) identifica os factores relacionados com perdas elevadas, a fim de sugerir cursos de ação para minimizá-los.

Ponto 1), responderam perto de 1 000 apicultores que invernaram perto de 40 mil colónias. Destas, morreram durante o inverno 9,3%; ficaram zanganeiras ou demasiado fracas para produzirem 9,2%. 81,5% estavam em boas condições à entrada da primavera de 2020.

Ponto 2), ao comparar as perdas sofridas pelos apicultores de acordo com alguns parâmetros, o relatório estabelece que há:

  • 2.1) correlações fortes entre as perdas e o medicamento escolhido contra o Varroa, assim como com a data de início do tratamento contra o Varroa;
  • 2.2) correlações fracas entre perdas e o número de colónias por apicultor, áreas geográficas dos apiários, transumância, renovação de rainhas, presença de sintomas de “varroa”, alimentação;
  • 2.3) correlações inexistentes entre perdas e número de colmeias na vizinhança, presença do vespão asiático, estado das colónias e recursos alimentares disponíveis.

Aspectos mais específicos do relatório: no decurso da minha experiência de uma relativa ineficácia do segundo tratamento anual com Apivar — esta ineficácia não significa necessariamente varroas resistentes; não tenho dados para o confirmar ou infirmar — vou procurar testar em 2021 uma estratégia mista, com utilização de princípios activos sintéticos e não-sintéticos (químicos todos são!). Neste contexto, os dados apresentados no relatório interessam-me mais que nunca, em especial os relativos à eficácia dos medicamentos não-sintéticos utilizados pelos apicultores desta região francesa.

Das três famílias de medicamentos não-sintéticos o MAQS (baseado em ácido fórmico) está associado ao menor número de perdas invernais (13,8%). Os medicamentos à base de timol e o Varromed estão associados a resultados menos bons, 38,4% e 40,2% de perdas invernais, respectivamente.

Talvez pelo facto de o Varromed ser um medicamento recente e, ao mesmo tempo, ter sido aquele que foi utilizado pelo maior número de apicultores em modo “bio”, no universo dos que responderam ao questionário, o relatório é mais pormenorizado e analítico, distinguindo estes dois cenários: entre os apicultores que referem que utilizaram o Varromed desde a primavera e utilizaram também no verão, como indicado pelo fabricante — fazer cerca de 10 aplicações ao longo do ano — as perdas invernais foram de 29%; entre os apicultores que o utilizaram somente no verão as perdas no inverno 2019-2020 foram de 54%. À luz destes dados os relatores recomendam que o Varromed não deve ser usado “no final da temporada” como se de um tratamento convencional se tratasse.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/documents%20ressources/2020_synthese_enquetes_printemps_2020_grand_est_vfinale.pdf

Nota: uma vez mais importa-me realçar que uma correlação não implica causalidade.

própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Desde há muito que são popularmente referidos os benefícios da própolis para a prevenção e recuperação de alguns estádios doentios. Gradualmente têm vindo a ser realizados estudos controlados que vão confirmando alguns desses benefícios (ver aqui). Dentro desta linha de investigação foi publicado, há poucos dias atrás, este estudo que fundamentadamente alimenta a esperança de a própolis ter efeitos positivos na luta contra o vírus SARS-CoV-2 e na redução da resposta inflamatória em pacientes com a doença COVID-19. Agradeço ao Paulo Matos ter-me chamado a atenção para este artigo científico.

Título: Própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Aspectos principais

  • A própolis, produzida por abelhas a partir de resinas vegetais bioativas, tem atividade antiviral. 
  • A própolis pode potencialmente interferir na invasão da célula hospedeira pelo SARS-CoV-2. 
  • A própolis bloqueia a PAK1 pró-inflamatória, uma quinase altamente expressa em pacientes com COVID19. 
  • A própolis padronizada tem propriedades consistentes para pesquisas clínicas e laboratoriais. 
  • A própolis é um alimento funcional seguro, amplamente consumido, com propriedades medicinais.

Conclusões: Considerando o grande número de mortes e outros tipos de danos que a pandemia de COVID-19 está causando, há uma necessidade urgente de encontrar terapias que possam ajudar a evitar ou reduzir a infecção por SARS-CoV-2 e suas consequências. A própolis tem efeitos antiinflamatórios e imunorreguladores comprovados, incluindo a inibição da PAK-1. Além disso, a ligação à ACE2, um dos principais alvos do vírus SARS-CoV-2 para a invasão da célula hospedeira, é inibida pela própolis. Componentes da própolis, incluindo CAPE, rutina, quercetina, kaempferol e miricetina têm demonstrado in silico uma forte interação com a ECA2. Kaempferol reduziu a expressão de TMPRSS2. Além destas atividades, a própolis não interage com as principais enzimas hepáticas ou com outras enzimas essenciais de acordo com os critérios adotados pela Organização Mundial de Saúde, portanto, a própolis pode ser usada concomitantemente aos principais medicamentos sem risco de potencialização ou inativação. Para determinar se a própolis afeta especificamente a SARS-CoV-2, serão necessárias mais pesquisas. Mas como a própolis é um produto isento de riscos, exceto para aqueles que podem desenvolver alergia a ela, as conhecidas atividades biológicas desse produto natural apícola levam-nos a sugerir seu uso para reduzir o risco e o impacto da infecção e como coadjuvante do tratamento.

fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0753332220308155?fbclid=IwAR3jpAkwjS8s2eL-U0CYmYYbGxGUx5ZzWb0ySftKCGrR207xj_kKhcza_Bk

inventário da susceptibilidade do Varroa destructor ao amitraz e tau-fluvalinato em França

Depois de cerca de 4 anos a tratar as minhas colónias de abelhas com Apivar e de acordo com um calendário afinado e ajustado ao território que ocupam, este ano verifiquei que o tratamento de verão não foi suficientemente eficaz em cerca de 30% das colónias tratadas. Entre as várias hipóteses susceptíveis de explicar o sucedido surge a de uma possível resistência ao amitraz em algumas das populações de ácaros que parasitavam estas abelhas. Até à data tinha conhecimento de dados fidedignos de resistência ao amitraz na Argentina e EUA. Este estudo francês, publicado recentemente (agosto deste ano), identifica uma percentagem elevada de ácaros (71% dos ácaros da amostra) não susceptíveis à dose letal habitual de amitraz para um LC90 (0.4 µg/mL).

A imagem da direita representa a dimensão de um ácaro varroa num corpo humano respeitando a regra da proporcionalidade.

O Varroa destructor é uma das maiores ameaças para a abelha europeia Apis mellifera. Os acaricidas são necessários para controlar a infestação de ácaros. Três substâncias químicas acaricidas convencionais são usadas na França: tau-fluvalinato, flumetrina e amitraz. O tau-fluvalinato foi usado durante mais de 10 anos antes de apresentar perda de eficácia. Em 1995, os testes através de bioensaios mostraram a resistência do primeiro ácaro ao tau-fluvalinato. Em alguns países, o amitraz foi amplamente utilizado, também levando à resistência do V. destructor ao amitraz. Em França, alguns testes de campo de eficiência mostraram uma perda de eficácia do tratamento com amitraz. Adaptámos o bioensaio de Maggi e colaboradores para determinar a susceptibilidade do ácaro ao tau-fluvalinato e amitraz em França em 2018 e 2019. A concentração letal (LC) que mata 90% das estirpes de ácaros suscetíveis (LC90) é 0,4 e 12 µg / mL para amitraz e tau-fluvalinato, respectivamente. Estas concentrações foram escolhidas como fatores determinantes para avaliar a susceptibilidade dos ácaros. Alguns ácaros, coletados em diferentes apiários, apresentam resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato (71% das amostras de ácaros apresentam resistência ao amitraz e 57% ao tau-fluvalinato). Como há poucas substâncias ativas disponíveis em França e se a resistência dos ácaros aos acaricidas continuar a aumentar, a eficácia dos tratamentos diminuirá e, portanto, serão necessários mais tratamentos por ano. Para evitar essa situação, uma nova estratégia precisa ser implementada e incluir a gestão da resistência dos ácaros. Sugerimos que o bioensaio será uma boa ferramenta para aconselhar os fazedores de políticas.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s10493-020-00535-w

avaliando a resistência a acaricidas para Varroa destructor em vários locais de Espanha

Estudo muito recente, publicado há um mês atrás (16 de setembro de 2020), e realizado no país vizinho.

A varroose é a doença causada pelo ácaro ectoparasitário Varroa destructor, uma das doenças mais destrutivas das abelhas. Em Espanha, existe uma grande preocupação porque existem muitas falhas terapêuticas após tratamentos acaricidas destinados a controlar surtos de varroose. Em alguns desses casos, não está claro se tais falhas são devidas à evolução da resistência. Portanto, é de grande interesse o desenvolvimento de metodologias para testar o nível de resistência em populações de ácaros. Neste trabalho, uma metodologia de bioensaio simples foi usada para testar se alguns relatos de baixa eficácia em diferentes regiões da Espanha estavam de fato relacionados com uma redução da sensibilidade do Varroa aos acaricidas mais usados. Este bioensaio mostrou-se muito eficaz na avaliação da presença de ácaros que sobrevivem após exposição a acaricidas. Nas amostras testadas, a mortalidade por cumafos variou de 2 a 89%; para o tau-fluvalinato, variou de 5 a 96%. Por outro lado, o amitraz causou 100% de mortalidade em todos os casos. Estes resultados sugerem a presença de Varroa resistente a cumafos e fluvalinato na maioria dos apiários amostrados, mesmo naqueles em que esses princípios ativos não foram utilizados nos últimos anos. A técnica de bioensaio apresentada aqui, sozinha ou em combinação com outras ferramentas moleculares, pode ser útil na detecção de populações de ácaros com diferentes sensibilidades a acaricidas, o que é de vital interesse na seleção do melhor manejo e / ou estratégia acaricida para controlar o parasita em apiários.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s00436-020-06879-x

mortalidade invernal e opções no controlo da varroose: dados em grande escala

Esta publicação apresenta os primeiros resultados obtidos em grande escala por 4 anos de inquéritos (2012–2015), realizados a uma amostra de 18 971 apicultores dos EUA, no que respeita às opções de maneio para o controlo da varroose e sua correlação com a perda de colónias de abelhas durante o inverno.

Título: Uso de métodos químicos [sintéticos e orgânicos] e não químicos para o controle do Varroa destructor (Acari: Varroidae) associados a perdas de colónias no inverno em operações de apicultura nos EUA [publicado em 2019]

Sumário: O ácaro Varroa destructor (Acari: Varroidae) é uma das principais causas de perdas de colónias de abelhas (Apis mellifera) durante o inverno, indicando que os apicultores devem controlar as populações de Varroa para manter colónias viáveis. Os apicultores têm acesso a vários varroacidas químicos e práticas não químicas para controlar as populações de Varroa. No entanto, nenhum estudo examinou os padrões em grande escala dos métodos de controle do Varroa nos Estados Unidos. Aqui nós utilizamos as respostas de 4 anos de inquéritos realizados anualmente a apicultores representando todas as regiões e tamanhos de operação nos Estados Unidos para investigar o uso de métodos de controle do Varroa e perdas de colónias no inverno associadas ao uso de diferentes métodos. Nós nos concentrámos em sete produtos varroacidas (amitraz, cumafos, fluvalinato, óleo de lúpulo [Hope Guard], ácido oxálico, ácido fórmico e timol) e seis práticas não químicas (remoção de cria de zângão, favos com alvéolos pequenos [4,9 mm], estrados sanitários, açúcar em pó, abelhas resistentes a ácaros e divisão de colónias) indicadas para ajudar no controle do Varroa. Descobrimos que quase todos os apicultores de grande escala usavam pelo menos um varroacida, enquanto os apicultores de pequena escala eram mais propensos a usar apenas práticas não químicas ou não usar qualquer controle do Varroa. O uso de varroacidas esteve consistentemente associado a perdas mais baixas no inverno, com o amitraz estando associado a menores perdas do que qualquer outro produto varroacida. Entre as práticas não químicas, a divisão das colónias esteve associada às menores perdas no inverno, embora as perdas associadas ao uso exclusivo de práticas não químicas fossem altas em geral. Nossos resultados indicam métodos de controle que são potencialmente eficazes ou preferidos pelos apicultores e, portanto, devem informar a experimentação que testa diretamente a eficácia de diferentes métodos de controle. Isso permitirá que os apicultores incorporem métodos de controle Varroa aos planos de maneio que melhoram o sucesso da hibernação de suas colónias.

fonte: https://academic.oup.com/jee/article-abstract/112/4/1509/5462560?redirectedFrom=fulltext

Algumas notas:

  • nos últimos anos a taxa de mortalidade invernal de colónias de abelhas tem sido superior nos EUA quando comparada com a que se verifica na UE (por ex., no inverno de 2017/18 a mortalidade foi cerca de 40% nos EUA e cerca de 16% na UE) ;
  • nos EUA o tratamento da varroose não é obrigatório ao contrário da UE;
  • nos EUA os medicamentos homologados para tratar doenças das abelhas (os acaricidas) não são comparticipados pelo estado, ao contrário da prática seguida na UE.

Reflexão: estes dados gerais, suportados em grandes amostras, permitem-nos ter uma visão “de helicóptero” e formular algumas conclusões muito valiosas a vários níveis, desde as políticas gerais para o sector até às decisões individuais na condução dos nossos apiários.

Estes dados gerais deverão ser complementados por dados a uma escala regional, porque há aspectos regionais que importa conhecer e estudar (ver estes já publicados por aqui, conduzidos na região da Alsácia francesa (1, 2 e 3).

Mais, não dispensam até estudos-de-casos para uma análise fina que permitam relevar e corrigir erros grosseiros a um nível individual, como este que ilustro em baixo (a foto é de uma colónia de um apiário pedagógico).

evidências sobre os benefícios para a saúde da inclusão do(a) própolis na dieta

Em 2019 foi publicado na revista Nutrients esta revisão dos estudos publicados entre 1990–2018 em torno das evidências sobre os benefícios para a saúde pelo consumo e/ou utilização do própolis.

“O(A) própolis é um produto com benefícios para a saúde já relatados, como melhoria da imunidade, redução da pressão arterial, tratamento de alergias e problemas de pele. Uma revisão da literatura e uma síntese foram efectuadas para investigar as evidências sobre os benefícios para a saúde relatados e a direção futura dos produtos com própolis. Usando uma estratégia de pesquisa predefinida, pesquisámos no Medline (OvidSP), Embase e Central quer estudos quantitativos quer qualitativos (1990–2018). Citação, referência, revisões manuais e consulta a especialistas também foram efectuadas. Estudos com ensaios clínicos randomizados (aleatórios) e dados da observação em humanos foram incluídos. […]. Um total de 63 publicações foram analisadas. A maioria foram estudos efectuados em células e em animais, com alguns testes realizados em humanos. Há dados muito significativos e prometedores do própolis enquanto agente antioxidante e anti-inflamatório eficaz, particularmente promissor na saúde cardiometabólica.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6893770/

As abelhas utilizam 0/a própolis para a defesa da cidade/colectividade, contra animais várias vezes maiores que elas, assim como contra microorganismos infecciosos, como os fungos e bactérias.

uma formulação em gel de ácido fórmico para o controle de ácaros (varroa e traqueia) em abelhas melíferas

Estudos com alguns anos e que, muito provavelmente, terão servido de ensaios percursores e inspiradores ao desenvolvimento do MAQS e outros tratamentos de gel com ácido fórmico. Medicamentos para a varroose com eficácia inferior a 90% creio que poderão ser homologados pela Agência Europeia do Medicamento (EMA), mas com a orientação para o aplicador dever acompanhar o tratamento com outras medidas de gestão integrada de pestes*.

“Uma formulação de gel de ácido fórmico a 65% e um sistema de veiculação, conhecido como pacote de gel de ácido fórmico Beltsville (BFA), foram desenvolvidos para controlar ácaros parasitas de abelhas. As concentrações de ácido fórmico em aplicações únicas de pacotes de gel BFA foram em média de 10-50 ppm dentro da colmeia, o que igualou ou excedeu os níveis de ácido fórmico obtidos por quatro aplicações líquidas sucessivas. Num estudo de campo da Primavera, uma única aplicação de pacotes de gel de BFA foi cerca de 70% eficaz no controle do Varroa jacobsoni, quando avaliados por tratamentos de acompanhamento com Apistan®. Em estudos com abelhas enjauladas, o controle do ácaro da traqueia, Acarapis woodi, aproximou-se de 100% ao oitavo dia. O pacote de gel de BFA é mais seguro de manusear do que o ácido fórmico líquido e, devido à sua liberação mais lenta, requer menos aplicações do que seu equivalente líquido. A eficácia contra o Varroa e ácaros da traqueia deve encorajar o uso de pacotes de gel BFA num programa geral para controlar os ácaros (varroa e/ou traqueia) que parasitam as abelhas.”

fonte: https://www.researchgate.net/publication/287849856_A_Gel_Formulation_of_Formic_Acid_for_the_Control_of_Parasitic_Mites_of_Honey_Bees

Um segundo estudo, agora com uma formulação com uma concentração de ácido fórmico a 85% obteve uma taxa de eficácia semelhante.

“Duas formulações de um gel à base de amido contendo 85% de ácido fórmico foram avaliadas para controlar o Varroa destructor em colmeias de abelhas. […] A eficácia média na redução da população Varroa foi de cerca de 73%.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/273259562_A_gel_formulation_of_formic_acid_for_control_of_Varroa_destructor

* À luz do que é feito na ficha técnica do Varromed:

4.4 Advertências especiais para cada espécie-alvo: VarroMed só deve ser usado como parte de um programa de controle integrado do Varroa. A eficácia foi investigada apenas em colmeias com taxas de infestação de ácaros baixas a moderadas.”

fonte: https://ec.europa.eu/health/documents/community-register/2017/20170202136456/anx_136456_en.pdf

perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2017-2018: dados, análise e discussão

Enquanto apicultor profissional (a minha renda anual depende exclusivamente dos proveitos alcançados por via das minhas colónias de abelhas, isto desde 2010) e enquanto amador das abelhas (tenho uma paixão por ajudar as minhas colónias a manterem-se vivas e saudáveis, particularmente durante os meses de escassez), a maior satisfação provem das baixas taxas de mortalidade invernais, que felizmente têm ficado abaixo dos 5% nos últimos anos. Sobre as abelhas já vi um pouco (experiência), já li um pouco mais (estudo), e já pensei um pouco mais ainda (tentando construir algum conhecimento), para que desta mistura saia o necessário, ano após ano, que me permita estar mais preparado frente a este grande desafio: manter os enxames de abelhas vivos e saudáveis para me darem a renda anual que procuro.

Uma das ferramentas para alcançar tal desiderato tem sido, como referi, as leituras, e nessas leituras destaco os magníficos relatórios da Chambre d’Agriculture d’Alsace, pelo contributo que têm dado à minha aprendizagem e reflexão. Aqui e aqui deixei traduzidos os relatórios produzidos nos dois anos anteriores (2016 e 2017). Apresento agora a tradução de alguns excertos do relatório publicado em 2018, acerca das perdas ocorridas no inverno de 2017-2018 nas mesmas três regiões, inseridas na região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine).

A região Grand Est

As respostas foram fornecidas por 640 participantes. A pesquisa abrange 534 respostas válidas que descrevem o ocorrido em 16.940 colmeias distribuídas por 2.737 apiários de inverno.

Uma panorâmica geral

Com 11,6% das colmeias a chegarem mortas à primavera de 2018 (e 9,7% das colmeias sem valor à entrada da primavera), a situação da apicultura na região do Grand Est é semelhante à perda média dos últimos nove anos. Combinando estas duas taxas, as perdas globais chegam, portanto, a 21,3% das colmeias invernadas pelos apicultores (colmeias mortas + sem valor). Não houve mortalidade excessiva na primavera de 2018.

De forma semelhante aos inquéritos anteriores, constata-se um número mais elevado de perdas nos apicultores com poucas colmeias face a outros com mais colónias. De acordo com os dados disponíveis, este excesso de mortalidade foi estimado em 56% a mais de perdas para apicultores com “menos de 10 colmeias” em comparação com as de apicultores profissionais.

E, uma vez mais, confirma-se a influência central das escolhas técnicas relacionadas com o combate ao parasita Varroa na sobrevivência das colónias.

Influência de rainhas jovens na sobrevivência da colónia
Ao todo, 9.075 colónias de abelhas tinham rainhas do ano (53,6% das colmeias).
O inquérito não solicitava que o apicultor diferencie as perdas sofridas por colmeias com e sem rainhas jovens. As estatísticas não são precisas, portanto. Contudo de acordo com os sentimentos pessoais dos apicultores:
– Os problemas decorrentes das rainhas parecem ser equivalentes aos de anos anteriores; – Colmeias com rainhas jovens não têm invernado nem melhor nem pior do que as outras.

Remoção de cria de zângãos (corte de cria de zângãos)
A remoção de cria de zângãos retarda a progressão da infestação de Varroa, mas não constitui um tratamento em si. Para ser útil, é necessário um mínimo de 3 ou 4 cortes por primavera (abril a junho / julho).
Entre os 534 apicultoresinquiridos, apenas 29 praticaram esse corte “pelo menos 3 vezes”. Sua taxa média de perdas é de 22,7% (contra 21,3% para aqueles que não praticaram).

Embora esta medida seja reconhecida pela sua ação na infestação por varroa (desacelerando a infestação na primavera), sua influência nas perdas no inverno parece insignificante. Esta observação é consistente com os dados de inquéritos anteriores. A falta de efeito mensurável nas perdas de inverno pode ser explicada por um lado pela fertilidade do Varroa (que recuperaria no final do ano o “tempo perdido” pelas acções de remoção de cria de zângão) e / ou pelos fenómenos de reinfestações entre apiários vizinhos, o que acabaria por anular a vantagem proporcionada pelo método no início da época.

Quais são as culturas/florações presentes no ambiente da maioria de suas colónias?
O inquérito pediu informações acerca das culturas/florações presentes em redor dos apiários. A ausência de culturas melíferas parece estar sistematicamente ligada a maiores perdas (exceto para urze);

No que diz respeito à urze, a sua presença está associada a um grande número de colmeias que perderam o seu valor. Trata-se principalmente de colmeias que ficaram zanganeiras (28% das colónias em território de urze ficaram zanganeiras, 5% ficaram muito fracas).
Sobre este aspecto em particular não é possível, com base nos dados disponibilizados pelo inquérito, realizar análises estatísticas mais precisas, dada por um lado a imprecisão das informações coletadas e por outro lado o tamanho da amostra (número baixo de apiários onde as urzes estavam presentes).
A rede Coloss planeia explorar esta questão com base em dados coletados nos vários países participantes.

Tratamento “principal” de fim de verão
O período escolhido para o controle do parasita Varroa destructor é no final da temporada de produção de mel (ou seja, julho / agosto / setembro/outubro no Grand-Est).
Em 2017, a colocação dos tratamentos começou timidamente em julho (6% dos apicultores) e, a maioria foram realizados principalmente em agosto (44% dos apicultores) e em setembro (40% dos apicultores).
No Grand-Est, recomenda-se a realização dos tratamentos em julho / agosto, dada a duração de ação dos tratamentos (variável de 2 a 12 semanas) e o fim do período de criação das abelhas de inverno (aproximadamente em Outubro, Imdorf 2010). De fato, é necessário para a sobrevivência das colmeias que as abelhas de inverno sejam criadas em condições/ambiente já desparasitado.

Ligação entre a data do tratamento principal e as perdas de inverno As colónias tratadas mais cedo estão associadas às melhores taxas de sobrevivência no inverno.

As colmeias tratadas em outubro de 2017 mostram um excesso de mortalidade 2,2 vezes maior do que as colmeias tratadas em julho de 2017.
Com 36,7% de colmeias mortas, os tratamentos iniciados em outubro são muito menos úteis do que os realizados em julho (perdas de 16,6%, ou seja, 2,2 vezes menos perdas).

Ligação entre a escolha do medicamento principal para a varroose e as perdas no inverno

  • Apivar® – O medicamento mais utilizado para o “tratamento principal” (final do verão) é o APIVAR (11.705 colmeias, ou 69% das colónias monitoradas pela pesquisa). É o medicamento autorizado associado aos melhores resultados (melhores taxas de sobrevivência no inverno). Resultado sempre observado ao longo dos anos inquiridos (de 2010 a 2018).
  • Ácido fórmico – Segundo tratamento mais utilizado (1534 colmeias, ou 9% das colónias monitoradas pela pesquisa); a aplicação do ácido fórmico é aprovada na Agricultura Orgânica. Apresenta resultados variáveis ​​dependendo das condições de uso e das condições meteorológicas no apiário. O “MAQS” possui uma MA (Autorização de Introdução no Mercado), ao contrário das preparações caseiras utilizadas até agora.
  • Timol (Apiguard®, Thymovar®, Apilifevar®) – Usado em 5% das colmeias monitoradas pela pesquisa, esses medicamentos apresentam fortes variações de eficácia entre colmeias de um mesmo apiário. Está associado a perdas maiores.
  • Apistan (tau-fluvalinato) – cada vez mais raramente utilizado (> 1% das colmeias), esta molécula não é recomendada devido ao seu acúmulo em ceras e aos problemas de resistência a ela associados.
  • Ácido oxálico (Varromed) – o ácido oxálico é conhecido por ser eficaz contra Varroa na ausência de cria na colmeia. Recentemente, foi disponibilizado em preparações com Autorização de Introdução no Mercado e a particularidade é que pode ser utilizado durante todo o ano, inclusive na presença de cria. Atualmente, não temos nenhum feedback técnico de testes sobre a real eficácia deste produto (quais as doses e qual a frequência de aplicação para atingir qual taxa de eficiência?). A taxa de mortalidade associada às 633 colmeias tratadas com Varromed é de 32,5% (mas em que doses foram tratadas?). Um ponto que requer mais detalhes no futuro.
  • O amitraz “caseiro”, utilizado em menos de 1% dos casos, é uma prática proibida devido aos perigos diretos para o apicultor e para as abelhas. Seu desempenho é inferior ao do Apivar (com o mesmo princípio ativo).
  • Falta de tratamento e “outros métodos” — as respostas indicam que 1115 colmeias não foram tratadas e 402 colmeias foram tratadas com “outros métodos” (não especificado). As colmeias que não foram tratadas tiveram a maior taxa de perda de todas as colmeias da amostra (49%)!

Tratamento de inverno (ácido oxálico)
O inverno é uma oportunidade de realizar um tratamento complementar ao tratamento principal (verão), de forma a eliminar o varroa residual: a aplicação de ácido oxálico (AO) permite realizar um tratamento muito eficaz contra a varroa na ausência de criação. AO é uma molécula natural, que deve ser manuseada com cuidado. O período ideal é o período sem cria, geralmente final de dezembro-início de janeiro [nos meus apiários seria de meados de novembro a meados de dezembro… local, local, local!].

Durante o inverno de 2017-2018, o ácido oxalico foi aplicado no Grand Est como se descreve:

49 aplicações de AO “gotejado” (incluindo 34 em dezembro e 10 em janeiro). 41 aplicações AO por “sublimação” (gás) (incluindo 17 em dezembro e 11 em janeiro).

(Tenha cuidado com o entupimento dos seus dispositivos com a preparação ApiBioxal que infelizmente contém açúcar! O ApiBioxal é impróprio para este tipo de utilização.

As perdas registadas não são diferentes entre colmeias tratadas ou não com AO, no inverno (teste Z não significativo). E por uma boa razão: o tratamento de inverno não é usado para melhorar a taxa de sobrevivência no inverno! É o tratamento principal, o de verão, que se reflecte na sobrevivência no inverno. O objetivo do tratamento de inverno é minimizar o número de ácaros varroa nas colmeias para promover uma melhor época/arranque no ano seguinte.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/compte_rendu_enquetes_pertes_hivernales_grand_est_2018_v2.pdf