varroa destructor: detalhes sobre o processo e estratégia de fecundação

Nesta publicação apresentei alguns dos aspectos, actualmente consensuais na comunidade científica, acerca do ciclo de vida do responsável pelo maior número de baixas de colónias de abelhas melíferas: o ácaro Varroa destructor. Para se chegar aqui foram essenciais múltiplas contribuições de investigações parcelares desenvolvidas ao longo das últimas três décadas. O estudo da varroa resume muito bem algumas das principais características do processo científico: parcelar, gradual, integrativo. As conclusões mais gerais e mais consolidadas provêm de contributos parcelares e replicados que se integram posteriormente num quadro mais geral. Vem isto a propósito do excerto de um texto que traduzo em baixo, sobre as observações realizadas há cerca de 30 anos, que contribuíram para o conhecimento fundamentado dos processos e mecanismos de fecundação do ácaro Varroa destructor de que dispomos hoje.

“Como na prole de uma fêmea varroa apenas um macho é criado, pode-se esperar que este poupe suas forças e que, depois de fertilizar uma fêmea, reserve seu sémen para as fêmeas que surgirem posteriormente. Nossas observações mostraram que a estratégia da Varroa é diferente porque o macho e a jovem fêmea Varroa acasalam um grande número de vezes. Essas repetições podem comprometer a capacidade do macho de fertilizar todas as futuras fêmeas, pois causam um gasto de energia para a formação do esperma. No entanto esses acasalamentos repetidos podem ser benéficos aumentando a fertilidade das novas fêmeas.

Dois argumentos estão a favor desta hipótese. Em primeiro lugar, observamos que o macho aproveita a perfuração na pupa da abelha preparada pela varroa mãe. Graças a esta perfuração, e apesar de suas quelíceras terem se transformado em espermadáctilos, o macho alimenta-se com frequência, o que lhe permite acasalar frequentemente.

Uma ninfa Varroa destructor procura o local de alimentação (indicado pela seta) numa pupa de abelha. Uma vez o buraco na cutícula da pupa encontrado, ela começa a alimentar-se. Os movimentos peristálticos de seu sistema digestivo são visíveis através de sua cutícula.

Em segundo lugar, testamos a seguinte hipótese: o número de acasalamentos influencia a quantidade de espermatozóides armazenados na espermateca das fêmeas. Como as fêmeas se reproduzem em vários ciclos, era muito difícil determinar o número de ovos produzidos por cada fêmea. Por isso utilizámos o número de espermatozoides presentes na espermateca feminina como critério de fertilidade potencial. Conhecemos dois fatos: o número de espermatozóides armazenados na espermateca das fêmeas Varroa é muito baixo (menos de 40 segundo Alberti & Hänel, 1986) e está muito próximo do número máximo de óvulos produzidos pelas fêmeas, 30 (de Rujter 1987).
Para testar essa hipótese, realizamos a seguinte experiência em alvéolos artificiais transparentes contendo pupas de operária: duas fêmeas jovens são juntas a 2 machos. Estes foram retirados de alvéolos naturais. Os acasalamentos são observados em incubadora a 34 ° C e 60% R.H .. Foram considerados acasalamentos os atos sexuais que duraram mais de 6 minutos. Foram determinados três grupos de teste: (A) fêmeas fecundadas por um único acasalamento, (B) fêmeas fecundadas por dois acasalamentos e (C) fêmeas permanecendo 48 horas na presença de machos. Fêmeas mães retiradas da criação operculada foram utilizadas como controles (grupo D). Três dias após o acasalamento, os espermatozoides migram para a espermateca e apresentam um formato fusiforme ou em pera, e posteriormente têm forma de faixa. As fêmeas são dissecadas em solução de Ringer e sua espermateca é extraída, depois dividida entre lâmina e lamela e os espermatozóides são contados ao microscópio.

Acasalamentos numerosos: garantia de fertilidade
Nenhuma das cinco fêmeas acasaladas apenas uma vez tinha espermatozoides na espermateca, enquanto nas quatorze fêmeas que acasalaram duas vezes, a contagem de espermatozoides variou de 0 (5 indivíduos) a 26 espermatozoides. Com exceção de uma, as onze fêmeas que permaneceram 48 horas na presença dos machos possuíam mais de 24 espermatozoides. Estes resultados mostram que os acasalamentos repetidos observados aumenta o número de espermatozoides armazenados por uma fêmea. Eles também indicam a importância do fator tempo para o parasita.

Assim, as primeiras duas filhas são provavelmente melhor fertilizadas do que a terceira, uma vez que acasalaram mais de oito e quatro vezes, respectivamente. A terceira fêmea só pode ser acasalada duas vezes por falta de tempo, pois a abelha se metamorfoseou em adulta.

Para concluir
Depreende-se de nossas observações que o parasita Varroa está com pressa e que, para garantir a fecundação de seus descendentes, os indivíduos utilizam um ponto de encontro que serve de local de acasalamento. Para que todas as fêmeas sejam fertilizadas, as fêmeas mais novas são preferidas em relação às mais velhas. As fêmeas mais velhas acasalam tão frequentemente quanto possível, o que aumenta sua fertilidade potencial.
No seu hospedeiro original, a abelha indiana (Apis cerana), a Varroa procria quase exclusivamente em cria de zângãos, que é menos protegida por abelhas. Nas abelhas europeias a defesa das abelhas contra a Varroa é fraca e a eficiência deste parasita em se reproduzir é claramente visível.”

fonte: Donzé G., Fluri P, Imdorf A. (1998) Pourquoi les varroas s’accouplent-ils si souvent? La santé de l’abeille 165 (5-6) 141-146.

determinação do resíduo de amitraz e de seus metabólitos no mel e cera de abelha após o tratamento com Apivar® em colónias de abelhas (Apis mellifera)

Dr. Jeffery S. Pettis, investigador no Bee Research Laboratory, USDA-ARS, Beltsville, MD, USA.

Em baixo deixo a tradução do sumário de um artigo, que resulta da investigação coordenada por Jeffery S. Pettis aquando do processo de homologação do Apivar pelas entidades norte-americanas.

Sumário: Um acaricida sintético, o amitraz é amplamente utilizado para controlar o Varroa destructor. Embora tenha o potencial de matar ácaros em colónias de abelhas, o resíduo de amitraz e seus metabólitos em produtos como o mel é uma preocupação. Aqui, determinámos os níveis de resíduos de amitraz e seus metabólitos no mel e cera de abelha quando as colónias foram tratadas com diferentes doses de Apivar® (1X = 2 tiras, 5X = 10 tiras e 10X = 20 tiras); a dose 1X corresponde ao tratamento de colmeia numa aplicação normal. Os resultados demonstraram que nenhum resíduo de amitraz foi detectado no mel e cera após 42 dias da aplicação em todas as colónias tratadas. Os metabólitos do amitraz, 2,4-dimetilfenilformamida (DMPF) e 2,4-dimetianilina (DMA), foram encontrados nas amostras 28 dias após o tratamento. Os níveis de resíduos desses dois metabólitos na cera de abelha foram maiores do que no mel. O DMA foi detectado apenas em cera de abelha, variando entre 111 e 177 µg/Kg , quando as colónias foram tratadas com 5X e 10X de Apivar®. Os níveis de resíduo de DMPF variaram entre 13,7 e 60,5 µg/Kg mel e 196–6,160 µg/Kg em amostras de cera. O resíduo de metabólitos de amitraz encontrados em produtos de abelhas melíferas não excedeu os limites máximos de resíduos (LMRs), embora altas doses tenham sido aplicadas neste estudo para criar os casos de piores cenários.

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00218839.2021.1918943

Nota: O LMR do amitraz e seus metabólitos é 200 µg/Kg para o mel de produção convencional, de acordo com o estabelecido pela Comissão Regulatória (UE), N° 37/2010 de 22 Dezembro de 2009.

a saúde da rainha das abelhas não é afetada pela exposição ao contato a pesticidas comumente encontrados na cera de abelha

Fórmula estrutural do 2,4-Dimethylphenyl, um dos metabolitos do amitraz, presente nas tiras de Apivar, provavelmente o medicamento homologado mais utilizado contra a varroa no mundo ocidental.

Resumo:

A saúde da rainha da abelha melífera é crucial para a saúde e produtividade da colónia, e os pesticidas foram anteriormente associados à perda da rainha e à sua substituição prematura. Pesquisas anteriores investigaram os efeitos da exposição indireta a pesticidas de rainhas via contacto com abelhas obreiras, bem como os efeitos diretos em rainhas durante o desenvolvimento. No entanto, quando adultas, as rainhas estão em contato constante com a cera enquanto caminham sobre o favo e põem ovos; portanto, o contato direto de pesticidas com rainhas adultas é uma via de exposição relevante, mas raramente investigada. Aqui, conduzimos experiências de laboratório e de campo para investigar os impactos da exposição a pesticidas tópicos em rainhas adultas. Testamos as relações dose-resposta de seis pesticidas comumente encontrados na cera: cumafos [CheckMite], tau-fluvalinato [Apistan], atrazina, 2,4-DMPF [Apivar], clorpirifos, clorotalonil e um coquetail de todos os seis, cada um com dosagens até 32 vezes as concentrações normalmente encontradas em cera. Não encontramos nenhum efeito de qualquer tratamento na massa corporal da rainha ou na viabilidade do esperma. Além disso, nenhuma das 1.568 proteínas quantificadas nos corpos gordos das rainhas (um importante local de produção da enzima de desintoxicação) foi expressa diferencialmente. Num ensaio de campo com N = 30 rainhas expostas a um controle de maneio, um controle de solvente ou um coquetail de pesticidas, novamente não encontramos impacto no padrão de postura de ovos da rainha, sua massa corporal ou massa corporal de operárias filhas. Além disso, das 3.127 proteínas identificadas no fluido da espermateca (órgão de armazenamento do esperma), nenhuma foi diferencialmente expressa. Estas experiências mostram consistentemente que em níveis de exposição realistas, os pesticidas comumente encontrados na cera não têm impacto direto no desempenho da rainha, na reprodução ou nas métricas de qualidade. […]

fonte: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2021.04.24.441288v1.full

o plano reprodutivo pode mediar os efeitos da seleção ao nível da colónia no comportamento individual de forrageamento em abelhas

Nesta publicação apresento o sumário e um pequeno excerto de um artigo que procura esclarecer, do ponto de vista genético e evolutivo, o que determina o polietismo* presente em diversos insectos sociais, como no caso da abelha melífera. Este estudo sugere que o polietismo é função de genes com características pleiotrópicas** derivados de um plano reprodutivo básico. À imagem dos insectos solitários, o polietismo nos insectos sociais será a expressão sequencial das fases do ciclo reprodutivo que, estando inibido ao nível individual nas obreiras estéreis, não deixa de se manifestar e expressar na plasticidade e na sequência de tarefas que as abelhas melíferas vão realizando ao longo de sua vida, ao nível da colónia. As obreiras evoluem na realização de tarefas ao longo de sua vida, seguindo uma determinada sequência, de acordo com um determinismo genético, que mimetiza comportamentalmente um plano reprodutivo básico.

Sumário: O fenótipo ao nível da colónia de uma sociedade de insetos emerge de interações entre um grande número de indivíduos que podem diferir consideravelmente na sua morfologia, fisiologia e comportamento. Os mecanismos imediatos e finais que permitem a formação desse sistema integrado e complexo não são totalmente conhecidos, e a compreensão da evolução das estratégias de vida social é um tópico importante na biologia de sistemas. Em insetos solitários, comportamento, sintonia sensorial e fisiologia reprodutiva estão ligados. Essas associações são controladas em parte por redes pleiotrópicas que organizam a expressão sequencial das fases do ciclo reprodutivo. Aqui, investigamos se associações semelhantes dão origem a diferentes fenótipos comportamentais numa casta de obreiras eussociais. Nós documentámos que a rede genética pleiotrópica que controla o comportamento de forrageamento em operárias melíferas funcionalmente estéreis (Apis mellifera) tem um componente reprodutivo. Associações entre comportamento, fisiologia e sintonia sensorial em operárias com diferentes estratégias de forrageamento indicam que as arquiteturas genéticas subjacentes foram projetadas para controlar um ciclo reprodutivo. Os circuitos genéticos que constituem o “plano básico” regulatório de uma estratégia reprodutiva podem fornecer blocos de construção poderosos para a vida social. Sugerimos que a investigação deste plano básico (ground plan) desempenha um papel fundamental na evolução das sociedades de insetos sociais.

[…]

Acredita-se que a pleiotropia desempenhe um papel importante na integração fisiológica e comportamental. A pleiotropia facilita a expressão coordenada de fenótipos temporais complexos ao longo do ciclo de vida de insetos solitários por meio de interruptores reguladores capazes de controlar um grande número de genes. Pelo menos em parte por causa desse mecanismo, os diferentes estágios do ciclo reprodutivo feminino, ou seja, a fase pré-vitelogénica, vitelogénese, oviposição e cuidado da cria (se aplicável), constituem uma sequência coordenada de eventos comportamentais e fisiológicos associados. Em alguns himenópteros sociais, a divisão temporal do trabalho parece ser sobreposta a um ciclo de desenvolvimento do ovário rudimentar em que indivíduos jovens dedicados à criação têm ovários levemente desenvolvidos ou poem ovos tróficos, e ovários pouco desenvolvidos estão associados ao forrageamento. Isso pode indicar que os circuitos reguladores subjacentes à divisão temporal do trabalho em insetos eussociais são derivados de um plano reprodutivo básico [isto é, o plano básico ovariano sugerido por West-Eberhard].

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC509206/

Polietismo*: a mudança de função/tarefas é idade-dependente e é um dos traços mais característicos das sociedades das abelhas melíferas, Apis mellifera L. 

**Pleiotropia (do grego pleio = “muito” e tropo = “mudança”) é o conjunto de múltiplos efeitos de um  gene. Acontece quando um único gene controla diversas características do fenótipo que muitas vezes não estão relacionadas. […] Ao efeito inverso, quando múltiplos genes controlam a mesma característica, dá-se o nome de Hereditariedade poligénica, Interacção génica ou, ainda Herança quantitativa. Um caso de interação gênica é a epistasia. Epistasia é quando um par de alelos inibem a ação de um outro par, impedindo assim que a característica seja formada. in https://pt.wikipedia.org/wiki/Pleiotropia

projectistas de parques solares e polinizadores: a simbiose

O Miguel Marques chamou-me a atenção para dois artigos de divulgação científica em torno da conjugação simbiótica entre a instalação de parques solares, a implementação de sementeiras/ plantações biodiversas com espécies vegetais nativas, e o efeito benéfico sobre os insectos polinizadores. Os resultados são de duas investigações, uma levada a cabo nos EUA e outra no RU. Fiz a tradução de alguns excertos com a divulgação dos dados recolhidos pelos investigadores norte-americanos.

“Pesquisadores nos Estados Unidos constataram que o sombreamento parcial fornecido pelos parques solares cria um microclima que favorece o crescimento mais diverso e abundante de flores e polinizadores. Eles também descobriram que o sombreamento parcial aumenta a abundância da floração ao atrasar o seu desenvolvimento, aumentando a forragem para polinizadores durante o final da estação quente e seca.

Os insetos polinizadores visitam as flores, mesmo que estas cresçam sob os painéis de um parque solar, e a sombra dos módulos também é benéfica ao atrasar o período de floração, o que, por sua vez, tem um efeito positivo na abundância e diversidade dos polinizadores.

Esta é a principal conclusão do estudo “O sombreamento parcial por painéis solares retarda o florescimento, aumenta a abundância floral durante o final da estação para polinizadores num ecossistema agrivoltaico de sequeiro”, publicado recentemente em relatórios científicos, nos quais cientistas da Universidade Estadual de Oregon nos EUA investigaram se o acoplamento de PV ao habitat para polinizadores selvagens pode ajudar a aumentar a biodiversidade.

“Alguns estados, como Minnesota, Carolina do Norte, Maryland, Vermont e Virgínia, desenvolveram diretrizes e incentivos estaduais para promover instalações solares com foco em polinizadores”, afirmam os cientistas. “Nesta prática, a forragem para polinizadores é estabelecida como o sub-bosque do painel solar, em vez da grama tradicional ou cascalho.”

fontes: https://www.pv-magazine.com/2021/04/20/pollinator-focused-solar-parks/

o efeito de favos vazios na proporção de abelhas forrageadoras dedicadas à colecta de néctar

Thomas Rinderer (esquerda), observando um quadro com abelhas (scientific beekeeping).

Thomas Rinderer, o primeiro autor do artigo que traduzo em baixo dois excertos, é um nome de referência na investigação apícola norte-americana e mundial.

Introdução: Favo vazio nos ninhos de colónias de abelhas (Apis mellifera L.) influencia vários aspectos do comportamento de coleta, nomeadamente a coleta de néctar das abelhas (Rinderer & Baxter, 1978; Rinderer & Baxter, 1979; Rinderer, 1982a; 1982b; 1983). Geralmente, o aumento da quantidade de favos vazios resulta em maior intensidade e eficiência da coleta de néctar nas abelhas avaliadas individualmente. Além disso, certas evidências (Rinderer, 1982a) sugerem que as colónias estimuladas por favos vazios adicionais têm uma proporção maior de abelhas forrageadoras de néctar. Este estudo foi desenhado para testar essa hipótese mais fortemente.

Sumário dos resultados: A influência da adição de favos vazios às colónias nas proporções de abelhas forrageiras retornando às colmeias com néctar, pólen, pólen e néctar, ou água, e de forrageadoras mal sucedidas foi examinada. Quantidades maiores de favo vazio resultaram num aumento na proporção de forrageadoras de néctar, uma diminuição na proporção de forrageadoras de pólen e uma diminuição na proporção de forrageadoras para néctar e pólen. As proporções de abelhas coletando água e de forrageadoras mal sucedidas talvez tenham diminuído ligeiramente.

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00218839.1984.11100612?journalCode=tjar20

Nota: favo vazio, a opção que utilizei para traduzir “empty comb”, não é sinónimo de quadros com cera laminada, sim de quadros com cera puxada. Sobre a minha preferência por colocar as primeiras meias-alças com cera puxada escrevi aqui.

tamanho dos ovos influenciado por factores genéticos e ambientais

Em baixo deixo a tradução do sumário de um estudo que me deixou surpreendido por diversas razões. A primeira razão advém da verificação de plasticidade onde não esperava encontrá-la — plasticidade é inteligência no meu dicionário. A segunda está relacionada com o sentido dessa plasticidade — em sentido contrário ao que eram as minhas hipóteses e crenças implícitas. A terceira razão, a generosidade sub-liminar da Natureza na resposta de compensação adaptada às agruras ambientais.

Título: Plasticidade do tamanho do ovo em Apis mellifera: abelhas rainha alteram o tamanho do ovo em resposta a fatores genéticos e ambientais

Sumário: A evolução social levou a padrões e histórias de vida distintos em insetos sociais, mas muitas características individuais e ao nível da colónia, como o tamanho do ovo, não são suficientemente compreendidas. Assim, uma série de experiências foram realizadas para estudar os efeitos dos genótipos, tamanho da colónia e nutrição da colónia na variação do tamanho dos ovos produzidos por abelhas rainha (Apis mellifera). Rainhas de diferentes linhagens genéticas produziram tamanhos de ovos significativamente diferentes em condições ambientais semelhantes, indicando variação genética permanente para o tamanho do ovo que permite uma mudança evolutiva adaptativa. Investigações posteriores revelaram que os ovos produzidos por rainhas em grandes colónias eram consistentemente menores do que os ovos produzidos em colónias pequenas, e as rainhas ajustaram dinamicamente o tamanho do ovo em relação ao tamanho da colónia. Da mesma forma, as rainhas aumentaram o tamanho dos ovos em resposta à privação de comida*. Estes resultados não são explicados apenas por diferentes números de ovos produzidos nas diferentes circunstâncias, mas, ao invés disso, parecem refletir um ajuste ativo da alocação de recursos pela rainha em resposta às condições da colónia. Como resultado, os ovos maiores experimentaram maior sobrevivência subsequente do que os ovos menores**, sugerindo que as abelhas rainha podem aumentar o tamanho do ovo sob condições desfavoráveis ​​para aumentar a sobrevivência da descendência e para minimizar os custos/riscos da criação com os ovos que não se desenvolvem com sucesso e, assim, conservarem energia ao nível da colónia. A extensa plasticidade e variação genética do tamanho do ovo em abelhas melíferas tem implicações importantes para a compreensão da evolução da história de vida num contexto social e implica que este estágio negligenciado da história de vida nas abelhas pode ter efeitos transgeracionais.

* Rainhas num regime alimentar com restrição de acesso ao pólen modificaram o tamanho dos seus ovos e produziram ovos significativamente maiores do que antes de enfrentar tal restrição nutricional.

** As abelhas filhas de rainhas que produziram ovos grandes, porque estavam em colónias pequenas, sobreviveram significativamente mais do que as abelhas filhas de rainhas que produziram ovos pequenos em colónias maiores. Poderá estar aqui uma razão para o que tenho observado repetidamente ao longo dos anos: as colónias mais atrasadas à saída do inverno depressa apanham as mais adiantadas, como escrevi há uns anos atrás.

Fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jeb.13589

Apêndice: sobre a diferença de peso entre ovos de futuras rainhas e ovos de futuras obreiras ver aqui.

adaptação local da Abelha Ibérica (Apis mellifera iberiensis): uma experiência de translocação recíproca

Um dos leitores das publicações do abelhas à beira, Tó Zé da Frágua, ligou-me há umas três semanas para trocarmos ideias, e perguntou-me se conhecia algum estudo que avaliasse o desempenho de rainhas locais comparado com o desempenho de rainhas não-locais. Na altura só me ocorreu o que tinha lido em estudos realizados nos EUA. Contudo, no último Congresso Ibérico de Apicultura realizado em Portugal foi apresentado este estudo levado a cabo no nosso país.

A foto em baixo espelha a postura de uma das rainhas criadas por mim e que em regra têm bom desempenho, mas tenho também experiências positivas com rainhas compradas a um criador da Beira Litoral e a um outro da Beira Baixa — em regra faço apenas questão que sejam fecundadas pelos zângãos locais.

Postura de rainha nova. Um detalhe: nesta altura já se começa a ver a abóbada de mel e pólen, que irá crescendo à medida que o verão for entrando. De imprevidente, a estas abelhas adaptadas, não lhes conheço nada (foto e texto de junho do ano passado).

Resumo: Na Europa, várias experiências de translocação recíproca com diferentes subespécies de abelha melífera (Apis mellifera L.) têm demonstrado a existência de adaptação local, sobretudo quando a pressão de selecção é mais forte devido, por exemplo, a novas doenças e parasitas, agroquímicos, ou rápidas mudanças climáticas. Contudo, até agora nenhum desses estudos abrangeu a subespécie da Península Ibérica, Apis mellifera iberiensis. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a existência de adaptação local em A. m. iberiensis. Em 2015 foram instalados dois apiários, com 36 colónias cada, em dois extremos latitudinais de Portugal: Bragança e Vila do Bispo*. As 36 colónias (18 da origem Bragança e 18 da origem Algarve) foram avaliadas para várias características durante um ano. Entre as características avaliadas incluem-se o número de alvéolos com mel, produção de mel, e o peso mensal das colónias. Na análise destas características foram usadas duas abordagens: (i) comparação entre as duas origens no mesmo apiário e (ii) comparação da mesma origem entre os dois apiários. Os resultados indicam que embora as três características possam sugerir uma interação genótipo-ambiente, apenas a produção de mel e o peso da colónia demostraram adaptação local, uma vez que as abelhas locais tiveram um melhor desempenho no seu apiário de origem. Adicionalmente, verificou-se que as diferenças entre as duas origens foram mais evidentes no ambiente considerado menos hostil (Vila do Bispo), onde cada colónia pode expressar todo o seu potencial genético.

fonte: https://bibliotecadigital.ipb.pt/handle/10198/18031

Nota: * Vila do Bispo é uma vila portuguesa no distrito de Faro.

eficácia da própolis como tratamento adjuvante para pacientes com COVID-19 hospitalizados: um ensaio clínico randomizado e controlado

Publico o resumo de um estudo recente* que identificou as vantagens da utilização da própolis como tratamento adjuvante em pacientes com COVID-19 hospitalizados, nomeadamente na redução significativa do tempo de internamento e na redução, também significativa, do número de pacientes que desenvolveram lesão renal aguda.

Resumo: Entre as opções de tratamento ao COVID-19, a própolis, produzida por abelhas a partir de exsudatos de plantas bioativas, tem demonstrado potencial contra alvos virais e propriedades imunorregulatórias. Conduzimos um ensaio clínico randomizado, controlado, aberto e de centro único, com um produto de própolis padronizado (EPP-AF) em pacientes adultos com COVID-19 hospitalizados. Os pacientes receberam tratamento padrão mais própolis na dose oral de 400mg / dia (n = 40) ou 800mg / dia (n = 42) por sete dias, ou tratamento padrão isolado (n = 42). O cuidado padrão incluiu todas as intervenções necessárias, conforme determinado pelo médico assistente. O desfecho primário foi o tempo para melhora clínica definido como o tempo de internamento hospitalar ou dependência de oxigenoterapia. Os desfechos secundários incluíram lesão renal aguda e necessidade de terapia intensiva ou drogas vasoativas. O tempo de internamento hospitalar após a intervenção foi significativamente reduzido em ambos os grupos de própolis em comparação com os controles; mediana de 7 dias com 400mg / dia e 6 dias com 800mg / dia, versus 12 dias para o tratamento padrão sozinho. A própolis não afetou significativamente a necessidade de suplementação de oxigénio. Com a dose mais alta, significativamente menos pacientes desenvolveram lesão renal aguda do que nos controles (2 contra 10 de 42 pacientes). A própolis como tratamento adjuvante foi segura e reduziu o tempo de internamento.

fonte: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.01.08.20248932v1.full

Notas:

  • * pela sua recenticidade esta publicação científica ainda não foi sujeita à revisão pelos pares;
  • nestas publicações, aqui e aqui, apresentei outros dois estudos muito credíveis acerca dos benefícios da própolis.

a importância do acasalamento controlado na selecção e melhoria de abelhas

Será expectável seleccionar e melhorar as abelhas no caso de as rainhas fecundarem livremente num ambiente em que não se controlam os zângãos? Vejamos primeiro o que nos dizem os especialistas.

Rainha regressando do seu voo de acasalamento.

Contexto: Os procedimentos de acasalamento controlados são amplamente aceites como um aspecto chave para o sucesso da selecção em quase todas as espécies animais. Nas abelhas, no entanto, o acasalamento controlado é difícil de conseguir. Contudo, tem havido várias tentativas de melhorar as abelhas usando rainhas acasaladas livremente. Nestes esquemas de melhoria, a seleção ocorre apenas do lado materno, uma vez que os zângãos são casos aleatórios da população.

Resultados: Nossas simulações mostraram uma redução do sucesso das melhorias entre 47 e 99% se o acasalamento não é controlado. Nos casos mais drásticos, praticamente nenhum ganho genético é gerado sem acasalamento controlado.

Conclusões: Concluímos que […] o acasalamento controlado é imperativo para esforços de melhoria bem-sucedidos.

fonte: https://gsejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12711-019-0518-y

Com alguma frequência leio e ouço apicultores afirmarem que estão a seleccionar e melhorar as suas abelhas, isto num contexto em que não têm qualquer tipo de controlo sobre os zângãos presentes no território. Tenho, portanto, muitas dúvidas acerca do rigor e realismo destas afirmações. Ou sabem alguma coisa que eu desconheço, ou desconhecem aspectos básicos que deveriam conhecer. Sabemos que 90% dos acasalamentos ocorrem a uma distância até 7,5 km (ver nesta publicação).  Não é credível que em Portugal, um dos países da Europa com uma das mais elevadas densidades de colónias por Km2, exista uma área com 15 km de circunferência com zângãos todos eles provenientes de colónias “melhoradas”. Sabendo que as melhorias que mais nos interessam estão muitas vezes associadas a conjuntos de genes alelos recessivos e/ou aditivos (ver nesta publicação) e/ou epistáticos, portanto com contributos de origem paterna, seria um jackpot acontecer melhorias sistemáticas e sustentáveis num contexto de acasalamento natural, com várias dezenas de zângãos na jogada (ver nesta publicação). Estas minhas dúvidas estão fortemente interiorizadas porque desde os meus 6 anos que vou a apiários e, no geral, as abelhas de hoje parecem-me muito semelhantes às de cerca de 50 gerações atrás. Outros poderão ter opinião diferente, estranho seria que não tivessem. A estes, peço que identifiquem especificamente em que aspectos as suas abelhas divergiram notavelmente nos últimos 40 a 50 anos?

Nota: em 2017 já tinha feito considerações acerca deste tema.