tamanho dos ovos influenciado por factores genéticos e ambientais

Em baixo deixo a tradução do sumário de um estudo que me deixou surpreendido por diversas razões. A primeira razão advém da verificação de plasticidade onde não esperava encontrá-la — plasticidade é inteligência no meu dicionário. A segunda está relacionada com o sentido dessa plasticidade — em sentido contrário ao que eram as minhas hipóteses e crenças implícitas. A terceira razão, a generosidade sub-liminar da Natureza na resposta de compensação adaptada às agruras ambientais.

Título: Plasticidade do tamanho do ovo em Apis mellifera: abelhas rainha alteram o tamanho do ovo em resposta a fatores genéticos e ambientais

Sumário: A evolução social levou a padrões e histórias de vida distintos em insetos sociais, mas muitas características individuais e ao nível da colónia, como o tamanho do ovo, não são suficientemente compreendidas. Assim, uma série de experiências foram realizadas para estudar os efeitos dos genótipos, tamanho da colónia e nutrição da colónia na variação do tamanho dos ovos produzidos por abelhas rainha (Apis mellifera). Rainhas de diferentes linhagens genéticas produziram tamanhos de ovos significativamente diferentes em condições ambientais semelhantes, indicando variação genética permanente para o tamanho do ovo que permite uma mudança evolutiva adaptativa. Investigações posteriores revelaram que os ovos produzidos por rainhas em grandes colónias eram consistentemente menores do que os ovos produzidos em colónias pequenas, e as rainhas ajustaram dinamicamente o tamanho do ovo em relação ao tamanho da colónia. Da mesma forma, as rainhas aumentaram o tamanho dos ovos em resposta à privação de comida*. Estes resultados não são explicados apenas por diferentes números de ovos produzidos nas diferentes circunstâncias, mas, ao invés disso, parecem refletir um ajuste ativo da alocação de recursos pela rainha em resposta às condições da colónia. Como resultado, os ovos maiores experimentaram maior sobrevivência subsequente do que os ovos menores**, sugerindo que as abelhas rainha podem aumentar o tamanho do ovo sob condições desfavoráveis ​​para aumentar a sobrevivência da descendência e para minimizar os custos/riscos da criação com os ovos que não se desenvolvem com sucesso e, assim, conservarem energia ao nível da colónia. A extensa plasticidade e variação genética do tamanho do ovo em abelhas melíferas tem implicações importantes para a compreensão da evolução da história de vida num contexto social e implica que este estágio negligenciado da história de vida nas abelhas pode ter efeitos transgeracionais.

* Rainhas num regime alimentar com restrição de acesso ao pólen modificaram o tamanho dos seus ovos e produziram ovos significativamente maiores do que antes de enfrentar tal restrição nutricional.

** As abelhas filhas de rainhas que produziram ovos grandes, porque estavam em colónias pequenas, sobreviveram significativamente mais do que as abelhas filhas de rainhas que produziram ovos pequenos em colónias maiores. Poderá estar aqui uma razão para o que tenho observado repetidamente ao longo dos anos: as colónias mais atrasadas à saída do inverno depressa apanham as mais adiantadas, como escrevi há uns anos atrás.

Fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jeb.13589

Apêndice: sobre a diferença de peso entre ovos de futuras rainhas e ovos de futuras obreiras ver aqui.

adaptação local da Abelha Ibérica (Apis mellifera iberiensis): uma experiência de translocação recíproca

Um dos leitores das publicações do abelhas à beira, Tó Zé da Frágua, ligou-me há umas três semanas para trocarmos ideias, e perguntou-me se conhecia algum estudo que avaliasse o desempenho de rainhas locais comparado com o desempenho de rainhas não-locais. Na altura só me ocorreu o que tinha lido em estudos realizados nos EUA. Contudo, no último Congresso Ibérico de Apicultura realizado em Portugal foi apresentado este estudo levado a cabo no nosso país.

A foto em baixo espelha a postura de uma das rainhas criadas por mim e que em regra têm bom desempenho, mas tenho também experiências positivas com rainhas compradas a um criador da Beira Litoral e a um outro da Beira Baixa — em regra faço apenas questão que sejam fecundadas pelos zângãos locais.

Postura de rainha nova. Um detalhe: nesta altura já se começa a ver a abóbada de mel e pólen, que irá crescendo à medida que o verão for entrando. De imprevidente, a estas abelhas adaptadas, não lhes conheço nada (foto e texto de junho do ano passado).

Resumo: Na Europa, várias experiências de translocação recíproca com diferentes subespécies de abelha melífera (Apis mellifera L.) têm demonstrado a existência de adaptação local, sobretudo quando a pressão de selecção é mais forte devido, por exemplo, a novas doenças e parasitas, agroquímicos, ou rápidas mudanças climáticas. Contudo, até agora nenhum desses estudos abrangeu a subespécie da Península Ibérica, Apis mellifera iberiensis. Assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a existência de adaptação local em A. m. iberiensis. Em 2015 foram instalados dois apiários, com 36 colónias cada, em dois extremos latitudinais de Portugal: Bragança e Vila do Bispo*. As 36 colónias (18 da origem Bragança e 18 da origem Algarve) foram avaliadas para várias características durante um ano. Entre as características avaliadas incluem-se o número de alvéolos com mel, produção de mel, e o peso mensal das colónias. Na análise destas características foram usadas duas abordagens: (i) comparação entre as duas origens no mesmo apiário e (ii) comparação da mesma origem entre os dois apiários. Os resultados indicam que embora as três características possam sugerir uma interação genótipo-ambiente, apenas a produção de mel e o peso da colónia demostraram adaptação local, uma vez que as abelhas locais tiveram um melhor desempenho no seu apiário de origem. Adicionalmente, verificou-se que as diferenças entre as duas origens foram mais evidentes no ambiente considerado menos hostil (Vila do Bispo), onde cada colónia pode expressar todo o seu potencial genético.

fonte: https://bibliotecadigital.ipb.pt/handle/10198/18031

Nota: * Vila do Bispo é uma vila portuguesa no distrito de Faro.

eficácia da própolis como tratamento adjuvante para pacientes com COVID-19 hospitalizados: um ensaio clínico randomizado e controlado

Publico o resumo de um estudo recente* que identificou as vantagens da utilização da própolis como tratamento adjuvante em pacientes com COVID-19 hospitalizados, nomeadamente na redução significativa do tempo de internamento e na redução, também significativa, do número de pacientes que desenvolveram lesão renal aguda.

Resumo: Entre as opções de tratamento ao COVID-19, a própolis, produzida por abelhas a partir de exsudatos de plantas bioativas, tem demonstrado potencial contra alvos virais e propriedades imunorregulatórias. Conduzimos um ensaio clínico randomizado, controlado, aberto e de centro único, com um produto de própolis padronizado (EPP-AF) em pacientes adultos com COVID-19 hospitalizados. Os pacientes receberam tratamento padrão mais própolis na dose oral de 400mg / dia (n = 40) ou 800mg / dia (n = 42) por sete dias, ou tratamento padrão isolado (n = 42). O cuidado padrão incluiu todas as intervenções necessárias, conforme determinado pelo médico assistente. O desfecho primário foi o tempo para melhora clínica definido como o tempo de internamento hospitalar ou dependência de oxigenoterapia. Os desfechos secundários incluíram lesão renal aguda e necessidade de terapia intensiva ou drogas vasoativas. O tempo de internamento hospitalar após a intervenção foi significativamente reduzido em ambos os grupos de própolis em comparação com os controles; mediana de 7 dias com 400mg / dia e 6 dias com 800mg / dia, versus 12 dias para o tratamento padrão sozinho. A própolis não afetou significativamente a necessidade de suplementação de oxigénio. Com a dose mais alta, significativamente menos pacientes desenvolveram lesão renal aguda do que nos controles (2 contra 10 de 42 pacientes). A própolis como tratamento adjuvante foi segura e reduziu o tempo de internamento.

fonte: https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.01.08.20248932v1.full

Notas:

  • * pela sua recenticidade esta publicação científica ainda não foi sujeita à revisão pelos pares;
  • nestas publicações, aqui e aqui, apresentei outros dois estudos muito credíveis acerca dos benefícios da própolis.

a importância do acasalamento controlado na selecção e melhoria de abelhas

Será expectável seleccionar e melhorar as abelhas no caso de as rainhas fecundarem livremente num ambiente em que não se controlam os zângãos? Vejamos primeiro o que nos dizem os especialistas.

Rainha regressando do seu voo de acasalamento.

Contexto: Os procedimentos de acasalamento controlados são amplamente aceites como um aspecto chave para o sucesso da selecção em quase todas as espécies animais. Nas abelhas, no entanto, o acasalamento controlado é difícil de conseguir. Contudo, tem havido várias tentativas de melhorar as abelhas usando rainhas acasaladas livremente. Nestes esquemas de melhoria, a seleção ocorre apenas do lado materno, uma vez que os zângãos são casos aleatórios da população.

Resultados: Nossas simulações mostraram uma redução do sucesso das melhorias entre 47 e 99% se o acasalamento não é controlado. Nos casos mais drásticos, praticamente nenhum ganho genético é gerado sem acasalamento controlado.

Conclusões: Concluímos que […] o acasalamento controlado é imperativo para esforços de melhoria bem-sucedidos.

fonte: https://gsejournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12711-019-0518-y

Com alguma frequência leio e ouço apicultores afirmarem que estão a seleccionar e melhorar as suas abelhas, isto num contexto em que não têm qualquer tipo de controlo sobre os zângãos presentes no território. Tenho, portanto, muitas dúvidas acerca do rigor e realismo destas afirmações. Ou sabem alguma coisa que eu desconheço, ou desconhecem aspectos básicos que deveriam conhecer. Sabemos que 90% dos acasalamentos ocorrem a uma distância até 7,5 km (ver nesta publicação).  Não é credível que em Portugal, um dos países da Europa com uma das mais elevadas densidades de colónias por Km2, exista uma área com 15 km de circunferência com zângãos todos eles provenientes de colónias “melhoradas”. Sabendo que as melhorias que mais nos interessam estão muitas vezes associadas a conjuntos de genes alelos recessivos e/ou aditivos (ver nesta publicação) e/ou epistáticos, portanto com contributos de origem paterna, seria um jackpot acontecer melhorias sistemáticas e sustentáveis num contexto de acasalamento natural, com várias dezenas de zângãos na jogada (ver nesta publicação). Estas minhas dúvidas estão fortemente interiorizadas porque desde os meus 6 anos que vou a apiários e, no geral, as abelhas de hoje parecem-me muito semelhantes às de cerca de 50 gerações atrás. Outros poderão ter opinião diferente, estranho seria que não tivessem. A estes, peço que identifiquem especificamente em que aspectos as suas abelhas divergiram notavelmente nos últimos 40 a 50 anos?

Nota: em 2017 já tinha feito considerações acerca deste tema.

os Varroa destructor de inverno são menos fecundos que os de verão

No seguimento desta publicação, traduzo em baixo o sumário de um estudo que revela um conjunto de dados com muito interesse para a compreensão da questão que coloquei: qual a razão para as aparentes diferenças na resposta aos tratamentos entre as gerações de varroas que surgem no inverno quando comparadas com as gerações de verão. Os dados deste estudo revelam que a fecundidade e fertilidade dos ácaros é mais baixa no inverno que no verão. No seguimento deste estudo, valeria a pena dar-lhe continuidade com o intuito de tentar perceber melhor os mecanismos subjacentes e intervenientes na maior mortalidade dos ácaros macho no inverno e, posteriormente, verificar se é possível replicar esses mecanismos, por algum tipo de maneio exequível em campo, com vista à sua utilização durante o verão pelos apicultores.

Antes da tradução do sumário, julgo que será pedagógico re-lembrar esquematica e sumariamente o ciclo reprodutivo do varroa.

Os varroas mãe colocam o primeiro ovo aproximadamente 70 horas após a operculação do alvéolo onde está a larva de abelha hospedeira. Este ovo não é fertilizado e dá origem a um macho, enquanto os três a quatro ovos subsequentes, que são postos com intervalos de aproximadamente 30 horas, dão origem a fêmeas filha que serão fecundadas pelo ácaro macho seu irmão. Estas descendentes fêmeas fecundadas e férteis emergem do opérculo com as novas abelhas dando continuidade ao ciclo de vida destes parasitas.

Título: Reprodução do Varroa destructor durante o inverno nas colónias de Apis mellifera no Reino Unido

Sumário: “O ciclo reprodutivo do Varroa destructor inicia-se com a invasão dos alvéolos com larvas de abelha durante os meses de inverno (janeiro a meados de março) e foi investigado em quatro colónias de Apis mellifera no Reino Unido. O número de descendentes viáveis ​​produzidos durante o ciclo reprodutivo, por ácaro, foi de apenas 0,5 durante o inverno em comparação com 1,0 durante o verão. Isso deveu-se principalmente a um grande aumento na população de ácaros inférteis (inverno 20%, verão 8%). Esse aumento pode ser explicado pelo alto nível de mortalidade de filhos machos observada no inverno (42% no inverno contra 18% no verão), o que resulta em quase metade dos ácaros fêmeas recém-criados não fecundados. Uma vez que os ácaros mãe põem um número semelhante de ovos no inverno (X = 4,7) e no verão (X = 4,9), e o nível de mortalidade sofrido pela descendência feminina é semelhante no inverno (7%) e no verão (6% ), provavelmente não é o estado fisiológico do hospedeiro que causa o alto nível de não fecundação no inverno, como se suspeitava anteriormente.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/11746259_Varroa_destructor_reproduction_during_the_winter_in_Apis_mellifera_colonies_in_UK

perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2019-2020: dados, análise e discussão

Esta publicação, com a tradução de excertos do mais recente relatório da Chambre d’Agriculture d’Alsace acerca das perdas de colónias de abelhas ocorridas no inverno de 2019-2020 nas três regiões da região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine), segue uma tradição já com vários anos de atenção dada aos excelentes relatórios produzidos por esta Câmara — seguindo as hiperligações encontram as traduções de sucessivos relatórios publicados em 2016, 2017 e 2018.

Aspectos gerais do relatório: 1) apresenta a quantificação objetiva da perda de colmeias no inverno 2019-2020, a partir das respostas recolhidas pelo inquérito enviado aos apicultores da região; 2) identifica os factores relacionados com perdas elevadas, a fim de sugerir cursos de ação para minimizá-los.

Ponto 1), responderam perto de 1 000 apicultores que invernaram perto de 40 mil colónias. Destas, morreram durante o inverno 9,3%; ficaram zanganeiras ou demasiado fracas para produzirem 9,2%. 81,5% estavam em boas condições à entrada da primavera de 2020.

Ponto 2), ao comparar as perdas sofridas pelos apicultores de acordo com alguns parâmetros, o relatório estabelece que há:

  • 2.1) correlações fortes entre as perdas e o medicamento escolhido contra o Varroa, assim como com a data de início do tratamento contra o Varroa;
  • 2.2) correlações fracas entre perdas e o número de colónias por apicultor, áreas geográficas dos apiários, transumância, renovação de rainhas, presença de sintomas de “varroa”, alimentação;
  • 2.3) correlações inexistentes entre perdas e número de colmeias na vizinhança, presença do vespão asiático, estado das colónias e recursos alimentares disponíveis.

Aspectos mais específicos do relatório: no decurso da minha experiência de uma relativa ineficácia do segundo tratamento anual com Apivar — esta ineficácia não significa necessariamente varroas resistentes; não tenho dados para o confirmar ou infirmar — vou procurar testar em 2021 uma estratégia mista, com utilização de princípios activos sintéticos e não-sintéticos (químicos todos são!). Neste contexto, os dados apresentados no relatório interessam-me mais que nunca, em especial os relativos à eficácia dos medicamentos não-sintéticos utilizados pelos apicultores desta região francesa.

Das três famílias de medicamentos não-sintéticos o MAQS (baseado em ácido fórmico) está associado ao menor número de perdas invernais (13,8%). Os medicamentos à base de timol e o Varromed estão associados a resultados menos bons, 38,4% e 40,2% de perdas invernais, respectivamente.

Talvez pelo facto de o Varromed ser um medicamento recente e, ao mesmo tempo, ter sido aquele que foi utilizado pelo maior número de apicultores em modo “bio”, no universo dos que responderam ao questionário, o relatório é mais pormenorizado e analítico, distinguindo estes dois cenários: entre os apicultores que referem que utilizaram o Varromed desde a primavera e utilizaram também no verão, como indicado pelo fabricante — fazer cerca de 10 aplicações ao longo do ano — as perdas invernais foram de 29%; entre os apicultores que o utilizaram somente no verão as perdas no inverno 2019-2020 foram de 54%. À luz destes dados os relatores recomendam que o Varromed não deve ser usado “no final da temporada” como se de um tratamento convencional se tratasse.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/documents%20ressources/2020_synthese_enquetes_printemps_2020_grand_est_vfinale.pdf

Nota: uma vez mais importa-me realçar que uma correlação não implica causalidade.

própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Desde há muito que são popularmente referidos os benefícios da própolis para a prevenção e recuperação de alguns estádios doentios. Gradualmente têm vindo a ser realizados estudos controlados que vão confirmando alguns desses benefícios (ver aqui). Dentro desta linha de investigação foi publicado, há poucos dias atrás, este estudo que fundamentadamente alimenta a esperança de a própolis ter efeitos positivos na luta contra o vírus SARS-CoV-2 e na redução da resposta inflamatória em pacientes com a doença COVID-19. Agradeço ao Paulo Matos ter-me chamado a atenção para este artigo científico.

Título: Própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Aspectos principais

  • A própolis, produzida por abelhas a partir de resinas vegetais bioativas, tem atividade antiviral. 
  • A própolis pode potencialmente interferir na invasão da célula hospedeira pelo SARS-CoV-2. 
  • A própolis bloqueia a PAK1 pró-inflamatória, uma quinase altamente expressa em pacientes com COVID19. 
  • A própolis padronizada tem propriedades consistentes para pesquisas clínicas e laboratoriais. 
  • A própolis é um alimento funcional seguro, amplamente consumido, com propriedades medicinais.

Conclusões: Considerando o grande número de mortes e outros tipos de danos que a pandemia de COVID-19 está causando, há uma necessidade urgente de encontrar terapias que possam ajudar a evitar ou reduzir a infecção por SARS-CoV-2 e suas consequências. A própolis tem efeitos antiinflamatórios e imunorreguladores comprovados, incluindo a inibição da PAK-1. Além disso, a ligação à ACE2, um dos principais alvos do vírus SARS-CoV-2 para a invasão da célula hospedeira, é inibida pela própolis. Componentes da própolis, incluindo CAPE, rutina, quercetina, kaempferol e miricetina têm demonstrado in silico uma forte interação com a ECA2. Kaempferol reduziu a expressão de TMPRSS2. Além destas atividades, a própolis não interage com as principais enzimas hepáticas ou com outras enzimas essenciais de acordo com os critérios adotados pela Organização Mundial de Saúde, portanto, a própolis pode ser usada concomitantemente aos principais medicamentos sem risco de potencialização ou inativação. Para determinar se a própolis afeta especificamente a SARS-CoV-2, serão necessárias mais pesquisas. Mas como a própolis é um produto isento de riscos, exceto para aqueles que podem desenvolver alergia a ela, as conhecidas atividades biológicas desse produto natural apícola levam-nos a sugerir seu uso para reduzir o risco e o impacto da infecção e como coadjuvante do tratamento.

fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0753332220308155?fbclid=IwAR3jpAkwjS8s2eL-U0CYmYYbGxGUx5ZzWb0ySftKCGrR207xj_kKhcza_Bk

inventário da susceptibilidade do Varroa destructor ao amitraz e tau-fluvalinato em França

Depois de cerca de 4 anos a tratar as minhas colónias de abelhas com Apivar e de acordo com um calendário afinado e ajustado ao território que ocupam, este ano verifiquei que o tratamento de verão não foi suficientemente eficaz em cerca de 30% das colónias tratadas. Entre as várias hipóteses susceptíveis de explicar o sucedido surge a de uma possível resistência ao amitraz em algumas das populações de ácaros que parasitavam estas abelhas. Até à data tinha conhecimento de dados fidedignos de resistência ao amitraz na Argentina e EUA. Este estudo francês, publicado recentemente (agosto deste ano), identifica uma percentagem elevada de ácaros (71% dos ácaros da amostra) não susceptíveis à dose letal habitual de amitraz para um LC90 (0.4 µg/mL).

A imagem da direita representa a dimensão de um ácaro varroa num corpo humano respeitando a regra da proporcionalidade.

O Varroa destructor é uma das maiores ameaças para a abelha europeia Apis mellifera. Os acaricidas são necessários para controlar a infestação de ácaros. Três substâncias químicas acaricidas convencionais são usadas na França: tau-fluvalinato, flumetrina e amitraz. O tau-fluvalinato foi usado durante mais de 10 anos antes de apresentar perda de eficácia. Em 1995, os testes através de bioensaios mostraram a resistência do primeiro ácaro ao tau-fluvalinato. Em alguns países, o amitraz foi amplamente utilizado, também levando à resistência do V. destructor ao amitraz. Em França, alguns testes de campo de eficiência mostraram uma perda de eficácia do tratamento com amitraz. Adaptámos o bioensaio de Maggi e colaboradores para determinar a susceptibilidade do ácaro ao tau-fluvalinato e amitraz em França em 2018 e 2019. A concentração letal (LC) que mata 90% das estirpes de ácaros suscetíveis (LC90) é 0,4 e 12 µg / mL para amitraz e tau-fluvalinato, respectivamente. Estas concentrações foram escolhidas como fatores determinantes para avaliar a susceptibilidade dos ácaros. Alguns ácaros, coletados em diferentes apiários, apresentam resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato (71% das amostras de ácaros apresentam resistência ao amitraz e 57% ao tau-fluvalinato). Como há poucas substâncias ativas disponíveis em França e se a resistência dos ácaros aos acaricidas continuar a aumentar, a eficácia dos tratamentos diminuirá e, portanto, serão necessários mais tratamentos por ano. Para evitar essa situação, uma nova estratégia precisa ser implementada e incluir a gestão da resistência dos ácaros. Sugerimos que o bioensaio será uma boa ferramenta para aconselhar os fazedores de políticas.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s10493-020-00535-w

avaliando a resistência a acaricidas para Varroa destructor em vários locais de Espanha

Estudo muito recente, publicado há um mês atrás (16 de setembro de 2020), e realizado no país vizinho.

A varroose é a doença causada pelo ácaro ectoparasitário Varroa destructor, uma das doenças mais destrutivas das abelhas. Em Espanha, existe uma grande preocupação porque existem muitas falhas terapêuticas após tratamentos acaricidas destinados a controlar surtos de varroose. Em alguns desses casos, não está claro se tais falhas são devidas à evolução da resistência. Portanto, é de grande interesse o desenvolvimento de metodologias para testar o nível de resistência em populações de ácaros. Neste trabalho, uma metodologia de bioensaio simples foi usada para testar se alguns relatos de baixa eficácia em diferentes regiões da Espanha estavam de fato relacionados com uma redução da sensibilidade do Varroa aos acaricidas mais usados. Este bioensaio mostrou-se muito eficaz na avaliação da presença de ácaros que sobrevivem após exposição a acaricidas. Nas amostras testadas, a mortalidade por cumafos variou de 2 a 89%; para o tau-fluvalinato, variou de 5 a 96%. Por outro lado, o amitraz causou 100% de mortalidade em todos os casos. Estes resultados sugerem a presença de Varroa resistente a cumafos e fluvalinato na maioria dos apiários amostrados, mesmo naqueles em que esses princípios ativos não foram utilizados nos últimos anos. A técnica de bioensaio apresentada aqui, sozinha ou em combinação com outras ferramentas moleculares, pode ser útil na detecção de populações de ácaros com diferentes sensibilidades a acaricidas, o que é de vital interesse na seleção do melhor manejo e / ou estratégia acaricida para controlar o parasita em apiários.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s00436-020-06879-x

mortalidade invernal e opções no controlo da varroose: dados em grande escala

Esta publicação apresenta os primeiros resultados obtidos em grande escala por 4 anos de inquéritos (2012–2015), realizados a uma amostra de 18 971 apicultores dos EUA, no que respeita às opções de maneio para o controlo da varroose e sua correlação com a perda de colónias de abelhas durante o inverno.

Título: Uso de métodos químicos [sintéticos e orgânicos] e não químicos para o controle do Varroa destructor (Acari: Varroidae) associados a perdas de colónias no inverno em operações de apicultura nos EUA [publicado em 2019]

Sumário: O ácaro Varroa destructor (Acari: Varroidae) é uma das principais causas de perdas de colónias de abelhas (Apis mellifera) durante o inverno, indicando que os apicultores devem controlar as populações de Varroa para manter colónias viáveis. Os apicultores têm acesso a vários varroacidas químicos e práticas não químicas para controlar as populações de Varroa. No entanto, nenhum estudo examinou os padrões em grande escala dos métodos de controle do Varroa nos Estados Unidos. Aqui nós utilizamos as respostas de 4 anos de inquéritos realizados anualmente a apicultores representando todas as regiões e tamanhos de operação nos Estados Unidos para investigar o uso de métodos de controle do Varroa e perdas de colónias no inverno associadas ao uso de diferentes métodos. Nós nos concentrámos em sete produtos varroacidas (amitraz, cumafos, fluvalinato, óleo de lúpulo [Hope Guard], ácido oxálico, ácido fórmico e timol) e seis práticas não químicas (remoção de cria de zângão, favos com alvéolos pequenos [4,9 mm], estrados sanitários, açúcar em pó, abelhas resistentes a ácaros e divisão de colónias) indicadas para ajudar no controle do Varroa. Descobrimos que quase todos os apicultores de grande escala usavam pelo menos um varroacida, enquanto os apicultores de pequena escala eram mais propensos a usar apenas práticas não químicas ou não usar qualquer controle do Varroa. O uso de varroacidas esteve consistentemente associado a perdas mais baixas no inverno, com o amitraz estando associado a menores perdas do que qualquer outro produto varroacida. Entre as práticas não químicas, a divisão das colónias esteve associada às menores perdas no inverno, embora as perdas associadas ao uso exclusivo de práticas não químicas fossem altas em geral. Nossos resultados indicam métodos de controle que são potencialmente eficazes ou preferidos pelos apicultores e, portanto, devem informar a experimentação que testa diretamente a eficácia de diferentes métodos de controle. Isso permitirá que os apicultores incorporem métodos de controle Varroa aos planos de maneio que melhoram o sucesso da hibernação de suas colónias.

fonte: https://academic.oup.com/jee/article-abstract/112/4/1509/5462560?redirectedFrom=fulltext

Algumas notas:

  • nos últimos anos a taxa de mortalidade invernal de colónias de abelhas tem sido superior nos EUA quando comparada com a que se verifica na UE (por ex., no inverno de 2017/18 a mortalidade foi cerca de 40% nos EUA e cerca de 16% na UE) ;
  • nos EUA o tratamento da varroose não é obrigatório ao contrário da UE;
  • nos EUA os medicamentos homologados para tratar doenças das abelhas (os acaricidas) não são comparticipados pelo estado, ao contrário da prática seguida na UE.

Reflexão: estes dados gerais, suportados em grandes amostras, permitem-nos ter uma visão “de helicóptero” e formular algumas conclusões muito valiosas a vários níveis, desde as políticas gerais para o sector até às decisões individuais na condução dos nossos apiários.

Estes dados gerais deverão ser complementados por dados a uma escala regional, porque há aspectos regionais que importa conhecer e estudar (ver estes já publicados por aqui, conduzidos na região da Alsácia francesa (1, 2 e 3).

Mais, não dispensam até estudos-de-casos para uma análise fina que permitam relevar e corrigir erros grosseiros a um nível individual, como este que ilustro em baixo (a foto é de uma colónia de um apiário pedagógico).