perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2019-2020: dados, análise e discussão

Esta publicação, com a tradução de excertos do mais recente relatório da Chambre d’Agriculture d’Alsace acerca das perdas de colónias de abelhas ocorridas no inverno de 2019-2020 nas três regiões da região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine), segue uma tradição já com vários anos de atenção dada aos excelentes relatórios produzidos por esta Câmara — seguindo as hiperligações encontram as traduções de sucessivos relatórios publicados em 2016, 2017 e 2018.

Aspectos gerais do relatório: 1) apresenta a quantificação objetiva da perda de colmeias no inverno 2019-2020, a partir das respostas recolhidas pelo inquérito enviado aos apicultores da região; 2) identifica os factores relacionados com perdas elevadas, a fim de sugerir cursos de ação para minimizá-los.

Ponto 1), responderam perto de 1 000 apicultores que invernaram perto de 40 mil colónias. Destas, morreram durante o inverno 9,3%; ficaram zanganeiras ou demasiado fracas para produzirem 9,2%. 81,5% estavam em boas condições à entrada da primavera de 2020.

Ponto 2), ao comparar as perdas sofridas pelos apicultores de acordo com alguns parâmetros, o relatório estabelece que há:

  • 2.1) correlações fortes entre as perdas e o medicamento escolhido contra o Varroa, assim como com a data de início do tratamento contra o Varroa;
  • 2.2) correlações fracas entre perdas e o número de colónias por apicultor, áreas geográficas dos apiários, transumância, renovação de rainhas, presença de sintomas de “varroa”, alimentação;
  • 2.3) correlações inexistentes entre perdas e número de colmeias na vizinhança, presença do vespão asiático, estado das colónias e recursos alimentares disponíveis.

Aspectos mais específicos do relatório: no decurso da minha experiência de uma relativa ineficácia do segundo tratamento anual com Apivar — esta ineficácia não significa necessariamente varroas resistentes; não tenho dados para o confirmar ou infirmar — vou procurar testar em 2021 uma estratégia mista, com utilização de princípios activos sintéticos e não-sintéticos (químicos todos são!). Neste contexto, os dados apresentados no relatório interessam-me mais que nunca, em especial os relativos à eficácia dos medicamentos não-sintéticos utilizados pelos apicultores desta região francesa.

Das três famílias de medicamentos não-sintéticos o MAQS (baseado em ácido fórmico) está associado ao menor número de perdas invernais (13,8%). Os medicamentos à base de timol e o Varromed estão associados a resultados menos bons, 38,4% e 40,2% de perdas invernais, respectivamente.

Talvez pelo facto de o Varromed ser um medicamento recente e, ao mesmo tempo, ter sido aquele que foi utilizado pelo maior número de apicultores em modo “bio”, no universo dos que responderam ao questionário, o relatório é mais pormenorizado e analítico, distinguindo estes dois cenários: entre os apicultores que referem que utilizaram o Varromed desde a primavera e utilizaram também no verão, como indicado pelo fabricante — fazer cerca de 10 aplicações ao longo do ano — as perdas invernais foram de 29%; entre os apicultores que o utilizaram somente no verão as perdas no inverno 2019-2020 foram de 54%. À luz destes dados os relatores recomendam que o Varromed não deve ser usado “no final da temporada” como se de um tratamento convencional se tratasse.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/documents%20ressources/2020_synthese_enquetes_printemps_2020_grand_est_vfinale.pdf

Nota: uma vez mais importa-me realçar que uma correlação não implica causalidade.

própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Desde há muito que são popularmente referidos os benefícios da própolis para a prevenção e recuperação de alguns estádios doentios. Gradualmente têm vindo a ser realizados estudos controlados que vão confirmando alguns desses benefícios (ver aqui). Dentro desta linha de investigação foi publicado, há poucos dias atrás, este estudo que fundamentadamente alimenta a esperança de a própolis ter efeitos positivos na luta contra o vírus SARS-CoV-2 e na redução da resposta inflamatória em pacientes com a doença COVID-19. Agradeço ao Paulo Matos ter-me chamado a atenção para este artigo científico.

Título: Própolis e seu potencial contra mecanismos de infecção por SARS-CoV-2 e doença COVID-19

Aspectos principais

  • A própolis, produzida por abelhas a partir de resinas vegetais bioativas, tem atividade antiviral. 
  • A própolis pode potencialmente interferir na invasão da célula hospedeira pelo SARS-CoV-2. 
  • A própolis bloqueia a PAK1 pró-inflamatória, uma quinase altamente expressa em pacientes com COVID19. 
  • A própolis padronizada tem propriedades consistentes para pesquisas clínicas e laboratoriais. 
  • A própolis é um alimento funcional seguro, amplamente consumido, com propriedades medicinais.

Conclusões: Considerando o grande número de mortes e outros tipos de danos que a pandemia de COVID-19 está causando, há uma necessidade urgente de encontrar terapias que possam ajudar a evitar ou reduzir a infecção por SARS-CoV-2 e suas consequências. A própolis tem efeitos antiinflamatórios e imunorreguladores comprovados, incluindo a inibição da PAK-1. Além disso, a ligação à ACE2, um dos principais alvos do vírus SARS-CoV-2 para a invasão da célula hospedeira, é inibida pela própolis. Componentes da própolis, incluindo CAPE, rutina, quercetina, kaempferol e miricetina têm demonstrado in silico uma forte interação com a ECA2. Kaempferol reduziu a expressão de TMPRSS2. Além destas atividades, a própolis não interage com as principais enzimas hepáticas ou com outras enzimas essenciais de acordo com os critérios adotados pela Organização Mundial de Saúde, portanto, a própolis pode ser usada concomitantemente aos principais medicamentos sem risco de potencialização ou inativação. Para determinar se a própolis afeta especificamente a SARS-CoV-2, serão necessárias mais pesquisas. Mas como a própolis é um produto isento de riscos, exceto para aqueles que podem desenvolver alergia a ela, as conhecidas atividades biológicas desse produto natural apícola levam-nos a sugerir seu uso para reduzir o risco e o impacto da infecção e como coadjuvante do tratamento.

fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0753332220308155?fbclid=IwAR3jpAkwjS8s2eL-U0CYmYYbGxGUx5ZzWb0ySftKCGrR207xj_kKhcza_Bk

inventário da susceptibilidade do Varroa destructor ao amitraz e tau-fluvalinato em França

Depois de cerca de 4 anos a tratar as minhas colónias de abelhas com Apivar e de acordo com um calendário afinado e ajustado ao território que ocupam, este ano verifiquei que o tratamento de verão não foi suficientemente eficaz em cerca de 30% das colónias tratadas. Entre as várias hipóteses susceptíveis de explicar o sucedido surge a de uma possível resistência ao amitraz em algumas das populações de ácaros que parasitavam estas abelhas. Até à data tinha conhecimento de dados fidedignos de resistência ao amitraz na Argentina e EUA. Este estudo francês, publicado recentemente (agosto deste ano), identifica uma percentagem elevada de ácaros (71% dos ácaros da amostra) não susceptíveis à dose letal habitual de amitraz para um LC90 (0.4 µg/mL).

A imagem da direita representa a dimensão de um ácaro varroa num corpo humano respeitando a regra da proporcionalidade.

O Varroa destructor é uma das maiores ameaças para a abelha europeia Apis mellifera. Os acaricidas são necessários para controlar a infestação de ácaros. Três substâncias químicas acaricidas convencionais são usadas na França: tau-fluvalinato, flumetrina e amitraz. O tau-fluvalinato foi usado durante mais de 10 anos antes de apresentar perda de eficácia. Em 1995, os testes através de bioensaios mostraram a resistência do primeiro ácaro ao tau-fluvalinato. Em alguns países, o amitraz foi amplamente utilizado, também levando à resistência do V. destructor ao amitraz. Em França, alguns testes de campo de eficiência mostraram uma perda de eficácia do tratamento com amitraz. Adaptámos o bioensaio de Maggi e colaboradores para determinar a susceptibilidade do ácaro ao tau-fluvalinato e amitraz em França em 2018 e 2019. A concentração letal (LC) que mata 90% das estirpes de ácaros suscetíveis (LC90) é 0,4 e 12 µg / mL para amitraz e tau-fluvalinato, respectivamente. Estas concentrações foram escolhidas como fatores determinantes para avaliar a susceptibilidade dos ácaros. Alguns ácaros, coletados em diferentes apiários, apresentam resistência ao amitraz e ao tau-fluvalinato (71% das amostras de ácaros apresentam resistência ao amitraz e 57% ao tau-fluvalinato). Como há poucas substâncias ativas disponíveis em França e se a resistência dos ácaros aos acaricidas continuar a aumentar, a eficácia dos tratamentos diminuirá e, portanto, serão necessários mais tratamentos por ano. Para evitar essa situação, uma nova estratégia precisa ser implementada e incluir a gestão da resistência dos ácaros. Sugerimos que o bioensaio será uma boa ferramenta para aconselhar os fazedores de políticas.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s10493-020-00535-w

avaliando a resistência a acaricidas para Varroa destructor em vários locais de Espanha

Estudo muito recente, publicado há um mês atrás (16 de setembro de 2020), e realizado no país vizinho.

A varroose é a doença causada pelo ácaro ectoparasitário Varroa destructor, uma das doenças mais destrutivas das abelhas. Em Espanha, existe uma grande preocupação porque existem muitas falhas terapêuticas após tratamentos acaricidas destinados a controlar surtos de varroose. Em alguns desses casos, não está claro se tais falhas são devidas à evolução da resistência. Portanto, é de grande interesse o desenvolvimento de metodologias para testar o nível de resistência em populações de ácaros. Neste trabalho, uma metodologia de bioensaio simples foi usada para testar se alguns relatos de baixa eficácia em diferentes regiões da Espanha estavam de fato relacionados com uma redução da sensibilidade do Varroa aos acaricidas mais usados. Este bioensaio mostrou-se muito eficaz na avaliação da presença de ácaros que sobrevivem após exposição a acaricidas. Nas amostras testadas, a mortalidade por cumafos variou de 2 a 89%; para o tau-fluvalinato, variou de 5 a 96%. Por outro lado, o amitraz causou 100% de mortalidade em todos os casos. Estes resultados sugerem a presença de Varroa resistente a cumafos e fluvalinato na maioria dos apiários amostrados, mesmo naqueles em que esses princípios ativos não foram utilizados nos últimos anos. A técnica de bioensaio apresentada aqui, sozinha ou em combinação com outras ferramentas moleculares, pode ser útil na detecção de populações de ácaros com diferentes sensibilidades a acaricidas, o que é de vital interesse na seleção do melhor manejo e / ou estratégia acaricida para controlar o parasita em apiários.

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s00436-020-06879-x

mortalidade invernal e opções no controlo da varroose: dados em grande escala

Esta publicação apresenta os primeiros resultados obtidos em grande escala por 4 anos de inquéritos (2012–2015), realizados a uma amostra de 18 971 apicultores dos EUA, no que respeita às opções de maneio para o controlo da varroose e sua correlação com a perda de colónias de abelhas durante o inverno.

Título: Uso de métodos químicos [sintéticos e orgânicos] e não químicos para o controle do Varroa destructor (Acari: Varroidae) associados a perdas de colónias no inverno em operações de apicultura nos EUA [publicado em 2019]

Sumário: O ácaro Varroa destructor (Acari: Varroidae) é uma das principais causas de perdas de colónias de abelhas (Apis mellifera) durante o inverno, indicando que os apicultores devem controlar as populações de Varroa para manter colónias viáveis. Os apicultores têm acesso a vários varroacidas químicos e práticas não químicas para controlar as populações de Varroa. No entanto, nenhum estudo examinou os padrões em grande escala dos métodos de controle do Varroa nos Estados Unidos. Aqui nós utilizamos as respostas de 4 anos de inquéritos realizados anualmente a apicultores representando todas as regiões e tamanhos de operação nos Estados Unidos para investigar o uso de métodos de controle do Varroa e perdas de colónias no inverno associadas ao uso de diferentes métodos. Nós nos concentrámos em sete produtos varroacidas (amitraz, cumafos, fluvalinato, óleo de lúpulo [Hope Guard], ácido oxálico, ácido fórmico e timol) e seis práticas não químicas (remoção de cria de zângão, favos com alvéolos pequenos [4,9 mm], estrados sanitários, açúcar em pó, abelhas resistentes a ácaros e divisão de colónias) indicadas para ajudar no controle do Varroa. Descobrimos que quase todos os apicultores de grande escala usavam pelo menos um varroacida, enquanto os apicultores de pequena escala eram mais propensos a usar apenas práticas não químicas ou não usar qualquer controle do Varroa. O uso de varroacidas esteve consistentemente associado a perdas mais baixas no inverno, com o amitraz estando associado a menores perdas do que qualquer outro produto varroacida. Entre as práticas não químicas, a divisão das colónias esteve associada às menores perdas no inverno, embora as perdas associadas ao uso exclusivo de práticas não químicas fossem altas em geral. Nossos resultados indicam métodos de controle que são potencialmente eficazes ou preferidos pelos apicultores e, portanto, devem informar a experimentação que testa diretamente a eficácia de diferentes métodos de controle. Isso permitirá que os apicultores incorporem métodos de controle Varroa aos planos de maneio que melhoram o sucesso da hibernação de suas colónias.

fonte: https://academic.oup.com/jee/article-abstract/112/4/1509/5462560?redirectedFrom=fulltext

Algumas notas:

  • nos últimos anos a taxa de mortalidade invernal de colónias de abelhas tem sido superior nos EUA quando comparada com a que se verifica na UE (por ex., no inverno de 2017/18 a mortalidade foi cerca de 40% nos EUA e cerca de 16% na UE) ;
  • nos EUA o tratamento da varroose não é obrigatório ao contrário da UE;
  • nos EUA os medicamentos homologados para tratar doenças das abelhas (os acaricidas) não são comparticipados pelo estado, ao contrário da prática seguida na UE.

Reflexão: estes dados gerais, suportados em grandes amostras, permitem-nos ter uma visão “de helicóptero” e formular algumas conclusões muito valiosas a vários níveis, desde as políticas gerais para o sector até às decisões individuais na condução dos nossos apiários.

Estes dados gerais deverão ser complementados por dados a uma escala regional, porque há aspectos regionais que importa conhecer e estudar (ver estes já publicados por aqui, conduzidos na região da Alsácia francesa (1, 2 e 3).

Mais, não dispensam até estudos-de-casos para uma análise fina que permitam relevar e corrigir erros grosseiros a um nível individual, como este que ilustro em baixo (a foto é de uma colónia de um apiário pedagógico).

evidências sobre os benefícios para a saúde da inclusão do(a) própolis na dieta

Em 2019 foi publicado na revista Nutrients esta revisão dos estudos publicados entre 1990–2018 em torno das evidências sobre os benefícios para a saúde pelo consumo e/ou utilização do própolis.

“O(A) própolis é um produto com benefícios para a saúde já relatados, como melhoria da imunidade, redução da pressão arterial, tratamento de alergias e problemas de pele. Uma revisão da literatura e uma síntese foram efectuadas para investigar as evidências sobre os benefícios para a saúde relatados e a direção futura dos produtos com própolis. Usando uma estratégia de pesquisa predefinida, pesquisámos no Medline (OvidSP), Embase e Central quer estudos quantitativos quer qualitativos (1990–2018). Citação, referência, revisões manuais e consulta a especialistas também foram efectuadas. Estudos com ensaios clínicos randomizados (aleatórios) e dados da observação em humanos foram incluídos. […]. Um total de 63 publicações foram analisadas. A maioria foram estudos efectuados em células e em animais, com alguns testes realizados em humanos. Há dados muito significativos e prometedores do própolis enquanto agente antioxidante e anti-inflamatório eficaz, particularmente promissor na saúde cardiometabólica.

fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6893770/

As abelhas utilizam 0/a própolis para a defesa da cidade/colectividade, contra animais várias vezes maiores que elas, assim como contra microorganismos infecciosos, como os fungos e bactérias.

uma formulação em gel de ácido fórmico para o controle de ácaros (varroa e traqueia) em abelhas melíferas

Estudos com alguns anos e que, muito provavelmente, terão servido de ensaios percursores e inspiradores ao desenvolvimento do MAQS e outros tratamentos de gel com ácido fórmico. Medicamentos para a varroose com eficácia inferior a 90% creio que poderão ser homologados pela Agência Europeia do Medicamento (EMA), mas com a orientação para o aplicador dever acompanhar o tratamento com outras medidas de gestão integrada de pestes*.

“Uma formulação de gel de ácido fórmico a 65% e um sistema de veiculação, conhecido como pacote de gel de ácido fórmico Beltsville (BFA), foram desenvolvidos para controlar ácaros parasitas de abelhas. As concentrações de ácido fórmico em aplicações únicas de pacotes de gel BFA foram em média de 10-50 ppm dentro da colmeia, o que igualou ou excedeu os níveis de ácido fórmico obtidos por quatro aplicações líquidas sucessivas. Num estudo de campo da Primavera, uma única aplicação de pacotes de gel de BFA foi cerca de 70% eficaz no controle do Varroa jacobsoni, quando avaliados por tratamentos de acompanhamento com Apistan®. Em estudos com abelhas enjauladas, o controle do ácaro da traqueia, Acarapis woodi, aproximou-se de 100% ao oitavo dia. O pacote de gel de BFA é mais seguro de manusear do que o ácido fórmico líquido e, devido à sua liberação mais lenta, requer menos aplicações do que seu equivalente líquido. A eficácia contra o Varroa e ácaros da traqueia deve encorajar o uso de pacotes de gel BFA num programa geral para controlar os ácaros (varroa e/ou traqueia) que parasitam as abelhas.”

fonte: https://www.researchgate.net/publication/287849856_A_Gel_Formulation_of_Formic_Acid_for_the_Control_of_Parasitic_Mites_of_Honey_Bees

Um segundo estudo, agora com uma formulação com uma concentração de ácido fórmico a 85% obteve uma taxa de eficácia semelhante.

“Duas formulações de um gel à base de amido contendo 85% de ácido fórmico foram avaliadas para controlar o Varroa destructor em colmeias de abelhas. […] A eficácia média na redução da população Varroa foi de cerca de 73%.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/273259562_A_gel_formulation_of_formic_acid_for_control_of_Varroa_destructor

* À luz do que é feito na ficha técnica do Varromed:

4.4 Advertências especiais para cada espécie-alvo: VarroMed só deve ser usado como parte de um programa de controle integrado do Varroa. A eficácia foi investigada apenas em colmeias com taxas de infestação de ácaros baixas a moderadas.”

fonte: https://ec.europa.eu/health/documents/community-register/2017/20170202136456/anx_136456_en.pdf

perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2017-2018: dados, análise e discussão

Enquanto apicultor profissional (a minha renda anual depende exclusivamente dos proveitos alcançados por via das minhas colónias de abelhas, isto desde 2010) e enquanto amador das abelhas (tenho uma paixão por ajudar as minhas colónias a manterem-se vivas e saudáveis, particularmente durante os meses de escassez), a maior satisfação provem das baixas taxas de mortalidade invernais, que felizmente têm ficado abaixo dos 5% nos últimos anos. Sobre as abelhas já vi um pouco (experiência), já li um pouco mais (estudo), e já pensei um pouco mais ainda (tentando construir algum conhecimento), para que desta mistura saia o necessário, ano após ano, que me permita estar mais preparado frente a este grande desafio: manter os enxames de abelhas vivos e saudáveis para me darem a renda anual que procuro.

Uma das ferramentas para alcançar tal desiderato tem sido, como referi, as leituras, e nessas leituras destaco os magníficos relatórios da Chambre d’Agriculture d’Alsace, pelo contributo que têm dado à minha aprendizagem e reflexão. Aqui e aqui deixei traduzidos os relatórios produzidos nos dois anos anteriores (2016 e 2017). Apresento agora a tradução de alguns excertos do relatório publicado em 2018, acerca das perdas ocorridas no inverno de 2017-2018 nas mesmas três regiões, inseridas na região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine).

A região Grand Est

As respostas foram fornecidas por 640 participantes. A pesquisa abrange 534 respostas válidas que descrevem o ocorrido em 16.940 colmeias distribuídas por 2.737 apiários de inverno.

Uma panorâmica geral

Com 11,6% das colmeias a chegarem mortas à primavera de 2018 (e 9,7% das colmeias sem valor à entrada da primavera), a situação da apicultura na região do Grand Est é semelhante à perda média dos últimos nove anos. Combinando estas duas taxas, as perdas globais chegam, portanto, a 21,3% das colmeias invernadas pelos apicultores (colmeias mortas + sem valor). Não houve mortalidade excessiva na primavera de 2018.

De forma semelhante aos inquéritos anteriores, constata-se um número mais elevado de perdas nos apicultores com poucas colmeias face a outros com mais colónias. De acordo com os dados disponíveis, este excesso de mortalidade foi estimado em 56% a mais de perdas para apicultores com “menos de 10 colmeias” em comparação com as de apicultores profissionais.

E, uma vez mais, confirma-se a influência central das escolhas técnicas relacionadas com o combate ao parasita Varroa na sobrevivência das colónias.

Influência de rainhas jovens na sobrevivência da colónia
Ao todo, 9.075 colónias de abelhas tinham rainhas do ano (53,6% das colmeias).
O inquérito não solicitava que o apicultor diferencie as perdas sofridas por colmeias com e sem rainhas jovens. As estatísticas não são precisas, portanto. Contudo de acordo com os sentimentos pessoais dos apicultores:
– Os problemas decorrentes das rainhas parecem ser equivalentes aos de anos anteriores; – Colmeias com rainhas jovens não têm invernado nem melhor nem pior do que as outras.

Remoção de cria de zângãos (corte de cria de zângãos)
A remoção de cria de zângãos retarda a progressão da infestação de Varroa, mas não constitui um tratamento em si. Para ser útil, é necessário um mínimo de 3 ou 4 cortes por primavera (abril a junho / julho).
Entre os 534 apicultoresinquiridos, apenas 29 praticaram esse corte “pelo menos 3 vezes”. Sua taxa média de perdas é de 22,7% (contra 21,3% para aqueles que não praticaram).

Embora esta medida seja reconhecida pela sua ação na infestação por varroa (desacelerando a infestação na primavera), sua influência nas perdas no inverno parece insignificante. Esta observação é consistente com os dados de inquéritos anteriores. A falta de efeito mensurável nas perdas de inverno pode ser explicada por um lado pela fertilidade do Varroa (que recuperaria no final do ano o “tempo perdido” pelas acções de remoção de cria de zângão) e / ou pelos fenómenos de reinfestações entre apiários vizinhos, o que acabaria por anular a vantagem proporcionada pelo método no início da época.

Quais são as culturas/florações presentes no ambiente da maioria de suas colónias?
O inquérito pediu informações acerca das culturas/florações presentes em redor dos apiários. A ausência de culturas melíferas parece estar sistematicamente ligada a maiores perdas (exceto para urze);

No que diz respeito à urze, a sua presença está associada a um grande número de colmeias que perderam o seu valor. Trata-se principalmente de colmeias que ficaram zanganeiras (28% das colónias em território de urze ficaram zanganeiras, 5% ficaram muito fracas).
Sobre este aspecto em particular não é possível, com base nos dados disponibilizados pelo inquérito, realizar análises estatísticas mais precisas, dada por um lado a imprecisão das informações coletadas e por outro lado o tamanho da amostra (número baixo de apiários onde as urzes estavam presentes).
A rede Coloss planeia explorar esta questão com base em dados coletados nos vários países participantes.

Tratamento “principal” de fim de verão
O período escolhido para o controle do parasita Varroa destructor é no final da temporada de produção de mel (ou seja, julho / agosto / setembro/outubro no Grand-Est).
Em 2017, a colocação dos tratamentos começou timidamente em julho (6% dos apicultores) e, a maioria foram realizados principalmente em agosto (44% dos apicultores) e em setembro (40% dos apicultores).
No Grand-Est, recomenda-se a realização dos tratamentos em julho / agosto, dada a duração de ação dos tratamentos (variável de 2 a 12 semanas) e o fim do período de criação das abelhas de inverno (aproximadamente em Outubro, Imdorf 2010). De fato, é necessário para a sobrevivência das colmeias que as abelhas de inverno sejam criadas em condições/ambiente já desparasitado.

Ligação entre a data do tratamento principal e as perdas de inverno As colónias tratadas mais cedo estão associadas às melhores taxas de sobrevivência no inverno.

As colmeias tratadas em outubro de 2017 mostram um excesso de mortalidade 2,2 vezes maior do que as colmeias tratadas em julho de 2017.
Com 36,7% de colmeias mortas, os tratamentos iniciados em outubro são muito menos úteis do que os realizados em julho (perdas de 16,6%, ou seja, 2,2 vezes menos perdas).

Ligação entre a escolha do medicamento principal para a varroose e as perdas no inverno

  • Apivar® – O medicamento mais utilizado para o “tratamento principal” (final do verão) é o APIVAR (11.705 colmeias, ou 69% das colónias monitoradas pela pesquisa). É o medicamento autorizado associado aos melhores resultados (melhores taxas de sobrevivência no inverno). Resultado sempre observado ao longo dos anos inquiridos (de 2010 a 2018).
  • Ácido fórmico – Segundo tratamento mais utilizado (1534 colmeias, ou 9% das colónias monitoradas pela pesquisa); a aplicação do ácido fórmico é aprovada na Agricultura Orgânica. Apresenta resultados variáveis ​​dependendo das condições de uso e das condições meteorológicas no apiário. O “MAQS” possui uma MA (Autorização de Introdução no Mercado), ao contrário das preparações caseiras utilizadas até agora.
  • Timol (Apiguard®, Thymovar®, Apilifevar®) – Usado em 5% das colmeias monitoradas pela pesquisa, esses medicamentos apresentam fortes variações de eficácia entre colmeias de um mesmo apiário. Está associado a perdas maiores.
  • Apistan (tau-fluvalinato) – cada vez mais raramente utilizado (> 1% das colmeias), esta molécula não é recomendada devido ao seu acúmulo em ceras e aos problemas de resistência a ela associados.
  • Ácido oxálico (Varromed) – o ácido oxálico é conhecido por ser eficaz contra Varroa na ausência de cria na colmeia. Recentemente, foi disponibilizado em preparações com Autorização de Introdução no Mercado e a particularidade é que pode ser utilizado durante todo o ano, inclusive na presença de cria. Atualmente, não temos nenhum feedback técnico de testes sobre a real eficácia deste produto (quais as doses e qual a frequência de aplicação para atingir qual taxa de eficiência?). A taxa de mortalidade associada às 633 colmeias tratadas com Varromed é de 32,5% (mas em que doses foram tratadas?). Um ponto que requer mais detalhes no futuro.
  • O amitraz “caseiro”, utilizado em menos de 1% dos casos, é uma prática proibida devido aos perigos diretos para o apicultor e para as abelhas. Seu desempenho é inferior ao do Apivar (com o mesmo princípio ativo).
  • Falta de tratamento e “outros métodos” — as respostas indicam que 1115 colmeias não foram tratadas e 402 colmeias foram tratadas com “outros métodos” (não especificado). As colmeias que não foram tratadas tiveram a maior taxa de perda de todas as colmeias da amostra (49%)!

Tratamento de inverno (ácido oxálico)
O inverno é uma oportunidade de realizar um tratamento complementar ao tratamento principal (verão), de forma a eliminar o varroa residual: a aplicação de ácido oxálico (AO) permite realizar um tratamento muito eficaz contra a varroa na ausência de criação. AO é uma molécula natural, que deve ser manuseada com cuidado. O período ideal é o período sem cria, geralmente final de dezembro-início de janeiro [nos meus apiários seria de meados de novembro a meados de dezembro… local, local, local!].

Durante o inverno de 2017-2018, o ácido oxalico foi aplicado no Grand Est como se descreve:

49 aplicações de AO “gotejado” (incluindo 34 em dezembro e 10 em janeiro). 41 aplicações AO por “sublimação” (gás) (incluindo 17 em dezembro e 11 em janeiro).

(Tenha cuidado com o entupimento dos seus dispositivos com a preparação ApiBioxal que infelizmente contém açúcar! O ApiBioxal é impróprio para este tipo de utilização.

As perdas registadas não são diferentes entre colmeias tratadas ou não com AO, no inverno (teste Z não significativo). E por uma boa razão: o tratamento de inverno não é usado para melhorar a taxa de sobrevivência no inverno! É o tratamento principal, o de verão, que se reflecte na sobrevivência no inverno. O objetivo do tratamento de inverno é minimizar o número de ácaros varroa nas colmeias para promover uma melhor época/arranque no ano seguinte.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/compte_rendu_enquetes_pertes_hivernales_grand_est_2018_v2.pdf

eficácia do mel para o alívio dos sintomas em infecções do trato respiratório superior: uma revisão sistemática e meta-análise

O consumo de mel em Portugal não sendo dos mais altos da Europa também não é dos mais baixos. Em Portugal o seu consumo ronda os 700-800 grs per capita/ano. Naturalmente estes valores podem e devem subir um pouco mais para benefício de todos, dos cidadãos consumidores, dos apicultores e sobretudo das abelhas. Sem consumo dos produtos da colmeia não haverá apicultores e sem apicultores não haverá abelhas melíferas. Estas relações de forte interdependência vão mais além ainda: sem abelhas melíferas os serviços de polinização ficarão seriamente ameaçados e sem esses serviços de polinização a qualidade da nossa dieta ficará diminuída e a fauna e floras silvestres empobrecerá. As campanhas promocionais para o consumo dos produtos da colmeia, e do mel em particular, devem, na minha opinião, apoiar-se e divulgar estas linhas de fundo. Para cada um destes pilares de uma bem desenhada campanha de marketing devemos apoiar os nossos argumentos nas melhores evidências científicas. Vem a este propósito a tradução deste estudo, publicado há 3 dias atrás, em torno de uma meta-análise sobre os efeitos do mel no combate aos sintomas de infecções do trato respiratório superior (sobre os serviços ecossistémicos prestados pelos polinizadores em geral, e as abelhas melíferas em particular, já escrevi algumas vezes).

Antecedentes: A prescrição de antibióticos para infecções do trato respiratório superior (ITRSs) na intervenção primária exacerba a resistência antimicrobiana. Há necessidade de alternativas eficazes à prescrição de antibióticos. O mel é um remédio popular para ITRSs e têm vindo a surgir evidências para seu uso. O mel tem propriedades antimicrobianas, e as diretrizes recomendam mel para tosse aguda em crianças.

Objetivos: Avaliar a eficácia do mel para o alívio sintomático em ITRSs.

Métodos: Uma revisão sistemática e meta-análise. Pesquisámos Pubmed, Embase, Web of Science, AMED, Cab abstracts, Cochrane Library, LILACS e CINAHL com uma combinação de palavras-chave e termos MeSH.

Conclusões: O mel foi superior ao tratamento usual para a melhora dos sintomas de infecções do trato respiratório superior. Ele fornece uma alternativa amplamente disponível e barata aos antibióticos. O mel pode ajudar nos esforços para retardar a disseminação da resistência antimicrobiana, mas são necessários mais ensaios clínicos, controlados com placebo, de alta qualidade.”

fonte: https://ebm.bmj.com/content/early/2020/07/28/bmjebm-2020-111336.full

Os nutricionistas recomendam o consumo de uma colher de sopa de mel diariamente (foto tirada hoje comigo prestes a ingerir a minha dose diária de mel).

quantidade da dieta influencia a determinação de castas em abelhas (Apis mellifera)

Abelha rainha ou abelha mãe.

“Nas espécies que cuidam da sua prole/descendentes, o aprovisionamento de alimento disponível para o seu desenvolvimento tem efeitos profundos nas características da prole. O aprovisionamento é importante nas abelhas porque os aspectos nutricionais determinam se uma fêmea se torna uma rainha reprodutora ou operária estéril. Pensa-se que uma diferença qualitativa entre as dietas larvais de rainhas e operárias conduza a essa divergência (1); no entanto, nenhum composto isolado parece ser responsável pela diferenciação (2). A quantidade da dieta pode ter um papel durante a determinação das castas de abelhas, mas nunca foi formalmente estudada. Nosso objetivo era determinar as contribuições relativas da quantidade e qualidade da dieta para o desenvolvimento da rainha. As larvas foram criadas in vitro com nove dietas variando a proporção de geleia real e açúcares [aspecto qualitativo da dieta], e foram alimentados com oito quantidades diferentes [o que perfaz 72 regimes alimentares distintos] (3) . Para a dieta situada a meio da escala [na escala de proporção de proteína e açucares/carboidratos da dieta] (4), foi incluído um tratamento com quantidade ad libitum [à vontade]. Após a emergência, as características de rainha foram determinadas usando uma análise de componentes principais (CP) através de sete medidas morfológicas (5). Descobrimos que as larvas alimentadas com uma quantidade ad libitum de dieta eram indistinguíveis das rainhas criadas comercialmente, e que as características de rainha eram independentes da proporção de proteína e açucares na dieta (6). Nem o teor de proteínas nem os carboidratos tiveram influência significativa no primeiro componente principal (CP1), aquele que explicou 64,4% da diferença entre rainhas e operárias (7). Por outro lado, a quantidade total de alimento explicou uma quantidade significativa da variação no CP1 (8). Grandes quantidades de dieta no instar final [o que ocorre no 6º dia de desenvolvimento larvar] foram capazes de induzir os traços da rainha, contrariamente à sabedoria recebida de que a determinação da rainha só pode ocorrer até ao terceiro instar [o que ocorre no 3º dia de desenvolvimento larvar] (9). Estes resultados indicam que a quantidade total de dieta/alimento fornecida às larvas pode regular [condicionar] a diferença entre castas de rainhas e operárias nas abelhas. (10)”

O conhecimento convencional refere que a diferenciação entre as castas de abelhas fêmeas ocorre, o mais tardar, até ao 3º instar larvar. De acordo com os dados obtidos pelos autores deste estudo esta diferenciação pode ocorrer até ao último instar larvar, isto é, até ao 6º dia de desenvolvimento larvar, e se as larvas forem alimentadas com grandes quantidades de dieta apropriada.

(1) Desde a década de 1890, acredita-se que a qualidade da dieta determina casta nas abelhas através de uma ‘substância ativa biológica’ encontrada apenas na geleia real que ativa uma chave [epigenética] de desenvolvimento das rainhas.

(2) Embora os estudos tenham mostrado inicialmente que as proteínas eram reguladoras-chave da casta, os estudos de acompanhamento/aprofundamento falharam em reforçar estes dados iniciais.

(3) A menor quantidade de dieta (160 µl) foi adoptada a partir de métodos in vitro anteriores, porque essa quantidade produz abelhas operárias. A quantidade foi aumentada em incrementos de 30 µl de 160 µl até 370 µl para produzir os outros tratamentos. Houve um tratamento ad libitum adicional no qual as larvas eram alimentadas com um excesso acima do que podiam consumir. Todas as larvas foram alimentadas com a mesma quantidade durante os primeiros 5 dias de desenvolvimento: dia 1: 10 µl, dia 2: 10 µl, dia 3: 20 µl, dia 4: 30 µl e dia 5: 40 µl, totalizando 110 µl de dieta durante os 5 dias. Durante o sexto dia de desenvolvimento, as larvas foram alimentadas com quantidades diferentes, dependendo do tratamento da quantidade da dieta, de modo que a quantidade total da dieta variou de 160 µl a 370 µl. No tratamento ad libitum, as larvas foram alimentadas com 200 µl por dia até à purga intestinal. Os tratamentos com grande quantidade de alimento produziram uma alta proporção de rainhas. Por exemplo, o tratamento ad libitum produziu 100% (20 de 20) rainhas e o tratamento de 370 µl produziu 58% de rainhas (19 de 33). Nos tratamentos de menor quantidade de alimento (220, 190, 160 µl), apenas três rainhas foram produzidas.

(4) A dieta de referência (dieta com proteínas e carboidratos em níveis médios) foi baseada num estudo anterior que estabeleceu o desenvolvimento de operárias induzidas pela dieta. A geleia real continha 12,35% de proteína, 27% de carboidratos e 56% de água. Esses valores foram utilizados para calcular a percentagem de macronutrientes em cada dieta.

(5) A morfometria de adultos pode separar e classificar castas. As mandíbulas, o basitarso e a cabeça dos adultos foram dissecados e fotografados. As medidas morfométricas incluíram peso húmido corporal total, largura e comprimento do basitarso, largura e comprimento da mandíbula e largura e comprimento da cabeça.

(6) Os resultados indicam que esses componentes qualitativos parecem não determinar a casta quando a quantidade de alimentos é controlada. Dietas ricas em carboidratos produzem mais rainhas quando a quantidade da dieta não é controlada. Royalactin (MRJP-1) e Major Royal Jelly Protein-3 (MRJP-3) são considerados os principais componentes da geleia real que influenciam o desenvolvimento da rainha, mas nenhum estudo controlou a quantidade da dieta. Nossos resultados indicam que esses componentes qualitativos parecem não determinar a casta quando a quantidade de alimentos é controlada e esses fatores qualitativos devem ser reavaliados para determinar se desempenham ou não um papel importante no desenvolvimento da casta.

(7) Quando o conteúdo de proteínas e carboidratos é alterado em quantidades controladas na dieta, o desenvolvimento e a sobrevivência são afetados, particularmente em dietas com pouca proteína. Observamos um resultado semelhante de alta mortalidade em dietas com pouca proteína. No entanto, a proporção de proteínas e carboidratos não parece determinar a casta nas abelhas.

(8) Nosso estudo corrobora outros estudos que indicaram que o teor relativo de proteínas não controla a diferenciação da rainha. Nossos resultados indicam que a quantidade da dieta tem um papel maior no desenvolvimento da rainha do que a qualidade, e estudos futuros devem controlar a quantidade da dieta ao testar sistematicamente macronutrientes no desenvolvimento de castas.

(9) O terceiro dia foi considerado a janela crítica para a determinação da rainha, mas nossos resultados sugerem que o status reprodutivo pode ser mantido até ao sexto dia se houver comida suficiente.

(10) Os miRNAs e o ácido p-cumárico encontrados no pólen inibem o desenvolvimento dos ovários e estão presentes apenas na dieta de larvas destinadas às operárias. No nosso estudo, baixas quantidades de alimentos inibiram o desenvolvimento da rainha. Nos tratamentos com menor quantidade de alimento (220, 190, 160 µl), apenas três rainhas foram produzidas.

fonte: https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2020.0614

Nota: este estudo, com um desenho experimental elegante e complexo, aprofunda uma linha de investigação, que visa identificar as variáveis independentes que melhor explicam a diferenciação de castas nas abelhas fêmeas. Do que entendi e procurando simplificar e resumir, a quantidade de alimento influencia de forma importante a diferenciação até ao 5º instar larvar, isto é, quantidades elevadas de dieta apropriada, mesmo que fornecidas no 6º dia do estádio larvar, contribuíram para que 58% dessas larvas tenham evoluído para abelhas-rainha. Este estudo reforça a ideia que tal como noutros insectos sociais (vespas e vespões, por ex.), também nas abelhas melíferas a quantidade de alimento, não apenas a sua qualidade, tem um papel decisivo na diferenciação entre fêmeas reprodutivas e fêmeas estéreis. Verificou-se também que dietas ricas mas em quantidades baixas não foram suficientes para fazer evoluir as larvas no sentido da formação de abelhas-rainha num número significativo de casos. Este estudo, e outros nesta linha, visam fornecer a indústria de criadores de rainhas (em especial a norte-americana) de conhecimentos que lhe permita melhorar a qualidade das rainhas que coloca no mercado e que tem sido alvo de críticas num passado recente.