identificando o impacto das condições climáticas nas doenças das abelhas melíferas

Publicado em novembro deste ano, este estudo longitudinal que decorreu entre 2006 e 2016 em Inglaterra e no País de Gales, com uma enorme riqueza de detalhes, teve como âmbito e objectivo clarificar a interacção entre a doença em abelhas e o clima, os dois principais causadores de perda de colónias, nas palavras dos autores. A equipa de investigadores, combinaram os registros de doenças resultantes das inspeções ao estado sanitário das colónias com dados meteorológicos para identificar o impacto do clima na loque europeia, loque americana, paralisia crónica das abelhas, varroose, ascosferiose e criação ensacada.

Segundo os autores “As abelhas melíferas sofrem de uma variedade de patógenos bacterianos, fúngicos, microsporídicos e virais, bem como ácaros ectoparasitários, que podem levar a uma saúde precária e à perda de colónias. Especificamente a loque europeia, loque americana, paralisia crónica das abelhas, varroose, ascosferiose e criação ensacada. São todas doenças que podem ter efeitos adversos diretos bem documentados em colónias de abelhas, como a deterioração da criação e paralisia de abelhas adultas. Além dos efeitos diretos óbvios sobre a saúde da colónia, a doença pode ter consequências indiretas mais subtis que são menos bem definidas e mais difíceis de estudar. Por exemplo, a perda de obreiras devido à infestação da colónia com ácaros Varroa destructor resulta em forrageamento pobre e subsequente inanição de larvas e adultos. Além disso, o encurtamento da expectativa de vida das abelhas infectadas com o vírus das asas deformadas associado ao ácaro pode levar à perda de colónias no inverno. Doenças da criação, como loque europeia, loque americana, ascosferiose e criação ensacada, são conhecidas por terem efeitos diretos significativos na saúde das colónias por causa de seu impacto nos estágios iniciais da vida, posteriormente limitando o número de futuras operárias disponíveis para realizar tarefas essenciais na colmeia.

As abelhas atendem a todas as suas necessidades nutricionais, procurando no seu ambiente local néctar (carboidrato) e pólen (proteína), mas o forrageamento depende muito das condições climáticas. Chuvas, baixas temperaturas e ventos fortes são conhecidos por restringir a atividade de forrageamento das abelhas. A escassez de pólen pode ocorrer após alguns dias sem forrageamento, levando à operculação mais precoce das larvas e redução da amamentação/fornecimento da geleia de obreiras. O consumo de pólen não fresco pode causar disbiose intestinal [desequilíbrio na flora intestinal em que existe alteração na quantidade e na distribuição de bactérias no intestino] e um aumento na prevalência de patógenos. O mau tempo na primavera e no verão, quando as colónias são mais populosas, pode levar ao aumento da congestão das colmeias, o que, por sua vez, tem sido relacionado com um aumento na transmissão de doenças. A mudança climática pode trazer um clima mais severo e imprevisível que pode, em última análise, ser prejudicial à sobrevivência das colónias de abelhas e pode alterar as fontes de alimento naturalmente disponíveis.” […]

Entre 2006 e 2016, houve 317.838 visitas às colónias por inspetores, com uma média de 28.894 por ano. A prevalência de cada doença variava anualmente. A loque americana foi a doença mais rara, seguida pela paralisia crónica das abelhas e loque europeia. Varroose, criação ensacada e criação de giz [ascosferiose] foram as três doenças mais prevalentes observadas durante as inspeções.”

Número total de casos de diferentes doenças das abelhas melíferas em Inglaterra e no País de Gales entre 2006 e 2016. Cada condado foi normalizado para casos por 1000 colónias visitadas para evitar viés do número de inspeções.

Vejamos as conclusões deste estudo fecundo de pistas para todos os apicultores que pretendem uma compreensão mais completa das relações entre o clima e a prevalência destas doenças:

  • A nossa nova abordagem analítica demonstra claramente pela primeira vez que o risco de quatro das seis doenças das abelhas melíferas é impactado por condições meteorológicas, apesar de ser causado por diversos agentes causadores que abrangem bactérias, fungos, vírus e ácaros.
  • As condições meteorológicas temperatura, precipitação e vento foram selecionadas por causa de sua clara influência no forrageamento e reprodução das abelhas.
  • O Varroa é um problema considerável para os apicultores em todos os lugares, devido à sua ubiquidade e vectorização de outras doenças. A infestação pelo Varroa aumentou com o aumento da temperatura e reduziu com o aumento da chuva e do vento. Embora a reprodução do Varroa exija a criação presente, os ácaros Varroa transferem-se entre as colónias de abelhas montadas nas costas de abelhas adultas que andam em busca de alimentos. A atividade de forrageamento das abelhas melíferas aumenta à medida que as temperaturas aumentam e quando a chuva e o vento diminuem. Como tal, os comportamentos que levam à transferência das abelhas entre as colónias, como a deriva, onde as abelhas adultas retornam para uma colónia diferente, e roubo/pilhagem, onde as forrageadoras roubam mel de outras colónias mais fracas, podem ocorrer durante os períodos que também permitem o forrageamento. Os eventos de transmissão ao nível de colónia, portanto, requerem tempo bom, e a maioria das invasões ocorreu no final do verão.
  • Nossa análise sugeriu que o risco do vírus da criação ensacada aumentou com o aumento das temperaturas, o que está de acordo com outros estudos, que sugerem que o vírus da criação ensacada tem maior probabilidade de ocorrer nos meses mais quentes.”
  • Criação de giz/ascosferiose é causado por um patógeno fúngico, e essa doença da criação tem uma relação oposta com a temperatura, tornando-se mais provável de ocorrer à medida que as temperaturas baixam. Embora isto aparentemente contradiga as observações de laboratório que determinaram a temperatura ideal para o crescimento do agente causador em 30 ° C, a temperatura no ninho com criação presente numa colónia de abelhas permanece constante, mesmo durante os períodos de frio. Os patógenos fúngicos precisam de humidade para se replicar e se espalhar, contudo não encontrámos nenhuma relação entre chuva e risco de criação de giz, o que é surpreendente.
  • Nossas observações indicam que o surgimento da paralisia crónica das abelhas é independente de qualquer mudança nos padrões climáticos, destacando uma causa alternativa para o surgimento. Estudos anteriores indicaram um aumento do risco de paralisia crónica das abelhas associado a certas práticas de apicultura, como a importação de rainhas, a escala da operação apícola ou a colocação de capta-pólenes nas colónias.
  • A loque americana foi a doença mais rara, com apenas 46 relatados em Inglaterra e País de Gales em 2016, muito mais baixa do que outros países. O baixo número de observações provavelmente contribuiu para nossa incapacidade de relacionar o risco de loque americana com qualquer condição específica. A loque americana é uma doença epidémica em Inglaterra e no País de Gales, com a maioria dos casos sendo provavelmente causados por acções humanas, como a importação de mel, e não pela disseminação natural. A loque americana é uma doença difícil de modelar, pois muitos dos veículos que lhe estão associados são difíceis de identificar, uma vez que estas epidemias costumam ser oportunistas e aleatórias, e os casos costumam ser exponencialmente baixos. A contribuição da propagação antropomórfica/com origem humana tem sido observada noutras regiões.
  • A loque europeia foi mais prevalente do que loque americana (356 casos em 2016), e nossa análise destacou algumas características interessantes desta doença endémica. O risco de loque europeia aumentou com altos níveis de chuva, clima associado a más condições de forrageamento. Os casos de loque europeia têm sido associados a condições de setresse nas colónias, como a falta de alimentos. Embora as abelhas armazenem quilos de mel durante os meses de verão, elas armazenam uma quantidade relativamente pequena de pólen. Períodos de chuva ou ventos fortes reduzem a oportunidade de forrageamento e podem adicionar setresse nutricional às colónias de abelhas, possivelmente contribuindo para surtos de loque europeia. Curiosamente, as abelhas recorrem ao canibalismo da criação durante os períodos de forrageamento insuficiente, e isso poderia contribuir para um aumento direto da transmissão de parasitas da criação dentro da colmeia. O risco de loque europeia no sul e no oeste é muito reduzido, sugerindo que o clima é um fator importante na distribuição/prevalência desta doença.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-01495-w

Nota: os estudos científicos não se preocupam com a verdade geral e absoluta. De uma forma mais humilde, procuram compreender as relações entre as variáveis num contexto específico. No caso deste estudo não devemos esquecer que o contexto onde ele foi levado a cabo, Inglaterra e e País de Gales, é outro diferente do nosso. No nosso caso, atrevo-me a dizer que o calor extremo que se atinge nos meses de julho e agosto em certas zonas do nosso país tem um contributo inegável na redução do forrageamento, e deve ser uma variável a considerar por todos nós para, em conjunto com os dados deste estudo, poder fazer uma aproximação mais afinada à realidade da doença em colónias de abelhas no nosso país.

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