o controlo da enxameação ou apaixonado como um adolescente

Tenho utilizado pontualmente a técnica Demaree. Este ano, e até à data, utilizei-a em três colónias. Por mero acaso, neste conjunto de três casos acompanho neste blog o caso onde se revelou mais complicado e difícil fazer o controlo do impulso reprodutivo. Enquanto nos outros dois casos não observei a produção de mestreiros no ninho após a aplicação da técnica, este caso não seguiu exactamente esse curso como aqui descrevi.

A colónia. A descrição do caso começou aqui.

Ontem foi dia de voltar ao apiário realizar diversas tarefas, como a verificação de postura em núcleos onde introduzi virgens a 12 de abril. Em mais de 50% dos casos só ontem vi os primeiros ovos (tema para uma futura publicação).

Passados quase já 30 dias sobre o início da aplicação da técnica voltei a inspeccionar a colónia do caso em análise. Primeiro ponto a realçar: não vi mestreiros de enxameação, de substituição ou de emergência nesta colónia — aparentemente a colónia entrou em modo de produção e deixou para trás o modo de enxameação.

Quadro do sobreninho, onde se observa os primeiros apontamentos do aromático néctar da Erica arborea — não da Erica lusitanica, como erradamente assumi numa publicação anterior (obrigado Filipa!). Neste território, e pela frente, ainda tenho fluxo de várias origens durante cerca de mais 6 a 8 semanas.

Segundo ponto a realçar: se no sobreninho as coisas estão a começar a acontecer, no ninho o conjunto das três fotos em baixo falam por si e dispensam-me o texto…

Quadro na posição 6.
Quadro na posição 7.
Quadro na posição 8.

Terceiro ponto a realçar: se bem me lembro no passado dia 12 de abril, transferi para o sobreninho uns 7 ou 8 quadros com criação. De lá para cá já retirei do ninho desta colónia 3 quadros com criação. No total esta colónia doou cerca de 50 mil abelhas a outras colónias — as contas são, 10 quadros cada com cerca de 5 mil abelhas para emergir. Este número de abelhas doadas enchem duas caixas Langstroth de uma ponta à outra mais uma meia-alça. Estando eu expectante que esta colónia produza até ao final da época cerca de 30-40 kgs de mel, tomara eu que todas as minhas colónias tivessem este nível de desempenho e me dessem este rendimento. Que tenho para dizer a concluir? Menos colmeias não significa necessariamente menos produção e menos rendimento. E agora é aqui que me encontro, depois de quase ter abandonado a apicultura, como um adolescente, apaixonado de novo — “Não adianta represar um rio, mais tarde ou mais cedo ele volta ao seu percurso original“.

as filhas temporãs ou as rainhas de enxameação

Nesta publicação descrevi a enxertia de mestreiros em duas colónias-núcleo no passado dia 17 de abril. Anteontem verifiquei que andava uma rainha em postura em cada uma delas.

A sequência de acontecimentos: no dia 02-04 eliminei a rainha deste núcleo; a 5 introduzi uma rainha virgem; como não deu resultado a 15 re-introduzo outra virgem; a 17 introduzo mestreiro enxertado porque verifiquei que a rainha estava morta dentro da gaiola. Basicamente procurei dar resposta aos déficites existentes com os recursos disponíveis no momento.

Ontem, um desses núcleos foi passado para uma caixa-colmeia.

O núcleo…
A rainha…
A postura e a criação aberta…
Da caixa-núcleo para a caixa-colmeia.

Em conclusão e remetendo para o conteúdo da publicação da hiper-ligação em cima, as abelhas guardaram e defenderam mestreiros com rainhas viáveis das intenções destrutivas das diversas rainhas virgens nascidas horas ou até dias antes.

Estas rainhas enxertadas provêm de mestreiros de enxameação! Óptimo, são as rainhas melhor alimentadas e melhor criadas de todas as que podemos deitar a mão — muito provavelmente têm um número de ovaríalos acima da média. Óptimo, porque este ano vão fazer crescer a sua família a um ritmo tal que provavelmente me vão dar uma ou duas meias-alça no castanheiro. Óptimo, porque no próximo ano antevejo que estas rainhas arranquem precocemente e me ajudem a equalizar outras colónias que se foram mais abaixo durante o inverno e/ou apresentem um arranque mais lento e tardio. Óptimo, serão colónias ideais para trabalhar com ninho e sobreninho logo em março, e colónias que dedicarei aos desdobramentos pela técnica Doolittle relativamente cedo, em meados de março — estes desdobramentos não multiplicarão a sua herança genética, apenas aproveitará a sua produção, abelhas e quadros com criação. Aproveito sem rebuço, e com este sentido estratégico, algumas rainhas provenientes de mestreiros de enxameação. Há quem lhe chame linhas enxameadoras, eu prefiro chamar-lhe linhas precoces.

Nota: nesta publicação não estou a falar de colónias que apresentam mestreiros de enxameação com meia-dúzia de quadros mal preenchidos de abelhas e /ou que enxameiam duas vezes no mesmo ano. Aos anos que não vejo colónias dessas nos meus apiários. Nesta publicação falo de colónias que sobreviveram saudavelmente ao inverno, saem dele mais desenvolvidas que a média, e são uma fonte temporã do recurso mais precisoso da apicultura à saída do inverno no meu território: abelhas.

a prevenção e o controlo da enxameação: o testemunho de um amigo apicultor

Quando desafio um ou outro apicultor a testemunhar a sua experiência apícola em torno desta ou daquela ideia por aqui veiculadas, é muito gratificante receber os seus testemunhos a confirmarem os ganhos que obtiveram — um pequeno aparte: uma das teorias da motivação mais interessantes que conheço, afirma que o sentido de utilidade que retiramos do que fazemos é um dos factores mais estimulantes para persistir e manter o empenho no que fazemos; como sou feito da mesma matéria que todos, importa-me saber que não estou a escrever sobre o “céu azul”, sim que estou a retratar com boa fidelidade a realidade dos meus apiários e os impactos das intervenções que realizo, que mais proximamente ou mais longinquamente há alguém que ficou a reflectir, que decidiu experimentar e, cereja no topo do bolo, obtém resultados satisfatórios. Por exemplo, recentemente o Rui Martins testemunhou como a sua estratégia de luta contra a varroose melhorou significativamente quando passou a ter em consideração o timing da aplicação dos tratamentos.

Hoje, publico o testemunho do meu amigo Miguel Pais acerca do impacto que algumas das sugestões por aqui divulgadas estão a ter nos seus apiários, em particular na prevenção da enxameação e no controlo da mesma. O texto e as fotos são suas. Obrigado Miguel por teres aceite o desafio e lhe teres dado resposta tão rapidamente. Um abraço!

Iniciei-me na Apicultura há quase 4 anos. Comecei com um enxame, e neste momento tenho cerca de 60 enxames. Tendo a varroa controlada, com poucas perdas anuais e conseguido não só manter o efectivo mas até aumentá-lo gradualmente de ano para ano, sinto cada vez mais a necessidade de prevenir e controlar a enxameação de uma forma mais prática e aumentar assim a produtividade das colmeias.

Visto que muitas vezes não quero aumentar mais o efectivo por já ter feito os desdobramentos que pretendia, começo agora a experimentar vários métodos de prevenção e controlo da enxameação. É aqui que o Eduardo tem dado uma grande ajuda com alguns métodos e experiências que tem descrito no seu blog, que têm sido importantes e têm feito a diferença no meu maneio. Muitas vezes são também os relatos dele que me fazem experimentar certo método que já conhecia mas que não estava ainda convencido da sua eficácia. 

Desses métodos que li no blog do Eduardo, há dois que me deixaram muito contente, apesar de só ter começado a usar um deles este ano, mas resultaram os dois muito bem, fiquei impressionado e arrependido por não ter começado a usá-los mais cedo! 

Em primeiro lugar passei a usar, o ano passado, aquilo a que o Eduardo chama de regra “não mais de 6”. Passei a usar essa regra, principalmente com rainhas mais velhas, não deixando assim que os enxames atinjam o pico da população antes da altura desejada, algo que considero muito importante, e esta regra parece uma forma bastante prática e simples de “segurar” os enxames. 


O segundo método comecei a experimentá-lo este ano, não é um método de prevenção mas sim de controlo de enxameação, o método Demaree, sobre o qual o Eduardo tem escrito ultimamente e que eu já conhecia, mas foi por ler o relato no blog que finalmente decidi experimentar. Em alguns enxames que começaram a aparecer com sinais de febre, comecei a meter a rainha no ninho com 2 quadros e os restantes quadros no sobreninho e uma grade excluidora entre o ninho e sobreninho, não me vou alongar muito no processo, porque podem-no ler mais detalhadamente no blog do Eduardo. 

Em conclusão, usei o método Demaree a primeira vez há cerca de 20 dias em alguns enxames e perderam a febre, bastante rápido.  Sem dúvida alguma vou passar a usar este método no meu maneio a partir de agora, vejo aqui uma solução simples e prática e que é feita sem consumir muito tempo.

Um grande obrigado Eduardo pelas coisas que escreves, desde que me iniciei que tem sido uma boa ajuda, além do mais dás também a conhecer apicultores lá de fora, como por exemplo o Randy Oliver ou o Bob Binnie, que também fazem coisas bastante interessantes.

controlando a técnica de controlo da enxameação

Descrevi e publiquei que no passado dia 12, decidi utilizar uma técnica de controlo da enxameação proposta pelo advogado e apicultor norte-americano George Demaree, publicada no American Bee Journal em 1892.

Hoje passados 12 dias, voltei ao apiário para realizar diversas tarefas. A primeira constatação é que a Erica australis está a secar e a ser substituída gradualmente pela Erica lusitanica (urgueira ou moita branca).

O território continua estimulante!

No caso da colónia alvo da técnica Demaree em 12-04, há alguns indícios que continua a procurar enxamear. Uma inspecção a 19-04 revelou que, como esperado, tinha vários mestreiros abertos no sobreninho colocado por cima da grelha excluidora. Como não precisava destes mestreiros acabei por destruí-los. Menos esperado, por ser mais raro, foi encontrar dois mestreiros no ninho, ainda muito no início e que destruí, obviamente.

Hoje o indício de enxameação, menos evidente que os encontrados a 19-04, é a forma daquele alvéolo entre as duas abelhas.
Vista geral do ninho.
A abelha-mãe… a que geralmente e injustamente leva com as culpas de uma colónia querer enxamear.
Hoje, apesar do céu ameaçar, não foi dia de trabalhar à chuva… não seria o primeiro!

Observação 1: a propósito de um ou outro comentário que pude ler no Facebook acerca da publicação do dia 12-o4, quero deixar descansados os apicultores que parecem temer que com estas técnicas de controlo da enxameação se visa eliminar o instinto da enxameação nas abelhas melíferas. Não é esse o objectivo, como é claro, nem seria seguramente esta a técnica a utilizar para esse fim. As minhas abelhas vão continuar a querer enxamear neste e nos próximos anos. Eu é que não gosto de ficar sentado, sem nada fazer, a assistir a esse incrível fenómeno natural, mas que em nada contribui para a minha felicidade enquanto apicultor. Já os enxames saídos/fugidos em pouco ou nada contribuirão para a sustentabilidade da espécie, porque 99,9% deles estarão mortos em menos de um ano!

controlo da enxameação ou a lição com 100 anos: solução tipo 2

Recentemente descrevi o maneio que utilizo mais frequentemente para fazer o controlo da enxameação. A técnica descrita é muito adequada para quem quer impedir a enxameação, quando ela já é praticamente irreversível se nada for feito e, ao mesmo tempo, deseja aumentar o número do seu efectivo apícola.

A publicação de hoje visa ilustrar um outro tipo de solução para fazer o controlo da enxameação. Utilizo-a menos frequentemente, apesar de eficaz, e é muito adequada para os apicultores que desejam evitar a enxameação mas não desejam aumentar o número de colónias de abelhas.

Em baixo deixo o foto-filme dos sinais que considerei para o diagnóstico de preparação de enxameação, procedimentos principais para o seu controlo e sua sequência.

Encosta prenhe de erica australis. O período da enxameação reprodutiva está associado ao arranque das boas condições edafoclimáticas.
Ontem nesta colónia, com ninho e sobreninho separados por uma excluidora de rainhas desde o passado dia 15 de março, encontrei alguns sinais que me levaram a crer que nos próximos 10 dias iria enxamear.

O primeiro sinal: verificar que dos dois quadros com cera laminada que coloquei na semana passada no ninho apenas um deles foi aproveitado pela rainha para fazer oviposição.

Quadro que a rainha aproveitou para encher com ovos.
Quadro que tudo indica iria ser aproveitado para armazenar néctar.

O segundo sinal: após a emergência das novas abelhas os alvéolos são utilizados para armazenar nectar e/ou pão-de-abelha (backfilling).

Área central de um quadro onde se vê claramente o backfilling.

O terceiro sinal, o mais inequívoco dos três: a presença de ovos em alguns cálices reais.

Quando vejo cálices reais com cera nova/clara nas suas paredes em geral faço a sua inspecção. Encontrando ovos parto do princípio que aquela colónia vai enxamear. Sabendo que os sinais inequívocos de enxameação são os mestreiros, isto é alvéolos reais com larvas assentes em quantidades generosas de geleia real, prefiro agir logo que presencie ovos em cálices reais.

Estes sinais concomitantes não me deixaram dúvidas que esta colónia iria enxamear em breve. Assim sendo, decidi utilizar uma das medidas de controlo da enxameação que faz parte do meu catálogo. Em baixo ilustro e descrevo as principais etapas do procedimento.

1º passo: encontrar a rainha. Como nesta colmeia a rainha estava confinada ao ninho por uma grelha excluidora encontrá-la foi… um passeio no parque!

Uma vez que não tinha levado a mola para a apanhar, o quadro foi colocado no chão. 99% das vezes as rainhas não saem dos quadros onde estão.

2º passo: retirar os restantes quadros do ninho juntamente com as abelhas aderentes, com excepção de um quadro com reservas. Feito isso coloquei o quadro onde andava a rainha ao lado do quadro com reservas.

3º passo: preencher os espaços restantes do ninho com quadros com cera laminada.

4º passo: colocar grelha excluidora de rainhas entre o ninho e o sobreninho.

5º passo: colocar os quadros com criação e abelhas aderentes no sobreninho.

Foto representativa dos quadros colocados no sobreninho.
Em resumo: a rainha está confinada ao ninho com poucas abelhas; já o sobreninho está cheio de abelhas e quadros com criação em todos os estádios de desenvolvimento e… sem rainha.

Ontem, 12-04, para controlo da enxameação não inventei nada, procurei apenas dar curso às lições com mais de 100 anos do ilustre apicultor Demaree. E assim, aos ombros de gigantes, vou fazendo o meu maneio o melhor que posso e sei!

o controlo da enxameação e os ganhos marginais: solução tipo 1

Na manhã do passado dia 3 de abril, num dos apiários que tenho a 900 m de altitude e onde se iniciou de forma frouxa o fluxo das erica australis, tinha planeado passar para caixa-colmeia uma boa parte dos núcleos que lá estão estacionados. Assim acabei por fazê-lo em 4 dos 6 núcleos que lá fui encontrar a rebentar pelas costuras — a gestão da palmerização nestas colónias é feita no fio da navalha. A retirada semanal de um quadro com criação, e sua substituição por um quadro puxado vazio ou um quadro com cera laminada dá-lhes espaço para se desenvolverem, e fazem-no rapidamente dada a forte agregação e densidade da colónia naquele espaço mais reduzido. Contudo corrro riscos, dado que apenas uma semana passada parte destas colónias vão estar mais congestionadas que muitas das ruas centrais de Tóquio em hora de ponta.

Quando a sua função como colónias doadoras de quadros, quer a colónias mais fortes quer para desdobramentos pelo método Doolittle — foi o caso —, deixa de ser necessária, ou quando a qualidade da rainha é tal que é um tiro no pé manter esta colónia nestas funções faço a transferência para uma caixa-colmeia de 10 quadros.

Neste núcleo fui encontrar postura compacta de um travessão ao outro, num quadro Langstroth colocado vazio cerca de duas semanas antes. Este quadro irá dar, só nesta face, cerca de 3500 abelhas novas. Sabendo que um núcleo Langstroth alberga em média cerca de 10 mil abelhas, e que desde o primeiro dia de operculação do alvéolo das larvas de obreiras até à emergência da novas abelhas decorrem 12 dias, facilmente se entende porque uma cidade até ali descongestionada se torna rapidamente numa urbe onde todos andam literalmente uns em cima dos outros.
Ali vai, a dobrar a esquina, a actriz principal desta peça, uma das rainhas produzidas por mim o ano passado.
E está feita a transferência, limpa e cristalina.

Mas nem todas as transferências foram assim, do tipo chegar, ver e vencer! Duas delas foram muito diferentes e exigiram-me olho atento.

Pois… estavam nestes preparos!
Como os núcleos estavam cheios de abelhas e como vi muitos ovos decidi meter-me ao trabalho e procurar as rainhas nestes dois núcleos. Num deles foi rápido. O quadro com a rainha foi para um núcleo depois de destruídos todos os mestreiros e juntei-lhe um quadro com reservas. Os restantes 3 quadros foram para outro núcleo depois de destruídos os mestreiros, para introduzir uma rainha em gaiola (coisa que fiz ontem dia 5).
Neste tive de afinar mesmo muito o olhar. Não tanto por a malta ser muita e andar toda em cima uma da outra (e neste estado de pré-enxameação as abelhas parece que tomaram uma valente dose de Xanax, não arredam dos quadros de maneira nenhuma e deslocam-se a 5 à hora!). A grande dificuldade foi a rainha estar no último quadro e estar do tamanho de uma princesa. A largura de cintura estava já no ponto ideal para levantar voo dali a umas horas. Mas não vai não senhor… por enquanto vai continuar a fazer postura numa das minhas caixa. Com receio que levantasse voo nem me arrisquei a fotografá-la… está naquele segundo quadro na caixa nova em baixo.
E de um fiz três… o da esquerda tem os mestreiros e ficou no local original, o do meio foi levado para outro apiário para lhe introduzir uma rainha virgem em gaiola, o do lado direito tem a rainha mãe, que ficou no apiário mas noutro local… correndo tudo como habitualmente este núcleo com a rainha mãe irá começar a doar quadros cheios de criação às restantes colmeias do apiário dentro de um mês a mês e meio.

Com propensão, gosto e tempo para este tipo de maneio sinto-me amiúde um gestor de ganhos marginais, especialmente nesta altura do ano, a época da enxameação, em que faço o que me é possível fazer para que todas as rainhas fiquem nas minhas caixas, mesmo aquelas que já estavam de malas aviadas.

Nota: numa publicação próxima vou descrever a solução tipo 2 que também utilizo para controlar a enxameação. O termo controlo de enxameação é aqui utilizado para designar o maneio que realizo quando uma colónia já tem mestreiros presentes. Antes destes surgirem o maneio que faço, para evitar que os mestreiros surjam e o processo de enxameação atinja esta etapa, designo, juntamente com outros, prevenção da enxameação.

a abóbada de mel: manipulação de quadros com vista a prevenir a enxameação

Demaree, Snelgrove e Walt Wright serão as principais referências do meu maneio nos próximos dois a três meses, o período da pré-enxameação e da enxameação neste território.

Walt Wright, com quem cheguei a dialogar algumas vezes no BeeSource, terá sido o apicultor que, nas últimas décadas, mais se atreveu a pensar “fora da caixa”, de forma muito corajosa, o fenómeno da enxameação em abelhas melíferas. Entre outros aspectos do seu pensamento, dou particular atenção às reflexões e descrições que fez relativamente ao conjunto de sinais da preparação da enxameação, onde se destaca o backfilling, assim como a importância que atribui à abóbada de mel enquanto determinante da pressão e timing da enxameação. A este propósito ele escreveu: “Suspeitamos que a expansão da criação até à abóbada com reservas de mel operculado desencadeia a preparação da enxameação…” Walt Wright, Nectar Management, Principles and Practices (pg. 37, manual não publicado, disponibilizado pela família após sua morte).

Foto tirada ontem, 01-03, de um quadro do modelo Lusitana, com uma abóbada de mel operculado no topo.

Aceitando que as abelhas tomam como indicador de que encheram e completaram o ninho quando a mancha de criação atinge as abóbadas de mel operculado, e aceitando também que uma das formas mais eficaz e expedita de atrasar, diminuir ou mesmo eliminar o impulso de enxameação passa por fazer crer ao enxame, que o ninho não está completamente utilizado, concluído, nem constringido, de que modo estas ideias influenciam o meu maneio? Sempre que me é possível — considerando com cuidado as reservas de mel presentes — descontinuo de forma gradual esta abóbada por substituição destes quadros por quadros o mais possível vazios — como o da foto em baixo. Os quadros com abóbadas de mel transfiro-os para as colmeias armazém ou utilizo-os para fazer equalização de colónias menos desenvolvidas.

Quadro vazio armazenado em casa, com pequenas áreas com bolor no canto superior esquerdo e no canto inferior direito.
Este quadro (modelo lusitana), porque sem abóbada de mel operculado, permaneceu no ninho.
Este quadro (de um núcleo do modelo Lusitana), com uma abóbada de mel descontinua, deixar-me-ía na dúvida se tivesse que decidir deixá-lo ou tirá-lo de um ninho de uma colónia com 10 quadros e prematuramente forte.

Um detalhe: o quadro em baixo é o quadro adjacente ao quadro em cima. Reparar na similitude entre a forma geométrica formada pela mancha de criação operculada — foto em cima — e a formada pela mancha de pão-de-abelha.

Se tivesse que resumir a mensagem-chave desta publicação — assim como a da publicação precedente — diria que estas senhoras (abelhas) não saem de casa (enxameiam) antes de a ter devidamente organizada, arrumada e com a despensa cheia. Eu irei gradualmente, pouco a pouco, ao longo dos próximos três meses introduzindo alguma desarrumação, esperando ter o tempo e o talento para não pecar por excesso nem pecar por defeito.

enxameação: sensores bio-orgânicos da predisposição para enxamear

Quem deseja indicadores, estratégias e procedimentos que resultam 99% das vezes não deve vir para a apicultura. Aceitando desde já que esta é a única verdade com um grau de confiança de 99% que conheço em apicultura, vou procurando aprender,… ouvindo outros companheiros, lendo, através da minha experiência, as três combinadas… o abelhês que as minhas abelhas falam.

Desejando que num futuro próximo surjam dispositivos/sensores artificiais/electrónicos que nos permitam compreender e antecipar o comportamento das abelhas, neste caso em particular o da enxameação, vou que ter que viver com o que sei e com o que posso fazer, como todos nós.

Neste caso da enxameação vou arriscar a apresentar uma hipótese, com base em algumas observações que tenho vindo a fazer nos últimos anos, e que ontem re-confirmei e aproveitei para documentar em fotografias.

Como já referi, para cumprir a regra que me auto-impus “não mais de seis” tiro um ou dois quadros com criação no período de pré-enxameação e de enxameação reprodutiva sempre que a colónia atinge 7 a 8 quadros com criação compacta e extensa. Este período vai sensivelmente de meados de março a meados de maio na minha zona, e obriga-me a fazer esta intervenção 3 a 4 vezes. No lugar destes quadros coloco um ou dois quadros com cera laminada ou semi-puxada na posição 2 e/ou 9.

Ninho que ficou na última revisão (há 10 dias atrás) com 6 quadros com criação de obreira mais um com criação de zângão (o que tem a mancha verde) e um quadro com cera laminada na posição 2 (o mais claro a contar da esquerda).
Foto de ontem (14.o4) de outro ninho onde fiz exactamente a mesma intervenção na visita anterior e em cima descrita.
Foto de ontem desta colónia e do quadro colocado na posição 2, há 10 dias.
Foto aproximada do mesmo quadro. Pode observar-se que a rainha iniciou há poucos dias a utilização deste quadro para fazer postura.

Nas 34 colónias deste apiário que tinham sido todas elas trabalhadas da mesma forma na visita de há 10 ou 18 dias atrás (conformação à regra e colocação de cera laminada ou semi-puxada na posição 2 e/ou 9) 28 tinham criação neste quadro. Nas restantes 6 não vi nem um ovo colocado neste quadro.

Quadro de uma das 6 colónias na qual a rainha não colocou um só ovo. Aproveitei para o colocar dentro da câmara de criação/no seio de quadros com postura.

E que tem isto a ver com os sensores bio-orgânicos para avaliar a predisposição da colónia para enxamear ou não num futuro próximo, de 10 a 15 dias?

Das 34 colmeias que vi neste apiário, todas elas com boa profundidada e atenção para despistar indícios de enxameação, nas 28 colmeias em que as rainhas tinham feito postura no quadro 2 e/ou 9 não vi sinais de pré-enxameação, isto é, não vi cúpulas reais com ovos e/ou backfilling, e mestreiros com larvas. Nas restantes 6 colmeias, em duas delas também não vi sinais de pré-enxameação e/ou enxameação, mas nas restantes 4 vi esses sinais. Em três delas vi cúpulas com ovos e numa vi mestreiros com larvas no interior.

Conclusão, a merecer mais confirmação e melhor quantificada:

no período de enxameação desconfiar que todas as colmeias podem enxamear, em especial aquelas em que as rainhas aparentemente abrandam o ritmo de postura, em particular aquelas que não aproveitam os quadros novos com cera laminada, que as abelhas puxam, para aí fazer postura de um travessão ao outro.

Os sensores electrónicos ou biológicos tem duas vantagens principais: (i) alertarem-nos para sinais que nos permitem prever e antecipar o “estado de ânimo” das abelhas e agir de acordo; (ii) poupar tempo e esforço no maneio, neste caso aceitar que se virmos postura recente neste quadros, não necessitamos de despender mais tempo a ver atentamente cada um dos 10 quadros do ninho para concluir que a colónia não se prepara para enxamear nos próximos 10 a 15 dias.

Quadro de uma outra colónia, que me levou a aceitar o princípio que não está com ânimo de enxamear nos próximos 10 a 15 dias, dispensando-me de mais esforço e tempo na sua inspecção. Com mais de 100 colónias em três apiários diferentes para alimentar e inspeccionar ontem, estes sensores biológicos valem bem o dinheiro que gastei neles.

método de Pagdens de controlo da enxameação

Controle da enxameação e prevenção da enxameação são coisas diferentes

Controle e prevenção de enxameação são duas coisas diferentes. A última descreve os passos dados para impedir uma colónia de “pensar” em enxamear, por ex. rainhas jovens e colmeias espaçosas e desbloqueadas (ver mais aqui). Em contraste, o controle da enxameação é o que é necessário fazer, desde que surgem os sinais de que a enxameação está iminente. O sinal mais comum e inequívoco é encontrar vários mestreiros durante uma inspeção (atenção que nem sempre os mestreiros são de enxameação). A prevenção da enxameação visa evitar, ou pelo menos atrasar, a necessidade de controlar a enxameação. Sendo necessário o controle da enxameação, a enxameação artificial de Pagdens é uma excelente opção para quem não tem mais que um apiário ou não deseja transferir a colónia desdobrada para outro apiário. O método Demaree de controlo de enxameação é muito utilizado pelos apicultores que não desejam comprometer a produção da colónia e/ou não desejam aumentar o número de colónias.

O princípio do método

Como habitualmente o princípio é separar a rainha e as abelhas forrageadoras da criação e das abelhas amas. Isso é conseguido com algumas manipulações simples aproveitando a tendência das abelhas voarem de volta ao local da colmeia em que foram criadas, ou mais precisamente, ao local da colmeia da qual eles fizeram seus voos de orientação.

Neste pequeno vídeo vemos a esquematização e sequência das operações do método.

O método em detalhe

  • Mova a colmeia que está para enxamear (colmeia antiga) alguns metros do local original.
  • Coloque uma colmeia nova no local original, com a entrada voltada no mesmo sentido.
  • Remova dois quadros do centro da nova caixa.
  • Delicadamente inspecione com cuidado a colmeia que está para enxamear com objectivo de encontrar a rainha, e coloque o quadro com a rainha no centro da nova caixa. Não deve haver mestreiros neste quadro. Empurre os quadros adjacentes e adicione um dos quadros retirados para que a colmeia fique cheia.
  • Se houver meias-alças a colocar, coloque-os na nova colmeia. Se não houve um fluxo intenso, alimentar esta colónia com um xarope 1:1 para incentivar as abelhas a puxar cera.
  • Coloque a prancheta e o tecto na nova colmeia.
  • Junte os quadros na colmeia original, adicione um quadros na zona lateral coloque a prancheta e o tecto deixe o as abelhas a fazerem a “sua coisa”.

Qual o objectivo desta primeira manipulação?

No final desta primeira manipulação, separamos artificialmente a rainha de quase toda a criação e abelhas amas. A rainha está no local original na nova colmeia. Todas as abelhas campeiras retornam ao local original — porque é para onde elas se orientaram — nas horas e dia seguinte. Esta nova colmeia é viável, pois contém a rainha original, abelhas para apoiá-la e muito espaço vazio para ela fazer postura.

A antiga colmeia também é viável, mas somente se as abelhas criarem uma nova rainha. Como existem mestreiros abertos, eles devem ser operculados para permitir a pupação e a metamorfose, que leva 7 dias.

Dia 7

Mova a colmeia antiga para o lado oposto da nova colmeia a alguns metros de distância. As abelhas forragearas que amadureceram na colmeia antiga durante a semana anterior não encontrarão a sua colmeia quando retornarem do campo. Nesta condição entrarão na colmeia mais próxima da colmeia de onde sairam, que é aquela com a rainha original, ou seja, a nova colmeia. Isto aumenta a força da colónia com a rainha original. Mais importante, drena a antiga colmeia de abelhas, tornando menos provável que venham a formar enxames secundários se mais de uma rainha virgem emergir.

É importante que a colmeia antiga não seja aberta nestes primeiros sete dias. Haverá uma nova rainha virgem presente que sairá em breve para fazer o seu vôo de fecundação. Deixe esta colmeia pelo menos mais duas semanas sem lhe mexer. A criação irá emergindo, gerando uma população de muitas abelhas jovens que irão cuidar da rainha recém-fecundada e amplo espaço para ela fazer postura nos dias seguintes.

Dia 21+

A antiga colmeia deve agora conter uma rainha recém-fecundadas e em postura. As inspeções nesta colónia podem começar de novo. A nova colónia, com a rainha original, deve estar em pleno desenvolvimento e o impulso de enxameação muito provavelmente ultrapassado.

Nota: Se deseja aumentar o número de colónias, este método é bastante eficiente. Se não for esse o objectivo, as duas colónias podem ser unidas utilizando jornais. Remova a rainha antiga primeiro, seja para a eliminar (!) ou oferecendo-a a outro apicultor.

Fonte: The Apiarist

o método Demaree de controlo da enxameação

George Demaree (1832–1915) ficou na história da apicultura com o artigo que publicou em 1892 no American Bee Journal, onde descreveu o seu método de controlo da enxameação.

O princípio do método é muito simples.

Quando encontramos mestreiros durante uma inspeção, fazemos uma divisão vertical, separando a rainha mãe e as abelhas forrageadoras das abelhas amas e da criação operculada. Colocamos por cima de uma grelha excluidora de rainhas a criação operculada e abelhas amas.

Alguns dias depois ( 7 dias é o período desejável), retornamos à colónia e destruímos quaisquer novos mestreiros na caixa superior, impedindo assim a maturação e emergência de novas rainhas. Finalmente, deixamos toda a criação emergir na caixa superior.

A aplicação prática do método

O processo é exemplificado pelo diagrama em baixo. O único equipamento adicional necessário é uma caixa de ninho com 10 quadros de cera puxada ou cera laminada e duas grelhas excluidoras de rainhas.

Legenda da esquerda para a direita: colmeia com ninho e duas meias-alças com rainha mãe (Q) e mestreiros de enxameação (qc); ao centro colocação das grelha excluidoras (pontos vermelhos por debaixo e por cima das meias-alças) ; passados 7 dias destruímos os eventuais mestreiros que possam ter surgido na caixa do topo da colmeia.

O método descrito mais detalhadamente:

  • Se encontrar mestreiros durante uma inspeção, remova cuidadosamente o ninho e coloque-o sobre um telhado virado ao contrário.
  • Coloque uma nova caixa de ninho sobre o estrado original. Insira 9 quadros com cera puxada ou laminada, deixando um espaço no meio da caixa.
  • Vá à caixa original e encontre a rainha.
  • Coloque o quadro com a rainha no meio da nova caixa de criação. Esse quadro não deve conter mestreiros.
  • Na caixa onde ficaram os restantes quadros de criação junte os quadros e adicione o décimo quadro na lateral.
  • Adicione uma grelha excluidora de rainha.
  • Coloque as meia-alças por cima da 1ª excluidora de rainhas. Se não houver meias-alças na configuração original, vale a pena adicioná-las agora. Proporcionará uma melhor separação da caixa de criação nova e antiga e incentivará as abelhas a armazenar néctar nas meias-alças, e não na caixa de criação superior (caso o fluxo seja intenso).
  • Adicione uma segunda grelha excluidora de rainhas por cima das meias-alças.
  • Coloque a caixa com a criação original em cima desta 2ª excluidora de rainhas.
  • Inspeccione atentamente esta nova caixa de criação no topo da colónia e remova todos os mestreiros. Sacuda as abelhas dos quadros para fazer isso. Coloque estes quadros juntos e adicione um quadro adicional. Coloque a prancheta a e o tecto.

Deixe a colónia tranquila por uma semana. Na próxima inspeção, só precisará ver a caixa de criação do topo (ou seja, a original).

  • Inspeccione cuidadosamente todos os quadros e remova todos os mestreiros. Novamente, deve sacudir as abelhas dos quadros para fazer isso. Se deixar escapar algum mestreiro, há uma boa chance de a colónia enxamear.
  • Feche a colmeia e deixe a criação na caixa superior a emergir nas próximas duas semanas.
  • Cerca de 21-25 dias após a realização da primeira inspeção (onde encontrou os mestreiros), você pode remover a caixa de criação superior da qual todas a criação terá já emergido.

Fonte principal: The Apiarist

Nota: no meu caso utilizei este método um número de vezes baixo, que se pode contar pelos dedos de uma mão. Sempre que o utilizei consegui controlar a enxameação, sem ter de proceder à divisão da colónia. Apesar de trabalhoso, este método parece-me muito eficaz e adequado para quem deseja controlar a enxameação e não deseja aumentar o número de colónias.