pólen O estimulante da criação de novas abelhas e O detalhe

É consensual entre os apicultores mais informados que o pólen é O estimulante da criação de novas abelhas. Contudo como diz Randy Oliver “Não parece haver um benefício em alimentar com substitutos de pólen quando já existe um fluxo natural e substancial de pólen em andamento. Por outro lado, durante uma escassez, os substitutos de pólen têm um desempenho melhor quando as forrageadoras ainda são capazes de trazer uma pequena quantidade de pólen natural. A questão então é: por que essa pequena quantidade de pólen faz a diferença? […]

Os profissionais de marketing fizeram um ótimo trabalho em nos convencer de que “natural” é sempre melhor. Portanto, é tentador chegar à conclusão de que a pequena quantidade de pólen natural que chega fornece alguns elementos nutricionais essenciais que faltam.

Mas Randy, e outros, em testes de campo verificou que mesmo alimentando com “bifes” proteicos que têm incorporados 15%-20% de pólen natural, o que daria os elementos que faltam, as colónias pouco cresceram durante o período de extrema escassez de pólen ao longo do teste.

Portanto, Randy suspeita que algo mais do que a falta de algum nutriente “natural” esteja envolvido.

Imagem de um quadro com criação com a habitual abóbada de pólen. Nenhuma abelha jamais viu esta vista (está escuro dentro da colmeia). Só porque costumamos ver esta linha de pão de abelha num arco ao redor da ninhada, não significa que esse seja o pólen ao qual as abelhas amas prestam mais atenção.Reparem nO detalhe… alguns alvéolos com pólen bem no interior da área de criação.

O detalhe: o pólen armazenado nos alvéolos no interior da área de criação é o pólen que primeiro será consumido pelas abelhas amas. É este pólen, ali armazenado, que dá a pista às abelhas amas que está a ocorrer um fluxo de pólen. O pólen/pão de abelha armazenado a mais de 5cm da área de criação, nas abóbadas dos quadros ou em quadros adjacentes só tende a ser consumido quando a expansão da área de criação e as abelhas amas se aproximarem dessas áreas mais afastadas.

Implicações práticas:

  • O pólen fresco, colocado aleatoriamente pelas forrageadoras nos alvéolos no interior da área de criação, permite que as amas produzam geleia abundante.
  • A facilidade com que as amas encontram pólen fresco ao lado da criação que estão alimentando estimula-as a alimentar (modo de expansão), ao invés de consumir larvas jovens, (modo de acumulação).
  • A presença de uma abóbada de pólen indica que há um excedente de pólen a chegar à colónia. A borda interna dessa abóbada indica a distância à criação que as abelhas amas precisam (ou estão dispostas) percorrer até se alimentarem.
  • Todas estas descobertas acima indicam a importância de colocar os suplementos de pólen ou as dietas artificiais o mais próximo possível dos alvéolos com criação, isto é, a menos de 5 cm.

fonte: https://scientificbeekeeping.com/observations-on-pollen-subs-part-3-placement-of-the-pollen/

revisão da eficácia dos substitutos do pólen na saúde a produtividade das colónias de abelhas

James Ellis e Emily Noordyke, viram o seu artigo de revisão da literatura sobre a eficácia dos substitutos de pólen na saúde e produtividade das colónias ser publicado recentemente. Deixo a tradução do sumário de um artigo que merece uma leitura integral.

“Bife” substituto do pólen colocado em cima do ninho de criação de uma colónia de abelhas.

“Sumário: As abelhas melíferas ocidentais (Apis mellifera L.) coletam o pólen das flores como sua fonte de proteína, gordura, vitaminas e minerais. Os apicultores fornecem substitutos do pólen às suas colónias de abelhas para mitigar a falta de recursos naturais de pólen no meio ambiente. Apesar de seu uso difundido, não está claro se os substitutos do pólen são benéficos para a saúde e produtividade da colónia. Aqui, revemos a literatura a respeito da eficácia dos substitutos do pólen em quatro categorias principais: (1) consumo / palatabilidade dos substitutos do pólen, (2) produtividade da colónia, (3) resposta a pragas e doenças e (4) resposta fisiológica. Globalmente, a literatura mostra uma mistura de impactos positivos, neutros e negativos dos substitutos do pólen na saúde das colónias de abelhas. Além disso, recomendamos áreas para melhoria na pesquisa de substitutos do pólen. Esperamos que esta revisão leve a mais pesquisas sobre substitutos do pólen, uma vez que a nutrição é um fator-chave que afeta a saúde das abelhas geridas por apicultores.”

fonte: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fsufs.2021.772897/full

Uma boa Consoada e um Feliz Dia de Natal caras e caros companheiros!

a importância da água durante o inverno

Há coincidências interessantes. Dois ou três dias depois de tirar as fotos que vão ver para preparar esta publicação vejo um apicultor da lista do Bee-L escrever por lá o seguinte: “Na palestra de novembro para os apicultores da Associação Empire State, Tom Seeley focou-se nas abelhas coletoras de água. Ele mencionou que a dança mais “entusiástica” que ele já observou (em termos da intensidade e persistência da dança) foi numa forrageadora num inverno numa colmeia de observação. Ela dançava para anunciar a disponibilidade de água doce no primeiro dia quente da temporada. Qualquer pessoa informada da pesquisa de Tom
tem uma noção de quantas danças ele observou de perto no último meio século ou mais, fazendo desta observação uma informação ainda mais relevante para as nossas considerações sobre a necessidade de água de uma colónia.
” Vi rapidamente a pertinência em começar esta publicação com esta citação pela relação que tem com o tema que hoje me motiva a escrever.

Apiário a 900 m de altitude, no passado dia 12, um dia ensolarado.

E por que carga de água precisam as abelhas da água nesta altura do ano? Para liquefazerem o mel, para melhor o consumirem e assimilarem.

Mel, transferido para este quadro mais central depois de lhe ter sido adicionada alguma água pelas abelhas. Os três ou quatro alvéolos destruídos no centro resultam da prova que uma vez mais fiz deste mel diluído: da prova não me ficou dúvida de se tratar de um “monofloral” de castanheiro da colheita de verão de 2021.

Qualquer um de nós pode fazer esta observação. Reparem nos quadros com mel operculado nos quadros mais afastados do centro ou do aglomerado de abelhas. Reparem nos alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Daí saiu o mel, depois de previamente aquecido e diluído em água por um enxame com abelhas suficientes para procederem a estas tarefas.

Alvéolos vazios com os opérculos perfurados. Só um enxame com um número suficiente de abelhas consegue aquecer os opérculos, para depois os perfurar, aquecer a água para depois a misturar ao mel e, assim, tornar o mel até aí frio numa mistura tépida para ser ingerido e assimilado, sem o perigo de induzir as pequenas abelhas num coma por ingerirem alimentos frios. Como nós não consumimos alimentos vindos do congelador, sem previamente os aquecermos nos dias frios de inverno, as abelhas também não o fazem.

Quando as abelhas não são suficientes morrem de fome com o mel operculado a milímetros de distância. A pergunta a fazer é por que razão as abelhas não são suficientes. Muito provavelmente por efeito diferido no tempo de varroose e viroses associadas.

Foto que me foi enviada pelo meu amigo Pedro Miguel. Abelhas com mel operculado a milímetros de distância e que morreram de fome e frio há dias atrás, numa colónia com abelhas insuficientes, por efeito diferido de varroose e viroses associadas.

reação dos enxames a um generoso fluxo de pólen: o testemunho de um amigo apicultor

Uma das diversas e sempre pertinentes questões que o meu amigo Marcelo Murta me colocou nas nossas muitas conversas foi esta: “Eduardo, como e quando estimulas os teus enxames?” Referi que tinha deixado de utilizar alimentação estimulante há vários anos atrás. Esclareci que o pólen com qualidade e em abundância, que as minhas abelhas colhem no campo e do qual se alimentam a partir de meados de fevereiro, é o único estimulante que conhecem. Para os meus objectivos, esse fluxo vem em boa hora e em quantidade suficiente para estimular os enxames. Esta publicação do Marcelo vem confirmar o que vejo todos os anos nos meus apiários de forma consistente.

Deixo em baixo o texto que o Marcelo teve a amabilidade de escrever para o meu blog. As fotos que acompanham e ilustram o texto são suas.

Meio envolvente.

“Após algumas observações que fui partilhando com o Eduardo nas últimas semanas sobre a minha experiência, fui desafiado pelo mesmo a partilhá-las convosco. 

Ao longo do último ano, anotei as florações existentes num determinado local e, após alguma reflexão, percebi que esse mesmo sítio me iria oferecer maior potencial do que tinha em Coimbra. Potencial este no que toca a localização, exposição solar, intensidade e variedade dos fluxos e pouca vespa asiática (pelo menos por agora). 

No passado dia 19 de Setembro, procedi à transumância de todas as minhas colónias situadas em Coimbra. 75% viajaram para um recanto bastante bonito em Alcobaça e as restantes mudaram de apiário, mas continuam por Coimbra. 

Com um maneio semelhante em todos os enxames, observo que as colmeias de Alcobaça evoluíram estrondosamente num espaço de um mês e meio e que as restantes 25% (Coimbra) estão ainda mais atrasadas e enfraquecidas. Não “culpo” a varroa ou vespa velutina pela situação, mas sim dois fatores extremamente importantes: (1) a existência de um variado e constante fluxo de pólen em Alcobaça desde setembro e (2) a inexistência de um bom e rico fluxo de pólen em Coimbra. 

As fotos que se seguem são referentes aos enxames transumados para Alcobaça.

Na primeira observação, realizada após 3 semanas (10 de outubro), foi possível verificar o forte fluxo de pólen ao longo dos quadros que ia observando. De relembrar que os enxames chegaram com quadros vazios de qualquer reserva de pólen.

Quadro com mel e pão de abelha fresco.

Nesse mesmo dia, também foi visível o impacto deste fluxo constante e variado.

Quadro de criação.
Quadro de criação com uma grande abóbada de mel e pólen. Acredito que nesta descrição o Eduardo colocaria: “estes são os quadros que gosto de ver à entrada e saída do inverno” :).

A 29 de Outubro, a cadência manteve-se, sendo possível de verificar uma forte manifestação do fluxo de néctar uma vez que já era possível sentir os seus doces odores na aproximação ao apiário e, claramente, visível no interior da colmeia, resultado dos poucos mas bons eucaliptos existentes na zona.

O padrão recorrente nos diversos enxames:

Quadro de criação.
Ninho com abelhas.

Após 6 semanas, os enxames transumados em núcleos levaram a primeira meia alça e sobreninho (“colmeia armazém“) para receber o fluxo atual proveniente do eucalipto e de preparo para a entrada do fluxo de medronheiro, que se encontra ativo neste momento.

Colmeia com meia alça.

Não consegui detetar a fonte de pólen nos meses de setembro e outubro. No entanto, havia uma forte predominância da Tágueda, mas sem qualquer visita por parte das abelhas. Verifiquei sim a predominância de abelhas nos figos e no alecrim, que já se via em flor, na altura. Penso que haverá outras florações com maior interesse polinífero que não me são conhecidas (os locais que me ajudem). Ao longo destes dois meses, observei, principalmente, a entrada de pólen laranja, amarelo e um branco amarelado.

Na foto seguinte é visível alguma variedade do pólen armazenado nas últimas semanas. É visível um pólen branco que nos levantou alguma curiosidade sobre a sua possível origem.

Quadro de pólen em tons de laranja, azuis, cinzentos e brancos.

Os enxames de Coimbra encontram-se, à data de 29 de outubro, maioritariamente sem criação e com reservas de pólen praticamente inexistentes.

A foto seguinte representa o padrão: algumas reservas de mel, néctar e uma clara ausência de pólen que se reflete numa interrupção de postura por parte da rainha. “

Quadro de um enxame em Coimbra com abelhas e néctar.

das plantas às abelhas: alguns detalhes a considerar para enriquecer o pasto apícola

Marla Spivak, em 2013, foi muito clara e enfática quando defendeu:

Marla Spivak, conceituada investigadora apícola.

O aspecto básico presente no problemático desaparecimento das abelhas está no facto de refletir uma paisagem onde as flores estão a desaparecer, assim como um sistema alimentar disfuncional. Precisamos de uma grande diversidade de flores ao longo de todas as estações de crescimento das colónias de abelhas, da primavera ao outono. Precisamos de bermas de estradas semeadas com flores para as nossas abelhas, e também para as borboletas, pássaros e outros animais selvagens. Precisamos de pensar novamente em voltar a fazer culturas de protecção e pousio que nutram os nosso solos assim como as nossas abelhas. Precisamos de diversificar as culturas nas nossas fazendas/quintas. É preciso plantar/semear plantas nos limites destes terrenos e que interrompam o deserto verde das monoculturas, assim como corrigir o sistema alimentar disfuncional que criámos.” Detalho nesta publicação algumas razões e linhas de orientação que devem presidir as nossas acções de enriquecimento do pasto apícola.

Uma vez que as abelhas utilizam recursos de uma grande variedade de plantas (> 40.000 espécies são consideradas ter importância para as abelhas; cada uma com diferentes épocas de floração e oferecendo diferentes recursos (néctar, pólen ou ambos), selecionar uma mistura adequada de espécies de plantas pode ser um desafio.

O néctar (que é convertido em mel) é importante para a colónia porque fornece sua principal fonte de carboidratos (energia), necessários para alimentar as atividades diárias, como termorregulação, produção de cera e voo. O valor das plantas de néctar para a apicultura varia consideravelmente, mas é determinado, na maior parte, pelo seu potencial de produção de mel (potencial melífero). Isso depende do número total de flores que a planta produz, da quantidade de néctar-açúcar secretado por cada flor (determinado pelo volume e concentração do néctar) e da duração e regularidade da floração das plantas. Plantas com potencial melífero muito alto (> 500 kg / ha / estação) são particularmente valiosas. No entanto, o valor da planta também depende da comercialização e das propriedades do mel produzido, incluindo sua cor, sabor, aroma, densidade, viscosidade, cristalização e bioatividade. Os tipos de mel com qualidades desejadas ou comercializáveis, como propriedades antibacterianas, provavelmente atingirão um alto preço de mercado para o apicultor. Se as plantas de alto valor também tiverem um alto potencial melífero, os resultados económicos serão consideravelmente melhorados.

Plantas de pólen são igualmente importantes para a apicultura e fornecem a principal fonte de proteína, lipídio, vitamina e ingestão de minerais das colónias, necessárias para a alimentação da criação larvar. Estes nutrientes também são necessários para crescer e reparar tecidos corporais, construir células de gordura, aumentar a imunidade e resistência a doenças e longevidade da colónia. O valor das plantas produtoras de pólen para a apicultura varia consideravelmente, devido a grandes diferenças na quantidade de pólen produzida, e a composição química e benefício nutritivo do pólen. O conteúdo de proteína bruta do pólen é particularmente importante e varia de 2% a 60% para plantas polinizadas por insetos. No entanto, os níveis ideais necessários para a criação variam de 23% a 34%. As colónias que consomem pólen dentro desta faixa produzem significativamente mais criação e operárias mais resistentes, têm melhores taxas de sobrevivência e longevidade e um maior potencial para colectar recursos e produzir mel. No entanto, há algumas evidências de que níveis elevados de proteína bruta (> 38%) em dietas artificiais são deletérios/prejudiciais para as colónias. Embora não esteja comprovado para dietas naturais, este efeito requer mais investigação.

O equilíbrio dos aminoácidos essenciais também é um indicador importante do valor nutritivo do pólen. Dez aminoácidos essenciais são necessários em diferentes quantidades mínimas para o crescimento e desenvolvimento da colónia. Infelizmente, o pólen produzido por muitas plantas com flores é deficiente em um ou mais aminoácidos essenciais. Consequentemente, colónias mantidas em fontes de pólen limitadas podem ser suscetíveis a doenças (particularmente infecção fúngica por Nosema), produzir pouca ou nenhuma criação e podem perecer completamente. O componente não proteico do pólen (por exemplo, lipídios, vitaminas e minerais) também é considerado importante, mas seu papel não é bem compreendido actualmente. Para reduzir o risco de qualquer uma das deficiências nutricionais acima mencionadas, é sugerido o plantio de uma mistura de espécies de plantas com flores. Diretrizes provisórias sugerem um mínimo de doze espécies de plantas (três a cinco florescendo simultaneamente) podem ser suficientes para manter colónias populosas. No entanto, como o pólen pode ser deficiente em um ou mais nutrientes, será importante ter como alvo combinações de espécies nutricionalmente balanceadas. As seleções de plantas devem complementar a fenologia das plantas existentes e preencher quaisquer lacunas no florescimento ou fornecimento de recursos no local e, idealmente, levar em consideração as preferências dos polinizadores.

A qualidade do néctar desempenha um papel significativo nas preferências dos polinizadores, com concentrações de néctar-açúcar (sacarose) entre a faixa de 30% a 50% sendo mais atraentes para as abelhas e oferecendo maiores recompensas calóricas. No entanto, em concentrações maiores (acima de 60%), os néctares tornam-se muito viscosos para uma libação rápida e raramente são coletados pelas abelhas.

As preferências por pólen não são bem compreendidas, mas são comumente preferidas pela disponibilidade e concentração de pólen viável e duração da floração. Finalmente, atrativos (por exemplo, cariofileno), dissuasores e toxinas naturais (por exemplo, cafeína e nicotina) no néctar e pólen também podem desempenhar um papel nas escolhas dos polinizadores, dependendo de sua concentração.

fonte: Picknoll,J.L.;Poot,P.; Renton, M. A New Approach to Inform Restoration and Management Decisions for Sustainable Apiculture. Sustainability, 2021,13,6109

alimentação estimulante: uma falácia com um século?

Anton Imdorf é o investigador europeu com os temas/linhas de investigação mais pertinentes que conheço. Por ex., fez investigação aprofundada sobre a longevidade das abelhas e sua dinâmica populacional ao longo das estações — ver aqui. Entre outros objectos de estudo debruçou-se sobre os efeitos da alimentação estimulante na população de abelhas. Sobre este tema traduzo em baixo excertos de uma brochura, com Imdorf como primeiro autor, que suspeito vá deixar alguns (muitos?) boqiabertos (muito possivelmente até “formadores do IEFP”!). Os meus leitores já se terão apercebido que deixei de utilizar alimentação estimulante há muito, por ter a impressão que o verdadeiro estimulante das minhas colónias é o bom fluxo de pólen que se inicia em meados de fevereiro no território, associado ao seu bom estado sanitário. Contudo uma coisa é confiarem nas minha impressões (eu também não confio nelas a toda a hora!), outra coisa, mais sólida acredito eu, é apresentar pela mão de um grande investigador apícola a trabalhar na Europa, Anton Imdorf, resultados devidamente controlados.

“Durante os períodos em que o néctar é escasso, muitos livros especializados recomendam, desde o início do século passado, alimentar as colónias de abelhas regularmente, mas não em abundância, de modo a simular a atividade de colheita durante o fluxo de néctar. Com esta alimentação estimulante, a rainha deve aumentar a postura. Este aumento da atividade de criação deve levar a um aumento na população de abelhas e, assim, permitir melhor produção de mel e uma melhor invernada. É questionável até que ponto a população de abelhas é influenciada por estas medidas, como a alimentação estimulante. Desde a década de 40 do século passado, esta tem sido estudado no contexto de vários trabalhos de investigação.

Nutrição estimulante da primavera com soluções açucaradas
Foi Butler quem realizou os primeiros testes científicos sobre este assunto em 1946, alimentando grupos de colónias com xarope de açúcar concentrado, xarope de açúcar diluído ou uma mistura de substituto do pólen e xarope de açúcar. Colónias dos grupos alimentadas dessa maneira não mostraram aumento da criação ou desenvolvimento de colónias mais rápido em comparação com colónias de controle sem alimentação estimulante. As colónias alimentadas com xarope concentrado até se desenvolveram menos bem do que as colónias de controle. Butler considerou a alimentação estimulante da primavera um desperdício de comida.

Em estudos na Liebefeld no início dos anos 1980, os pesquisadores testaram xaropes de açúcar prontos para uso disponíveis comercialmente, xaropes de açúcar 1: 1 e xaropes de açúcar com proteína adicionada. Os xaropes comerciais e as soluções de água com açúcar foram todos bem tolerados pelas abelhas. A alimentação não levou a nenhum aumento na criação ou população de obreiras em comparação com as colónias de controle que não receberam este tipo de alimentação. As colónias alimentadas não foram estimuladas a coletar mais pólen ou aumentar a colheita de mel. As colónias alimentadas com água com açúcar suplementada com proteína tiveram um desempenho notavelmente pior do que os outros grupos, possivelmente atribuíveis à fermentação do alimento.”

fonte: ALP forum no 68 | février 2010

Notas: 1) outros conhecidos divulgadores do maneio apícola, como Roger Patterson e Michael Bush, desvalorizam também o pretenso efeito positivo da alimentação estimulante na postura da rainha; 2) numa próxima publicação abordarei os efeitos da alimentação estimulante no fim do verão.

as abelhas consomem preferencialmente pólen recém-armazenado

A propósito da última publicação, uma questão se levanta: a extracção do pão de abelha causa prejuízo a nível nutricional para o enxame, desde que esta extracção seja efectuada em quantidades razoáveis e permita que o enxame mantenha as reservas necessárias deste alimento? Os dados recolhidos do artigo agora citado e cujo sumário traduzo não apoiam essa hipótese: os dados obtidos indicam que pólen fresco tem as mesmas qualidades nutritivas para as abelhas que o pão de abelha.

“Sumário: As abelhas (Apis mellifera) coletam e armazenam tanto o mel quanto o pólen de forma a preservá-lo no tempo. O armazenamento de pólen envolve a adição de mel ou néctar e secreções orais aos grânulos de pólen. É controverso se a duração do armazenamento de pólen altera a sua palatabilidade ou o seu valor nutritivo. Examinámos de que forma as abelhas utilizam pólen armazenado com diferentes idades durante um fluxo de pólen. A deposição de pólen nos alvéolos e o consumo subsequente foram monitorados diariamente em 18 quadros de criação de 6 colónias durante um período de observação de 8 dias. Apesar de uma maior abundância de pólen mais antigo armazenado nos quadros criação, as abelhas mostraram uma preferência marcante pelo consumo de pólen recém-armazenado. O pólen/pão de abelha dois a quatro dias de idade era significativamente mais consumido, enquanto pão de abelha com mais de sete dias era consumido em taxas muito mais baixas. […] O pólen armazenado com um dia de idade foi consumido aproximadamente três vezes mais frequentemente do que o pólen armazenado com 10 dias de idade e duas vezes mais frequentemente do que o pólen armazenado com 5 dias de idade. Estas preferências de consumo de pólen recém-armazenado ocorreram apesar da falta de vantagens claras no desenvolvimento das abelhas. Operárias adultas jovens criados durante 7 dias com pólen armazenado com 1 dia, 5 dias ou 10 dias de idade não mostraram diferença na massa corporal, consumo de pólen armazenado, acúmulo de material fecal no intestino posterior ou na proteína da glândula hipofaríngea, sugerindo que armazenamento de pólen não faz variar o seu valor nutricional para as abelhas adultas. Estes dados são inconsistentes com a hipótese de promoção de um período de “maturação do pólen” mediado por micróbios, que resulta numa maior palatabilidade ou valor nutritivo para os lotes de pólen envelhecidos. Em vez disso, o pólen armazenado que não é comido nos primeiros dias acumula-se como excesso de armazenamento, é preservado num estado menos preferido, mas nutricionalmente semelhante.”

fonte: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0175933

probióticos: ensaio de campo por Randy Oliver

Nos EUA, começa a tornar-se moda alimentar as colónias de abelhas com probióticos. Será que esta prática é custo-efectiva? As colónias ficarão mais fortes e produzirão mais? Como não sou apicultor-investigador de campo, leio boas fontes para saber onde vale de facto a pena gastar o dinheiro que tanto custa a amealhar. E Randy Oliver é uma fonte inesgotável de informação pertinente, informada e devidamente controlada para as minhas questões mais práticas. Assim, deixo em baixo a tradução de excertos de uma sua publicação muito recente acerca dos efeitos dos probióticos na força e desempenho nas colónias que testou.

Nos últimos anos, aprendemos que o intestino da abelha hospeda um microbioma que consiste em vários grupos principais de bactérias (Figura em baixo), que, se modificado/perturbardo, pode ter efeitos prejudiciais sobre a saúde das abelhas. Muitos apicultores, na esperança de melhorar a saúde da colónia, especialmente quando são alimentadas com dietas artificiais ou após a aplicação de antibióticos, perguntaram-me se há algum benefício em dar um suplemento de probióticos. Então, fiz dois testes de campo para descobrir.

Principais bactérias intestinais da abelha melífera.

Perguntas práticas: Já que as abelhas operárias obtêm facilmente as suas principais bactérias intestinais dos favos, precisarão ser alimentadas com um produto probiótico? Isso faz alguma diferença?

Este teste de campo foi projetado para determinar se a alimentação mensal de qualquer uma das duas formulações probióticas comerciais especificamente comercializadas para abelhas melíferas proporcionaria um benefício para a força da colónia (medida pelo tamanho do cacho de abelhas) ou desempenho (medida pelo ganho de peso).

Gosto de usar estas duas métricas por dois motivos:

  • Ambos refletem o cálculo final de cada aspecto da saúde da colónia e da sobrevivência adulta, e
  • São as duas únicas métricas que colocam dinheiro no bolso do apicultor.

Fiz dois testes simples, combinando medições de campo com biologia molecular de alta tecnologia (sequenciamento de “próxima geração”), para primeiro ver se o probiótico afetava a força da colónia ou o ganho de peso, e (a ser publicado mais tarde) para saber se o a alimentação dos probióticos resultou em quaisquer outros benefícios biológicos.

Duas formulações probióticas comerciais utilizadas no ensaio.

Discussão
Os dados coletados, infelizmente, não apoiam a alegação de que a alimentação mensal de qualquer um dos probióticos testados resultou num benefício mensurável na força da colónia ou no ganho de peso, em comparação com a aplicação mensal do controle de açúcar em pó.

Aplicação prática: Os dados deste ensaio, infelizmente, não suportam a alegação de que a alimentação de qualquer um dos probióticos resultou em colónias mais fortes.

fonte: https://scientificbeekeeping.com/a-field-trial-of-probiotics/

Nota: sobre os probióticos ver mais aqui.

avaliação de alimentos comerciais utilizados em apicultura (em Portugal)

Este estudo, levado a cabo por uma equipa de investigadores portugueses liderada pelo Prof. Paulo Russo de Almeida (UTAD, Vila Real), já é do conhecimento de alguns entre nós. Ainda assim, e nesta altura em que me encontro a suplementar frequentemente as minhas colónias com pasta de açúcar (fondant), achei muito oportuno voltar a relê-lo e publicá-lo. O estudo definiu como critério de avaliação da qualidade dos alimentos os seus efeitos na longevidade das abelhas. Nós no campo não conseguimos utilizar este critério, por razões óbvias. Substituímos um critério pertinente por este outro de pertinência muito duvidosa: “é um alimento muito bom porque o comem muito depressa”. Como nós, as abelhas também podem ser enganadas pela boa palatibilidade de um determinado alimento, consumirem-no rapidamente, ainda que do ponto de vista nutricional o alimento seja medíocre e eventualmente tóxico.

Pão-de-abelha de diversas origens botânicas, o melhor alimento proteico que as abelhas conhecem até à data. Muito abundante no território onde tenho as minhas colónias, em especial a partir de meados de fevereiro, aspecto que me dispensa a utilização de suplementos proteicos.

Resumo: O estado nutricional de uma colónia é reconhecido como um fator chave para garantir uma colmeia saudável. Assim, é natural que se verifique por parte dos apicultores um incremento na procura de suplementos alimentares para colmatar os desequilíbrios nutricionais de acordo com os objetivos desejados pelos mesmos. As empresas ligadas à apicultura têm demonstrado uma enorme capacidade para responder a essa procura, verificando-se uma escalada crescente e agressiva no número de produtos comercializados, fruto também da baixa regulamentação de produtos alimentares para animais. Atualmente estão disponíveis mais de 40 produtos no mercado Português, com uma composição muito variável e por vezes mesmo indefinida, alegando um conjunto de ações ao nível de estimulo à criação, suplemento energético, suporte à criação de rainhas, melhoria da qualidade de postura redução de níveis de reprodução de varroa, melhoria da microflora intestinal das abelhas, prevenção da Nosemose, melhoria da saúde de colmeias infestadas por Loque americana, entre outras. Face a esta realidade o projeto ApisCibus, financiado pelo PAN (Programa Apícola Nacional), no qual intervêm a FNAP, como entidade preponente, o IPB como coordenador científico e a UTAD como parceira científica, pretende avaliar nutricionalmente alimentos presentes no mercado português. Neste trabalho são apresentados os resultados preliminares entretanto obtidos.

A metodologia utilizada segue as recomendações de um grupo de especialistas apícolas da comunidade científica internacional COLOSS. Os alimentos são avaliados de acordo com a longevidade das abelhas que os ingerem. As abelhas (Apis mellifera iberiensis) utilizadas neste estudo, nasceram em estufa à temperatura de 35 oC e humidade de 70%, num período de 10 horas sem acesso a alimento. Após o nascimento foram homogeneizadas e aleatoriamente distribuídas por gaiolas num total de 50 abelhas por gaiola.

Foram realizados 2 ensaios, no primeiro forneceu-se um alimento e água a cada gaiola com abelhas e envolveu 14 alimentos (9 energéticos e 5 proteicos); no segundo ensaio, a cada gaiola foi fornecido um alimento proteico e um energético, mais água, num total 20 gaiolas, tendo-se efetuado 2 réplicas.

Os resultados sugerem que com a utilização de alimentos energéticos se obtém uma longevidade superior à dos alimentos proteicos. Em geral, observou-se uma sinergia positiva quando se associou um alimento energético a um proteico, mas verificou-se uma exceção em que alimentos energéticos sozinhos apresentaram maior longevidade do que quando associados a um proteico o que sugere uma eventual toxicidade do segundo. O pólen quando combinado com um alimento energético mostrou ser o alimento proteico com maior capacidade para manter as abelhas vivas.

fonte: https://www.uc.pt/ffuc/congresso_iberico_de_apicultura/documentos/V_CIA_2018_livro_resumos.pdf

Nota: ainda que tenha deixado de utilizar alimentação líquida há uns anos, para aqueles que entre nós fazem “xarope caseiro” com água e açúcar branco refinado, refiro que não é necessário fervê-lo e invertê-lo. A fervura pode tornar a mistura tóxica, a inversão dos açucares diminui a longevidade das abelhas. Um caso mais em que as abelhas são enganadas pela palatabilidade de um alimento que o apicultor tornou medíocre e/ou tóxico.

randy oliver: uma conversa sobre a alimentação com substitutos de pólen

Bidão transformado em alimentador externo colectivo de substitutos de pólen.

Nos últimos anos a opção de alimentar as colónias nas épocas de escassez com substitutos de pólen fornecidos em alimentadores externos colectivos tem vindo a recolher adeptos entre os apicultores. As abelhas aparentemente gostam desta alternativa alimentar, carregando afanosamente grandes quantidades do substituto para a colmeia. Mas como vimos aqui este comportamento, por si só, não é um indicador fiável da qualidade do alimento. Mais, alguns apicultores profissionais relatam que têm assistido ao colapso de colónias no inverno e associam este facto a esta estratégia de alimentação. Ora é sobre esta questão em particular que Randy Oliver se debruça no início desta conversa publicada no YT anteontem.

Randy Oliver, conversando anteontem, 14, sobre abelhas.

Randy Oliver, apicultor desde a sua juventude, biólogo e entomólogo, é provavelmente a voz mais influente no meio daqueles que procuram um conhecimento objectivo sobre estes insectos polinizadores.

É precisamente sobre a necessidade de uma maior objectividade nas afirmações que se fazem a respeito das abelhas que Randy inicia a conversa. Para ele muitas vezes a internet e a comunicação social abordam a apicultura de uma forma “nonsense”/absurda e não de uma forma objectiva, baseada na evidência científica e na experiência controlada.

Refere que neste momento está a conduzir dois ensaios controlados, um sobre o desenvolvimento de abelhas resistentes — programa que já mereceu duas publicações neste blog, aqui e aqui — e um outro sobre os efeitos da alimentação com substitutos de pólen, que iniciou há sete meses e está agora a terminar.

Uma tirada engraçada, mas muito séria como o são as coisas engraçadas, é Randy afirmar que se algum apicultor não disser de quando em quando que não sabe, o melhor a fazer é ouvir essa pessoa com “um grão de sal”/com algum cepticismo, porque há muita coisa que objectivamente desconhecemos.

Sobre os ensaios com suplementação proteica no outono as conclusões preliminares que tirou foram:

  • quando o substituto de pólen seco é fornecido em alimentadores externos colectivos as abelhas recolhem-no em grande quantidade e armazenam-no, fermentam-no e fazem pão-de-abelha a partir dele;
  • quando o substituto pólen é fornecida na forma de bifes as abelhas não armazenam nem uma grama;
  • a colecta e armazenamento do substituo de pólen seco fornecido em alimentadores externos varia muito de colónia para colónia;
  • em situação de escassez de pólen natural no outono e quando alimentadas com substitutos de pólen o melhor teste para avaliar o impacto da suplementação passa por verificar se as abelhas produzem mais geleia real para alimentar as larvas; segundo ele, as abelhas param a produção geleia real se a proteína de substituição fornecida não tiver os ingredientes que lhes permitam produzir geleia real com qualidade;
  • verificaram-se efeitos adversos nas abelhas alimentadas em laboratório (em Tucson) com pão-de-abelha feito a partir dos substitutos de pólen; estes dados necessitam de ser replicados com novos ensaios, na sua opinião;
  • estes efeitos adversos nas abelhas alimentadas com pão-de-abelha feito a partir dos substitutos de pólen confirmam a experiência negativa observada por vários apicultores profissionais que testemunharam colónias a colapsar no inverno depois de alimentadas com grandes quantidades de substituo de pólen seco fornecido em alimentadores externos colectivos.

Foi o que retirei nos primeiros dez minutos desta conversa de Randy Oliver. Espero que a tradução tenha sido fiel, mas caso encontrem alguma falha/erro importante agradeço desde já que me alertem.