o envelhecimento das abelhas: alguns aspectos

O nascimento das primeiras abelhas de inverno ocorre sobretudo no final do verão e início do outono, isto é, entre agosto e outubro. Segundo alguns estudos (Merz et al. 1979; Imdorf et al. 2010) uma boa parte destas abelhas de inverno nasce em setembro. Também por esta razão, as nossas colónias devem estar desparasitadas do varroa por esta altura.

Enquanto as abelhas de verão vivem cerca de 35-40 dias em média, as abelhas de inverno vivem cerca de 180 dias. Aspectos de natureza genética, fisiológica, morfológica e ambiental explicam esta diferença. Por exemplo abelhas da sub-espécie ligústica vivem menos tempo em média que abelhas da sub-espécie cárnica (efeito genético); abelhas com mais hormona juvenil na hemolinfa (abelhas de verão) vivem menos tempo que abelhas com menos hormona juvenil (abelhas de inverno). Morfologicamente as abelhas de inverno distinguem-se das abelhas de verão no tecido adiposo, maior nas primeiras que nas segundas.

Tecido adiposo de uma abelha de inverno (à esquerda) e de uma abelha de verão (à direita).


Mas são as variáveis de natureza ambiental que apresentam um impacto mais profundo no tempo de vida expectável das abelhas (Imdorf et al. 2010). E aqui o termo ambiental engloba não apenas as condições ambientais externas à colmeia (a metereologia, por ex.), mas também as condições ambientais internas, como a presença ou ausência de criação para alimentar nos meses de final de verão e início do outono. Analisemos mais aprofundadamente este dado que, no meu ponto de vista, apresenta um grande interesse e implicações práticas acerca das benesses e prejuízos que podem advir da utilização de alimentação estimulante no final do verão/início do outono.


Creio que todos nós, apicultores com alguns anos de abelhas, já pudemos observar que uma colónia zanganeira, livre de cria, não perece habitualmente em poucas semanas, pelo contrário pode sobreviver por vários meses. Dados experimentais têm mostrado que as abelhas em colónias sem cria (colónias com rainha enjaulada, por ex.) vivem muito mais e exibem características fisiológicas típicas de abelhas longevas de inverno. Fluri e Imdorf (1989) testaram os efeitos no desenvolvimento de colónias com paragem de desova entre 13 de agosto e 18 de setembro. As colónias com paragem de desova criaram 6.000 abelhas a menos do que o grupo de controle e tiveram em média 1.800 abelhas a menos que hibernaram por colónia. À saída do inverno, a força média das colónias foi no entanto muito semelhante nos dois grupos de colónias. Isso sugere que durante uma paragem de desova no final do verão/início do outono, uma grande parte das abelhas se transforma mais cedo em abelhas de inverno de vida mais longa. Estas observações levaram à hipótese de que o cuidado com a criação encurta a expectativa de vida. Em 1985, Wille, H. e colegas demonstraram que a criação intensiva de cria é sinónimo de redução da expectativa de vida das abelhas. O mesmo concluíram Westerhoff e Büchler (1994): cuidados mais intensivos com a criação podem explicar dois terços da redução na expectativa de vida das abelhas.

Ligando os pontos, julgo que estou em condições de poder dizer que a alimentação estimulante não é necessariamente um bem absoluto e a utilizar como regra, especialmente neste período de fim de verão/início de outono. Podemos estar, em muitas circunstâncias e vários locais, a envelhecer prematuramente e desnecessariamente as abelhas adultas já presentes nas nossas colónias ao obrigá-las a criar em excesso novas abelhas. No que me diz respeito não me lembro de ter utilizado alguma vez alimentação estimulante nestas alturas do ano, no meu território, onde não tenho pressão de velutinas nem florações nectaríferas importantes no inverno. Nunca me pareceu que fizesse qualquer falta, e cedo aprendi a conviver e a achar natural o decréscimo populacional de uma colónia de abelhas nesta época do ano. Numa ou outra fico na dúvida se passará o inverno, e em regra até passam desde que tenham alimento suficiente (natural ou artificial na forma de pasta).

Resumindo, as abelhas de inverno para serem longevas devem nascer num ambiente desparasitado (com poucas varroas e vírus) e devem ser libertadas da tarefa de alimentar um excesso de criação provocado por uma alimentação artificial inoportuna.

2 comentários em “o envelhecimento das abelhas: alguns aspectos”

  1. Muito interessante esta publicação porque conduz a um raciocínio que tento descifrar, ou esclarecer, há muitos anos. A junção, o encaixe perfeito entre teoria, practica e as conclusões obtidas nas experiências practicadas de campo. Penso que na apicultura é suficientemente difícil aproveitar o que se estuda e experimenta para obter os resultados pretendidos no maneio practico no dia a dia do apicultor. Às vezes penso e sinto que não faz bem ao apicultor estudar tanto, e peço desculpa por esta afirmação. Ela baseia-se na ideia de que a abelha é tão complexa e são tantas as variáveis que o “excesso” de estudo e tentativa de aprofundamento podem baralhar a decisão sobre os maneios, dificultar o trabalho e obter resultados não pretendidos. Cada vez mais procuro entender as abelhas em vez de “saber de abelhas”. Literalmente pode significar o mesmo, mas penso que se percebe a ideia. Isto numa óptica de observação comportamental das abelhas, os zumbidos, as danças, a forma como pousam na tábua de voo, se derivam ou gatinham, se estão felizes(sem agressividade). Ou seja, procurar a simplicidade na apicultura porque, ao fim de contas, são elas que produzem tudo. Um abraço!!

    1. Muito interessante igualmente a sua reflexão Carlos. É verdade, os produtos da colmeia são os produzidos pelas abelhas, sem acrescentos nem subtrações. Contudo desde que as colocamos numa caixa artificial (colmeia) assumimos uma certa responsabilidade pelo seu bem-estar. Para estarmos apetrechados para o fazer temos de “saber” sobre as abelhas para depois as podermos “compreender”. Neste percurso de aprendizagem muitas vezes as propostas que nos são apresentadas são diversas, algumas não encaixam perfeitamente, e algumas até são antagónicas. Esta diversidade de propostas pode ter causas muito diversas, como por exemplo aquele investigador que nos diz que fazer alimentação estimulante é uma acção de soma nula (os ganhos são iguais às perdas) e ao lado temos o fabricante e comerciante de alimentos estimulantes a afirmarem que as nossas colónias morrerão no inverno se não as estimularmos no final do verão/início do outono com o alimento que vendem. No final cabe a cada um de nós avaliar esta diversidade de pontos de vista e escolher o que nos parece adequar-se em função do local e dos objectivos a atingir. Um abraço!

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