perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2017-2018: dados, análise e discussão

Enquanto apicultor profissional (a minha renda anual depende exclusivamente dos proveitos alcançados por via das minhas colónias de abelhas, isto desde 2010) e enquanto amador das abelhas (tenho uma paixão por ajudar as minhas colónias a manterem-se vivas e saudáveis, particularmente durante os meses de escassez), a maior satisfação provem das baixas taxas de mortalidade invernais, que felizmente têm ficado abaixo dos 5% nos últimos anos. Sobre as abelhas já vi um pouco (experiência), já li um pouco mais (estudo), e já pensei um pouco mais ainda (tentando construir algum conhecimento), para que desta mistura saia o necessário, ano após ano, que me permita estar mais preparado frente a este grande desafio: manter os enxames de abelhas vivos e saudáveis para me darem a renda anual que procuro.

Uma das ferramentas para alcançar tal desiderato tem sido, como referi, as leituras, e nessas leituras destaco os magníficos relatórios da Chambre d’Agriculture d’Alsace, pelo contributo que têm dado à minha aprendizagem e reflexão. Aqui e aqui deixei traduzidos os relatórios produzidos nos dois anos anteriores (2016 e 2017). Apresento agora a tradução de alguns excertos do relatório publicado em 2018, acerca das perdas ocorridas no inverno de 2017-2018 nas mesmas três regiões, inseridas na região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine).

A região Grand Est

As respostas foram fornecidas por 640 participantes. A pesquisa abrange 534 respostas válidas que descrevem o ocorrido em 16.940 colmeias distribuídas por 2.737 apiários de inverno.

Uma panorâmica geral

Com 11,6% das colmeias a chegarem mortas à primavera de 2018 (e 9,7% das colmeias sem valor à entrada da primavera), a situação da apicultura na região do Grand Est é semelhante à perda média dos últimos nove anos. Combinando estas duas taxas, as perdas globais chegam, portanto, a 21,3% das colmeias invernadas pelos apicultores (colmeias mortas + sem valor). Não houve mortalidade excessiva na primavera de 2018.

De forma semelhante aos inquéritos anteriores, constata-se um número mais elevado de perdas nos apicultores com poucas colmeias face a outros com mais colónias. De acordo com os dados disponíveis, este excesso de mortalidade foi estimado em 56% a mais de perdas para apicultores com “menos de 10 colmeias” em comparação com as de apicultores profissionais.

E, uma vez mais, confirma-se a influência central das escolhas técnicas relacionadas com o combate ao parasita Varroa na sobrevivência das colónias.

Influência de rainhas jovens na sobrevivência da colónia
Ao todo, 9.075 colónias de abelhas tinham rainhas do ano (53,6% das colmeias).
O inquérito não solicitava que o apicultor diferencie as perdas sofridas por colmeias com e sem rainhas jovens. As estatísticas não são precisas, portanto. Contudo de acordo com os sentimentos pessoais dos apicultores:
– Os problemas decorrentes das rainhas parecem ser equivalentes aos de anos anteriores; – Colmeias com rainhas jovens não têm invernado nem melhor nem pior do que as outras.

Remoção de cria de zângãos (corte de cria de zângãos)
A remoção de cria de zângãos retarda a progressão da infestação de Varroa, mas não constitui um tratamento em si. Para ser útil, é necessário um mínimo de 3 ou 4 cortes por primavera (abril a junho / julho).
Entre os 534 apicultoresinquiridos, apenas 29 praticaram esse corte “pelo menos 3 vezes”. Sua taxa média de perdas é de 22,7% (contra 21,3% para aqueles que não praticaram).

Embora esta medida seja reconhecida pela sua ação na infestação por varroa (desacelerando a infestação na primavera), sua influência nas perdas no inverno parece insignificante. Esta observação é consistente com os dados de inquéritos anteriores. A falta de efeito mensurável nas perdas de inverno pode ser explicada por um lado pela fertilidade do Varroa (que recuperaria no final do ano o “tempo perdido” pelas acções de remoção de cria de zângão) e / ou pelos fenómenos de reinfestações entre apiários vizinhos, o que acabaria por anular a vantagem proporcionada pelo método no início da época.

Quais são as culturas/florações presentes no ambiente da maioria de suas colónias?
O inquérito pediu informações acerca das culturas/florações presentes em redor dos apiários. A ausência de culturas melíferas parece estar sistematicamente ligada a maiores perdas (exceto para urze);

No que diz respeito à urze, a sua presença está associada a um grande número de colmeias que perderam o seu valor. Trata-se principalmente de colmeias que ficaram zanganeiras (28% das colónias em território de urze ficaram zanganeiras, 5% ficaram muito fracas).
Sobre este aspecto em particular não é possível, com base nos dados disponibilizados pelo inquérito, realizar análises estatísticas mais precisas, dada por um lado a imprecisão das informações coletadas e por outro lado o tamanho da amostra (número baixo de apiários onde as urzes estavam presentes).
A rede Coloss planeia explorar esta questão com base em dados coletados nos vários países participantes.

Tratamento “principal” de fim de verão
O período escolhido para o controle do parasita Varroa destructor é no final da temporada de produção de mel (ou seja, julho / agosto / setembro/outubro no Grand-Est).
Em 2017, a colocação dos tratamentos começou timidamente em julho (6% dos apicultores) e, a maioria foram realizados principalmente em agosto (44% dos apicultores) e em setembro (40% dos apicultores).
No Grand-Est, recomenda-se a realização dos tratamentos em julho / agosto, dada a duração de ação dos tratamentos (variável de 2 a 12 semanas) e o fim do período de criação das abelhas de inverno (aproximadamente em Outubro, Imdorf 2010). De fato, é necessário para a sobrevivência das colmeias que as abelhas de inverno sejam criadas em condições/ambiente já desparasitado.

Ligação entre a data do tratamento principal e as perdas de inverno As colónias tratadas mais cedo estão associadas às melhores taxas de sobrevivência no inverno.

As colmeias tratadas em outubro de 2017 mostram um excesso de mortalidade 2,2 vezes maior do que as colmeias tratadas em julho de 2017.
Com 36,7% de colmeias mortas, os tratamentos iniciados em outubro são muito menos úteis do que os realizados em julho (perdas de 16,6%, ou seja, 2,2 vezes menos perdas).

Ligação entre a escolha do medicamento principal para a varroose e as perdas no inverno

  • Apivar® – O medicamento mais utilizado para o “tratamento principal” (final do verão) é o APIVAR (11.705 colmeias, ou 69% das colónias monitoradas pela pesquisa). É o medicamento autorizado associado aos melhores resultados (melhores taxas de sobrevivência no inverno). Resultado sempre observado ao longo dos anos inquiridos (de 2010 a 2018).
  • Ácido fórmico – Segundo tratamento mais utilizado (1534 colmeias, ou 9% das colónias monitoradas pela pesquisa); a aplicação do ácido fórmico é aprovada na Agricultura Orgânica. Apresenta resultados variáveis ​​dependendo das condições de uso e das condições meteorológicas no apiário. O “MAQS” possui uma MA (Autorização de Introdução no Mercado), ao contrário das preparações caseiras utilizadas até agora.
  • Timol (Apiguard®, Thymovar®, Apilifevar®) – Usado em 5% das colmeias monitoradas pela pesquisa, esses medicamentos apresentam fortes variações de eficácia entre colmeias de um mesmo apiário. Está associado a perdas maiores.
  • Apistan (tau-fluvalinato) – cada vez mais raramente utilizado (> 1% das colmeias), esta molécula não é recomendada devido ao seu acúmulo em ceras e aos problemas de resistência a ela associados.
  • Ácido oxálico (Varromed) – o ácido oxálico é conhecido por ser eficaz contra Varroa na ausência de cria na colmeia. Recentemente, foi disponibilizado em preparações com Autorização de Introdução no Mercado e a particularidade é que pode ser utilizado durante todo o ano, inclusive na presença de cria. Atualmente, não temos nenhum feedback técnico de testes sobre a real eficácia deste produto (quais as doses e qual a frequência de aplicação para atingir qual taxa de eficiência?). A taxa de mortalidade associada às 633 colmeias tratadas com Varromed é de 32,5% (mas em que doses foram tratadas?). Um ponto que requer mais detalhes no futuro.
  • O amitraz “caseiro”, utilizado em menos de 1% dos casos, é uma prática proibida devido aos perigos diretos para o apicultor e para as abelhas. Seu desempenho é inferior ao do Apivar (com o mesmo princípio ativo).
  • Falta de tratamento e “outros métodos” — as respostas indicam que 1115 colmeias não foram tratadas e 402 colmeias foram tratadas com “outros métodos” (não especificado). As colmeias que não foram tratadas tiveram a maior taxa de perda de todas as colmeias da amostra (49%)!

Tratamento de inverno (ácido oxálico)
O inverno é uma oportunidade de realizar um tratamento complementar ao tratamento principal (verão), de forma a eliminar o varroa residual: a aplicação de ácido oxálico (AO) permite realizar um tratamento muito eficaz contra a varroa na ausência de criação. AO é uma molécula natural, que deve ser manuseada com cuidado. O período ideal é o período sem cria, geralmente final de dezembro-início de janeiro [nos meus apiários seria de meados de novembro a meados de dezembro… local, local, local!].

Durante o inverno de 2017-2018, o ácido oxalico foi aplicado no Grand Est como se descreve:

49 aplicações de AO “gotejado” (incluindo 34 em dezembro e 10 em janeiro). 41 aplicações AO por “sublimação” (gás) (incluindo 17 em dezembro e 11 em janeiro).

(Tenha cuidado com o entupimento dos seus dispositivos com a preparação ApiBioxal que infelizmente contém açúcar! O ApiBioxal é impróprio para este tipo de utilização.

As perdas registadas não são diferentes entre colmeias tratadas ou não com AO, no inverno (teste Z não significativo). E por uma boa razão: o tratamento de inverno não é usado para melhorar a taxa de sobrevivência no inverno! É o tratamento principal, o de verão, que se reflecte na sobrevivência no inverno. O objetivo do tratamento de inverno é minimizar o número de ácaros varroa nas colmeias para promover uma melhor época/arranque no ano seguinte.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/compte_rendu_enquetes_pertes_hivernales_grand_est_2018_v2.pdf

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