suplementação artificial de proteína: alguns dados experimentais

O pólen é a única fonte de proteínas das abelhas e desempenha um papel decisivo na criação de novas abelhas, bem como no desenvolvimento das glândulas nas operárias mais jovens. As abelhas suprem as suas necessidades de aminoácidos e minerais essenciais por meio do pólen. A sua ingestão é essencial para o desenvolvimento dos órgãos internos, em particular do tecido adiposo e das glândulas hipofaríngeas das abelhas.

Quadro com reservas de carbohidratos (mel) e proteína bruta (pão-de-abelha).

Os apicultores mais informados estão cientes que a criação de novas abelhas depende radicalmente do suprimento natural de pólen. Se nenhuma reserva de pólen estiver disponível nos favos e/ou se o campo não estiver a disponibilizar pólen a colónia diminui significativamente a criação, podendo esta ser interrompida.

Tendo estes aspectos em conta, alguns apicultores veteranos procuram, através da suplementação artificial de fontes de proteína (conhecidos como bifes proteicos), manter e/ou mesmo estimular a criação de abelhas novas em épocas de escassez. Vejamos se os dados trazidos por alguns estudos controlados (realizados na Suíça), confirmam esta expectativa.

Alimentação de pólen de primavera (Imdorf A., et al., 1988) 
Como às vezes há falta de pólen na primavera [Suiça], um conjunto de estudos foram realizados em 1986/87 para descobrir se a alimentação suplementar com pólen poderia acelerar o desenvolvimento da colónia nesta época do ano. Verificou-se que esta apenas levou a um aumento temporário na criação, mas não influenciou o desenvolvimento das colónias. Além disso, as diferenças observadas não foram estatisticamente significativas .

Alguns detalhes do desenho experimental e dos dados obtidos: na primavera de 1986 e 1987, dois grupos de 5 e 8 colónias, foram suplementados durante 5 semanas, do final de março ao início de maio, recebendo semanalmente 500 g de pasta de pólen (300 g de pólen de sua própria colheita e 200g água com açúcar 1: 1). De final de março ao final de maio, a população foi medida a cada três semanas (criação e abelhas adultas). Grupos de colónias semelhantes sem nenhuma suplementação serviram como controle.
Ao longo dos dois anos da experiência, foi observado um ligeiro aumento na criação de novas abelhas no início de abril. Três semanas depois nenhuma diferença foi observada na quantidade de criação de novas abelhas entre grupos. Nenhuma diferença entre os grupos foi observada durante e após a alimentação no desenvolvimento da população de abelhas.

Colónia suplementada artificialmente com um bife proteico.


Uns anos antes o mesmo investigador tinha avaliado o impacto da suplementação de pólen e de um substituto de pólen na criação de novas abelhas e no crescimento populacional noutra época do ano.

Alimentação de pólen entre meladas (Imdorf, A., et al., 1984)
Estudos realizados na Suíça com centenas de colónias de abelhas mostraram que o pico populacional é alcançado no final de junho ou início de julho e coincide com um período de baixo suprimento de pólen. Durante e após o fluxo de néctar da floresta/bosque, assiste-se a um rápido declínio na população de abelhas.
Em 1981 e 1982, os estudos focaram-se na possibilidade de desacelerar o declínio da população das colónias entre as meladas, suplementado-as com pólen e seus substitutos. Verificou-se que a criação e a expectativa de vida das abelhas não são influenciadas pela suplementação de pólen. A criação de novas abelhas nas colónias suplementadas com pólen não aumentou em comparação com as colónias não suplementadas. Da mesma forma, nenhuma extensão de vida foi observada. Em algumas colónias, o único efeito da suplementação foi a diminuição da colecta de pólen no exterior. Entretanto um aspecto muito negativo foi observado: uma infecção de cria de giz (ascosferiose) ocorreu em colónias alimentadas com pólen. Por esta razão, na América do Norte apenas pólen irradiado é aconselhado para suplementação.


Durante o intervalo entre as meladas no verão de 1981, um teste de alimentação suplementar foi realizado com pasta de pólen (700 g por 5 semanas; alimentação uma vez por semana; n = 6) e uma pasta feita com substituto de pólen de Protivy (540 g; 160 g Protivy 50, 360 g de água com açúcar 1: 1 e 20 g de pólen; n = 9). Um grupo de colónias não suplementadas serviu como controle (n = 12). A ingestão de proteína não teve influência nos dois grupos na criação de novas abelhas e na população de abelhas e não evitou o declínio da população durante o intervalo entre os fluxos de mel em 1981.

Um suplemento proteico industrial para abelhas (creio que não é comercializado na Europa, a ver se assim não firo susceptibilidades).

Reflexão: sendo muito consensual a importância crítica da nutrição das abelhas (ainda não conhecemos abelhas que sobrevivam na ausência de alimento) esse consenso não existe acerca do impacto da nutrição artificial suplementar, seja de proteína seja de carbohidratos, na aceleração do desenvolvimento da população de colónias de abelhas. Portanto, afirmar como uma verdade absoluta e universal, escrita nas pedras, que esse impacto existe é prematuro. O caso ainda está a ser avaliado e julgado! Do que retiro das minhas observações, com as minhas abelhas, no meu território e com o meu maneio, posso confirmar apenas três coisas muito simples, e que vejo repetirem-se ano após ano:

  • já evitei a morte por fome de inúmeras das minhas colónias com alimentação suplementar na forma de pasta de açúcar;
  • as minhas colónias respondem muito bem à entrada de pólen do campo, que se inicia em meados de fevereiro nos territórios onde tenho assentes os apiários, aumentando generosamente a quantidade de criação e, em regra, arrancam bem e chegam muito bem povoadas a abril/maio;
  • até agora nunca utilizei alimentação suplementar proteica no final do verão/início do outono, e as abelhas têm invernado bem sem ela (este ano, 2019-2020, a mortalidade invernal não ultrapassou os 4%).

2 comentários em “suplementação artificial de proteína: alguns dados experimentais”

  1. Permita-me comentar mais uma vez, já que esta publicação ainda é mais interessante que a anterior. Nos estudos referenciados, se bem percebi, é dito que com alimentação suplementar baseada no próprio pólen das abelhas, houve sim um aumento de criação. No entanto, posteriormente verificou-se que não resultou em continuidade ou diferenças significativas. Ora aqui está uma conclusão surpreendente, uma vez que se trata de pólen real de abelhas. Ocorrem me algumas hipóteses: a) o clássico olhometro do investigador não avaliou bem a situação posterior; b) foram descoradas outras variáveis( em apicultura quase sempre acontece); c) existe algum mecanismo, não necessariamente relacionado com a qualidade e tipo de nutrição que faz com que as abelhas não traduzam a mesma em desenvolvimento real e efectivo da colônia. Seria interessantíssimo de descobrir. Muito honestamente não acredito nesta última hipótese, pois é “matematicamente” impossível. Pólen é pólen, excepto que as abelhas não o traduzam em desenvolvimento porque não percepcionam que haja campo que acompanhe. Mas também é certo que o enxame deve ser entendido como um todo e quantas mais abelhas houverem, no momento que fôr, melhor será a situação e perspectiva desse enxame, mesmo que constituído por abelhas com curta esperança de vida, mesmo sem gordura. Isto porque muitas vezes há tarefas menos prioritárias na “casa das abelhas” que só são feitas, ou mais influenciadas a fazer, quando não há néctar nem pólen no campo. Havendo muitas abelhas, essas tarefas nunca são descoradas. A perspectiva não pode ser unicamente em função da forma como arrancam na primavera. Esta variável não foi considerada…e tantas outras. Pessoalmente, considero que a nutrição proteica das abelhas é extremamente importante em alguns períodos do ano, mesmo que o olhometro tenha duvidas. Dito isto, este é o primeiro ano que estou a dar suplemento proteico. Em relação a xarope, nunca gostei de dar. Acho que “não tem substância” hehehe mas às vezes elas agradecem de tal forma que saem da caixa como se estivessem a enxamear, contentes com a glória açucarada que lhes caiu do céu.

    1. Esteja à vontade para comentar como entender Carlos. Diz “é dito que com alimentação suplementar baseada no próprio pólen das abelhas, houve sim um aumento de criação.”, contudo a diferença é pequena para as colónias não suplementadas e não é estaticamente significativa, isto é, a possibilidade da diferença ter sido devida a outros factores ocasionais não é de descurar. Diz “c) existe algum mecanismo, não necessariamente relacionado com a qualidade e tipo de nutrição que faz com que as abelhas não traduzam a mesma em desenvolvimento real e efectivo da colônia.” não lhe chamaria mecanismo, contudo na primavera em média apenas 75% a 80% das larvas e cria operculada termina o seu desenvolvimento, ou até menos em casos de penúria de pólen. Diz “Ocorrem me algumas hipóteses: a) o clássico olhometro do investigador não avaliou bem a situação posterior”, sem dúvida a avaliação da força de uma colónia não é das tarefas mais simples. O método utilizado por estes investigadores é conhecido em língua francesa por Méthode d’évaluation de Liebefeld, método de referência e muito utilizado por diversos investigadores, como se pode confirmar no google. Os resultados destes estudos voltaram a ser confirmados recentemente (2019), estudo que espero traduzir brevemente. A apicultura é local, como não me canso de dizer, e no meu caso estou convicto que suplementar com proteína não é necessário. Tivesse eu uma mortalidade superior, uma produção média de novos enxames e de mel inferior à que tenho tido, poderia estar motivado para alterar alguma coisa no que respeita à suplementação de proteína nos períodos de escassez. Felizmente não é o caso. Um abraço!

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