nutrição de abelhas: o caso dos probióticos, ou quando mais pode ser menos

A nutrição de abelhas é uma das categorias do meu blog com menos publicações. As razões para tal são várias, entre elas:

  • utilizo de forma comedida a nutrição artificial dos meus enxames;
  • utilizei até agora basicamente dois tipos de nutrição artificial: água com açúcar e fondant;
  • a minha experimentação neste domínio é, portanto, muito conservadora e limitada;
  • não tenho forma de controlar rigorosamente e honestamente os impactos nas minhas colónias para além dos que vou observando macroscopicamente e vou referindo numa publicação ou outra, observações que basicamente se resumem a dizer que o fondant salvou estas e aquelas colónias da morte pela fome nos períodos de escassez;
  • encontro poucos estudos sérios, devidamente controlados, sobre os efeitos de certas fórmulas alimentares, e os poucos que vão surgindo não corroboram muitas das vezes as afirmações dos fabricantes e comerciantes de alimentos artificiais acerca dos benefícios dos mesmos na saúde das abelhas e no bem-estar geral da colónia.

Esta publicação, acerca de uma estratégia de alimentação de abelhas em torno dos probióticos, que está muito na moda em certas regiões do mundo, revela uma vez mais esta dissonância entre a cautela e até cepticismo da comunidade científica e o optimismo (desbragado!?) dos fabricantes e comerciantes destes suplementos alimentares. Surgiu na revista apícola norte-americana Bee Culture, em abril deste ano, um interessante artigo acerca dos alegados benefícios da utilização de duas marcas de probióticos na nutrição das abelhas. Em Portugal creio que a utilização destes suplementos ainda é residual, mas como as modas atravessam fronteiras tão ou mais rapidamente que espécies invasoras, fica aqui o ponto de vista dos investigadores que se debruçaram sobre este tema.

Probiótico: pró significa para, biótico significa vida. Para a vida. Sim, nós somos para a vida. Mais vida, mais e melhor, certo? Talvez. Talvez não. […]

Dois produtos probióticos são comercializados especialmente para abelhas: Super DFM, da Strong Microbials, e Pro DFM, da Mann Lake. (Um terceiro produto, Durvet, da PBS Animal Health, foi descontinuado). O Super DFM e Pro DFM listam os mesmos oito micróbios no seu conteúdo, e o Pro DFM tem uma bactéria adicional mais várias leveduras.
Quais são esses produtos? Nossas abelhas precisam deles? Os resultados dos testes de campo não estão disponíveis para nenhum deles, nem existem artigos científicos publicados revistos por pares que os avaliem.
A entomologista Marla Spivak, da Universidade de Minnesota, pediu a uma estudante de graduação em doutoramento para que no laboratório comparasse os ingredientes desses produtos com o que está no bioma intestinal natural das abelhas. Não houve correspondência…[…]

Nancy Moran [uma das maiores especialistas em genómica de insetos e bactérias] olhou para a lista de bactérias presentes no Super DFM e Pro DFM. “Essas bactérias não são normais no intestino das abelhas. Eu não acho que elas vão colonizar o intestino, e se elas colonizaram eu acho que isso não é bom. As abelhas encontram todos os tipos de bactérias, mas o bioma intestinal permanece o mesmo. As abelhas com microbiomas alterados estão principalmente doentes. O que queremos é que a abelha mantenha a microbiota normal. ” […]

Jay Evans, líder de pesquisa do USDA Beltsville Bee Lab, disse: “Muito mais precisa ser feito com a ciência. Por quanto tempo os probióticos persistem no intestino – um dia, uma estação? Ou eles apenas passam pelo intestino [das abelhas]? As pessoas estão gastando muito dinheiro sem saber o que é. ” O pesquisador não descartou a possibilidade de benefício, dizendo que há trabalhos mostrando alguns resultados positivos para colocar bactérias benignas em abelhas. Mas as perguntas permanecem. […]

O segundo produto probiótico, Pro DFM, informa que ajuda a melhorar a saúde das colónias de abelhas, afeta positivamente as reservas de vitelogenina das abelhas nutrizes, auxilia na fermentação e digestão do pão-de-abelha e não possui resíduos prejudiciais. A página “Mais informações” do site está inactiva e a empresa não respondeu à pergunta. Moran especula que as leveduras na fórmula podem ser um suplemento nutricional.
Quanto a qualquer um dos produtos, ela disse: “Estou céptica. Odeio ver as pessoas desperdiçarem dinheiro. Eu não compraria. ” […]

Alternativamente
Considere a possibilidade de alcançar os efeitos que esses produtos probióticos visam sem a necessidade deles. Um artigo do Spivak Lab prestes a ser publicado mostra o melhoramento do microbioma da abelha na presença de própolis.
Enquanto isso, espera para saber mais sobre esses produtos. Alguns novos dados de pesquisa estão chegar, mas os efeitos de longo prazo levarão anos – se alguém puder monitorá-los por tanto tempo.
Própolis já temos.”

fonte: https://www.beeculture.com/probiotics-pro-for-biotic-life/

Um comentário em “nutrição de abelhas: o caso dos probióticos, ou quando mais pode ser menos”

  1. Carissímo,
    Obrigado pela partilha.
    O seu post vem reforçar o meu cepticismo sobre productos industriais preparados para as abelhas.
    Eu, na duvida (ou falta de conhecimento), vou preferindo utilizar nutrição artificial “caseira” fresca.
    Bem haja.

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