alimentação estimulante: uma falácia com um século?

Anton Imdorf é o investigador europeu com os temas/linhas de investigação mais pertinentes que conheço. Por ex., fez investigação aprofundada sobre a longevidade das abelhas e sua dinâmica populacional ao longo das estações — ver aqui. Entre outros objectos de estudo debruçou-se sobre os efeitos da alimentação estimulante na população de abelhas. Sobre este tema traduzo em baixo excertos de uma brochura, com Imdorf como primeiro autor, que suspeito vá deixar alguns (muitos?) boqiabertos (muito possivelmente até “formadores do IEFP”!). Os meus leitores já se terão apercebido que deixei de utilizar alimentação estimulante há muito, por ter a impressão que o verdadeiro estimulante das minhas colónias é o bom fluxo de pólen que se inicia em meados de fevereiro no território, associado ao seu bom estado sanitário. Contudo uma coisa é confiarem nas minha impressões (eu também não confio nelas a toda a hora!), outra coisa, mais sólida acredito eu, é apresentar pela mão de um grande investigador apícola a trabalhar na Europa, Anton Imdorf, resultados devidamente controlados.

“Durante os períodos em que o néctar é escasso, muitos livros especializados recomendam, desde o início do século passado, alimentar as colónias de abelhas regularmente, mas não em abundância, de modo a simular a atividade de colheita durante o fluxo de néctar. Com esta alimentação estimulante, a rainha deve aumentar a postura. Este aumento da atividade de criação deve levar a um aumento na população de abelhas e, assim, permitir melhor produção de mel e uma melhor invernada. É questionável até que ponto a população de abelhas é influenciada por estas medidas, como a alimentação estimulante. Desde a década de 40 do século passado, esta tem sido estudado no contexto de vários trabalhos de investigação.

Nutrição estimulante da primavera com soluções açucaradas
Foi Butler quem realizou os primeiros testes científicos sobre este assunto em 1946, alimentando grupos de colónias com xarope de açúcar concentrado, xarope de açúcar diluído ou uma mistura de substituto do pólen e xarope de açúcar. Colónias dos grupos alimentadas dessa maneira não mostraram aumento da criação ou desenvolvimento de colónias mais rápido em comparação com colónias de controle sem alimentação estimulante. As colónias alimentadas com xarope concentrado até se desenvolveram menos bem do que as colónias de controle. Butler considerou a alimentação estimulante da primavera um desperdício de comida.

Em estudos na Liebefeld no início dos anos 1980, os pesquisadores testaram xaropes de açúcar prontos para uso disponíveis comercialmente, xaropes de açúcar 1: 1 e xaropes de açúcar com proteína adicionada. Os xaropes comerciais e as soluções de água com açúcar foram todos bem tolerados pelas abelhas. A alimentação não levou a nenhum aumento na criação ou população de obreiras em comparação com as colónias de controle que não receberam este tipo de alimentação. As colónias alimentadas não foram estimuladas a coletar mais pólen ou aumentar a colheita de mel. As colónias alimentadas com água com açúcar suplementada com proteína tiveram um desempenho notavelmente pior do que os outros grupos, possivelmente atribuíveis à fermentação do alimento.”

fonte: ALP forum no 68 | février 2010

Notas: 1) outros conhecidos divulgadores do maneio apícola, como Roger Patterson e Michael Bush, desvalorizam também o pretenso efeito positivo da alimentação estimulante na postura da rainha; 2) numa próxima publicação abordarei os efeitos da alimentação estimulante no fim do verão.

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