as coisas que eu vejo!!!

É este o castanheiro que me serve de farol para ter a certeza que os castanheiros da minha terra estão para começar a floração. Ano após ano é dos primeiros a florir. Aprendi com a boa gente da minha terra que o tempo da floração varia um pouco de acordo com as castas dos castanheiros: se a casta é longal mais cedo um pouco, se é martainha mais tarde um pouco.

Dos que eu vejo costuma ser dos primeiros.

Vieram pois na altura certa, espero eu, as colónias com as novas rainhas formadas nos apiários a 600 m, para os dois apiários que neste momento estão activos no território dos soutos. E se nas novas colónias langstroth tive oportunidade e os recursos para “palmerizar” com relativa frequência, os recursos para efectuar esse maneio no apiário das lusitanas foram mais escassos. Como consequência, para além de ter transumado colónias que pesavam mais que um burro, estive hoje a desbloquear os ninhos destas lusitanas que apresentavam quadros a mais de mel no ninho e, portanto, quadros a menos com espaço para a oviposição das novas rainhas.

Como poderá uma rainha num quadro como este…
… fazer este lindo serviço?

O maneio é simples, que já não tenho idade nem talento para coisas muito complicadas. Crio uma colmeia armazém, colocando nesta altura e desde logo uma excluidora de rainhas sobre o ninho e um sobreninho no topo. Este sobreninho vai doando quadros com cera laminada aos ninhos parcialmente bloqueados das colónias nas proximidades e recebendo quadros bloqueados com mel ou néctar, de preferência quadros claros para serem posteriormente crestados.

Colmeia armazém, criada hoje, com 4 quadros com mel/néctar recebidos de outras colónias e com 6 quadros com ceras laminadas para doar a mais algumas colónias parcialmente bloqueadas.
Colocação hoje de um quadro de cera laminada no ninho porque…
… estas rainhas de emergência precisam de uma “tela” adequada para expressarem com toda a liberdade o seu potencial.

Ah, e será a grade excluidora uma merda? como opinou recentemente e publicamente um conhecido apicultor da nossa praça. O que posso dizer é que as minhas abelhas não ligam nenhuma ao que este companheiro diz das excluidoras. Hoje em várias das minhas colónias (friso, das minhas, das de cada um, cada um saberá melhor), com exluidoras colocadas em 17 de maio entre o ninho e sobreninho, constato uma vez mais que o resultado em nada confirma três pré-juízos: não impede/dificulta a armazenagem de mel nas caixas que lhe estão sobrepostas; as excluidoras não aumentaram a taxa de enxameação; não limitaram o potencial de oviposição das minhas rainhas. Se assim não fosse como seria eu capaz de explicar que todas as minhas colónias com ninho e sobreninho, e com grelhas excluidoras colocadas a 17 de maio, tenham neste momento armazenado entre 30 e 50 kgs de mel/néctar?

Com cerca de 50 kgs de mel/néctar já armazenado…
… a caminho dos 60… e com o castanheiro todo para fazer!

Nas minhas colónias o grande factor limitante à expressão do potencial de oviposição de rainha é um ninho parcialmente bloqueado… com mel ou pólen, ou os dois em conjunto. Não se verificando este bloqueio, os mais de 3500 alvéolos por face de lâmina de cera (langstroth ou lusitana) são suficientes para as minhas jovens rainhas, expressarem devidamente o seu vigor. A utilização do “ninho infinito”, como já o utilizei inúmeras vezes, mostraram-me vezes e vezes, que as minhas rainhas, assim como as rainhas de criadores profissionais, não precisavam mais que 7 a 8 quadros bastante desbloqueados para completarem um ciclo de 21 dias de postura.

Com 7 a 8 quadros no ninho com este padrão, para elas é suficiente e, portanto, para mim também, que remédio!

Falta fazer este disclaimer: qualquer semelhança das minhas observações, nas minhas colmeias, com as observações nas colmeias de qualquer companheiro de lide, é mera coincidência. Digo isto porque não me recordo de ouvir algum apicultor no nosso país referir que o ninho das suas langstroth ou lusitana é suficiente para albergar o ritmo/quantidade de oviposição das suas rainhas. Mais uma vez me encontro a ver coisas que mais ninguém vê!!! Como hoje quando parei para almoçar eram 14, 15h, e já tinha 8h de trabalho no pêlo, tudo isto pode muito bem ser fruto de uma alucinação por exaustão! Por isso vou fazendo um registo fotográfico porque, tanto quanto é do meu conhecimento, os “smartphones” não sofrem de alucinações. Ficava mais um pouco, mas tenho de ir a um outro apiário ainda hoje. Bom trabalho para todos… e não bloqueiem com os disparates que vou vendo!

agir de acordo com o abelhês

Hoje eram 9.00h, de acordo com o relógio da torre, quando arranquei para o meu apiário a 900 m de altitude. O objectivo principal era fazer a prevenção e controlo da enxameação, porque é por lá que agora “as coisas estão mais quentes”. Dado as condições climatéricas relativamente atípicas do ano o período propício à enxameação iniciou-se mais tarde e está, naturalmente, a prolongar-se um pouco para lá da época habitual. Para além desta razão de natureza racional, é também um apiário que gosto bastante de frequentar por ser o único num terreno meu, por ter sido aqui que instalei o meu primeiro apiário, faz quase 11 anos, e porque é deveras magnífica a vista quando levanto o olhar para o horizonte e contemplo a plantação de diversas árvores que o meu saudoso pai lá fez.

Durante o maneio das colónias deparei-me, em 3 delas, com três situações idênticas, estavam a construir mestreiros, mas com significados diferentes, isto pelo menos de acordo com o meu domínio actual do abelhês. É uma língua que pressupõe alguns pré-requisitos (experiência e leituras) e em simultâneo um espirito livre que esteja disposto a deixar fluir o melhor possível a experiência actual, integrá-la no já aprendido ou, pelo contrário, questionar esse “já aprendido”, para submergir mais e melhor no “falar” daquelas abelhas, naquele momento e naquele local. Admito pacificamente que haja aspectos universais desta linguagem, mas nem tudo é igual em todos os locais, e é, quantas vezes nas nuances, nos detalhes do “abelhês” regional, o local onde vou encontrar Deus e o Diabo.

Constatei e decidi que o melhor a fazer era nada fazer!
Observei e decidi que o melhor a fazer era nada fazer!
Aqui o meu pequeno domínio do abelhês disse-me que era melhor fazer alguma coisa!
Sim a mãe andava ainda por lá… ali!
À falta de um núcleo foi para dentro de uma caixa de 10!
Com este padrão de postura dei por bem dispendido os cerca de 3 minutos que me levou a localizá-la!
O restante do enxame foi divido em dois, com recurso ao tabuleiro divisor, para evitar os garfos (o Vasco Correia Paixão e outros escrevem a palavra no masculino e não no feminino, e sigo essa escola).

Por volta das 13.ooh estava de regresso a casa com um incremento no meu património, correndo tudo bem, na ordem dos 250€. Sim, porque também vou fazendo estas contas. Ainda que não pareça, ainda sou um apicultor profissional, e esta componente financeira, com menos peso que no passado é verdade, continua a ter o seu peso.

Nota: uma questão final, que ainda não compreendi do abelhês: qual a vantagem evolutiva que as abelhas encontraram em continuar a enxamear após o primeiro enxame, em enxames cada vez mais pequenos (os garfos), uns atrás dos outros, condenados a enorme maioria deles ao insucesso?

gestão das novas colónias de 2020

Este ano direccionei um número significativo das minhas colónias para a produção de novos enxames (cerca de 70% das colónias). Como comercializei nos dois últimos um número importante de enxames, quer junto de amigos que conhecia pessoalmente, quer de amigos que fui conhecendo através deste blogue, e porque ainda tenho dois pedidos para entregar um número jeitoso de enxames nos próximos meses, tive que orientar a minha operação neste sentido.

Para dar seguimento ao compromisso de entregar estas colónias (modelo Langstroth), num dos apiários que tenho a uma cota de 600m, com capacidade para 100 colónias, e onde neste momento estão 87, iniciei relativamente cedo na época (tendo em conta as condições meteorológicas locais deste ano) os desdobramentos. As primeiras etapas consistiram na identificação das colónias que arrancaram melhor à saída do inverno, localizar as rainhas e colocá-las em núcleos com um ou dois quadros com criação e abelhas aderentes aos quais adicionei um quadro com reservas e fui alimentando com pasta açucarada enquanto necessário (neste local alimentar com proteína parece-me desnecessário desde há muitos anos, pela razão da entrada generosa de pólen a partir de meados de fevereiro). As colónias-mãe que foram orfanadas, ficaram no local com praticamente toda a população de abelhas e, sobretudo, com muitas abelhas novas, as condições necessárias e suficientes para criarem rainhas de emergência de grande qualidade. Em simultâneo, e em boa hora, decidi deixar esses núcleos no apiário, muitos deles em cima das próprias colmeias-mãe.

Imagem parcial do apiário onde se podem ver 4 núcleos, onde coloquei as rainhas-mãe, em cima das colmeias-mãe, colmeias que foram orfanadas há cerca de um mês e meio.
Núcleo com a rainha-mãe, formado a 18.04, em cima da colmeia-mãe, que a 14.o3 foi conformada à regra “não mais de 6”, em 18.04 foi orfanada, e hoje, 09.06 confirmei postura de qualidade da nova rainha.
Esta colónia com uma rainha nova e este padrão/compaticidade de postura, apresentava 9 quadros com criação. Não me vai deixar em pouco junto dos meus clientes!
Ah pobres rainhas de emergência!
Para uma rainha nova que se está a iniciar na tarefa, parece que nasceu ensinada. Não falha um alvéolo…
… de travessão a travessão!

Voltando à gestão… desde há cerca de 3 a 4 semanas tenho gerido este binómio, núcleo com a rainha-mãe e colónia-mãe orfanada, com base num princípio que é conhecido por “palmerização“, em homenagem ao grande apicultor e criador de rainhas norte-americano Michael Palmer, que popularizou a técnica. A tirar proveito das leituras que procuro fazer regularmente!

Um dos vários núcleos que “palmerizei” entre as 8.50h e 12.10h no dia de hoje.
São estes os quadros que prefiro “roubar” aos núcleos. Quadros com abelhas prestes a emergir nas próximas horas (ver jovem abelha a emergir do alvéolo).
Visão geral do quadro que introduzi na colmeia e que vai dar um bom empurrão à nova rainha.
Quadro com cera laminada que vai ocupar o espaço do quadro retirado. Dentro de 10 a 12 dias poderei voltar a palmerizar este núcleo, caso seja necessário.

introdução de rainhas virgens: fase 1

No passado dia 01.06, o meu amigo David Marques, tinha um lote de rainhas virgens a nascer, do qual retirou 5 para me oferecer. No dia 03.06 passei por sua casa lhe dar uma “cotovelada” (cumprimento higiénico em tempos da COVID 19), dar dois ou três dedos de conversa, e trazer as princesas para cima para as introduzir. Na parte da tarde, quando cheguei, não se via um palmo à frente da cara devido ao nevoeiro intenso no apiário onde pretendia recolher as abelhas e quadros para fazer os núcleos de introdução, tendo sido obrigado a adiar esta tarefa para o dia seguinte. Haja paciência que é a Natureza que dá ritmo ao tango que danço.

No dia seguinte, 04.06, com boas condições meteorológicas, lancei mãos à obra, e comecei por fazer uma selecção de 3 quadros com boas reservas e sem abelhas para colocar em cada um dos 5 núcleos onde iriam ser introduzidos os dois quadros restantes com as abelhas e alguma criação nos três estádios.

O passo seguinte foi seleccionar os 10 quadros (2 para cada um dos núcleos) com criação, retirados de diversas colónias, que foram em seguida colocados, sem abelhas, na caixa superior de 5 colónias com grade excluidora de rainhas (com a rainha na caixa inferior) para ali ficarem umas horas para serem cobertos por abelhas jovens.

Cada uma das 5 colónias dadoras de abelhas-ama recebeu 2 quadros com criação.

Passadas cerca de 6 horas, regressei aos dois apiários onde tinha feito esta preparação, para retirar os 10 quadros e os introduzir, 2 em cada um dos cinco núcleos, com as respectivas abelhas aderentes e mais umas quantas sacudidas de um quadro ou dois adjacente a estes.

Uma recomendação que os meus amigos criadores de rainhas e especialistas na introdução das mesmas me fazem é a de misturar abelhas de pelo menos duas colónias diferentes, para as baralhar no que respeita a feromonas, e aumentar assim a probabilidade da rainha virgem ser aceite. Há dois anos atrás, quando produzi cerca de 300 núcleos para os meus clientes, assim fiz, e correu bastante bem, com uma taxa de fecundação a rondar os 90%. E como em equipa que ganha não se mexe, voltei a seguir esta boa recomendação. Concluída a principal tarefa do dia, regressei a casa com os 5 núcleos que ficaram fechados nessa noite e em cima da carrinha, para na manhã seguinte serem levados para o apiário onde os vim a colocar, a cerca de 15 km de distância dos apiários onde foram recolhidas as abelhas.

Tendo começado por transportar núcleos e/ou colmeias no sentido longitudinal em relação à caixa da pick-up, mudei de opinião e passei, há já muitos anos atrás, a transportá-los no sentido transversal, como se vê na foto. Deste modo procuro evitar o balanceamento dos quadros provocados pelos movimentos laterais da carrinha quando saio ou entro nos caminhos rurais, já na proximidade dos apiários. Estas oscilações laterais são-me impossíveis de evitar por muito devagar que vá. Já as oscilações no sentido frontal, evito uma boa parte delas nas estradas com uma condução defensiva e com velocidade regrada para evitar travagens pesadas e bruscas. Mas como costumo dizer este é um daqueles assuntos em que 10 apicultores são capazes de ter 11 opiniões diferentes.

Nos próximos dias relatarei por aqui as fases seguintes do processo.

Duas notas finais:

  • nos anos em que produzi algumas dezenas e centenas de núcleos para os meus clientes, ainda que seguindo uma boa parte destes procedimentos, trabalhei de uma forma um pouco diferente para compatibilizar os objectivos a atingir com a gestão do tempo dedicada às tarefas. Agora a abordagem é mais “slow beekeeping”;
  • de forma concomitante com a tarefa principal, “construir” estes cinco núcleos, fiz o que faço habitualmente, de forma a cumprir uma filosofia base do meu trabalho nos apiários: aproveitar para com uma operação/tarefa atingir dois ou três ganhos para as colónias, logo para mim. Explicando esta filosofia com exemplos deste dia de trabalho: “palmerizei” uma vez mais diversos núcleos estabelecidos e muito povoados, de onde retirei a maioria do 10 quadros com criação que necessitei, avaliei a condição dos ninhos, em particular os ninhos das colónias com grelha excluidora, que continuam muito desbloqueados, retirei 15 quadros de reservas de ninhos mais bloqueados, que vieram sobretudo das colónias orfanadas e que já têm rainhas novas em postura e das colónias que ainda não têm mãe em postura. Nestas proveitei para lhes introduzir quadros com criação, um pouco mais mal-formados e/ou com criação de zângão, retirados das colónias em produção ou das colónias com excluidora.

alguns pormenores do maneio numa época de fluxo intenso de néctar

Depois de 3 dias passados a trabalhar as colmeias que possuo nos dois apiários a cotas de 600m, voltei, hoje, ao que está a 900m de altitude. Comecei um pouco antes das 9.00h e terminei pouco depois das 12.00h.

Um dos três apiários que estão instalados neste terreno. Neste momento tem 21 colónias para uma capacidade de 40 colónias.

Uma vez que neste apiário o período de enxameação reprodutiva vai, habitualmente, da segunda/terceira semana de abril até à primeira/segunda semana de junho e porque estou a fazer uma pequena experiência com as grelhas excluidoras de rainhas, resolvi voltar a “mergulhar” nos ninhos das 21 colmeias. Acabei também a colocar mais algumas meias-alças em cima de algumas. Nas 21 colónias encontrei uma enxameada, que já estava “sinalizada a vermelho” da última inspecção no passado dia 25.

Anotações de aspectos críticos no tecto da colmeia.

Como tinha “arrefecido” esta colónia há 4 dias atrás, o enxame primário não parece ter levado os 50-75% das abelhas habituais nestes eventos.

Ninho da colónia enxameada com uma quantidade muito apreciável de abelhas.

Dado que estava bem povoada optei por dividi-la. Para tal fiz um desdobramento vertical com recurso ao tabuleiro divisor.

Tabuleiro divisor utilizado.
Ninho original depois de dividido. Orientei o alvado/entrada no sentido contrário.
A entrada do tabuleiro divisor ficou virada para o lado da entrada original e as abelhas campeiras começaram de imediato a utilizar esta nova entrada e a povoar o ninho/divisão superior.

Nas colónias com grelha excluidora de rainhas não me apercebi do mais pequeno indício de preparação de enxameação.

Colónia do modelo Lusitana com grelha excluidora de rainhas.
Os ninhos estão repletos de quadros desbloqueados que permitem a expressão da qualidade das rainhas de minha produção. “Minha” é uma força de expressão, porque procuro o mais possível deixá-las fazer o que tão bem fazem há milhões de anos: as suas abelhas-mãe.

Entre os diversos argumentos negativos relativos à utilização de grelhas excluidoras sobressaem estes dois: promove a enxameação e funcionam como excluidoras do armazenamento do néctar nas caixas que lhes estão sobrepostas. Acerca do primeiro argumento o que posso dizer é que tenho dúvidas que assim tenha que ser e estou a fazer um teste particular. Conto apresentar os resultados quando tiver mais dados, dentro de uma semana ou duas. Relativamente ao segundo argumento posso afirmar que nas minhas colónias e com as minhas abelhas as excluidoras não funcionam como uma barreira ao armazenamento de néctar nas caixas que lhes estão sobrepostas.

Visão de pormenor de um quadro, retirado de uma caixa colocada sobre uma grelha excluidora, com o néctar recente a brilhar nos alvéolos do quadro.

E, finalmente, imagens da colocação de mais algumas meias-alças com cera puxada, que permitirá acomodar o néctar deste fluxo abundante das marcavalas.

Colocação da segunda meia-alça.
Correndo normalmente e bem estas três colónias poderão produzir entre 160-180 kgs de mel para o apicultor. Ao dia de hoje a primeira meia-alça está praticamente cheia, a marcavala existente no campo deverá dar para encher a segunda meia alça. Lá para a terceira semana de junho começará o fluxo do castanheiro que deverá permitir encher mais duas meias-alças (15 kgs x 4 = 60 kgs). Trabalho não falta, para elas e para mim.

dia mundial das abelhas, ao lado das abelhas

Hoje, no dia mundial das abelhas, levantei-me cedo e fui, pelo fresco, fazer o que mais e melhor me apetece fazer: estar como profissional (porque é a actividade que me põe o pão na mesa) a trabalhar as minhas colónias com uma atitude descomprimida e sem pressões económicas. Este contexto permite-me fazer algumas coisas de forma diferente do passado, ensaiar e testar algumas ideias e avaliar, com o melhor rigor que me é possível, os resultados alcançados.

Uma das tarefas no apiário que me preencheu estas horas mais frescas, na manhã de um dia que se prevê atingir 28ºC (e mesmo sem t-shirt por baixo do fato este calor faz-se sentir com alguma violência), foi dar seguimento ao que tinha iniciado há cerca de 4 semanas atrás (aqui descrito) e “palmerizar” um conjunto de núcleos. Basicamente, o maneio passou por transferir um ou dois quadros com criação dos núcleos onde coloquei as rainhas das colónias anteriormente orfanadas, para as colónias actualmente orfanadas. A intenção deste maneio visa alcançar 4 objectivos em simultâneo:

  • atrasar/arrefecer o crescimento das colónias nos núcleos, forma de prevenir a enxameação não reprodutiva, cuja causa principal e determinante é o excessivo confinamento da colónia. Este tipo de enxameação sucede o período da enxameação reprodutiva. Do ponto de vista do maneio, a enxameação não reprodutiva ocorre sobretudo por falta/atraso de maneio adequado por parte do apicultor. Já a enxameação reprodutiva pode suceder mesmo no caso de um maneio adequado do apicultor;
  • equilibrar os grupos etários/cohortes das abelhas nas colónias previamente orfanadas. Este equilíbrio visa fornecer às jovens rainhas já nascidas, e a iniciar postura, abelhas com a idade certa para “amamentar” as novas larvas que surgirão da sua postura;
  • fornecer quadros que ficarão desbloqueados imediatamente depois desta criação, hoje oferecida, emergir, e propiciar uma boa quantidade de alvéolos disponíveis para um novo ciclo de postura das jovens rainhas;
  • fortalecer estas novas colónias com mais abelhas, com o objectivo de estarem capazes de trabalhar as meladas do castanheiro e azinheira, que surgirão previsivelmente dentro de um mês e meio a dois meses.

Em baixo deixo o foto-filme do que me encantou fazer hoje com as minhas abelhas, no dia mundial das abelhas.

Núcleo onde coloquei, há cerca de 3 semanas atrás, a rainha da colónia orfanada, em baixo.
Foto de hoje da colónia orfanada há cerca de 3 a 4 semanas atrás.
Abertura de um espaço para colocar dois quadros com criação na colónia orfanada.
Quadros com criação retirados de um dos núcleos hoje trabalhados.
Foto de detalhe de um dos quadros com criação introduzidos numa das colónias orfanadas.
Quadro com cera laminada rígida, muito apreciada pelas abelhas, e mais resistente às elevadas temperaturas dos próximos dias.
Recolocação do núcleo em cima da colónia. Será levado para outro apiário assim que se confirme a presença de uma rainha nova em boa postura na colónia em baixo.

Neste dia, envio um abraço a todos os que gostam de passar umas horas junto das abelhas e/ou lhes reconhecem o importante serviço ecossistémico que prestam a todos nós.

tudo tem o seu tempo: colocação de grelhas excluidoras de rainhas

Entre os vários equipamentos de apicultura as grelhas excluidoras de rainhas é dos que suscita os debates mais acesos entre apicultores, com os seus defensores acérrimos e os seus detractores empedernidos. Mais uma vez, como noutros casos, a utilização que faço deste equipamento é pontual, não é sistemática, é casual, não é universal, é temporária, não é permanente. Utilizo este equipamento mais regularmente nas colónias com sobreninho, muito raramente em colónias com ninho e meias-alças; em colónias que serão divididas, ou que doarão abelhas, ou quadros com criação ou quadros com reservas; são colocadas preferencialmente após o período de enxameação reprodutiva e são tiradas no final do verão, senão antes. Em baixo deixo um foto-filme deste maneio realizado em várias colónias no dia de hoje.

Colónia do modelo Langstroth com ninho e sobreninho.
Separação do ninho e sobreninho.
Transferência da rainha (espero que sim) e dos quadros com criação aberta e operculada e maiores áreas de criação do sobreninho para o ninho. Este é um processo de inversão quadro-a-quadro.
Acomodados os 8 quadros com criação e mais dois quadros com reservas nas posições 1 e 10, chega a altura de colocar a grelha excluidora no topo do ninho (não procurei a rainha mas confio que tenha “viajado” nos quadros com criação mais recente para o ninho, onde pretendo que ela permaneça).
Colocação do sobreninho onde serão colocados os 10 quadros restantes.
Nas laterais coloco os quadros com reservas (pólen e néctar) e no centro coloco quadros com criação fechada que não tiveram lugar no ninho.
Configuração final da colmeia da base para o topo: ninho, grelha excluidora de rainhas, sobreninho (que poderá tornar-se numa alça meleira) e no topo meia-alça. Correndo tudo bem esta colónia nesta zona poderá produzir, sem qualquer favor, 50 a 60 kgs de mel .

colónias conformadas à regra “não mais de 6” produzem mel?

Dado o interesse que a “regra não mais de 6” suscitou em vários apicultores que me contactaram, questionando e procurando mais alguma informação, surgiu algumas vezes nestas conversas a questão: e estas colmeias assim trabalhadas produzem mel? Da minha experiência, que trabalho com os modelos Langstroth e Lusitana, a resposta sumária é sim (com as reversíveis em teoria poderá ser diferente, mas não tenho experiência directa que o confirme porque não trabalho com este modelo de colmeia). Mas vamos a alguns números para todos entendermos melhor a minha observação reiterada e a minha resposta sumária (apesar de a apicultura não ser uma ciência, é uma arte que se fundamenta por ex. nos números/matemática).

Lembro o que escrevi em 2017: Em quase todas as colmeias com 8 quadros de criação estou a retirar 2 quadros com criação e a colocar um quadro com cera laminada na posição 2 e um outro de meia-alça na posição 9.

Uma colónia com 8 quadros de criação à saída do inverno apresenta os 10 quadros do ninho bem cobertos de abelhas. Grosso modo temos 20 mil abelhas no ninho (2 mil por quadro).

Colónia com 9 a 10 quadros bem cobertos de abelhas (foto tirada a 18 de março do ano passado num apiário a 900 m de altitude, no início do fluxo da urgueira).

Tiro dois quadros deixando 6 quadros com áreas substanciais preenchidas por criação (operculada e não operculada). Destes 6 quadros vão nascer/emergir cerca de 30 mil abelhas, nos próximos 20 dias.

Um quadro langstroth ou lusitano tem cerca de 7 mil alvéolos, retirando dois mil para o arco de mel e pólen, nestas condições cada quadro, como o da foto em cima, vai dar cerca de 5 mil novas abelhas à colónia.

Segundo a lei de Farrar os quilogramas de mel produzidos são uma função quadrática do número de abelhas da colónia e duração e quantidade do fluxo de néctar. Trocando por miúdos, quer dizer o seguinte:

  • 20 mil abelhas produzem 4 kgs de mel para o apicultor (2 ao quadrado);
  • 30 mil abelhas produzem 9 kgs de mel para o apicultor (3 ao quadrado);
  • 40 mil abelhas produzem 16 kgs de mel para o apicultor (4 ao quadrado);
  • 50 mil abelhas produzem 25 kgs de mel para o apicultor (5 ao quadrado);
  • 60 mil abelhas produzem 36 kgs de mel para o apicultor (6 ao quadrado).

No caso da utilização da “regra não mais de 6” teremos uma média de 50 mil abelhas na colónia (as 20 mil do ninho e as 30 mil novas abelhas que se lhes juntarão). Por cada geração de abelhas (que medeia os 35 a 45 dias), e assim a duração e a quantidade do fluxo de néctar o permitam, estas colónias poderão produzir em média 25 kgs de mel.

Nota: Deu-me muito prazer ter lido há poucos dias atrás que Mark L. Winston, investigador canadiano que está entre os mais referenciados na literatura apícola, concluiu através dos seus trabalhos de campo que as abelhas tendem naturalmente a enxamear quando ocupam cerca de 90% da área disponível dos favos na cavidade/colmeia que habitam. Não andei muito longe da conclusão de Winston quando escrevi em 2017 “A análise do histórico das minhas colmeias tem-me mostrado que trabalhando com uma só caixa a ninho, existe uma correlação assinalável entre os 8 a 9 quadros de criação no ninho e o facto de as abelhas entrarem em modo de enxameação.”

as alterações climáticas: o caso da melada tardia do abeto francês

As alterações climáticas vêm somar-se aos problemas já “usuais” da apicultura: parasitismo por Varroa, fragmentação do território, poluição ambiental e declínio da biodiversidade floral. Por seu turno, o vespão asiático continua sua expansão por toda a Europa e aumentou esta lista.

Temos vindo a observar nos últimos anos uma mudança no perfil das estações, em grande parte promovida pela mudança climática (ou “aquecimento global”). Suas consequências são numerosas, especialmente para as plantas das quais a alimentação de nossas abelhas depende inteiramente. Ao interromper o acesso ao pólen e ao néctar, esse distúrbio influencia a saúde das colónias de abelhas e, portanto, aumenta as perdas no inverno. Altas temperaturas e outros extremos climáticos são elementos desfavoráveis, como indicado num estudo recente que encontrou uma ligação clara entre “clima mais quente e seco no ano anterior” e “maiores perdas de inverno”.

Uma melada tardia que fez mais mal do que bem

As perdas invernais de 2016-2017 parecem estar também associadas à excepcionalmente tardia melada de abeto/”sapin” neste ano, resultante de um clima alterado.

O sapin

Importa esclarecer que não é a melada de abeto que é prejudicial como tal, mas sim o período tardio em que chegou em 2016, que resultou numa dessincronia relativamente ao padrão e às necessidades habituais das abelhas nesta época do ano. As meladas clássicas de abetos vão de julho a setembro; a de 2016 iniciou-se em setembro e terminou em novembro.

As colmeias viram seus ninhos encherem-se de melada em detrimento da postura da rainha e da preciosa criação de outono. Isso levou aos riscos usuais da melada tardia: baixas populações de inverno; atraso na colocação dos tratamentos de luta contra o Varroa; risco de diarreia na primavera.

Este atraso da melada de “sapin”, levou mais de metade dos apicultores inquiridos a trataram as suas colónia mais tarde do que o habitual. 52% dos apicultores começaram tratamentos anti-varroa após o período recomendado de julho/agosto, o que é um erro no controlo da infestação, como têm confirmado os dados dos inquéritos dos últimos anos.

fonte: http://www.adage.adafrance.org/downloads/apiculture_bilan_enquetes_pertes_hivernales_grd-est_2017.pdf