o canibalismo, seus efeitos adversos e uma sugestão de maneio

Em abril deste ano foi publicado na revista científica Scientific Reports o artigo Pupal cannibalism by worker honey bees contributes to the spread of deformed wing virus, já referenciado aqui em fevereiro, antes da sua revisão. Volto nesta publicação, de forma sumária, ao seu conteúdo para apresentar uma sugestão de maneio.

Um vírus (VAD) que deixa as abelhas com asas atrofiadas e inúteis, abdómen inchado e cérebro lento antes de as matar aproveita-se de um dos hábitos dos polinizadores – a tendência de canibalizar a sua criação, descobriu um novo estudo.

O comportamento de canibalismo.

O vírus das asas deformadas (VAD) esconde-se no interior dos ácaros que parasitam as larvas e pupas das abelhas; as operárias são infectados quando se alimentam destas, concluiu recentemente uma equipe de pesquisadores.

Esta descoberta pode explicar a razão de o VAD se ter tornado muito mais catastrófico, muitas vezes levando ao colapso das colónias, em comparação com o passado. Esta pesquisa conclui que o aumento da virulência do VAD é devido, em parte, ao comportamento de canibalismo das abelhas.

fonte: https://www.livescience.com/virus-hijacks-bee-cannibalism.html

Sugestão de maneio: Uma maneira de interromper a reinfecção viral por meio da canibalização da criação é fazer um enxame nu, retirando toda a criação presente. As abelhas recuperam muito rapidamente num bom fluxo de néctar ou quando são alimentadas, tão rapidamente que, segundo alguns apicultores experimentados, elas não perdem terreno a longo prazo. Por alguma razão, percebendo que estão sem criação na nova configuração, elas vão empenhar-se quase freneticamente na construção de favos novos e criando novas abelhas a uma velocidade muito superior à que apresentavam no seu ninho estabelecido.

As abelhas, como nós, gostam de desafios, acreditam nas suas possibilidades e, a partir daí, agem tendo o céu como limite.

a transmissão do conhecimento tácito e o encontro de gerações

As organizações procuram com as ferramentas de “gestão do conhecimento”, que os seus empregados mais experientes de saída da empresa, por reforma ou mudança para outro local de trabalho, por exemplo, capturar o conhecimento tácito destes para o transmitir aos mais novos. Entre outras medidas, como o recurso a entrevistas, gravações do desempenho no terreno, umas das mais utilizadas passa por colocar o aprendiz ao lado do seu colega mais experiente acompanhando-o no desempenho da suas funções. Esta experiência visa dar oportunidade a que um conjunto de detalhes do modo de fazer, do momento de o fazer e do contexto em que os fazer, não escritos e capturados nos manuais dos descritivos de funções e de procedimentos, sejam apreendidos pela observação “natural”, em local, pelo aprendiz.

Vem isto a propósito da mais recente visita do meu amigo Marcelo Murta, que me acompanhou e ajudou na realização de diversas operações de maneio em dois dos meus apiários. Tendo o Marcelo lido boa parte do que escrevo no blog, o local onde verto o meu conhecimento explícito, achei por bem que viesse ver como trabalho, para que pudesse aceder a uma parcela do conhecimento tácito que uso no maneio das colónias e das diversas componentes que o envolvem.

O Marcelo Murta à minha esquerda.

Para terminar o Marcelo, que tem idade para ser meu filho, também partilhou comigo os seus conhecimentos, opiniões e sugestões. Julgo que tal se originou na boa relação que temos os dois, por não o oprimir com as minhas opções e narrativas, por me manter disponível e receptivo aos seus contributos e saberes.

O encontro de gerações não sendo uma impossibilidade metafísica, exige uma escuta atenta, uma apreciação justa, uma atitude equilibrada de ambas as partes. Relevam-se os pontos comuns e analisam-se tranquilamente as divergências. Assim se estabelece uma relação serena e produtiva.

Que a diferença de idades seja um motivo para as diferentes gerações erguerem pontes, não muros. Que o conhecimento tácito flua como o néctar flui entre as plantas e as abelhas…

grelhas excluidoras: limitando as rainhas sem as limitar

Na utilização da técnica Doolittle para fazer desdobramentos tenho de confinar a rainha ao ninho por meio de uma grelha excluidora de rainhas.

Esta colónia, que habita uma colmeia do modelo Langstroth, recebeu o sobreninho a 21-03. A rainha foi confinada ao ninho em 27-03 por uma grelha excluidora, portanto há pouco mais de um mês.

Quando se menciona grelhas excluidoras de rainhas surge inexoravelmente a questão se limita ou não a postura das rainhas. Vamos por partes!

Esta é uma lâmina de cera que costumo utilizar nos ninhos das Langstroth. Tem 19,5 cm por 42 cm.

Ontem, depois do jantar comedido que fiz, decidi contar os alvéolos desta lâmina de cera.

Tinha 41 alvéolos na altura e 78 na largura. Multiplicando estes dois números fiquei a saber com rigor que estão presentes 3198 alvéolos em cada face desta lâmina de cera. Nas duas faces são 6396. Como incrusto a cera mais próximo do travessão do fundo dos quadros, estimei a altura com mais três filas de alvéolos, neste caso 44 em altura. Fazendo novamente as contas para esta alternativa obtenho um total de 3432 alvéolos em cada face, perto dos 7000 nas duas faces.

Outra questão que importa esclarecer: uma rainha põe exactamente quantos ovos por dia? Eu não sei! Julgo que varia de acordo com vários factores. Contudo na literatura são referidos valores médios a variarem entre 1000-2000 ovos/dia. Muito bem, se assim é 8 quadros do ninho bem desbloqueados dão espaço de sobra a uma rainha com uma postura média de 2000 ovos/dia durante 20 dias. Sim, porque ao fim do vigésimo dia começam a emergir as abelhas geradas a partir dos ovos postos 20-21 dias antes. E de novo esses alvéolos ficam disponíveis para um novo ciclo de postura — de facto o reverendo Langstroth não andava sob o efeito de psicotrópicos quando idealizou as dimensões dos quadros da sua colmeia.

Em conclusão, a grelha excluidora limita o espaço de postura de uma rainha ao ninho, mas não tem forçosamente de limitar a postura em si mesma. Bem desbloqueados os 10 quadros do ninho no modelo Langstroth — e também os da Lusitana, que têm um número de alvéolos muito próximo — não limitam a postura das minhas rainhas. No período de 20 dias permitem a oviposição de 40 mil ovos. Sabendo que a população máxima de uma colónia iberisiensis ronda as 45 mil abelhas, parece-me que não é “contra-natura” a utilização da grelha excluidora nas condições que descrevo. Não noto, nestas colónias, atraso nenhum no seu desenvolvimento.

Tirei umas fotos para me convencer que também não ando sob o efeito de psicotrópicos quando trabalho nos meus apiários — desde que anteontem uma raposa se aproximou de mim, a menos de 10 metros, enquanto eu trabalhava silenciosamente no meu apiário como é meu hábito, e ambos ficámos admirados de nos vermos ali tão inesperadamente próximos, que já não sei aos certo se o que vejo existe ou se vejo o que quero ver. Se calhar é um pouco das duas coisas!

Quadros do ninho da colónia 1, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 2, com rainha confinada ao ninho.
Quadros do ninho da colónia 3, com rainha confinada ao ninho.

Mas como a apicultura é feita de imprevistos e de singularidades, se alguém desejar ensaiar não deixe de ir fazendo as suas observações e os ajustamentos que achar adequados. Nem sempre tudo sai como o planeado!

Como não saiu como planeado o meu primeiro ensaio na utilização da técnica de translarve.

A minha amiga Filipa Almeida e os meus amigos David Marques, João Gomes e Francisco Rogão já me deram umas dicas preciosas para evitar este colossal fracasso na próxima vez que tentar de novo.

os garfos ou o caso da colónia que ficou para trás

Com os dias a sucederem-se numa miscelânea de aguaceiros, sol, chuva, alguns mais frescos e outros um pouco mais quentes, as abelhas andam a 200 à hora. Eu vou procurando dar resposta a esta vertigem pois a idade, a saúde e a vontade permitem-me trabalhar a bom ritmo. Depois do dia de anteontem, em que não parei para ver este por do sol — mas a Filipa Almeida viu por mim! —, ontem as tarefas a realizar exigiram-me que o nascer do dia me fosse encontrar já no apiário.

Apesar de começar cedo, as horas e os dias passam tão ligeiros que há sempre alguma coisa a ficar para trás. Neste caso foi uma colmeia, que por ter o estrado estragado no dia de ser transumada com as outras para uma cota cerca de 300m mais baixa, acabou por se manter solitariamente no apiário onde estava. E tornou-se num daqueles projectos “amanhã tenho de a ir buscar”, só que o amanhã demorou mais de um mês a chegar e, durante esse mês, o seu maneio foi nenhum.

O estado do estrado. A colónia que vão ver em baixo passou um dos invernos mais frios que tenho memória, numa das zonas mais frias do país, nesta casa esburacada. Quando me dizem que os enxames de A, B ou C morreram de frio… tenham paciência pela minha falta de paciência para essa conversa..
Visão geral, ontem, da colónia que passou o inverno numa casa pouco aconchegante, aos nossos olhos.

Vejamos a colónia quadro a quadro.

Vista do quadro 10.
Vista do quadro 8.
Pormenor do quadro 7.

Sim, esta colónia enxameou… o enxame primário foi meter-se numa caixa com 8 quadros, que tinha a 30 metros a aguardar utilização num outro assento. Assim sendo, e uma vez que até aqui a fortuna não permitiu que perdesse abelhas deste enxame, decidi fazer o necessário para não vir ainda a perder abelhas — sabendo que o processo de enxameação ainda só tinha jogado a sua primeira parte —, desta feita por via de um aspecto muito negligenciado ou até desconhecido por alguns de nós: os enxames secundários ou garfos.

Vista de frente da colmeia que continha a colónia que enxameou e quatro caixas-núcleo de transporte. Sim, dividi-a em quatro!
A primeira divisão que fiz.
Última divisão que fiz.

E foi só porque me apeteceu fazer 4 enxames de um que fiz quatro enxames de um? Não, a razão foi esta…

Virgem 1… se apurarem o olhar vão vê-la!
Virgem 2.
Virgem 3.
Aqui, se não me engano estão três visíveis!

Desfeito o mito que a primeira rainha a nascer mata as outras? Se as abelhas deixassem e se a primeira nascesse/emergisse com um desfasamento temporal que lhe permitisse localizar as irmãs-rivais — já vi várias vezes rainhas romperem os mestreiros e emergirem com um minuto e menos entre si —, vontade para o fazer não lhe faltaria. Mas vontade apenas não chega!

Uma colónia que enxameou e continua cheia que nem um ovo? Só se o enxame primário tiver saído com meia-dúzia de abelhas, pensarão alguns. Pois nem isso também corresponde à realidade, neste caso e, muito provavelmente, na grande maioria dos casos. O enxame primário foi enfiar-se numa caixa a 30 metros de distância e ocupava cerca de 5 a 6 quadros.

As tiras de apivar coloquei-as antes de saber a proveniência do enxame… coisa que vim a saber poucos minutos depois.

Em conclusão, que o caso já vai longo e tenho que descansar que amanhã o dia vai começar cedo de novo: o grande desperdiçador de abelhas não é apenas o enxame primário; os enxames secundários ou garfos são os maiores responsáveis por chegarmos a uma altura em que na nossa colónia resta pouco mais que as abelhas que cobrem um a dois quadros.

Não estou a dizer nada de novo, Doolittle já o disse há quase 120 anos: o processo de cisão natural do enxame não termina com a enxameação primária. Para não vermos a população daquela nossa colónia, que estava pujante duas semanas antes e a prometer cinco meias-alças de mel, reduzida a 1/10 do que foi, vejo duas alternativas apenas, cada uma em função do estado em que encontremos o enxame: no caso de as rainhas virgens não terem emergido ainda, há que destruir todos os mestreiros com excepção de um; no caso de as rainhas já terem emergido há que fazer múltiplas divisões ou eliminar todas as rainhas virgens com excepção de uma.

a cera e o cerieiro

Tenho falado com alguma regularidade da cera, como não poderia deixar de acontecer, pela sua importância para o bom desenvolvimento dos enxames. Nesta publicação antiga fiz algumas considerações acerca do que se supõe ser a influência do fluxo de néctar na conversão de abelhas não qualificadas em abelhas especializadas na produção de cera.

Com o passar dos anos tenho adquirido cada vez mais consciência da importância de ter cera puxada ao dispor para apoiar os enxames à saída do inverno (fevereiro e março).

No mês de abril e maio, com a conformação das minhas colónias à regra “não mais de seis“, as necessidades de cera laminada crescem exponencialmente.

Esta colónia foi conformada à regra “não mais de 6”. Os dois dois quadros novos com cera laminada, com a indicação JV21, foram colocados na semana passada.
Ontem verifiquei que estes quadros tinham sido bem aceites pelas abelhas que os puxaram de forma uniforme e pela rainha, que já os tinha aproveitado para a sua sementeira.

Sempre que experimento a moldagem de um novo companheiro/empresa cerieiro tenho por hábito marcar os quadros com uma sigla que o identifique, para depois verificar facilmente, com objectividade e rigor, a apreciação que as abelhas fizeram dessa cera.

A nova cera na caixa.
No momento da incrustação.
A identificação dos quadros com a cera laminada.

21 identifica o ano, JV identifica o cerieiro, o Apicultor José Vicente, residente ali próximo da bela Nisa, concelho onde comprei os meus primeiros enxames, em setembro de 2009.

a produção do terço final do inverno: como a potenciar

Por cá, nos dois apiários a 600 m de altitude, neste terço final do inverno — entre meados de fevereiro e até a primavera entrar — as colónias mais fortes crescem um a dois quadros de abelhas por semana até atingirem o pico da sua população. Os factores desta aceleração repetem-se ano após ano: temperaturas máximas frequentemente entre os 14-20ºC, pólen abundante e de qualidade num campo farto, bom estado sanitário das colónias e rainhas de qualidade produzidas organicamente na época adequada — a da enxameação reprodutiva.

Este é o padrão da criação nas minhas colónias mais fortes nesta época — quadro Langtstroth (foto de 05-03).

O Pedro Miguel, um dos meus clientes com quem falo regularmente, tem o bom hábito de me fazer perguntas pertinentes e pragmáticas. Há poucos dias questionava-me acerca da razão de preferir colocar sobreninhos/alças nesta altura do ano em detrimento das meias-alças. A resposta sumária é porque neste período a principal produção das minhas colónias não é mel… a principal produção é abelhas— o fluxo de néctar é ainda fraco e serve apenas para o seu consumo. Neste período as colónias mais desenvolvidas produzem até 12 a 13 quadros de criação, considerando os modelos que uso. Ao colocar uma alça a servir de sobreninho atinjo melhor os dois propósitos principais do momento: a prevenção da enxameação e a produção de novos enxames. As meias-alças serão colocadas mais adiante, quando se iniciar o fluxo do rosmaninho neste território.

A outra questão que o Pedro me colocou tem a ver com os critérios que utilizo para escolher as colónias onde colocar os sobreninhos. Por regra escolho colónias com 7 ou mais quadros com criação.

Caso 1)

Esta colónia foi escolhida para colocar o sobreninho anteontem (05-03). Tinha 8 quadros com criação. O quadro em destaque estava na posição 2, do lado frio da colmeia.
Retirei este quadro do ninho por ter uma abóbada de mel fechada/completa (ver aqui a razão). Substitui-o pelo quadro vazio ao lado. Coloquei o quadro vazio na posição 8, do lado quente da colmeia.
Coloquei uma alça com quadros puxados sobre esta colmeia . O quadro que retirei do ninho coloquei-o ao centro na posição 6.

Caso 2)

Esta colónia foi escolhida para colocar o sobreninho anteontem (05-03). Tinha 7 quadros com criação. Não retirei quadro algum do ninho desta colónia.
Coloquei uma alça com quadros puxados sobre esta colmeia . O quadro marcado a verde vai servir de estimulante para criação de zângãos nestas colónias precoces.
Quadro de meia-alça com favo natural de zângão construído há dois anos abaixo do travessão inferior. Esteve armazenado em edifício e apresenta algum bolor. As abelhas limparão rapidamente este bolor, e espero que a rainha ali inicie postura no prazo de 10 dias.

Notas:

  • Sugiro esta publicação para aprofundamento da compreensão do ritmo de crescimento populacional de uma colónia nesta altura do ano.
  • Um agradecimento ao Pedro Miguel, não fosse a sua curiosidade e não teria feito esta publicação como a fiz.
  • Este trabalho no campo foi realizado entre as 11h00 e as 13h30. Depois de chegar a casa, comer qualquer coisa rapidamente, sentei-me à secretária e liguei o computador para assistir à primeira sessão on-line do Curso de Apicultura coordenado pelo Prof. Paulo Russo de Almeida, da UTAD. O Paulo há uns tempos atrás, sabendo meu interesse pelo processo de construção do conhecimento pelo método científico desafiou-me a assistir a esta primeira sessão onde iria abordar o tema. Já tive oportunidade de lhe agradecer o convite e volto a fazê-lo aqui. As cerca de 4 horas de sessão passaram a voar por diversas razões, das quais destaco estas: a excelente relação pedagógica que o Paulo estabelece —intercalando equilibradamente o método expositivo com o método interrogativo —; o rigor da linguagem utilizada lado a lado com o enorme conhecimento e domínio dos temas tanto no plano teórico como no plano prático; os espaços frequentes de diálogo que abre e o aproveitamento dos casos trazidos pelos formandos para os integrar devidamente nos conteúdos da sessão; o tempo ainda para as notas de humor que ajudam a fortalecer os vínculos relacionais entre todos. Entre outros aspectos, destaco estes. Termino dizendo que no âmbito da minha licenciatura e mestrado tive alguns muito bons professores. Não tive o Paulo como professor, mas gostaria de o ter tido. É de formação com esta qualidade que pensava quando fiz esta publicação.

quadros com cera puxada: um “must have” nesta época

Tendo estado cerca de 15 dias sem visitar as minhas colónias, por motivos que vão desde as fracas condições climatéricas, uma ida à clinica dentária e alguns compromissos familiares, estou a planear mentalmente o maneio que irei fazer, nesta semana que vai entrar, em parte das minhas colmeias.

Sabendo que as colónias começam a planear o comportamento enxameatório cerca de um mês antes da enxameação efectivamente se dar, as medidas de prevenção da enxameação devem ser iniciadas, mais semana menos semana, nesta época, isto no território onde tenho os apiários e com mais ênfase nos que se situam a 600 m de altitude.

Uma das formas mais eficaz e expedita de atrasar, diminuir ou mesmo eliminar o impulso de enxameação passa por fazer acreditar ao superorganismo, o enxame, que o ninho não está completamente utilizado, concluído, nem constringido. O apicultor pode através do maneio criar artificialmente um ninho “por acabar” e assim confundir o enxame, levando este a acreditar que ainda não estão reunidas as condições óptimas para levar a cabo a sua reprodução natural por enxameação.

O que deverá fazer o apicultor? Basicamente, remover a restrição das abóbadas/arcos de mel em redor das áreas de criação/postura. Uma das formas de alcançar este objectivo é colocar gradual e regularmente quadros vazios com cera puxada, ou quadros com cera laminada, no ninho/sobreninho ou meias-alças, durante a época de pré-enxameação — no meu território esta época inicia-se no final de fevereiro/início de março, com a criação de zângãos —e durante a época de enxameação.

Nesta altura do ano, em que as condições para puxar cera não estão todas reunidas, a minha opção passa por utilizar quadros com cera puxada para criar nas abelhas esta sensação de ninho inacabado. Estes quadros, um por semana, serão colocados ao lado do último quadro com criação, preferencialmente do lado quente da colmeia, ou logo a seguir ao quadro com pólen nos casos de enxames um pouco menos fortes. O meu pai há 11 anos atrás, quando comecei, ensinou-me a fazer este maneio, e chamava-lhe expandir o ninho ou abrir o ninho.

Colocar, nesta altura e no território que as minhas abelhas pisam, cera laminada é, na minha opinião, um erro (não me perguntem como o sei!). As abelhas não a vão puxar, servirá mais de muro para a rainha e abelhas, criando provavelmente uma sensação de maior constrangimento no enxame, precisamente aquilo que pretendo evitar. O mesmo se passa com a adição de meias-alças com cera laminada. Não tendo condições para puxar a cera, as abelhas não irão reconhecer aquele espaço como um espaço para expansão da criação e/ou um espaço para transferir parte do mel e néctar de forma a preservar o ninho de um bloqueamento. O espaço está lá aos olhos do apicultor, contudo aos olhos das abelhas não está.

Como não tenho a certeza absoluta da data em que as minhas abelhas vão começar a puxar cera opto por colocar a primeira meia-alça com cera puxada e o mesmo para os quadros no ninho/sobreninho. Mais adiante, quando as abelhas estiverem inequivocamente a puxar cera, iniciarei a colocação de quadros com cera laminada no ninho e/ou sobreninho e nas meias-alças. Até que essa época chegue, os quadros com cera puxada é um objecto que desejo muito possuir porque as minhas abelhas assim me o têm dito, como já diziam também as abelhas do meu velho Mestre.

Algumas meias-alças do modelo Langstroth, com quadros com cera puxada, armazenadas e disponíveis para serem colocadas sobre as colmeias tão cedo quanto o necessário.

must have: designa um objeto que muitas pessoas desejam possuir.

introdução de rainhas: a vantagem de colocar um quadro com criação aberta

No artigo Influence of brood pheromone on honey bee colony establishment and queen replacement (2021), R. Tarpy — um dos mais prolíficos investigadores na área das abelhas rainha — conclui que a aceitação de rainhas em pacotes de abelhas aumenta significativamente com a colocação de um quadro com criação aberta. No grupo de controle (grupo de colónias onde não se colocou um quadro com criação aberta), verificou-se a aceitação da rainha em 33,3% dos casos, considerando a sua rejeição nas primeiras 5 semanas, ou a sua substituição entre a 5ª e a 12ª semana após a introdução. No grupo experimental (grupo de colónias onde foi colocado um quadro com criação aberta) a aceitação das rainhas foi de 86,7%.

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2020.1867336

Larvas por opercular ou criação aberta.

Ainda que a experiência tenha sido realizada com pacotes de abelhas, acho que no processo de introdução de rainhas engaioladas em núcleos de abelhas, geralmente formados com dois quadros com reservas e dois ou três com criação, não perdemos nada, à luz destes dados, em acautelar que um destes quadros contenha um bom número de larvas por opercular.

Sobre outras orientações que visam aumentar a aceitação de rainhas introduzidas em gaiola, ver aqui.

as colónias mais fortes do apiário: projecções de maneio

Anteontem e ontem, tenho andado focado na suplementação das colónias com hidratos de carbono, na forma de pasta alimentar e, em alguns casos, coloco também um quadro ou dois com mel. Ontem esta tarefa permitiu-me, nos apiários a 600 m de altitude e com as temperaturas entre os 16-18ºC, ver um pouco mais profundamente algumas colónias, em particular as mais fortes. A publicação de hoje vai focar-se nestas colónias mais fortes e nas projecções de seu maneio neste período de final de inverno e início de primavera.

As colónias fortes e muito fortes, uma forma rápida de designar colónias com 8 ou mais quadros de abelhas e com 4 a 5 quadros com áreas expressivas de criação de novas abelhas, representam cerca de 20-25% do total de colónias neste momento — momento este em que, habitualmente, se inicia um forte fluxo de pólen neste território.

Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Lusitana. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Langstroth. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia forte, na configuração de ninho simples do modelo Langstroth.

Com alguns anitos de apicultura a tempo inteiro “no meu cinturão” mal seria se não tivesse aprendido uma coisa ou meia! Por exemplo, aprendi que deixando estas colónias evoluírem “naturalmente”, ao seu gosto, sem freios, pouco ou nenhum mel irão produzir em abril/maio. Isto porque, ainda antes da entrada do principal fluxo de néctar, uma boa parte delas já terão enxameado. Ainda assim, estas colónias são-me muito úteis nestes próximos 30-45 dias, em particular para efectuar os maneios de equalização (entre outras publicações sobre a equalização, esta é a mais recentemente publicada) e criação de novos núcleos populacionais. Cada coisa é para o que nasce, costuma dizer-se, e estas colónias que cresceram de forma temporã, serão preciosas para estes maneios que tanto aprecio realizar. Para produzir mel estão as outras, as que agora estão médias ou fracas e que estarão em “ponto de rebuçado” para daqui a 60 dias se afincarem na colecta do primeiro fluxo importante por cá.

Foto de ontem de um quadro de uma colónia forte do modelo Lusitana onde, para além da bonita mancha de criação de obreira, observo criação fechada de zângão. Desconfio que 30 a 40 dias após o inicio da criação de zângãos, a “mentalidade” desta colónia é a de que reuniu boa parte das condições para se cindir/reproduzir.
Foto de ontem de um quadro de um núcleo do modelo Langstroth, onde se pode ver pão-de-abelha recentemente ensilado.

Dado o acentuado e rápido crescimento que noto nas colónias, típico desta altura do ano, estou em crer que a proporção dos diversos aminoácidos presentes no pólen deste território deve estar próximo do perfil ideal e surge com a devida antecipação. Dado que nada mais faço para as estimular nutricionalmente — há vários anos que não utilizo alimentação líquida 1:1, nunca utilizei suplementação proteica, promotor L que tipo de eletrodoméstico é ? — que melhor explicação que a da qualidade do pólen que a Natureza tão generosa e atempadamente fornece?

No topo da fotografia vemos o segredo da estimulação das minhas colónias nas patitas da abelha. Mais ao centro… a mãe – já agora refiro que quando tiro uma foto de um quadro com criação tenho que ter a certeza que a mãe anda noutro quadro, e só tenho essa certeza vendo que ela anda nesse outro quadro, ou em alternativa vou ter que sacudir todas as abelhas do quadro que pretendo fotografar.

o frio e a mortalidade de colónias nos meus apiários

Este inverno caracterizou-se, até à data, por uma semana e meia com temperaturas anormalmente baixas um pouco por todo o lado do nosso território continental.

O fenómeno isolation-starvation (fome por isolamento) é frequente no inverno, quando os enxames têm poucas abelhas.

Como todos os anos, também este ano me morreram colónias de abelha neste período de inverno já decorrido. Até ao momento a percentagem de mortalidade é mais elevada que noutros invernos. Seria humano e expectável que culpasse o frio anormal daquela semana e meia pela morte destas colónias. Contudo este tipo de reflexão não promove um bom e completo entendimento do processo da morte das minhas colónias. E só o bom e completo entendimento me coloca no ponto de partida adequado para evitar que o próximo inverno, que deverá caracterizar-se novamente por tempo frio, me venha a matar tantas ou mais colónias.

Como em todos os fenómenos letais podemos e devemos distinguir os factores precipitantes e os factores predisponentes. Os primeiros dizem respeito aos factores mais imediatos e próximos do fenómeno letal e os segundos respeitam aos factores mais distantes que predispuseram o organismo para uma fragilidade e quebra de resistência e capacidade para responder à mais pequena adversidade ambiental, os factores precipitantes mencionados em cima.

Não tenho dúvida que a morte das minhas colónias nestas duas a três semanas tiveram no frio um factor precipitante. Contudo o frio, por si só, não mata uma colónia com um mínimo de dois a três quadros de abelhas saudáveis na minha zona, uma das mais frias do país. O frio sim precipita, isto é, antecipa a morte de colónias muito fracas, aquelas com 500 abelhas que mal cobrem a face de um quadro. Como não consigo controlar o frio que faz no inverno, a alternativa que tenho é controlar melhor a dimensão dos enxames que entram no inverno.

Esta alternativa passa pela adequada e atempada minimização dos factores predisponentes, habitualmente os mais decisivos na morte das colónias no período invernal. Sei para mim três coisas que me garantem uma mortalidade invernal muito baixa: os enxames entram tão mais fortes no inverno quanto mais eficaz tiver sido o tratamento contra a varroose aplicado no verão (um eventual tratamento de inverno não salva as abelhas de inverno, salva as abelhas da primavera); as reservas alimentares devem ser suficientes e de boa qualidade; a rainha, nova ou menos nova, deve apresentar vitalidade e estar em sintonia com os inputs que recebe do exterior por intermédio das suas filhas.

Num dos territórios mais frios do país nunca me morreu uma colónia por causa do frio. As causas primeiras — os factores predisponentes — foram outras, e boa parte delas vou encontrá-las no verão, nos dias quentes, não nos dias frios.