a produção do terço final do inverno: como a potenciar

Por cá, nos dois apiários a 600 m de altitude, neste terço final do inverno — entre meados de fevereiro e até a primavera entrar — as colónias mais fortes crescem um a dois quadros de abelhas por semana até atingirem o pico da sua população. Os factores desta aceleração repetem-se ano após ano: temperaturas máximas frequentemente entre os 14-20ºC, pólen abundante e de qualidade num campo farto, bom estado sanitário das colónias e rainhas de qualidade produzidas organicamente na época adequada — a da enxameação reprodutiva.

Este é o padrão da criação nas minhas colónias mais fortes nesta época — quadro Langtstroth (foto de 05-03).

O Pedro Miguel, um dos meus clientes com quem falo regularmente, tem o bom hábito de me fazer perguntas pertinentes e pragmáticas. Há poucos dias questionava-me acerca da razão de preferir colocar sobreninhos/alças nesta altura do ano em detrimento das meias-alças. A resposta sumária é porque neste período a principal produção das minhas colónias não é mel… a principal produção é abelhas— o fluxo de néctar é ainda fraco e serve apenas para o seu consumo. Neste período as colónias mais desenvolvidas produzem até 12 a 13 quadros de criação, considerando os modelos que uso. Ao colocar uma alça a servir de sobreninho atinjo melhor os dois propósitos principais do momento: a prevenção da enxameação e a produção de novos enxames. As meias-alças serão colocadas mais adiante, quando se iniciar o fluxo do rosmaninho neste território.

A outra questão que o Pedro me colocou tem a ver com os critérios que utilizo para escolher as colónias onde colocar os sobreninhos. Por regra escolho colónias com 7 ou mais quadros com criação.

Caso 1)

Esta colónia foi escolhida para colocar o sobreninho anteontem (05-03). Tinha 8 quadros com criação. O quadro em destaque estava na posição 2, do lado frio da colmeia.
Retirei este quadro do ninho por ter uma abóbada de mel fechada/completa (ver aqui a razão). Substitui-o pelo quadro vazio ao lado. Coloquei o quadro vazio na posição 8, do lado quente da colmeia.
Coloquei uma alça com quadros puxados sobre esta colmeia . O quadro que retirei do ninho coloquei-o ao centro na posição 6.

Caso 2)

Esta colónia foi escolhida para colocar o sobreninho anteontem (05-03). Tinha 7 quadros com criação. Não retirei quadro algum do ninho desta colónia.
Coloquei uma alça com quadros puxados sobre esta colmeia . O quadro marcado a verde vai servir de estimulante para criação de zângãos nestas colónias precoces.
Quadro de meia-alça com favo natural de zângão construído há dois anos abaixo do travessão inferior. Esteve armazenado em edifício e apresenta algum bolor. As abelhas limparão rapidamente este bolor, e espero que a rainha ali inicie postura no prazo de 10 dias.

Notas:

  • Sugiro esta publicação para aprofundamento da compreensão do ritmo de crescimento populacional de uma colónia nesta altura do ano.
  • Um agradecimento ao Pedro Miguel, não fosse a sua curiosidade e não teria feito esta publicação como a fiz.
  • Este trabalho no campo foi realizado entre as 11h00 e as 13h30. Depois de chegar a casa, comer qualquer coisa rapidamente, sentei-me à secretária e liguei o computador para assistir à primeira sessão on-line do Curso de Apicultura coordenado pelo Prof. Paulo Russo de Almeida, da UTAD. O Paulo há uns tempos atrás, sabendo meu interesse pelo processo de construção do conhecimento pelo método científico desafiou-me a assistir a esta primeira sessão onde iria abordar o tema. Já tive oportunidade de lhe agradecer o convite e volto a fazê-lo aqui. As cerca de 4 horas de sessão passaram a voar por diversas razões, das quais destaco estas: a excelente relação pedagógica que o Paulo estabelece —intercalando equilibradamente o método expositivo com o método interrogativo —; o rigor da linguagem utilizada lado a lado com o enorme conhecimento e domínio dos temas tanto no plano teórico como no plano prático; os espaços frequentes de diálogo que abre e o aproveitamento dos casos trazidos pelos formandos para os integrar devidamente nos conteúdos da sessão; o tempo ainda para as notas de humor que ajudam a fortalecer os vínculos relacionais entre todos. Entre outros aspectos, destaco estes. Termino dizendo que no âmbito da minha licenciatura e mestrado tive alguns muito bons professores. Não tive o Paulo como professor, mas gostaria de o ter tido. É de formação com esta qualidade que pensava quando fiz esta publicação.

quadros com cera puxada: um “must have” nesta época

Tendo estado cerca de 15 dias sem visitar as minhas colónias, por motivos que vão desde as fracas condições climatéricas, uma ida à clinica dentária e alguns compromissos familiares, estou a planear mentalmente o maneio que irei fazer, nesta semana que vai entrar, em parte das minhas colmeias.

Sabendo que as colónias começam a planear o comportamento enxameatório cerca de um mês antes da enxameação efectivamente se dar, as medidas de prevenção da enxameação devem ser iniciadas, mais semana menos semana, nesta época, isto no território onde tenho os apiários e com mais ênfase nos que se situam a 600 m de altitude.

Uma das formas mais eficaz e expedita de atrasar, diminuir ou mesmo eliminar o impulso de enxameação passa por fazer acreditar ao superorganismo, o enxame, que o ninho não está completamente utilizado, concluído, nem constringido. O apicultor pode através do maneio criar artificialmente um ninho “por acabar” e assim confundir o enxame, levando este a acreditar que ainda não estão reunidas as condições óptimas para levar a cabo a sua reprodução natural por enxameação.

O que deverá fazer o apicultor? Basicamente, remover a restrição das abóbadas/arcos de mel em redor das áreas de criação/postura. Uma das formas de alcançar este objectivo é colocar gradual e regularmente quadros vazios com cera puxada, ou quadros com cera laminada, no ninho/sobreninho ou meias-alças, durante a época de pré-enxameação — no meu território esta época inicia-se no final de fevereiro/início de março, com a criação de zângãos —e durante a época de enxameação.

Nesta altura do ano, em que as condições para puxar cera não estão todas reunidas, a minha opção passa por utilizar quadros com cera puxada para criar nas abelhas esta sensação de ninho inacabado. Estes quadros, um por semana, serão colocados ao lado do último quadro com criação, preferencialmente do lado quente da colmeia, ou logo a seguir ao quadro com pólen nos casos de enxames um pouco menos fortes. O meu pai há 11 anos atrás, quando comecei, ensinou-me a fazer este maneio, e chamava-lhe expandir o ninho ou abrir o ninho.

Colocar, nesta altura e no território que as minhas abelhas pisam, cera laminada é, na minha opinião, um erro (não me perguntem como o sei!). As abelhas não a vão puxar, servirá mais de muro para a rainha e abelhas, criando provavelmente uma sensação de maior constrangimento no enxame, precisamente aquilo que pretendo evitar. O mesmo se passa com a adição de meias-alças com cera laminada. Não tendo condições para puxar a cera, as abelhas não irão reconhecer aquele espaço como um espaço para expansão da criação e/ou um espaço para transferir parte do mel e néctar de forma a preservar o ninho de um bloqueamento. O espaço está lá aos olhos do apicultor, contudo aos olhos das abelhas não está.

Como não tenho a certeza absoluta da data em que as minhas abelhas vão começar a puxar cera opto por colocar a primeira meia-alça com cera puxada e o mesmo para os quadros no ninho/sobreninho. Mais adiante, quando as abelhas estiverem inequivocamente a puxar cera, iniciarei a colocação de quadros com cera laminada no ninho e/ou sobreninho e nas meias-alças. Até que essa época chegue, os quadros com cera puxada é um objecto que desejo muito possuir porque as minhas abelhas assim me o têm dito, como já diziam também as abelhas do meu velho Mestre.

Algumas meias-alças do modelo Langstroth, com quadros com cera puxada, armazenadas e disponíveis para serem colocadas sobre as colmeias tão cedo quanto o necessário.

must have: designa um objeto que muitas pessoas desejam possuir.

introdução de rainhas: a vantagem de colocar um quadro com criação aberta

No artigo Influence of brood pheromone on honey bee colony establishment and queen replacement (2021), R. Tarpy — um dos mais prolíficos investigadores na área das abelhas rainha — conclui que a aceitação de rainhas em pacotes de abelhas aumenta significativamente com a colocação de um quadro com criação aberta. No grupo de controle (grupo de colónias onde não se colocou um quadro com criação aberta), verificou-se a aceitação da rainha em 33,3% dos casos, considerando a sua rejeição nas primeiras 5 semanas, ou a sua substituição entre a 5ª e a 12ª semana após a introdução. No grupo experimental (grupo de colónias onde foi colocado um quadro com criação aberta) a aceitação das rainhas foi de 86,7%.

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2020.1867336

Larvas por opercular ou criação aberta.

Ainda que a experiência tenha sido realizada com pacotes de abelhas, acho que no processo de introdução de rainhas engaioladas em núcleos de abelhas, geralmente formados com dois quadros com reservas e dois ou três com criação, não perdemos nada, à luz destes dados, em acautelar que um destes quadros contenha um bom número de larvas por opercular.

Sobre outras orientações que visam aumentar a aceitação de rainhas introduzidas em gaiola, ver aqui.

as colónias mais fortes do apiário: projecções de maneio

Anteontem e ontem, tenho andado focado na suplementação das colónias com hidratos de carbono, na forma de pasta alimentar e, em alguns casos, coloco também um quadro ou dois com mel. Ontem esta tarefa permitiu-me, nos apiários a 600 m de altitude e com as temperaturas entre os 16-18ºC, ver um pouco mais profundamente algumas colónias, em particular as mais fortes. A publicação de hoje vai focar-se nestas colónias mais fortes e nas projecções de seu maneio neste período de final de inverno e início de primavera.

As colónias fortes e muito fortes, uma forma rápida de designar colónias com 8 ou mais quadros de abelhas e com 4 a 5 quadros com áreas expressivas de criação de novas abelhas, representam cerca de 20-25% do total de colónias neste momento — momento este em que, habitualmente, se inicia um forte fluxo de pólen neste território.

Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Lusitana. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Langstroth. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia forte, na configuração de ninho simples do modelo Langstroth.

Com alguns anitos de apicultura a tempo inteiro “no meu cinturão” mal seria se não tivesse aprendido uma coisa ou meia! Por exemplo, aprendi que deixando estas colónias evoluírem “naturalmente”, ao seu gosto, sem freios, pouco ou nenhum mel irão produzir em abril/maio. Isto porque, ainda antes da entrada do principal fluxo de néctar, uma boa parte delas já terão enxameado. Ainda assim, estas colónias são-me muito úteis nestes próximos 30-45 dias, em particular para efectuar os maneios de equalização (entre outras publicações sobre a equalização, esta é a mais recentemente publicada) e criação de novos núcleos populacionais. Cada coisa é para o que nasce, costuma dizer-se, e estas colónias que cresceram de forma temporã, serão preciosas para estes maneios que tanto aprecio realizar. Para produzir mel estão as outras, as que agora estão médias ou fracas e que estarão em “ponto de rebuçado” para daqui a 60 dias se afincarem na colecta do primeiro fluxo importante por cá.

Foto de ontem de um quadro de uma colónia forte do modelo Lusitana onde, para além da bonita mancha de criação de obreira, observo criação fechada de zângão. Desconfio que 30 a 40 dias após o inicio da criação de zângãos, a “mentalidade” desta colónia é a de que reuniu boa parte das condições para se cindir/reproduzir.
Foto de ontem de um quadro de um núcleo do modelo Langstroth, onde se pode ver pão-de-abelha recentemente ensilado.

Dado o acentuado e rápido crescimento que noto nas colónias, típico desta altura do ano, estou em crer que a proporção dos diversos aminoácidos presentes no pólen deste território deve estar próximo do perfil ideal e surge com a devida antecipação. Dado que nada mais faço para as estimular nutricionalmente — há vários anos que não utilizo alimentação líquida 1:1, nunca utilizei suplementação proteica, promotor L que tipo de eletrodoméstico é ? — que melhor explicação que a da qualidade do pólen que a Natureza tão generosa e atempadamente fornece?

No topo da fotografia vemos o segredo da estimulação das minhas colónias nas patitas da abelha. Mais ao centro… a mãe – já agora refiro que quando tiro uma foto de um quadro com criação tenho que ter a certeza que a mãe anda noutro quadro, e só tenho essa certeza vendo que ela anda nesse outro quadro, ou em alternativa vou ter que sacudir todas as abelhas do quadro que pretendo fotografar.

o frio e a mortalidade de colónias nos meus apiários

Este inverno caracterizou-se, até à data, por uma semana e meia com temperaturas anormalmente baixas um pouco por todo o lado do nosso território continental.

O fenómeno isolation-starvation (fome por isolamento) é frequente no inverno, quando os enxames têm poucas abelhas.

Como todos os anos, também este ano me morreram colónias de abelha neste período de inverno já decorrido. Até ao momento a percentagem de mortalidade é mais elevada que noutros invernos. Seria humano e expectável que culpasse o frio anormal daquela semana e meia pela morte destas colónias. Contudo este tipo de reflexão não promove um bom e completo entendimento do processo da morte das minhas colónias. E só o bom e completo entendimento me coloca no ponto de partida adequado para evitar que o próximo inverno, que deverá caracterizar-se novamente por tempo frio, me venha a matar tantas ou mais colónias.

Como em todos os fenómenos letais podemos e devemos distinguir os factores precipitantes e os factores predisponentes. Os primeiros dizem respeito aos factores mais imediatos e próximos do fenómeno letal e os segundos respeitam aos factores mais distantes que predispuseram o organismo para uma fragilidade e quebra de resistência e capacidade para responder à mais pequena adversidade ambiental, os factores precipitantes mencionados em cima.

Não tenho dúvida que a morte das minhas colónias nestas duas a três semanas tiveram no frio um factor precipitante. Contudo o frio, por si só, não mata uma colónia com um mínimo de dois a três quadros de abelhas saudáveis na minha zona, uma das mais frias do país. O frio sim precipita, isto é, antecipa a morte de colónias muito fracas, aquelas com 500 abelhas que mal cobrem a face de um quadro. Como não consigo controlar o frio que faz no inverno, a alternativa que tenho é controlar melhor a dimensão dos enxames que entram no inverno.

Esta alternativa passa pela adequada e atempada minimização dos factores predisponentes, habitualmente os mais decisivos na morte das colónias no período invernal. Sei para mim três coisas que me garantem uma mortalidade invernal muito baixa: os enxames entram tão mais fortes no inverno quanto mais eficaz tiver sido o tratamento contra a varroose aplicado no verão (um eventual tratamento de inverno não salva as abelhas de inverno, salva as abelhas da primavera); as reservas alimentares devem ser suficientes e de boa qualidade; a rainha, nova ou menos nova, deve apresentar vitalidade e estar em sintonia com os inputs que recebe do exterior por intermédio das suas filhas.

Num dos territórios mais frios do país nunca me morreu uma colónia por causa do frio. As causas primeiras — os factores predisponentes — foram outras, e boa parte delas vou encontrá-las no verão, nos dias quentes, não nos dias frios.

as lições retiradas dos relatórios apícolas dos EUA

Sou um leitor ávido e habitual de relatórios anuais publicados por algumas associações/institutos de apicultura, tendo já publicado um ou outro pelo interesse que encontro nos seus dados (ver por ex. aqui). Acho os relatórios extremamente didácticos pela visão macroscópica que me permitem elaborar, pelo sentido que dão às observações mais fragmentares que vou fazendo nos meus apiários e pelo reforço que dão a algumas das acções basilares no maneio das minhas colónias.

As observações demasiado fragmentares, sem a devida integração e comparação com dados de natureza mais global, são semelhantes ao “olhar de um boi para um palácio”!

Nas duas últimas newsletter (28/12/2020 e 05/01/2021) que recebi do Bee Informed (EUA) é apresentada, na primeira, a análise de vários especialistas regionais acerca das tendências encontradas nas operações apícolas “comerciais” (operações com mais de 500 colónias) e os resultados do Sentinel Apiary Program, na segunda.

Relativamente à primeira newsletter (28/12/2020) chamou-me a atenção a organização e a quantidade de trabalho realizado pelos diversos especialistas que acompanham as operações comerciais e transumância de colónias entre várias regiões, da qual podemos ver um vislumbre no esquema em baixo.

Mapa das regiões das equipes de transferência de tecnologia BIP. Os pontos amarelos representam a base de cada especialista de campo e os pontos laranja identificam os estados onde eles fornecem serviços de supervisão de colónias. As setas indicam os movimentos dos especialistas de campo à medida que seguem as migrações de colónias de abelhas dos apicultores “comerciais” dos EUA durante a temporada de apicultura.

Na Região Noroeste, Ben Sallmann, o especialista de campo dessa região apresenta o seguinte sumário, no qual revejo boa parte dos eventos meteorológicos no território dos meus apiários em 2020: “Em fevereiro passado (2020), as condições climáticas da Califórnia foram ideais para a produção de amêndoas, e as abelhas também tiveram acesso a uma quantidade maior de pastagem este ano em comparação com o anterior. Portanto, as colónias cresceram muito rapidamente e os apicultores constaram muita enxameação. Durante este período, o clima da região noroeste foi chuvoso e muitos destes enxames fracassaram na fecundação das novas rainhas [não tive esta experiência, julgo que em boa medida porque consegui adiar a enxameação para “fora” da época das chuvas, para lá de meados de maio para ser mais concreto]. Não surpreendentemente, os níveis de infestação pelo ácaro Varroa também aumentaram mais cedo este ano. A loque europeia foi menos prevalente em 2020 em comparação com 2019, mas foi observada em algumas das colónias utilizadas para polinizar mirtilos [não sei o que é loque europeia, felizmente] . O mesmo padrão também se verificou nas taxas de infecção por ascosferiose (cria de giz) [doença muito esporádica e rara nas minhas colónias]. Embora os dados do Nosema sejam difíceis de avaliar devido à redução nos testes do Nosema este ano, em geral, as amostras que foram analisadas mostraram contagens de esporos mais baixas em comparação com os dados de 2019 [ao longo dos anos não tenho notado colónias com problemas críticos de nosemose, felizmente]. Neste outono, os níveis regionais de Varroa aumentaram consideravelmente depois que as rainhas começaram a diminuir a sua postura e muitas dessas colónias continuaram a enfraquecer, mesmo após a aplicação de tratamentos de controle de Varroa [sim, este ano constatei o mesmo em cerca de 20% das colónias tratadas]. Por outro lado, observamos menos sintomas visíveis de infecções virais do que anteciparíamos com cargas de Varroa tão altas [vi sinais evidentes e intensos das infecções virais nos 20% das colónias referidas em cima]. No geral, os apicultores que realizaram um tratamento de Varroa no início do verão se saíram muito bem.” fonte: https://beeinformed.org/2020/12/28/the-bee-informed-partnership-field-specialists-report-on-2020-commercial-beekeeping-trends/

Da segunda newsletter (05/01/2021) com os resultados do Sentinel Apiary Program

Em 2020, apicultores com 76 apiários representando 394 colónias participaram no Programa Sentinela. O laboratório da Universidade de Maryland processou quase 2.000 amostras do programa durante a temporada para monitorar Varroa e Nosema! 

… quero enfatizar uma vez mais a importância crítica do mês de agosto para iniciar o segundo tratamento contra o ácaro varroa (ver mais aqui). Também nos EUA este mês adquire, em muitas regiões, a mesma importância para quem deseja controlar efectivamente e a tempo e horas o ácaro. No gráfico em baixo verifica-se que o limiar de 3% de infestação de abelhas adultas (demarcado pela linha tracejada) é ultrapassado no mês de agosto para a média nacional. Estes dados não me surpreendem; já há alguns anos leio relatos no Beesource, por parte dos apicultores mais experimentados, para a necessidade de controlar a varroa nos meses de julho e agosto.

No relatório detalhado podemos ler: “Detectámos Varroa em mais de 70% das amostras do Sentinel recebidas em 2020. A percentagem de amostras contendo Varroa aumentou ao longo da temporada. A partir dessas amostras positivas, a fração das que atingiram o valor limite de 3 ácaros por 100 abelhas também aumentou ao longo dos meses (linha tracejada).

fonte: https://beeinformed.org/2021/01/05/sentinel-apiary-program-2020-wrap-up-and-2021-sign-up/

perspectivando o novo ano apícola

Terminado 2020, um ano inesperado do ponto de vista da saúde pública, contudo relativamente normal no que respeita à minha actividade apícola — os diversos constrangimentos surgidos não alteraram de forma importante o trabalho que fui realizando ao longo do ano nos apiários — proponho-me nesta publicação elencar algumas linhas-de-força do que pretendo para o novo ano, enunciando o que pretendo modificar e aquilo que pretendo manter e até intensificar no maneio das colónias.

Em 2020 fui confrontado com uma taxa de insucesso no segundo tratamento anual contra a varroose, aqui relatada, que me impele a fazer algumas modificações na abordagem que pretendo fazer neste novo ano. O plano está gizado, escreverei sobre ele após a sua concretização e depois de avaliados os primeiros resultados.

Pretendo manter o maneio de prevenção e controlo da enxameação.

Finalmente, pretendo intensificar esta técnica de desdobramento.

Um novo ano com muita saúde para todos!

o que observo nas minhas abelhas, nos meus apiários, nos respectivos territórios…

Esta publicação vem a propósito das “verdades” apícolas que todos, sem excepção, transportamos dentro de nós, aplicamos no nosso maneio e, algumas vezes, desejamos convencer outros apicultores a aplicá-las, defendendo convicta e teimosamente que são o único e melhor caminho para uma prática apícola bem sustentada. Entre outros aspectos, esta atitude imperativa e impositiva, assumida por alguns apicultores, ainda que cheios de boa vontade na divulgação da sua “verdade universal” que lhes parece tão óbvia, esquece dois aspectos fundamentais:

  1. toda a apicultura é local. Para mim, isto quer dizer que apesar dos diferentes enxames de abelhas apresentarem uma vasta gama de comportamentos e necessidades bastante universal e semelhante, os momentos, épocas do ano, em que os apresentam pode diferir de local para local semanas ou até meses. Na minha opinião, um exemplo bastante elucidativo deste caso é o ciclo anual de desenvolvimento e declínio da população de uma colónia de abelhas, um aspecto básico para um maneio pertinente das colónias.
  1. sem um grupo de controlo que permita testar devidamente hipóteses explícitas e/ou implícitas — acerca das vantagens deste ou daquele tipo de maneio, desta ou daquela peça de equipamento, desta ou daquela opção para alimentar e nutrir as colónias, desta ou daquela… — as conclusões retiradas destas experiências “ingénuas” em rigor pouca ou nenhuma validade têm.

A este propósito chamo, uma vez mais, a atenção para as lacunas formativas no nosso país, ultrapassáveis com centros apícolas devidamente sustentados e orientados, onde as conclusões retiradas de experiências devidamente controladas com a nossa abelha autóctone e em territórios representativos da diversidade edafo-climática do todo continental e insular, serviriam de referência para as opções que os apicultores tomariam.

Será esta lacuna e ambição para a superar exclusiva do nosso tempo e do nosso país? O texto em baixo, com mais de um século, de um apicultor de nome Flint, do Michigan (EUA), recentemente trazido à luz por P.B. no fórum Bee-L, e respectivo comentário de Randy Oliver, ScientificBeekeeping.com, mostram que nem a lacuna é recente nem local, e a ambição de a superar não é exclusiva deste humilde escriba — que vai referindo com frequência que o que observa é nas suas abelhas, nos seus apiários, nos respectivos territórios — e que teme todos os dias que as suas opções de maneio sejam vistas como receitas universais e devidamente testadas. Que fique claro, uma vez mais, que não são nem uma coisa nem a outra. Quem deseje e procure “o receituário” este não é o local indicado para o encontrar.

Nem todo apicultor é “talhado” para ser um experimentador. É necessário uma pessoa com espírito judicioso, que esteja perfeitamente disposta, por assim dizer, a que uma experiência prove a verdade. Muitos de nós temos a tendência de primeiro tomar uma decisão e depois trabalhar e tentar provar aquilo em que já acreditamos. Esta atitude não vai responder ao necessário.

Um experimentador deve estar totalmente desinteressado nos resultados, isto é, estar disposto a que uma experiência teste ambos os lados da questão. Custa dinheiro, tempo e abelhas para experimentar. O apicultor médio não pode dar-se ao luxo de dispensar muitos destes recursos sem uma suposição razoável de que haverá um retorno em dinheiro. Se ele deseja experimentar, será confrontado com a pergunta, será que vale a pena? A menos que haja boas perspectivas de retorno em dinheiro, a motivação para experimentar será abandonada. Estes não são os únicos motivos pelos quais seria aconselhável ter apicultores competentes contratados pelo governo para se encarregarem dos apiários experimentais. A REVISÃO DOS APICULTORES. FLINT, MICHIGAN, 10 DE JULHO DE 1893.

fonte: Bee-L, P.B., 5 dezembro, 2020

Comentário/reposta de Randy Oliver:

Pouco mudou desde 1893:) É tão frustrante ouvir apicultor após apicultor dizer-me “testei esta e aquela coisa”, mas que não se preocupou em fazer um grupo de controle. Você não pode aprender sem um grupo de controle.” 

fonte: Bee-L, Randy Oliver, 5 dezembro, 2020, ScientificBeekeeping.com

o que conta mais para sobreviver ao frio

Vista panorâmica do território
das minhas colónias nos
últimos dias.

Nestes dias frios que as minhas colónias estão a passar no distrito da Guarda estou confiante que a mortalidade será uma vez mais inferior a 5%. Esta confiança advém, basicamente, de dois aspectos: na generalidade têm reservas suficientes para este período (10-12 kgs de mel no ninho) e um número de abelhas (mínimo de 4 quadros de abelhas) que lhes permite uma eficiente termorregulação do cacho invernal. Na preparação da invernagem a última intervenção de fundo que tenho por hábito fazer é transferir os enxames mais pequenos para caixas núcleo, de modo a aumentar a sua densidade, e alimentá-los com quadros com mel ou com pasta açucarada (fondant).

Enxame que sofreu o impacto do PMS e foi transferido em meados de setembro para uma caixa núcleo. Na última inspecção, a 20 de novembro, retirei um quadro com poucas reservas e substitui-o por um com boas reservas de mel claro sem melezitose (à direita).

Para sobreviver ao inverno as abelhas comportam-se como os pinguins imperadores na Antártida. Os pinguins não tentam aquecer todo o continente congelado, eles aquecem-se formando um aglomerado compacto, com os indivíduos externos formando uma camada isolante para os pinguins no interior. As abelhas agem de forma semelhante.

As abelhas aglomeram-se, formando um manto exterior (mantle) que minimiza a perda de calor gerado no núcleo do aglomerado de abelhas (core). Se a colónia tiver criação a temperatura no interior do núcleo de abelhas (cacho) estabiliza entre os 32-35ºC. Se a colónia não tiver criação para aquecer (broodless) as abelhas estabilizam a temperatura em redor dos 18ºC. Por este facto as colónias sem criação consomem poucas reserva neste período quando comparadas com colónias com criação nos dias mais frios. As rainhas apis iberiensis respondem bem neste período, parando a postura, ao contrário por exemplo da apis ligustica (abelha italiana) e/ou algumas linhas híbridas mal-adaptadas, que não param a postura nesta época do ano.

Na imagem térmica de um aglomerado de abelhas numa colmeia horizontal do tipo “top-bar”, é observável como muito pouco calor escapa do aglomerado, deixando a temperatura no espaço restante da colmeia aproximadamente igual à temperatura externa. Muitos estudos mostraram que o aglomerado é eficiente em reter o calor, e muito pouco escapa para a cavidade da colmeia.

Por estas razões não me preocupo em adicionar protecções térmicas, deste ou aquele tipo, às colmeias que albergam os meus enxames, num dos territórios do nosso país mais fustigado pelo frio. Como dizia, há 80 anos atrás, o grande apicultor e investigador Clayton Farrar “Se uma colónia sobrevive ao inverno em boas condições tal é mais determinado pelo grau do seu desenvolvimento nos meses antecedentes do que pelo tipo ou quantidade de proteção da colmeia. ”. Mesmo que vários apicultores adorem discutir a proteção das colmeias no inverno, e sintam que estão a fazer a diferença ao proteger a colmeia com esta ou aquela placa de poliestireno, a minha atenção centra-se na produção de enxames novos numa época do ano que lhes dá o tempo suficiente para se desenvolverem antes do inverno chegar, e centra-se também no tratamento eficaz e a tempo e horas do varroa. Como outros, defendo que a sobrevivência das colónias ao inverno depende muito pouco do que fizermos/adicionarmos à própria estrutura, e muito dependerá da saúde e dimensão da colónia, constituída por abelhas preciosas de inverno maravilhosamente adaptadas ao frio.

bob binnie: a equalização e a regra “não mais de 6” como ferramenta para a prevenção da enxameação

Neste vídeo, o apicultor norte-americano Bob Binnie refere “depois do trabalho de equalização terminado todas as colónias ficam com uma média de 6 quadros com criação” (aos 9’42”). Binnie publicou o vídeo em março de 2020.

Em abril de 2017, na publicação intitulada a regra “não mais de 6, já o humilde escriba deste blog pisava o mesmo terreno.