introdução de rainhas: a vantagem de colocar um quadro com criação aberta

No artigo Influence of brood pheromone on honey bee colony establishment and queen replacement (2021), R. Tarpy — um dos mais prolíficos investigadores na área das abelhas rainha — conclui que a aceitação de rainhas em pacotes de abelhas aumenta significativamente com a colocação de um quadro com criação aberta. No grupo de controle (grupo de colónias onde não se colocou um quadro com criação aberta), verificou-se a aceitação da rainha em 33,3% dos casos, considerando a sua rejeição nas primeiras 5 semanas, ou a sua substituição entre a 5ª e a 12ª semana após a introdução. No grupo experimental (grupo de colónias onde foi colocado um quadro com criação aberta) a aceitação das rainhas foi de 86,7%.

fonte: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00218839.2020.1867336

Larvas por opercular ou criação aberta.

Ainda que a experiência tenha sido realizada com pacotes de abelhas, acho que no processo de introdução de rainhas engaioladas em núcleos de abelhas, geralmente formados com dois quadros com reservas e dois ou três com criação, não perdemos nada, à luz destes dados, em acautelar que um destes quadros contenha um bom número de larvas por opercular.

Sobre outras orientações que visam aumentar a aceitação de rainhas introduzidas em gaiola, ver aqui.

as colónias mais fortes do apiário: projecções de maneio

Anteontem e ontem, tenho andado focado na suplementação das colónias com hidratos de carbono, na forma de pasta alimentar e, em alguns casos, coloco também um quadro ou dois com mel. Ontem esta tarefa permitiu-me, nos apiários a 600 m de altitude e com as temperaturas entre os 16-18ºC, ver um pouco mais profundamente algumas colónias, em particular as mais fortes. A publicação de hoje vai focar-se nestas colónias mais fortes e nas projecções de seu maneio neste período de final de inverno e início de primavera.

As colónias fortes e muito fortes, uma forma rápida de designar colónias com 8 ou mais quadros de abelhas e com 4 a 5 quadros com áreas expressivas de criação de novas abelhas, representam cerca de 20-25% do total de colónias neste momento — momento este em que, habitualmente, se inicia um forte fluxo de pólen neste território.

Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Lusitana. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia muito forte, na configuração de duplo ninho do modelo Langstroth. Passou o outono/inverno nesta configuração.
Foto de ontem de uma colónia forte, na configuração de ninho simples do modelo Langstroth.

Com alguns anitos de apicultura a tempo inteiro “no meu cinturão” mal seria se não tivesse aprendido uma coisa ou meia! Por exemplo, aprendi que deixando estas colónias evoluírem “naturalmente”, ao seu gosto, sem freios, pouco ou nenhum mel irão produzir em abril/maio. Isto porque, ainda antes da entrada do principal fluxo de néctar, uma boa parte delas já terão enxameado. Ainda assim, estas colónias são-me muito úteis nestes próximos 30-45 dias, em particular para efectuar os maneios de equalização (entre outras publicações sobre a equalização, esta é a mais recentemente publicada) e criação de novos núcleos populacionais. Cada coisa é para o que nasce, costuma dizer-se, e estas colónias que cresceram de forma temporã, serão preciosas para estes maneios que tanto aprecio realizar. Para produzir mel estão as outras, as que agora estão médias ou fracas e que estarão em “ponto de rebuçado” para daqui a 60 dias se afincarem na colecta do primeiro fluxo importante por cá.

Foto de ontem de um quadro de uma colónia forte do modelo Lusitana onde, para além da bonita mancha de criação de obreira, observo criação fechada de zângão. Desconfio que 30 a 40 dias após o inicio da criação de zângãos, a “mentalidade” desta colónia é a de que reuniu boa parte das condições para se cindir/reproduzir.
Foto de ontem de um quadro de um núcleo do modelo Langstroth, onde se pode ver pão-de-abelha recentemente ensilado.

Dado o acentuado e rápido crescimento que noto nas colónias, típico desta altura do ano, estou em crer que a proporção dos diversos aminoácidos presentes no pólen deste território deve estar próximo do perfil ideal e surge com a devida antecipação. Dado que nada mais faço para as estimular nutricionalmente — há vários anos que não utilizo alimentação líquida 1:1, nunca utilizei suplementação proteica, promotor L que tipo de eletrodoméstico é ? — que melhor explicação que a da qualidade do pólen que a Natureza tão generosa e atempadamente fornece?

No topo da fotografia vemos o segredo da estimulação das minhas colónias nas patitas da abelha. Mais ao centro… a mãe – já agora refiro que quando tiro uma foto de um quadro com criação tenho que ter a certeza que a mãe anda noutro quadro, e só tenho essa certeza vendo que ela anda nesse outro quadro, ou em alternativa vou ter que sacudir todas as abelhas do quadro que pretendo fotografar.

o frio e a mortalidade de colónias nos meus apiários

Este inverno caracterizou-se, até à data, por uma semana e meia com temperaturas anormalmente baixas um pouco por todo o lado do nosso território continental.

O fenómeno isolation-starvation (fome por isolamento) é frequente no inverno, quando os enxames têm poucas abelhas.

Como todos os anos, também este ano me morreram colónias de abelha neste período de inverno já decorrido. Até ao momento a percentagem de mortalidade é mais elevada que noutros invernos. Seria humano e expectável que culpasse o frio anormal daquela semana e meia pela morte destas colónias. Contudo este tipo de reflexão não promove um bom e completo entendimento do processo da morte das minhas colónias. E só o bom e completo entendimento me coloca no ponto de partida adequado para evitar que o próximo inverno, que deverá caracterizar-se novamente por tempo frio, me venha a matar tantas ou mais colónias.

Como em todos os fenómenos letais podemos e devemos distinguir os factores precipitantes e os factores predisponentes. Os primeiros dizem respeito aos factores mais imediatos e próximos do fenómeno letal e os segundos respeitam aos factores mais distantes que predispuseram o organismo para uma fragilidade e quebra de resistência e capacidade para responder à mais pequena adversidade ambiental, os factores precipitantes mencionados em cima.

Não tenho dúvida que a morte das minhas colónias nestas duas a três semanas tiveram no frio um factor precipitante. Contudo o frio, por si só, não mata uma colónia com um mínimo de dois a três quadros de abelhas saudáveis na minha zona, uma das mais frias do país. O frio sim precipita, isto é, antecipa a morte de colónias muito fracas, aquelas com 500 abelhas que mal cobrem a face de um quadro. Como não consigo controlar o frio que faz no inverno, a alternativa que tenho é controlar melhor a dimensão dos enxames que entram no inverno.

Esta alternativa passa pela adequada e atempada minimização dos factores predisponentes, habitualmente os mais decisivos na morte das colónias no período invernal. Sei para mim três coisas que me garantem uma mortalidade invernal muito baixa: os enxames entram tão mais fortes no inverno quanto mais eficaz tiver sido o tratamento contra a varroose aplicado no verão (um eventual tratamento de inverno não salva as abelhas de inverno, salva as abelhas da primavera); as reservas alimentares devem ser suficientes e de boa qualidade; a rainha, nova ou menos nova, deve apresentar vitalidade e estar em sintonia com os inputs que recebe do exterior por intermédio das suas filhas.

Num dos territórios mais frios do país nunca me morreu uma colónia por causa do frio. As causas primeiras — os factores predisponentes — foram outras, e boa parte delas vou encontrá-las no verão, nos dias quentes, não nos dias frios.

as lições retiradas dos relatórios apícolas dos EUA

Sou um leitor ávido e habitual de relatórios anuais publicados por algumas associações/institutos de apicultura, tendo já publicado um ou outro pelo interesse que encontro nos seus dados (ver por ex. aqui). Acho os relatórios extremamente didácticos pela visão macroscópica que me permitem elaborar, pelo sentido que dão às observações mais fragmentares que vou fazendo nos meus apiários e pelo reforço que dão a algumas das acções basilares no maneio das minhas colónias.

As observações demasiado fragmentares, sem a devida integração e comparação com dados de natureza mais global, são semelhantes ao “olhar de um boi para um palácio”!

Nas duas últimas newsletter (28/12/2020 e 05/01/2021) que recebi do Bee Informed (EUA) é apresentada, na primeira, a análise de vários especialistas regionais acerca das tendências encontradas nas operações apícolas “comerciais” (operações com mais de 500 colónias) e os resultados do Sentinel Apiary Program, na segunda.

Relativamente à primeira newsletter (28/12/2020) chamou-me a atenção a organização e a quantidade de trabalho realizado pelos diversos especialistas que acompanham as operações comerciais e transumância de colónias entre várias regiões, da qual podemos ver um vislumbre no esquema em baixo.

Mapa das regiões das equipes de transferência de tecnologia BIP. Os pontos amarelos representam a base de cada especialista de campo e os pontos laranja identificam os estados onde eles fornecem serviços de supervisão de colónias. As setas indicam os movimentos dos especialistas de campo à medida que seguem as migrações de colónias de abelhas dos apicultores “comerciais” dos EUA durante a temporada de apicultura.

Na Região Noroeste, Ben Sallmann, o especialista de campo dessa região apresenta o seguinte sumário, no qual revejo boa parte dos eventos meteorológicos no território dos meus apiários em 2020: “Em fevereiro passado (2020), as condições climáticas da Califórnia foram ideais para a produção de amêndoas, e as abelhas também tiveram acesso a uma quantidade maior de pastagem este ano em comparação com o anterior. Portanto, as colónias cresceram muito rapidamente e os apicultores constaram muita enxameação. Durante este período, o clima da região noroeste foi chuvoso e muitos destes enxames fracassaram na fecundação das novas rainhas [não tive esta experiência, julgo que em boa medida porque consegui adiar a enxameação para “fora” da época das chuvas, para lá de meados de maio para ser mais concreto]. Não surpreendentemente, os níveis de infestação pelo ácaro Varroa também aumentaram mais cedo este ano. A loque europeia foi menos prevalente em 2020 em comparação com 2019, mas foi observada em algumas das colónias utilizadas para polinizar mirtilos [não sei o que é loque europeia, felizmente] . O mesmo padrão também se verificou nas taxas de infecção por ascosferiose (cria de giz) [doença muito esporádica e rara nas minhas colónias]. Embora os dados do Nosema sejam difíceis de avaliar devido à redução nos testes do Nosema este ano, em geral, as amostras que foram analisadas mostraram contagens de esporos mais baixas em comparação com os dados de 2019 [ao longo dos anos não tenho notado colónias com problemas críticos de nosemose, felizmente]. Neste outono, os níveis regionais de Varroa aumentaram consideravelmente depois que as rainhas começaram a diminuir a sua postura e muitas dessas colónias continuaram a enfraquecer, mesmo após a aplicação de tratamentos de controle de Varroa [sim, este ano constatei o mesmo em cerca de 20% das colónias tratadas]. Por outro lado, observamos menos sintomas visíveis de infecções virais do que anteciparíamos com cargas de Varroa tão altas [vi sinais evidentes e intensos das infecções virais nos 20% das colónias referidas em cima]. No geral, os apicultores que realizaram um tratamento de Varroa no início do verão se saíram muito bem.” fonte: https://beeinformed.org/2020/12/28/the-bee-informed-partnership-field-specialists-report-on-2020-commercial-beekeeping-trends/

Da segunda newsletter (05/01/2021) com os resultados do Sentinel Apiary Program

Em 2020, apicultores com 76 apiários representando 394 colónias participaram no Programa Sentinela. O laboratório da Universidade de Maryland processou quase 2.000 amostras do programa durante a temporada para monitorar Varroa e Nosema! 

… quero enfatizar uma vez mais a importância crítica do mês de agosto para iniciar o segundo tratamento contra o ácaro varroa (ver mais aqui). Também nos EUA este mês adquire, em muitas regiões, a mesma importância para quem deseja controlar efectivamente e a tempo e horas o ácaro. No gráfico em baixo verifica-se que o limiar de 3% de infestação de abelhas adultas (demarcado pela linha tracejada) é ultrapassado no mês de agosto para a média nacional. Estes dados não me surpreendem; já há alguns anos leio relatos no Beesource, por parte dos apicultores mais experimentados, para a necessidade de controlar a varroa nos meses de julho e agosto.

No relatório detalhado podemos ler: “Detectámos Varroa em mais de 70% das amostras do Sentinel recebidas em 2020. A percentagem de amostras contendo Varroa aumentou ao longo da temporada. A partir dessas amostras positivas, a fração das que atingiram o valor limite de 3 ácaros por 100 abelhas também aumentou ao longo dos meses (linha tracejada).

fonte: https://beeinformed.org/2021/01/05/sentinel-apiary-program-2020-wrap-up-and-2021-sign-up/

perspectivando o novo ano apícola

Terminado 2020, um ano inesperado do ponto de vista da saúde pública, contudo relativamente normal no que respeita à minha actividade apícola — os diversos constrangimentos surgidos não alteraram de forma importante o trabalho que fui realizando ao longo do ano nos apiários — proponho-me nesta publicação elencar algumas linhas-de-força do que pretendo para o novo ano, enunciando o que pretendo modificar e aquilo que pretendo manter e até intensificar no maneio das colónias.

Em 2020 fui confrontado com uma taxa de insucesso no segundo tratamento anual contra a varroose, aqui relatada, que me impele a fazer algumas modificações na abordagem que pretendo fazer neste novo ano. O plano está gizado, escreverei sobre ele após a sua concretização e depois de avaliados os primeiros resultados.

Pretendo manter o maneio de prevenção e controlo da enxameação.

Finalmente, pretendo intensificar esta técnica de desdobramento.

Um novo ano com muita saúde para todos!

o que observo nas minhas abelhas, nos meus apiários, nos respectivos territórios…

Esta publicação vem a propósito das “verdades” apícolas que todos, sem excepção, transportamos dentro de nós, aplicamos no nosso maneio e, algumas vezes, desejamos convencer outros apicultores a aplicá-las, defendendo convicta e teimosamente que são o único e melhor caminho para uma prática apícola bem sustentada. Entre outros aspectos, esta atitude imperativa e impositiva, assumida por alguns apicultores, ainda que cheios de boa vontade na divulgação da sua “verdade universal” que lhes parece tão óbvia, esquece dois aspectos fundamentais:

  1. toda a apicultura é local. Para mim, isto quer dizer que apesar dos diferentes enxames de abelhas apresentarem uma vasta gama de comportamentos e necessidades bastante universal e semelhante, os momentos, épocas do ano, em que os apresentam pode diferir de local para local semanas ou até meses. Na minha opinião, um exemplo bastante elucidativo deste caso é o ciclo anual de desenvolvimento e declínio da população de uma colónia de abelhas, um aspecto básico para um maneio pertinente das colónias.
  1. sem um grupo de controlo que permita testar devidamente hipóteses explícitas e/ou implícitas — acerca das vantagens deste ou daquele tipo de maneio, desta ou daquela peça de equipamento, desta ou daquela opção para alimentar e nutrir as colónias, desta ou daquela… — as conclusões retiradas destas experiências “ingénuas” em rigor pouca ou nenhuma validade têm.

A este propósito chamo, uma vez mais, a atenção para as lacunas formativas no nosso país, ultrapassáveis com centros apícolas devidamente sustentados e orientados, onde as conclusões retiradas de experiências devidamente controladas com a nossa abelha autóctone e em territórios representativos da diversidade edafo-climática do todo continental e insular, serviriam de referência para as opções que os apicultores tomariam.

Será esta lacuna e ambição para a superar exclusiva do nosso tempo e do nosso país? O texto em baixo, com mais de um século, de um apicultor de nome Flint, do Michigan (EUA), recentemente trazido à luz por P.B. no fórum Bee-L, e respectivo comentário de Randy Oliver, ScientificBeekeeping.com, mostram que nem a lacuna é recente nem local, e a ambição de a superar não é exclusiva deste humilde escriba — que vai referindo com frequência que o que observa é nas suas abelhas, nos seus apiários, nos respectivos territórios — e que teme todos os dias que as suas opções de maneio sejam vistas como receitas universais e devidamente testadas. Que fique claro, uma vez mais, que não são nem uma coisa nem a outra. Quem deseje e procure “o receituário” este não é o local indicado para o encontrar.

Nem todo apicultor é “talhado” para ser um experimentador. É necessário uma pessoa com espírito judicioso, que esteja perfeitamente disposta, por assim dizer, a que uma experiência prove a verdade. Muitos de nós temos a tendência de primeiro tomar uma decisão e depois trabalhar e tentar provar aquilo em que já acreditamos. Esta atitude não vai responder ao necessário.

Um experimentador deve estar totalmente desinteressado nos resultados, isto é, estar disposto a que uma experiência teste ambos os lados da questão. Custa dinheiro, tempo e abelhas para experimentar. O apicultor médio não pode dar-se ao luxo de dispensar muitos destes recursos sem uma suposição razoável de que haverá um retorno em dinheiro. Se ele deseja experimentar, será confrontado com a pergunta, será que vale a pena? A menos que haja boas perspectivas de retorno em dinheiro, a motivação para experimentar será abandonada. Estes não são os únicos motivos pelos quais seria aconselhável ter apicultores competentes contratados pelo governo para se encarregarem dos apiários experimentais. A REVISÃO DOS APICULTORES. FLINT, MICHIGAN, 10 DE JULHO DE 1893.

fonte: Bee-L, P.B., 5 dezembro, 2020

Comentário/reposta de Randy Oliver:

Pouco mudou desde 1893:) É tão frustrante ouvir apicultor após apicultor dizer-me “testei esta e aquela coisa”, mas que não se preocupou em fazer um grupo de controle. Você não pode aprender sem um grupo de controle.” 

fonte: Bee-L, Randy Oliver, 5 dezembro, 2020, ScientificBeekeeping.com

o que conta mais para sobreviver ao frio

Vista panorâmica do território
das minhas colónias nos
últimos dias.

Nestes dias frios que as minhas colónias estão a passar no distrito da Guarda estou confiante que a mortalidade será uma vez mais inferior a 5%. Esta confiança advém, basicamente, de dois aspectos: na generalidade têm reservas suficientes para este período (10-12 kgs de mel no ninho) e um número de abelhas (mínimo de 4 quadros de abelhas) que lhes permite uma eficiente termorregulação do cacho invernal. Na preparação da invernagem a última intervenção de fundo que tenho por hábito fazer é transferir os enxames mais pequenos para caixas núcleo, de modo a aumentar a sua densidade, e alimentá-los com quadros com mel ou com pasta açucarada (fondant).

Enxame que sofreu o impacto do PMS e foi transferido em meados de setembro para uma caixa núcleo. Na última inspecção, a 20 de novembro, retirei um quadro com poucas reservas e substitui-o por um com boas reservas de mel claro sem melezitose (à direita).

Para sobreviver ao inverno as abelhas comportam-se como os pinguins imperadores na Antártida. Os pinguins não tentam aquecer todo o continente congelado, eles aquecem-se formando um aglomerado compacto, com os indivíduos externos formando uma camada isolante para os pinguins no interior. As abelhas agem de forma semelhante.

As abelhas aglomeram-se, formando um manto exterior (mantle) que minimiza a perda de calor gerado no núcleo do aglomerado de abelhas (core). Se a colónia tiver criação a temperatura no interior do núcleo de abelhas (cacho) estabiliza entre os 32-35ºC. Se a colónia não tiver criação para aquecer (broodless) as abelhas estabilizam a temperatura em redor dos 18ºC. Por este facto as colónias sem criação consomem poucas reserva neste período quando comparadas com colónias com criação nos dias mais frios. As rainhas apis iberiensis respondem bem neste período, parando a postura, ao contrário por exemplo da apis ligustica (abelha italiana) e/ou algumas linhas híbridas mal-adaptadas, que não param a postura nesta época do ano.

Na imagem térmica de um aglomerado de abelhas numa colmeia horizontal do tipo “top-bar”, é observável como muito pouco calor escapa do aglomerado, deixando a temperatura no espaço restante da colmeia aproximadamente igual à temperatura externa. Muitos estudos mostraram que o aglomerado é eficiente em reter o calor, e muito pouco escapa para a cavidade da colmeia.

Por estas razões não me preocupo em adicionar protecções térmicas, deste ou aquele tipo, às colmeias que albergam os meus enxames, num dos territórios do nosso país mais fustigado pelo frio. Como dizia, há 80 anos atrás, o grande apicultor e investigador Clayton Farrar “Se uma colónia sobrevive ao inverno em boas condições tal é mais determinado pelo grau do seu desenvolvimento nos meses antecedentes do que pelo tipo ou quantidade de proteção da colmeia. ”. Mesmo que vários apicultores adorem discutir a proteção das colmeias no inverno, e sintam que estão a fazer a diferença ao proteger a colmeia com esta ou aquela placa de poliestireno, a minha atenção centra-se na produção de enxames novos numa época do ano que lhes dá o tempo suficiente para se desenvolverem antes do inverno chegar, e centra-se também no tratamento eficaz e a tempo e horas do varroa. Como outros, defendo que a sobrevivência das colónias ao inverno depende muito pouco do que fizermos/adicionarmos à própria estrutura, e muito dependerá da saúde e dimensão da colónia, constituída por abelhas preciosas de inverno maravilhosamente adaptadas ao frio.

bob binnie: a equalização e a regra “não mais de 6” como ferramenta para a prevenção da enxameação

Neste vídeo, o apicultor norte-americano Bob Binnie refere “depois do trabalho de equalização terminado todas as colónias ficam com uma média de 6 quadros com criação” (aos 9’42”). Binnie publicou o vídeo em março de 2020.

Em abril de 2017, na publicação intitulada a regra “não mais de 6, já o humilde escriba deste blog pisava o mesmo terreno.

expandindo o apiário: o cruzamento da experiência de Bob Binnie com a minha

Há cerca de um ano atrás conheci Bob Binnie através das suas palestras virtuais e do seu canal no YouTube. Como alguém diz num comentário “Existem muitos especialistas com 2 ou 3 anos de apicultura ensinando no YouTube como lidar com as abelhas. Este não é um deles. É uma das poucas apresentações que assisti até ao fim e aproveitei cada minuto.”. Também para mim as palestras de Bob Binnie estão noutro patamar.

Bob Binnie e colaborador num dos seus apiários.

Neste vídeo do seu canal Bob Binnie apresenta a sua experiência de cerca de 40 anos no que respeita a alguns pontos da caminhada feita para expandir os seus apiários. Eu, com apenas 11 anos de experiência apícola, revejo-me e identifico-me com muito do que ali é descrito e aconselhado. Acho, de uma forma difícil de qualificar, que o meu percurso seguiu muitas das directrizes e cruzou-se inúmeras vezes com as experiências deste apicultor norte-americano, ainda que não as conhecesse na altura. Há coisas assim!

A palestra de Bob Binnie de março de 2019

Bob inicia a sua palestra sobre a justificação da expansão do(s) apiário(s) subordinando-a ao objectivo que queremos atingir. No meu caso em setembro e outubro de 2009 adquiri 50 colónias com o objectivo de passar a viver em exclusividade da apicultura. Larguei por completo a minha actividade profissional anterior e desde essa data passei a ocupar-me a tempo inteiro com as minhas abelhas.

De seguida pergunta quantas colónias os presentes desejam ter. No meu caso desejava atingir as 1000 colónias em cerca de 5 a 7 anos. Atingi as 700 passados 8 anos, mas teria chegado às mil e até ultrapassado este número caso não tivesse vendido inúmeras colónias ao longo dos anos.

Bob refere que tem 2500 colónias e que deseja baixar este número. De há dois anos para cá tenho reduzido significativamente o número das minhas colónias.

Refere que de há dois anos para cá “perdeu” 6 a 7 colaboradores experimentados e que ficou apenas ele e um colaborador experimentado para gerirem 2500 colónias. E, em razão desta situação, está a chegar atrasado às colónias para as tratar contra os ácaros varroa. A minha realidade difere neste aspecto, primeiro reduzi o número de colónias e só depois terminei a minha relação contratual com o meu empregado. Contudo, algumas vezes, também cheguei atrasado a algumas colónias para as tratar. Quem me segue com mais assiduidade e atenção sabe bem a importância que desde há anos dou à necessidade de fazer os tratamentos atempadamente. Parece-me que esta ideia começa a fazer o seu caminho na nossa comunidade apícola.

Bob alerta a sua audiência que não funciona passar de 5 a 10 colónias para 500 com um “estalar de dedos”. Infelizmente em Portugal e num passado recente as vozes e os estímulos iam num sentido contrário, e vários “jovens apicultores” sentiram o sabor amargo do fracasso, resultado de um projecto megalómano que tinha tudo para fracassar.

Aconselha a “crescer com as abelhas” e de forma gradual. Nos primeiros anos triplicou o número de colónias de ano para ano… de 8 para 25, de 25 para 75,… em 5 anos tinha 500 colónias. No meu caso das primeiras 50 passei para as 90, e no ano seguinte tinha 170,… e passados 5 anos tinha cerca de 450. Crescemos ambos com um saber acumulado de ano para ano que nos permitiu gerir eficazmente o número crescente de colónias de um ano para o outro.

Voltarei a esta palestra e, por agora, termino com esta afirmação de Bob Binnie: “As competências que são adquiridas com a experiência são a “arte” da apicultura. A apicultura é 50% ciência e 50% arte. A arte é o desconhecido, a arte é a forma de fazermos as coisas, arte é como trabalhamos as abelhas, a arte vai crescer durante o percurso, caso contrário falhamos.

tabuleiro divisor: fase final do maneio

Hoje, entre outras tarefas, transferi alguns dos últimos enxames produzidos este ano com recurso ao tabuleiro divisor para caixas-núcleo ou caixas-colmeia. Procuro sempre colocar estes novos enxames em caixas completamente independentes ao longo da estação e antes da invernagem. Assim, evito as dificuldades na alimentação do enxame situado na caixa inferior e a eventual entrada de humidade excessiva por entre o tabuleiro divisor.

Configuração da colmeia: a colónia 1 habita o ninho inferior com entrada no sentido oposto ao visível; tabuleiro divisor com entrada no sentido visível a separar as duas colónias; e colónia 2 no ninho superior.
Vista interior da colónia 2 que ocupa cerca de 5 quadros.
Transferência dos 5 quadros para uma caixa-núcleo; a rainha foi transferida sobre este segundo quadro.
O tabuleiro divisor.
Vista interior da colónia 1 que habita a caixa inferior.
Vista do exterior logo após a transferência dos quadros para a caixa-núcleo, caixa que irá permanecer no local original durante uns dias, antes de ser transferida para outro apiário.
Vista exterior 15-20 minutos após a transferência.

Deixo um vídeo muito interessante do apicultor profissional Bob Binnie, que conjuntamente com sua esposa Suzette, possui e opera a Blue Ridge Honey Co. em Lakemont, Geórgia, uma operação apícola com 2.000 colónias. Bob Binnie também faz uso dos tabuleiros divisores e descreve aqui as vantagens que observa da sua utilização. Binnie foi eleito o “Apicultor do ano” pela Associação de Apicultores da Geórgia em 2003 e tem uma operação apícola com quase quatro décadas.