o crescimento acelerado da população de Varroa destructor em colónias de abelhas: uma nova explicação e uma barreira antiga

Nos últimos dois verões/outonos, tenho tido dificuldades em manter a taxa de infestação por varroose abaixo dos níveis que pretendo em cerca de 20-25% das minhas colónias. Já escrevi várias vezes sobre este fenómeno e sobre os factores que lhe estão provavelmente associados. Um dos factores, o ingresso de um número substancial de varroas transportadas pelas minhas abelhas, em consequência da pilhagem de colónias a colapsar por varroose em apiários vizinhos, é um deles.

Esta dificuldade no controle da infestação por varroa, eventualmente por um crescimento acelerado das populações de varroa nesta época do ano, é observável de forma transversal e está bem documentada em várias zonas do mundo: “Na realidade, a maioria dos apicultores precisa usar vários tratamentos contra a Varroa por ano para manter os níveis abaixo dos limites prejudiciais. Além disso, a monitorização longitudinal das cargas de Varroa em vários apiários nos EUA descobriu que mesmo após os tratamentos, as taxas de crescimento populacional de Varroa frequentemente excedem em muito os níveis previstos com base apenas nas taxas de reprodução de Varroa. Isso sugere que os ácaros estão imigrando para as colónias de uma fonte externa, provavelmente colónias próximas.

As duas hipóteses mais referidas para este crescimento acelerado das populações de varroa no final do verão/início do outono são: 1) a hipótese da “bomba de ácaros”; 2) a hipótese da “pilhagem” (ver aqui com mais profundidade).

Um estudo recente, com uma metodologia inovadora, vem fazer luz sobre os mecanismos mais específicos de transferência de ácaros inter-colónias, o impacto deste fenómeno no crescimento acelerado de populações de varroa em colónias receptoras devidamente tratadas, e uma reposta possível para gerir e mitigar os danos provocados por este influxo de varroas transferidas de colónias vizinhas.

Mapa com a localização dos apiários utilizados neste estudo: o círculo amarelo representa a localização do apiário com colónias não tratadas — as colónias “doadoras” de ácaros; os círculos a branco representam a localização dos apiários tratados com MAQS (ácido fórmico) e com taxas baixas de varroa — as colónias receptoras de ácaros.

Vejamos o enquadramento do estudo segundo os seus autores: “As abelhas vagueiam frequentemente entre as colónias, representando uma rota potencial para a transmissão de Varroa. A aglomeração de colónias nos apiários e em toda a paisagem envolvente resulta em infestações mais intensas de Varroa, pois as abelhas estão mais propensas a derivarem entre as colónias. As colónias também podem adquirir ácaros quando suas abelhas roubam outras colónias infestadas de ácaros e/ou quando abelhas não-natais derivam de outras colônias. A propensão das abelhas de entrar em colónias não natais aumenta quando as abelhas foram parasitadas por ácaros. As abelhas “ladras” também podem entrar em colónias não natais, e muitas vezes fracamente protegidas, a fim de roubar o mel durante os períodos de escassez de alimentos. O comportamento de roubo é especialmente prevalente no outono, quando as colónias com infestações de Varroa não controladas começam a entrar em colapso. Essas colónias enfraquecidas com cargas elevadas de Varroa são roubadas por colónias saudáveis ​​próximas, cujas abelhas ladras podem pegar ácaros e trazê-los de volta para sua própria colónia. O final do outono é um período crítico para os apicultores enquanto preparam suas abelhas para o inverno, garantindo que as reservas de alimentos sejam adequados, as cargas de ácaros sejam baixas e as colónias saudáveis35. A reinfestação de Varroa durante este período pode desfazer os efeitos de um manejo bem-sucedido. Compreender o mecanismo pelo qual ocorre essa transmissão inter-apiarios no final do outono é fundamental para o desenvolvimento de melhores práticas de maneio para ajudar a mitigar os danos à saúde da colónia.

Com a nova metodologia utilizada, foi possível aos investigadores identificar de forma objectiva a proveniência das abelhas das colónias “doadoras” e, ao mesmo tempo, identificar no grupo das colónias receptoras as “mais permissivas” à entrada e visita de abelhas das colónias “doadoras”.

Os dados recolhidos pelos investigadores são ao mesmo tempo surpreendentes e promissores. Apresento em baixo os que me parecem mais relevantes:

  • a hipótese do acelerado crescimento da população de varroa estar associado ao fenómeno “bomba de ácaros” não foi confirmado uma vez mais;
  • a hipótese do acelerado crescimento da população de varroa estar associado ao fenómeno “pilhagem” não surge como a mais preditiva, isto é, há outros mecanismos que explicam melhor o acelerado aumento da população de ácaros;
  • colónia receptoras onde foram colocadas redes de entrada para impedir a pilhagem (robbing screens) apresentaram um crescimento populacional de Varroa reduzido em comparação com colónias sem estas redes de entrada ou robbing screens;
  • os resultados sugerem a necessidade de uma hipótese alternativa à “bomba de ácaros” ou à hipótese da pilhagem. Os investigadores avançam com a hipótese denominada permissividade da colónia.
Exemplo de robbing screens, um equipamento muito utilizado nos EUA para diminuir os fenómenos de pilhagem.

As colónias mais permissivas, isto é as que permitem visitas mais frequentes de abelhas de outras colónias — abelhas não-natais —, tiveram maior crescimento populacional de ácaros do que as colónias menos permissivas. Neste estudo, as robbing screens foram usadas para contornar a permissividade natural de uma colónia, tornando as colónias receptoras menos acessíveis. Em boa medida a permissividade de uma colónia, está ligada à selecção de abelhas mais dóceis, menos defensivas. Os apicultores têm intencionalmente selecionado e propagado abelhas mais mansas desde há gerações. Vários estudos, no entanto, observaram que linhagens mais defensivas de abelhas melíferas apresentam frequentemente maior tolerância a Varroa. É possível que, ao criar abelhas mais brandas/dóceis, os apicultores tenham inadvertidamente tornado as colónias mais permissivas às visitas e, portanto, mais suscetíveis à imigração de ácaros.

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-86558-8.pdf?proof=t

A minha proposta para o novo ano: colocar redes de entrada (robbing screens) para ajudar as minhas colónias mais permissivas no controle das visitas de abelhas não-natais, ou colocar focinheiras ou redutores de alvado. O objectivo é alcançar dois benefícios com um só dispositivo: 1) diminuir os casos de colónias com mais susceptibilidade ao crescimento acelerado da população no período de fim de verão e início de outono; 2) impedir a entrada de velutinas nas minhas colónias nos meses de outono.

Nota: numa das mensagens que troquei com o Randy Oliver, em que lhe mencionei que este ano o tratamento principal de final de verão não foi eficaz em cerca de 20% das minhas colónias, ele surgiu com uma explicação que me pareceu curiosa na altura: o facto de haver colónias que funcionam como ímanes para as varroas. Quando li pela primeira vez este estudo, há cerca de um mês atrás, este conceito de colónias permissivas lembrou-me as palavras do Randy acerca das colónias ímanes. No que respeita a abelhas sempre fez e cada vez mais sentido faz considerar diferenças inter-zonais, inter-apiários e inter-colónias. As diferenças entre colónias, neste caso o potencial de infestação por varroas vindas do exterior, estão lá. Assim seja capaz de as considerar no meu maneio.

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