a utilização da focinheira para diminuir a pressão da velutina: o testemunho de um amigo apicultor

O voo estacionário da V. velutina nigrithorax em frente às colmeias provoca uma resposta comportamental nas nossas abelhas pouco adaptativa, que é conhecida como “paralisia de forrageamento/voo”. Para atenuar esta resposta, pouco funcional do ponto de vista da colónia, os apicultores utilizam um conjunto de dispositivos variados, entre outros, as “focinheiras” (do francês muselière). Estes dispositivos visam atenuar a pressão das velutinas à saída/entrada da colmeia, proteger as abelhas naqueles centímetros iniciais/finais de voo mais lento, ocultar em parte a sua saída/entrada, e encorajar um comportamento mais elevado de forrageamento, uma resposta mais adaptativa da colónia à pressão da velutina. Estes dispositivos aumentam a probabilidade de sobrevivâncias das colónias em mais 50%*.

A experiência do meu amigo Jorge Pino com este equipamento levou-me a solicitar-lhe que escrevesse umas linhas para aqui publicarmos. Ele aceitou de imediato o meu pedido, com a gentileza e solidariedade que o caracterizam, e enviou o texto em baixo.

A necessidade de defesa das colmeias de uma das pragas mais conhecidas na apicultura Ibérica, vai aguçando alguns engenhos e vamos percebendo ao longo do percurso, que para continuar a agir é necessário adaptarmo-nos e desenvolver novas abordagens ou melhorar as existentes, para ter como objectivo alcançar resultados satisfatórios e adequados no combate à vespa velutina, que depende do colectivo de apicultores, é um percurso que revela caminhos possíveis, amadurecimento, entender e interpretar os imensos desafios que se colocam. 

Com base nesse pressuposto evolutivo e o facto de estar inserido enquanto apicultor “Hobbista” no Parque Natural de Sintra / Cascais, zona de forte presença da vespa velutina, levou a que interiorizasse a premissa de implementar um plano, uma estratégia, talvez com etapas evolutivas e a devida resiliência, para a defesa das colmeias, e, a focinheira, (como lhes chama o André Gonçalo), de concepção simples e ao alcançe de todos com o devido engenho e algumas ferramentas, protegerá as colónias da invasão das vespas Velutinas e de outros possíveis predadores tais como ratos ou borboletas caveira, por exemplo, estas últimas inofensivas. A dupla rede de diâmetros de 16mm e 6mm, exterior e interior respectivamente, permite uma passagem rápida das abelhas do exterior para o interior e dificulta a transposição da velutina devido à sua envergadura em voo ser superior ao diâmetro da rede exterior de 16mm, enquanto que a rede interior de #6mm impede completamente a passagem da vespa velutina e desta penetrar nas colónias.

É claro e consensual que existem equipamentos similares, contudo o aspecto evolutivo deste, sobressai nos buracos concebidos de diâmetro de 7mm, para que, tanto zângãos como rainhas os possam transpor permitindo a permanência das focinheiras ao longo do ano sem a necessidade de as remover em períodos de fecundação. 

Vista frontal.
Vista lateral.
Vista do lado interior.
Alargamento da malha para permitir o transito de zângãos e rainhas.

Atente-se que não resolve o problema na totalidade nem refreia o ímpeto de predação, apenas defende as colónias, até porque, a vespa velutina acaba por adaptar a sua hostilidade predativa fazendo pressão no exterior, e, se as colónias estiverem menos fortes, acaba este, por ser um meio fisico de disuasão de invasão das mesmas, retardando ou evitando talvez, o ponto de não retorno das colónias. 

Estou certo que o estudo deste problema começa a dar alguns resultados noutras formas de combate, mas como diz o autor deste “blog” e inspirador de práticas coerentes, simples e equilibradas, até lá “O apicultor deverá ser o cuidador das abelhas” cuja missão é demasiado nobre para se furtar a essa condição.” 

* Nota: Nesta publicação retiro este excerto “Medimos a FR (falha no retorno das abelhas devido à predação de vespas) e PF (paralisia de forrageamento: paragem da atividade de voo em colmeias devido às vespas pairando em frente da entrada) e estimámos a probabilidade de mortalidade das colónias usando uma abordagem de modelagem mecanicista. A “protecção da entrada da colmeia” não reduziu a FR associada à vespa, mas reduziu drasticamente a PF. Além disso, a “protecção da entrada da colmeia” aumentou a probabilidade de sobrevivência de colónias stressadas por vespas até 51% em contexto de alta abundância de vespas asiáticas com base em simulações teóricas. Esses resultados sugerem que a instalação de “protecção da entrada da colmeia” pode atenuar o efeito prejudicial do vespão asiático nas abelhas europeias.”

3 comentários em “a utilização da focinheira para diminuir a pressão da velutina: o testemunho de um amigo apicultor”

  1. Eu, tenho alguma experiência em perceber o comportamento da vespa asiática (velutina), predadora intensiva das abelhas e vespas mineiras (principalmente) na minha área. Já denunciei seis ninhos, os quais foram destruídos. Eu quero deixar um alerta muito importante: as câmaras municipais, ou juntas de freguesia devem ter equipas preparadas para saber procurar os ninhos PORQUE SÓ ASSIM, poderá ser exterminada esta espécie predadora. O que vejo é uma inércia brutal da proteção Civil e dos municípios, principalmente na minha área, só estão a espera que o cidadão comum faça o trabalho.!

  2. Olá Eduardo!
    Como está?
    Este ano cobri o meu pequeno apiário com uma rede anti pássaros e penso que ajudou alguma coisa. Gostaria de saber a sua opinião sobre a possibilidade de cobrir o apiário com uma rede dessas de 6 mm e possivelmente utilizar outra mais larga, (usando o princípio da focinheira) com algum distanciamento da anterior. A minha ideia era fazer uma espécie de estufa que facilitasse o acesso do apicultor à colmeia e impedisse a entrada da vespa. A estrutura poderia ficar no apiário o ano todo e as redes só se colocariam quando houvesse bastante predação da vespa. Essa rede específica deve ser bastante cara, mas a longo prazo talvez fosse rentável. O que acha? Conhece alguém que já o tenha tentado?
    Cumprimentos e Obrigado por tudo o que nos ensina!

    1. Boa tarde, José Borges! Não conheço quem tenha optado exactamente pela solução com duas redes, tendo uma delas, a mais interior, uma malha de 6mm. Se desejar avançar deve avaliar a questão do trânsito de zângãos e rainhas pela malha de 6mm, na minha opinião. Tendo poucas colmeias acho que será uma boa solução para diminuir a paralisia de voo.

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