suplementação artificial de proteína: alguns dados experimentais

O pólen é a única fonte de proteínas das abelhas e desempenha um papel decisivo na criação de novas abelhas, bem como no desenvolvimento das glândulas nas operárias mais jovens. As abelhas suprem as suas necessidades de aminoácidos e minerais essenciais por meio do pólen. A sua ingestão é essencial para o desenvolvimento dos órgãos internos, em particular do tecido adiposo e das glândulas hipofaríngeas das abelhas.

Quadro com reservas de carbohidratos (mel) e proteína bruta (pão-de-abelha).

Os apicultores mais informados estão cientes que a criação de novas abelhas depende radicalmente do suprimento natural de pólen. Se nenhuma reserva de pólen estiver disponível nos favos e/ou se o campo não estiver a disponibilizar pólen a colónia diminui significativamente a criação, podendo esta ser interrompida.

Tendo estes aspectos em conta, alguns apicultores veteranos procuram, através da suplementação artificial de fontes de proteína (conhecidos como bifes proteicos), manter e/ou mesmo estimular a criação de abelhas novas em épocas de escassez. Vejamos se os dados trazidos por alguns estudos controlados (realizados na Suíça), confirmam esta expectativa.

Alimentação de pólen de primavera (Imdorf A., et al., 1988) 
Como às vezes há falta de pólen na primavera [Suiça], um conjunto de estudos foram realizados em 1986/87 para descobrir se a alimentação suplementar com pólen poderia acelerar o desenvolvimento da colónia nesta época do ano. Verificou-se que esta apenas levou a um aumento temporário na criação, mas não influenciou o desenvolvimento das colónias. Além disso, as diferenças observadas não foram estatisticamente significativas .

Alguns detalhes do desenho experimental e dos dados obtidos: na primavera de 1986 e 1987, dois grupos de 5 e 8 colónias, foram suplementados durante 5 semanas, do final de março ao início de maio, recebendo semanalmente 500 g de pasta de pólen (300 g de pólen de sua própria colheita e 200g água com açúcar 1: 1). De final de março ao final de maio, a população foi medida a cada três semanas (criação e abelhas adultas). Grupos de colónias semelhantes sem nenhuma suplementação serviram como controle.
Ao longo dos dois anos da experiência, foi observado um ligeiro aumento na criação de novas abelhas no início de abril. Três semanas depois nenhuma diferença foi observada na quantidade de criação de novas abelhas entre grupos. Nenhuma diferença entre os grupos foi observada durante e após a alimentação no desenvolvimento da população de abelhas.

Colónia suplementada artificialmente com um bife proteico.


Uns anos antes o mesmo investigador tinha avaliado o impacto da suplementação de pólen e de um substituto de pólen na criação de novas abelhas e no crescimento populacional noutra época do ano.

Alimentação de pólen entre meladas (Imdorf, A., et al., 1984)
Estudos realizados na Suíça com centenas de colónias de abelhas mostraram que o pico populacional é alcançado no final de junho ou início de julho e coincide com um período de baixo suprimento de pólen. Durante e após o fluxo de néctar da floresta/bosque, assiste-se a um rápido declínio na população de abelhas.
Em 1981 e 1982, os estudos focaram-se na possibilidade de desacelerar o declínio da população das colónias entre as meladas, suplementado-as com pólen e seus substitutos. Verificou-se que a criação e a expectativa de vida das abelhas não são influenciadas pela suplementação de pólen. A criação de novas abelhas nas colónias suplementadas com pólen não aumentou em comparação com as colónias não suplementadas. Da mesma forma, nenhuma extensão de vida foi observada. Em algumas colónias, o único efeito da suplementação foi a diminuição da colecta de pólen no exterior. Entretanto um aspecto muito negativo foi observado: uma infecção de cria de giz (ascosferiose) ocorreu em colónias alimentadas com pólen. Por esta razão, na América do Norte apenas pólen irradiado é aconselhado para suplementação.


Durante o intervalo entre as meladas no verão de 1981, um teste de alimentação suplementar foi realizado com pasta de pólen (700 g por 5 semanas; alimentação uma vez por semana; n = 6) e uma pasta feita com substituto de pólen de Protivy (540 g; 160 g Protivy 50, 360 g de água com açúcar 1: 1 e 20 g de pólen; n = 9). Um grupo de colónias não suplementadas serviu como controle (n = 12). A ingestão de proteína não teve influência nos dois grupos na criação de novas abelhas e na população de abelhas e não evitou o declínio da população durante o intervalo entre os fluxos de mel em 1981.

Um suplemento proteico industrial para abelhas (creio que não é comercializado na Europa, a ver se assim não firo susceptibilidades).

Reflexão: sendo muito consensual a importância crítica da nutrição das abelhas (ainda não conhecemos abelhas que sobrevivam na ausência de alimento) esse consenso não existe acerca do impacto da nutrição artificial suplementar, seja de proteína seja de carbohidratos, na aceleração do desenvolvimento da população de colónias de abelhas. Portanto, afirmar como uma verdade absoluta e universal, escrita nas pedras, que esse impacto existe é prematuro. O caso ainda está a ser avaliado e julgado! Do que retiro das minhas observações, com as minhas abelhas, no meu território e com o meu maneio, posso confirmar apenas três coisas muito simples, e que vejo repetirem-se ano após ano:

  • já evitei a morte por fome de inúmeras das minhas colónias com alimentação suplementar na forma de pasta de açúcar;
  • as minhas colónias respondem muito bem à entrada de pólen do campo, que se inicia em meados de fevereiro nos territórios onde tenho assentes os apiários, aumentando generosamente a quantidade de criação e, em regra, arrancam bem e chegam muito bem povoadas a abril/maio;
  • até agora nunca utilizei alimentação suplementar proteica no final do verão/início do outono, e as abelhas têm invernado bem sem ela (este ano, 2019-2020, a mortalidade invernal não ultrapassou os 4%).

o envelhecimento das abelhas: alguns aspectos

O nascimento das primeiras abelhas de inverno ocorre sobretudo no final do verão e início do outono, isto é, entre agosto e outubro. Segundo alguns estudos (Merz et al. 1979; Imdorf et al. 2010) uma boa parte destas abelhas de inverno nasce em setembro. Também por esta razão, as nossas colónias devem estar desparasitadas do varroa por esta altura.

Enquanto as abelhas de verão vivem cerca de 35-40 dias em média, as abelhas de inverno vivem cerca de 180 dias. Aspectos de natureza genética, fisiológica, morfológica e ambiental explicam esta diferença. Por exemplo abelhas da sub-espécie ligústica vivem menos tempo em média que abelhas da sub-espécie cárnica (efeito genético); abelhas com mais hormona juvenil na hemolinfa (abelhas de verão) vivem menos tempo que abelhas com menos hormona juvenil (abelhas de inverno). Morfologicamente as abelhas de inverno distinguem-se das abelhas de verão no tecido adiposo, maior nas primeiras que nas segundas.

Tecido adiposo de uma abelha de inverno (à esquerda) e de uma abelha de verão (à direita).


Mas são as variáveis de natureza ambiental que apresentam um impacto mais profundo no tempo de vida expectável das abelhas (Imdorf et al. 2010). E aqui o termo ambiental engloba não apenas as condições ambientais externas à colmeia (a metereologia, por ex.), mas também as condições ambientais internas, como a presença ou ausência de criação para alimentar nos meses de final de verão e início do outono. Analisemos mais aprofundadamente este dado que, no meu ponto de vista, apresenta um grande interesse e implicações práticas acerca das benesses e prejuízos que podem advir da utilização de alimentação estimulante no final do verão/início do outono.


Creio que todos nós, apicultores com alguns anos de abelhas, já pudemos observar que uma colónia zanganeira, livre de cria, não perece habitualmente em poucas semanas, pelo contrário pode sobreviver por vários meses. Dados experimentais têm mostrado que as abelhas em colónias sem cria (colónias com rainha enjaulada, por ex.) vivem muito mais e exibem características fisiológicas típicas de abelhas longevas de inverno. Fluri e Imdorf (1989) testaram os efeitos no desenvolvimento de colónias com paragem de desova entre 13 de agosto e 18 de setembro. As colónias com paragem de desova criaram 6.000 abelhas a menos do que o grupo de controle e tiveram em média 1.800 abelhas a menos que hibernaram por colónia. À saída do inverno, a força média das colónias foi no entanto muito semelhante nos dois grupos de colónias. Isso sugere que durante uma paragem de desova no final do verão/início do outono, uma grande parte das abelhas se transforma mais cedo em abelhas de inverno de vida mais longa. Estas observações levaram à hipótese de que o cuidado com a criação encurta a expectativa de vida. Em 1985, Wille, H. e colegas demonstraram que a criação intensiva de cria é sinónimo de redução da expectativa de vida das abelhas. O mesmo concluíram Westerhoff e Büchler (1994): cuidados mais intensivos com a criação podem explicar dois terços da redução na expectativa de vida das abelhas.

Ligando os pontos, julgo que estou em condições de poder dizer que a alimentação estimulante não é necessariamente um bem absoluto e a utilizar como regra, especialmente neste período de fim de verão/início de outono. Podemos estar, em muitas circunstâncias e vários locais, a envelhecer prematuramente e desnecessariamente as abelhas adultas já presentes nas nossas colónias ao obrigá-las a criar em excesso novas abelhas. No que me diz respeito não me lembro de ter utilizado alguma vez alimentação estimulante nestas alturas do ano, no meu território, onde não tenho pressão de velutinas nem florações nectaríferas importantes no inverno. Nunca me pareceu que fizesse qualquer falta, e cedo aprendi a conviver e a achar natural o decréscimo populacional de uma colónia de abelhas nesta época do ano. Numa ou outra fico na dúvida se passará o inverno, e em regra até passam desde que tenham alimento suficiente (natural ou artificial na forma de pasta).

Resumindo, as abelhas de inverno para serem longevas devem nascer num ambiente desparasitado (com poucas varroas e vírus) e devem ser libertadas da tarefa de alimentar um excesso de criação provocado por uma alimentação artificial inoportuna.

perdas de colmeias em três regiões francesas no inverno de 2017-2018: dados, análise e discussão

Enquanto apicultor profissional (a minha renda anual depende exclusivamente dos proveitos alcançados por via das minhas colónias de abelhas, isto desde 2010) e enquanto amador das abelhas (tenho uma paixão por ajudar as minhas colónias a manterem-se vivas e saudáveis, particularmente durante os meses de escassez), a maior satisfação provem das baixas taxas de mortalidade invernais, que felizmente têm ficado abaixo dos 5% nos últimos anos. Sobre as abelhas já vi um pouco (experiência), já li um pouco mais (estudo), e já pensei um pouco mais ainda (tentando construir algum conhecimento), para que desta mistura saia o necessário, ano após ano, que me permita estar mais preparado frente a este grande desafio: manter os enxames de abelhas vivos e saudáveis para me darem a renda anual que procuro.

Uma das ferramentas para alcançar tal desiderato tem sido, como referi, as leituras, e nessas leituras destaco os magníficos relatórios da Chambre d’Agriculture d’Alsace, pelo contributo que têm dado à minha aprendizagem e reflexão. Aqui e aqui deixei traduzidos os relatórios produzidos nos dois anos anteriores (2016 e 2017). Apresento agora a tradução de alguns excertos do relatório publicado em 2018, acerca das perdas ocorridas no inverno de 2017-2018 nas mesmas três regiões, inseridas na região Grand Est (Alsace, Champagne-Ardenne et Lorraine).

A região Grand Est

As respostas foram fornecidas por 640 participantes. A pesquisa abrange 534 respostas válidas que descrevem o ocorrido em 16.940 colmeias distribuídas por 2.737 apiários de inverno.

Uma panorâmica geral

Com 11,6% das colmeias a chegarem mortas à primavera de 2018 (e 9,7% das colmeias sem valor à entrada da primavera), a situação da apicultura na região do Grand Est é semelhante à perda média dos últimos nove anos. Combinando estas duas taxas, as perdas globais chegam, portanto, a 21,3% das colmeias invernadas pelos apicultores (colmeias mortas + sem valor). Não houve mortalidade excessiva na primavera de 2018.

De forma semelhante aos inquéritos anteriores, constata-se um número mais elevado de perdas nos apicultores com poucas colmeias face a outros com mais colónias. De acordo com os dados disponíveis, este excesso de mortalidade foi estimado em 56% a mais de perdas para apicultores com “menos de 10 colmeias” em comparação com as de apicultores profissionais.

E, uma vez mais, confirma-se a influência central das escolhas técnicas relacionadas com o combate ao parasita Varroa na sobrevivência das colónias.

Influência de rainhas jovens na sobrevivência da colónia
Ao todo, 9.075 colónias de abelhas tinham rainhas do ano (53,6% das colmeias).
O inquérito não solicitava que o apicultor diferencie as perdas sofridas por colmeias com e sem rainhas jovens. As estatísticas não são precisas, portanto. Contudo de acordo com os sentimentos pessoais dos apicultores:
– Os problemas decorrentes das rainhas parecem ser equivalentes aos de anos anteriores; – Colmeias com rainhas jovens não têm invernado nem melhor nem pior do que as outras.

Remoção de cria de zângãos (corte de cria de zângãos)
A remoção de cria de zângãos retarda a progressão da infestação de Varroa, mas não constitui um tratamento em si. Para ser útil, é necessário um mínimo de 3 ou 4 cortes por primavera (abril a junho / julho).
Entre os 534 apicultoresinquiridos, apenas 29 praticaram esse corte “pelo menos 3 vezes”. Sua taxa média de perdas é de 22,7% (contra 21,3% para aqueles que não praticaram).

Embora esta medida seja reconhecida pela sua ação na infestação por varroa (desacelerando a infestação na primavera), sua influência nas perdas no inverno parece insignificante. Esta observação é consistente com os dados de inquéritos anteriores. A falta de efeito mensurável nas perdas de inverno pode ser explicada por um lado pela fertilidade do Varroa (que recuperaria no final do ano o “tempo perdido” pelas acções de remoção de cria de zângão) e / ou pelos fenómenos de reinfestações entre apiários vizinhos, o que acabaria por anular a vantagem proporcionada pelo método no início da época.

Quais são as culturas/florações presentes no ambiente da maioria de suas colónias?
O inquérito pediu informações acerca das culturas/florações presentes em redor dos apiários. A ausência de culturas melíferas parece estar sistematicamente ligada a maiores perdas (exceto para urze);

No que diz respeito à urze, a sua presença está associada a um grande número de colmeias que perderam o seu valor. Trata-se principalmente de colmeias que ficaram zanganeiras (28% das colónias em território de urze ficaram zanganeiras, 5% ficaram muito fracas).
Sobre este aspecto em particular não é possível, com base nos dados disponibilizados pelo inquérito, realizar análises estatísticas mais precisas, dada por um lado a imprecisão das informações coletadas e por outro lado o tamanho da amostra (número baixo de apiários onde as urzes estavam presentes).
A rede Coloss planeia explorar esta questão com base em dados coletados nos vários países participantes.

Tratamento “principal” de fim de verão
O período escolhido para o controle do parasita Varroa destructor é no final da temporada de produção de mel (ou seja, julho / agosto / setembro/outubro no Grand-Est).
Em 2017, a colocação dos tratamentos começou timidamente em julho (6% dos apicultores) e, a maioria foram realizados principalmente em agosto (44% dos apicultores) e em setembro (40% dos apicultores).
No Grand-Est, recomenda-se a realização dos tratamentos em julho / agosto, dada a duração de ação dos tratamentos (variável de 2 a 12 semanas) e o fim do período de criação das abelhas de inverno (aproximadamente em Outubro, Imdorf 2010). De fato, é necessário para a sobrevivência das colmeias que as abelhas de inverno sejam criadas em condições/ambiente já desparasitado.

Ligação entre a data do tratamento principal e as perdas de inverno As colónias tratadas mais cedo estão associadas às melhores taxas de sobrevivência no inverno.

As colmeias tratadas em outubro de 2017 mostram um excesso de mortalidade 2,2 vezes maior do que as colmeias tratadas em julho de 2017.
Com 36,7% de colmeias mortas, os tratamentos iniciados em outubro são muito menos úteis do que os realizados em julho (perdas de 16,6%, ou seja, 2,2 vezes menos perdas).

Ligação entre a escolha do medicamento principal para a varroose e as perdas no inverno

  • Apivar® – O medicamento mais utilizado para o “tratamento principal” (final do verão) é o APIVAR (11.705 colmeias, ou 69% das colónias monitoradas pela pesquisa). É o medicamento autorizado associado aos melhores resultados (melhores taxas de sobrevivência no inverno). Resultado sempre observado ao longo dos anos inquiridos (de 2010 a 2018).
  • Ácido fórmico – Segundo tratamento mais utilizado (1534 colmeias, ou 9% das colónias monitoradas pela pesquisa); a aplicação do ácido fórmico é aprovada na Agricultura Orgânica. Apresenta resultados variáveis ​​dependendo das condições de uso e das condições meteorológicas no apiário. O “MAQS” possui uma MA (Autorização de Introdução no Mercado), ao contrário das preparações caseiras utilizadas até agora.
  • Timol (Apiguard®, Thymovar®, Apilifevar®) – Usado em 5% das colmeias monitoradas pela pesquisa, esses medicamentos apresentam fortes variações de eficácia entre colmeias de um mesmo apiário. Está associado a perdas maiores.
  • Apistan (tau-fluvalinato) – cada vez mais raramente utilizado (> 1% das colmeias), esta molécula não é recomendada devido ao seu acúmulo em ceras e aos problemas de resistência a ela associados.
  • Ácido oxálico (Varromed) – o ácido oxálico é conhecido por ser eficaz contra Varroa na ausência de cria na colmeia. Recentemente, foi disponibilizado em preparações com Autorização de Introdução no Mercado e a particularidade é que pode ser utilizado durante todo o ano, inclusive na presença de cria. Atualmente, não temos nenhum feedback técnico de testes sobre a real eficácia deste produto (quais as doses e qual a frequência de aplicação para atingir qual taxa de eficiência?). A taxa de mortalidade associada às 633 colmeias tratadas com Varromed é de 32,5% (mas em que doses foram tratadas?). Um ponto que requer mais detalhes no futuro.
  • O amitraz “caseiro”, utilizado em menos de 1% dos casos, é uma prática proibida devido aos perigos diretos para o apicultor e para as abelhas. Seu desempenho é inferior ao do Apivar (com o mesmo princípio ativo).
  • Falta de tratamento e “outros métodos” — as respostas indicam que 1115 colmeias não foram tratadas e 402 colmeias foram tratadas com “outros métodos” (não especificado). As colmeias que não foram tratadas tiveram a maior taxa de perda de todas as colmeias da amostra (49%)!

Tratamento de inverno (ácido oxálico)
O inverno é uma oportunidade de realizar um tratamento complementar ao tratamento principal (verão), de forma a eliminar o varroa residual: a aplicação de ácido oxálico (AO) permite realizar um tratamento muito eficaz contra a varroa na ausência de criação. AO é uma molécula natural, que deve ser manuseada com cuidado. O período ideal é o período sem cria, geralmente final de dezembro-início de janeiro [nos meus apiários seria de meados de novembro a meados de dezembro… local, local, local!].

Durante o inverno de 2017-2018, o ácido oxalico foi aplicado no Grand Est como se descreve:

49 aplicações de AO “gotejado” (incluindo 34 em dezembro e 10 em janeiro). 41 aplicações AO por “sublimação” (gás) (incluindo 17 em dezembro e 11 em janeiro).

(Tenha cuidado com o entupimento dos seus dispositivos com a preparação ApiBioxal que infelizmente contém açúcar! O ApiBioxal é impróprio para este tipo de utilização.

As perdas registadas não são diferentes entre colmeias tratadas ou não com AO, no inverno (teste Z não significativo). E por uma boa razão: o tratamento de inverno não é usado para melhorar a taxa de sobrevivência no inverno! É o tratamento principal, o de verão, que se reflecte na sobrevivência no inverno. O objetivo do tratamento de inverno é minimizar o número de ácaros varroa nas colmeias para promover uma melhor época/arranque no ano seguinte.

fonte: https://www.adage.adafrance.org/downloads/compte_rendu_enquetes_pertes_hivernales_grand_est_2018_v2.pdf

vespa velutina: o estado da arte do que sabemos

Como em muitas outras áreas, o estudo e o conhecimento da vespa velutina nigrithorax (VV) tem vindo a evoluir lentamente. Como já disse alguém não é fácil estudar um insecto que se esconde e que apresenta algumas armas defensivas bem conhecidas. Mas o estudo vai-se fazendo e serve esta publicação para sumariar o que se sabe hoje de mais sólido acerca deste insecto.

  • Introdução acidental: aconteceu em França, muito provavelmente em 2004, de apenas uma rainha, fecundada pelo menos por 4 machos;
  • a expansão: tem sido rápida na Europa, facilitada pelo transporte de mercadorias e pelas muitas fontes de alimento disponíveis (outros insectos e também o lixo, em especial nas zonas urbanas e peri-urbanas);
  • o ciclo de vida: cada ninho gera um grande número de operárias; assiste-se à criação de algumas centenas de novas rainhas por ninho; encontram-se machos diploides (estéreis) em fases precoces do ciclo de vida do ninho (consequência da consanguinidade?);
  • o comportamento de caça: caracteriza-se pelo vôo estacionário em frente às colmeias; as VV apresentam elevado grau de fidelidade ao sítio de caça; não se confirma a marcação química/feromonal das colmeias a atacar; há trofaláxis no vespeiro;
  • comportamento defensivo das abelhas: formação de um tapete/barba de abelhas no alvado da colmeia; tentativas tímidas e ineficientes de “shimmering” (comportamento defensivo presente e muito eficiente nas Apis dorsata e cerana); comportamento de pelotamento da VV mas muito ineficiente na Apis melífera europeia;
  • impacto na entomofauna europeia: a presa favoritas das VV são as abelhas melíferas, especialmente em zonas mais urbanizadas; as VV são atraídas pelos odores exalados pelas colónias de abelhas e pelo avistamento das colmeias; em zonas rurais ou florestais a sua dieta é mais diversificada, verificando-se um aumento relativo de insectos díptera e Hymenoptera vespidae consumidos;
  • o contexto global: numa miríade de perigos e factores danosos para a saúde das abelhas melíferas a vespa velutina vem somar-se-lhes e estima-se que em França ela é responsável, no universo de perda de colónias, por 30% dessas perdas;
  • como lutar contra a velutina: das medidas até agora utilizadas, várias delas com efeitos negligenciáveis, a chave está na destruição/perturbação da actividade dos ninhos; mas a grande dificuldade e problema está em encontrá-los cedo o suficiente;
  • raio de acção da VV: caçam sobretudo num raio de 800m do ninho, e até um raio de 5 km; 95% dos voos acontecem entre as 8h00 e as 19h00 e 95% dos voos demoram menos de uma hora;
  • desenvolvimento de novas tecnologias: estão a ser estudados e melhorados um conjunto de equipamentos para encontrar os ninhos, entre eles o radar harmónico que permite acompanhar de forma precisa a trajetória dos insetos, mas apenas em áreas abertas e é um sistema muito complicado e caro; com um tag/transponder leve (sistema passivo) o alcance é de 450m; a radiotelemetria permite a localização do inseto qualquer que seja o tipo de paisagem (árvores, arbustos, morros, edifícios), é portátil e relativamente barato; contudo o tag/transponder é pesado (sistema ativo) e tem um alcance de 800m;
  • o biocontrolo: os predadores naturais presente na Europa não são eficientes para mitigar o suficiente a predação e controlar a expansão das VV (pássaros e parasitas), e experimenta-se a utilização de de fungos patogénicos (Metarhisium robertsii e Beauveria bassiana, Poidatz et al. 2018, 2019), introduzidos no ninho através de uma estratégia “cavalo-de-troia”.

Como todos os sumários este foi curto para tanto conteúdo, e deixou de fora alguns aspectos muito interessantes já conhecidos ou que se começam a conhecer melhor. Esta publicação pretende também desmistificar alguns assuntos em torno deste insecto exótico e predador da entomofauna nativa, especialmente da abelha melífera europeia. Seremos tão mais efectivos na ajuda às nossas abelhas, restante entomofauna nativa, e também na protecção de uma diversidade de produções agrárias, também predadas pelas vespas de patas amarelas, quanto maior e melhor for o nosso conhecimento.

eficácia do mel para o alívio dos sintomas em infecções do trato respiratório superior: uma revisão sistemática e meta-análise

O consumo de mel em Portugal não sendo dos mais altos da Europa também não é dos mais baixos. Em Portugal o seu consumo ronda os 700-800 grs per capita/ano. Naturalmente estes valores podem e devem subir um pouco mais para benefício de todos, dos cidadãos consumidores, dos apicultores e sobretudo das abelhas. Sem consumo dos produtos da colmeia não haverá apicultores e sem apicultores não haverá abelhas melíferas. Estas relações de forte interdependência vão mais além ainda: sem abelhas melíferas os serviços de polinização ficarão seriamente ameaçados e sem esses serviços de polinização a qualidade da nossa dieta ficará diminuída e a fauna e floras silvestres empobrecerá. As campanhas promocionais para o consumo dos produtos da colmeia, e do mel em particular, devem, na minha opinião, apoiar-se e divulgar estas linhas de fundo. Para cada um destes pilares de uma bem desenhada campanha de marketing devemos apoiar os nossos argumentos nas melhores evidências científicas. Vem a este propósito a tradução deste estudo, publicado há 3 dias atrás, em torno de uma meta-análise sobre os efeitos do mel no combate aos sintomas de infecções do trato respiratório superior (sobre os serviços ecossistémicos prestados pelos polinizadores em geral, e as abelhas melíferas em particular, já escrevi algumas vezes).

Antecedentes: A prescrição de antibióticos para infecções do trato respiratório superior (ITRSs) na intervenção primária exacerba a resistência antimicrobiana. Há necessidade de alternativas eficazes à prescrição de antibióticos. O mel é um remédio popular para ITRSs e têm vindo a surgir evidências para seu uso. O mel tem propriedades antimicrobianas, e as diretrizes recomendam mel para tosse aguda em crianças.

Objetivos: Avaliar a eficácia do mel para o alívio sintomático em ITRSs.

Métodos: Uma revisão sistemática e meta-análise. Pesquisámos Pubmed, Embase, Web of Science, AMED, Cab abstracts, Cochrane Library, LILACS e CINAHL com uma combinação de palavras-chave e termos MeSH.

Conclusões: O mel foi superior ao tratamento usual para a melhora dos sintomas de infecções do trato respiratório superior. Ele fornece uma alternativa amplamente disponível e barata aos antibióticos. O mel pode ajudar nos esforços para retardar a disseminação da resistência antimicrobiana, mas são necessários mais ensaios clínicos, controlados com placebo, de alta qualidade.”

fonte: https://ebm.bmj.com/content/early/2020/07/28/bmjebm-2020-111336.full

Os nutricionistas recomendam o consumo de uma colher de sopa de mel diariamente (foto tirada hoje comigo prestes a ingerir a minha dose diária de mel).

nutrição de abelhas: o caso dos probióticos, ou quando mais pode ser menos

A nutrição de abelhas é uma das categorias do meu blog com menos publicações. As razões para tal são várias, entre elas:

  • utilizo de forma comedida a nutrição artificial dos meus enxames;
  • utilizei até agora basicamente dois tipos de nutrição artificial: água com açúcar e fondant;
  • a minha experimentação neste domínio é, portanto, muito conservadora e limitada;
  • não tenho forma de controlar rigorosamente e honestamente os impactos nas minhas colónias para além dos que vou observando macroscopicamente e vou referindo numa publicação ou outra, observações que basicamente se resumem a dizer que o fondant salvou estas e aquelas colónias da morte pela fome nos períodos de escassez;
  • encontro poucos estudos sérios, devidamente controlados, sobre os efeitos de certas fórmulas alimentares, e os poucos que vão surgindo não corroboram muitas das vezes as afirmações dos fabricantes e comerciantes de alimentos artificiais acerca dos benefícios dos mesmos na saúde das abelhas e no bem-estar geral da colónia.

Esta publicação, acerca de uma estratégia de alimentação de abelhas em torno dos probióticos, que está muito na moda em certas regiões do mundo, revela uma vez mais esta dissonância entre a cautela e até cepticismo da comunidade científica e o optimismo (desbragado!?) dos fabricantes e comerciantes destes suplementos alimentares. Surgiu na revista apícola norte-americana Bee Culture, em abril deste ano, um interessante artigo acerca dos alegados benefícios da utilização de duas marcas de probióticos na nutrição das abelhas. Em Portugal creio que a utilização destes suplementos ainda é residual, mas como as modas atravessam fronteiras tão ou mais rapidamente que espécies invasoras, fica aqui o ponto de vista dos investigadores que se debruçaram sobre este tema.

Probiótico: pró significa para, biótico significa vida. Para a vida. Sim, nós somos para a vida. Mais vida, mais e melhor, certo? Talvez. Talvez não. […]

Dois produtos probióticos são comercializados especialmente para abelhas: Super DFM, da Strong Microbials, e Pro DFM, da Mann Lake. (Um terceiro produto, Durvet, da PBS Animal Health, foi descontinuado). O Super DFM e Pro DFM listam os mesmos oito micróbios no seu conteúdo, e o Pro DFM tem uma bactéria adicional mais várias leveduras.
Quais são esses produtos? Nossas abelhas precisam deles? Os resultados dos testes de campo não estão disponíveis para nenhum deles, nem existem artigos científicos publicados revistos por pares que os avaliem.
A entomologista Marla Spivak, da Universidade de Minnesota, pediu a uma estudante de graduação em doutoramento para que no laboratório comparasse os ingredientes desses produtos com o que está no bioma intestinal natural das abelhas. Não houve correspondência…[…]

Nancy Moran [uma das maiores especialistas em genómica de insetos e bactérias] olhou para a lista de bactérias presentes no Super DFM e Pro DFM. “Essas bactérias não são normais no intestino das abelhas. Eu não acho que elas vão colonizar o intestino, e se elas colonizaram eu acho que isso não é bom. As abelhas encontram todos os tipos de bactérias, mas o bioma intestinal permanece o mesmo. As abelhas com microbiomas alterados estão principalmente doentes. O que queremos é que a abelha mantenha a microbiota normal. ” […]

Jay Evans, líder de pesquisa do USDA Beltsville Bee Lab, disse: “Muito mais precisa ser feito com a ciência. Por quanto tempo os probióticos persistem no intestino – um dia, uma estação? Ou eles apenas passam pelo intestino [das abelhas]? As pessoas estão gastando muito dinheiro sem saber o que é. ” O pesquisador não descartou a possibilidade de benefício, dizendo que há trabalhos mostrando alguns resultados positivos para colocar bactérias benignas em abelhas. Mas as perguntas permanecem. […]

O segundo produto probiótico, Pro DFM, informa que ajuda a melhorar a saúde das colónias de abelhas, afeta positivamente as reservas de vitelogenina das abelhas nutrizes, auxilia na fermentação e digestão do pão-de-abelha e não possui resíduos prejudiciais. A página “Mais informações” do site está inactiva e a empresa não respondeu à pergunta. Moran especula que as leveduras na fórmula podem ser um suplemento nutricional.
Quanto a qualquer um dos produtos, ela disse: “Estou céptica. Odeio ver as pessoas desperdiçarem dinheiro. Eu não compraria. ” […]

Alternativamente
Considere a possibilidade de alcançar os efeitos que esses produtos probióticos visam sem a necessidade deles. Um artigo do Spivak Lab prestes a ser publicado mostra o melhoramento do microbioma da abelha na presença de própolis.
Enquanto isso, espera para saber mais sobre esses produtos. Alguns novos dados de pesquisa estão chegar, mas os efeitos de longo prazo levarão anos – se alguém puder monitorá-los por tanto tempo.
Própolis já temos.”

fonte: https://www.beeculture.com/probiotics-pro-for-biotic-life/

fortalecendo a luta contra o varroa: como controlar a infestação durante a temporada de fluxo?

Não tenho observado este fenómeno de níveis de infestação elevada (acima dos 3%) durante a temporada de fluxo de néctar, entre finais de abril e finais de julho nos meus apiários (dois a 600 m de altitude e outros dois a 900m de altitude), nos últimos anos, mas não deixo de me preocupar com esta questão.

No sítio do ITSAP (Institut d’Abeille), encontrei referência a um estudo relativamente recente orientado para esta questão. Os resultados não são muito encorajadores nem muito surpreendentes para mim: a baixa eficácia do ácido oxalico sublimado no controlo do varroa em colónias com muita criação operculada nesta época e a boa eficácia do ácido fórmico (MAQS), mas de curta duração, no controlo do ácaro nesta época do ano. Já a alteração do mel pelo aumento do teor de ácido fórmico após o tratamento com MAQS deixou-me surpreendido, sabendo que é o único tratamento que conheço que está homologado para uma utilização durante a temporada de fluxo. Deixo a tradução em baixo.

Aplicação do MAQS para controlar a infestação pelo ácaro varroa.

“Diante da dificuldade enfrentada pelos apicultores em controlar a infestação dos apiários pelo Varroa, a ênfase é colocada na monitorazação regular dos níveis de infestação em momentos chave. Assim, apesar dos tratamentos anti-varroa usados ​​entre duas estações de produção, algumas colónias ainda surgem muito infestadas na primavera.

Quais são, então, os tratamentos corretivos disponíveis? Que intervenção melhora o desempenho das colónias, reduzindo o nível de infestação? Dependendo do tratamento utilizado, quais são os riscos para as colónias de abelhas e para a qualidade do mel? Para responder a essas perguntas, o ITSAP-Institut de l’Abeille e a rede ADA experimentaram o uso de ácido fórmico e o uso de ácido oxálico contra o Varroa durante a temporada de apicultura.

Durante o experimento realizado no ano de 2016 em mais de 300 colónias, o nível médio de infestação foi de mais de 1 varroa / 100 abelhas em abril. O uso do MAQS® (ácido fórmico) possibilitou reduzir a infestação das colónias por um período de aproximadamente dois meses, até o final de junho / início de julho, e permitiu iniciar o fluxo de mel de verão com menos de 3 varroas / 100 abelhas. Em contraste, as colónias tratadas por sublimação repetida de ácido oxálico na presença de criação começaram a melada de verão com uma infestação superior a 3 varroas / 100 abelhas, como as colónias não tratadas.

O efeito do tratamento de primavera com ácido fórmico sobre a infestação diminuiu e não era observável no final do verão. Portanto, não foi possível ignorar as intervenções de fim de verão, apesar da redução da infestação obtida na primavera. A redução da infestação abaixo de 3 varroas / 100 abelhas foi acompanhada por melhor produção de colónias durante a melada de verão. Porém, o tratamento MAQS® na primavera aumentou o teor de ácido fórmico do mel, mesmo aquele produzido no final do verão, consolidando os achados de outros experimentos: tratar (com ácido fórmico) ou produzir, você tem que escolher!”

fonte: http://blog-itsap.fr/renforcer-la-lutte-contre-varroa-comment-reguler-linfestation-en-cours-de-saison/

verificação da eficácia do tratamento da varroose: a minha opção

Tendo verificado no início da semana passada a eficácia do tratamento de verão da varroose num dos dois apiários que tenho a 600 m de altitude, hoje fiz essa mesma verificação no segundo apiário que tenho à mesma altitude. Também neste apiário, com cerca de 40 colmeias, as impressões que retirei por observação são francamente animadoras. Para confiar nestas verificações “a olho”, sem recurso a outro tipo de testagem, socorro-me de um conjunto de imagens mentais daquilo que não desejo ver e daquilo que desejo ver.

Não desejo ver:

  • Padrão de criação irregular;
  • Criação calva (criação desoperculada);
  • Ácaros varroa presentes nas abelhas adultas;
  • Os ácaros deslocando-se sobre os opérculos da criação selada;
  • Ácaros sobre as larvas (geralmente as larvas apresentam-se distorcidas ou semi-devoradas);
  • Número relativamente baixo de abelhas adultas;
  • Ausência de ovos e de larvas (devido à falta de abelhas nutrizes para as alimentarem);
  • Mestreiros de substituição (parece que as abelhas “culpam” a rainha pelo seu estado deplorável de infestação);
  • Abelhas rastejando na entrada da colmeia;
  • Abelhas com asas deformadas.

 Quando se começa a ver pupas com a cabeça devorada (em vários alvéolos), isso é um sinal de que os níveis do ácaro estão altos.

Passadas 4 semanas o início do tratamento (com Apivar) não verificar nenhum dos sintomas em cima identificados reforçam em mim duas convicções: primeira, o tratamento foi iniciado num momento oportuno (taxa de infestação das abelhas adultas inferior a 3%) e, segunda, o tratamento está a ser eficaz.

Desejo ver:

  • Colónias bem povoadas;
  • Colónias com criação nos três estádios de desenvolvimento (ovos, larvas e pupas);
  • Colónias com criação operculada compacta;
  • Colónias equilibradas quanto a reservas (mel e pão-de-abelha) e com espaço para a rainha fazer postura;
  • Abelhas novas ou a emergir com asas bem formadas.
Foto de uma colónia típica deste apiário à data de hoje.
Foto de hoje de um quadro com criação compacta, o que me deixa muito tranquilo acerca da eficácia do tratamento no controle da varroose.

Como trato de acordo com o calendário (não faço tratamentos profiláticos, nem faço tratamentos debaixo da filosofia de gestão integrada de pestes), como tenho muitas dúvidas acerca da fidedignidade da avaliação da taxa de infestação de todas as colónias de um apiário com base numa amostra de 20% a 30% das colónias desse apiário, tenho recorrido este método expedito: durante o período de tratamento, que se prolonga por 10 a 12 semanas, faço em média 3 ou 4 vezes esta verificação a olho de cada uma das colónias do apiário. Esta verificação permite-me também ajustar as tiras à câmara de criação e realizar outras tarefas na preparação para a invernagem, como por exemplo substituir algum quadro por outro mais adequado ao período que se avizinha.

Antes do ajustamento das tiras de Apivar à actual câmara de criação.
Depois do ajustamento à actual câmara de criação.
Os quadros como os da direita foram retirados e substituídos por quadros como os da esquerda. Acredito que ainda não há suplemento alimentar, por muita qualidade que tenha, que ajude a criar abelhas de inverno mais longevas e saudáveis que o mel e o pão-de-abelha.
Os quadros com mel estavam ali ao lado, nas colmeias-armazém!

bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha: a solução que me encontrou

Surgiu há poucos dias no Bee-L (fórum de apicultura de origem norte-americana) uma questão muito interessante de um apicultor e que serve de motivo para esta publicação. Perguntava esse apicultor o que poderia fazer para evitar que os quadros do ninho ficassem bloqueados com pão-de-abelha. Para o necessário contexto desta questão falta dizer que este apicultor utilizava a configuração ninho+sobreninho, criando assim aquilo que alguns denominam de forma feliz um “ninho infinito”, em colmeias do modelo Langstroth. Ora este bloqueio dos ninhos com pão-de-abelha é uma situação relativamente inconveniente, e que se agudiza a partir de meio/final do verão. Já passei por isso, já dei voltas à cabeça para encontrar uma solução, e acabou por ser a solução a encontrar-me. O processo, passo a descrevê-lo.

Até há três anos atrás (2017) a grelha excluidora era uma peça do meu equipamento que raramente ía para o apiário e, quando a utilizava, era de forma muito temporária. Neste período anterior a 2017, vinha a encontrar a meio/final do verão, e nas colmeias com ninho+sobreninho, boa parte dos ninhos abandonados pela rainha, que entretanto se tinha instalado de modo permanente no sobreninho. Em resultado deste comportamento natural das rainhas, os ninhos ficavam entregues às obreiras que, provavelmente, viveriam os seus dias mais felizes a encher com pólen todos os alvéolos assim que o último ciclo de cria nascia, enchendo de travessão a travessão os quadros com pão-de-abelha devidamente enzimado e compactado à cabeçada. Tenho ideia que havendo espaço, este é o modo natural de armazenagem das abelhas quando a postura da rainha começa a diminuir com o avançar da época ou quando na presença do ninho infinito: mel na abóbada superior, zona de criação na zona intermédia e pão-de-abelha na abóbada inferior do quadro ou, no caso, na caixa inferior da colmeia.

Nesta foto parcial de um quadro vemos pão-de-abelha armazenado junto ao travessão inferior, alvéolos vazios na zona intermédia e…
… pequena abóbada com mel operculado junto ao travessão superior do quadro (quadro invertido relativamente à sua orientação normal).

Em 2017, e para satisfazer a demanda de enxames e quadros com criação optei por utilizar mais frequentemente a grelha excluidora nas colónias que dediquei à produção de abelhas e criação. Para não ter que ter a preocupação de localizar a rainha sempre que retirava abelhas ou quadros com criação de um conjunto de colónias, a grelha excluidora foi uma peça importantíssima desta estratégia. Tendo terminado esta tarefa com sucesso, decidi deixar a excluidora em algumas colónias, até porque já tinha lido um número apreciável de opiniões positivas acerca da mesma, em particular por apicultores norte-americanos, canadianos e australianos. Resolvi testar, ainda que um conjunto de crenças em mim me dissessem que provavelmente iria correr mal. Para minha surpresa já na altura colhi boas impressões, mas como eram ao arrepio de muitas das minhas crenças da altura, decidi continuar o teste nestes últimos anos, antes de assumir para mim próprio e em público as conclusões que tenho vindo a publicar sobre as bem-feitorias das grelhas excluidoras de rainhas. Entre outras que já identifiquei e referi, verifico de forma reiterada que as colónias com a configuração ninho+sobreninho e com a rainha confinada no ninho por uma excluidora me surgem nesta altura do ano muito menos bloqueados pelo pão-de-abelha. Atribuo este efeito ao facto de a rainha, com a sua postura limitada ao ninho, ocupar uma parte significativa do mesmo com a oviposição. Naturalmente nos alvéolos onde a rainha põe um ovo, e as abelhas criam as suas larvas, não podem ser utilizados em simultâneo para armazenar pão-de-abelha. Como as duas tarefas são mutuamente exclusivas, a colónia encontra aquilo que me parece ser um melhor equilíbrio na gestão do espaço do ninho: um compromisso entre o espaço dedicado à oviposição e criação de abelhas e o espaço dedicado à armazenagem de pão-de-abelha.

Em jeito de conclusão, se tivesse que dar uma resposta ao apicultor que colocou a questão no Bee-L, dir-lhe-ía para colocar uma grelha excluidora de rainhas entre o ninho e sobreninho a partir de meio do período da enxameação reprodutiva. Nas minhas colmeias foi esta a resposta natural que as minhas abelhas me deram. O meu trabalho foi apenas ter a atenção necessária para as ouvir, apesar do ruído provocado pelas minhas crenças da altura.

tratamento de verão da varroose: alguns detalhes

Desde 2014/2015 que, tendo entendido melhor a dinâmica que se estabelece entre o ciclo de vida do ácaro varroa e o desenvolvimento populacional de uma colónia de abelhas, passei a realizar o segundo tratamento para a varroose não à entrada do outono como até aí, mas sim a meio do verão. Desde que introduzi este novo calendário para o território onde estão assentes as minhas colónias, e de 2017 para cá, tive uma colónia morta por varroose num universo de cerca de 4 mil tratamentos aplicados.

Como tive a oportunidade de defender na palestra que fiz no dia 9 de fevereiro deste ano no âmbito do II Encontro de Apicultores do distrito da Guarda, a dinâmica da relação entre o número de pupas de abelhas e o número de varroas ao longo de um ano, e supondo a realização de um primeiro tratamento muito eficaz à saída do inverno, evolui aproximadamente desta forma:

  • cerca de meio do ano (maio/junho) atinge-se o número máximo de pupas a serem criadas pelas abelhas: 15 mil;
  • nesta mesma altura o número de varroas rondará os 1500;
  • em meados/finais de setembro o número de pupas caiu significativamente para cerca de 2500;
  • e nada tendo sido feito até à data para controlar o número de varroas estas rondarão as 5 mil;
  • em conclusão temos temos cerca de 5 mil varroas a infestarem cerca de 2500 larvas/pupas. Nesta altura a colónia é um morto-vivo. Qual o tratamento para um morto-vivo?

Como as designações das coisas são o seu melhor sumário deixei de falar e pensar em tratamento de outono para passar a pensar e falar em tratamento de verão. Em boa hora o fiz!

O timing do tratamento é a parte mais importante do mesmo, é a conclusão a que chego. Mas pode não ser suficiente, ou os seus efeitos positivos podem ser potenciados se atendermos a alguns detalhes na sua aplicação. No caso da aplicação das tiras de Apivar (o tratamento que tenho utilizado recorrentemente nestes últimos anos) tenho tido grande cuidado ao colocar as tiras: sempre entre quadros com criação. Isso exige-me ver quadro a quadro do ninho para identificar o início da câmara de criação e o seu fim, em cada ninho de cada colónia. E foi isso mesmo que hoje estive a fazer a partir sensivelmente das 7,15h e até às 10,00h em 36 colónias (média aproximada de 5 minutos dispendidos por colónia). Aproveitei também esta oportunidade para recentrar no ninho a câmara de criação.

Câmara de criação com 3 quadros.
Câmara de criação com 4 quadros.
Câmara de criação com 6 quadros.

Mais adiante, dentro de 3 a 4 semanas, estes ninhos serão novamente inspeccionados para ajustar as tiras a uma câmara de criação que entretanto terá evoluído, se terá modificado, e muito provavelmente se terá comprimido em várias destas colónia. Será também a altura para fazer uma primeira avaliação visual da eficácia do acaricida no controle da varroose.

Este trabalho de re-inspecção foi ontem realizado num apiário onde iniciei o tratamento há cerca de 3 semanas atrás e os sinais que observei são muito positivos. Espero que assim continue por mais um tratamento, sem que possa confirmar o que alguns afirmam convictamente:

  • varroas resistentes ao acaricida;
  • volatilidade do princípio activo em consequência do calor;
  • pouco contacto das abelhas com as tiras porque aquelas estão à entrada da colmeia a refrescarem-se;