hoje o mel que produzo são as minhas publicações e um agradecimento

Hoje o mel que produzo são as minhas publicações. E tal como o mel que produzi quando tinha abelhas não era contrafeito, também as minhas publicações não o são.

Até hoje fiz 788 publicações. Uma boa parte delas são publicações originais, resultado da descrição do trabalho que desenvolvi e observei nos meus apiários, ou o resultado do exercício de opinião numa sociedade livre como a nossa, ou ainda da conjugação de reflexões pessoais com informações do conhecimento comum. Estas publicações obviamente não carecem da identificação das fontes.

Uma parte mais reduzida das minhas publicações são traduções, mais ou menos literais, mais ou menos parcelares, de estudos de natureza científica ou de textos de apicultores pelos quais tenho uma especial predilecção. Nestas identifico sempre as fontes e/ou referências bibliográficas que utilizei.

E os que acompanham as minhas publicações sabem que assim é.

Tanto assim é que um amigo, investigador na UC, ligou-me há umas semanas atrás a pedir-me a referência de um estudo francês que se lembrava de ter lido por aqui a tradução. Como precisava de aceder a esse estudo, e através do google scholar não estava a conseguir fazê-lo, pediu-me ajuda para localizar a publicação e assim chegar ao respectivo estudo. Ele sabia que a referência bibliográfica lá estava, como habitualmente está nas publicações deste tipo. Pela descrição que ele me fez do conteúdo da publicação, localizei-a com alguma facilidade… e lá estava, preto no branco, a referência bibliográfica, que de imediato enviei a este meu amigo.

Este mel não é contrafeito. Quando muito pode ter algumas notas um pouco amargas para alguns, como tem o mel de urze. É natural que nem todos as apreciem.

Contudo dizer que este mel puro foi misturado com açúcar magoa e ofende. E foi dessa ofensa que juntamente com os meus amigos(as), parte dos quais não conheço pessoalmente, me defendi. E lhes expresso o meu profundo agradecimento.

A vida continua… muita saúde para todos(as). Um abraço enorme!

vespa velutina: da sua caça e dieta básica aos iscos proteicos

Caçadoras muito ágeis

A V. velutina é das melhores caçadoras no mundo das vespas. Já escrevi anteriormente que de todas as vespas que poderiam colonizar a Europa esta é muito provavelmente a pior, pois é muito mais rápida e ágil do que outras espécies de vespa (Kuo e Yeh, 1990). Na verdade, é uma das vespas mais hábeis a apanhar abelhas em voo. Outras espécies pousam nas entradas das colmeias para caçarem abelhas, e este comportamento permite às abelhas embolarem-nas/pelotarem-nas. Já a V. velutina paira na frente da colmeia a uma distância de 30 –40 cm, e desce tentando repetidamente capturar forrageiras. Este comportamento de caça impede que as abelhas as embolem. Já vi as abelhas a embolarem as V. crabro, e outras vespas, que poisam e/ou entram nas colmeias fortes. Nunca vi uma velutina a correr o risco de ser embolada entrando numa colmeia forte.

O que comem as vespas adultas

Como é habitual na família das Vespidae, as V. velutinas não consomem carne (embora possam ingerir sucos de carne). As proteínas que recolhem da caça de outros insectos, da carne de carcaças de mamíferos, aves e peixes são transportadas para o seu ninho para alimentar as larvas. A V. velutina adulta alimenta-se de carboidratos doces, como néctar, frutas maduras, seiva de árvores, e de regurgitações especiais das larvas (Matsuura e Yamane, 1990). As larvas produzem secreções larvais ricas em carboidratos e aminoácidos. Estas secreções alimentam as operárias adultas assim como as futuras rainhas, para que construam os seus corpos gordos, antes do acasalamento e hibernação.

Transferência das regurgitações larvares para vespas adultas (mecanismo já descrito em publicações anteriores deste blog, nomeadamente nas publicações acerca do brilhante trabalho levado a cabo por Ernesto Astiz, imbuído pelo espírito de ciência cidadã).

Os iscos proteicos

Os iscos proteicos são utilizados mundialmente para controlar as pragas de insectos exóticos da família Vespidae, por ex. nos EUA, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Chile, Argentina, … Por cá, alguns enterram a cabeça na areia e esperam que pai natal chegue na forma de abelhas treinadas a embolar as velutinas em voo, abelharuco vorazes, ou de chips milagrosos, baratos, mais leves que meio cabelo e cujo sinal atravesse os declives do terreno até a um radar que cabe num bolso e é pago com uma nota de cinco euros!!! Plagiando as profundas e riquíssimas tiradas do José Silva, aka Lem Sipa,… ENFIM.

E os iscos proteicos funcionam porque toda a V. velutina que agarre na sua bolinha de carne ou peixe, dirige-se de imediato para o ninho para a entregar às suas larvas. Estas, por sua vez, vão entregar-lhe as regurgitações açucaradas e ricas em aminoácidos já temperadas com uma ínfima quantidade de “free-pro”, que depressa as libertará de forma muito definitiva e permanente dos labores terrestres.

Notas: 1) bom, bom era que estas regurgitações “tingidas” chegassem à rainha do ninho. E nada impede que em circunstâncias afortunadas chegue, porque também elas se alimentam destas regurgitações.

2) bom, bom era também que uma linha de investigação explorasse esta ideia que deixei em 2019 nesta publicação.

vespa velutina: efeito inicial dos iscos proteicos — apêndice

Do meu conhecimento, e na sequência desta publicação, 3 amigos experimentaram pela primeira vez os iscos proteicos com quantidades baixas de fipronil. Ligaram-me a descrever os efeitos positivos observados, com uma diminuição muito acentuada na predação e o retorno das abelhas à actividade normal de forrageio. As pipetas utilizadas foram da marca Frontline Combo, a referida na publicação, e que contém um adulticida (o fipronil) e um larvicida (o metopreno).

Também na sequência desta publicação outro companheiro relatou que utilizou uma pipeta de Fronline Tri-Act para elaborar o isco proteico. Observou que nas quatro horas que manteve as colónias fechadas as velutinas não apanharam isco absolutamente nenhum! De forma espirituosa remata a sua observação com esta tirada bem humorada: “Posso ter feito alguma coisa mal.. não ter salteado os camarões em azeite e não ter acompanhado com um verde cá da casa.”

De facto o problema e a razão do insucesso está noutro aspecto. O Frontline Tri-Act, como o nome indica é um composto que actua em três frentes: a adulticida e a larvicida, até aqui igual ao Fronline Combo, mas às quais adiciona um efeito repelente dos insectos. É este efeito repelente que explica o facto de as velutinas não terem pegado no isco.

Os desparasitantes com um ingrediente repelente de insectos não devem ser utilizados na elaboração de iscos proteicos, como o caso do Frontline Tri-Act, entre outros.

Fica a chamada de atenção para este detalhe de importância crítica para que a palatibilidade/atracção do isco proteico seja adequada.

Utilizem esta ou outra técnica, mas pela saúde das vossas abelhas façam o possível para evitar a paralisia de voo, comportamento que ocorre habitualmente nas colónias quando na presença de 3 ou mais velutinas a pairar sobre a entrada das colmeias. Para além de não fazerem as naturais tarefas de forrageio, as abelhas nestas circunstâncias sofrem uma carga de stresse oxidativo que lhes retira saúde. Acossadas, unem-se pelo medo. Por muita valentia que as abelhas mostrem formando um “tapete” compacto à entrada da colmeia, estão a envelhecer demasiadamente depressa neste ambiente que as aterroriza.

vespa velutina: controlar a dispersão de novas fundadoras

Cada ninho maduro de V. velutina, cria em média 600-900 machos e 350-500 novas fundadoras por cada ciclo anual.

Se nesta população de novas fundadoras forem eliminadas antes de iniciarem uma nova colónia por causas naturais, como competição entre fundadoras e/ou por predação de outros animais, ou por causas artificiais, como armadilhagem para captura de fundadoras levadas a cabo por apicultores e outros, 90% dos indivíduos, os 10% da população sobrevivente terá o potencial para criar 350 a 500 mil novos indivíduos no ano em questão, a uma razão de 10 mil indivíduos por ninho.

Pela capacidade estonteante de criar inúmeros indivíduos reprodutores e fecundados por cada ciclo anual, fica claro que qualquer estratégia de controlo desta praga só terá sucesso se estiver desenhada e se tiver os meios para eliminar os ninhos maduros antes da dispersão de novas fundadoras, isto é antes de do mês de outubro, em geral.

Para levar a cabo a localização e/ou destruição dos ninhos antes da fase de dispersão da nova geração de fundadoras temos vários procedimentos, todos eles com virtualidades e limitações:

  • localização por triangulação;
  • localização por radar;
  • localização por imagens térmicas;
  • localização por perseguição;
  • localização acidental;
  • estações com iscos tóxicos;
  • “cavalos de troia”;

A propósito da localização de ninhos por perseguição deixo este pequeno vídeo com um exemplar da V. mandarinia, espécie ainda não identificada na Europa. A V. mandarinia, a maior vespa do mundo, tem a capacidade para levantar voo com um “lençol” agarrado. Com a V. velutina teria que se fazer com algo mais leve e pequeno. Nestas condições seria visível com um drone? Nada como experimentar, se ainda não foi experimentado.

Nota: os apicultores utilizam um conjunto mais vasto de ferramentas para proteger as suas colónias, que não menciono nesta publicação — escrevi outras publicações sobre as mesmas. Essas ferramentas estão desenhadas para defender as colónias de abelhas, e são mais ou menos eficazes. Contudo uma boa parte dessas técnicas e ferramentas têm apenas esse alcance: protegem as colónias mas não têm um impacto notável nos ninhos da V. velutina e na sua dispersão anual.

vespa velutina: contas e reflexões

As contas:

(i) Sabemos que os ninhos de uma colmeia Lusitana ou Langstroth bem povoado tem cerca de 20 mil abelhas.

(ii) Sabemos que 20 mil abelhas pesam 2 kgs, aproximadamente.

(iii) Sabemos que em Portugal e por quilómetro quadrado podemos estimar com bom grau de confiança uma presença média de 5 ninhos maduros de vespa velutina que escaparam às rudimentares medidas de controlo das fundadoras de que dispomos.

(iv) Sabemos que cada ninho maduro consome cerca de 12 kgs de insectos.

(v) Podemos agora calcular que por cada quilómetro quadrado as vespas velutinas consomem 60 kgs de insectos, o correspondente a trinta ninhos de abelhas bem povoados.

V. velutina com uma mosca das flores entre as mandíbulas.

As reflexões:

  1. a grande ameaça à biodiversidade são as velutinas em si mesmo, e só a destruição dos ninhos, mecânica ou química, antes da produção de futuras fundadoras permite algum controlo da praga;
  2. os abelharucos não são um meio de controlo das velutinas ; apenas consomem algumas poucas velutinas. Para serem um meio de controlo deveriam atacar e destruir os ninhos da vespa antes da produção de futuras fundadoras. Na melhor das hipóteses afugentam durante uns dias ou semanas as velutinas dos nossos apiários;
  3. só na nossa imaginação cada fundadora capturada corresponde a menos um ninho mais adiante. Uma boa parte das fundadoras não chegam a criar ninhos porque morrem por causas naturais antes de o fazerem. No entanto e apesar disso basta uma taxa de sobrevivência de 10% das fundadoras criadas no ano anterior para por cada ninho termos mais 35 a 50 novos ninhos no ano seguinte e enquanto os recursos locais permitirem esta taxa de crescimento.

vespa velutina: efeito inicial dos iscos num apiário com pressão elevada

Na sequência de duas publicações, aqui e aqui, um companheiro apicultor decidiu experimentar nesta terça-feira a utilização de iscos tóxicos para diminuir e controlar a elevada predação/presença de vespas velutinas no seu apiário. O contexto era indicado à utilização desta técnica pois na véspera tinha observado entre 15 e 30 vespas a rondarem as suas colmeias.

Como atractivo utilizou 400 grs. de camarão triturado aos quais adicionou uma pipeta de Frontline Combo de 2,68 ml de volume e com 268 mg de fipronil. De acordo com os cálculos, cada 100 grs. de isco continha 0,067 grs. de fipronil. Esta concentração está situada num valor intermédio entre as concentrações referidas no estudo espanhol (0,01% p/p) e as concentrações utilizadas na Nova Zelândia e Argentina (0,1% p/p).

Os procedimentos que utilizou seguiram de perto o protocolo do estudo espanhol. Por volta das 6h30m fechou as colmeias com esponjas dedicadas, que permitem a entrada de ar, ou com as réguas de transumância. Por volta das 7h30m distribuiu o isco por várias zonas do apiário. Nas duas primeiras horas do procedimento a maior parte vespas pouco ligou ao isco, preferindo fazer o habitual: pairar à frente das colmeias à espera de abelhas que desta vez não saíam. Passadas estas duas horas iniciais as vespas mudaram o chip e passaram a focar-se nos iscos, poisaram sobre eles, fizeram as habituais bolas deles e com o (pet)isco bem agarrado entre as patas levantavam voo. Durante as quatro horas que manteve as colónias fechadas estima que as velutinas levaram cerca de 50% do isco. Passadas as 4 horas retirou o isco sobrante e abriu as colónias. De tarde voltou ao apiário e encontrou apenas 3 velutinas a rondarem as colmeias. Efeito do isco? efeito da sua presença horas antes?

Ontem, passadas 48h, diz-me o seguinte: “Vi uma a duas vespas e enxames a trabalhar. Tenho de dar a mão à palmatória, porque estava muito céptico em relação ao resultado. Acho estranho na segunda-feira haver a quantidade que havia e agora não. É que nem lhes dei porrada, o que as poderia afastar. Só as deixei andar a levar a comida.

Passadas 48h, ou a bichas são muito assustadiças e ainda tremem de medo só de pensar voltar àquele apiário habitado por um vulto branco fantasmagórico, ou ficaram de cama com uma indigestão estranha, associada a febre alta, suores frios e tremores musculares. Será que o camarão estava estragado?

vespa velutina: estamos a utilizar demasiado fipronil nos cavalos de troia?

Há uns três ou quatro anos atrás, o Marco Portocarrero da Nativa dizia-me que os apicultores estavam a utilizar concentrações demasiado elevadas de fipronil nos cavalos de troia.

Hoje estive a fazer uns cálculos e concluo o mesmo! Espero ter feito estes cálculos correctamente, contudo se encontrarem algum erro enviem-me um comentário, por favor, para o corrigir.

Nesta publicação recente, ficamos a saber que a concentração óptima de fipronil para a produção de iscos é de 0,01% p/p. Se não estou equivocado, significa que por cada 100 grs. de isco se deve colocar 0,01gr de fipronil.

Encontramos o fipronil em vários desparasitantes de animais de companhia, como por exemplo o Frontline Combo.

Neste folheto promocional podemos verificar que cada pipeta de 4,02 ml contém 402mg de fipronil. Julgo que temos todos os dados necessários para calcular qual o volume de Frontline Combo que devemos utilizar para preparar 100 grs de isco. Se não errei nos cálculos são necessários 0,1 ml. Portanto, se prepararmos 1 kg de isco, a quantidade indicada para um apiário com 50 colmeias (10 porções de 50 gr, uma porção para cada grupo de 5 colmeias) e para duas aplicações durante dois dias, segundo o estudo referido, necessitamos de 1 ml, isto é 1/4 da pipeta. Se tivermos 4 apiários com cerca de 50 colmeias cada, necessitamos de uma pipeta (4 ml), que nos permitirá fazer 4 kgs de isco, o necessário para diminuirmos de forma significativa e em 48h o número de velutinas a predarem as nossas abelhas e durante duas semanas ou mais. Se não necessitarmos de todo o isco podemos congelá-lo até voltar a ser necessário.

Os cálculos para determinar o volume de Frontline Combo necessário para obter uma concentração de 0,01 grs de fipronil por 100 grs de isco.

Para quem tem poucas colmeias e não necessita desta quantidade de isco, medir 0,1 ml não é nada simples. Neste caso sugiro utilizar a concentração de fripronil usada nos iscos produzidos da Nova Zelândia (0,1 p/p). Neste caso para uma concentração de 0,1 gr por cada 100 grs. de isco, necessitamos de 1ml de Frontline, isto é 1/4 da pipeta.

Os cálculos para determinar o volume de Frontline Combo necessário para obter uma concentração de 0,1 grs de fipronil por 100 grs de isco.

Esta publicação é um contributo para diminuir a quantidade de fripronil utilizada nos cavalos de troia e, portanto, reduzir a sua desseminação no território. Infelizmente, em zonas predadas intensamente pela Vespa velutina, não vejo como dispensar esta ferramenta tão eficaz no controlo de níveis de predação moderados (entre 10 e 30 velutinas em simultâneo no apiário) ou altos (mais de 30 velutinas em simultâneo no apiário). Isto enquanto as ferramentas de localização dos vespeiros não evoluam e nos permitam eliminar 80-90% dos ninhos antes de as futuras fundadoras acasalarem e dispersarem. Quando chegar esse dia podemos pensar de forma realista que temos a praga debaixo de controlo. Até lá vamos fazendo o que pudermos para salvar as nossas colmeias, utilizando as armadilhas para captura de fundadoras o mais selectivas possível e biocidas na menor quantidade necessária.

Nota: se utilizarem outras marcas sigam o mesmo processo de cálculo, tendo em consideração a concentração/quantidade de fipronil por volume de pipeta.

vespa velutina: avaliação da eficácia dos iscos proteicos com fipronil em estudo espanhol

Efficacy of Protein Baits with Fipronil to Control Vespa velutina nigrithorax (Lepeletier, 1836) in Apiaries é um estudo espanhol publicado em junho deste ano. Creio que é o único estudo publicado numa revista científica (Animals) acerca da avaliação do impacto dos “cavalos de troia” na visitação e predação de abelhas melíferas por V. velutinas em apiários na Península Ibérica. A utilização dos “cavalos de troia” é uma técnica controversa, aspecto que é abordada neste parágrafo do artigo: ” […] é necessário estudar os riscos que larvas e vespas mortas e restos de iscas podem representar para aves, outros insetos e meio ambiente.

Resumo Simples
Desde a introdução acidental da vespa-de-patas-amarela (Vespa velutina nigrithorax) no início do século 21 na Europa, ela tornou-se uma ameaça para muitos polinizadores, incluindo as abelhas domésticas. Após sua chegada a França em 2004, rapidamente se espalhou pelo continente, chegando a Gipuzkoa (País Basco) em 2010, onde representa um sério problema para a apicultura. Para reduzir este problema, várias estratégias de controle foram desenvolvidas, como a remoção de ninhos ou a captura de rainhas fundadoras na primavera. No entanto, estes métodos não foram eficazes na redução do impacto das vespas na apicultura. O uso de iscas proteicas com biocidas tem-se mostrado um método eficaz no controle de populações de vespas invasoras em ambientes naturais, porém, não têm sido utilizadas para o controle de V. velutina [nota minha: não tem sido utilizado oficialmente e com a autorização das autoridades administrativas]. Este estudo avaliou a eficácia destas iscas na redução do impacto das vespas nos apiários. Os resultados mostraram que quando a presença de vespas nos apiários é alta, ocorre um alto consumo de iscas, levando a uma redução significativa no número de vespas em 48 h. Esta redução dura pelo menos duas semanas após a colocação da isca e permite que as abelhas recuperem e retornem à sua atividade normal.

A diminuição do número de vespas observada no grupo de apiários com maior pressão de V. velutina, além de ser mais pronunciada 48 após a colocação das iscas, manteve-se constante ao longo das duas semanas seguintes. As contagens pós-isca nos dias +2, +7 e +14 foram significativamente menores do que no dia 0 para os dois grupos de apiários com maior número de vespas. No grupo com menor pressão de V. velutina, embora tenha havido uma leve redução no número de vespas no dia +2 e no dia +7, a diminuição não foi significativa.

Sumário técnico
A vespa-de-patas-amarela (Vespa velutina nigrithorax), fora de sua área de distribuição natural, tornou-se uma grande ameaça para as abelhas domésticas. Vários métodos de controle têm sido usados para combater V. velutina, mas os resultados obtidos não são satisfatórios. O uso de iscas proteicas com biocidas tem-se mostrado um método eficaz no controle de populações de vespas invasoras, mas não tem sido utilizado para o controle de V. velutina. Assim, a eficácia de iscas proteicas contendo fipronil para reduzir a presença de vespas em apiários foi avaliada neste estudo. Após a determinação laboratorial da eficácia ótima de uma isca proteica com concentração de 0,01% de fipronil, foram realizados ensaios de campo envolvendo 222 apicultores. Os dados relatados pelos 90 apicultores que responderam ao questionário solicitado demonstraram que nos grupos de apiários com maior pressão de vespas (grupos com 10–30 e mais de 30 vespas por apiário), houve uma diminuição significativa na presença de V. velutina, durante pelo menos duas semanas. A redução no número de vespas foi positivamente correlacionada com o consumo de iscas, e o consumo de iscas foi positivamente correlacionado com o número de vespas presentes no momento do tratamento. Embora o método utilizado tenha mostrado boa eficácia e a concentração de fipronil utilizada tenha sido muito baixa possíveis efeitos negativos sobre o meio ambiente também devem ser avaliados.”

Materiais e métodos

Testando a Eficácia de Iscas em Apiários
Para verificar a eficácia das iscas de proteína, o trabalho de campo ocorreu entre agosto e outubro de 2019, 2020 e 2021. Foi obtida autorização oficial do Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da Espanha e do Conselho Provincial de Gipuzkoa.

Foram utilizados quatro tipos de iscas proteicas, sendo três de peixe e uma de carne. Todos tinham a mesma concentração de fipronil (0,01% p/p) [0,01 gr de fipronil por 100 gr de isco]. […] Entre 50 e 100 gr de isca foram acondicionados em pequenos recipientes recicláveis e mantidos congelados (-20 °C) até à utilização nos apiários. A distribuição dos iscos aos apicultores foi feita na sede do GBA, onde os técnicos anotaram a quantidade de iscos fornecidos a cada apicultor, o número de apiários e colmeias a tratar e o local onde foram colocados.
Para realizar os ensaios, os apicultores que concordaram em participar foram informados sobre uma série de pré-requisitos a serem atendidos, (i) um número mínimo de vespas deveria estar presente no apiário (>2 vespas por apiário), (ii) em dias de chuva e/ou ventos fortes devem ser evitados, (iii) no dia do tratamento, a entrada das colmeias deve ser fechada antes do amanhecer e mantida fechada por 4 h, período em que as iscas foram colocadas próximo das colmeias.
Assim, uma hora após o nascer do sol, com as iscas descongeladas e temperadas, um pequeno recipiente com aproximadamente 50 g de isca para cada 4 a 5 colmeias foi colocado próximo da entrada das colmeias. À medida que a isca era consumida, mais isca era adicionada. No final do dia, as embalagens eram recolhidas e descartadas em ponto de reciclagem.

Ensaios de inactivação larval em laboratório
Comparando os efeitos das iscas tóxicas nos diferentes grupos de larvas, aquelas alimentadas com a isca contendo 0,01% de fipronil apresentaram maior percentagem de larvas afetadas em 24 h.

Uma mortalidade de 100% foi observada 48 horas após a administração das iscas tóxicas. […] Após 48 h, as larvas controle ainda estavam vivas.
A maioria das larvas alimentadas com iscas proteicas com diferentes concentrações de fipronil apresentaram mudança progressiva de coloração, passando a uma coloração enegrecida quando morreram. Para determinar se a mudança de cor foi devido à ingestão de fipronil, as larvas de controle foram mantidas sem comida até morrerem. Dez dias após o início da experiência, as larvas controle perderam a atividade até morrerem, evoluindo de esbranquiçadas para pretas, como ocorreu com as larvas alimentadas com fipronil.

Mudanças de cor observadas nas larvas de Vespa velutina após 48 h de alimentação com fipronil (A) em comparação com a larva controle sem consumo de fipronil (B,C).

Discussão
A remoção do ninho e captura de rainhas fundadoras na primavera e operárias no verão são as técnicas mais comuns usadas para o controle de V. velutina. A melhor estratégia é combinar diferentes métodos ao longo do período de atividade anual das vespas. Neste estudo, apresentamos outro método utilizado com sucesso com outros membros da família Vespidae baseado no controle químico com iscas tóxicas. Vários biocidas foram investigados para controlar vespas, e o fipronil forneceu eficácia ótima em doses baixas. De fato, uma isca protéica com fipronil foi recentemente comercializada na Nova Zelândia para esse fim*. Primeiramente, é fundamental que a isca seja palatável e não provoque nenhum tipo de rejeição por parte das vespas. A esse respeito, ao longo dos três anos, nenhum apicultor indicou nos questionários que havia observado qualquer rejeição da isca por parte das vespas. Em segundo lugar, uma baixa dose de biocida na isca é fundamental porque as vespas adultas precisam sobreviver à exposição à isca e serem capazes de a transportar até ao ninho para alimentar as larvas. No presente estudo, os ensaios in vivo alimentando as larvas com iscas contendo diferentes concentrações de biocida mostraram que o percentual de inativação das larvas aumentou com a concentração, obtendo 84,1% de inativação após 24 h para a concentração máxima de fipronil testada (0,01%). Os restos de fipronil encontrados em larvas mortas representaram de 13% a 30% do total de biocida administrado. Essa baixa concentração pode ser atribuída aos processos de metabolismo e excreção do biocida. […]
Assim, a isca proteica com 0,01% de fipronil foi selecionada para o estudo de eficácia nos apiários, apresentando efeito significativo na redução da presença de V. velutina. Observou-se que para minimizar a pressão de V. velutina no apiário, a quantidade de isca tóxica transportada para os ninhos deve ser alta. No entanto, o consumo de iscas dependia do número de vespas presentes no apiário com resultados ótimos quando mais de 30 vespas estavam presentes ao mesmo tempo em frente das colmeias do apiário. A redução no número de vespas no grupo de apiários com >30 vespas (≈75%) foi semelhante a outros estudos que usaram iscas proteicas com fipronil para controlar espécies de Vespula em ambientes naturais, mas menor em comparação com outros. No entanto, a concentração de fipronil usada no presente estudo é dez vezes menor (0,01% p/p) do que as concentrações de fipronil usadas para controlar outras espécies de Vespidae (0,1% p/p). Além disso, não temos conhecimento de outras publicações sobre a eficácia de iscas de proteína tóxica no controle de V. velutina em apiários e, infelizmente, não podemos comparar os nossos resultados com outros estudos realizados em locais semelhantes. Além disso, de acordo com as observações dos apicultores, a redução alcançada nos apiários com alta predação permitiu que as abelhas continuassem sua atividade normal.

[…] Embora a contagem de vespas não tenha continuado após +14 dias pós-isca, alguns apicultores relataram um aumento de vespas, mas que não atingiram a contagem inicial. Esses aumentos foram provavelmente devidos à eclosão de novas vespas que estavam em estágio de pupa no momento da isca e, conseqüentemente, não foram alimentadas com a isca tóxica. Além disso, após o declínio inicial, um rápido aumento de vespas também foi relatado num apiário. Isso pode ser devido às vespas vindas de outros ninhos devido à menor competição entre as vespas após a iscagem em comparação com os dias anteriores. No grupo de apiários com baixa contagem de vespas (<10), alguns apiários mostraram uma ligeira diminuição no número de vespas, mas rapidamente o recuperaram.


Vários autores descobriram que aumentar a intensidade das iscas aumenta sua eficácia. Como visto neste estudo, o uso de biocidas como o fipronil pode ser útil para controlar as populações de V. velutina nos períodos de maior pressão nos apiários. […] o uso de iscas proteicas com biocidas deve ser o mais restrito possível, optimizando as condições para o máximo consumo no menor tempo possível. Essas condições podem ser alcançadas se uma isca altamente palatável estiver disponível, e os apicultores usarem essa estratégia quando os apiários são fortemente predados por V. velutina no final do verão e início do outono, quando os ninhos de V. velutina crescem rapidamente, sob controle e supervisão das autoridades locais.
O controle de V. velutina em apiários não só beneficia a apicultura como também preserva a fauna entomológica local, que também é alvo da vespa de patas amarelas. Nesse sentido, estudos realizados em França, indicam que várias espécies de vespas sociais podem representar um terço das presas de V. velutina.”

fonte: https://www.mdpi.com/2076-2615/13/13/2075

Notas: *1) Como complemento ver aqui e aqui sobre a utilização de iscos com fipronil utilizados na Nova Zelândia para controlar a vespa germânica, um insecto exótico naquele país.

2) Ainda que consciente da controvérsia que a utilização de cavalos de troia apresenta, entendo que no actual contexto de forte predação de apiários em certos territórios, a Europa devia permitir a produção controlada e a utilização parcimoniosa e com dispositivos seguros deste tipo de iscos tóxicos, à imagem do que se faz na Nova Zelândia para o controle da Vespa germânica. Enquanto assim não for, a utilização desta técnica continuará a ser levada a cabo, como já o é, provavelmente com doses de tóxico superiores ao necessário e com dispositivos rudimentares que aumentam o risco dos efeitos colaterais noutras espécies.

apicultura darwiniana: análise crítica

Deixo em baixo a tradução/adaptação de um texto que analisa de forma crítica algumas das reivindicações mais frequentemente utilizadas pelo grupo de apicultores que abraçou uma abordagem radical dos pontos de vista expostos por Tom Seeley no artigo de 2017, Darwinian beekeeping: An evolutionary approach to apiculture (American Bee Journal. 157. 277-282).

“Nos últimos anos, algumas formas de apicultura alternativa foram revitalizadas, como a apicultura sem tratamentos (treatment free), biodinâmica e “natural”. Estas práticas ganharam popularidade quando o professor Tom Seeley divulgou as suas experiências e conclusões em 2017 e introduziu o conceito “Apicultura darwiniana”. Seeley argumenta que o conceito de evolução através da seleção natural raramente é usado na apicultura. Segundo ele imitando as condições naturais das abelhas e a seleção natural, podemos levá-las a superar os seus problemas. As soluções surgirão rapidamente se o apicultor estiver sintonizado com esta visão.

No passado, o campo da apicultura “natural” foi inspirado por uma filosofia da new age: “as abelhas superam tudo com o poder da natureza”. Ao longo do caminho, as intervenções de Seeley e outros cientistas, introduziram formas alternativas de apicultura, envolvendo os princípios da biologia evolutiva. Neste texto, explicarei como essa combinação de apicultura alternativa e ciência produziu uma cultura pseudo-darwiniana de práticas extremas. Meu principal problema com a chamada “apicultura darwiniana” é que ela não é verdadeiramente darwiniana. E não quero dizer que não seja radical o suficiente, muito pelo contrário. Este ramo da apicultura usa constantemente o apelo à natureza, criando uma retórica particularmente atraente para os apicultores orgânicos e alguns apicultores de pequena dimensão adeptos da lazy beekeeping (apicultura preguiçosa).

Estes apicultores tentam a apicultura “natural” e sem tratamentos sustentados alegadamente em argumentos darwinianos. Vou desenvolvê-los a seguir. É de realçar que Seeley é bastante cuidadoso nas suas palavras e instruções, mas as suas ideias são distorcidas e usadas de forma excessivamente rígida e radical. Na demanda da “naturalidade”, qualquer método natural de apicultura nunca será natural o suficiente. Surgirá sempre uma forma mais “natural” e “pura”.

Primeira reivindicação: “As abelhas sobreviveram milhões de anos enfrentando doenças e pragas sem intervenção humana. Portanto, têm, ou podem desenvolver, os mecanismos para lidar com a varroa, etc., desde que deixemos a natureza fazer o seu trabalho.”

Na história natural, inúmeras espécies bem adaptadas extinguiram-se por mudanças súbitas no meio. O Varroa destructor mudou o meio subitamente e teria exterminado as abelhas europeias se os humanos não tivessem intervindo.

Segunda reivindicação: a natureza tem o método de seleção natural para eliminar os desajustados e escolher os ajustados. A apicultura natural está mais próxima da seleção natural.

A seleção natural é um processo de eliminação/selecção ao longo de milhares de anos. Na verdade, estes métodos apícolas alegadamente naturais exercem muitas vezes uma pressão de seleção excessivamente rápida, expondo as abelhas ao stresse crónico (parasitário e dietético) e à morte de milhares de milhões de abelhas. O esquecimento destas perdas incontáveis é bem explicado pelo viés da sobrevivência. Além disso, a evolução das espécies envolve três outros mecanismos além da seleção natural: deriva genética, mutação genética e fluxo genético. Não encontramos referências a estes três mecanismos na apicultura darwiniana porque estragam qualquer narrativa credível acerca da sua efectividade.

Terceira reivindicação: Qualquer intervenção ou assistência com substâncias químicas, biológicas ou mesmo naturais retarda a adaptação natural das abelhas contra patógenos e parasitas.

Outro erro fundamental em torno do qual a apicultura sem tratamentos é construída. Pelo contrário, a intervenção dá às abelhas tempo para se adaptarem. Quanto tempo tiveram as primeiras colónias de abelhas europeias quando entram em contato com varroa? Muito pouco… e sucumbiram.

Quarta reivindicação: Através de métodos naturais de apicultura, o ácaro Varroa perde sua natureza agressiva e desenvolve uma relação simbiótica com as abelhas.

O Varroa destructor é um parasita europeu das abelhas melíferas. É improvável que perca essa característica rapidamente, só porque algumas pessoas colocam as abelhas dentro de troncos de árvores e as deixam enxamear todos os anos. Lembrem-se de que os parasitas e predadores permaneceram os mesmos por milhões de anos e não mudam facilmente. Por exemplo, vespas predadoras, esses ancestrais das abelhas, permanecem predadoras.

Quinta reivindicação: As abelhas na natureza escolhem as suas novas rainhas, enquanto nós, com nossas técnicas, as impedimos de escolhê-las.

Esta é uma das reivindicações mais fracas no texto de Seeley. Uma análise meticulosa da enxameação revela que há uma aleatoriedade na criação natural de rainhas. É como se as operárias “optassem por não escolher” suas rainhas, fazendo numerosos cálices que serão utilizados pela rainha de forma aleatória. As operárias simplesmente descartam algumas larvas mal alimentadas, enquanto retêm o elemento aleatório. Surpreendentemente, muitas das técnicas de translarve de rainhas mantêm um elemento análogo de aleatoriedade.”

fonte: https://thebeekeepinglab.com/2023/07/08/pseudo-darwinism-in-beekeeping/?fbclid=IwAR26HCU8BeHf1DAyYguCRS-49_SaEqVIsdlSfJ317AhhXm3v5mPuXJMhD5Q_aem_Ae9BTGDi31rgF_uwnNsrzVInb1J306DJoYO0rkoJz9NA7BszGhVCPk-7dByljzkWzMU

Notas:

1) na minha opinião a publicação “a minha resistência à resistência: o foco no foco” complementa esta adequadamente.

2) Aceitando que esta abordagem darwiniana seja a melhor maneira de lidar com os ácaros varroa, nunca funcionará se não for adoptada por praticamente TODOS os apicultores e ao mesmo tempo, isto para evitar a deriva/diluição genética dos traços que conferem resistência.

3) E se TODOS aderirem ao projecto… como se resolverá a falência da polinização, a escassez de alimentos e os efeitos sociais e económicos decorrentes de mortalidade massiva de 95-99% das colónias de abelhas e isto durante os anos que o efectivo apícola levará a recuperar?

4) Esta experiência com animais sociais, com milhões de milhões de abelhas condenadas ao sofrimento e à morte desnecessária, às mãos de uma ideologia que por uma triste ironia se diz apicentrada e que procura o bem-estar das abelhas, é um paradoxo ético.

5) Ninguém sabe que abelha resultará de um processo de selecção tão esmagador como o desta proposta “vive e deixa morrer”, que conduzirá inevitavelmente a um enorme empobrecimento do pool genético, aspecto que contraria a tendência natural de promoção da diversidade genética das abelhas .

6) Que garantias há que o ácaro varroa não evoluirá também para se adaptar a colónias pequenas, que enxameiem muito e que não são tratadas, como proposto pelos mais acérrimos defensores desta via, a única respeitadora das abelhas na sua opinião.

7) Como percepcionamos deixar de tratar os nossos outros animais domésticos, cães, gatos, …, para que a natureza elimine os indivíduos susceptíveis às doenças e para as quais temos medicamentos?

o mundo agrícola unido pela biodiversidade ou uma breve história de um apicultor do Marne

Apicultor orgânico/bio em Ville-en-Tardenois, no Marne, Philippe Lecompte conta com uma estreita colaboração com o setor agrícola como um todo para preservar a fauna e a flora (ver aqui entrevista).

A jornada de Philippe Lecompte, apicultor orgânico perto de Reims!
Este especialista em abelhas e amante teve sua primeira colmeia em 1975 e tornou-se profissional em 1979. Preocupado com a qualidade do mel e o bem-estar de suas abelhas, tornou-se orgânico/bio em 1995. Philippe também é presidente da Réseau Biodiversité pour les Abeilles, e vice-presidente da associação Symbiose para paisagens e biodiversidade, que reúne representantes do mundo agrícola e vitivinícola, várias autoridades regionais do Grand Est e indústrias de proteção de plantas.

Este ano em França, as beterrabas, inclusive as orgânicas, foram parasitadas por pulgões, com quedas espetaculares de rendimento. Existem apenas dois tratamentos: os piretroides sintéticos, que são administrados por pulverização e, portanto, podem envenenar vários insetos com facilidade, e as sementes revestidas com neonicotinoides, menos prejudiciais porque permanecem no solo.

Mas esta polémica, acima de tudo, impede que se pense nas verdadeiras causas da mortalidade das abelhas. A Plataforma de Epidemiologia de Saúde Animal, uma organização independente sob a égide do Ministério da Agricultura e do INRAE (Instituto Nacional de Investigação para a Agricultura, Alimentação e Ambiente), publica um estudo anual sobre as causas de mortes de abelhas:

  • 1º responsável: parasitas, em particular a varroa, cuja fêmea se alimenta da abelha, e transmite um vírus mortal (nova estirpe de vírus mais virulenta espalha-se pelas colónias de abelhas na Europa).
  • Na 2ª posição, a Plataforma aponta para as más práticas apícolas, cada vez mais difundidas. A abelha é o terceiro animal doméstico em França há vários anos. Muitas pessoas iniciam a apicultura sem ter as habilidades e os conhecimentos necessários, o que tem graves consequências na mortalidade do seu efectivo.

Quais são as relações entre o apicultor do Grand-Est e outros atores do mundo agrícola?
A agricultura é um castelo de cartas: se uma cai, as outras seguem. Por exemplo, o desaparecimento do setor francês de beterraba teria sérias consequências na produção de alfafa, uma planta muito benéfica para a preservação da biodiversidade, porque as unidades de desidratação da alfafa também produzem polpa de beterraba, essencial para assegurar a sua rentabilidade.

Na nossa região, os atores do setor agropecuário em sentido amplo trabalham juntos há vários anos nestas questões. A associação Symbiose lançou assim iniciativas e experiências para promover a biodiversidade nos nossos territórios, como a instalação de faixas intra-parcela com floração escalonada, de forma a garantir a alimentação dos polinizadores durante todo o ano, sebes ou faixas de alfafa na orla das parcelas.”

fonte: https://www.lunion.fr/id201075/article/2020-10-23/marne-le-monde-agricole-uni-pour-la-biodiversite