como fazer para não ter de tratar durante o fluxo de néctar — o simulador de Varroa –

As notícias que têm circulado nos grupos apícolas portugueses ao longo das últimas semanas confirmam aquilo que já se antevia: 2025 foi um ano de grande razia de colónias por efeito da varroa. Ainda em agosto e setembro alertei que, mantendo-se o rumo seguido no maneio de muitos apiários, mais de 200 mil colónias em Portugal acabariam por morrer devido à varroose. Infelizmente, os relatos de perdas generalizadas mostram que essa previsão não estava longe da realidade.

O mais preocupante é que, se nada mudar, este cenário tem tudo para se repetir no final de 2026. Um número elevado de apicultores anda visivelmente perdido e confuso sobre como controlar este parasita e a varroa não perdoa improvisos nem indecisões — e continuará a fazer estragos enquanto não for enfrentada com conhecimento, planeamento e rigor.

Esta realidade explica porque ferramentas como o simulador de varroa do Randy Oliver são hoje tão importantes. Não porque ofereçam respostas automáticas, mas porque ajudam a organizar o pensamento, a perceber a dinâmica real da varroa e a antecipar consequências. O simulador mostra de forma clara aquilo que no apiário muitas vezes passa despercebido: pequenos atrasos, decisões mal temporizadas ou níveis aparentemente baixos de infestação conduzem inevitavelmente a colapsos meses mais tarde. Ao visualizar a evolução da varroa ao longo do ano, o apicultor deixa de andar às cegas e passa a compreender quando, como e porquê intervir.

O simulador de varroa do Randy Oliver é um “abre-olhos” que contribui para compreender e prever a evolução da população de Varroa destructor ao longo do ano dentro de uma colónia de abelhas.

Num contexto em que muitos apicultores se sentem confusos e sem referências claras, o simulador funciona como uma ferramenta pedagógica poderosa, permitindo planear o controlo da varroa de forma integrada com o ciclo da colónia, o calendário apícola e os períodos de produção de mel. Em vez de tratamentos de emergência, aplicados tarde demais e em momentos impróprios, promove decisões informadas, atempadas e ajustadas à realidade de cada apiário — precisamente o tipo de abordagem que pode evitar que as perdas massivas se repitam nos próximos anos.

Uma das grandes vantagens do simulador de varroa é permitir antecipar a evolução da infestação ao longo do ano, em vez de reagir apenas quando os níveis já são preocupantes. Ao integrar o crescimento da colónia, a dinâmica da criação e a reprodução da varroa, o modelo ajuda-nos a identificar com antecedência os momentos críticos em que a população de ácaros irá ultrapassar os limiares de risco. Isto permite planear intervenções no momento biologicamente mais eficaz, quando a varroa ainda está controlável e os tratamentos têm maior impacto.

Na prática, esta abordagem reduz significativamente a necessidade de tratar em alturas impróprias, como durante os períodos de fluxo intenso de néctar e armazenamento de mel. Em vez de decisões tardias e forçadas, o apicultor passa a ter um plano baseado em previsão, podendo intervir antes do pico de varroa e preservar simultaneamente a saúde da colónia, a qualidade do mel e a tranquilidade do maneio. Controlar a varroa deixa assim de ser um exercício de emergência e passa a ser um processo estratégico ao longo do ano.

Convido-o a juntar-se ao curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano, onde não só aprenderá a operar o simulador de varroa, mas sobretudo a interpretá-lo e adaptá-lo às condições específicas do seu apiário.

O objetivo não é aplicar modelos de forma cega, mas usar a ferramenta para pensar biologicamente, antecipar problemas e tomar decisões ajustadas à sua realidade.

Se a leitura deste artigo o fez perceber que conhecer e saber operar com ferramentas de apoio à decisão e planeamento, como é o caso do simulador aqui descrito, são fundamentais, então o curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para si. Nesta nova edição, vamos muito além da aplicação de medicamentos de forma cega e tardia: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.

O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ultimas vagas disponíveis. Solicite mais informação para: jejgomes@gmail.com

Varroa, Nosema e o colapso de colónias

Ao longo das últimas duas décadas, várias hipóteses tentaram explicar as perdas anormais de colónias de abelhas. Entre elas, duas surgem repetidamente: Nosema ceranae e Varroa destructor. A diferença entre ambas não está na sua presença — ambas são hoje comuns — mas no seu peso real enquanto causa de colapso. A sequência de estudos abaixo, apresentada por ordem cronológica, permite perceber como a evidência científica foi clarificando esta hierarquia.

2010 — Genersch et al.; Projeto Alemão de Monitorização de Abelhas (Apidologie, 2010)

Este foi um dos primeiros estudos longitudinais de grande escala: mais de 1200 colónias, acompanhadas durante vários anos, com análise simultânea de varroa, vírus, nosema, estado da colónia e fatores ambientais.

Os resultados foram consistentes: as perdas invernais correlacionaram-se fortemente com níveis elevados de Varroa destructor e vírus associados, sobretudo quando a infestação era alta no outono. Nosema spp. não surgiu como fator explicativo robusto nas análises multivariadas.

Conclusão-chave:
À escala populacional e temporal, o colapso de colónias está ligado sobretudo à varroa e às viroses, não à nosema.

2010 — Guzman-Novoa et al.; Invernagem no Ontário, Canadá (Apidologie, 2010)

Neste estudo de campo em condições reais de apicultura comercial, foram acompanhadas centenas de colónias durante o inverno. A análise focou-se na relação entre sobrevivência, níveis de varroa e presença de nosema.

O resultado foi inequívoco: mais de 80% das colónias que morreram apresentavam níveis elevados de varroa no outono. A presença de nosema não diferenciou colónias sobreviventes das colónias perdidas.

Conclusão-chave:
Quando a varroa está presente a níveis elevados, ela domina completamente o risco de mortalidade; a nosema torna-se irrelevante como causa primária.

2015 — Kielmanowicz et al.; Modelo preditivo de colapso (PLOS Pathogens, 2015)

Este estudo prospetivo acompanhou 179 colónias em três regiões climáticas dos EUA, sem tratamentos contra varroa ou antibióticos, permitindo observar a dinâmica natural de colapso. O grande avanço foi a criação de um modelo preditivo multifatorial.

O modelo mostrou que cerca de 70% dos colapsos podiam ser explicados por:

  • Varroa destructor,
  • replicação ativa do vírus das asas deformadas (DWV),
  • e fatores climáticos em combinação com os anteriores.

Nosema ceranae não foi selecionada como variável preditiva relevante, apesar da sua elevada prevalência.

Conclusão-chave:
O colapso não ocorre porque a nosema está presente, mas porque a varroa amplifica viroses letais.

2015 — Dainat et al.; Predictive markers of honey bee colony collapsePLoS ONE (2012)

Este estudo combinou dados de campo, patógenos e sobrevivência de colónias, procurando marcadores preditivos reais de colapso. Embora não seja o mais recente, é importante porque define o enquadramento epidemiológico moderno.

Conclusões relevantes:

  • A replicação de vírus associados à varroa (especialmente DWV) foi o melhor preditor de colapso.
  • Nosema ceranae não surgiu como marcador fiável de perdas.
  • O colapso foi melhor explicado por interações varroa–vírus, não por infeções isoladas.

Conclusão clara: O colapso é um processo epidemiológico dominado por varroa e viroses; a nosema não funciona como marcador principal.

2018 — van Dooremalen et al.; Efeitos isolados e interativos (Ecosphere, 2018)

Neste ensaio experimental de campo, os autores testaram separadamente e em combinação:

  • Varroa destructor,
  • Nosema spp.,
  • e exposição crónica subletal a imidacloprida.

O estudo mostrou que a varroa teve o impacto mais consistente na dinâmica das colónias, enquanto a nosema apresentou efeitos fracos ou contextuais, sem provocar colapso por si só.

Conclusão-chave:
Nem todos os stressores têm o mesmo peso: a varroa continua a ser o fator estruturalmente mais destrutivo.

2018 — Nazzi & Pennacchio; Disentangling multiple interactions in the hive collapseTrends in Parasitology (2018)

Este é um dos artigos de revisão mais influentes da última década sobre colapso de colónias. Não é um estudo experimental, mas integra dados globais e propõe um modelo epidemiológico coerente.

Pontos centrais da revisão:

  • Varroa destructor é o “driver” central que reorganiza todo o ecossistema patogénico da colónia.
  • A varroa altera o panorama viral global, transformando DWV num agente altamente virulento.
  • Nosema ceranae é classificada como stresso r secundário, com impacto dependente do contexto.
  • Não há evidência sólida de que a nosema, isoladamente, cause colapso generalizado.

Conclusão clara:
O colapso de colónias é um fenómeno epidemiológico emergente dominado pela varroa; outros agentes, incluindo a nosema, orbitam esse núcleo causal.

2020 — Traynor et al.; Varroa destructor: A complex parasite, crippling honey bees worldwideTrends in Parasitology (2020)

Categoria: revisão epidemiológica global (últimos 10 anos)

Este artigo revê décadas de dados de campo, genética, virologia e epidemiologia, com foco explícito na pergunta: porque é que as colónias colapsam?

Resultados-chave:

  • A varroa é apresentada como o principal fator causal direto e indireto das perdas globais.
  • O impacto real da varroa ocorre através da amplificação viral, sobretudo DWV.
  • Nosema ceranae é considerada ubíqua, mas sem correlação consistente com colapso em estudos de larga escala.
  • Onde a varroa é controlada eficazmente, as perdas caem drasticamente, mesmo com nosema presente.

Conclusão clara:
Se existe um fator epidemiológico dominante no colapso de colónias a nível mundial, esse fator é a varroa.

2021 — Neumann & Carreck; Honey bee colony lossesJournal of Apicultural Research (2021)

Esta revisão sintetiza dados europeus e globais recentes, incluindo monitorizações nacionais.

Conclusões relevantes:

  • As perdas de colónias são multifatoriais, mas não simétricas.
  • Varroa destructor permanece o fator mais consistentemente associado a perdas.
  • Nosema ceranae é raramente identificada como causa primária, surgindo sobretudo como infeção concomitante.

Conclusão clara:
Multifatorial não significa “tudo pesa o mesmo”: a varroa pesa mais.

2023 — Schüler et al.; “Significativa, mas não biologicamente relevante” (Communications Biology, 2023)

Com base em 15 anos de dados, este estudo avaliou a relação entre infeções por Nosema ceranae e perdas invernais. Embora a nosema apresentasse associação estatística com perdas, o tamanho do efeito foi considerado biologicamente irrelevante.

Quando comparada com a varroa, a nosema não explicou nem previu a mortalidade.

Conclusão-chave:
A nosema pode estar presente, mas não explica o colapso; a varroa explica.


A leitura crítica de Randy Oliver sobre os estudos de Higes

Da hipótese à hierarquia real das causas

Ao longo de mais de uma década de análise de dados e ensaios de campo, Randy Oliver acompanhou criticamente os estudos de Higes e os trabalhos posteriores. A sua posição atual é clara:

  • Nosema ceranae raramente é o motor principal do colapso,
  • atua sobretudo como stressor secundário ou oportunista,
  • enquanto Varroa destructor, através das viroses, é o verdadeiro fator estruturante das perdas globais.

Conclusão-chave:
Se a nosema fosse a causa dominante, os sinais seriam claros e repetíveis — e não são.


Conclusão geral

Quando se olha para estudos epidemiológicos e revisões de alto nível da última década, o padrão é extraordinariamente consistente:

  • Varroa destructor → fator central, estruturante, dominante.
  • Vírus associados (DWV) → mecanismo direto de colapso.
  • Nosema ceranae → comum, por vezes agravante, mas epidemiologicamente secundária.

Perceber esta diferença não é apenas um debate académico: é a base para decisões eficazes no terreno, na investigação e no maneio apícola.

É sobre decisões eficazes no terreno que falaremos na próxima edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, a iniciar-se a 20 de fevereiro. Últimas vagas disponíveis (os interessados solicitem mais informação para o e-mail jejgomes@gmail.com)

o inimigo oculto: contagem por lavagem de ácaros vs aumento líquido diário de varroa

Mesmo que não se observe um impacto evidente na colónia com contagens de varroa até cerca de 6 ácaros, nessa altura a situação já está prestes a sair do controlo.

Isto acontece porque a população de varroa está a aumentar a um ritmo diário assustador (ver Figura em baixo), juntamente com os vírus que transmite, à medida que aumenta a percentagem de pupas parasitadas.

Figura – Compreender o crescimento exponencial

Contagem por lavagem de ácaros vs aumento líquido diário de varroa


A população de varroa aumenta de forma exponencial, muito mais rapidamente do que a contagem obtida numa lavagem de ácaros.

Quanto maior for o número de varroas na colónia, maior é o aumento líquido diário de novos ácaros (e mais acentuada é a curva de crescimento).

Partindo de um aumento diário de apenas algumas varroas por dia, em meados de maio (com uma contagem de apenas 3 varroas numa lavagem), a população de varroa já está a crescer a um ritmo líquido de cerca de 50 varroas por dia.

Um mês depois (com uma contagem de 6 varroas), o crescimento já é de cerca de 100 varroas por dia.

E mais um mês depois (com uma contagem de 13 varroas), a colónia está a ganhar quase 200 varroas adicionais por dia.

A partir desse ponto, a colmeia deixou de ser uma produtora de mel e passou a ser, literalmente, uma fábrica de varroa.

Fonte: https://scientificbeekeeping.com

A leitura deste artigo faz-nos perceber que monitorizar varroa não chega, e que o desafio/competência está em interpretar os números, antecipar a dinâmica da praga — utilizando um bom simulador de crescimento da população de varroas, como o que apresentarei e ensinarei como o operacionalizar para o território de cada um dos formandos — e agir no momento certo.

O curso Controlo efectivo da Varroa ao longo do ano foi pensado precisamente para fornecer estas competências. Nesta nova edição, vamos muito além das contagens isoladas: trabalhamos a varroa como um problema biológico e populacional, integrado no ciclo anual da colónia, no clima e no maneio real do apiário.

O curso decorrerá online, via Zoom, nos dias 20 e 27 de fevereiro e 6 de março, com início às 20h30, permitindo participação a partir de qualquer ponto do país. Ainda existem algumas vagas disponíveis. É uma formação exigente, baseada em ciência, observação de campo e tomada de decisão informada — porque na apicultura, como na biologia, adiar raramente é neutro.

controlo efectivo da Varroose: um curso com apicultores satisfeitos e resultados para apresentar

Deixo o testemunho do Eduardo Côrte-Real sobre os “dias seguintes” à sua frequência do meu curso “Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano“.

Boa noite e bom ano Eduardo. Peço desculpa pela demora mas só hoje é que consegui terminar os testes que queria fazer. Não há dúvida nenhuma que nunca tive abelhas como tenho agora. Também tenho percas, mas o que está bom nunca esteve assim. O maior ganho que obtive, nem foram as ferramentas que apresentaste, mas sim o critério e o pormenor que utilizas. Decididamente não posso utilizar os fundos sanitários para avaliar taxas de infestação. A resistência que tinha em sacrificar as 300 abelhas para aferir as percentagens era grande erro meu. Tenho hoje 3 opções para combater a varroa muito satisfatórias. Concluí que a eficácia dos tratamentos não é linear em todas as colónias. Mas se não for com um método, consegue-se com outro. O Protocolo Inovador é muito bom, mas trabalhoso. Também consegui bons resultados com o oxálico sublimado 5 vezes com 4 dias de intervalo e com o amicel, uma tira por semana, vezes 3 semanas. Fiz outras experiências mas o resultado não foi tão satisfatório. Grande abraço.”

O Eduardo Côrte-Real, para quem não conhece, é apicultor com colmeias na zona de Cantanhede, criador reconhecido de boas rainhas autóctones nesta zona centro do país, sendo a escolha preferencial de vários apicultores que são meus clientes dos serviços técnicos de apoio no apiário.

A propósito informo que se encontra aberta uma nova edição do curso “Controlo Efectivo da Varroose”, a decorrer via Zoom, nas seguintes datas:

  • 20 de fevereiro
  • 27 de fevereiro
  • 6 de março

O curso é composto por 3 sessões e tem como objetivo dotar os formandos de uma abordagem prática, fundamentada e atualizada para o controlo da varroose.

Ao longo das sessões serão abordados, entre outros, os seguintes temas:

  • A mudança necessária no paradigma de actuação para controlar a Varroose ao longo do ano
  • A taxa de crescimento da varroa ao longo do ano: as 3 velocidades de crescimento
  • Que tempo se “compra” entre tratamentos: das ilusões ao realismo
  • 2 critérios inovadores para uma escolha mais ajustada dos acaricidas
  • Tratamentos mais baratos, em resposta às questões e necessidades colocadas/apresentadas por apicultores portugueses
  • Os limiares aconselhados para intervir
  • Os medicamentos mais oportunos e respetivos protocolos de utilização
  • Tratamentos proactivos: o que são e seu papel crítico na definição de estratégias de controlo da Varros
  • Monitorização da taxa de infestação por varroa: procedimentos correctos e limiares de actuação
  • O simulador de varroa de Randy Oliver e a sua parametrização para o território de cada formando/apicultor
  • Aplicação do simulador a territórios concretos com proposta de tratamentos
  • O Protocolo Inovador: fundamentos, operacionalização, detalhes de optimização do seu potencial, filmagens de sua aplicação e resultados obtidos.

Solicite mais informações enviando e-mail para: jejgomes@gmail.com

choque-shake: o açúcar também mata as abelhas na monitorização da taxa de infestação

Este estudo (2025) demonstra que, apesar da suposição generalizada de que o método do açúcar em pó (powdered sugar shake) utilizado na monitorização da taxa de infestação de abelhas adultas é inofensivo, resulta numa mortalidade significativa de abelhas operárias nos primeiros cinco dias após o procedimento. Assim, a ideia de que as abelhas devolvidas à colmeia após este método não sofrem danos é falsa.

“Verificámos que as abelhas operárias submetidas ao powdered sugar shake apresentaram uma probabilidade significativamente menor de serem recapturadas na colmeia cinco dias depois do procedimento, quando comparadas com abelhas apenas polvilhadas com açúcar em pó (sem sacudir) e com o grupo controlo, que foi apenas marcado e libertado.

A combinação do açúcar em pó com a ação de sacudir vigorosamente as abelhas durante um minuto parece ser o fator responsável pelos efeitos negativos observados. Para além de possíveis danos físicos, sabe-se que a agitação pode provocar alterações cognitivas nas abelhas. Assim, os apicultores devem estar conscientes de que muitas das abelhas submetidas a este procedimento podem não sobreviver nos dias seguintes.

Os nossos resultados mostram que o powdered sugar shake e a lavagem em álcool apresentam resultados semelhantes quando os níveis de infestação por varroa estão acima de 3%, o limiar de intervenção mais utilizado. No entanto, a eficácia do método do açúcar em pó é altamente variável, situando-se aproximadamente entre 63% e 95%, sendo fortemente influenciada por fatores ambientais como a humidade e a presença de néctar, que provocam o empastamento do açúcar.

Esta variabilidade constitui uma limitação séria, pois pode levar os apicultores a subestimar níveis elevados de infestação e, consequentemente, a não intervir quando necessário, aumentando o risco de perdas de colónias. Em síntese, a suposição de que as abelhas sobrevivem sem consequências ao powdered sugar shake é incorreta, e este método revela-se menos fiável para estimar a infestação por varroa. Assim, recomendamos que a lavagem em álcool seja adotada como método predominante de monitorização.


Ao longo das diversas edições do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, perdi um ou outro formando por aconselhar a monitorização da varroa através do método do álcool em lugar do açúcar em pó.

A minha posição baseia-se na observação de campo e no conhecimento científico disponível: a monitorização com açúcar trata-se de um método pouco fidedigno — sendo a fidedignidade a consistência e estabilidade dos resultados de um instrumento de medição — e que provoca a morte de uma parte significativa das abelhas nos dias subsequentes ao procedimento.

Independentemente das consequências nunca darei prioridade, nos meus cursos, à necessidade de agradar em detrimento da exigência de ser verdadeiro, rigoroso e tecnicamente correto.

Em breve anunciarei as datas para nova edição do curso Controlo efetivo da varroose ao longo do ano, edição com inevitáveis actualizações, induzidas por um conhecimento e experiência de campo que não estão parados no tempo.

uma solução para conservar o xarope e dimuir a carga de nosema e uma calculadora inovadora e exclusiva

Quem já tentou conservar grandes volumes de xarope sabe que as perdas por fermentação, os erros de dose e os custos acumulados acabam por pesar — especialmente quando se procura algo mais do que “apenas alimentar”. Foi precisamente para responder a esse problema prático que desenvolvi esta calculadora simples, direta e extremamente intuitiva, pensada para uso real por qualquer apicultor.

A lógica não podia ser mais clara, como se vê na imagem: o apicultor só tem de preencher a célula amarela com o volume de xarope (em litros) que pretende preparar. Nada mais. A partir daí, a calculadora trata automaticamente de todos os cálculos necessários, sem margem para erros ou confusões.

Em função desse volume, a ferramenta indica de forma imediata a quantidade de solução-mãe a utilizar, distinguindo claramente dois objetivos diferentes: um efeito conservante/preservante, pensado para manter o xarope estável e seguro, e um efeito terapêutico, associado a uma redução significativa da carga de microesporídios responsáveis pela Nosemose, tal como demonstrado por investigação independente.

Outro aspeto que considero fundamental é o custo. Esta abordagem mostra que não é preciso recorrer a soluções caras para obter resultados eficazes. Para se ter uma ideia concreta apresento em baixo tabela comparativa dos custos da solução mãe, lado a lado com dois aditivos comerciais muito utilizados para aditivar 100 L e 500 L de xarope contra a proliferação da Nosema no intestino das abelhas adultas.

Solução100 L (€)500 L (€)
Solução A (preservante)0,76 €3,82 €
Solução A (terapêutica)1,14 €5,70 €
Comercial 141,25 €206,25 €
Comercial 270,60 €352,98 €

Além da poupança direta, esta solução mãe e esta calculadora devolve algo muito importante ao apicultor: controlo. Controlo sobre quantidades, sobre objetivos e sobre aquilo que está efetivamente a ser feito no xarope que vai para as colmeias. Tudo é dimensionado automaticamente ao volume real preparado, evitando improvisos e “doses por intuição”.

Não se trata de substituir o conhecimento ou a observação do apiário, mas de traduzir esse conhecimento numa ferramenta prática, que qualquer apicultor pode usar sem formação técnica específica. A imagem fala por si: uma célula amarela, um número… e o resto está feito.

Mais simples, mais intuitivo e mais económico do que isto, sinceramente, é difícil.

Em breve esta calculadora será disponibilizada exclusivamente aos formandos que estão inscritos na sessão de nível 2, dia 23 de janeiro, do curso Nutrição Apícola Aplicada.

Por uma apicultura atenta, precisa e económica!

xaropes de açúcar: quais escolher ou quando mais caro e alegações de marketing não significa mais nutritivo

Preferência por açúcares e efeitos na digestibilidade alimentar e e longevidade das abelhas-mel

As abelhas-mel dependem fortemente de fontes externas de energia para sustentar as suas actividades metabólicas, o desenvolvimento das glândulas e a manutenção da colónia. Em condições naturais, essa energia é obtida sobretudo a partir do néctar floral, cuja composição é dominada por sacarose, glucose e frutose, em proporções variáveis consoante a espécie vegetal. Quando o néctar escasseia, a alimentação suplementar com xaropes de açúcar torna-se uma prática essencial em apicultura.

Os resultados deste estudo demonstram de forma consistente que as abelhas apresentam uma preferência marcada pela sacarose, especialmente quando fornecida em concentrações elevadas. Em todos os ensaios de escolha, tanto em gaiolas como em contexto de colónia, a solução de sacarose foi consumida em maiores quantidades do que as soluções de glucose, frutose ou misturas destes monossacarídeos.

Esta preferência alimentar não é apenas comportamental, mas está intimamente ligada à eficiência nutricional. As abelhas alimentadas com sacarose consumiram mais alimento energético e, simultaneamente, ingeriram maiores quantidades de pólen, o que sugere uma relação positiva entre a disponibilidade de sacarose e o estímulo da alimentação proteica.

Um dos resultados mais relevantes discutidos no artigo diz respeito à digestibilidade do pólen. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram melhores índices de digestão, evidenciados por uma menor quantidade de resíduos não digeridos no trato digestivo. Isto indica que a sacarose favorece um ambiente digestivo mais eficiente, potenciando a assimilação dos nutrientes do pólen.

Em contraste, as dietas baseadas exclusivamente em frutose ou glucose revelaram pior aproveitamento digestivo, apesar de serem açúcares simples. Estes resultados sugerem que a facilidade química de absorção dos monossacarídeos não se traduz necessariamente numa melhoria da digestão global da dieta sólida associada, como o pólen.

A sacarose, sendo um dissacarídeo, necessita de ser hidrolisada pelas invertases das abelhas antes de ser absorvida. Este processo parece desempenhar um papel regulador benéfico no metabolismo digestivo, promovendo uma libertação de energia mais equilibrada e compatível com os ritmos fisiológicos das abelhas-operárias.

Além disso, a presença de sacarose pode estimular a actividade das enzimas digestivas envolvidas na degradação das paredes do pólen, facilitando o acesso às proteínas, lípidos e micronutrientes nele contidos. Este efeito é particularmente importante para abelhas jovens, responsáveis pela produção de geleia real e pela alimentação da criação.

Outro aspecto discutido prende-se com a longevidade. As abelhas alimentadas com sacarose apresentaram maior sobrevivência ao longo do tempo, o que sugere que este açúcar não só é preferido, como também mais seguro e adequado do ponto de vista fisiológico quando comparado com frutose ou glucose isoladas.

Embora as abelhas alimentadas com frutose tenham apresentado, em alguns casos, níveis corporais de lípidos ligeiramente mais elevados, este efeito não se traduziu numa melhoria funcional da saúde ou da longevidade. Pelo contrário, pode reflectir alterações metabólicas menos eficientes ou até desequilíbrios energéticos.

É importante salientar que o teor de água corporal não diferiu significativamente entre os tratamentos, indicando que os efeitos observados se devem sobretudo ao tipo de açúcar ingerido e não a alterações na hidratação das abelhas.

Do ponto de vista da apicultura prática, estes resultados reforçam a ideia de que a sacarose é o substituto mais adequado do néctar natural. Não só é mais bem aceite pelas abelhas, como promove maior consumo de pólen e uma digestão mais eficiente, factores essenciais para a vitalidade da colónia.

A utilização de glucose ou frutose isoladas, apesar de energeticamente viáveis, pode comprometer o aproveitamento da dieta proteica e, a longo prazo, afectar negativamente o desenvolvimento das abelhas e a sua capacidade de trabalho.

Os autores sublinham ainda que a composição do xarope não deve ser avaliada apenas em termos de energia imediata, mas também pelo seu impacto indirecto na digestão do pólen e no equilíbrio nutricional global da abelha.

Em períodos críticos, como o final do inverno ou durante fluxos de néctar fracos, a escolha correcta do tipo de açúcar pode fazer a diferença entre colónias resilientes e colónias debilitadas. A sacarose surge, assim, como a opção mais segura e fisiologicamente compatível.

Em síntese, a discussão deste estudo confirma que a sacarose não é apenas preferida pelas abelhas-mel, mas desempenha um papel central na optimização da digestão, da ingestão proteica e da sobrevivência, reforçando a sua importância como base dos xaropes de alimentação suplementar em apicultura moderna.

fonte: https://www.researchgate.net/publication/385033023_Sucrose_glucose_and_fructose_preference_in_honeybees_and_their_effects_on_food_digestibility

Este estudo constitui um exemplo claro do que estamos a falar de competências de nutrição de nível avançado, precisamente o nível de exigência e profundidade que fundamenta as propostas formativas do curso Nutrição Apícola Aplicada / Nutrição Suplementar de Abelhas (3.ª edição — arranca a 16 de janeiro). A análise crítica dos dados científicos, como a relação entre o tipo de açúcar, a digestibilidade do pólen e a resposta fisiológica das abelhas, vai muito para além das alegações frequentemente repetidas — e nem sempre devidamente evidenciadas — pelo poderoso marketing das empresas de substitutos alimentares para abelhas. No curso, estes temas são abordados de forma rigorosa, mas com uma linguagem clara e acessível, permitindo ao apicultor compreender os mecanismos subjacentes às escolhas nutricionais. Essa abordagem é reforçada por ferramentas práticas, incluindo calculadoras inovadoras e exclusivas, que transformam o conhecimento científico em critérios de decisão concretos, ajudando a distinguir entre evidência sólida e simples argumentos comerciais.

avaliação técnica das colónias da Quinta da Machada: impacto sanitário, nutricional e perspetivas para a campanha

No âmbito do acompanhamento técnico regular, realizei hoje uma visita com análise aprofundada a cerca de 25% das colónias dos apiários da Quinta da Machada, com foco na avaliação sanitária e no estado nutricional.

O primeiro aspeto que merece destaque é o efeito prolongado do Protocolo Inovador de controlo da Varroose. A última aplicação foi realizada há cerca de 90 dias, e os resultados observados — ilustrados nas fotografias que acompanham esta publicação — mostram uma eficácia elevada, na ordem dos 95%, valor que tem sido recorrente quando o protocolo é corretamente aplicado. Mesmo após este intervalo de tempo, a pressão de Varroa mantem-se baixa e controlada, o que demonstra não apenas a eficácia imediata, mas também a consistência e durabilidade deste protocolo.

Este desempenho reflete-se nos indicadores globais do efetivo. Durante o ano de 2025, registou-se o colapso por varroose de apenas uma colónia, num universo superior a 100 colónias em produção. Este dado é particularmente relevante num contexto em que a varroose continua a ser a principal causa de perdas de colónias, e demonstra o impacto de uma estratégia sanitária estruturada, baseada em monitorização, timing correto e aplicação rigorosa dos procedimentos.

Um segundo indicador técnico observado foi o armazenamento significativo de pão de abelha em muitas colónias. A presença de reservas proteicas excedentárias indica que a recolha de pólen ultrapassa as necessidades imediatas de consumo, o que só ocorre quando as colónias apresentam boa vitalidade, equilíbrio demográfico e ausência de stress sanitário relevante. O armazenamento de pão de abelha constitui um excelente marcador indireto do estado sanitário e nutricional, refletindo eficiência forrageira e capacidade metabólica adequada.

Apesar do bom desempenho global, foram identificadas colónias com desenvolvimento mais lento. Nestes casos, está a ser implementado apoio técnico dirigido, recorrendo a suplementação proteica, ajustada ao estado de cada colónia. Este apoio tem como objetivo reduzir assimetrias no apiário, acelerar a recuperação das colónias mais atrasadas e promover uma evolução mais homogénea do conjunto, sem comprometer o equilíbrio nutricional.

Do ponto de vista ambiental, observa-se atualmente um incremento progressivo de recursos florais, com o campo a entrar numa fase de forte potencial polinífero e nectarífero. Este cenário apresenta boas perspetivas para a campanha, desde que os apiários se encontrem devidamente estabilizados do ponto de vista sanitário. Colónias com cargas elevadas de Varroa ou pressão viral não conseguem converter este potencial em produtividade efetiva, reforçando a importância do controlo prévio da varroose.

Tudo isto reforça uma ideia central: o sucesso da apicultura começa muito antes da florada. A visita confirma que o controlo eficaz da Varroose é um pré-requisito para qualquer estratégia produtiva, e que os resultados observados no campo são diretamente proporcionais à qualidade do maneio sanitário implementado ao longo do ano.

Neste contexto, e em resposta a diversos pedidos — em particular de apicultores que enfrentaram perdas significativas e dificuldades técnicas no ano transato — será anunciada em breve uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, incluindo os procedimentos detalhados de aplicação do Protocolo Inovador. As datas serão divulgadas oportunamente, permitindo a mais apicultores adquirir ferramentas técnicas para enfrentar este desafio de forma informada, consistente e sustentável.

varroa, vírus e o colapso silencioso das colónias

Nas últimas décadas, o colapso de colónias de abelhas deixou de ser um fenómeno episódico para se tornar um problema estrutural da apicultura moderna. Um estudo recente, realizado durante um grande evento de colapso de colónias nos Estados Unidos, vem reforçar uma realidade cada vez mais clara: não é apenas a Varroa que mata as colónias, mas sobretudo os vírus que ela transporta e amplifica.

A análise de abelhas recolhidas no epicentro desse colapso revelou uma preponderância esmagadora de vírus de RNA, em particular dois iflavírus altamente patogénicos (DWV-A e DWV-B) e o dicistrovírus responsável pela paralisia aguda das abelhas (ABPV). Estes vírus não são novos, mas o que impressiona é a sua concentração, combinação e virulência, atingindo níveis raramente documentados.

Todos estes vírus têm um fator comum: são transmitidos de forma altamente eficiente pelo ácaro Varroa destructor. A Varroa deixou de ser apenas um parasita; tornou-se um vetor biológico extremamente eficaz, capaz de injetar diretamente partículas virais no sistema circulatório das abelhas, contornando as defesas naturais que normalmente limitariam a infeção.

Os ensaios laboratoriais descritos no estudo são particularmente perturbadores. Inóculos virais obtidos a partir de abelhas moribundas demonstraram replicação ativa e elevada patogenicidade quando inoculados em abelhas saudáveis. Num dos casos mais extremos, uma suspensão viral obtida a partir de uma única abelha doente mesmo quando diluído 10 a 8 vezes em relação à suspensão original, resultou numa taxa de mortalidade de 44% para as abelhas expostas. Por extrapolação, a suspensão desta única abelha foi suficientemente patogénica para provocar a mortalidade em poucos dias de aproximadamente 66 milhões de abelhas expostas.

Este dado é crucial para compreender a dimensão do problema. Por extrapolação, a carga viral presente numa única abelha infetada teria potencial para causar mortalidade em dezenas de milhões de abelhas em poucos dias. A diferença entre uma diluição letal e uma inócua foi de apenas um fator dez, evidenciando uma curva dose-resposta extremamente íngreme e uma virulência excecional.

Estes resultados ajudam a explicar porque tantas colónias entram em colapso de forma aparentemente súbita. As abelhas adultas infetadas por vírus vivem menos tempo. Quando a taxa de mortalidade das operárias ultrapassa a capacidade da colónia em produzir novas abelhas, o colapso torna-se inevitável. Muitas vezes, quando os sintomas se tornam visíveis, o dano já é irreversível.

A Varroa agrava ainda mais este cenário através do seu comportamento alimentar. Particularmente no outono, o ácaro alterna rapidamente entre várias abelhas adultas, parasitando sucessivamente grande parte da colónia. Mesmo um número relativamente reduzido de Varroas é suficiente para infetar a maioria das operárias, criando uma pressão viral intensa e contínua.

O estudo traz também más notícias no que respeita ao controlo químico. Todos os ácaros recolhidos nas colónias em colapso apresentavam um marcador genético associado à resistência ao amitraz, o acaricida mais utilizado atualmente. A mutação Y215H, associada a essa resistência, estava presente de forma praticamente universal.

Este dado é particularmente alarmante, uma vez que o amitraz tem sido a principal ferramenta de controlo da Varroa após a perda de eficácia de outros acaricidas como o coumaphos e o tau-fluvalinato. A evidência sugere que, nestes apiários, o amitraz já não estava a controlar eficazmente a Varroa, permitindo níveis elevados de infestação e, consequentemente, uma explosão viral.

As implicações são profundas. Colónias em colapso tornam-se focos de reinfestação, libertando Varroas e vírus para colónias vizinhas, especialmente em regiões de elevada densidade apícola. O problema deixa de ser individual e passa a ser populacional, exigindo uma abordagem coordenada e tecnicamente fundamentada.

Este trabalho reforça uma mensagem essencial: controlar a Varroa não é opcional, é vital, mas já não pode ser feito de forma simplista ou dependente de uma única molécula. A gestão eficaz da Varroose é, na prática, uma gestão do risco viral, onde o tempo, o método e a estratégia fazem toda a diferença.

fonte: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2025.05.28.656706v1.full.pdf

É precisamente neste contexto que a formação técnica ganha um papel central. Com base na melhor evidência científica disponível e na experiência de campo, em breve serão abertas novas datas para uma nova edição do curso Controlo efectivo da Varroose ao longo do ano, dirigido a apicultores que procuram compreender o problema em profundidade e aplicar soluções coerentes, proativas e sustentáveis. Num cenário cada vez mais exigente, o conhecimento deixou de ser um complemento — tornou-se uma ferramenta de sobrevivência.

a geleia real e as lições que devemos tirar para nutrir as nossas abelhas

Do ponto de vista do consumidor, é fundamental reconhecer a importância da manutenção da cadeia de frio para preservar inalteradas as características naturais da geleia real.

A geleia real é uma substância gelatinosa e viscosa, parcialmente solúvel em água, com uma densidade aproximada de 1,1 g/mL. A sua cor varia entre o branco e o amarelo, sendo que o tom amarelado tende a intensificar-se com o tempo de armazenamento. O odor é ácido e penetrante, e o sabor simultaneamente ácido e ligeiramente doce. Estas características sensoriais constituem critérios essenciais de qualidade. Geleia real envelhecida ou mal armazenada tende a escurecer e pode desenvolver sabores rançosos, sinal inequívoco de degradação. Para garantir uma qualidade ótima, a geleia real deve ser conservada em estado congelado.

A viscosidade da geleia real varia em função do seu teor de água e da idade do produto, aumentando progressivamente quando armazenada à temperatura ambiente ou mesmo sob refrigeração a cerca de 5 °C. Estas alterações estão associadas à continuação da atividade enzimática e à interação entre as frações lipídica e proteica, processos que conduzem à perda gradual das suas propriedades originais.

(fonte: Royal Jelly, Bee Brood: Composition, Health, Medicine: A Review; Stefan Bogdanov, 2011)

Do ponto de vista do apicultor que pretende ir muito além de “alimentar às cegas” e que tem como objetivo maximizar o efeito nutricional dos suplementos e substitutos alimentares utilizados nas suas colónias, saber “ler” a geleia real é uma competência absolutamente basilar.

Essa leitura não é simbólica nem intuitiva: trata-se de compreender a relação entre os seus constituintes, usando a geleia real como referência biológica para perceber quais os equilíbrios nutricionais que sustentam uma criação intensa e de qualidade.

Uma leitura competente e fundamentada, associada a uma calculadora simples mas rigorosa, que permita calcular com precisão os ingredientes necessários para atingir um “bolo” ou “bife” proteico equilibrado, constitui o pré-requisito para transformar o ato de alimentar numa ação verdadeiramente nutricional — e até nutricêutica.

Quando a alimentação deixa de ser um gesto automático e passa a ser uma estratégia pensada, adaptada ao estado da colónia e aos objetivos pretendidos, o impacto na vitalidade, na longevidade das abelhas e no desempenho global da colónia torna-se evidente.

É precisamente esta abordagem que será trabalhada no curso Nutrição Apícola Aplicada, com início no próximo dia 16. Ao longo da formação, os participantes adquirirão a competência de “ler” corretamente a geleia real e outros produtos da colmeia e terão acesso a uma calculadora exclusiva e inovadora (entre outras), concebida para apoiar decisões nutricionais fundamentadas.

Deixo abaixo uma imagem da versão atualizada dessa calculadora, que será explorada em detalhe durante a formação e que tem capacidade para:

  • calcular a quantidade proteica e PB respectiva da bolo/bife proteico;
  • calcular a componente açucarada, lipídica e húmida e ajustar dentro de limiares de acordo com os objectivos pretendidos e o estado da colónia;
  • calcular com grande rigor o equilíbrio dos diversos componentes para obter um efeito nutritivo de estimulação ou um efeito de manutenção;
  • calcular o consumo semanal tendo em conta a dimensão do enxame