a Vespa velutina é mais perigosa ? Talvez o veneno não seja a principal razão

Uma notícia recente da CNN Portugal sobre a Vespa velutina apresentava uma ideia que me chamou a atenção: a vespa asiática não seria necessariamente mais venenosa do que as outras vespas, mas teria características que a poderiam tornar mais perigosa.

Nota: não consegui aceder ao conteúdo integral da notícia da CNN Portugal, pelo que não pude ler o texto completo. A análise que se segue parte do título, da informação visível na publicação e dos comentários associados.

Nos comentários apareceram rapidamente outras explicações. Uma pessoa afirmava que estas vespas “têm sete vezes mais veneno”; outra dizia que cada uma teria uma quantidade de veneno equivalente a cinco ou seis vespas europeias, acrescentando ainda que uma mesma Vespa velutina pode ferroar várias vezes.

Vale a pena separar estas afirmações, porque algumas são verdadeiras, outras apenas parcialmente e outras não encontram, até onde consegui verificar, suporte na literatura científica.

Comecemos pelo veneno. Não encontrei qualquer evidência de que uma Vespa velutina tenha cinco, seis ou sete vezes mais veneno do que a nossa Vespa crabro, a vespa-europeia. Estudos recentes que analisaram os sacos de veneno das duas espécies encontraram nas obreiras aproximadamente 274 µg de proteína no extracto do saco de V. velutina e 189 µg em V. crabro.[1,2]

Também não sabemos com suficiente rigor quanto veneno injecta uma V. velutina quando ferroa. Curiosamente, sabemos mais sobre a abelha. Uma Apis mellifera pode administrar cerca de 70 µg nos primeiros segundos e ultrapassar os 100 µg quando o aparelho do ferrão permanece mais tempo na pele, podendo aproximar-se dos 140 µg.[3]

A composição dos venenos também não é igual. O veneno da abelha contém uma proporção muito elevada de melitina, um péptido fortemente associado à dor e à inflamação. O da V. velutina apresenta outra combinação de péptidos, enzimas e aminas biologicamente activas, entre as quais fosfolipase A1, antigénio 5, hialuronidases, mastoparanos e serotonina.[4,5] Não seria, por isso, estranho que duas pessoas descrevessem de forma diferente a dor de uma picada de abelha e de uma ferroada de velutina. Nos comentários à notícia, uma considerava a picada da abelha bastante mais dolorosa; outra dizia precisamente o contrário. Ambas podem estar apenas a descrever a sua experiência.

Mas dor, quantidade de veneno, toxicidade e perigosidade não são a mesma coisa.

Talvez o problema esteja sobretudo na frequência com que nos cruzamos com ela

Vespa velutina tornou-se extraordinariamente abundante em algumas regiões europeias e ocupa territórios onde existe uma forte sobreposição entre as pessoas e as suas colónias. Na Galiza foram comunicados mais de 154 mil ninhos entre 2012 e 2021, chegando a mais de 28 mil por ano em 2020 e 2021.[6]

E os ninhos não estão apenas no alto das árvores. No levantamento galego, 36% encontravam-se em edifícios ou outras estruturas humanas e 3% no solo. Surgiam em telhados, sótãos, paredes, chaminés, janelas, varandas, contentores, caixas de visita e muitas outras estruturas próximas das pessoas.[6]

Há ainda ninhos em vegetação baixa, sebes, silvados ou cavidades do solo. Podem representar uma parte relativamente pequena do total, mas têm uma característica importante: é possível aproximarmo-nos muito sem os detectar.

Imagine-se alguém a cortar silvas com uma roçadora, a aparar uma sebe, a limpar um terreno ou a trabalhar com uma máquina agrícola. Pode não saber que existe ali uma colónia até provocar vibrações ou atingir directamente o ninho. Nesse momento deixa de estar perante uma vespa que procura alimento e passa a estar muito próximo de uma colónia a defender-se.

Os ensaios de Moon Bo Choi ajudam a perceber essa diferença. A aproximação calma a um ninho originava uma resposta relativamente limitada. Movimentos bruscos aumentavam a reacção e, depois de uma perturbação directa do ninho, várias dezenas de obreiras podiam participar na defesa da colónia.[7]

Isto não significa que uma Vespa velutina isolada esteja permanentemente predisposta a atacar pessoas. Uma obreira que procura alimento e uma colónia perturbada são situações muito diferentes.

Há poucos dias tive um exemplo muito simples desta proximidade crescente. Estava a fazer uma refeição ao ar livre, a comer peixe, quando uma Vespa velutina se aproximou até ficar a poucos centímetros de mim e da comida. Não aconteceu nada. O hábito de lidar com abelhas levou-me simplesmente a evitar movimentos bruscos e a afastar-me calmamente. O encontro terminou aí.

Outra pessoa, menos habituada à presença destes insectos, poderia ter tentado enxotá-la com as mãos ou dar-lhe uma pancada. Talvez também não acontecesse nada, mas aumentaria desnecessariamente a probabilidade de uma ferroada.

Estas situações são hoje seguramente frequentes em muitas regiões. Encontramos velutinas em fruta madura, perto de bebidas açucaradas, carne, peixe, jardins ou esplanadas. A maioria desses encontros não tem qualquer consequência. Mas quanto mais encontros houver, maior será também o número daqueles que acabam mal.

E provavelmente não é necessário que uma velutina seja individualmente muito mais perigosa do que uma vespa autóctone para que a espécie represente, no conjunto, um risco superior. Basta haver muito mais oportunidades de contacto entre pessoas e vespas.

O ninho muda completamente a situação

V. velutina pode ferroar repetidamente, ao contrário da operária da abelha-do-mel, cujo ferrão fica geralmente retido na pele dos mamíferos. Mas também aqui convém desfazer outro mito: esta característica não é exclusiva da vespa asiática. É comum às vespas e vespões.

O que torna algumas situações particularmente perigosas é a possibilidade de múltiplas ferroadas por vários indivíduos.

A literatura médica identifica precisamente as múltiplas ferroadas, as ferroadas nas mucosas e a alergia ao veneno como os principais perigos associados à V. velutina.[8] Uma pessoa sensibilizada pode sofrer uma reacção anafiláctica grave após uma única ferroada. Num indivíduo não alérgico, um número elevado de ferroadas pode representar uma carga de veneno suficiente para provocar envenenamento sistémico.

Por isso, um ninho escondido num silvado ou no solo, descoberto apenas quando passa uma roçadora, é uma situação bastante diferente da velutina que se aproximou do meu prato de peixe.

O risco existe, mas os dados não justificam alarmismo

Há ainda uma parte importante desta história.

Em Espanha foram analisadas as mortes oficialmente atribuídas a ferroadas de abelhas, vespas e vespões entre 1999 e 2023. Foram registadas 188 mortes. Apesar da enorme expansão da V. velutina, os investigadores não encontraram evidência de um aumento da mortalidade por himenópteros associado à sua invasão.[9]

Em França, um estudo publicado em 2026 analisou 6022 casos registados pelos centros antivenenos, 179 141 idas às urgências e 18 213 internamentos entre 2014 e 2023. Também aqui, apesar da expansão territorial da V. velutina, não se observou um aumento global das ferroadas de himenópteros. Nos casos graves, porém, a alergia estava presente em 89%, lembrando-nos onde continua a estar uma parte muito importante do risco.[8]

Em Portugal, entre 2018 e 2021, o Centro de Informação Antivenenos registou 152 ocorrências atribuídas à Vespa velutina. Representaram menos de 1% das consultas anuais ao CIAV e a maioria correspondeu a manifestações locais de baixa gravidade.[10]

Estes dados não tornam a espécie inofensiva. Mostram apenas que a sua enorme expansão não foi acompanhada, até agora, por um aumento equivalente da mortalidade ou dos casos graves.

Talvez seja esta a forma mais equilibrada de olhar para a perigosidade da Vespa velutina. Não há evidência de que possua cinco ou sete vezes mais veneno do que uma vespa-europeia, nem de que o seu veneno seja excepcionalmente mais tóxico. A sua capacidade de ferroar repetidamente também não é exclusiva.

O que mudou profundamente foi a probabilidade de encontro.

Em muitos territórios temos hoje uma vespa social de grande dimensão, muito abundante, capaz de defender colectivamente o ninho e que instala as suas colónias exactamente nos espaços onde vivemos, trabalhamos, cultivamos terrenos ou fazemos uma refeição ao ar livre.

A maioria desses encontros ficará por aí. Outros envolverão uma pessoa alérgica, um movimento menos feliz ou, no pior cenário, um ninho que ninguém sabia estar a poucos metros.

É provavelmente por aqui, muito mais do que pelos supostos “sete vezes mais veneno”, que deve começar uma discussão séria sobre a perigosidade da Vespa velutina.

Referências e literatura consultada

  1. Alonso-Sampedro, M. et al. (2023). Proteomics of Vespa velutina nigrithorax Venom Sac Queens and Workers: A Quantitative SWATH-MS AnalysisToxins, 15, 266. 
  2. Alonso-Sampedro, M. et al. (2024). Peeking into the Stingers: A Comprehensive SWATH-MS Study of the European Hornet Vespa crabro Venom Sac ExtractsInternational Journal of Molecular Sciences, 25, 3798. 
  3. Schumacher, M.J., Tveten, M.S. & Egen, N.B. (1994). Rate and quantity of delivery of venom from honeybee stingsJournal of Allergy and Clinical Immunology, 93, 831–835. 
  4. Monsalve, R.I. et al. (2020). Purification and molecular characterization of phospholipase, antigen 5 and hyaluronidases from the venom of the Asian hornet (Vespa velutina). PLoS ONE, 15, e0225672. 
  5. Meng, Y.C. et al. (2021). New bioactive peptides from the venom gland of a social hornet Vespa velutinaToxicon, 199, 94–100. 
  6. Diéguez-Antón, A. et al. (2022). Embryo, Relocation and Secondary Nests of the Invasive Species Vespa velutina in Galicia (NW Spain). Animals, 12, 2781. 
  7. Choi, M.B. (2021). Defensive behavior of the invasive alien hornet Vespa velutina nigrithorax against potential human aggressorsEntomological Research, 51, 186–195. 
  8. Sinno-Tellier, S. et al. (2026). Public health impact of envenomation by Vespa velutina nigrithorax and other Hymenoptera in France: A multisource studyJournal of Allergy and Hypersensitivity Diseases, 9, 100062. 
  9. Herrera, C. & Leza, M. (2026). No evidence of increased mortality associated with Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) spread in SpainJournal of Medical Entomology, 63(2), tjag039. 
  10. INIAV (2022). A vespa-asiática — Vespa velutina nigrithorax. Dados do Centro de Informação Antivenenos relativos a 2018–2021.

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