selecção darwiniana em Portugal: o filtro, as sobreviventes e o preço

O meu contacto com aquilo a que hoje chamamos frequentemente apicultura darwiniana começou bastante antes de eu escrever sobre o assunto neste blogue. Em 2013–2014 comecei a ler o trabalho de John Kefuss, em particular a sua abordagem de selecção de colónias capazes de sobreviver à varroa sem tratamento. Em 2016 fui mais longe: desloquei-me ao apiário de Kefuss, nas proximidades de Toulouse, para conhecer directamente o seu trabalho e comprei-lhe algumas rainhas virgens, que trouxe para Portugal acompanhadas do devido certificado veterinário.

A experiência, como já contei posteriormente, não correspondeu às expectativas. Poderá a promessa inicial ter sido excessiva? Poderá a hibridação das descendentes com zângãos locais ter diluído os efeitos genéticos que procurávamos introduzir? Esta segunda hipótese continua a parecer-me bastante plausível. E a experiência ajudou-me também a perceber cedo que há uma distância considerável entre encontrar algumas colónias sobreviventes e conseguir transferir e fixar os caracteres responsáveis por essa sobrevivência numa população aberta.

Emergência de uma rainha (foto minha)

Comecei a escrever neste blogue especificamente sobre selecção de abelhas resistentes à varroa em 2018. Nessa altura procurei explicar o VSH, o comportamento de remoção de criação infestada e a necessidade de distinguir um mecanismo promissor de resistência de uma alegação comercial demasiado apressada [1,2]. Pouco depois, ao acompanhar as experiências de Randy Oliver, sublinhei uma ideia que continua a parecer-me essencial: uma rainha ou uma colónia que aparenta controlar a varroa merece ser estudada e reproduzida; daí até afirmar que se possui uma linha resistente vai uma distância enorme [3].

Em 2021 voltei ao tema por vários caminhos. Discuti as dificuldades de fixar, medir e transferir traços de resistência numa população real, onde os acasalamentos abertos podem diluir rapidamente o trabalho feito por um criador [4]. Relembrei também a tentativa de 2016 com as rainhas provenientes do trabalho de Kefuss [5] e escrevi sobre formas de medir comportamentos como a reoperculação e a remoção de criação infestada, precisamente porque falar de resistência sem medir os mecanismos que a podem explicar pouco nos adianta [6].

Acasalamento livre

Em 2023 escrevi especificamente sobre a chamada apicultura darwiniana. A crítica não era à investigação séria de abelhas capazes de limitar a varroa, nem à selecção dirigida de colónias que sobreviveram. Era à transformação de uma ideia evolutiva numa fórmula demasiado simples: retirar os tratamentos, deixar morrer a maioria das colónias e chamar ao resultado uma vitória da natureza [7]. John Kefuss e o lema BOND — live and let die — fazem parte da história moderna da procura de abelhas sobreviventes. Mas uma coisa é utilizar uma pressão sanitária extrema como instrumento experimental de selecção; outra, bastante diferente, é convertê-la numa receita geral de maneio ou numa prova automática de resistência.

Também o ensaio de Coimbra, que acompanhei com Nuno Capela, deve ser lido nesta perspectiva. Foi inspirado naquela linha de trabalho que eu vinha acompanhando havia já mais de uma década. Das 40 colónias que ficaram sem tratamento, quatro estavam vivas no fim do ano e duas foram encontradas vivas na observação seguinte [8]. Era, e é, um começo que merece ser acompanhado: duas candidatas a estudar e a multiplicar. Não era a demonstração de duas linhagens resistentes consolidadas. A própria palavra «intermédios», no título dessa publicação, dizia precisamente isso.

É com este percurso em mente que li a dissertação de Larissa Fonseca da Cunha, apresentada em 2026 no Instituto Politécnico de Bragança: Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana [9]. O trabalho merece atenção porque traz dados portugueses, acompanha as colónias ao longo do tempo e apresenta números suficientemente duros para nos obrigarem a abandonar algumas das simplificações que facilmente se constroem em torno da chamada selecção darwiniana.

Foto não relacionada com o estudo.

O primeiro número é este: 23 rainhas fundadoras originaram 92 desdobramentos em 2024. No inverno seguinte sobreviveram 21. Em 2025, o segundo ciclo acompanhou 53 colónias; em fevereiro de 2026 restavam três. Dito de forma simples, o filtro foi de 92 para 21 no primeiro ano e de 53 para 3 no segundo.

É difícil olhar para estes números e dizer que a selecção não funcionou. Funcionou no sentido mais estrito da palavra: aplicou uma pressão enorme e deixou sobreviventes. Mas também é impossível olhar para os mesmos números e afirmar que já existe uma população resistente estável. Três sobreviventes são três candidatas, não uma população resistente.Para chegarmos a essa conclusão seria necessário multiplicar essas colónias, acompanhar as suas descendentes durante vários anos, medir a evolução da infestação pela varroa e demonstrar que os caracteres responsáveis pela sobrevivência se mantêm depois dos acasalamentos, sem sacrificar pelo caminho outras características igualmente importantes, como a viabilidade, a mansidão, a produtividade e a diversidade genética.

Esta prudência não é um preciosismo. É o centro da questão. A selecção para resistência à varroa não é como escolher uma rainha apenas pela cor, pela produção de mel ou pela mansidão. Podemos encontrar colónias excepcionalmente boas; o problema seguinte é conseguir fixar e generalizar os traços que explicam esse comportamento numa população de abelhas que acasala em grande medida ao ar livre, num território onde rainhas e zângãos de diferentes origens contribuem continuamente para a população [4]. É por isso que escrevi no passado que a resistência terá verdadeiro impacto quando deixar de ser uma raridade presente em pequenos projectos e passar a estar representada, em escala, nas populações que efectivamente se reproduzem [4].

As sobreviventes e a linha materna

A tese encontrou também um resultado genético que merece ser seguido. Entre as 23 famílias fundadoras, 85% pertenciam à linhagem mitocondrial A; as restantes pertenciam às linhagens M e C. As três sobreviventes do segundo ciclo eram da linhagem A. Além disso, a sobrevivência diferiu entre famílias: as descendências das rainhas 1 e 12 sobreviveram mais tempo, enquanto as das rainhas 2 e 11 colapsaram mais cedo [9].

É um sinal a que devemos prestar atenção. Mas não é uma licença para proclamar que a linhagem A é resistente à varroa. Primeiro, porque 85% da população inicial já pertencia à linhagem A; num grupo final de apenas três colónias, a presença exclusiva desta origem deve ser interpretada com muita prudência. Segundo, porque o ADN mitocondrial nos informa sobretudo sobre a ascendência materna. Não identifica os genes nucleares nem os mecanismos concretos — VSH, reoperculação, remoção de criação infestada, grooming, redução da reprodução da varroa ou menor atractividade da criação — que possam estar a limitar o parasita.

A conclusão sensata é mais modesta e, precisamente por isso, mais útil: há famílias maternas que justificam um acompanhamento especial, sobretudo as associadas às rainhas 1 e 12. É necessário testar as descendentes, medir a infestação e perceber se existe realmente um traço herdável por detrás da maior sobrevivência. A genética é uma hipótese forte; a prova ainda não existe.

Agressividade não é resistência

Numa população ibérica, esta questão assume uma importância particular. A dissertação avaliou também a defensividade das colónias e não encontrou uma relação significativa entre o índice de agressividade e a queda natural de varroa, nem entre agressividade e risco instantâneo (hazard) de mortalidade [9]. As colónias maiores tenderam a apresentar respostas defensivas mais fortes, algo que pode explicar-se simplesmente por terem mais abelhas disponíveis para responder a uma perturbação. Mas defensividade não é VSH, não é reoperculação e não é resistência à varroa.

É uma distinção que convém manter. Uma colónia agressiva pode estar muito infestada e sucumbir; uma colónia dócil pode revelar mecanismos efectivos de limitação da reprodução da varroa. Confundir estes planos é uma das formas mais fáceis de transformar impressões recolhidas no apiário em certezas para as quais ainda não temos dados.

A colónia forte e o risco escondido

A dissertação trouxe ainda um resultado aparentemente paradoxal mas já nosso conhecido: em julho, as colónias com mais quadros de abelhas adultas apresentaram maior risco instantâneo (hazard) de mortalidade posterior quando se analisou em conjunto a força da colónia e a queda natural de varroa. Mas convém perceber exactamente o que foi medido antes de retirarmos conclusões.

A força foi avaliada através do número de quadros cobertos por abelhas adultas; não foi medida a área de criação. Uma colónia forte pode ter mais criação e, por isso, proporcionar mais oportunidades de reprodução à varroa. É uma explicação biologicamente plausível, mas não foi directamente demonstrada neste ensaio. Aliás, a força da colónia, considerada isoladamente, não explicou significativamente a queda natural de varroa. Mais abelhas adultas não significaram, por si só, mais ácaros caídos diariamente [9].

Também a leitura de um número divulgado no resumo exige alguma cautela. O aumento combinado de 32,8% do risco instantâneo (hazard) de mortalidade em julho resulta de acrescentar simultaneamente um quadro de abelhas e uma varroa/dia na queda natural. Não significa um aumento de 32,8% por cada quadro de abelhas. No modelo, o efeito estimado foi de cerca de 28,7% por quadro adicional e de 3,2% por varroa/dia adicional; combinados, estes dois efeitos produzem aproximadamente o valor referido [9].

Esta precisão não retira importância ao resultado. Pelo contrário, ajuda-nos a interpretá-lo correctamente e obriga-nos a olhar com atenção para colónias muito fortes em pleno verão. Uma colónia forte pode ser uma excelente produtora de abelhas e de mel e, se a varroa não estiver contida, pode proporcionar também excelentes condições para a multiplicação do ácaro. O aspecto exterior de vigor não substitui a monitorização.

O custo do filtro

A selecção darwiniana tem custos enormes e esses custos não são uma nota de rodapé. São o próprio mecanismo do filtro. Das 53 colónias acompanhadas no segundo ciclo, 50 colapsaram; a mortalidade final aproximou-se dos 94%. Muitas não desapareceram de um dia para o outro. Entraram no outono ainda vivas, mas foram perdendo capacidade para produzir abelhas saudáveis e para manter a organização fisiológica necessária à passagem do inverno. A telemetria registou, em algumas colónias, perdas precoces de peso e amplitudes térmicas internas até 15 ºC, sinais compatíveis com perda de capacidade de termorregulação, embora esses indicadores não devam ser transformados num teste preditivo que o estudo não validou [9].

Há depois um custo populacional. Quando o filtro é desta dimensão, pode restar muito pouco material reprodutivo. Se a selecção se concentrar repetidamente num número muito reduzido de famílias, aparece o risco de estreitamento da base genética. Sobreviver à varroa é obviamente desejável, mas uma população de abelhas precisa de conservar diversidade suficiente para responder a muitos outros desafios e manter características importantes para a sua própria viabilidade e para a apicultura.

E existe ainda um custo sanitário que não podemos ignorar. Colónias que colapsam com cargas elevadas de varroa podem tornar-se fontes de dispersão de ácaros e dos vírus que lhes estão associados para outras colónias. A selecção não ocorre num vácuo. Ocorre numa paisagem com outros apiários, acasalamentos abertos, deriva, pilhagem e circulação de zângãos e rainhas. Aquilo que fazemos numa colónia experimental pode, portanto, não ficar confinado a essa colónia.

Nada disto obriga a abandonar a procura de abelhas resistentes. Muito pelo contrário. Obriga-nos a tratar essa procura como aquilo que é: um trabalho de selecção demorado, exigente, baseado em medição, critérios claros e confirmação ao longo de gerações. Não uma promessa rápida, não uma desculpa para deixar de monitorizar e muito menos uma autorização para transformar a morte da maioria das colónias numa narrativa de sucesso.

A tese de Bragança vale precisamente por nos colocar perante essa realidade. Mostra que há candidatas locais que justificam ser estudadas. Mostra que a origem familiar poderá ter importância. Mostra que agressividade não é resistência e que força aparente não garante sobrevivência. E mostra, através de números que dificilmente podemos contornar, que entre deixar algumas colónias sem tratamento e obter uma população de abelhas efectivamente resistente existe um caminho muito longo, altamente selectivo e com um preço elevado.

O filtro encontrou sobreviventes. Agora começa a parte realmente difícil: demonstrar por que sobreviveram e se aquilo que lhes permitiu sobreviver pode ser transmitido às gerações seguintes.

Referências

[1] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentosAbelhas à Beira.

[2] Gomes, J. E. (2018). VSH (Varroa Sensitive Hygiene): abelhas resistentes e seus comportamentos (2)Abelhas à Beira.

[3] Gomes, J. E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?Abelhas à Beira.

[4] Gomes, J. E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no focoAbelhas à Beira.

[5] Gomes, J. E. (2021). SAM: uma ferramenta para melhorar abelhas num futuro próximoAbelhas à Beira.

[6] Gomes, J. E. (2021). Abelhas resistentes: medindo a re-operculação e remoção de criaçãoAbelhas à Beira.

[7] Gomes, J. E. (2023). Apicultura darwiniana: análise críticaAbelhas à Beira.

[8] Gomes, J. E. (2025). Abelhas resistentes em Coimbra: resultados intermédios de uma experiênciaAbelhas à Beira.

[9] Cunha, L. F. da (2026). Avaliação de Colónias de Apis mellifera iberiensis Sujeitas à Seleção Darwiniana. Dissertação de mestrado, Instituto Politécnico de Bragança.

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