De tempos a tempos reaparece nas redes sociais a ideia de que bastaria “chipar” uma vespa velutina, seguir o sinal e chegar ao ninho. A ideia é sedutora: apanha-se uma vespa junto ao apiário, coloca-se-lhe um chip e ela, sem o saber, leva-nos à porta de casa. O problema é que esta frase, tão curta e tão fácil de repetir, mistura tecnologias muito diferentes, com pesos, alcances, custos e limitações também eles muito diferentes.
Já escrevi neste blog acerca da radiotelemetria, do radar harmónico e da termografia. Na altura, a nota principal era simples: encontrar e eliminar cedo os ninhos é uma das poucas medidas capazes de reduzir a pressão das velutinas no território; encontrar esses ninhos, sobretudo quando estão escondidos nas copas das árvores, é a grande dificuldade.
Passados alguns anos, vale a pena voltar ao assunto. Não porque entretanto tenha aparecido um pequeno GPS que se possa colar a uma vespa, mas porque se acumulou alguma evidência sobre aquilo que estas ferramentas conseguem fazer — e também sobre aquilo que não conseguem fazer. E começa a tornar-se evidente outra coisa talvez mais interessante: provavelmente não haverá uma tecnologia que faça tudo. O caminho poderá estar na combinação de várias ferramentas, cada uma utilizada no ponto da procura em que é mais eficaz.
Primeiro: não há aqui um GPS miniatura
Quando se fala em «chip», convém perguntar: chip de quê? Um microchip de identificação, como o de um cão, não serve para localizar uma vespa à distância. Um GPS necessita de energia, antena e electrónica; e aqui o peso rapidamente se torna um problema. O peso médio das obreiras de Vespa velutina varia bastante ao longo da estação, tendo sido registados valores médios entre cerca de 190 mg no início do verão e 386 mg no outono [1]. Acrescentar 100 ou 200 mg a um insecto deste tamanho está, portanto, muito longe de ser uma questão de pormenor.
As técnicas que têm sido testadas com Vespa velutina seguem sobretudo dois caminhos. Num, prende-se à vespa uma etiqueta passiva, extremamente leve, que responde ao sinal de um radar. No outro, prende-se um pequeno emissor alimentado por bateria e o operador segue o seu sinal com receptor e antena direccional. Mais recentemente surgiram também pequenas etiquetas Bluetooth.
Em nenhum destes casos a vespa envia para o nosso telemóvel uma mensagem a dizer «o ninho está aqui». Continua a ser necessário seguir sinais, interpretar direcções, recuperar contactos perdidos e ir reduzindo progressivamente a área de procura.
Esta distinção parece excessivamente técnica, mas evita a primeira má decisão: comprar ou pedir uma tecnologia sem saber exactamente que problema resolve.
Radar harmónico: etiqueta leve, equipamento exigente
No radar harmónico a etiqueta é um pequeno transponder passivo, feito com fio metálico e um díodo. O radar emite uma frequência e procura a resposta no seu harmónico; é por isso que consegue distinguir o sinal da etiqueta de muito do “ruído” existente no ambiente. A grande vantagem está no peso: no trabalho realizado em Itália a etiqueta pesava apenas 15 mg, qualquer coisa como 4 a 7% do peso de uma obreira [1].
Nesse trabalho, esta técnica permitiu localizar ninhos em seis de nove localidades. Em zonas de surto, onde existiam poucos ninhos, a eficácia reportada foi de 75%; em zonas já muito colonizadas foi de 60%. Os ninhos encontrados estavam, em média, a 395 m do local onde as vespas foram capturadas, embora tenham ocorrido distâncias entre 72 e 786 m [1].
Estes números são interessantes, mas não dispensam a leitura das letras pequenas. Vegetação, edifícios, relevo e a própria orientação do voo complicam a detecção. O aparelho tem de ser deslocado para novas posições e, em zonas com vários ninhos, diferentes vespas podem apontar em direcções diferentes.
Ou seja: a etiqueta é leve; o trabalho não é.
Radiotelemetria: mais portátil, mas a vespa carrega uma bateria
A radiotelemetria resolve de outro modo a questão. A etiqueta emite um sinal VHF e o operador, com uma antena direccional, procura a direcção onde esse sinal é mais forte. É uma técnica mais portátil e capaz de trabalhar em paisagens heterogéneas, mas coloca uma carga muito maior sobre a obreira.
No estudo publicado por Kennedy et al. em 2018, os transmissores pesavam 280 mg. Foram marcadas oito obreiras e seguidas entre 45 e 1331 m; cinco trajectos conduziram a ninhos até então desconhecidos. As restantes não falharam necessariamente por causa do sinal: duas terminaram em locais inacessíveis e uma vespa abrigou-se durante chuva intensa [2].
É uma demonstração muito boa de que a técnica funciona. Não demonstra que qualquer vespa, em qualquer altura do ano, possa carregar qualquer emissor. Os próprios investigadores seleccionaram obreiras mais pesadas. Quanto maior for a proporção entre o peso do emissor e o peso da vespa, maior o risco de a nossa ferramenta começar a escolher as vespas que consegue seguir, em vez de representar as vespas que queremos localizar.
Entretanto, a tecnologia evoluiu. E aqui aparece um exemplo recente que merece atenção.
Em Janeiro de 2026, a Biosecurity New Zealand comunicou estar a utilizar, na operação de erradicação da velutina em Auckland, transmissores de rádio com menos de 160 mg. As vespas eram atraídas a estações de alimentação, capturadas, marcadas e posteriormente seguidas através do sinal. Esta estratégia tinha já contribuído para encontrar três ninhos [8].
Mas há um pormenor ainda mais interessante: depois de o rastreio reduzir a área de procura, foram utilizados drones equipados com câmaras térmicas para ajudar a precisar a localização dos ninhos.
Começamos aqui a perceber que o progresso pode não estar na invenção de um aparelho que faça tudo, mas na utilização sucessiva de ferramentas diferentes.
Um exemplo recente: o VespaTracker
O aparecimento de equipamentos comerciais cada vez mais leves merece também atenção. O VespaTracker é um exemplo. A etiqueta VESPA-NANO anunciada pelo fabricante pesa 125 mg, mede 44,9 × 4,1 × 2,7 mm e funciona através de Bluetooth de baixa energia (BLE). Depois de activada, a bateria terá uma autonomia anunciada de cerca de quatro horas. O sinal pode ser seguido através de uma aplicação instalada no telemóvel; o fabricante anuncia cerca de 350 m com smartphone Android e até 500 m utilizando o receptor direccional RANGE-PRO, em condições ideais [3].

Comparados com os emissores de 280 mg utilizados em 2018, 125 mg representam um avanço muito significativo na miniaturização. E o facto de a operação neozelandesa estar já a utilizar transmissores abaixo dos 160 mg mostra que entrámos numa classe de peso que pode ter utilização operacional.
Mas isto não resolve automaticamente a questão da carga.
Tomando como referência os valores médios de 189 a 386 mg registados para as obreiras, uma etiqueta de 125 mg poderá representar aproximadamente 32% do peso de uma obreira de 386 mg, mas 66% do de uma obreira de 189 mg.
Não será carga demais para a mula?
Talvez seja para algumas e não para outras. É precisamente isso que importa determinar experimentalmente. Sobretudo se pretendermos marcar obreiras precoces, geralmente mais pequenas.
Convém também não confundir o alcance anunciado com uma garantia de rastreio. Bluetooth não transforma a etiqueta num GPS. Entre árvores, relevo, casas e outros obstáculos, o operador continuará a ter de aproximar-se, interpretar direcção e intensidade do sinal e, finalmente, confirmar o ninho. Quatro horas de autonomia podem ser suficientes para uma procura rápida, mas deixam menos margem para hesitações, perda de sinal ou terreno inacessível.
Até ao momento não encontrei uma publicação científica independente que avalie especificamente este equipamento em Vespa velutina: proporção de vespas que retomam voo normal, taxa de chegada ao ninho, perda de etiquetas e desempenho em diferentes paisagens. Isso não significa que o equipamento não funcione. Significa apenas que devemos distinguir uma tecnologia comercialmente disponível de uma tecnologia cuja eficácia operacional já foi demonstrada independentemente.
Uma demonstração no terreno, em condições semelhantes às de cada território, continua a valer mais do que o alcance anunciado numa ficha técnica.
Uma câmara pode avisar; não leva ninguém ao ninho
Entretanto surgiu outra família de ferramentas: câmaras e sensores que procuram reconhecer automaticamente a velutina numa estação de isco ou à entrada de um apiário. Aqui a pergunta já não é «para onde voltou esta obreira?». É outra: «há uma velutina aqui e consigo sabê-lo depressa?».
O projecto VespAI constitui provavelmente um dos exemplos mais interessantes. Combina uma estação de monitorização, câmara, computador compacto e um modelo de visão computacional. Nos ensaios publicados em 2024, o sistema conseguiu distinguir Vespa velutina de Vespa crabro e de outros insectos com um desempenho muito elevado, acima de 99% na medida utilizada pelos investigadores, podendo ainda enviar automaticamente as imagens para confirmação [4].
Para alerta precoce isto pode ser muito importante, sobretudo onde a espécie ainda não está instalada ou onde se pretende detectar rapidamente a sua entrada numa nova área.
Mas uma câmara que fotografa uma velutina não conhece o endereço do ninho.
Pode dar o alarme, conservar a imagem e dizer onde a vespa foi observada. Para passar daí à eliminação continua a ser necessária uma cadeia de resposta: confirmar a identificação, localizar o ninho e intervir em segurança.
Há também sensores ópticos baseados no batimento das asas e propostas de detecção acústica. Num estudo com sensor óptico e aprendizagem automática, a exactidão para Vespa velutina foi em média de 74,5%, em condições laboratoriais [5]. É suficiente para justificar mais investigação; não é suficiente para tratar cada sinal como uma velutina confirmada num apiário português.
Mais recentemente, uma equipa testou a detecção acústica do voo pairado das velutinas junto aos apiários. O algoritmo separou os sons das vespas, das abelhas e do ruído de fundo com 98,7% de exactidão em pouco menos de uma hora de gravações. É um resultado muito interessante para sistemas de alerta passivo. Os próprios autores assinalam, contudo, que falta testar o método em dados contínuos e de longa duração [6].
Detectar uma velutina durante uma sessão experimental não é ainda o mesmo que vigiar automaticamente um apiário durante toda uma época.
E se levarmos os olhos — e os ouvidos — para o ar?
Os drones acrescentam outra possibilidade. Podem transportar câmaras convencionais ou térmicas, sistemas de inteligência artificial e até auxiliar a recepção ou triangulação de sinais emitidos pelas etiquetas.
Já existem experiências de procura automática de ninhos através de drones e visão computacional, assim como trabalhos que combinam radiotelemetria e UAV. E a experiência operacional da Nova Zelândia mostra talvez a aplicação mais intuitiva: primeiro seguir a vespa e reduzir a área de busca; depois utilizar o drone e a termografia para procurar dentro dessa área.
O drone, portanto, também não é a solução. É uma plataforma onde podemos colocar algumas das soluções.
E as câmaras térmicas?
Também aqui convém evitar duas simplificações. A câmara térmica não «vê através das árvores». Procura uma diferença de temperatura entre o ninho e o ambiente. Essa diferença tende a ser mais favorável antes do nascer do sol, quando há mais vespas no ninho e o ambiente está mais fresco.
Folhagem, radiação solar, temperatura do ar, distância e resolução da câmara influenciam muito o resultado [7].
Por isso, a termografia parece particularmente interessante para confirmar ou estreitar uma zona já indicada por observação, triangulação, radar ou telemetria. É uma ferramenta complementar. Utilizá-la como se fosse uma peneira universal para um vale inteiro é pedir-lhe mais do que a física permite.
Onde estas tecnologias podem fazer mais diferença
Há ainda uma distinção importante. O valor destas tecnologias não é necessariamente o mesmo em todos os territórios.
Numa região densamente colonizada, onde existem muitos ninhos, seguir uma vespa pode conduzir-nos a um ninho e deixar dezenas ou centenas por encontrar. Mas numa frente de invasão, onde se procura o primeiro ou um dos primeiros ninhos, localizar e destruir rapidamente uma única colónia pode ter um valor completamente diferente.
É provavelmente neste contexto que algumas destas tecnologias mostram melhor o seu potencial. Não apareceu o pequeno chip que colocamos numa vespa e nos entrega as coordenadas do ninho. O que está a aparecer é algo menos espectacular, mas provavelmente mais útil: uma sequência de ferramentas que se complementam.
Uma câmara ou um sensor podem dizer-nos que a velutina chegou pela primeira vez ao território. Uma estação de alimentação permite capturá-la e observar as viagens. A radiotelemetria ou o radar indicam-nos para que lado regressa. A triangulação vai reduzindo a área de procura. Um drone ou uma câmara térmica podem ajudar a encontrar, entre algumas dezenas de árvores, aquela onde está o ninho. Finalmente, uma equipa no terreno confirma a localização e elimina-o.
Nenhuma destas ferramentas precisa de fazer tudo. Basta que cada uma faça suficientemente bem a parte do trabalho para que foi concebida.
O melhor “chip” é uma resposta organizada
O ponto central não mudou desde as publicações anteriores: eliminar cedo um ninho é mais importante do que andar a combater, uma a uma, as obreiras que aparecem à frente das colmeias. Mas localizar um ninho escondido numa copa, num pinhal, entre casas ou num vale não é um trabalho que se resolva apenas com boa vontade e uma aplicação no telemóvel.
O radar harmónico favorece uma etiqueta extremamente leve, mas exige equipamento especializado. A radiotelemetria oferece mobilidade e resultados convincentes em paisagens complicadas, mas obriga a lidar com uma etiqueta relativamente pesada para o insecto e necessita de operadores experientes. As câmaras, os sensores acústicos e a inteligência artificial podem multiplicar os pontos de vigilância, mas não substituem o rastreio até ao ninho. Os drones podem ampliar enormemente os nossos olhos, mas precisam de saber aproximadamente onde devem olhar. E os novos equipamentos comerciais Bluetooth parecem suficientemente interessantes para merecer ensaios independentes em condições reais.
Se há investimento sensato a discutir, ele não é o de cada apicultor comprar um «chip para velutinas».
É o de as entidades que coordenam vigilância, controlo e protecção civil disporem de equipas treinadas, diferentes ferramentas adequadas ao território e, sobretudo, capacidade para escolher rapidamente a ferramenta certa para cada etapa e agir depois de receberem um alerta.
Não há aqui gadgets milagrosos. Há tecnologias cada vez melhores, com virtualidades e limites, que deverão estar ao serviço de equipas coordenadas — não ao serviço da ilusão de que cada apicultor terá de resolver sozinho um problema colectivo.
Fontes
- Lioy, S. et al. (2021). Tracking the invasive hornet Vespa velutina in complex environments by means of a harmonic radar. Scientific Reports, 11, 12143.
- Kennedy, P. J. et al. (2018). Searching for nests of the invasive Asian hornet (Vespa velutina) using radio-telemetry.
- VespaTracker (consultado em 21-08-2026). Especificações técnicas do VESPA-NANO e RANGE-PRO. Informação do fabricante; não constitui validação científica independente.
- O’Shea-Wheller, T. A. et al. (2024). VespAI: a deep learning-based system for the detection of invasive hornets. Communications Biology, 7, 354.
- Ribas-Marquès, E. et al. (2023). Automated detection of the yellow-legged hornet using an optical sensor with machine learning.
- Hall, H. et al. (2025). Remote and automated detection of Asian hornets (Vespa velutina nigrithorax) at an apiary, using spectral features of their hovering flight sounds.
- Lioy, S. et al. (2021). Viability of thermal imaging in detecting nests of the invasive hornet Vespa velutina.
- Biosecurity New Zealand — Ministry for Primary Industries (2026). Hornet tracking technology proving effective. Informação operacional publicada em 20 de Janeiro de 2026.