a invasão da Austrália pela varroa: o ponto de vista de Randy Oliver

Tenho conversado diariamente com um dos dois apicultores cujas operações estão infestadas, assim como outros do setor.
Até agora, mais de 1000 de suas colónias foram sacrificadas, com muitas outras com planos para serem queimadas. Como se pode imaginar, isto é muito difícil para os apicultores, que também foram impedidos de vender os seus enormes stoks de mel armazenados.

O Departamento de Indústrias Primárias (DIP) australiano parece estar a fazer um bom trabalho de “rastreamento de contatos” (links epidemiológicos) e, até agora, todas as detecções estavam ligadas a estas duas operações. A questão-chave é definir o perímetro até onde os ácaros se afastaram destas colónias infestadas. Meu próprio rastreamento de abelhas marcadas indica que há uma deriva considerável de abelhas de colmeia em colmeia para pelo menos 800m, e algumas para 1500m. Sem mencionar que uma abelha carregando um ácaro pode forragear a distâncias de vários quilómetros de distância de sua colmeia e talvez até esbarrar com outra abelha não infestada numa flor.

As perguntas óbvias são se os ácaros saíram da zona de contenção ou se estabeleceram na população silvestre de abelhas. Se ainda estiverem limitados a uma pequena zona, há uma chance viável de erradicação. A preocupação é que atualmente é inverno na Austrália, e algumas das colmeias infestadas tinham contagens de ácaros já muito altas sendo óbvio que tiveram varroa desde pelo menos o início do verão passado. Isso teria dado tempo para uma deriva considerável, talvez para o setor de hobistas em Newcastle.

Aqueles de nós que viveram as invasões de ácaros da traqueia e varroa entendem a futilidade da erradicação se um ácaro já estiver bem estabelecido. A prole de mesmo uma única fêmea de ácaro pode-se espalhar de forma relativamente rápida por um continente, especialmente se auxiliada por transporte inadvertido por humanos.

Para uma melhor triagem de detecção, o DIP acaba de receber uma grande remessa de estrados sanitários dos EUA (que deixei claro que são mais eficazes na detecção de infestações baixas do que as lavagens com álcool). Eles também estão a trabalhar para obter tratamentos de colónias registrados no país. Nos últimos dias, conversei com um fornecedor na América do Norte, cujo telefone tocava sem parar com pedidos de casas de suprimentos de apicultura australianas.

Quando me pediram há vários anos pelo Departamento recomendações para seus planos de incursão, afirmei que se eles não estivessem dispostos a tomar medidas fortes — incluindo o uso de iscas de fipronil para matar colónias silvestres* — suas chances de erradicação seriam zero.
Embora só tenha tido comunicação indireta com o DIP durante esta incursão, estou encorajado que eles estejam de fato se preparando utilizar estas iscas.

Os apicultores profissionais do país estão bem cientes de que a possibilidade de erradicação completa é pequena, mas é claro que a agência, com base na falta de detecções fora da zona de contenção, sente que ainda tem uma chance de lutar.

Uma vez que os apicultores em breve terão de começar a deslocar as colónias para polinizar os pomares de amendoeiras, será necessário impor restrições à circulação, para evitar a dispersão da varroa pelo país. Todos sabemos que basta um único apicultor para estragar tudo num continente inteiro, então vamos cruzar os dedos para que ninguém o faça!

Os apicultores australianos gostam de ter seu mel e cera de abelha livres de acaricidas. Foram feitas sugestões para o tratamento de todas as colmeias que vão para a polinização de amêndoas com tiras de Apivar. É claro que é um retrocesso, já que os apicultores não querem resíduos nos seus produtos de colmeia.

Uma grande dúvida é se a linhagem de ácaros da incursão é resistente a algum acaricida, por isso estão a ser realizados testes. Se os ácaros introduzidos são sensíveis ao amitraz, isso pode ser uma consideração que vale a pena, já que tal tratamento em minha própria operação sem amitraz realmente elimina completamente todos os ácaros de uma colónia.

Se houver algum apicultor australiano que leia isto, aqui estão algumas sugestões:

  • Mantenha a cabeça fria. O DPI parece estar bem informado e fazendo um bom trabalho. Eu elogio-os por tentarem agir com transparência e manterem o público informado. Os apicultores podem ajudá-los cooperando plenamente, especialmente porque haverá agentes não familiarizados com as abelhas.
    Como a maioria dos apicultores australianos não estão familiarizados com os ácaros, eles devem ver fotos de ácaros em lavagens com álcool ou em estrados sanitários, para treinar o seu olhar a reconhecê-los. Eles são difíceis de serem vistos por olhos destreinados, e você não quer perder nenhum!

  • Lavagens com álcool ou shakes de açúcar de 300 abelhas podem não identificar uma infestação leve. Uma contagem com estrados sanitários, usando ácido fórmico, amitraz de libertação rápida ou até mesmo açúcar em pó numa colónia inteira, terá menos falsos negativos.
  • Falando como alguém que realiza milhares de lavagens de ácaros, a melhor recuperação é com álcool a 90% ou detergente Dawn Ultra** (que preferimos, pois oferece mais fácil recuperação, é barato e não inflamável). Eu recomendo usar Dawn em vez de álcool. Requer muito pouca agitação e muito menos trabalho por parte do apicultor.
  • Embora a possibilidade de erradicação desta incursão de varroa seja pequena, ainda é possível e vale a pena fazer o esforço.
  • Os apicultores que são obrigados a sacrificar suas colónias serão compensados*** e devem considerar o sacrifício como um esforço heróico para salvar sua indústria. A Austrália inevitavelmente será infestada pela varroa, mas quanto mais tempo puderem evitá-la melhor para os apicultores. Vamos todos torcer pelo sucesso nesta contenção e erradicação desta incursão!” — Randy Oliver

* Ainda penso que teria sucedido com a expansão da Vespa velutina se os franceses em 2005 tivessem utilizado medidas mais radicais — fipronil, ou inibidores ou reguladores do crescimento da quitina e outros insecticidas em iscos proteicos, colocados massivamente em 2005 e na região de Bordéus.

** Dawn Ultra é um detergente de louça. Desconheço se esta marca em particular é comercializada em Portugal.

*** Espero que o DIP australiano seja conhecedor do caso canadiano no que diz respeito à compensação dos apicultores. No Canadá como as compensações dadas aos apicultores para a eliminação de colónias, aquando das primeiras deteções de varroa naquele país, eram baixas teve como efeito alguns apicultores não declarem a presença de varroa nas suas colónias. O desfecho desta “avareza” é o conhecido.

sobre o ritmo de crescimento das colónias: uma realidade reconfirmada

Nesta época, no meu território, em condições regulares, as minhas colónias com 5 quadros de abelhas crescem a um ritmo de um a dois quadros por semana — reconfirmo uma vez mais o que li descrito pelo enorme apicultor Randy Oliver, como referi nesta publicação, publicação que foi um marco pessoal, quando há 5 anos atrás me permiti sumariar, estruturar e tornar inteligível num texto feliz um conjunto de observações que tinha vindo a fazer nos anos anteriores).

No passado dia 19 de março, nesta publicação, descrevi a transferência de alguns enxames para caixas-colmeia (modelo Langstroth).

O enxame no núcleo e a caixa-colmeia para onde foi transferido.
Como escrevi na publicação original “Devido às temperaturas relativamente baixas previstas para os próximos dias não me atrevi a desfazer este bloco denso intercalando quadros vazios.

Passados 16 dias e sem qualquer outro maneio neste intervalo de tempo, anteontem, dia 3 de abril, os enxames tinham passado dos iniciais 5 quadros com abelhas para os 9 quadros com abelhas e 7 quadros com criação. Deixo em baixo as fotos de uma destas colónias.

Anotação da data de transferência.
Os quadros levantados indicam a periferia da zona de criação: 7 quadros com criação.
Padrão de postura da rainha desta colónia, representativa da realidade da grande maioria das minhas colónias.
Como os adolescentes, estas colónias precisam de muito alimento para medrarem bem.

Nota: São enxames como estes que tenho a coragem de vender aos meus clientes. Nem menos nem mais, simplesmente e transparentemente como estes.

a prevenção e o controlo da enxameação: formação on-line Macmel

No âmbito do curso apícola on-line organizado pela Macmel, no próximo dia 26, às 21h00, vou descrever o maneio que realizo de há uns anos para cá com a finalidade de prevenir e controlar a enxameação. Aproveito para agradecer publicamente o amável e honroso convite que o Francisco Rogão me dirigiu para participar.

Podem inscrever-se através deste link: https://formacaoapicultura.blogspot.com/2022/02/polen-propolis-e-controlo-de-enxameacao.html?fbclid=IwAR21-eMXMyz-bZCyCba2TkiunXADAi6DssLYCQ6E2ZOTbkryjXjU0HV6hZY

ácaro Varroa: alguns aspectos da sua ecologia comportamental

Começando pelo fim a tradução deste muito recente, sumário e pertinente artigo de revisão da literatura sobe o ácaro Varroa: “Em conclusão, a ecologia comportamental do ácaro Varroa precisa ser totalmente compreendida antes que possamos realmente entender e controlar este parasita devastador das abelhas a uma escala global.” […] Deixo em baixo a tradução de alguns aspectos para a leitura atenta daqueles que entre nós procuram conhecer melhor o inimigo. Só munidos deste conhecimento aumentamos a probabilidade de o combater mais eficaz e eficientemente e, ao mesmo tempo, compreender melhor a razão porque algumas práticas são desaconselhadas ou têm resultados insuficientes [ver notas minhas a bold e entre parêntesis rectos].

“A distância entre uma larva de abelha e o topo da abertura do alvéolo também pode ser um fator chave na invasão dos alvéolos pelo Varroa. Logo que esta distância é de 7,0-7,5 mm, o alvéolo torna-se atraente para os ácaros e a invasão começa (Goetz e Koeniger 1993, Beetsma et al. 1999). Se esta distância for alcançada mais cedo, o período atrativo é maior (Boot et al. 1995). O favo mais velho é mais atraente para os ácaros, possivelmente porque os alvéolos ficam menores com o uso [devido a acumulação de seda dos casulos pupais] e, portanto, a distância de uma larva ao topo do alvéolo atinge-se mais cedo (Piccirillo e Jong 2004). Isso sugere que os apicultores devem remover o favo mais velho ou usá-lo apenas para mel para reduzir a invasão de ácaros. Curiosamente, o favo de alvéolos pequenos [com 4,9 mm de largura ou menor], que foi sugerido como um sistema de controlo mecânico para reduzir as populações de Varroa (Martin e Kryger 2002, McMullan e Brown 2006), é agora considerado ineficaz na redução de cargas de Varroa em comparação com o favo normal (Seeley e Griffin 2011 ) e pode mesmo provocar uma maior probabilidade de invasão dos alvéolos. Assim, o favo de alvéolos pequenos deve ser descontinuado como opção de tratamento de ácaros (Berry et al. 2010, Coffey et al. 2010).”

[Este excerto ajuda-nos a compreender melhor porque razão os dados de inquéritos epidemiológicos de larga escala, recentemente recolhidos nos EUA, identificam maior mortalidade de colónias entre os apicultores que re-utilizam mais frequentemente os quadros velhos que retiram das colónias que colapsam durante o inverno.]

Um diagrama simplificado que mostra o ciclo de vida do Varroa destructor. Durante a fase reprodutiva, uma fêmea fecundada entra no alvéolo de uma larva de operária ou larva de zângão antes de ser operculado (A). Logo que o alvéolo é operculado, o ácaro fundador produz um filho e várias filhas que se acasalam entre irmãos, enquanto se alimentam da pupa da abelha (B). Após a emergência da abelha adulta, os ácaros saem do alvéolo e iniciam a fase de dispersão (C), durante a qual as fêmeas recém-fecundadas são transportadas pelas abelhas para chegar a um alvéolo com criação larvar para o invadir, iniciando o ciclo novamente.

“As taxas de visitação de larvas por abelhas ama também podem ser um fator no processo de invasão de alvéolos pelo Varroa. As larvas de zângão são atrativas para os ácaros durante cerca de 40 horas antes da operculação, enquanto as larvas de operárias são atrativas durante 20 horas apenas antes da operculação (Boot et al. 1992). Este período mais prolongado de atração de ácaros por larvas de zângão pode contribuir para a preferência do Varroa para invadir alvéolos de zângão. As larvas de zângão também têm taxas de visitação de abelhas ama aproximadamente 2,5 vezes mais altas do que as larvas de operárias (Calderone e Kuenen 2003, Reams et al. dados não publicados). A criação que tem uma taxa de visitação mais alta provavelmente é exposta aos ácaros Varroa com mais frequência e, portanto, tem uma possibilidade maior de ser invadida. No entanto, mais estudos são necessários para entender como as taxas de visitação de abelhas ama influenciam a invasão de alvéolos pelo Varroa.”

[Na minha opinião há ainda lacunas importantes no conhecimento que temos do ciclo de vida do ácaro varroa, em particular de muitos detalhes durante a sua fase de dispersão/forética.]

“A invasão de Varroa em alvéolos de criação pode ser vista de várias maneiras: a taxa de invasão de ambos os tipos de larvas, a preferência por alvéolos de zângão quando comparada com a preferência por alvéolos de operárias. As taxas de invasão de larvas de zângãos e operárias são calculadas pelo número de ácaros por alvéolo (Fuchs 1990). As taxas de invasão de alvéolos de zângão são geralmente mais altas do que as taxas de invasão de alvéolos de operárias (Fuchs 1990, Boot et al. 1995). […] À medida que a proporção de alvéolos de zângãos para alvéolos de operárias aumenta, a preferência por alvéolos de zângão diminui (Fuchs 1990, 1992). Isto significa que com menos criação de zângãos, os alvéolos de zângãos são preferidos e, portanto, a preferência por alvéolos de zângãos não é constante, mas flutua ao longo do ano (Fuchs 1990, 1992). A preferência por alvéolos de zângão também depende da população de ácaros em toda a colónia. À medida que a população de ácaros aumenta (tipicamente durante a primavera e o verão), a preferência por alvéolos de zângãos diminui (Fuchs 1990).

“A preferência por alvéolos de operárias define-se como o limiar no qual o Varroa começará a invadir os alvéolos de operárias (Fuchs 1992). Este limiar […] é de cerca de 300 ácaros por colónia. Após este limiar ser atingido, a preferência por alvéolo de operárias começa a aumentar (Fuchs 1992). Isso ocorre porque assim que este limiar é atingido, há um número tal de ácaros dentro da colónia que se torna mais adaptativo para um ácaro invadir um alvéolo de operária com uma única fundadora do que invadir um alvéolo de zângão que já contém outras varroas. Isso mostra que a invasão de alvéolos de zângãos e operárias pode flutuar ao longo do ano e à medida que a população de ácaros vai mudando.”

[Esta é, na minha opinião, uma das razões para a eficácia insuficiente do conhecido “corte de zângão” no controle da infestação por varroa. Esta bio-técnica, a ser utilizada, deve ser acompanhada de outras técnicas químicas (orgânicas e/ou sintéticas) e/ou culturais mais eficazes, enquanto elementos de uma estratégia mais abrangente, diversificada e efectiva.]

“Vários ácaros podem invadir o mesmo alvéolo e isto ocorre mais frequentemente com taxas mais elevadas de infestação de ácaros (Martin 1995, Floris et al. 2020). Isso pode ser vantajoso para a população geral de ácaros dentro de uma colmeia porque aumenta a possibilidade de exogamia. No entanto, é provável que os ácaros que invadem o mesmo alvéolo estejam relacionados, de modo que a prole pode não alcançar uma maior diversidade genética por cruzamento (Beaurepaire et al. 2019). Invasões múltiplas também têm um impacto negativo sobre o ácaro. À medida que o número de invasões por alvéolo aumenta, menos ovos são postos por ácaro e a mortalidade da prole aumenta (Martin 1995). Curiosamente, mesmo após uma invasão bem-sucedida de um alvéolo com larva, a infertilidade do ácaro feminino é relativamente alta. A baixa fertilidade é causada por vários fatores, incluindo a mortalidade masculina, com o esmagamento ou deslocamento da pupa, o que leva a ácaros não fertilizados e uma invasão de ácaros “mal-sucedida” (Martin 1997, 2001; Nganso et al. 2020). A mortalidade masculina tende a ser maior durante o inverno (Martin 2001) e pode conduzir a fêmeas maduras a saírem do alvéolo sem terem acasalado (Martin et al. 1997, Häußermann et al. 2020). A falha de uma fundadora em colocar ovos dentro do alvéolo com larva também pode ser causada por oviposição atrasada ou por um baixo número de espermatozóides armazenados na sua espermateca (Harris e Harbo 1999).

[Esta é uma das várias razões que me ajudam a compreender porque os acaricidas aplicados no fim de inverno resolvem melhor o problema da varroose quando comparados com a eficácia dos acaricidas que aplico no verão.]

fonte: https://academic.oup.com/jinsectscience/article/22/1/18/6523143

multiplicar enxames e produzir mel

Para alguns é impossível obter de uma colónia abelhas e quadros com criação para fazer novos enxames e, nessa mesma época, tirar produção assinalável da mesma. Felizmente, com o maneio que utilizo habitualmente, não consigo confirmar essa crença.

Com a técnica de multiplicação de enxames que utilizo há vários anos e que no ano passado fiquei a saber que tinha a designação técnica de Doolittle (ver aqui), tenho conseguido de forma sistemática e consistente atingir este duplo objectivo: utilizar uma colónia como produtora de mel e como fonte de multiplicação de enxames —prefiro este termo ao termo desdobramento, termo este que geralmente está associado à divisão simétrica, cinco quadros para uma caixa e outros cinco para outra, quando prefiro de longe divisões não simétricas de enxames, dois ou três quadros para uma caixa nova, permanecendo os restantes na colmeia-mãe, com rainha, por forma a manter o mais possível a integridade dos enxames doadores, uma condição essencial para que produzam na época.

Multiplicação de enxames pela técnica Doolittle

A partir do início de maio, fim do período de enxameação, estas colónias vão gradualmente passando do modo fornecedoras de abelhas e quadros com criação, para o modo colónias armazenadoras de néctar e produtoras de mel. Esta passagem gradual faz-se com a colocação de 2 a 3 quadros com cera laminada por semana. O resultado final é este (fotos de 2021).

Cresta de Julho de 20121 de todas as 7 colónias que foram utilizadas de março a início de de maio para a multiplicação de enxames.
Dado o peso e com ajuda do Marcelo Murta dividimos a carga por duas caixas.
Exemplar representativo dos 70 quadros do modelo Lusitana (dimensões ninho) crestados nestas colónias.
Passadas algumas semanas crestei em muitas destas 7 colónias mais uma meia-alça/alça lusitana como a da figura.

Voltando ao início, não comprovo a impossibilidade de uma mesma colónia ser utilizada para a multiplicação de enxames e, na mesma época, obtermos dela uma produção significativa de mel. Mais, não comprovo que as grelhas excluidoras de rainhas fomentem a enxameação e reduzam a produção de mel. Utilizadas correctamente, como julgo fazê-lo, são um instrumento indispensável para o maneio das minhas colónias Langstroh e Lusitanas. Felizmente libertei-me há uns anos destes preconceitos e atavismos, infelizmente ainda propalados por alguns pequenos mestres neste pequeno país.

Nota: estou vendedor de enxames com 5 e 10 quadros nos dois modelos acima referidos. Os interessados podem contactar-me através da caixa de comentários com todo o sigilo, pois não serão tornados públicos.

vespa velutina: uma estratégia correcta a pedir melhores ferramentas

A colocação de armadilhas para capturar Vespas velutinas fundadoras tem sido um tema controverso na comunidade científica e apícola por duas razões principais: 1) a polémica sobre o efectivo impacto na redução do número de ninhos definitivos mais adiante na época e 2) a falta de selectividade das armadilhas e atractivos utilizados. Se a polémica sobre o primeiro ponto foi desfeita por um estudo francês que veio demonstrar que a captura de V. velutinas em determinadas condições reduz efectivamente o número de ninhos definitivos (estudo que foi atempadamente e justamente referenciado neste blog aqui), o ponto 2 não merece qualquer dúvida até aos menos informados. Tendo estes dois aspectos em consideração, a validade da estratégia de captura de fundadoras e, em simultâneo, a falta de ferramentas devidamente selectivas para a concretizar, o caminho de ora em diante passa por melhorar as armadilhas ao nível da sua concepção e aprimorar os atractivos. Sobre este aspecto fiz diversas publicações nas quais identifiquei concretamente várias soluções já disponíveis (aqui, por exemplo).

Nesta demanda identifiquei recentemente mais um projecto, desta vez nascido nas Astúrias, e que teve como objectivo ” Crear una trampa para avispa asiática, que sea selectiva (es decir, que evite atrapar a otros insectos) y que se pueda fabricar por impresión 3d.”. Para além do produto final obtido, o que me importa mais com esta publicação é realçar a vantagem e necessidade de um trabalho colaborativo entre a academia, os decisores institucionais e os apicultores com vista a procurarem soluções mais efectivas para um problema complexo como este é. Na minha opinião, já não estamos em tempo de a academia e os decisores institucionais ignorarem a gravidade que a V. velutina representa para a biodiversidade e, de forma concomitante, é avisado procurar melhorar substancialmente a selectividade das armadilhas e atractivos, para que estas deixem de funcionar no campo como os insecticidas generalistas pouco selectivos contra os quais os apicultores sempre se opuseram, como no caso dos organofosforados e dos neonicotinoides.

Clique na imagem para aceder ao documento.

terceiro encontro de apicultores do distrito da Guarda: reagendamento

O terceiro encontro de apicultores do distrito da Guarda foi reagendado para o próximo dia 20 de Fevereiro. Serão bem-vindos apicultores de qualquer região de Portugal.

Encontram o link para fazer a vossa inscrição aqui: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdumNwkqYeOAEayxsulwGLsaVDL-my9jXePWWisWtiuRnKvdA/viewform

Mais uns momentos para continuarmos esta conversa inesgotável sobre as abelhas e a relação que vamos tendo com elas.

os meus livros

Jorge Luis Borges
24 Ago 1899 // 14 Jul 1986 
Escritor/Poeta/Ensaísta 

Os meus livros (que não sabem que existo) 
São uma parte de mim, como este rosto 
De têmporas e olhos já cinzentos 
Que em vão vou procurando nos espelhos 
E que percorro com a minha mão côncava. 
Não sem alguma lógica amargura 
Entendo que as palavras essenciais, 
As que me exprimem, estarão nessas folhas 
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo. 
Mais vale assim. As vozes desses mortos 
Dir-me-ão para sempre. 

Jorge Luis Borges, in “A Rosa Profunda”

varroa: a actualidade deste blog

Não sou dado a auto-elogios como não sou dado a auto-comiserações. Sei de há muito que “santos da casa não fazem milagres” e que “pior que estar errado é ter razão antes do tempo”, e convivo sem perder o sono com esta realidade. O que não me mata torna-me mais resistente!

Depois de ler de ponta a ponta um guia publicado recentemente, em 2021, pela francesa FNOSAD (Fédération Nationale des Organisations Sanitaires Apicoles Départementales) acerca dos mais actuais avanços que a ciência nos disponibiliza sobre o ácaro varroa, confirmo que o trabalho persistente de pesquisa e divulgação que disponibilizo aos leitores assíduos deste blog acerca do que de mais importante se tem descoberto nos últimos anos neste domínio, tem acompanhado os tempos. Sem falsas e hipócritas modéstias, estou a fazer um trabalho de que me orgulho muito. Em baixo destaco algumas publicações deste blog (em hiper-ligação) em associação com os conteúdos deste guia francês tão actual, rico e valioso, escrito com recursos que não tenho, por uma instituição estatal francesa, guia este que me foi dado a conhecer há uns dias atrás pelo meu querido amigo João Gomes.

fonte: https://www.fnosad.com/fiches-pratiques/guide_fnosad_varroa_et_varroose.pdf

Entre outros avanços recentes no conhecimento do principal inimigo das abelhas, terei sido dos primeiros a publicar em português estes aspectos, entre outros:

Que 2022 nos permita controlar devidamente este parasita e inimigo mortal das nossas abelhas! Este desejo é dirigido, em particular, aos meus leitores e amigos que, através das suas mensagens públicas e privadas, me interpelam, me ensinam e me estimulam a continuar.

um documento essencial para a sobrevivência da apicultura portuguesa

Deixo em baixo o documento elaborado pelos apicultores João Neto e José Vicente, da Melbionisa, no âmbito de 2ª fase de consulta para a elaboração do PEPAC, 2023-2027 (ver aqui). Este documento deve ser lido com toda a atenção por todos nós, em particular pelas Associações de Apicultores, que o poderão/deverão ter como base de trabalho nesta fase de consulta do PEPAC 2023-2027. Tal como actualmente está desenhado, este Plano Estratégico para os próximos 5 anos não responde às dificuldades, necessidades e justas aspirações dos apicultores portugueses. A todos os companheiros, incentivo que façam chegar este documento às Vossas Associações, para que estas sejam os megafones das nossas preocupações, das nossas propostas, das nossas esperanças.