resposta às perguntas do Randy Oliver

Numa das conversas que vou tendo ocasionalmente com o Randy Oliver através de e-mail, há poucos dias atrás perguntou-me: “You obviously follow how we do it in the U.S.  What are the main differences in beekeeping in Portugal?   And what do most beekeepers there use for varroa management?” (Obviamente acompanhas como fazemos nos EUA. Quais são as principais diferenças da apicultura em Portugal? E o que a maioria dos apicultores usam para o controlo da varroa?)

Sem pretensões a ser exaustivo, e muito menos desmesuradamente analítico, dei-lhe as minhas impressões na resposta que copio em baixo:

A minha mulher a ajudar-me a fazer apicultura em Portugal (foto de julho deste ano).

“Vou enviar alguns números globais: em Portugal, de acordo com os últimos dados oficiais (2018), havia cerca de 12 mil apicultores e 760 mil colmeias. Destes, apenas 1300 apicultores têm mais de 150 colónias (eu cheguei a 700, e agora tenho 170, fui vendendo para reduzir minha operação). Esses 1300 apicultores possuem 60% do número total de colónias.

As principais diferenças são estas, em minha opinião: nos EUA, a polinização traz bons rendimentos e segurança financeira aos apicultores comerciais/profissionais; aqui em Portugal este negócio da polinização começou a aumentar nos últimos 4 anos, devido à plantação de grandes pomares de amendoeiras numa zona do nosso país que passou a beneficiar de canais de irrigação. Porém os valores são bastante baixos, rondando os 20-30 euros por colónia.

Por outro lado, em Portugal e em muitos países europeus, a compra de acaricidas homologados é apoiada pelo Estado e pela UE na ordem dos 80%. Para você ter uma ideia, cada tratamento com tiras de Apivar custa ao apicultor cerca de 1,5 €. Dois tratamentos por ano são comparticipados.

Em Portugal, o produto da colmeia mais vendido é o mel, seguido do pólen e, em terceiro lugar, a própolis. O mercado de pólen é muito oscilante, com quedas e aumento de ano para ano em torno de 200% a 300%. Este ano, o mercado do mel a granel está a pagar mais do que nos últimos três anos: o mel multifloral a 3,50 €, o mel monofloral a 4,50 € e o mel de melada a 5 €.

A vespa velutina afasta muitos pequenos apicultores, embora muitas vezes atribuam à velutina a elevada mortalidade das colmeias quando de facto é a varroa que as mata. Porém, a falta de conhecimento para fazer um bom diagnóstico e talvez por vergonha, são levados a culpar a velutina. No entanto, a velutina está a desmoralizar muitos apicultores creio que porque é mais visível, mais observável em comparação com a varroa.

O tratamento mais utilizado é o Apivar e o Apitraz, mas muitos também utilizam formulações caseiras com amitraz em cartão. Há um número crescente de apicultores que notam uma diminuição na eficácia do Apivar e Apitraz. Este ano fiz pela primeira vez um tratamento intermédio com tiras de cartão de ácido oxálico. Até agora, nenhuma colónia morreu. Minha taxa de mortalidade no inverno nos últimos 7 anos não ultrapassou 5%, e muito graças ao que aprendo consigo.

Outra diferença, em Portugal ou não existem apicultores treatment-free, ou são poucos. Eu não conheço nenhum.

Randy, desculpe pela extensão da resposta. Se você tiver algum aspecto que queira abordar com mais detalhes, sinta-se à vontade para me perguntar.”

Nota 1: por que razão acho que a segurança financeira que os serviços de polinização oferece aos apicultores norte-americanos é assim tão importante? Uma vez mais repito o que já referi várias vezes, a principal ameaça à apicultura nacional em geral, e à apicultura profissional em particular, é a ausência de segurança financeira. As abelhas melíferas domésticas não correm actualmente perigo de extinção, mas o número de colónias depende inexoravelmente do retorno do investimento. Se esse retorno for cada vez mais incerto, ou pior, inexistente, o cenário de abundância relativa de abelhas melíferas domésticas pode mudar súbita e drasticamente por abandono da actividade de boa parte dos seus cuidadores.

Nota 2: por que razão acho que a comparticipação dos estados europeus e da UE na aquisição e consequente obrigação de tratamento da varroose, ao contrário do que se passa nos EUA é assim tão importante? As estatísticas globais de mortalidade invernal e estival de enxames dos últimos 20 anos colocam regularmente os EUA à frente da Europa. Sabendo que a varrooose e os vírus associados a esta doença são os principais indutores de mortalidade de colónias de abelhas, concluo que na Europa se está a abordar este problema de forma mais efectiva. Sabendo também que a principal diferença na abordagem está na comparticipação dos medicamentos na Europa, comparticipação inexistente nos EUA, na obrigação de tratar a varroose na Europa, em contraste com apenas a recomendação para tratar nos EUA, não posso deixar de considerar este um outro ponto muito saliente na diferença que encontro no modo como se faz na Europa por comparação com o modo como se faz nos EUA.

Incentivo os leitores a comentarem, e assim enriquecer, esta reflexão que fiz de forma tão sumária e pessoal às questões que o Randy me colocou.

o meu olhar sobre um apicultor californiano: Randy Oliver

Ler as publicações mensais do Randy Oliver é uma daquelas coisas que me dá enorme satisfação. Faço-o pelo menos há 10 anos, quando nas minhas deambulações pela “net-apícola” descobri o seu blog, logo nos primeiros anos da minha actividade apícola. Entre os muitos aspectos que me dá satisfação no trabalho que o Randy faz e na forma como o descreve no seu blog vou destacar estes:

  • é um apicultor que não orienta o seu maneio por crendices/dogmas antigos ou recentes. Prefere fazer a sua apicultura sustentada nos muitos dados dos ensaios controlados que ele ou outros fazem;
  • é um apicultor que gosta de dados numéricos, estatísticas, cálculos. Não recusa aplicar a matemática quando ela deve ser aplicada, ao contrário de alguns apicultores que tudo julgam saber e perceber sem fazerem uma única medição, sem fazerem um único cálculo (pois,… nem todos temos estes dons sobrenaturais de tudo saber sem nada medir, sem nada contabilizar!);
  • aprecia e valoriza o detalhe, observa e descreve as minúcias, é céptico em relação às sua primeiras impressões. Não tem o banal e preguiçoso discurso generalista, desprovido de detalhe de quem nada tendo observado com atenção e medido com rigor enche as bochechas de ar e dispara princípios sem sustentação, princípios sem pai nem mãe, cheios de auto-indulgência e soberba;
  • é um apicultor que vive das abelhas e se preocupa com o seu bem-estar. Mantém-nas saudáveis o mais possível, tem baixas taxas de mortalidade e explora novos caminhos, como por exemplo os dispensadores lentos de ácido oxálico (extendedrelease oxalic acid), a melhor invenção que surgiu no campo dos acaricidas de que me dei conta desde que iniciei a minha actividade apícola em 2009.

Mas nada melhor que ler o que ele escreve sobre si mesmo, sobre o seu trabalho, sobre a sua filosofia de vida e abordagem à apicultura, sobre o seu blog:

  • Sobre o seu blog escreve: Este não é um site que lhe diz “Como você deve manter as abelhas”; em vez disso, sou um defensor da apicultura “O que funciona para você”. Eu sou um a pessoa que prefere os “dados ao dogma” e imploro aos meus leitores que me corrijam sobre qualquer informação neste site que esteja desatualizada ou não seja suportada por evidências.
  • Sobre si próprio escreve: “É aquilo de que você tem certezas que o impede de aprender. E eu adoro aprender. Gostaria de deixar perfeitamente claro que não me considero o árbitro final em qualquer assunto! Ao investigar muitos desses assuntos polémicos, meu cérebro parece um equipamento de GPS, dizendo repetidamente: “Recalculando” e às vezes até “Vire quando possível.” É por isso que tomo cuidado para não ter posições dogmáticas e aprecio ser desafiado de forma inteligente em qualquer aspecto. Se algo me chama a atenção que me faz repensar ou corrigir qualquer coisa que escrevi, fico mais do que feliz em me corrigir nestas páginas.
  • Sobre a apicultura, escreve: “Visitei apicultores em muitos países e percebi que existem tantas maneiras de manter as abelhas quanto apicultores. As abelhas não se importam se você é um apicultor comercial/profissional ou amador, nem se sua preferência pessoal é Langstroth, Warre, top-bar, alvéolo pequeno, sem cera laminada, apicultura “natural” ou convencional – a mesma biologia aplica-se a todos. Meu objetivo é fornecer a todo e qualquer apicultor um recurso de informação legível e direta sobre como praticar a boa apicultura e exercer a sua responsabilidade ambiental e comunitária.
  • A sua postura: “Este site é mais ou menos um registro do meu processo de aprendizagem à medida que aplico meu treinamento formal como biólogo à prática de administrar minha operação de apicultura comercial/profissional em constante evolução na Califórnia. Não tenho interesse em oferecer conselhos (há muitos apicultores mais do que ansiosos para os dar). Em vez disso, o que eu ofereço são explicações baseadas em evidências e cientificamente verificadas dos processos biológicos que ocorrem na colmeia, bem como os efeitos de várias opções de maneio. Deixo então a cada apicultor usar essas informações para tomar suas próprias decisões práticas de maneio mais bem informadas.
  • Sobre como utilizar o seu blog: “Nesta “era pós-verdade”, a “era da sobrecarga de informação”, os apicultores novatos podem ficar muito confusos por uma internet e uma imprensa popular repleta de opiniões conflitantes e conselhos questionáveis. Se você é um apicultor iniciante em busca de informações básicas, ou um apicultor experiente em busca de um resumo das opções de tratamento de ácaros, sugiro que vá diretamente para Apicultura Básica no meu site. Caso contrário, sugiro que você clique nas categorias azuis à direita de cada página para ver quais são os artigos estão disponíveis por categoria, ou vá para Artigos por data de publicação ou use a função Pesquisar no topo de cada página para procurar tópicos.

fonte: https://scientificbeekeeping.com

Randy muita saúde e muita energia para continuares o teu caminho que ilumina muitos de nós!

terceiro encontro de apicultores do distrito da Guarda

É a terra onde fui parido há quase 55 anos. Lá estarei no próximo dia 11 de Dezembro com o mesmo prazer com que estive nos dois encontros anteriores.

Encontram o link para fazer a vossa inscrição aqui: https://www.facebook.com/profile.php?id=100014118912429

Mais uns momentos para continuarmos esta conversa inesgotável sobre as abelhas e a relação que vamos tendo com elas.

a análise do sector apícola com vista à elaboração do Plano Estratégico da PAC 2023-2027

Em baixo deixo alguns excertos do relatório de Análise Sectorial da Apicultura, elaborado pelo do GPP (Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral), para dar resposta à elaboração do Plano Estratégico da PAC 2023-2027.

Da minha leitura, as linhas directrizes básicas mantêm-se relativamente ao último relatório: o sector apícola é reconhecido como um sector essencial para a agricultura pelo papel relevante que tem na polinização, … e continua a não ter medidas específicas de apoio directo. Se isto não é incoerente, alguém que encontre melhor qualificador. Como já tive oportunidade de referir neste blog, há uns anos atrás, a maior ameaça ao sector não é a varroa, a velutina, os pesticidas, a fragmentação do território, as alterações climáticas, …; é o baixo e imprevisível retorno do investimento financeiro e humano feito. Sem um conjunto de ajudas do estado português e UE, justas e efectivas, que garanta alguma segurança e tranquilidade a quem investe no sector, o presente e o futuro não são difíceis de descrever: quem está no sector tenderá a diminuir o efectivo ou até a abandoná-lo e os jovens, que deveriam ir substituindo os mais velhos, dificilmente o farão por não encontrarem os atractivos mínimos para o considerar uma oportunidade profissional e empresarial.

Ficam os excertos do relatório que achei relevantes e oportuno destacar nesta publicação.

A apicultura é praticada em todos os Estados-Membros da UE, sem exceção, sendo caracterizada pela diversidade das condições de produção, em que os rendimentos e as práticas apícolas representam um pequeno setor, mas considerado essencial para a agricultura por causa papel relevante da polinização.” (pg. 4)

O setor apícola em Portugal, tal como no resto da União Europeia, é uma atividade tradicionalmente ligada à agricultura, normalmente encarada como um complemento ao rendimento das explorações, sendo porém de assinalar um crescente universo de apicultores profissionais, para os quais a apicultura é a base das receitas de exploração. A apicultura representa, contudo, um serviço vital para a agricultura através da polinização e contribui para a preservação da biodiversidade ao manter a diversidade genética das plantas e o equilíbrio ecológico.

É uma atividade que desempenha um papel relevante no aproveitamento integrado e economicamente sustentável do espaço rural, na animação do nosso tecido rural e na ligação do homem urbano àquele meio, que deve, como tal, ser avaliada tendo por base não só os fatores de produção envolvidos e o valor dos produtos diretos da atividade, como o mel, a cera, o pólen, a própolis, a geleia real e as abelhas, mas também outros fatores da ação na interação humana com o meio em que se desenvolve.

Trata-se contudo, de um setor com uma baixa taxa de profissionalização, com fraca concentração de oferta, mas por outro lado com um crescente interesse do consumidor e da indústria (por ex. cosmética e farmacêutica), não só do produto mel, mas também de outros produtos inerentes à atividade apícola.” (pg. 7)

Segundo dados relativos à conta de cultura da atividade apícola em Portugal, em 2018, verifica-se que:

A atividade apícola não profissional, é atribuída uma produtividade de 15 Kg por colmeia e em que se apresenta o caso de um apicultor com 25 colmeias;

Um apicultor com uma dimensão média de 30 colmeias, correspondente à dimensão média do apicultor não profissional (ou seja, a 90% dos apicultores portugueses) apresenta um custo total de 91€/colónia;” (pg.13)

Relativamente ao triénio anterior o REL [Rendimento Empresarial Líquido] médio passou de 33.642 euros [2013-2015] para 15.459 [2016-2018] euros o que corresponde a uma diferença de – 46 %.

Esta diferença deve-se à diminuição da produção de mel por colmeia (22 para 15Kg nos apicultores profissionais e não profissionais e 33 para 22Kg nos apicultores profissionais com transumância) e à diminuição do preço dos enxames de 75€ para 55 €). Por outro lado, nos encargos com consumos intermédios (custos variáveis) a reposição de ceras e a alimentação artificial aumentaram 67% (de 6 para 10€/colmeia e de 4,5 para 7,5 €/colmeia, respetivamente).” (pg.16)

O setor da apicultura não tem medidas de apoio direto específicas.” (pg. 29).

Sobre as ajudas que proponho já escrevi aqui de forma relativamente detalhada.

fontes: https://www.gpp.pt/images/PEPAC/Anexo_NDICE_ANLISE_SETORIAL___APICULTURA.pdf ; https://www.gpp.pt/index.php/pepac/plano-estrategico-da-pac-2023-2027-consulta-alargada

o catedrático que acarreta pedras

Soube ontem que um apicultor veterano da nossa praça, resolveu destratar-me nas minhas costas chamando-me depreciativamente de apicultor “catedrático”. Não fico admirado que alguns não gostem de mim, vivo bem com o desamor/ódio de alguns. Nunca procurei agradar a ninguém. E apesar disso (ou por isso) agrado a muitos mais. Vamos aos factos.

Sei de fonte muito segura, através das estatísticas do WordPress, o servidor que abriga este blog, que as minhas publicações são vistas, em média, por cerca 10 mil leitores todos os meses (destes, 70% são leitores frequentes). Os leitores atentos já perceberam há muito que não sou de dar receitas. Que não sou de ter certezas. Que procuro sempre circunstanciar as minhas observações aos meus apiários, no seu território. Que tenho uma aversão a proclamar verdades universais e absolutas. Que apenas me atrevo a dizer o que faço, porque o faço, e que resultados obtenho. Alguns leitores, que vão escrevendo no espaço dos comentários, dizem-me que algumas das minhas opções também têm resultado quando as ensaiam nos seus apiários. Alguns mais corajosos, digo eu, têm inclusive dado os seus testemunhos que aqui tenho publicado com muito gosto. É este respeito que tenho conquistado entre os mais novos, mas inclusivamente entre os “mestres” da nossa praça, ainda que não o admitam (nunca o admitirão, eu sei).

Se estas publicações fossem de um arrogantezinho catedrático, que publica um conjunto de tretas sem adesão com a realidade, então 10 mil leitores/mês seriam uns néscios. Mas não, não o são! São pessoas como eu, apaixonados pelas abelhas e com mais dúvidas informadas que com certezas cegas, à procura de um caminho para fazer melhor e com o espírito aberto.

Se sou um “catedrático”, sou um catedrático com muitas dúvidas, que sustenta o que diz e faz no que observa e que, quando não é possível observar, vai e lê o que observam os investigadores em experiências devidamente controladas. Se sou um catedrático é porque tenho aversão a afirmações peremptórias fruto de “achismos”, porque tenho uma atitude de cepticismo informado e sou muito mal-disposto com os vendilhões de ilusões, que não fazem a arte avançar, apenas procuram o lucro com os incautos ao virar de cada esquina. Para estes não tenho complacência, daí não gostarem de mim nem das minhas intervenções.

O mais belo e eterno livro escrito em língua portuguesa, os Lusíadas, termina os seus dez cantos com a palavra “inveja”. Das poucas certezas que tenho, sei que quem me apelida de catedrático sofre do pior mal que acomete frequentemente alguns portugueses, o mal de inveja.

Hoje fiz 300 km de urgência e andei a fazer o meu trabalho, sem o adiar para um dia em que já é tarde demais. Andei a colocar pedras sobre os tectos das colmeias para não levantarem voo com as rajadas de vento que se prevêem nos próximos dias. Hoje, uma vez mais sujei as mãos, transpirei, fiz o que tinha que fazer para conseguir o que poucos conseguem no nosso país: viver exclusivamente das abelhas (e ainda ter algum tempo para outras coisas, como ir escrevendo uma linhas neste blog).

Ah, e sou pouco dado a um outro mal, que me parece demasiado frequente nas nossas gentes, e que o meu querido filho tão certeiramente apelidou de “ofendidismo”. Como não me dou a esses achaques, não vou deixar de publicar e comentar o que desejar e me apetecer. E que outros “catedráticos” apareçam a descrever o seu trabalho no campo e as leituras e os conhecimentos actualizados que vão adquirindo. Que falta fazem!

Leio investigação controlada à segunda-feira e acarreto pedras para colocar sobre as minhas colmeias à terça. Esta é uma frase que me define de forma cristalina.

o programa apícola francês ou je suis français

Como em Portugal, o setor apícola francês beneficia de apoio financeiro no âmbito de um programa europeu, regido pelo regulamento (UE) 1308/2013 (OCM única), regulamentos (UE) 2015/1366 e 2015/1368 e pela decisão do Diretor-Geral da FranceAgriMer INTV SANAEI 2019-17.

Como o programa apícola português, definido para um triénio, o programa apícola francês prevê ajudas de carácter colectivo, que têm como objectivo a implementação de ações que visem a melhoria da produção e comercialização dos produtos apícolas:

  • assistência técnica e formação;
  • a luta contra agressores e doenças da colmeia;
  • pesquisa aplicada;
  • análises de mel;
  • melhoria da qualidade do produto.

Contudo, ao contrário de programa apícola português, o programa francês prevê ajudas directas aos apicultores nestas duas rubricas:

  • racionalização da transumância;
  • ajuda para manter e reforçar o efectivo apícola.

Por exemplo, os apoios à transumância têm como objetivo financiar equipamentos para modernizar os apiários e reduzir a árdua tarefa inerente às operações de transumância, sendo investimentos elegíveis para apoio os abaixo descriminados:

  • Grua;
  • Empilhadores todo terreno de 4 rodas ou esteira;
  • Reboque;
  • Plataforma elevatória;
  • Layout da plataforma do veículo;
  • Paletes;
  • Moto-roçadora ou roçadora com rodas;
  • Preparação de locais de transumância;
  • Balanças eletrónicas controláveis ​​remotamente.

As taxas de ajuda podem atingir 40% no máximo do montante, excluindo impostos sobre o investimento elegível efetivamente realizado. O tecto de investimento está definido a três anos:

  • Até 150 colmeias declaradas: € 5.000 sem impostos;
  • Mais de 151 colmeias declaradas: € 23.000 sem impostos.

Por cá, o estado paternalista, com pelo menos 95 anos — 48 antes do 25 de abril e 47 anos depois do 25 de abril—, continua a achar que os cidadãos não sabem onde, como e quando investir e aplicar o dinheiro dos apoios. E vai fazendo cada vez mais o papel de um pai esclorosado e demente!

por detrás deste blog estás tu, meu filho.

Por detrás deste blog estás tu, meu filho. Foste tu que, com a tua mestria e dedicação, me permitiste materializar esta vontade de escrever umas linhas sobre apicultura. És tu que, fora do palco, me ajudas a ultrapassar prontamente alguns problemas técnicos que vão surgindo a espaços. Sem ti, este blog seria uma frequente dor de cabeça, um aborrecimento, um peso…

Sobre ti posso dizer-te duas ou três coisas que considero essenciais neste momento em que as escrevo. 

A minha vida e o meu sentir mudaram no momento em que nasceste. Logo ali, naquele momento único e irrepetível, senti uma mudança interior. Foi logo ali que senti que o jogo da minha vida tinha passado para outro patamar, que a responsabilidade agora tinha entrado noutro campeonato. Agora a missão era criar-te. Missão mais exigente e arriscada, mas mais nobre e cheia de significado. A minha vida ganhou outra tração. 

Sobre ti, posso ainda dizer que consegues fazer praticamente tudo em que te empenhas verdadeiramente. Pouco ou nada te atemoriza, pouco ou nada te tolhe. Tens a inteligência e as ganas para seguir o TEU caminho. Tens a coragem e o instinto para cumprir o teu destino, traçando-o e construindo-o, não te submetendo a ele. Na tua área de trabalho, muito específica e inovadora, estás entre os melhores do mundo. Vivendo em Portugal, és genuinamente um cidadão do mundo. 

Dizer apenas mais isto… o teu coração é equilibrado pela tua razão, e tua razão não é sem teu coração. O que fazes faze-lo de forma apaixonada, planeada, devidamente ponderada, quase até à tua exaustão, e faze-lo porque o QUERES fazer assim. O teu combustível é a paixão que te obrigas a colocar em quase tudo o que fazes! Vives o teu dia-a-dia numa dimensão volitiva, de desejo intenso, de vontade focada, puxado pelos teus motivadores intrínsecos e fluindo, como o voo de uma abelha num campo florido, entre os teus motivadores extrínsecos. 

Como te AMO e como me sinto orgulhoso em ser teu pai! Um beijo, daqueles que os pais dão, meu filho!

Gostas de música e és muito eclético nas tuas escolhas, o que me revela bem a tua complexidade interior. Partilho algumas das que gostas: 

com borges e calvino

Referi na primeira publicação que este blog surge, entre outras, pela razão do meu prazer pela escrita. E este prazer está associado a um enamoramento, o enamoramento pela literatura.

E ao escrever, mesmo num blog de apicultura eminentemente técnico, aqui e ali não podemos deixar de expressar, desejando até expressar, procurando até expressar, um certo traço de escrita presente nos autores que tanto amamos ler.

Borges e Calvino

Os dois excertos em baixo, cuja escolha não é despropositada, como se fosse possível fazer escolhas despropositadas, são de Jorge Luís Borges, um velho companheiro desde os meus 16 anos, e de Italo Calvino, um escritor que conhecendo como se conhecem os vizinhos numa cidade, só muito recentemente lhe abri a soleira da minha porta, bebi um copo com ele, e desde essa altura se tornou um companheiro para a/da vida.

Que os mundos maravilhosos das abelhas e da literatura nos continuem a encantar.

OS DOIS REIS E OS DOIS LABIRINTOS (1), de Jorge Luís Borges

Contam os homens dignos de fé (porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu arquitetos e magos e ordenou-lhes a construção de labirinto tão surpreendente e sutil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar, e os que entravam se perdiam. Essa obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são operações próprias de Deus e não dos homens. Com o correr do tempo, veio a sua corte um rei dos árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade de seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso até o fim da tarde. Implorou então o socorro divino e deu com a porta. Seus lábios não proferiram queixa nenhuma, mas disse ao rei da Babilônia que ele tinha na Arábia outro labirinto e, se Deus quisesse, lho daria a conhecer algum dia. Depois regressou à Arábia, juntou seus capitães e alcaides e arrasou os reinos da Babilônia com tão venturosa sorte que derrubou seus castelos, dizimou sua gente e fez prisioneiro o próprio rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e lhe disse: “Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia, quiseste que me perdesse num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te vedem os passos”.

Em seguida, desatou-lhes as amarras e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

(1) Esta é a história que o reitor comentou do púlpito. Ver em Abenjacan, o Bokari, morto no seu labirinto.

AS CIDADES E O DESEJO, de Italo Calvino

A três dias de distância, caminhando em direção ao sul, encontra-se Anastácia, cidade banhada por canais concêntricos e sobrevoada por pipas. Eu deveria enumerar as mercadorias que aqui se compram a preços vantajosos: ágata ônix crisópraso e outras variedades de calcedônia; deveria louvar a carne do faisão dourado que aqui se cozinha na lenha seca da cerejeira e se salpica com muito orégano; falar das mulheres que vi tomar banho no tanque de um jardim e que às vezes convidam — diz- -se — o viajante a despir-se com elas e persegui-las dentro da água. Mas com essas notícias não falaria da verdadeira essência da cidade: porque, enquanto a descrição de Anastácia desperta uma série de desejos que deverão ser reprimidos, quem se encontra uma manhã no centro de Anastácia será circundado por desejos que se despertam simultaneamente. A cidade aparece como um todo no qual nenhum desejo é desperdiçado e do qual você faz parte, e, uma vez que aqui se goza tudo o que não se goza em outros lugares, não resta nada além de residir nesse desejo e se satisfazer. Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

Os dois reis e os dois labirintos, in O Aleph; As cidades e o desejo, in As cidades invisíveis