Vespa velutina, paralisia de voo e água: estará a faltar uma peça do puzzle?

Desde que comecei a escrever sobre a Vespa velutina, em 2016, a pergunta foi mudando lentamente. Nos primeiros anos interessava-me sobretudo compreender o invasor: a sua biologia, a velocidade de expansão e as diferentes formas de limitar o seu impacto. Com o tempo, porém, a atenção começou a deslocar-se da vespa para as próprias colónias.

Mais do que perceber o que fazia a Vespa velutina, passei a interessar-me pelo que acontecia às abelhas quando a sua presença se tornava constante.

A investigação veio confirmar que essa mudança de perspetiva fazia sentido.

Hoje sabemos que o principal impacto da Vespa velutina não resulta apenas das campeiras capturadas. Resulta sobretudo da alteração profunda do comportamento da colónia. À medida que aumenta a pressão junto ao alvado, as campeiras reduzem progressivamente a atividade de voo. Entram menos cargas de pólen. Entra menos néctar. A criação diminui. As colónias chegam ao final do verão mais debilitadas e preparam pior o inverno. Este quadro encontra hoje sólido suporte científico.

No entanto, havia uma dúvida que continuava a surgir sempre que observava apiários fortemente pressionados durante os dias mais quentes de agosto. Quando uma colónia praticamente deixa de voar, deixa apenas de recolher néctar e pólen? Ou deixa também de recolher água precisamente na altura em que mais necessita dela?

Durante muito tempo esta pergunta permaneceu apenas como uma hipótese. Não porque existissem trabalhos que a contrariassem, mas porque simplesmente não existiam estudos que permitissem enquadrá-la.

Refiro-me à água.

Habitualmente olhamos para a água como um recurso indispensável para arrefecer a colónia durante os períodos de calor. É verdade. Mas essa é apenas uma parte da sua função.

Os trabalhos publicados por Le Bivic e colaboradores mostram que a água participa em praticamente todas as funções essenciais da colónia. É utilizada na produção do alimento larvar, contribui para manter o equilíbrio hídrico das abelhas adultas, participa na regulação da humidade da zona de criação e desempenha um papel decisivo na termorregulação.

Os autores observaram ainda um aspeto particularmente interessante: à medida que a temperatura aumenta, uma parte crescente da água recolhida passa a ser utilizada no arrefecimento da área de criação (tradução livre).

Este resultado merece ser cruzado com outro facto bem conhecido pelos apicultores. É precisamente durante julho, agosto e setembro que a Vespa velutina exerce normalmente maior pressão sobre os apiários. Os dois fenómenos coincidem. A colónia necessita de mais água. Mas encontra maior dificuldade em recolhê-la.

Abelhas em contexto de paralisia de voo/forrageamento por acção da pressão de V. velutina junto alvado (foto minha).

Até aqui habituámo-nos a interpretar a paralisia de voo sobretudo como um problema de alimentação. Entram menos recursos. A criação diminui. As colónias enfraquecem.

Tudo isto continua a ser verdade. Mas talvez esta interpretação não esteja completa.

Porque a água não constitui apenas mais um recurso recolhido pelas campeiras. Constitui um elemento essencial para que a colónia mantenha o seu funcionamento normal.

Ao contrário do mel ou do pão de abelha, a água praticamente não é armazenada. É recolhida, distribuída e utilizada quase de imediato. Talvez seja precisamente esta característica que explique por que razão a sua importância passou relativamente despercebida quando discutimos o impacto da Vespa velutina.

Importa distinguir claramente aquilo que sabemos daquilo que ainda constitui apenas uma hipótese. Sabemos que a Vespa velutina reduz significativamente a atividade de voo. Sabemos que temperaturas elevadas aumentam as necessidades de água da colónia. Sabemos que essa água é indispensável para manter o funcionamento normal da criação. O que ainda não sabemos é qual a importância da diminuição da sua recolha no conjunto dos efeitos provocados pela Vespa velutina. Mas parece existir fundamento suficiente para que esta hipótese seja estudada.

Ao longo dos últimos anos tenho defendido neste blogue que o principal benefício das harpas elétricas não resulta apenas do número de Vespa velutina capturadas. O mais importante parece ser aquilo que acontece depois. As campeiras voltam a voar. Recomeça a entrada de pólen. Recomeça a entrada de néctar. A criação recupera.

Harpas eléctricas e sua acção letal sobre a V. velutina, e consequente retorno das colónias ao normal comportamento de forrageio (foto minha).

Talvez possamos agora acrescentar outra possibilidade. Ao devolverem tranquilidade à entrada da colmeia, as harpas poderão estar igualmente a permitir que as aguadeiras retomem a sua atividade.

Os trabalhos de Rojas-Nossa e colaboradores mostraram precisamente que as colónias protegidas por harpas apresentaram maior atividade de voo, maior entrada de pólen, mais criação e melhor sobrevivência. Como referem os autores, a redução da pressão de predação permitiu restabelecer o normal funcionamento das colónias (tradução livre).

Habitualmente interpretamos estes resultados como consequência da maior disponibilidade de alimento. Provavelmente essa interpretação está correta. Mas talvez não seja suficiente.

Quando as campeiras recuperam a possibilidade de voar, não regressam apenas às flores. Regressam também às fontes de água.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez parte dos benefícios atribuídos às harpas resulte também da recuperação da capacidade da colónia manter o seu equilíbrio fisiológico durante os períodos de maior exigência ambiental.

Esta perspetiva conduz igualmente a algumas implicações práticas.

A prioridade continua a ser reduzir a pressão exercida pela Vespa velutina para permitir que a colónia recupere a sua atividade normal.

Nessa estratégia, as harpas poderão assumir um papel ainda mais importante do que aquele que normalmente lhes atribuímos.

Paralelamente, parece prudente garantir fontes permanentes de água nas proximidades do apiário, sobretudo durante os meses mais quentes. Uma colónia que recupera a capacidade de voar beneficiará dessa recuperação se encontrar rapidamente o recurso de que necessita.

Poderão existir circunstâncias particulares em que um bebedouro interno ou mesmo um xarope bastante diluído ajudem temporariamente uma colónia muito condicionada. Contudo, estas soluções deverão ser encaradas apenas como complementares. O essencial continua a ser permitir que a própria colónia recupere a sua autonomia e volte a desempenhar normalmente todas as funções para que evoluiu.

Ao reler as publicações que tenho vindo a escrever sobre a Vespa velutina desde 2016, apercebo-me de que a pergunta foi mudando.

Primeiro procurei compreender a vespa e como as eliminar. Depois procurei compreender aquilo que fazia ao comportamento das colónias. Talvez esteja agora na altura de tentar compreender de que forma esse comportamento alterado interfere com o funcionamento interno da própria colónia.

A água poderá ser apenas uma das peças desse processo. Mas talvez seja uma peça mais importante do que até agora lhe temos atribuído.

Se esta hipótese vier um dia a confirmar-se, talvez sejamos obrigados a olhar para a Vespa velutina de uma forma ligeiramente diferente. Não apenas como um predador de abelhas. Mas como um fator capaz de perturbar, por múltiplas vias, o delicado equilíbrio que permite a uma colónia funcionar como um verdadeiro superorganismo.

E talvez seja precisamente aí que ainda falte encontrar uma peça importante deste puzzle.

Referências

  • Le Bivic, P. et al. (2025). Effects of weather and colony size on water collection in honey bee coloniesAnimal Behaviour.
  • Le Bivic, P. et al. (2026). Water dynamics in the honey bee colony (Apis mellifera): monitoring under high temperaturesJournal of Insect Physiology.
  • Rojas-Nossa, S. V. et al. (2022). Effectiveness of electric harps in reducing Vespa velutina predation pressure and consequences for honey bee colony developmentPest Management Science.
  • Human, H., Nicolson, S. W. & Dietemann, V. (2006). Do honeybees regulate humidity in their nest? Naturwissenschaften, 93, 397–401.

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