Quando hoje leio a revisão publicada na Trends in Parasitology sobre a rápida expansão do Tropilaelaps mercedesae, não consigo evitar um exercício de memória.
Percebo que, afinal, este não é um tema novo no Abelhas à Beira. Acompanha o blogue praticamente desde o seu início.
O mais curioso é verificar como a evolução das minhas publicações acompanha, quase passo a passo, a própria evolução da ameaça.
2016 – Quando ainda era apenas um risco teórico
A primeira referência ao Tropilaelaps surgiu em fevereiro de 2016.
Nem sequer era o tema principal do artigo. Aparecia apenas como um exemplo dos perigos associados à importação de abelhas e rainhas, numa altura em que praticamente ninguém em Portugal falava deste ácaro.
Meses mais tarde publiquei um artigo inteiramente dedicado ao assunto:
“O ácaro Tropilaelaps ou a arma de destruição massiva de colónias de abelhas.”
Na altura parecia um exercício de antecipação. O Tropilaelaps era visto como um problema asiático e muitos leitores terão pensado que dificilmente teria consequências para a apicultura europeia. Mas havia uma razão para lhe dedicar um artigo. A sua biologia fazia soar todos os alarmes. O crescimento populacional era mais rápido do que o da Varroa. Dependia quase exclusivamente da criação.
E tudo indicava que, se algum dia chegasse à Europa, poderia tornar-se um problema de enorme dimensão.
2019 – O papel das alterações climáticas e da globalização
Três anos depois o tema voltou a surgir. Desta vez num contexto diferente. Escrevi sobre alterações climáticas, deslocação de espécies e globalização. O Tropilaelaps continuava longe. Mas começava a tornar-se evidente que as barreiras geográficas eram muito menos sólidas do que gostávamos de acreditar. A experiência da Varroa mostrava precisamente isso.
As doenças não precisam de passaporte.
2020 – A possibilidade de uma nova pandemia apícola
Em novembro de 2020 dei um passo mais à frente. Escrevi que o Tropilaelaps podia representar a próxima pandemia das abelhas.
Não era uma previsão baseada em adivinhação. Era uma consequência lógica da informação científica disponível na altura. Começavam a surgir sinais de expansão para novas regiões asiáticas e tornava-se evidente que este parasita possuía características biológicas capazes de o transformar num problema global.
A pergunta deixava lentamente de ser: “Existe um problema na Ásia?”
E passava a ser: “Quanto tempo demorará até esse problema atravessar continentes?”
2026 – A ciência confirma aquilo que receávamos
Este ano marca uma mudança decisiva. Pela primeira vez já não discutimos um risco distante. Discutimos um ácaro confirmado na Geórgia, no sul da Rússia e no Uzbequistão.
Já não olhamos para um mapa asiático. Olhamos para um mapa europeu.

Fonte: Tropilaelaps mercedesae: rapid geographic
expansion in a novel honey bee host, 2026, Trends in Parasitology
A revisão publicada na Trends in Parasitology confirma praticamente todas as características biológicas que justificavam preocupação há dez anos:
- crescimento populacional superior ao da Varroa;
- enorme dependência da criação;
- curta permanência sobre as abelhas adultas;
- dificuldade de controlo com acaricidas de contacto;
- importância crescente do ácido fórmico e da interrupção da criação como estratégias de controlo.
A diferença é que hoje estas conclusões deixaram de ter apenas interesse académico. Passaram a ter interesse estratégico para a apicultura europeia.
O que mais me impressiona
O mais curioso desta viagem não é verificar que aprendi muito mais sobre o Tropilaelaps.
É verificar que as perguntas fundamentais permaneceram praticamente as mesmas.
Em 2016 perguntava-me: “E se um dia chegar?”
Em 2026 continuo a perguntar exactamente a mesma coisa.
A diferença é que esse “um dia” parece agora muito mais próximo.
Talvez esta seja a verdadeira função de um blogue técnico
Ao reler estes artigos confirmo um traço identitário deste blogue: não serve apenas para comentar aquilo que aconteceu ontem; também serve para preparar aquilo que poderá acontecer amanhã.
Nem sempre acertaremos. Nem todas as preocupações se confirmarão.
Mas quando a ciência começa a apontar numa determinada direcção, vale a pena escutá-la. Foi isso que procurei fazer ao longo destes dez anos. Não porque tivesse capacidade para prever o futuro. Mas porque a biologia, muitas vezes, permite-nos antecipar o caminho que ele poderá seguir.
Uma última reflexão
Quando escrevi pela primeira vez sobre o Tropilaelaps, esperava sinceramente que este fosse um daqueles artigos que envelhecem mal porque o problema nunca chega. Dez anos depois, preferia ter estado errado. Mas continuo a acreditar que conhecer um problema antes de ele nos bater à porta continua a ser a melhor forma de o enfrentar.
A prevenção começa sempre muito antes da emergência.
Quando um problema finalmente chega, normalmente já tivemos anos para o compreender. A questão nunca é apenas saber o que fazer quando ele aparece.
A questão é saber se aproveitámos o tempo que tivemos antes de ele aparecer.
O Tropilaelaps ainda não está em Portugal. Espero sinceramente que esta cronologia continue durante muitos anos sem precisar de um novo capítulo.
Mas, se esse dia chegar, pelo menos ninguém poderá dizer que a ciência não nos foi avisando ao longo do caminho.