preparar as colónias para o eucalipto que se aproxima: nutrição, controlo da Varroa e gestão da pressão da vespa-asiática

No passado dia 2 de outubro, visitei o Miguel Almeida, apicultor profissional com um efetivo numeroso e apiários na zona de Vale de Cambra e Oliveira de Azeméis. A visita nasceu de uma conversa sobre nutrição apícola. O Miguel falou-me de alguns ajustes que introduziu na alimentação das colónias, inspirados em recomendações que apresentei no curso Nutrição Apícola Aplicada, que ministrei e que ele frequentou há alguns meses. Como a nutrição é um tema que me interessa particularmente — e porque, muitas vezes, são os pequenos detalhes que fazem a diferença —, marcámos a visita para falarmos sobre esses ajustes.

Depois de um belíssimo almoço, durante o qual falámos de apicultura e de outros temas com ela relacionados, fomos ver algumas colmeias. Ficou claro que o controlo da Varroa e a nutrição são duas prioridades do maneio do Miguel que também partilho: manter a infestação em níveis baixos ao longo do ano e identificar os défices nutricionais, intervindo para os corrigir. No decurso das visitas a quatro dos seus apiários, fui fazendo algumas fotografias que aqui deixo.

No que concerne ao controlo da Vespa velutina (vespa-asiática), à data da visita, o Miguel sentia que os “cavalos de Troia”, por ingestão, não estavam a funcionar tão bem como noutros anos. Entretanto, informou-me de que a situação se alterou. Na altura, com base em alguns detalhes que retirou do curso Nutrição Apícola Aplicada, estava a identificar e a corrigir os fatores nutricionais limitantes que associava à pressão da vespa-asiática. A sua leitura é que, naquele momento, o principal fator limitante não era tanto a energia, fornecida pelos açúcares, mas sobretudo a proteína. Estava a suplementar as colónias com bifes proteicos, procurando compensar défices que decorriam, em grande medida, da pressão das vespas-asiáticas e do conhecido fenómeno de paralisia de voo ou paralisia de forrageio, a que já me referi em diversas publicações.

Observei que, nas proximidades dos apiários, há muita margoriça (Calluna vulgaris). Verifica-se, de facto, entrada recente de néctar e o seu armazenamento em alguns quadros.

É aí que a atenção e a avaliação regular do contexto de cada apiário se tornam importantes. Perante a entrada de néctar, o Miguel não identifica um défice energético que justifique a suplementação com xarope neste momento. Evita também o risco de bloquear os ninhos, o que nesta altura seria contraproducente: pretende manter espaço para a postura da rainha e para a criação de novas abelhas, aumentando a população das colónias para a colheita do eucalipto que se avizinha.

Entre as colónias que abrimos, encontrámos vários enxames bem fornecidos de criação e de abelhas. Outros estavam mais atrasados, alguns por terem sido formados mais tarde neste ano e outros, possivelmente, por se encontrarem em zonas mais sombrias do apiário. Nesta altura do ano, a exposição ao sol ou à sombra começa também a pesar no desenvolvimento dos enxames.

Em função dos quadros com criação e do desenvolvimento que observámos, o Miguel está confiante de que, dentro de um mês ou mês e meio, a grande maioria das colónias estará preparada para aproveitar o fluxo de néctar do eucalipto. Referiu-me a propósito desta árvore que, após os incêndios de há cerca de seis anos naquela zona, uma parte dos eucaliptos de grande porte nas proximidades de alguns apiários deixou de florir e ainda não recuperou a floração. É um fenómeno que importa compreender e que, na prática, o obriga a deslocar colmeias para zonas mais produtivas.

No percurso entre apiários, falámos das partes mais bonitas da apicultura e também das menos fáceis, da moldagem de cera que o Miguel faz para si e para clientes, e do trabalho de eliminação de ninhos de Vespa velutina nas redondezas. Ao longo da visita, foi evidente a paixão que mantém pelas abelhas, mesmo depois de cerca de 30 anos de atividade: continua atento, a experimentar soluções e a pensar no que pode fazer melhor.

Falámos também da importância das abelhas para os ecossistemas e a biodiversidade, e da necessidade de um apoio mais forte das instituições do Estado à apicultura. São tempos difíceis, mas encontrei no Miguel coragem e vontade de continuar — um apicultor disponível para aprender, observador e confiante no trabalho que faz.

Nota: Para aprofundar os temas desta visita e levar novas ideias para o seu apiário, consulte, através dos acessos no topo da página, a informação sobre a aquisição do meu manual «Cavalos de Troia» e da sessão gravada sobre a «Preparação das colónias para a invernagem»: Biblioteca de manuais e Sessões gravadas.

Autor: Eduardo Gomes

Apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

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