quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos

Quando a Vespa velutina começou a expandir-se na Europa, uma das perguntas que naturalmente surgiu foi esta: encontrará por cá predadores, concorrentes ou parasitas capazes de limitar a sua expansão?

Passadas cerca de duas décadas, sabemos hoje bastante mais. A Vespa velutina é capturada por algumas aves, compete com outras vespas, pode transportar parasitas e alberga vários dos agentes patogénicos que encontramos nas abelhas. Portanto, não é correto imaginar uma espécie invasora que chegou à Europa e ficou completamente livre de inimigos naturais.

A questão verdadeiramente importante é outra: esses inimigos conseguem reduzir de forma significativa as suas populações ou impedir que continue a ocupar novos territórios?

Até agora, a resposta parece ser bastante menos animadora.

Vespa crabro: competir não é o mesmo que eliminar

A nossa Vespa crabro é maior do que a Vespa velutina e existem razões suficientes para admitir competição entre ambas. Utilizam alguns dos mesmos recursos alimentares, capturam outros insetos e podem encontrar-se nos mesmos locais de alimentação e nos mesmos apiários.

Um estudo realizado na Coreia do Sul comparou o comportamento agressivo da V. velutina com o de várias espécies nativas do género Vespa. Nos confrontos observados, espécies maiores, incluindo Vespa crabro, mostraram geralmente uma posição dominante perante a velutina [1].

Convém, contudo, não retirar deste resultado mais do que aquilo que o estudo mostra. Foram avaliadas interações agressivas e a capacidade de uma espécie dominar ou afastar outra de um recurso. O trabalho não demonstrou que a Vespa crabro mate regularmente a Vespa velutina, nem que esses confrontos provoquem uma mortalidade capaz de reduzir as suas populações.

Excerto de vídeo publicado por Trilhos da Longra

Um estudo europeu realizado em Itália procurou precisamente perceber se o aumento da V. velutina estava associado a uma diminuição das populações de V. crabro. Esse efeito não foi encontrado. Nas áreas estudadas, as duas espécies coexistiam e a abundância de V. crabro não diminuía sistematicamente à medida que aumentava a presença da velutina [2].

É também aquilo que tenho observado nos meus apiários. Já aqui escrevi que não elimino as Vespa crabro apenas porque aparecem diante das colmeias. Comem algumas abelhas, é verdade, mas até agora nunca lhes atribuí um dano económico comparável ao provocado pela velutina e fazem parte da nossa fauna [10].

Há competição e pode haver interferência entre ambas. O que não existe é evidência de que a V. crabro esteja a controlar as populações de velutina ou a impedir a sua expansão.

E os abelharucos?

Também já sabemos que o abelharuco (Merops apiaster) captura Vespa velutina. Um estudo realizado em Portugal encontrou restos de velutinas em locais de nidificação de abelharucos, demonstrando que estas fazem parte da sua alimentação [3].

O que continuamos sem saber é qual a importância quantitativa dessa predação. Tenho referido várias vezes no Abelhas à Beira que a chegada dos abelharucos a um apiário pode coincidir com uma diminuição muito visível das velutinas diante das colmeias. Algumas serão capturadas, outras poderão evitar temporariamente o local, mas nada disto permite concluir que os ninhos tenham desaparecido ou que a população regional tenha sido reduzida.

Há ainda um segundo problema para o apicultor: o abelharuco não caça apenas velutinas. Caça também abelhas e, sob forte pressão, pode condicionar durante muitas horas a saída das colónias para recolha de néctar, pólen e água. Assim, mesmo quando contribui para diminuir a presença de velutinas, o benefício líquido para o apiário não pode ser avaliado simplesmente contando as vespas que desapareceram da frente das colmeias.

Já abordei neste blogue quer a presença dos abelharucos em regiões onde a Vespa velutina está instalada, quer, mais recentemente, aquela que me parece ser a questão mais relevante do ponto de vista do apicultor: se uma menor presença de velutinas diante das colmeias se traduz efetivamente em mais minutos ou horas de forrageio para as abelhas[11,12]. Até ao momento, não conheço evidência que permita concluir que a predação exercida pelo abelharuco se traduza, no conjunto, num ganho líquido de horas de voo para as colónias. O abelharuco pode reduzir a presença de velutinas e, simultaneamente, manter uma pressão suficientemente forte sobre as próprias abelhas para continuar a limitar a sua atividade de forrageio.

O bútio-vespeiro é um caso bastante mais interessante

Há, no entanto, um predador europeu que exerce uma pressão muito mais direta sobre as colónias de velutina: o bútio-vespeiro (Pernis apivorus).

Ao contrário de uma ave que captura uma vespa adulta aqui e outra ali, o bútio-vespeiro procura ninhos de vespas e alimenta-se da sua criação. Nesse caso já não estamos apenas perante a morte de indivíduos isolados: pode ser atingida a própria colónia.

Um estudo publicado em 2025 acompanhou 11 bútios-vespeiros através de GPS e câmaras e analisou o que acontecia nas zonas em redor dos seus ninhos. Dos ninhos de V. velutina atacados e posteriormente localizados pelos investigadores, cerca de 89% encontravam-se destruídos. Além disso, a abundância de operárias de velutina diminuía nas proximidades dos ninhos do bútio-vespeiro [4].

Temos aqui algo bastante diferente do que observamos com o abelharuco. Existem ninhos atacados, colónias destruídas e uma redução mensurável da abundância local de operárias.

Mas o mesmo estudo trouxe um resultado particularmente interessante: no final da época, os investigadores não encontraram uma redução significativa da densidade de ninhos maduros de V. velutina nas zonas ocupadas pelo bútio-vespeiro [4].

Os autores avançam uma explicação plausível. Na primavera e início do verão poderão existir mais colónias jovens de Vespa velutina do que aquelas que o território consegue sustentar até ao outono. Algumas destas colónias desaparecerão por predação, outras por competição, falta de alimento ou outras causas. Assim, destruir parte das colónias de V. velutina numa fase inicial não significa necessariamente reduzir na mesma proporção o número das que chegam à maturidade.

Isto não torna o bútio-vespeiro irrelevante. Pelo contrário, se nas proximidades dos seus ninhos circulam menos operárias durante uma parte importante do verão, poderá existir um benefício ecológico local e eventualmente também para alguns apiários. Um segundo trabalho publicado em 2025 analisou inclusivamente a conservação de habitats adequados ao bútio-vespeiro como uma possível componente de estratégias integradas de gestão da velutina [5].

Varroa nas velutinas

Este é um assunto de que já falei neste blogue, em agosto de 2021, quando comentei um estudo realizado nas Astúrias sobre os insetos capturados nas chamadas armadilhas “específicas” para Vespa velutina [13].

Entre 286 velutinas examinadas, cinco apresentavam uma Varroa agarrada ao corpo, o que correspondeu a cerca de 1,75% dos exemplares [6]. É uma observação curiosa e facilmente compreensível num predador de abelhas: durante a captura ou manipulação de uma abelha parasitada, a Varroa poderá passar para a vespa.

Do ponto de vista populacional, contudo, dificilmente se imagina um efeito relevante. A reprodução de Varroa destructor está estreitamente associada à criação operculada das abelhas e não existe evidência de que consiga completar o seu ciclo reprodutivo na criação de V. velutina. Por isso, a presença ocasional de Varroa sobre velutinas será biologicamente interessante, mas dificilmente constituirá um fator importante de mortalidade desta espécie.

Mais interessantes podem ser os agentes patogénicos das próprias abelhas

Ao predar abelhas, a Vespa velutina entra inevitavelmente em contacto com muitos dos microrganismos e vírus presentes nas nossas colónias. E aqui começaram a surgir resultados que merecem atenção.

Num estudo realizado na Galiza, o vírus das asas deformadas, DWV, foi encontrado numa percentagem muito elevada das velutinas analisadas. Mais importante ainda, os investigadores detetaram formas replicativas do vírus, mostrando que não se tratava simplesmente de partículas virais ingeridas juntamente com as abelhas: o vírus conseguia efetivamente replicar-se no organismo da vespa [7].

Um trabalho português publicado em 2026 reforçou esta informação. Foram analisadas 534 amostras provenientes de 38 ninhos de Vespa velutina de Aveiro e Coimbra, abrangendo larvas, pupas, adultas e algumas rainhas. O DWV surgiu em cerca de 70% das amostras e foram também detetados outros agentes associados às abelhas, incluindo Nosema ceranae, BQCV e CBPV [8].

Estes resultados mostram que a velutina se integrou também na circulação de agentes patogénicos presentes nos ecossistemas e nos apiários que explora. O que ainda falta conhecer é a consequência dessas infeções. Para falarmos de um verdadeiro efeito populacional seria necessário demonstrar reduções relevantes na sobrevivência das operárias, no desenvolvimento da criação, no sucesso das colónias ou na produção de futuras fundadoras. Essa demonstração, até agora, não existe.

Ter inimigos não significa estar controlada

O que toda esta informação mostra é que a Vespa velutina está longe de viver num vazio ecológico. À medida que se foi estabelecendo na Europa, passou a integrar as relações já existentes entre predadores e presas, concorrentes, parasitas e agentes patogénicos. A Vespa crabro compete com ela, os abelharucos capturam operárias, o bútio-vespeiro consegue localizar e destruir ninhos, Varroa pode aparecer ocasionalmente sobre os adultos e vários agentes patogénicos das abelhas conseguem chegar às suas colónias.

O ponto importante está na dimensão do efeito produzido por cada uma destas interações. Matar algumas operárias pode ter pouca importância para uma colónia capaz de produzir milhares delas. Destruir colónias jovens já constitui uma pressão muito mais forte, como mostra o caso do bútio-vespeiro, mas mesmo aí não foi demonstrada uma redução correspondente dos ninhos maduros no final da estação. Para travar realmente uma invasão seria necessário que a mortalidade e a competição reduzissem suficientemente o sucesso reprodutivo e a produção de novas fundadoras, geração após geração, até limitarem também a colonização de novos territórios.

É precisamente aqui que a extraordinária capacidade de compensação da Vespa velutina parece fazer a diferença. Uma população pode perder indivíduos e mesmo algumas colónias ao longo da estação e, ainda assim, produzir fundadoras em número suficiente para se manter e continuar a expandir-se. Um trabalho de Monceau, Bonnard e Thiéry, publicado em 2012, ajuda a perceber a dimensão deste potencial: com base nas taxas de sobrevivência estimadas para a população francesa, os autores calcularam que 10 ninhos existentes num ano poderiam dar origem a cerca de 111 fundadoras capazes de estabelecer novas colónias no ano seguinte, ou seja, aproximadamente 11 novas colónias potenciais por cada ninho da geração anterior [9]. É também por isso que um efeito muito visível num apiário ou numa pequena área, provocado pelos inimigos naturais da Vespa velutina, não deve ser automaticamente interpretado como controlo da espécie à escala local, regional e muito menos nacional.

Talvez seja esta a conclusão mais equilibrada. A natureza já começou a incorporar a Vespa velutina nas suas próprias relações ecológicas e alguns desses inimigos podem ajudar a limitar localmente a sua abundância. Mas, até agora, essa resistência biótica permanece abaixo da capacidade da invasora para compensar as perdas, produzir novas fundadoras e continuar a dispersar-se pelo território.

Nota: Perante uma pressão tão intensa da Vespa velutina, muitos apicultores acabam por recorrer às ferramentas que têm disponíveis, algumas mais simples e rudimentares, outras mais exigentes na sua aplicação. Entre essas estratégias estão os chamados Cavalos de Tróia, uma abordagem que tenho vindo a acompanhar e a sistematizar há vários anos.

Para quem pretenda conhecer melhor esta técnica, preparei o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina. Para informações sobre condições de acesso e aquisição, poderá contactar-me através do endereço eduardogomesapi@outlook.com.

Referências — literatura científica e técnica

[1] Kwon, O.; Choi, M. B. (2020). Interspecific hierarchies from aggressiveness and body size among the invasive alien hornet, Vespa velutina nigrithorax, and five native hornets in South Korea. PLoS ONE, 15(7), e0226934. DOI: 10.1371/journal.pone.0226934.

[2] Carisio, L.; Cerri, J.; Lioy, S.; Bianchi, E.; Bertolino, S.; Porporato, M. (2022). Impacts of the invasive hornet Vespa velutina on native wasp species: a first effort to understand population-level effects in an invaded area of Europe. Journal of Insect Conservation, 26, 663–671. DOI: 10.1007/s10841-022-00405-3.

[3] Onofre, N.; Portugal e Castro, M. I.; Nave, A.; Cadima, I. S. P.; Ferreira, M.; Godinho, J. (2023). On the Evidence of the European Bee-Eater (Merops apiaster) as a Predator of the Yellow-Legged Hornet (Vespa velutina) and Its Possible Contribution as a Biocontrol Agent. Animals, 13, 1906. DOI: 10.3390/ani13121906.

[4] Martín-Ávila, J. A.; Díaz-Aranda, L. M.; Fernández-Pereira, J. M.; Rebollo, S. (2025). The European honey buzzard (Pernis apivorus) as an ally for the control of the invasive yellow-legged hornet (Vespa velutina nigrithorax). Pest Management Science, 81, 2237–2247. DOI: 10.1002/ps.8622.

[5] Martín-Ávila, J. A.; Rebollo, S.; Fernández-Pereira, J. M.; Monteagudo, N.; Díaz-Aranda, L. M. (2025). Encouraging native predators of invasive yellow-legged hornets: breeding habitat preferences of European honey buzzards in exotic Eucalyptus plantations. Pest Management Science, 81, 3704–3714. DOI: 10.1002/ps.8738.

[6] Sánchez, O.; Arias, A. (2021). All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps. Biology, 10(5), 448. DOI: 10.3390/biology10050448.

[7] Rodríguez-Flores, M. S.; Lopes, A. R.; Diéguez-Antón, A.; Seijo, M. C.; Pinto, M. A. (2024). Honey bee viruses in the yellow-legged hornet Vespa velutina: Prevalence, loads, and detection of replicative DWV and LSV forms. Journal of Invertebrate Pathology, 207, 108215. DOI: 10.1016/j.jip.2024.108215.

[8] Santos, S. S.; Tiritelli, R.; Capela, N.; Souto, P.; Caringi, V.; Bortolotti, L.; et al. (2026). Detection of bee-associated pathogens in different developmental stages within the nest of the invasive hornet Vespa velutina nigrithorax Buysson, 1905. Biological Invasions, 28, 165. DOI: 10.1007/s10530-026-03878-4.

[9] Monceau, K.; Bonnard, O.; Thiéry, D. (2012). Chasing the queens of the alien predator of honeybees: A water drop in the invasiveness ocean. Open Journal of Ecology, 2(4), 183–191. DOI: 10.4236/oje.2012.24022.

Referências — Abelhas à Beira

[10] Abelhas à Beira (2021). Preparando as colónias para a invernagem. Ler

[11] Abelhas à Beira (2023). Vespa velutina: os abelharucos impedem a expansão da Vespa velutina? Ler

[12] Abelhas à Beira (2026). Abelharucos contra Vespa velutina: menos vespas, mas mais horas de voo? Ler

[13] Abelhas à Beira (2021). Nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina. Ler

Autor: Eduardo Gomes

Apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

2 comentários em “quem trava a Vespa velutina? Predadores, concorrentes, parasitas e patógenos”

    1. Boa tarde.

      Até ao momento, não conheço evidência científica de abelharucos ou bútios-vespeiros mortos em consequência da utilização de Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina. Sabemos, contudo, que ambas as aves predam velutinas e, por isso, existe uma possibilidade teórica de exposição secundária ao inseticida, questão que alguns investigadores consideram merecedora de atenção.
      Importa também colocar este risco em perspetiva. Há muitos ninhos de V. velutina destruídos através da aplicação direta de inseticidas que depois permanecem no local, contendo milhares de vespas e larvas potencialmente contaminadas e acessíveis a predadores. A literatura chama particularmente a atenção para este cenário e recomenda, quando possível, a remoção dos ninhos tratados. Num Cavalo de Tróia, pelo contrário, são tratadas individualmente algumas vespas, com quantidades muito menores de inseticida. Os dois cenários não são, portanto, diretamente comparáveis em termos de quantidade total de substância introduzida no ambiente.
      Isto não significa que o risco dos Cavalos de Tróia seja nulo. Significa apenas que, até agora, não encontrei casos documentados de mortalidade de abelharucos ou bútios-vespeiros atribuída a esta técnica. É uma questão que merece investigação e acompanhamento.

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