localização de ninhos de V. velutina: comparação de técnicas de rastreamento

Em baixo deixo a tradução de excertos de um artigo recente, publicado por uma equipa de investigadores italianos, em torno das vantagens e limites na utilização do radar harmónico para rastreamento do voo de V. velutinas no seu trajecto de e para o seu ninho, e comparação desta técnica com duas outras técnicas de rastreamento: a) rastreamento visual com triangulação; b) rastreamento tecnológico com utilização de radio-telemetria.

“No cenário da invasão de Maiorca pela V. velutina, os investigadores foram capazes de detectar e remover 30 ninhos de V. velutina nos anos 2015–2017 por rastreamento visual e triangulação de direções de voo; esta atividade exigia uma média de 19,2 ± 18,9 dias de trabalho por ninho (mín = 0 dias, máx = 63 dias). Com o rastreamento por radar harmónico, fomos capazes de localizar ninhos na Itália com uma média de 2,5 ± 1,0 dias úteis (min = 2 dias, máx = 5 dias) e 11 ± 4 h de uso efetivo do radar. Com a técnica de rádio- telemetria os investigadores conseguiram detectar ninhos de V. velutina em 92 ± 37 min. Porém, um aspecto que deve ser levado em consideração para a utilização desta última técnica: o peso das etiquetas/tags, que pode variar de 150 a 312 mg (10–21 vezes mais pesado do que a etiqueta/tag usada para a técnica de radar harmónico) ou mais. Este peso maior pode afetar a capacidade de voo das vespas [só os indivíduos mais fortes conseguem voar com estes tags], principalmente na primavera ou início do verão, quando o peso das operárias de V. velutina é menor.

Vespas marcadas com tags executando seu comportamento predatório usual. V. velutinas marcadas pairando em frente de colónias de abelhas para atacar abelhas forrageiras (a, b). Uma vespa marcada que está despedaçando uma abelha para recolher o tórax (parte mais energética de sua presa), que será trazida de volta ao ninho para alimentar a ninhada (c). Duas vespas marcadas à entrada do ninho (d).

Outro aspecto que deve ser considerado na comparação das técnicas de rastreamento são os custos associados (pessoal e equipamentos). Todas as técnicas acima mencionadas poderiam ser facilmente realizadas por uma equipe de duas pessoas treinadas, embora a técnica de rastreamento visual exija, em geral, um maior número de dias de trabalho e, portanto, maiores custos de pessoal. No que diz respeito às técnicas tecnológicas, os custos do equipamento inicial são mais elevados para o rastreio por radar harmónico (cerca de 100 mil euros por unidade). Por outro lado, o rastreamento por rádio-telemetria tem custos iniciais de equipamento mais baixos do que o rastreamento por radar harmónico, mas um custo mais alto associado às etiquetas/tags para rastreamento de insetos.

Portanto, a seleção de uma técnica de rastreamento para localização de ninhos de V. velutina requer uma análise das vantagens e limites em relação aos recursos disponíveis, as características das paisagens e a urgência de encontrar os ninhos em relação ao cenário invasor. O uso de câmaras de imagem térmica, em associação com a técnica de rastreamento selecionada, também pode facilitar a localização do ninho uma vez que a área de presença tenha sido definida.“

Nota suplementar: Os ninhos de V. velutina detectados com o rastreamento por radar harmónico foram localizados a uma distância média de 395 ± 208 m (M ± SD, n = 10) dos apiários onde as vespas atacavam as abelhas (min = 72 m, max = 786 m). Estes dados são consistentes com informações anteriores sobre a possível faixa de forrageamento de V. velutina, que está provavelmente num raio ao redor do ninho de 500-700 m (ver esta publicação, de outubro de 2018).

fonte: https://www.nature.com/articles/s41598-021-91541-4#Tab1

como fazer uma armadilha mais selectiva para apanhar vespas velutinas fundadoras

Sabendo que a grande maioria das armadilhas utilizadas para captura de vespas velutinas fundadoras não são suficientemente selectivas, há que fazer melhor. Nesta publicação, de março de 2019, apresentei uma armadilha muito selectiva. O JABEPRODE é um dispositivo que poderia facilmente ser produzido industrialmente, numa qualquer empresa de moldes, assim as entidades oficiais camarárias e outras patrocinassem o seu fabrico, promovessem o que de melhor se vai fazendo nesta área, e as entregassem gratuitamente aos apicultores. Estou certo que muitos de nós iriam aderir ao projecto. Uma vez mais os apicultores desejam ser referência na protecção da entomofauna e biodiversidade e contribuir para a diminuição da tremenda mortandade que as V. velutinas e as armadilhas não selectivas, colocadas um pouco por todo o lado e ao longo de todo o ano, causam em insectos polinizadores não-alvo. Enquanto tal não acontece, surgem propostas de há uns anos a esta parte com modelos para a construção de armadilhas mais selectivas.

Com esta visão em mente apresento nesta publicação um modelo de armadilha mais selectiva, que poderá ser feita por cada um de nós com os instrumentos e equipamentos habituais.

O esquema em baixo dá-nos uma visão geral da armadilha que podemos fazer para apanhar mais selectivamente as velutinas fundadoras.

Material necessário:

  • 2 garrafas de plástico;
  • 2 paus de gelado;
  • 1 pedaço de esponja redondo;
  • Faca ou broca, régua;
  • Cerveja, mel, xarope fermentado, … .

Passos para construção:
1 – Corte o topo das 2 garrafas de forma a criar dois funis.
2 – Molhe a esponja com o isco (cerveja, mel e xarope fermentado, misturados) e insira-a numa das garrafas.
3 – Retire a tampa de um dos funis e coloque-a na garrafa.
4 – Fure os orifícios de entrada (no topo A Ø 9mm) e na saída para os insetos menores (fundo B Ø 5,5mm) e coloque os dois paus de gelado (atuam como ‘pista’ de pouso ou descolagem).
5 – Fure o segundo funil (C Ø 10mm) e coloque-o na garrafa, ele servirá de tampa. Certifique-se de que o orifício (C) está alinhado com o orifício de entrada (A). Girando a tampa, você pode abrir ou fechar a entrada (A).
6 – A armadilha está pronta!

Para eliminar as rainhas fundadoras aprisionadas, coloque a armadilha fechada durante cerca de 1 hora num congelador para que elas entrem no estado dormente. Abra depois a armadilha e mate as rainhas com uma tesoura, cortando-as ou esmagando-as.

Dicas e conselhos de uso:

  • Instale a armadilha assim que as temperaturas atingirem + de 13 ° Celsius
  • Coloque a armadilha perto de um monte de lenha, um ponto de água e/ou áreas de floração (flores com alto teor de néctar onde as abelhas recolhem néctar e pólen como, por exemplo, as camélias de inverno ricas em néctar).
  • Verifique regularmente as armadilhas para as recarregar.
  • Remova todas as armadilhas até 1 de maio. Mais ou menos depois desta data as rainhas ficam no ninho a partir do nascimento da primeira nova geração de vespas obreiras e nunca mais saem dele. Limpe a armadilha e a esponja e guarde até fevereiro próximo.

Notas sobre os aspectos selectivos destas armadilhas:

  • permite atrair e capturar as velutinas fundadoras, mas impede a entrada de outros grandes insetos e permite que insetos menores saiam delas;
    a armadilha está equipada com um dispositivo de limitação de tamanho na sua entrada (A Ø9mm) para que abelhões, vespões nativos e borboletas não possam entrar na armadilha.
  • existe um dispositivo de limitação de tamanho na saída (B Ø5,5mm) para impedir que as rainhas velutina saiam, e deixam os insetos menores saírem;
  • um pedaço de esponja circular colocado no fundo da garrafa, embebido até à saturação com um isco habitual (cerveja+ mel ou cidra + xarope fermentado ou líquido de cera derretida) permite maior evaporação e maior alcance dos aromas atractivos assim que o primeiros raios de sol aparecem. Essa esponja também evita que insetos menores se afoguem, caso tenham entrado na armadilha;
  • manter as rainhas vivas no interior contribui para atrair mais vespas por via das feromonas que libertam enquanto aprisionadas;
  • uma tampa giratória com abertura (C Ø10mm) permitirá fechar a entrada superior, prendendo as rainhas enquanto se aguarda para a eliminar.

Enquanto apicultores devemos fazer tudo o que nos for possível para evitar que outros insectos não-alvo sejam eliminados em quantidades massivas pela utilização de armadilhas não selectivas. Eliminemos apenas as velutinas fundadoras e a Mãe Natureza agradecerá por isso!

fonte: https://www.planfor.co.uk/garden-advice,selective-trap-for-asian-hornet.html

nem tudo que brilha é ouro: os outros insetos que caem nas armadilhas “específicas” da vespa velutina

Neste artigo, All That Glitters Is Not Gold: The Other Insects That Fall into the Asian Yellow-Legged Hornet Vespa velutina ‘Specific’ Traps, os autores espanhóis confirmam o que tenho lido de há uns anos a esta parte noutros artigos publicados por investigadores franceses: as armadilhas para captura de vespas velutinas não são específicas o suficiente e capturam uma grande quantidade de outros polinizadores importantes nos serviços do ecossistema.

Surpreendentemente, para mim pelo menos, foram encontrados 5 ácaros do género Varroa em cinco dos 286 espécimes Vespa velutina examinados (um ácaro por espécime de V. velutina). A taxa de prevalência do parasita Varroa em V. velutina foi de 0,017 (1,75%). Em todos os casos, os ácaros foram encontrados agarrados à parte ventral lateral do abdómen de cada V. velutina.

Em baixo fica o gráfico que os autores construíram sobre a percentagem de mortalidade causada em insectos benéficos (a azul) e insectos prejudiciais (a vermelho) aos serviços do ecossistema que nos são indispensáveis, em resultado das armadilhas utilizadas para apanhar vespas velutinas, na amostra estudada.

Nota: naturalmente sei que os meus leitores terão a inteligência e o bom senso de não crucificarem o mensageiro em razão das notícias não serem confortáveis. Decidi publicar por duas razões: 1) pela primeira vez vejo uma equipa de investigadores não-franceses a confirmarem o que há anos vem sendo dito por equipas francesas; 2) o facto de se ter encontrado varroas alojadas no corpo de umas poucas V. velutinas. Numa publicação que se seguirá trarei melhores notícias.

os gigantes estão a chegar? previsão do potencial de propagação e impactos da vespa gigante asiática (Vespa mandarinia, Hymenoptera: Vespidae) nos EUA

Vespa mandarinia, um gigante entre gigantes.

A tradução do sumário em baixo, de um artigo recente sobre uma preocupação recente, acerca da invasão da Vespa mandarinia de territórios da América do Norte, tem o propósito de reflectir sobre dois aspectos:

  • a minha suspeita que os autores acreditam que a sensibilização dos decisores políticos para o problema passa por fornecer-lhes dados fiáveis do impacto económico da invasão, em especial nos serviços de polinização;
  • aproveitar para relevar novamente a importância económica das colónias de abelhas nos serviços de polinização que prestam ao sistema agro-pecuário — US $ 101,8 milhões, o que equivale a uma mais-valia de mil dólares por colónia.

Teremos alguma coisa a aprender na Europa sobre como fazer a sensibilização de políticos? Seguramente que sim, e esta publicação poderá ajudar a ilustrar como o fazer: enfatizando perdas económicos mais gerais, em particular as decorrentes do empobrecimento de todo o sector agro-pecuário, se a luta contra a V. velutina não se traduzir em melhores resultados que os alcançados até à data.

Sumário

Contexto: As invasões biológicas são uma preocupação global na agricultura, produção de alimentos e biodiversidade. Entre as espécies invasoras, sabe-se que algumas vespas causam sérios efeitos sobre as abelhas, como as encontradas durante a invasão da Vespa velutina na Europa. As recentes descobertas de indivíduos Vespa mandarinia no estado de Washington, na costa oeste dos EUA, levantaram o alarme em todo o país. Aqui nós estimamos o potencial de propagação de V. mandarinia nos EUA, analisando seus impactos potenciais nas colónias de abelhas, perdas económicas na indústria de abelhas e áreas de cultivo polinizadas por abelhas.

Resultados: Descobrimos que a V. mandarinia poderia colonizar os estados de Washington e Oregon na costa oeste e uma proporção significativa da costa leste. Se esta espécie se espalhar por todo o país, poderá ameaçar 95.216 ± 5551 de colónias de abelhas, ameaçando uma renda estimada de US $ 11,9 e 101,8 milhões para produtos derivados de colmeias e produção de colheitas polinizadas por abelhas, respectivamente, quando colonizar 60.837,8 km2 de plantações polinizadas por abelhas.

Conclusão: Os nossos resultados sugerem que V. mandarinia terá graves efeitos nos EUA, aumentando a necessidade de ações de monitorização e planeamento imediatos em diferentes níveis administrativos para evitar sua potencial disseminação.

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/ps.6063

expansão da Vespa velutina no noroeste da Espanha: influência da altitude, fatores meteorológicos e efeito da armadilha de isca em organismos vivos alvo e não alvo

Fica a tradução do resumo de um estudo, realizado na vizinha Galícia, acerca dos factores abióticos que parecem condicionar a expansão da V. velutina naquela região e do efeito das armadilhas de isca não selectivas na espécie-alvo e nas espécies não-alvo de acordo com as características dos locais de captura.

Resumo

“A vespa de patas amarelas, Vespa velutina, é uma espécie invasora recente na Galiza (noroeste da Espanha). Sua invasão tem um importante impacto socioeconómico porque ataca abelhas (Apis mellifera) e outros insetos polinizadores cruciais. A dispersão desta espécie deve ser monitorada para minimizar os danos que causa e tomar as ações de controle necessárias. Os objetivos deste estudo foram determinar organismos vivos alvo e não alvos capturados por armadilhas de isca e comparar os padrões de distribuição de V. velutina e da autóctone V. crabro. A altitude e as condições climáticas desempenharam papéis importantes no comportamento das vespas. As armadilhas colocadas em áreas costeiras de baixa altitude continham uma maioria de vespas de patas amarelas. Em contraste, as vespas autóctones surgiram em números relativamente maiores nas armadilhas colocadas em áreas de grande altitude. Altas temperaturas mínimas, orvalho, humidade relativa alta e baixas temperaturas máximas favorecem a ocorrência e disseminação de V. velutina. Essas condições são comuns nas áreas costeiras deste território e promoveram a rápida dispersão desta praga. As armadilhas de isca usadas não eram seletivas, então muitos outros organismos artrópodes foram capturados juntamente com o vespão. Portanto, o uso de iscas seletivas para a espécie é necessário para o controlo ecologicamente correto desta praga de inseto.“

fonte: https://link.springer.com/article/10.1007/s10340-018-1042-5

Imagens de um estudo sul-coreano acerca da competição interespecífica entre a V. velutina (invasora) e 5 outros vespões nativos daquela região, entre elas a V. crabro.

padrões de invasão da Vespa velutina em Portugal utilizando dados crowdsourced

Em baixo deixo a tradução do resumo de um estudo português publicado recentemente (04.2020) acerca da colonização do território continental pela Vespa velutina.

Vista dorsal (em cima) e ventral (em baixo) de uma Vespa velutina nigrithorax

“Resumo
A vespa invasora de patas-amarela (Vespa velutina) foi detectada pela primeira vez em Portugal continental em setembro de 2011. A falta de informação sobre os processos de propagação da espécie tem dificultado o desenvolvimento de medidas adequadas para mitigar o potencial impacto deste predador invasor.

Dados coletados, ou seja, informações oportunamente relatadas pelos cidadãos, podem facilitar a coleta de registros de ocorrência de espécies em grandes escalas espaciais, o que pode ser valioso para compreender a expansão de espécies invasoras. Aqui, utilizando dados crowdsourced validados sobre a localização precisa de 49 013 ninhos, nós: (i) atualizamos a informação sobre a distribuição de V. velutina em Portugal; (ii) estimamos a taxa de expansão da espécie; e (iii) analisamos os padrões de distribuição de ninhos a uma escala nacional e local.


A espécie encontra-se actualmente distribuída por uma área de cerca de 57 000 km2, o que corresponde a 62% do território continental. Estimamos uma taxa média de 37,4 ± 13,2 km / ano para a expansão de V. velutina. A distribuição e densidade dos ninhos de Vespa velutina a uma escala local urbana foi estimada em 5,4 ± 3,3 ninhos / km2. A diminuição observada na distância entre ninhos vizinhos ao longo dos anos sugere que a densidade dos ninhos não atingiu seu limite.

Defendemos que o desenvolvimento de um método barato e rápido para detecção de ninhos e o estudo numa escala fina dos mecanismos que que levam à dispersão de V. velutina são etapas importantes para identificar as vias de colonização e planear abordagens de controlo com o objetivo de interromper a disseminação de espécies e o impacto em apiários.“

fonte: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/icad.12418

Nota: sabendo que cada ninho produz em média 500 a mil novas fundadoras e cerca de 13 mil indivíduos por cada ciclo anual (Rome et al., 2015) o controlo da população e expansão da Vespa velutina passa obrigatoriamente pelo desenvolvimento de uma capacidade melhorada de detecção e destruição dos ninhos.

vespa velutina: a solução está em falar com elas?

A equipa do IRBI (Institut de Recherche sur la Biologie de l’Insecte ), liderada por Eric Darrouzet, há vários anos que analisa os constituintes moleculares das feromonas produzidas e libertadas pelas vespas velutinas com o objectivo de vir a descodificar as mensagens que elas encerram. Esta e outras linhas de investigação, como a localização de ninhos através de radares marítimos e/ou telemetria, a produção de cavalos de troia com fungos “amigos do ambiente”, a interferência genética ao nível do ácido ribonucleico (ARN), e que estão a ser projectadas e/ou levadas a cabo em alguns países europeus (sobretudo França, Inglaterra e Itália), visam fornecer a comunidade de um conjunto de ferramentas, efectivas e respeitadoras da restante entomofauna, para o controlo das populações e expansão no território deste insecto exótico. Neste momento são cada vez mais os sectores que clamam por armas deste tipo, como o vitivinícola, o pomarista, o apícola.

Em baixo deixo a tradução de uma peça jornalística da france3-regions, publicada em 15.03.2020, acerca da pesquisa e avanços alcançados pelo IRBI em torno dos mecanismos de comunicação entre indivíduos Vespa velutina e sua aplicação, com vista à diminuição dos impactos sociais, económicos e na biodiversidade provocados por estes predadores.

O departamento da Mancha (França) financiou um programa de pesquisa, cujos primeiros resultados são considerados “muito promissores”. Em 2016, o Conselho Departamental decidiu avançar com 95.000 €, sabendo que a erradicação deste inseto invasor é ilusória, mas que será possível lutar contra a sua proliferação.

O vespão asiático foi observado pela primeira vez na França em 2005. Desde então, proliferou em toda a França e em vários países europeus.

O trabalho foi confiado ao IRBI. Este Instituto de Pesquisas em Biologia de Insetos, ligado à Universidade de Tours, tem vindo a descodificar a linguagem deste invasor. “Os humanos comunicam por via oral. Os insetos comunicam entre si quimicamente, emitindo moléculas”, explica Eric Darrouzet, professor e pesquisador do IRBI. “Por exemplo, uma vespa operária stressada emitirá moléculas de alarme, para pedir ajuda ou, ao contrário, para espantar as suas semelhantes para as alertar do perigo“. Em laboratório, a equipa de pesquisa procurou identificar os componentes químicos que permitem estabelecer este tipo de diálogo. “A única maneira de ser eficaz com o vespão asiático é falar com ele. Você tem que falar com ele na sua própria língua, dizer-lhe para ir embora, ou para vir e atraí-lo para uma armadilha.“

O IRBI identificou três moléculas que têm a capacidade de repelir o vespão asiático. “A ideia é usá-los para proteger os apiários, estabelecendo uma espécie de barreira química. Já foram feitos testes perto das colmeias em Indre-et-Loire. Uma destas feromonas parece repeli-las. Vamos testar agora aqui no Canal “, continua Eric Darrouzet.

O IRBI também encontrou uma molécula potencialmente atraente, que permitirá atrair as vespas para as armadilhas. “Todas estas moléculas são produzidas naturalmente pela vespa. Agora será necessário sintetizá-las para que possam ser fabricadas a uma escala industrial”, alerta Eric Darrouzet. Será o culminar de dez anos de pesquisa. O IRBI acredita que pode apresentar uma fórmula em 2021, o que, num mundo ideal, permitirá a uma empresa colocar estes produtos no mercado já em 2022. “Mas, ainda há muitos se …“

Até hoje, não há uma solução convincente para atrair as vespas asiáticas. As armadilhas caseiras às vezes parecem eficazes. Mas elas têm a desvantagem de atrair muitas outras criaturas. Uma publicação científica mostra que para um vespão asiático capturado, quase mil outros insetos caem na armadilha. “E um isco alimentar pode não ser eficaz”, insiste o pesquisador. “Se alguém lhes propuser açúcar, a armadilha está em competição com as outras fontes de açúcar disponíveis na natureza. Sem falar que uma operária em busca de proteína não será atraída por uma armadilha com um isco doce. E de que adianta matar algumas vespas quando ainda há milhares na colónia?“

“Por isso financiámos este trabalho“, insiste Valérie Nouvel, vice-presidente do Conselho Departamental responsável pela transição energética e pelo meio ambiente. “Precisamos encontrar soluções que possibilitem proteger a biodiversidade. Estas novas armadilhas também terão de ser baratas para serem usadas.“.

fonte: https://france3-regions.francetvinfo.fr/normandie/manche/saint-lo/solution-contre-frelon-asiatique-chercheurs-ont-enfin-trouve-comment-lui-parler-1794951.html

Proposta de acção: O que me ocorre de imediato é fazer a seguinte experiência (eu não posso porque este ano ainda não vi nenhuma velutina junto das minhas colmeias): apanhar algumas velutinas e esmagá-las muito lentamente contra a parede frontal das colmeias, no intuito de elas libertarem a feromona de afastamento/repulsa. Julgo que terá de ser feito lentamente, não por crueldade, mas para lhes dar tempo suficiente para se sentirem ameaçadas de morte e libertarem esta feromona que terá o eventual efeito repulsivo que desejamos. Fica a ideia.

vespa mandarinia: primeiros dados da invasão na américa do norte

Título: Os primeiros relatos de Vespa mandarinia (Hymenoptera: Vespidae) na América do Norte dizem respeito a duas linhagens maternas distintas no estado de Washington, Estados Unidos, e na Colúmbia Britânica, Canadá

Sumário: “Em setembro de 2019, a destruição de um ninho de Vespa mandarinia Smith 1852 foi relatada pela primeira vez na América do Norte em Nanaimo, British Columbia, Canadá. Em dezembro de 2019, o Departamento de Agricultura do Estado de Washington também confirmou a primeira detecção de um espécime adulto de V. mandarinia nos Estados Unidos, no condado de Whatcom, Washington. A Vespa mandarinia é a maior da espécie das vespas e é um predador conhecido de vários insetos, incluindo a abelha melífera europeia (Apis mellifera, Hymenoptera, Apidae, Linnaeus, 1758). O estabelecimento de V. mandarinia na América do Norte representa uma séria ameaça à apicultura, e esta espécie foi considerada uma praga e accionou protocolos de quarentena. Aqui, descrevemos detalhes da primeira detecção desta espécie nos Estados Unidos e usamos dados da sequência genética obtidos de cinco espécimes em todo o mundo para estimar a origem das detecções canadianas e norte-americanas. […] Uma árvore de probabilidade […] sugere que as amostras do Canadá e dos EUA são de duas linhagens maternas separadas. Uma pesquisa em grande escala está em andamento para avaliar o nível de estabelecimento de vespas gigantes asiáticas em ambos os países e determinar a direção futura dos esforços de erradicação.”

fonte: Annals of the Entomological Society of America, XX(X), 2020, 1–5 doi: 10.1093/aesa/saaa024

Vespa mandarinia

Perspectivas de futuro: A acontecer a erradicação deste insecto invasor seria um feito nunca visto. A história diz-nos que nenhuma vespa social invasora foi alguma vez erradicada dos novos territórios colonizados (Beggs et al., 2011). À luz deste histórico deprimente o futuro não se afigura brilhante para os companheiros apicultores da américa do norte, que muito provavelmente irão ter de se conformar a viver com este insecto invasor e dar-lhe luta, como nós apicultores europeus o temos vindo a fazer com a Vespa velutina.

vespa velutina: o estado da arte do que sabemos

Como em muitas outras áreas, o estudo e o conhecimento da Vespa velutina nigrithorax (VV) tem vindo a evoluir lentamente. Como disse alguém não é fácil estudar um insecto que se esconde e que apresenta algumas armas defensivas bem conhecidas. Mas o estudo vai-se fazendo e serve esta publicação para sumariar o que se sabe hoje de mais sólido acerca deste insecto.

  • Introdução acidental: aconteceu em França, muito provavelmente em 2004, de apenas uma rainha, fecundada pelo menos por 4 machos;
  • a expansão: tem sido rápida na Europa, facilitada pelo transporte de mercadorias e pelas muitas fontes de alimento disponíveis (outros insectos e também o lixo, em especial nas zonas urbanas e peri-urbanas);
  • o ciclo de vida: cada ninho gera um grande número de operárias; assiste-se à criação de algumas centenas de novas rainhas por ninho; encontram-se machos diploides (estéreis) em fases precoces do ciclo de vida do ninho (consequência da consanguinidade?);
  • o comportamento de caça: caracteriza-se pelo vôo estacionário em frente às colmeias; as VV apresentam elevado grau de fidelidade ao sítio de caça; não se confirma a marcação química/feromonal das colmeias a atacar; há trofaláxis no vespeiro;
  • comportamento defensivo das abelhas: formação de um tapete/barba de abelhas no alvado da colmeia; tentativas tímidas e ineficientes de “shimmering” (comportamento defensivo presente e muito eficiente nas Apis dorsata e cerana); comportamento de pelotamento da VV mas muito ineficiente na Apis melífera europeia;
  • impacto na entomofauna europeia: a presa favoritas das VV são as abelhas melíferas, especialmente em zonas mais urbanizadas; as VV são atraídas pelos odores exalados pelas colónias de abelhas e pelo avistamento das colmeias; em zonas rurais ou florestais a sua dieta é mais diversificada, verificando-se um aumento relativo de insectos díptera e Hymenoptera vespidae consumidos;
  • o contexto global: numa miríade de perigos e factores danosos para a saúde das abelhas melíferas a vespa velutina vem somar-se-lhes e estima-se que em França ela é responsável, no universo de perda de colónias, por 30% dessas perdas;
  • como lutar contra a velutina: das medidas até agora utilizadas, várias delas com efeitos negligenciáveis, a chave está na destruição/perturbação da actividade dos ninhos; mas a grande dificuldade e problema está em encontrá-los cedo o suficiente;
  • raio de acção da VV: caçam sobretudo num raio de 800m do ninho, e até um raio de 5 km; 95% dos voos acontecem entre as 8h00 e as 19h00 e 95% dos voos demoram menos de uma hora;
  • desenvolvimento de novas tecnologias: estão a ser estudados e melhorados um conjunto de equipamentos para encontrar os ninhos, entre eles o radar harmónico que permite acompanhar de forma precisa a trajetória dos insetos, mas apenas em áreas abertas e é um sistema muito complicado e caro; com um tag/transponder leve (sistema passivo) o alcance é de 450m; a radiotelemetria permite a localização do inseto qualquer que seja o tipo de paisagem (árvores, arbustos, morros, edifícios), é portátil e relativamente barato; contudo o tag/transponder é pesado (sistema ativo) e tem um alcance de 800m;
  • o biocontrolo: os predadores naturais presente na Europa não são eficientes para mitigar o suficiente a predação e controlar a expansão das VV (pássaros e parasitas), e experimenta-se a utilização de de fungos patogénicos (Metarhisium robertsii e Beauveria bassiana, Poidatz et al. 2018, 2019), introduzidos no ninho através de uma estratégia “cavalo-de-troia”.

Como todos os sumários este foi curto para tanto conteúdo, e deixou de fora alguns aspectos muito interessantes já conhecidos ou que se começam a conhecer melhor. Esta publicação pretende também desmistificar alguns assuntos em torno deste insecto exótico e predador da entomofauna nativa, especialmente da abelha melífera europeia. Seremos tão mais efectivos na ajuda às nossas abelhas, restante entomofauna nativa, e também na protecção de uma diversidade de produções agrárias, também predadas pelas vespas de patas amarelas, quanto maior e melhor for o nosso conhecimento.

um método favorável à biodiversidade para mitigar o impacto das vespas asiáticas invasoras nas abelhas europeias

Este estudo, recentemente publicado (2019), avaliou o efeito das redes de protecção de entradas de colmeias sobre dois comportamentos das abelhas melíferas quando pressionadas pela presença intensa de vespões asiáticos: o retorno das abelhas forrageiras à colmeia e a intensidade do comportamento de forrageamento. Tenho uma ideia que estas redes são ainda pouco utilizada pelos apicultores portugueses, contudo também esta como outras ferramentas não deve ser desprezada, mais ainda quando os resultados de um estudo controlado são positivos.

“O vespão asiático é um predador de abelhas na Europa Ocidental. O risco associado ao vespão asiático na mortalidade de colónias de abelhas motivou o desenvolvimento de métodos de controle biológico e físico nos últimos anos. Embora a relação custo-benefício tenha sido estabelecida para a maioria desses métodos de controle, ainda não está claro se esses métodos podem reduzir os efeitos prejudiciais do vespão asiático nas abelhas europeias. Neste estudo, investigámos os benefícios potenciais de um método de controle favorável à biodiversidade, a “protecção da entrada da colmeia” (beehive muzzle) . Observámos a atividade de voo das abelhas e o comportamento de predação das vespas asiáticas à entrada da colmeia em 22 pares de colónias de abelhas, cada uma com uma colónia equipada com “protecção da entrada da colmeia” e uma colónia controle sem “protecção da entrada da colmeia”, em França. Medimos a FR (falha no retorno das abelhas devido à predação de vespas por abelhas) e PF (paralisia de forrageamento: paragem da atividade de voo em colmeias devido às vespas pairando em frente da entrada) e estimámos a probabilidade de mortalidade das colónias usando uma abordagem de modelagem mecanicista. A “protecção da entrada da colmeia” não reduziu a FR associada à vespa, mas reduziu drasticamente a PF. Além disso, a “protecção da entrada da colmeia” aumentou a probabilidade de sobrevivência de colónias stressadas por vespas até 51% em contexto de alta abundância de vespas asiáticas com base em simulações teóricas. Esses resultados sugerem que a instalação de “protecção da entrada da colmeia” pode atenuar o efeito prejudicial do vespão asiático nas abelhas europeias. Esta técnica de baixo custo não leva a nenhum impacto ambiental e, portanto, pode ser recomendada aos apicultores como um método eficaz de controle da vespa asiática, favorável à biodiversidade.”

Locais onde se realizaram as medições/comparações e tipo de “protecção da entrada da colmeia” utilizado no estudo (a malha da rede utilizada é de 6×6 mm).

fonte: https://www.researchgate.net/publication/335490838_A_biodiversity-friendly_method_to_mitigate_the_invasive_Asian_hornet’s_impact_on_European_honey_bees