abelhas resistentes à varroa: o confronto de Randy Oliver com a diluição genética

Encontrar uma colónia que mantém pouca varroa durante meses chama a atenção de qualquer apicultor. Se for também produtiva, é natural querer criar rainhas a partir dela. Foi o que Randy Oliver fez. A dificuldade apareceu depois: muitas das filhas deram origem a colónias que precisavam de tratamento como as restantes. Escolher uma boa mãe era apenas o princípio. Faltava conseguir que a resistência voltasse a aparecer nas colónias das filhas.

Foi esta dificuldade que me levou, em Fevereiro de 2018, a publicar «Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver?». Randy acompanhava então pouco mais de mil colónias, descendentes de aproximadamente quinze rainhas cujas colónias tinham aparentado resistência. O critério de selecção definido por Randy foi: menos de 1% nas avaliações, admitindo até 3% em Novembro, quando paravam a criação, mas exigindo uma descida para 1% ou menos até Março do ano seguinte. As colónias que tinham ultrapassado os critérios definidos eram tratadas e retiradas do grupo de candidatas à reprodução [1].

Aqueles números mostravam a distância entre encontrar uma colónia promissora e conseguir repetir a sua qualidade numa parte apreciável das descendentes. Havia mães escolhidas, acompanhamento e uma dimensão de trabalho de monitorização pouco habitual. Mesmo assim, a resistência continuava a aparecer numa pequena parte da população. Para compreender o caminho que Randy percorreu depois, vale a pena começar pela maneira como encontrou as suas primeiras reprodutoras.

Quando a varroa chegou à sua exploração, Randy já seleccionava abelhas havia muitos anos. Procurava mansidão, sanidade, bom desenvolvimento e produção de mel. Precisava também de colónias fortes para a polinização das amendoeiras. A resistência ao ácaro veio juntar-se a estas exigências. Uma colónia que mantivesse pouca varroa, mas fosse agressiva, fraca ou pouco produtiva, não reunia aquilo que procurava para a exploração.

Em 2015 encontrou a colónia que viria a ficar conhecida como Queen Zero. Mantinha-se forte, tinha passado um período prolongado sem tratamento e apresentava contagens de ácaros praticamente nulas nas lavagens de abelhas adultas. A descoberta levou-o a procurar outras semelhantes entre as suas próprias abelhas. Depois de avaliar cerca de mil colónias em 2017, utilizou aproximadamente vinte reprodutoras na Primavera seguinte. Das suas filhas constituiu mais de 1.500 colónias em 2018 [8,9].

O primeiro trabalho foi tornar visível uma qualidade que não se reconhece apenas olhando para os quadros. Uma colónia bonita, com boa criação e muitas abelhas, pode estar a acumular varroa. Randy acrescentou as lavagens de abelhas adultas à avaliação que já fazia das colónias. As primeiras contagens permitiam encontrar candidatas; as seguintes mostravam se continuavam a manter a infestação baixa. Uma lavagem a zero chamava a atenção, mas era a repetição desse resultado ao longo dos meses que dava consistência à escolha.

Este acompanhamento exigiu milhares de lavagens. No balanço publicado em Janeiro de 2026, Randy referia mais de 30.000 realizadas nos últimos anos do programa. Cada colónia candidata tinha de continuar a passar pelas avaliações, e as que deixavam de cumprir os critérios eram tratadas. A selecção fazia-se pela escolha das que forneceriam as futuras rainhas, conservando na exploração as outras colónias que podiam ser recuperadas [9].

Randy Oliver a recolher amostra de abelhas para avaliar infestação por varroa (fonte: Re-Evaluating Varroa Monitoring: Part 1 – Methods – Scientific Beekeeping)

Houve progressos pelo caminho. Em Abril de 2020, Randy referia 56 colónias já aprovadas na avaliação dessa Primavera e sete que se desenvolviam bem após dois anos completos sem tratamento [2]. Em 2022, estimava que 15–20% das suas colónias apresentavam forte resistência. Entre as mil levadas à polinização das amendoeiras, mais de 150 tinham passado um ano inteiro sem tratamento; as trinta reprodutoras escolhidas apresentavam zero ou um ácaro por lavagem de abelhas adultas [3]. O progresso era lento, mas começava a abranger mais colónias.

Entretanto, tornava-se cada vez mais evidente a importância dos zângãos. Quando escolhemos uma colónia, avaliamos o trabalho das suas obreiras. Cada uma recebeu metade da informação genética da rainha e metade de um zângão. Como a rainha acasala com vários zângãos, na mesma colónia coexistem grupos de obreiras com pais diferentes. Quando criamos filhas dessa rainha e as deixamos acasalar, os zângãos com que se cruzam introduzem nova informação genética na descendência. A recombinação e a segregação dos genes dão origem a novas combinações; se esses zângãos não forem selecionados, pode ocorrer uma diluição do ganho genético. Assim, a qualidade que observámos na colónia de origem pode deixar de se manifestar nas novas colónias.

Acasalamento natural de uma rainha Apis mellifera (vídeo autor desconhecido)

Nos primeiros anos, Randy descrevia precisamente essa dificuldade: as filhas das suas reprodutoras encontravam uma população de zângãos ainda largamente proveniente de colónias não seleccionadas para resistência. O trabalho feito na escolha das mães ficava limitado pela origem dos machos com que as filhas acasalavam. Podia criar muitas rainhas a partir das melhores colónias e continuar a encontrar poucas descendentes capazes de manter a varroa baixa [8].

A resistência à Varroa parece depender de vários genes e mecanismos. Num estudo com mais de 1500 colónias, Eynard e colaboradores identificaram associações em várias regiões do genoma, sem que uma só explicasse grande parte da variação observada [11]. A resistência tem, portanto, uma base poligénica, embora exista uma componente hereditária sobre a qual a selecção pode actuar.

Para ilustrar de forma didáctica a influência do acasalamento, imaginemos, apesar dessa complexidade, que a resistência depende de um alelo recessivo r (associado à resistência), enquanto S representa o alelo de susceptibilidade à varroa. Uma rainha rr acasalada com zângãos r produz filhas rr; com zângãos S, produz filhas Sr, que não manifestam a característica neste modelo. Se uma rainha Sr acasalar apenas com zângãos S, nenhuma das suas filhas será rr. O alelo r não desaparece, mas a combinação necessária à resistência deixa de surgir nesse cruzamento.

Esquema didáctico simplificado: r está associado à resistência e S à susceptibilidade ou não-resistência (esquema do autor)..

Na realidade, o resultado depende de muitas variantes e das combinações transmitidas em cada geração. A selecção pode aumentar a presença das variantes favoráveis, mas é necessário trabalhar tanto com as rainhas como com os zângãos. Já tinha abordado estas dificuldades em «Porquê é tão difícil criar abelhas melhores?» e «Melhoramento de abelhas: facto ou ficção?» [4–6].

Randy procurou seleccionar dos dois lados do acasalamento: substituía rainhas por filhas das colónias escolhidas, que produziriam as obreiras das novas colónias e os zângãos das gerações seguintes. Como os zângãos nascem de ovos não fecundados, recebem a informação genética da mãe. A origem das rainhas que os produzem é, por isso, parte do trabalho de selecção.

Esses zângãos só terão influência se forem numerosos nas zonas de acasalamento. Randy procurou aumentar a sua presença, saturando essas zonas com machos provenientes de colónias seleccionadas — uma dimensão da selecção que discuti em «A minha resistência à resistência: o foco no foco» [7]. Se os zângãos de outras origens continuarem a ser maioritários, um local isolado pode ajudar a controlar os acasalamentos. Na colaboração com a Olivarez Honey Bees, Randy refere ter deslocado para locais mais isolados cerca de 450 colónias produtoras de zângãos, provenientes de rainhas seleccionadas e de famílias com traços de resistência [9].

O esforço de avaliação estendeu-se também a essas colónias. No Outono de 2025, o filho Eric participou na realização de lavagens em cerca de 1.400 colónias para identificar potenciais mães de zângãos. A origem Golden West permitia entrar na avaliação, mas as contagens de ácaros, a força e a produtividade continuavam a contar. Procurava-se melhorar também a qualidade das colónias que forneceriam os pais das gerações seguintes [9].

Os resultados de Julho de 2025 mostram quanto o programa tinha avançado. Na primeira avaliação de 828 colónias de primeiro ano, distribuídas por 25 apiários, aproximadamente metade das lavagens não revelou ácaros. Os núcleos tinham recebido uma aplicação de ácido oxálico quando foram constituídos, no final de Março e início de Abril. Mais de três meses depois, algumas amostras apresentavam 20 a 40 ácaros, enquanto muitas apresentavam zero. Era uma avaliação intermédia, que precisava de acompanhamento posterior, mas Randy já descrevia um controlo da varroa mais fácil e menos dispendioso [10].

Também não exigiu que todas as colónias controlassem o ácaro da mesma maneira. A remoção de criação infestada, a desoperculação e reoperculação ou outros mecanismos podiam contribuir para o resultado. O critério era encontrar colónias que mantivessem a infestação baixa e conservassem as restantes qualidades necessárias à exploração. As lavagens permitiam acompanhar esse resultado sem ter de conhecer, em cada colónia, todos os mecanismos envolvidos.

Ao olhar para este percurso, encontro uma sequência que interessa deixar clara. Primeiro, foi necessário procurar as colónias promissoras entre muitas outras e confirmar o seu comportamento com avaliações repetidas. Depois, multiplicar as famílias escolhidas, produzir muitos zângãos dessas origens e aumentar a sua participação nos acasalamentos, recorrendo também a locais isolados. Finalmente, voltar a avaliar as colónias das filhas, porque nenhuma dessas medidas dispensava a verificação do resultado.

É essa continuidade que dá valor ao trabalho de Randy: encontrar boas mães, preparar o lado dos zângãos e medir o que acontece nas descendentes. Uma colónia excepcional pode aparecer num apiário. Tornar essa qualidade mais frequente exige trabalhar sobre a população que vai produzir a geração seguinte. E, quando as novas rainhas começam a formar as suas colónias, regressar às lavagens de abelhas adultas para perceber o que se conseguiu conservar.

Na segunda parte, voltarei a uma escolha deste percurso: porque manteve Randy os voos de fecundação, procurando controlar os zângãos disponíveis, em vez de recorrer à inseminação instrumental? A resposta está ligada ao trabalho que quis demonstrar e aos produtores que esperava ver repeti-lo.

Dez anos de resistência ou dez anos de novos inquilinos?

Depois de acompanhar o percurso de Randy Oliver, com milhares de lavagens, escolha de reprodutoras e centenas de colónias destinadas a produzir zângãos, vale a pena olhar de novo para a afirmação habitual quando se fala de abelhas resistentes em Portugal: «Naquele tronco há um enxame há dez anos e nunca ninguém o tratou. São resistentes à varroa.» Em locais onde as rainhas acasalam sobretudo com zângãos de colónias não seleccionadas para essa característica, a probabilidade de manter níveis elevados de resistência é baixa. Antes de lhe atribuir essa capacidade, há uma pergunta mais simples: sabemos que a colónia sobreviveu durante todos esses anos ou apenas que voltámos a encontrar abelhas no mesmo buraco? Uma colónia pode morrer no inverno e o abrigo receber outro enxame na primavera, sem que quem passa ocasionalmente dê pela mudança [12].

 Um abrigo ocupado ano após ano pode demonstrar que o lugar é bom; não demonstra, por si só, que a mesma colónia continua viva e que é resistente.

Referências do blogue

  1. Gomes, E. (2018). Abelhas resistentes: um longo caminho espera Randy Oliver? Abelhas à Beira. Ler
  2. Gomes, E. (2020). Randy Oliver animado com o evoluir das suas linhas resistentes. Abelhas à Beira. Ler
  3. Gomes, E. (2022). Criação de abelhas resistentes: os progressos difíceis e lentos de Randy Oliver. Abelhas à Beira. Ler
  4. Gomes, E. (2019). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 1. Abelhas à Beira. Ler
  5. Gomes, E. (2022). Porquê é tão difícil criar abelhas melhores? Parte 2. Abelhas à Beira. Ler
  6. Gomes, E. (2019). Melhoramento de abelhas: facto ou ficção? Abelhas à Beira. Ler
  7. Gomes, E. (2021). A minha resistência à resistência: o foco no foco. Abelhas à Beira. Ler

Artigos e estudos

  1. Oliver, R. (2019). Selective Breeding for Mite Resistance: Walking the Walk — Progress Report 2019. American Bee Journal, Junho. Republicado em Scientific Beekeeping.
  2. Oliver, R. (2026). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 5: It’s Your Turn! American Bee Journal, Janeiro. Republicado em Scientific Beekeeping.
  3. Oliver, R. (2025). Selective Breeding for Mite Resistance — Part 2: Concepts. American Bee Journal / Scientific Beekeeping.
  4. Eynard, S. E. et al. (2025). Sequence-Based Multi Ancestry Association Study Reveals the Polygenic Architecture of Varroa destructor Resistance in the Honeybee Apis mellifera. Molecular Ecology, 34(3), e17637. DOI: 10.1111/mec.17637.
  5. Kohl, P. L., Rutschmann, B. & Steffan-Dewenter, I. (2022). Population demography of feral honeybee colonies in central European forests. Royal Society Open Science, 9, 220565. DOI: 10.1098/rsos.220565.

Autor: Eduardo Gomes

Eduardo Gomes é apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

Um comentário em “abelhas resistentes à varroa: o confronto de Randy Oliver com a diluição genética”

  1. Ao contrário da tese de mestrado aqui apresentada há algumas semanas, este apicultor nunca deixou a varroa destruir enxames, tratando-os sempre que os níveis de infestação ultrapassava um certo limiar por si definido. Aquilo que foi feito naquela tese foi bárbaro.

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