Há dias, numa loja em Amarante, disseram à minha esposa e a uma amiga que não deviam usar colheres de inox para comer mel, porque o metal mataria as enzimas e deterioraria o produto. A minha esposa ligou-me depois para perguntar porque nunca a tinha avisado desse risco. Respondi-lhe que nunca o fiz porque essa informação é incorrecta.
Sugeriram-me que escrevesse sobre este mito no blogue. Aqui estou a fazê-lo.
Não se pode matar aquilo que não está vivo. As enzimas do mel não estão vivas: são proteínas que participam em reacções químicas. Podem perder actividade, por exemplo, devido ao calor. Mas dizer que uma colher as «mata» não descreve o que acontece. Especialistas em ciência alimentar concluíram que não há evidência de que o simples contacto com uma colher de metal afecte a actividade das enzimas do mel [1].

O mel pode, sim, em contacto prolongado com certas superfícies, absorver chumbo. É o caso de algumas soldaduras antigas, do aço galvanizado e de ligações de latão ou bronze. O tempo e a temperatura de contacto também influenciam esse risco [2].
O Manual de Apicultura em Portugal, da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), recomenda que os equipamentos usados na extracção do mel sejam de aço inoxidável ou de outros materiais adequados ao contacto com alimentos, como plástico de uso alimentar. [3].
O mel pode sofrer alterações com o tempo, e são fenómenos que ajudam a desmontar outras ideias simplistas sobre o mel. Mas não são consequência de comer uma colherada com inox. Já escrevi sobre o envelhecimento e o HMF em «Características físico-químicas do mel, legislação e atitude» e sobre a cristalização em «Quadros com mel cristalizado: uma proposta de maneio».
Fica, portanto, a tranquilidade: a minha esposa e a nossa amiga podem usar uma colher de inox para servir ou comer mel sem receio de lhe fazer mal. E, já que me sugeriram que escrevesse sobre este mito no blogue, aqui fica a explicação.
Nota: No canto superior direito do blogue, clique em «Menu» → «Manuais» para conhecer o manual Cavalos de Tróia contra a Vespa velutina — Manual prático para o apicultor e consultar as respetivas condições de aquisição. Entretanto, recebi feedback de clientes que aplicaram as técnicas lá descritas e estão a observar reduções assinaláveis na pressão de Vespa velutina nos seus apiários. É uma oportunidade para reduzir essa pressão e devolver às abelhas maior liberdade de voo e de forrageio, tão importantes nesta época do ano.
Referências do blogue
- Gomes, E. (2016). Características físico-químicas do mel, legislação e atitude. Abelhas à Beira. Ler
- Gomes, E. (2020). Quadros com mel cristalizado: uma proposta de maneio. Abelhas à Beira. Ler
Fontes técnicas e de verificação
[1] AAP FactCheck. (2024). Claims you can live on honey alone don’t stick to the truth.
[2] Canadian Food Inspection Agency. (2025). Preventive controls for food: Honey products.
[3] Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP). Apicultura em Portugal — Manual Técnico, capítulo 8, «Maneio produtivo — Boas práticas na produção de mel», secção «Requisitos dos equipamentos e utensílios». Ler.