machos estéreis contra a Vespa velutina: poderá resultar como nos mosquitos?

Nos últimos dias, Lisboa foi palco de uma experiência que parece, à primeira vista, um pouco estranha: a libertação de milhares de mosquitos machos estéreis. São machos de Aedes albopictus, o mosquito-tigre-asiático, esterilizados e libertados para competirem com os machos selvagens. Se acasalarem com as fêmeas, desse acasalamento não resulta descendência. Durante setembro foram libertados 90 mil machos estéreis em Alvalade, numa experiência destinada, nesta primeira fase, a estudar a sua dispersão e sobrevivência e a avaliar a utilização futura desta técnica no controlo da espécie. [5]

Esta notícia levou alguns leitores do blogue a colocarem uma pergunta muito interessante: será possível fazer algo semelhante com a Vespa velutina? Poderíamos esterilizar machos — ou mesmo futuras fundadoras — e utilizá-los para reduzir a reprodução da população? A ideia parece simples. Mas, quando olhamos para a biologia reprodutiva da velutina, percebemos que o problema é bastante mais complexo.

Será possível impedir a reprodução da Vespa velutina e, dessa forma, acabar com as suas populações nos países onde se instalou? A pergunta faz sentido. Se conseguíssemos impedir a formação de novas colónias durante tempo suficiente, poderíamos actuar sobre aquilo que tem permitido à espécie continuar a expandir-se: a produção de novas fundadoras.

Mas entre esterilizar uma vespa e erradicar uma população existe uma distância enorme. Para o apicultor, interessa perceber se estas técnicas já estão disponíveis, o que conseguiram demonstrar e se poderão algum dia atingir uma escala que permita eliminar a velutina de um território.

Até agora, não dispomos de uma técnica de esterilização operacional e validada para esse objectivo. Existem experiências noutras espécies, projectos dirigidos à velutina e modelos que permitem estudar possibilidades. Merecem atenção, mas os seus resultados ainda não permitem prometer a erradicação.

Libertar machos estéreis

Uma das técnicas mais conhecidas é a Técnica do Insecto Estéril. Consiste em criar grandes quantidades de machos, esterilizá-los, geralmente através de radiação, e libertá-los para acasalarem com as fêmeas selvagens. A repetição destas libertações procura reduzir progressivamente a reprodução da população.

Esta técnica já é utilizada no controlo de outros insectos. Porém, aplicá-la à velutina exigiria resolver vários problemas: produzir machos em grande quantidade, esterilizá-los sem lhes retirar a capacidade de procurar e fecundar fêmeas e conseguir que competissem com os machos existentes no território.

Acresce que as futuras fundadoras da velutina podem acasalar com vários machos. Uma fêmea que acasale com um macho estéril poderá também receber esperma de outro fértil. Isso não torna a técnica necessariamente inútil, mas obriga a conhecer melhor o resultado desses acasalamentos.

Nas vespas, os ovos não fecundados podem originar machos; os fecundados originam normalmente fêmeas. Para formar uma colónia, a fundadora precisa de produzir obreiras. É sobre esta capacidade de estabelecer novos ninhos que uma intervenção teria de mostrar resultados.

Actualmente, não existe um programa operacional de libertação de machos esterilizados que tenha demonstrado controlo, muito menos erradicação, de populações de Vespa velutina.

Representação da possível utilização de machos esterilizados de Vespa velutina: depois de libertados, procurariam acasalar com as futuras fundadoras, tentando reduzir a produção de descendência. Uma possibilidade ainda em investigação, não disponível no terreno. (imagem IA)
E esterilizar as futuras fundadoras?

Também podemos imaginar uma intervenção dirigida às fêmeas. Mas, se para esterilizar cada fundadora tivermos primeiro de a capturar, surge uma pergunta prática: qual seria a vantagem de a tratar e libertar em vez de a eliminar?

O interesse aumentaria se fosse possível atingir muitas fundadoras sem as capturar individualmente, ou se uma intervenção produzisse efeitos que se prolongassem pela população. É aqui que entram algumas ferramentas genéticas.

No blogue, já em 2019 mencionei o siRNA e o CRISPR-Cas9 entre as linhas de investigação que mereciam investimento [1]. São ferramentas diferentes, e falar delas não significa que exista já uma solução pronta para utilizar.

Uma alteração genética que passa às gerações seguintes

O chamado gene drive procura favorecer a transmissão de uma alteração genética à descendência. Se essa alteração comprometer a fertilidade, poderá espalhar-se durante várias gerações e reduzir a reprodução da população.

O que se transmite é a alteração genética. Alguns dos seus portadores têm de continuar capazes de se reproduzir para que ela possa passar à geração seguinte.

Meiborg e colaboradores estudaram esta possibilidade num modelo adaptado à biologia da velutina [2]. Entre as estratégias consideradas, actuar sobre a fertilidade das fêmeas mostrou maior potencial. Contudo, os resultados também revelaram dificuldades importantes.

Podem surgir variantes resistentes à alteração introduzida. Além disso, as fundadoras férteis que restam podem continuar a produzir descendentes suficientes para manter a população. No modelo, tornar muitas fêmeas inférteis não provocava necessariamente uma diminuição proporcional dos ninhos.

Este é um ponto decisivo para quem pensa em erradicação. Não basta que a alteração genética se espalhe: é necessário que a reprodução diminua o suficiente para a população desaparecer.

O estudo mostra condições em que a supressão poderia ocorrer, mas não demonstra que isso seja alcançável no terreno. Não foi uma experiência de libertação de velutinas modificadas e não existe actualmente um gene drive operacional contra esta espécie.

RNA de interferência: uma possibilidade que já aqui apresentei

Outra linha de investigação é o RNA de interferência, ou RNAi. De forma simples, determinadas moléculas de RNA podem reduzir a produção de uma proteína de que o insecto necessita. Dependendo do alvo, isso poderá afectar o desenvolvimento, a sobrevivência ou a reprodução.

Em outubro de 2025 apresentei neste blogue o projecto dos estudantes da Universidade de Lausanne, desenvolvido no âmbito do iGEM 2024 [3]. A proposta procurava combinar RNAi, entrega alimentar às larvas e identificação das velutinas por imagem, para tornar o acesso ao isco mais selectivo.

Portanto, a ideia de aproximar uma intervenção molecular da alimentação da colónia já estava em estudo. Continuava, porém, a ser um projecto em desenvolvimento, sem demonstração de controlo de populações no campo.

Existe também uma experiência anterior em Polistes metricus, outra vespa social. Os investigadores administraram RNA directamente às larvas através da alimentação e conseguiram reduzir a expressão de um gene [4]. Demonstraram que essa interferência era possível por ingestão, mas não demonstraram esterilização nem eliminação de ninhos.

Para transformar esta possibilidade numa ferramenta contra a velutina seria necessário confirmar que a molécula chega aos indivíduos pretendidos, mantém a sua actividade e provoca um efeito suficiente. A selectividade para a espécie também teria de ser demonstrada.

Onde entram os Cavalos de Tróia?

Os Cavalos de Tróia procuram aproveitar uma capacidade que as obreiras já possuem: regressar ao seu ninho. Se transportarem um agente eficaz, poderão fazê-lo chegar a indivíduos que o apicultor não consegue alcançar directamente.

Em 2021 trouxe para o blogue os trabalhos de Juliette Poidatz sobre a distribuição de alimentos nas colónias de velutina [5]. Essa investigação ajuda a colocar a pergunta certa: o que a obreira leva chega a quem, dentro do ninho?

É uma questão importante para os agentes já utilizados e para uma eventual intervenção por RNAi. Conseguir que a obreira transporte uma molécula não garante que esta chegue às larvas ou às futuras fundadoras em quantidade suficiente para produzir o efeito desejado.

Ainda assim, esta possibilidade merece investigação: utilizar as obreiras para entregar no ninho uma intervenção mais selectiva, capaz de comprometer o seu desenvolvimento ou a produção da geração seguinte.

Mas poderão estas técnicas erradicar a velutina de um país?

Esse é o objectivo mais ambicioso e continua por demonstrar.

Como já discuti neste blogue, a capacidade reprodutiva da velutina permite-lhe compensar perdas muito importantes [6]. Uma técnica pode funcionar num ninho ou reduzir a pressão num apiário e continuar longe de conseguir eliminar a população de uma região.

Para alcançar a erradicação seria necessário afectar uma proporção suficientemente elevada da população, abranger os locais onde a espécie se reproduz e impedir que os sobreviventes ou novas entradas voltassem a ocupar o território.

Um gene drive procura precisamente ultrapassar parte dessa dificuldade, fazendo a alteração passar entre gerações. Uma intervenção por RNAi entregue através das obreiras procura alcançar o interior dos ninhos. São possibilidades com alcances diferentes, e nenhuma demonstrou ainda capacidade para erradicar a velutina dos países que colonizou.

Hoje, portanto, a resposta é esta: não temos uma técnica de esterilização pronta para esse trabalho, nem provas de que as propostas existentes consigam atingir esse alcance.

Isso não retira interesse à investigação. A pergunta continua a justificar investimento: conseguiremos comprometer a reprodução da velutina de forma suficientemente eficaz e abrangente para que deixe de repor as suas perdas e acabe por desaparecer de um território?

É essa passagem — de afectar alguns indivíduos para impedir a continuidade de uma população — que estas técnicas ainda têm de conseguir demonstrar.

Enquanto esperamos, é preciso proteger os apiários

A investigação sobre esterilização, RNAi ou gene drive abre caminhos interessantes, mas estamos ainda longe de saber se algum deles chegará a transformar-se numa ferramenta eficaz, segura e utilizável contra a Vespa velutina. O caminho poderá ser longo e não existe sequer a certeza de que estas tecnologias venham a alcançar os resultados que procuramos.

Entretanto, a velutina está nos apiários e os apicultores precisam de proteger as suas abelhas agora. E, embora nenhuma técnica resolva isoladamente o problema, já existem formas de reduzir a pressão de predação e dar às colónias melhores condições para resistirem.

As harpas elétricas, quando corretamente instaladas e utilizadas, podem eliminar uma parte importante das velutinas que se aproximam das colmeias. Os Cavalos de Tróia, utilizados com toda a precaução e parcimónia, procuram atuar de outra forma: aproveitar as próprias velutinas para transportar um agente até ao ninho e tentar reduzir ou eliminar a fonte de pressão sobre o apiário.

Por isso, enquanto se investigam soluções que poderão um dia atuar sobre a reprodução e sobre populações inteiras, a prioridade do apicultor continua a ser proteger o apiário com as ferramentas que já tem ao seu alcance, escolhendo-as e combinando-as de acordo com a pressão existente e as condições locais.

Referências — publicações do Abelhas à Beira

[1] Gomes, J. E. (2019). Vespa velutina: categorias de armadilhas e determinantes das escolhas. Abelhas à Beira. Ler.

[3] Gomes, J. E. (2025). Erradicação da V. velutina através da tecnologia de silenciamento de genes: os primeiros passos. Abelhas à Beira. Ler.

[5] Gomes, J. E. (2021). Estudo da distribuição de alimentos em ninhos de Vespa velutina e suas implicações na estratégia de controlo por meio de Cavalos de Tróia. Abelhas à Beira. Ler.

[6] Gomes, J. E. (2026). Do potencial reprodutivo da Vespa velutina à dificuldade em controlar a sua expansão. Abelhas à Beira. Ler.

Referências — artigos e estudos

[2] Meiborg, A. B. et al. (2023). The suppressive potential of a gene drive in populations of invasive social wasps is currently limited. Scientific Reports, 13, 1640. DOI: 10.1038/s41598-023-28867-8.

[4] Hunt, J. H., Mutti, N. S., Havukainen, H., Henshaw, M. T. & Amdam, G. V. (2011). Development of an RNA Interference Tool, Characterization of Its Target, and an Ecological Test of Caste Differentiation in the Eusocial Wasp Polistes. PLoS ONE, 6, e26641. DOI: 10.1371/journal.pone.0026641.

[5] Unidade Local de Saúde de Santa Maria (2026). «Lisboa avança para a fase experimental do controlo do Aedes albopictuscom libertação de 90 mil mosquitos estéreis». 12 de setembro de 2026.

Autor: Eduardo Gomes

Eduardo Gomes é apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

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