visita técnica a apiário junto ao rio Aguedão

Regressei recentemente às proximidades do rio Aguedão para uma segunda visita técnica a uma exploração apícola que tinha visitado no ano passado, então numa verdadeira situação de emergência. Nessa altura, várias colónias apresentavam taxas de infestação por varroa muito elevadas e foi necessário recorrer ao Protocolo Inovador (PI). A intervenção permitiu salvar uma parte considerável das colónias.

Desta vez encontrei, de uma forma geral, colónias num estado sanitário claramente melhor.

Colónias maioritariamente com 2 e 3 quadros com boas áreas de criação. (foto do autor)

O objetivo da visita deste ano foi sobretudo esclarecer e aperfeiçoar alguns aspetos de detalhe relacionados com a aplicação do PI para controlo da varroose.

Trata-se de um casal de apicultores com mais de 150 colmeias distribuídas por três apiários, numa exploração com dimensão profissional. Uma das coisas que mais me agradou observar foi a forma como trabalham em conjunto. Contaram-me que, durante os maneios, trocam frequentemente impressões entre si antes de tomar decisões, procurando chegar à solução que lhes parece mais adequada para cada colónia e para a gestão global dos seus apiários.

Casal de apicultores em trabalho colaborativo durante a aplicação do PI (foto do autor, 2026)

E esse cuidado percebe-se no terreno. Os apiários estão muito bem cuidados e organizados e possuem uma unidade de produção primária com um nível de qualidade que raramente encontro.

Uma paisagem de outono… e um oceano de eucaliptos

A envolvente apresentava já alguns sinais claros do outono. Nas proximidades do apiário observava-se bastante magoriça (Calluna vulgaris) em floração.

Magoriça (Calluna vulgaris) em floração nas proximidades do apiário. (foto do autor)

Mas há outra imagem que caracteriza imediatamente aquela paisagem. De um dos pontos mais elevados, o olhar perde-se num verdadeiro oceano de eucaliptos, cobrindo montes sucessivos até onde a vista alcança.

A paisagem envolvente do apiário: um extenso contínuo florestal dominado pelo eucalipto. (foto do autor)
Velutina: soluções diferentes em apiários diferentes

O controlo da Vespa velutina é outra área a que estes apicultores têm dedicado bastante atenção. Em dois dos apiários utilizam Cavalos de Tróia, enquanto noutro recorrem às harpas elétricas.

Esta diversidade de soluções mostra uma realidade que encontro muitas vezes no terreno: os apiários não são todos iguais e uma mesma técnica não tem necessariamente de ser a melhor solução para todos eles.

Várias rainhas criadas por métodos naturais

Durante a visita tive também oportunidade de observar várias belas rainhas criadas por métodos naturais pelas próprias colónias.

Questionei-os sobre a razão de estarem atualmente a trabalhar apenas com rainhas criadas por métodos naturais. Relataram-me então que, há cerca de três anos, tiveram uma experiência pouco satisfatória com rainhas adquiridas a um criador situado a sul de Lisboa. Desde então, têm dado preferência às rainhas produzidas localmente e pelas próprias colónias.

Uma das várias belas rainhas criadas por métodos naturais e observadas durante a visita. (vídeo do autor)

Naturalmente, uma experiência negativa com um determinado lote de rainhas não permite retirar conclusões gerais sobre a criação comercial de rainhas. Mas, neste caso concreto, ajuda a compreender a opção que estes apicultores passaram a seguir.

Da cresta até setembro: os números da varroa

Depois da cresta, realizada em meados de julho, os apicultores avaliaram a infestação por varroa em algumas colónias. Os valores encontrados eram muito baixos, situando-se aproximadamente entre 0,3% e 0,6%.

Logo depois aplicaram um tratamento homologado, que permaneceu nas colmeias durante as oito semanas preconizadas na bula.

Terminadas essas oito semanas, fizeram aquilo que considero essencial: voltaram a medir.

E os números já eram muito diferentes.

Em algumas colónias encontraram 15 varroas em 300 abelhas adultas, correspondentes a uma taxa de infestação de 5%.

É precisamente este tipo de situação que mostra por que razão não considero suficiente colocar um tratamento na colmeia e presumir que o problema ficou resolvido. É a avaliação realizada depois do tratamento que nos diz onde estamos realmente. Seja por uma eficácia insuficiente nas condições concretas de utilização, por reinfestação posterior ou por uma combinação de diferentes fatores, uma coisa é objetiva: 5% nesta altura do ano exige intervenção.

Afinar alguns detalhes do Protocolo Inovador

Foi neste contexto que trabalhámos alguns pormenores da aplicação do PI. Não se tratava agora de aprender o protocolo de raiz, mas de aperfeiçoar a sua execução, corrigindo pequenos detalhes que podem fazer diferença no resultado final.

Durante esta visita iniciámos a primeira ronda do Protocolo Inovador. Se tudo decorrer como espero, aproximadamente 12 dias depois será realizada uma segunda ronda, já autonomamente pelos apicultores.

O objetivo é chegar às próximas semanas com uma pressão de varroa muito mais baixa e com maior tranquilidade relativamente ao estado sanitário das colónias.

São as abelhas de inverno que agora interessam

As colónias estão neste momento a preparar e criar as abelhas que irão atravessar o inverno.

Estas abelhas não são simplesmente mais uma geração. São fisiologicamente diferentes das abelhas típicas da primavera e do verão, apresentam maior longevidade e terão um papel determinante na manutenção das colónias durante os períodos mais críticos dos meses seguintes.

É por isso que controlar a varroa agora tem uma importância tão grande.

Um ano depois

Um ano depois da primeira visita, o cenário é diferente. Na altura encontrei uma situação de emergência que exigia atuar rapidamente. Agora encontrei uma exploração onde os apicultores monitorizam, tratam, voltam a medir e procuram perceber aquilo que aconteceu depois de cada intervenção.

Desta vez o meu trabalho foi, por isso, sobretudo um trabalho de afinação: observar, discutir e melhorar alguns procedimentos.

E ficou novamente uma impressão que considero importante. Para além de instalações muito cuidadas e apiários muito organizados, encontrei dois apicultores que conversam entre si, observam, questionam e procuram tomar em conjunto as melhores decisões para as suas colónias.

Com mais de 150 colmeias, pequenas decisões repetem-se muitas vezes. E, por isso, pequenos aperfeiçoamentos nos procedimentos podem acabar por fazer uma diferença muito grande no conjunto da exploração.

Autor: Eduardo Gomes

Eduardo Gomes é apicultor, formador e consultor apícola e autor do blogue Abelhas à Beira. Escreve a partir da prática no apiário, procurando cruzar a observação de campo com a melhor informação científica e técnica disponível, sobretudo nas áreas da sanidade, Varroa, nutrição, Vespa velutina e maneio das colónias.

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