Quando se fala em “Cavalos de Troia” para controlar a Vespa velutina, a discussão tende rapidamente a polarizar-se. Para uns, qualquer referência ao fipronil é imediatamente rejeitada por razões ambientais. Para outros, basta mencionar os resultados obtidos em alguns ensaios para o considerar uma solução definitiva.
A ciência aconselha outra atitude. Nem o entusiasmo fácil, nem a rejeição automática.
O que interessa é perceber como diferentes países avaliam exatamente a mesma tecnologia e porque chegam, por vezes, a decisões muito diferentes.
O exemplo da Nova Zelândia
Nos últimos meses surgiu uma notícia que passou relativamente despercebida na Europa.
Depois da deteção de uma incursão de Vespa velutina na região de Auckland, a Nova Zelândia decidiu integrar no seu programa oficial de erradicação um sistema de iscos proteicos baseado no Vespex.

À primeira vista, poderia parecer que a Nova Zelândia está a fazer aquilo que a Europa se recusa a fazer. Mas essa leitura é demasiado simplista.
O Vespex não nasceu para a Vespa velutina
Existe um detalhe fundamental que raramente é referido. O Vespex não foi desenvolvido para controlar a Vespa velutina. Foi desenvolvido para combater duas outras espécies invasoras presentes na Nova Zelândia há muitas décadas:
- Vespula germanica (vespa-germânica);
- Vespula vulgaris (vespa-comum).
Estas duas espécies atingem naquele país densidades extraordinárias, particularmente nas florestas de faia (“beech forests”), onde competem com aves nativas e outros animais pela melada produzida pelas cochonilhas das faias e predam enormes quantidades de insetos autóctones.
Foi para responder a esse problema que investigadores neozelandeses desenvolveram um isco proteico contendo 0,1% de fipronil, concebido para ser recolhido pelas operárias, transportado para o ninho e distribuído no interior da colónia.

Uma tecnologia com cerca de uma década de utilização
O Vespex não é uma ideia recente. Depois de vários anos de desenvolvimento e ensaios experimentais, entrou em utilização operacional no final de 2015.
Desde então tem sido utilizado por autoridades locais, empresas de controlo de pragas, gestores florestais e proprietários privados.
Quando surgiu a Vespa velutina em Auckland, em 2025, a Nova Zelândia não estava a iniciar uma experiência completamente nova.
Estava a adaptar uma tecnologia que já possuía cerca de dez anos de utilização prática contra outras vespas sociais invasoras.
Os resultados obtidos contra a vespa-germânica
Os ensaios operacionais publicados por Edwards e colaboradores são impressionantes. Em cinco áreas experimentais, totalizando mais de 5 500 hectares, verificou-se:
- redução de cerca de 93% da atividade das colónias apenas quatro dias após a colocação do isco, num dos locais;
- reduções superiores a 97% entre 20 e 38 dias nos restantes locais;
- aumento significativo da disponibilidade de melada, um recurso alimentar essencial para muitas espécies nativas.
Importa, contudo, interpretar corretamente estes números. Os investigadores mediram sobretudo a atividade das colónias, através do tráfego de operárias nos ninhos, e não a destruição física confirmada de todos os ninhos.
Mesmo assim, estes resultados explicam porque o Vespex ganhou credibilidade operacional na Nova Zelândia.
A Vespa velutina chegou à Nova Zelândia?
Sim. Esta é uma informação que importa atualizar. Em 2025 foram detetadas rainhas fundadoras de Vespa velutina na região de Auckland.
Nos meses seguintes foram localizados ninhos primários e secundários através de:
- radio-rastreamento;
- armadilhas;
- procura intensiva em campo;
- drones térmicos;
- sistemas de inteligência artificial.
Segundo os dados oficiais divulgados em maio de 2026, tinham já sido:
- confirmadas 77 rainhas;
- destruídos 132 ninhos;
- sem deteção de novos ninhos desde o início de abril.
Ou seja, a Vespa velutina entrou efetivamente na Nova Zelândia, mas as autoridades consideram que ainda se encontra numa fase de incursão passível de erradicação, não estando estabelecida de forma permanente.
O Vespex já está a ser utilizado contra a Vespa velutina?
Sim. O Ministério das Indústrias Primárias (MPI) anunciou oficialmente, em março de 2026, a utilização do Vespex como mais uma ferramenta no programa de erradicação.
É importante, porém, compreender exatamente o significado desta decisão.
O governo neozelandês não afirmou que o Vespex já demonstrou elevada eficácia na Vespa velutina. O que afirmou foi algo diferente:
- existe uma plataforma tecnológica com uma década de utilização bem-sucedida contra Vespula germanica e Vespula vulgaris;
- foram realizados ensaios limitados em França que mostraram que a formulação proteica é atrativa para Vespa velutina;
- vale a pena integrar essa ferramenta no programa de erradicação enquanto se continua a avaliar a sua eficácia.
Até ao momento, não foi publicado qualquer estudo científico revisto por pares que demonstre quantitativamente a percentagem de ninhos de Vespa velutina eliminados pelo Vespex. Existe, portanto, uma diferença importante entre:
- utilização operacional;
e
- evidência científica consolidada.
Confundir estes dois níveis de evidência seria um erro.
Então porque avança a Nova Zelândia?
Na minha opinião, a resposta está na filosofia de gestão.
Enquanto a União Europeia tende a perguntar primeiro:
“Qual é o risco desta substância?”
A Nova Zelândia começa por perguntar:
“Esta ferramenta aumenta significativamente a probabilidade de erradicarmos a invasão?”
Só depois compara esse benefício com os riscos ambientais.
É uma lógica típica da biosegurança.
O sistema é mais importante do que a molécula
Outro aspeto frequentemente ignorado é que a Nova Zelândia não avalia apenas o fipronil.
Avalia todo o sistema:
- estação de isco fechada;
- alimento proteico específico;
- período limitado de utilização;
- recolha posterior;
- colocação dirigida;
- integração com radio-rastreamento e destruição física dos ninhos.
Ou seja, não se trata simplesmente de distribuir um inseticida.
Trata-se de avaliar um sistema completo de entrega.
A grande diferença ecológica
Existe ainda outro argumento pouco conhecido.
Na Europa existem várias espécies nativas de vespas sociais:
- Vespa crabro;
- Vespula germanica;
- Vespula vulgaris;
- espécies de Polistes;
- espécies de Dolichovespula.
Muitas utilizam recursos proteicos semelhantes.
Na Nova Zelândia, pelo contrário, as autoridades referem que não existem espécies nativas equivalentes suscetíveis de competir por este tipo de isco.
Isto reduz um dos riscos ecológicos mais frequentemente apontados na Europa.
O que a Europa deveria estudar melhor?
Na minha opinião, existe uma lacuna evidente na investigação.
Temos muitos trabalhos sobre:
- toxicidade do fipronil;
- persistência ambiental;
- riscos para organismos não-alvo.
Mas muito poucos que respondam quantitativamente a perguntas como:
- Quantos ninhos são realmente destruídos?
- Quantas futuras rainhas deixam de ser produzidas?
- Qual é a redução anual da população regional?
- Qual é o impacto positivo da diminuição da predação sobre abelhas e outros insetos?
- Como comparar esse benefício ecológico com o risco ambiental da utilização extremamente localizada de um isco proteico?
Sem esta comparação, a análise fica inevitavelmente incompleta.
A pergunta que continua sem resposta
Talvez a verdadeira questão não seja:
“O fipronil é perigoso?”
A ciência já respondeu afirmativamente a essa pergunta.
A questão verdadeiramente interessante é outra:
“Será possível desenvolver um Cavalo de Troia suficientemente seletivo para eliminar colónias de Vespa velutina, utilizando quantidades muito reduzidas de substância ativa e provocando um impacto ambiental inferior ao custo ecológico de deixar a invasão prosseguir?”
Essa continua a ser, na minha opinião, uma das perguntas mais importantes da investigação atual.
A experiência da Nova Zelândia não responde ainda definitivamente a essa questão. Mas mostra que há países dispostos a testar essa hipótese em condições reais, de forma integrada, cuidadosamente monitorizada e com objetivos de erradicação claramente definidos.
Será essa a melhor solução?
Ainda não sabemos.
Mas certamente vale a pena acompanhar atentamente os resultados científicos que vierem a ser publicados nos próximos anos.