Durante muitos anos pensou-se que a resistência natural à Varroa destructor dependia sobretudo do comportamento das abelhas adultas. Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports acrescenta agora uma nova peça ao puzzle: algumas larvas parecem ser simplesmente menos atrativas para a varroa.
Os investigadores acompanharam durante quatro anos 236 colónias na Califórnia, comparando uma população híbrida adaptada localmente com linhas comerciais. Os resultados foram claros:
- cerca de 68% menos varroas nas colónias híbridas;
- muito menos colónias ultrapassaram o limiar de tratamento;
- consequentemente, necessitaram de menos aplicações de acaricidas.
Mas a descoberta mais interessante surgiu no laboratório.
Quando as varroas puderam escolher entre larvas de diferentes origens genéticas, preferiram sistematicamente as larvas das linhas comerciais. As larvas híbridas eram significativamente menos escolhidas, sobretudo aos sete dias de idade, precisamente a fase em que normalmente ocorre a invasão das células antes da operculação.

O que significa isto?
A varroa apenas se reproduz dentro de células operculadas. Se encontrar menos facilidade em localizar ou reconhecer as larvas mais adequadas, a sua taxa de reprodução poderá diminuir logo na primeira etapa do ciclo.
Os autores sugerem que esta menor atratividade poderá resultar de diferenças em:
- compostos voláteis emitidos pelas larvas;
- perfil de hidrocarbonetos cuticulares;
- sinais químicos utilizados pela varroa para identificar o momento ideal para entrar na célula;
- eventualmente diferenças fisiológicas ou imunitárias das próprias larvas.
Ainda não se sabe qual destes mecanismos é o responsável, mas todos apontam para uma característica intrínseca da cria, e não do comportamento das abelhas adultas.
Este mecanismo junta-se aos já conhecidos
Hoje sabemos que a resistência natural à varroa não depende de um único fator, mas da combinação de vários mecanismos:
- Comportamento higiénico sensível à varroa (VSH) – remoção da cria infestada antes da emergência.
- Grooming – as abelhas removem ou danificam ácaros presentes no seu corpo.
- Redução da reprodução da varroa (SMR) – muitas fêmeas produzem menos descendentes ou tornam-se inférteis.
- Menor duração do período pós-operculação – reduz o tempo disponível para a reprodução da varroa.
- Enxameação frequente – cria interrupções naturais da criação e quebra o ciclo reprodutivo do ácaro.
- Maior tolerância aos vírus associados à varroa, permitindo que a colónia sobreviva mesmo com alguma infestação.
- Novo mecanismo agora identificado: larvas menos atrativas para a entrada da varroa, reduzindo potencialmente o número de células invadidas logo no início do ciclo reprodutivo.
Porque é importante?
Este estudo muda parcialmente a forma como encaramos a resistência.
Até agora imaginávamos que a varroa entrava nas células normalmente e depois encontrava dificuldades em reproduzir-se ou era removida pelas abelhas.
Agora surge a possibilidade de existir uma etapa anterior: algumas larvas podem ser menos “visíveis” ou menos apelativas para a varroa, reduzindo a invasão desde o primeiro momento.
Se este mecanismo for confirmado noutros estudos e identificado geneticamente, poderá tornar-se um novo critério de seleção em programas de melhoramento, complementando características como o VSH e o grooming.
Na minha opinião, este é um dos trabalhos mais interessantes dos últimos anos sobre resistência natural. Não porque prove definitivamente um novo mecanismo — os próprios autores reconhecem que falta identificar a base química ou molecular — mas porque abre uma linha de investigação completamente nova: a resistência poderá começar na própria cria, antes sequer de a varroa entrar no alvéolo/célula.