ácido fórmico: em que estado ficaram as varroas que não matou?

Ontem, a propósito da publicação anterior, um apicultor deixou uma observação que me pareceu suficientemente interessante para aprofundar e sistematizar nesta publicação o que se sabe sobre o assunto. Tinha tratado algumas colmeias com ácido fórmico em maio. No final de junho, durante a cresta, trouxe por engano num sobreninho um quadro com criação e aproveitou a oportunidade para procurar Varroa. Encontrou apenas dez fundadoras adultas. O que verdadeiramente lhe chamou a atenção foi outra coisa: as dez estavam sozinhas nos alvéolos, sem descendência. A criação estava já suficientemente desenvolvida, com os olhos das pupas pigmentados e o corpo a começar a escurecer. A pergunta que colocou foi simples: tinha ouvido dizer que o ácido fórmico, mesmo quando não mata as varroas que estão dentro da criação operculada, pode torná-las estéreis. Poderia ser esta a explicação?

A observação merece atenção porque entre o tratamento de maio e aquilo que foi visto no final de junho decorreram várias semanas. As fundadoras encontradas não podiam ter permanecido desde maio naqueles mesmos alvéolos. Teriam sobrevivido ao tratamento, passado novamente pela fase de dispersão sobre as abelhas adultas e entrado posteriormente em nova criação. E a fase de desenvolvimento das pupas também é importante. A fundadora entra no alvéolo pouco antes da operculação e inicia normalmente a postura cerca de 60–70 horas depois, seguindo-se novos ovos aproximadamente a intervalos de 30 horas. Quando os olhos da pupa estão já bem pigmentados e o corpo começa a escurecer, uma Varroa que esteja a reproduzir normalmente deverá apresentar descendência facilmente observável. Encontrar apenas a fundadora significa, portanto, que naquele alvéolo a reprodução não ocorreu normalmente.

Da direita para a esquerda: ovo; protoninfa; deutoninfa masculina (em baixo); deutoninfa feminina (em cima); macho adulto (em baixo);fêmea adulta (em cima). Sobre o ciclo de vida e reprodução da varroa ver https://abelhasabeira.com/o-ciclo-de-vida-do-acaro-varroa-uma-actualizacao/)

Encontrar uma fundadora sem descendência não tem, por si só, nada de extraordinário. Há Varroas que não reproduzem num determinado ciclo e a percentagem varia bastante entre colónias e populações. Há também colónias com características de resistência nas quais a reprodução da Varroa é mais frequentemente interrompida. Encontrar dez fundadoras e estarem as dez sozinhas é uma observação diferente, embora dez continue a ser uma amostra pequena e não exista neste caso uma colónia controlo que permita saber qual seria a taxa de não reprodução sem o tratamento.

Creio que esta ideia sobre a esterilização das varroas por acção do ácido fórmico tem origem na história do MiteGone, sistema de libertação prolongada de ácido fórmico desenvolvido por Bill Ruzicka. E vale a pena contar esta história com algum cuidado porque a afirmação de que o fórmico “esteriliza 80% das Varroas” acabou por circular durante anos, mas a sua origem é menos simples do que a frase sugere.

Em 2000, Adony Melathopoulos, Bill Ruzicka e John Gates realizaram um ensaio comparando diferentes formas de utilização do MiteGone, ácido fórmico a 65%, com Apistan e colónias não tratadas. O ensaio mostrou que a colocação vertical dos dispensadores proporcionava um controlo apreciável da Varroa, enquanto a colocação horizontal funcionava bastante pior. Mas esse trabalho não estudou a fertilidade das fundadoras. Portanto, o ensaio original do MiteGone não demonstra qualquer esterilização.

A origem do conhecido número 80% contra 20% aparece mais tarde. Ruzicka relata que em 2007, na Florida, examinou criação de colónias submetidas ao tratamento. Na criação que já se encontrava operculada antes da aplicação, aproximadamente 80% das fundadoras apresentavam reprodução. Posteriormente foram examinados cerca de 500 alvéolos que tinham sido operculados cinco dias depois do início do tratamento e apenas cerca de 20% das Varroas apresentavam reprodução. Em 2020 repetiu a observação num pequeno número de colónias e afirma ter voltado a encontrar aproximadamente a mesma diferença. Daqui terá resultado a afirmação de que uma grande proporção das Varroas sobreviventes ao MiteGone ficaria “infertile”. MiteGone — documentação técnica

Imagem da aplicação do Mitegone (medicamento comercializado no Canadá).

É uma observação interessante, sobretudo porque o protocolo utilizado procurava criação suficientemente desenvolvida para que a reprodução pudesse ser avaliada. Curiosamente, aproxima-se bastante do relato que originou esta publicação: fundadoras presentes, criação suficientemente avançada e ausência de descendência. Mas há uma diferença importante. Os resultados de Ruzicka não foram, tanto quanto consegui encontrar, publicados num trabalho científico independente e revisto por pares que tivesse acompanhado individualmente as Varroas depois da exposição. Encontrar uma fundadora sem descendência permite dizer que ela não reproduziu naquele ciclo; não permite concluir que ficou definitivamente estéril.

Há razões fisiológicas para considerar plausível algum efeito reprodutivo. Bolli, Bogdanov, Imdorf e Fluri mostraram já em 1993 que o ácido fórmico provoca uma forte diminuição do consumo de oxigénio da Varroa, chegando a respiração praticamente a cessar em determinadas condições de exposição. Outros trabalhos reforçaram posteriormente a importância da interferência do fórmico com a respiração celular e com a produção de energia. Uma Varroa pode, portanto, sobreviver a uma determinada exposição sem necessariamente sair dela nas mesmas condições fisiológicas em que entrou. Numa reprodução dependente de uma sequência temporal apertada, uma perturbação suficientemente prolongada pode ser suficiente para perder um ciclo reprodutivo sem que a fundadora tenha necessariamente ficado estéril para sempre.

É precisamente aqui que a literatura científica independente obriga a moderar o entusiasmo pela hipótese.

Ao procurar trabalhos que acompanharam as populações depois de tratamentos com fórmico encontramos repetidamente efeitos que se prolongam para além da aplicação. Plamondon e colaboradores, por exemplo, acompanharam 45 colónias submetidas a diferentes tratamentos. Uma semana depois de retirado o Formic Pro, a queda média diária era muito inferior nas colónias anteriormente tratadas com fórmico e, algumas semanas mais tarde, quando foi utilizado amitraz para avaliar a população residual, continuavam a existir significativamente menos Varroas. Ao mesmo tempo, os próprios autores observam que durante esse intervalo as sobreviventes tiveram oportunidade para voltar a reproduzir-se. Há portanto uma recuperação da população, o que combina mal com uma interpretação em que a generalidade das sobreviventes ficou definitivamente estéril. Plamondon et al. (2024)

Também sabemos que parte deste efeito prolongado pode ter uma explicação mais simples. Estudos posteriores aos tratamentos continuam a encontrar Varroas mortas dentro da criação. Uma fundadora atingida pelo fórmico pode morrer mais tarde, a sua descendência pode ser atingida e os ácaros mortos podem permanecer dentro do alvéolo até à emergência da abelha. Mortalidade imediata, mortalidade retardada, morte da descendência e perturbação da reprodução podem, portanto, contribuir simultaneamente para aquilo que observamos depois do tratamento.

Mas talvez o argumento que mais me faz hesitar perante a afirmação da esterilização venha daquilo que não encontramos.

Uma revisão recente e abrangente da utilização do ácido fórmico contra Varroa destructor, publicada em 2025 por Kosch, Mülling e Emmerich, percorreu décadas de trabalhos sobre este princípio ativo, a sua eficácia, diferentes formas de aplicação e a possibilidade de aparecimento de resistência. A esterilização das fundadoras sobreviventes não aparece estabelecida como um dos mecanismos demonstrados que explicam a eficácia do fórmicoKosch, Mülling & Emmerich (2025)

Esta ausência não demonstra que o fenómeno não exista. Mas também não deve ser ignorada.

O ácido fórmico é utilizado contra a Varroa há várias décadas, em muitos países, e foi objeto de numerosos ensaios independentes. A reprodução do ácaro também tem sido intensamente estudada. Se uma proporção muito elevada das Varroas sobreviventes ao tratamento — 80%, como chegou a ser afirmado — ficasse permanentemente estéril, seria razoável esperar que um efeito desta dimensão tivesse aparecido repetidamente em trabalhos independentes e acabasse incorporado nas revisões sobre o mecanismo de ação do fórmico. Até agora não encontrei essa confirmação.

Isto altera bastante a forma como interpreto os 80% contra 20% observados por Ruzicka. Não vejo razão para os rejeitar, mas também não vejo fundamento suficiente para transformar “não reproduziu naquele alvéolo” em “ficou permanentemente estéril”. O tratamento estava a decorrer quando foi observada aquela forte redução da reprodução. As fundadoras poderiam estar metabolicamente perturbadas, a postura poderia ter sido atrasada, a descendência poderia ter morrido ou algumas fundadoras poderiam posteriormente recuperar a capacidade reprodutiva. Todas estas situações produziriam exatamente aquilo que foi observado: uma fundadora sozinha.

É por isso interessante fazer um pequeno exercício de dinâmica populacional. Partindo das mesmas 100 Varroas vivas depois do tratamento podemos imaginar três situações. Na primeira, todas continuam férteis. Na segunda, apenas 20% reproduzem imediatamente e as restantes 80% perdem temporariamente a capacidade de reprodução, recuperando-a mais tarde. Na terceira, mais extrema, essas 80% ficaram permanentemente inférteis.

As três populações começam exatamente com as mesmas 100 Varroas. Se nesse momento avaliássemos o tratamento contando apenas os ácaros vivos, seriam indistinguíveis. Ao longo dos meses deixam rapidamente de o ser. Uma fundadora que perde um ciclo não deixa apenas de produzir as filhas que nasceriam nesse alvéolo; também deixam de existir as descendentes que essas filhas produziriam posteriormente. É por isso que mesmo uma interrupção temporária da reprodução pode deixar uma marca populacional que persiste bastante depois de a fundadora recuperar.

Este exercício não pretende prever quantas Varroas existirão numa colónia seis meses depois. A disponibilidade de criação, a mortalidade natural, a preferência pela criação de zângão, a reinfestação e muitas outras variáveis tornam a dinâmica real bastante mais complexa. Serve apenas para mostrar que duas Varroas vivas não têm necessariamente o mesmo significado para a população futura se uma estiver a reproduzir e a outra não.

E regressamos assim às dez fundadoras encontradas pelo apicultor no final de junho.

É uma observação compatível com a hipótese de um efeito reprodutivo posterior ao tratamento e, por isso, merece ser registada. Torna-se ainda mais interessante quando sabemos que Ruzicka descreveu anteriormente uma redução muito grande da reprodução durante tratamentos prolongados com fórmico. Mas não permite concluir que aquelas dez Varroas tenham sido esterilizadas pelo tratamento realizado semanas antes. Poderiam existir características particulares daquela colónia, infertilidade temporária espontânea ou outros fatores que não conhecemos.

Depois desta análise sistemática, portanto, ficaria a meio caminho entre rejeitar a ideia e aceitá-la.

Há fundamento para suspeitar que o efeito do ácido fórmico sobre uma população de Varroa possa ser mais complexo do que simplesmente matar ou não matar. O produto entra na criação operculada, atinge fundadoras e descendentes, pode produzir mortalidade retardada e existem observações sugestivas de uma redução do sucesso reprodutivo das sobreviventes. O que não encontrei foi evidência independente suficientemente forte para afirmar que uma elevada proporção dessas sobreviventes fica permanentemente estéril. A experiência que falta nem sequer é difícil de imaginar: identificar fundadoras, expô-las a concentrações subletais conhecidas de ácido fórmico, confirmar a sobrevivência e permitir-lhes posteriormente entrar em nova criação, acompanhando a reprodução durante um ou vários ciclos. Se recuperarem rapidamente, teremos sobretudo uma interrupção temporária; se continuarem sem reproduzir, a hipótese de esterilidade ganhará finalmente outro peso.

E o facto de, depois de várias décadas de utilização e investigação do ácido fórmico, essa demonstração continuar ausente também é informação.

Talvez por isso a pergunta inicial — “o ácido fórmico esteriliza as Varroas?” — seja demasiado fechada. Neste momento parece-me mais interessante perguntar até que ponto uma exposição subletal ao fórmico compromete temporariamente a reprodução das Varroas que sobrevivem e durante quanto tempo esse efeito persiste.

Até lá, continuarei a considerar a expressão “comprometimento do sucesso reprodutivo” mais adequada do que “esterilização”.

Porque talvez a eficácia de um tratamento não esteja completamente descrita pela pergunta habitual — quantas Varroas matou?

Pode haver outra igualmente interessante: que estado ficaram as que não matou?

Referências principais

Bolli, H.K., Bogdanov, S., Imdorf, A. & Fluri, P. (1993). Zur Wirkungsweise von Ameisensäure bei Varroa jacobsoni Oud und der Honigbiene (Apis mellifera L.)Apidologie, 24, 51–57.

vanEngelsdorp, D., Underwood, R.M. & Cox-Foster, D.L. (2008). Short-Term Fumigation of Honey Bee Colonies with Formic and Acetic Acids for the Control of Varroa destructorJournal of Economic Entomology, 101, 256–264. PubMed

Căuia, E. & Căuia, D. (2022). Improving the Varroa (Varroa destructor) Control Strategy by Brood Treatment with Formic Acid—A Pilot Study on Spring ApplicationsInsects, 13, 149. Artigo completo

Plamondon et al. (2024). Estudo de acompanhamento das populações de Varroa destructor após diferentes tratamentos acaricidas. Journal of Insect Science, 24Artigo

Kosch, Mülling & Emmerich (2025). Revisão da utilização do ácido fórmico no controlo de Varroa destructor, eficácia e possível desenvolvimento de resistência. Veterinary Sciences, 12, 144. Artigo completo

Ruzicka, B. — documentação técnica e observações associadas ao desenvolvimento do MiteGone. Os resultados relativos à redução da reprodução são considerados evidência observacional, não demonstração independente de esterilidade permanente. MiteGone — Science

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