Nesta altura do ano, e em territórios onde a pressão da Vespa velutina é baixa ou inexistente, se encontrarmos uma colmeia com centenas de abelhas a voar junto à entrada, parece-me mais provável estarmos perante uma colónia fraca a ser pilhada do que perante uma colónia forte com uma grande geração de jovens abelhas a realizar simultaneamente os seus voos de orientação. Não é uma regra, evidentemente, mas é por aí que eu começaria o diagnóstico.
No final do Verão há geralmente menos criação e será também menos provável encontrarmos dezenas ou centenas de jovens abelhas aproximadamente da mesma geração a chegar simultaneamente à idade dos primeiros voos de orientação. Ao mesmo tempo, acentuam-se frequentemente as diferenças entre as colónias do mesmo apiário. A varroose não evolui da mesma maneira em todas elas: algumas chegam a esta altura ainda muito populosas, enquanto noutras uma infestação mais elevada e as viroses que lhe estão associadas podem já estar a acelerar o declínio da população. Podemos assim ter colónias fortes, ainda com milhares de abelhas forrageadoras, ao lado de outras bastante mais debilitadas, com menor capacidade de defesa, mas que continuam a guardar reservas de mel.
Há ainda um pequeno paradoxo no nosso maneio: as colónias mais fracas são muitas vezes precisamente aquelas que mais alimentamos. Faz sentido que assim seja. Queremos ajudá-las a recuperar ou simplesmente garantir que dispõem de reservas suficientes. Mas, numa época de escassez, estamos também a colocar alimento numa colónia que tem menos abelhas para o defender. Se utilizarmos alimentos ou suplementos particularmente odoríferos, podemos ainda facilitar a sua descoberta pelas abelhas de outras colónias. O odor não provoca, por si só, uma pilhagem, mas pode ajudar uma abelha exploradora a descobrir uma oportunidade que já reúne as restantes condições para que a pilhagem aconteça. E não é necessário imaginar que esse cheiro atrai abelhas a grandes distâncias. Basta que algumas das muitas forrageadoras que circulam pelo apiário descubram a fonte, consigam aceder-lhe e regressem à sua colónia. A partir daí, o recrutamento pode transformar uma exploração discreta numa pilhagem evidente.
Se entretanto terminou uma grande floração, acrescentamos mais uma peça importante. As milhares de forrageadoras das colónias fortes não desaparecem quando acaba o néctar que recolhiam no dia anterior. Continuam a procurar alimento. Uma colónia enfraquecida, com reservas ou a ser alimentada e com poucas abelhas para defender a entrada, pode tornar-se uma excelente oportunidade. Os trabalhos sobre transmissão de Varroa entre colónias mostraram, aliás, como colónias em declínio podem tornar-se atractivas para as pilhadoras das colónias vizinhas.
É neste contexto que surge uma imagem que consegue deixar até um apicultor experiente na dúvida: dezenas, por vezes centenas, de abelhas voam diante da fachada, algumas pairam, aproximam-se da entrada, afastam-se e regressam. Estamos perante pilhagem ou simplesmente perante jovens abelhas a aprender onde fica a sua casa?
A diferença fundamental está no que aquelas abelhas estão ali a fazer. Nos voos de orientação estão a aprender; na pilhagem estão a tentar entrar. Quando uma jovem abelha começa a preparar-se para a actividade exterior, sai da colmeia, volta-se para ela e inicia os característicos voos de aprendizagem. Vemos abelhas pairando de frente para a fachada, recuando, aproximando-se e descrevendo arcos progressivamente maiores. Algumas pousam na fachada ou na tábua de voo e levantam novamente voo. Experiências com radar harmónico mostraram muito bem esta progressão: os primeiros voos permitem aprender a envolvente imediata da colmeia e os seguintes alargam-se progressivamente à paisagem. Quando muitas abelhas chegam simultaneamente a esta fase podemos ter uma nuvem impressionante diante da colmeia, particularmente depois de alguns dias de mau tempo que tenham impedido os voos.

Na pilhagem a pergunta da abelha é outra: por onde consigo entrar? Em vez de uma nuvem que parece observar a fachada, começamos a perceber abelhas que convergem repetidamente sobre a entrada. Umas tentam penetrar, são repelidas, afastam-se pouco e voltam a tentar; outras conseguem entrar. E as pilhadoras não têm razões para se interessar apenas pela entrada normal. Procuram juntas entre caixas, cantos, tampa, fundo ou qualquer pequena abertura. Esta é uma observação simples que podemos fazer no apiário: quando temos dúvidas, não devemos olhar apenas para a tábua de voo. Demos a volta à colmeia. Abelhas a investigar insistentemente juntas e pequenas frestas fazem pender bastante mais o diagnóstico para pilhagem.
As guardas dão-nos outra informação importante. Numa pilhagem já instalada podem começar a interceptar as recém-chegadas e aparecer perseguições, mordeduras e lutas. Mas também aqui não convém transformar o sinal numa regra absoluta. As guardas não identificam todas as estrangeiras e a sua tolerância varia com as circunstâncias. Durante uma boa entrada de néctar podem ser bastante permissivas; quando aumenta a pressão de pilhagem tornam-se muito mais selectivas. Existe inclusivamente pilhagem discreta, que pode decorrer durante algum tempo sem aquela batalha espectacular que todos associamos a uma colmeia a ser roubada.

Quando a pilhagem se torna intensa, a diferença é mais fácil de perceber olhando para o conjunto. Num voo de orientação há uma nuvem diante da colmeia, mas as abelhas parecem ocupar e explorar um volume de espaço: estão voltadas para a fachada, aproximam-se, afastam-se e descrevem arcos. Numa pilhagem forte, a nuvem parece convergir sobre um ponto. Dezenas de abelhas pressionam a entrada, tentam entrar, recuam e voltam a tentar. Podem aparecer lutas, abelhas mortas e pequenos restos de cera dos opérculos das reservas que estão a ser abertas. Quando chegámos a estes últimos sinais, contudo, já não estamos a diagnosticar o início de uma pilhagem.
Se houver dúvidas, olhar para as abelhas
Em vez de procurar um sinal mágico, há seis perguntas que me parecem particularmente úteis:
- As abelhas parecem estar a olhar para a colmeia ou estão a tentar entrar nela?
- A nuvem ocupa o espaço diante da fachada ou converge insistentemente sobre a entrada?
- As abelhas afastam-se progressivamente em arcos ou regressam repetidamente ao mesmo ponto procurando acesso?
- Há abelhas a investigar cantos, juntas entre caixas, tampa ou outras possíveis entradas?
- As abelhas que pousam permanecem tranquilamente na fachada ou procuram avançar imediatamente para o interior?
- As guardas estão tranquilas ou interceptam repetidamente as recém-chegadas?
Nenhuma destas respostas faz necessariamente o diagnóstico sozinha. É o padrão que resulta do conjunto que interessa. Orientação é sobretudo aprendizagem; pilhagem é sobretudo procura de acesso.
Depois podemos juntar aquilo que sabemos sobre a colónia e o apiário: está a entrar néctar? Há grandes diferenças de população entre as colónias? Esta colónia está a entrar em declínio por varroose? Tem poucas abelhas mas ainda bastante mel? Está a ser alimentada? O alimento ou suplemento utilizado tem um odor particularmente intenso? Houve algum derrame de xarope? Existem entradas ou folgas que uma população reduzida tem dificuldade em defender? O comportamento diz-nos o que provavelmente está a acontecer; o contexto ajuda-nos a perceber por que razão está a acontecer naquela colmeia e naquele momento.
Há, contudo, uma situação em que o cenário pode ser bastante diferente daquele com que comecei este texto: os apiários sujeitos a forte pressão da Vespa velutina. A velutina pode contribuir para acelerar o enfraquecimento das colónias, não apenas pela predação directa, mas também pela pressão que exerce sobre a saída das abelhas e sobre a actividade de forrageamento. Quando uma colónia perde grande parte da sua capacidade de defesa, podemos nem chegar a observar uma pilhagem por abelhas com a expressão habitual, porque as próprias velutinas podem antecipar-se e explorar a colónia enfraquecida e as suas reservas. Não significa que a pilhagem entre abelhas deixe de existir nesses apiários; significa que temos outro explorador muito intimidante dos voos de pilhagem das abelhas e muito eficiente das colónias em declínio.
E se continuarmos na dúvida, abrimos a colmeia
Podemos passar vários minutos diante da entrada tentando interpretar trajectórias de voo, mas há uma forma muito simples de esclarecer grande parte das dúvidas: abrir a colmeia e olhar durante alguns segundos. Numa colónia tranquila, com jovens a fazer voos de orientação, encontraremos a actividade normal de uma colónia. Numa pilhagem intensa, aquilo que vemos deverá ser bastante diferente: abelhas a correr sobre os quadros e paredes, movimento desordenado, intrusas procurando as reservas e uma agitação dificilmente confundível com a normalidade.
Não é necessário fazer uma inspecção. Pelo contrário. Uma visualização de alguns segundos deverá ser suficiente. Se a colónia está efectivamente a ser pilhada, mantê-la aberta apenas facilita o trabalho das pilhadoras.
No fundo, o diagnóstico faz-se juntando o comportamento das abelhas, o estado da colónia e as condições do apiário. A mesma nuvem de abelhas diante de uma colónia em forte crescimento numa tarde de Primavera e diante de uma colónia debilitada, com pouca criação e muitas reservas, no final de Agosto, não deve levar-nos a começar o diagnóstico exactamente pelo mesmo sítio.
A diferença que procuramos perceber é afinal bastante simples: umas abelhas estão diante da colmeia para aprender onde fica a sua casa; as outras estão diante dela para descobrir como entrar numa casa que não é a sua.
Dois vídeos para comparar
Voos de orientação — “Honey Bee Orientation Flights”, GD Honey Acres and Craft Work
https://www.youtube.com/watch?v=EDNKpj6xbxU
Vale a pena observar as abelhas voltadas para a colmeia, o espaço que ocupam diante da fachada, as aproximações e afastamentos e os pousos.
Pilhagem intensa — “I Have Never Seen Destruction Like This!”, Black Mountain Honey
https://www.youtube.com/watch?v=wFbTNaY0xe0
Bibliografia
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