varroa e alvéolos de 4,9 mm: quando uma ideia biologicamente plausível não chega

Há ideias em apicultura que têm tudo para nos convencer à primeira vista. A utilização de alvéolos mais pequenos para dificultar a reprodução da varroa é uma delas. O raciocínio é simples e até bastante elegante: a fundação utilizada correntemente levou as abelhas a criar em alvéolos maiores do que aqueles que muitas vezes constroem quando lhes damos liberdade para o fazer; a varroa reproduz-se dentro do alvéolo operculado; se reduzirmos o espaço disponível e, eventualmente, também algum tempo de desenvolvimento da abelha, talvez consigamos dificultar a reprodução do ácaro. Não há nada de disparatado nesta hipótese. O problema começa quando passamos de uma hipótese biologicamente plausível para a afirmação de que os 4,9 mm são uma forma eficaz de controlar a varroa.

Muito cedo na minha apicultura li sobre as experiências de Dee Lusby e Michael Bush com o alvéolo pequeno — e também sobre a posição Housel — como possíveis peças determinantes no controlo da varroa. A posição Housel — uma proposta sobre a orientação e organização do favo no ninho — surgia, no mesmo universo de ideias, como outra peça de um maneio mais “natural”.

Cheguei, aliás, a tocar no assunto neste blogue em 2016, ao resumir uma conferência de António Gómez Pajuelo e ao contrapor os argumentos a favor e contra do alvéolo de 4,9 mm. Mais tarde, uma revisão sobre a ecologia comportamental da varroa levou-me a regressar brevemente à mesma conclusão. Mas não fiz dele então uma reflexão autónoma: as evidências não eram consensuais. Havia relatos de campo convictos, mecanismos biologicamente plausíveis e experiências interessantes; havia também ensaios controlados que não encontravam um efeito fiável. Não queria acrescentar ruído a uma questão sanitária já cheia de promessas fáceis.

Volto agora ao tema porque a tese do alvéolo pequeno ganhou nova tração nas redes sociais. Surge muitas vezes apresentada como uma solução simples: trocar favo convencional por 4,9 mm, deixar as abelhas “regredir” e a varroa deixará de ser o problema que conhecemos. É precisamente essa simplicidade que merece ser examinada.

Vejamos um pouco a história desta tese. A sua divulgação deve bastante ao trabalho e à experiência de campo de Dee Lusby, no Arizona. Perante os problemas provocados pelos ácaros, Dee e Ed Lusby foram reduzindo a dimensão dos alvéolos das suas colónias e acabaram por adoptar os 4,9 mm, dimensão que consideravam mais próxima daquela que as abelhas construíam antes da generalização da fundação de alvéolos maiores. Lusby atribuiu a esta «regressão» um papel importante na capacidade das suas colónias sobreviverem à varroa sem tratamentos acaricidas. Mais tarde, Michael Bush, depois de conhecer os trabalhos de Lusby, experimentou também fundação de 4,9 mm e favo natural. Acabou por dar preferência a este último e relata igualmente ter conseguido manter colónias sem tratamentos, defendendo que no centro do ninho as abelhas constroem naturalmente muitos alvéolos abaixo dos 5 mm [6,7]. São experiências de campo suficientemente interessantes para terem colocado uma boa pergunta à investigação. Mas continuam a ser precisamente isso: experiências e observações de apicultores, nas quais a dimensão do alvéolo aparece juntamente com outras alterações de maneio. Saber se os 4,9 mm, isoladamente, explicavam o controlo da varroa exigia outro tipo de teste.

O blog de Michael Bush merece ser lido, mas não transformado numa bíblia. A apicultura é local e suficientemente idiossincrática para desconfiarmos de receitas universais: aquilo que resulta com ele e com as suas colónias não tem necessariamente de resultar connosco e com as nossas colónias.

Os defensores desta prática apresentam normalmente dois argumentos principais. Num alvéolo menor, a pupa ocuparia proporcionalmente mais espaço, deixando menos espaço livre à varroa fundadora e, sobretudo, à sua descendência. Por outro lado, as abelhas criadas nesses alvéolos seriam ligeiramente menores e poderiam completar o desenvolvimento um pouco mais cedo, roubando à varroa algumas horas preciosas para que as últimas filhas atinjam a maturidade antes da emergência da abelha.

Há alguma biologia que permite compreender de onde nasceu esta ideia. Martin e Kryger encontraram, em abelhas sul-africanas, maior mortalidade de varroas quando obreiras relativamente grandes de Apis mellifera capensis eram criadas nas pequenas células de A. m. scutellata [1]. É um resultado interessante, mas convém reparar num pormenor importante: estava ali criado um desajuste bastante particular entre o tamanho da abelha e o espaço onde ela se desenvolvia. Não significa necessariamente que passar, nas nossas abelhas europeias, de cerca de 5,3 ou 5,4 mm para 4,9 mm produza o mesmo efeito.

E é precisamente aqui que os ensaios de campo começam a arrefecer o entusiasmo.

Ellis e colaboradores compararam colónias utilizando fundação de alvéolo pequeno e não encontraram uma redução significativa da varroa, quer quando esta era medida ao nível da colónia, quer nas abelhas adultas ou na criação [2]. Berry, Owens e Delaplane fizeram três experiências de campo comparando aproximadamente 4,9 mm com 5,3 mm. Também não verificaram que os alvéolos pequenos impedissem o crescimento da população de varroa. Em algumas das medições finais aconteceu mesmo o contrário do que seria esperado [3].

Talvez ainda mais esclarecedor seja o ensaio de Seeley e Griffin com abelhas de origem europeia. Colocaram lado a lado colónias comparáveis, umas exclusivamente em favos de 4,8 mm e outras em favos de 5,4 mm, partiram de infestações semelhantes e acompanharam a evolução da varroa durante o verão. No final, a dimensão dos alvéolos não produziu diferenças na carga de varroa [4]. Referir que Seeley é um investigador de grande prestígio e um defensor das teses da apicultura “natural” ou “darwinista”.

Isto não significa que o tamanho do alvéolo seja biologicamente indiferente à varroa. Essa seria também uma conclusão excessiva. Significa apenas que, quando saímos da explicação teórica e perguntamos se a redução do alvéolo é suficiente para controlar a população do ácaro numa colónia, os resultados experimentais conhecidos não acompanham a promessa [2–4].

Há ainda outro aspecto desta discussão que sempre me pareceu particularmente interessante: os nossos velhos cortiços.

Durante muito tempo as abelhas viveram neles sem lâminas de cera estampada a determinar a dimensão dos alvéolos. Construíam os favos que queriam construir. Se o simples regresso ao favo natural constituísse uma protecção suficientemente forte contra a varroa, seria razoável esperar encontrar aí uma vantagem muito evidente. Ora os cortiços não ficaram, por esse facto, protegidos das consequências da chegada de Varroa destructor. Este argumento, por si só, não demonstra que a dimensão do alvéolo não tenha qualquer efeito. Há demasiadas outras variáveis envolvidas — genética, enxameação, interrupções de criação, vírus, tratamentos ou ausência deles — para fazer uma comparação tão simples. Mas é uma observação difícil de conciliar com a versão mais forte da ideia de que basta devolver às abelhas o seu alvéolo «natural» para resolver uma parte substancial do problema.

Também convém não confundir favo natural com 4,9 mm. Quando constroem livremente, as abelhas não levam consigo uma régua de 4,9 mm. A dimensão dos alvéolos varia dentro do próprio favo, entre colónias e entre populações de abelhas. Transformar um número concreto numa espécie de dimensão natural universal é simplificar uma realidade bastante mais variável.

Há, contudo, uma parte desta história que merece ser preservada. Muitos dos apicultores que trabalham com favo natural ou alvéolo pequeno e relatam sobrevivência sem tratamentos não mudaram apenas a dimensão dos alvéolos. Seleccionam colónias sobreviventes, permitem ou provocam interrupções de criação, renovam favos, aceitam frequentemente maior enxameação e acompanham as colónias de maneira diferente. Quando todas estas coisas aparecem juntas e algumas colónias sobrevivem, atribuir o resultado apenas aos 4,9 mm é dar como demonstrado precisamente aquilo que seria necessário demonstrar.

Por isso não colocaria o alvéolo pequeno no saco das ideias absurdas. Há uma hipótese biológica interessante por detrás dele e há aspectos da relação entre dimensão da abelha, dimensão do alvéolo e reprodução da varroa que continuam a merecer investigação. O estudo de Oddie e colaboradores, comparando colónias susceptíveis e populações naturalmente sobreviventes, é mais um exemplo de que esta relação pode ser bastante mais complexa do que simplesmente «alvéolo pequeno = menos varroa» [5].

Mas uma coisa é procurar compreender essa relação; outra é aconselhar um apicultor a confiar nela para manter a varroa abaixo de níveis perigosos.

Quem quiser experimentar 4,9 mm ou deixar as abelhas construir naturalmente o favo tem aqui, aliás, uma experiência interessante para fazer no seu próprio apiário. Medir realmente os alvéolos construídos, acompanhar regularmente a infestação, comparar colónias e repetir as observações durante mais de um ano ensina provavelmente muito mais do que escolher antecipadamente um dos lados desta discussão.

Até porque a pergunta que verdadeiramente interessa não é se um alvéolo de 4,9 mm incomoda um pouco mais uma varroa. É saber se esse incómodo é suficiente para mudar o destino de uma colónia infestada.

Até agora, os melhores ensaios de campo dizem-nos que não [2–4].

Referências

[1] Martin, S. J. & Kryger, P. (2002). Reproduction of Varroa destructor in South African honey beesApidologie, 33, 51–61. DOI: 10.1051/apido:2001007.

[2] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a varroa mite controlExperimental and Applied Acarology, 47, 311–316.

[3] Berry, J. A., Owens, W. B. & Delaplane, K. S. (2010). Small-cell comb foundation does not impede Varroa mite population growthApidologie, 41, 40–44. DOI: 10.1051/apido/2009049.

[4] Seeley, T. D. & Griffin, S. R. (2011). Small-cell comb does not control Varroa mites in colonies of honeybees of European originApidologie, 42, 526–532. DOI: 10.1007/s13592-011-0054-4.

[5] Oddie, M. A. Y. et al. (2019). Cell size and Varroa destructor mite infestations in susceptible and naturally-surviving honeybee coloniesApidologie, 50. DOI: 10.1007/s13592-018-0610-2.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.