Há poucos dias, um apicultor amigo e cliente dos meus serviços técnicos telefonou-me profundamente preocupado com a pressão da Vespa velutina no seu apiário. Conheço-lhe a dedicação às abelhas e percebi que a situação estava a ultrapassar aquilo que conseguia suportar. Conversámos sobre as possibilidades de intervenção e partilhei com ele informação técnica que tenho vindo a reunir sobre os chamados cavalos de Tróia cuticulares, uma abordagem cujo fundamento exige mais pesquisa do que aquela que habitualmente cabe nas conversas entre apicultores.
Dois dias depois voltou a telefonar. Depois de seguir as indicações que lhe tinha transmitido, praticamente deixara de observar velutinas no apiário e as abelhas tinham retomado os voos de forrageio. A mudança era muito expressiva para quem, pouco antes, via as suas colónias sob aquela pressão. Este relato documenta uma melhoria local; o destino dos ninhos envolvidos não foi acompanhado. Mas o alívio que descreveu, e sobretudo o regresso das abelhas ao trabalho, merecem atenção.
Há aqui uma aparente contradição que prefiro enfrentar directamente. Sim, estamos a falar do mesmo fipronil cuja utilização nas culturas agrícolas quisemos ver proibida para proteger as abelhas. Compreendo, por isso, a objecção de quem estranha que um apicultor admita agora discutir a sua utilização contra a velutina. Também considero que essa discussão fica incompleta quando o nome da substância dispensa qualquer consideração sobre as quantidades e as condições em que é utilizada.

As restrições europeias tiveram fundamento. Em 2013, a avaliação da EFSA identificou um risco agudo elevado para as abelhas associado às poeiras provenientes da sementeira de milho tratado com fipronil, além de lacunas relevantes noutras vias de exposição. O Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013 restringiu as utilizações e proibiu a utilização e a venda de determinadas sementes tratadas, com excepções expressamente previstas. Convém preservar esta precisão quando falamos da «proibição do fipronil». [1, 2]
A diferença de escala merece, contudo, entrar na conversa. A documentação da EFSA inclui ensaios em milho com aproximadamente 50 g de fipronil por hectare. No cenário teórico de consumo nominal que aqui considero, a intervenção sobre 140 mil ninhos corresponderia a 280 g, aproximadamente a quantidade associada a 5,6 hectares naquele referencial agrícola. São contas assentes em pressupostos de consumo e eficácia ainda por validar no terreno, mas a desproporção das quantidades é clara. [2]
Este cenário resulta de uma consulta intensiva de literatura europeia e asiática, cruzando trabalhos realizados em diferentes países e condições experimentais, com quantidades nominais explicitadas que permitem construir uma comparação fundamentada. O propósito foi aproximar uma faixa mínima de concentração que mereça investigação, e eventual utilização com expectativa alta de eficácia e fundamentada na literatura. Os fundamentos e os pressupostos que sustentam estas contas poderão ser apresentados, com maior detalhe, noutros contextos de discussão técnica; nesta publicação, interessa sobretudo tornar compreensível a diferença de escala entre as utilizações em análise.
Um raciocínio semelhante aparece num estudo de Paula Malaquias Souto, Soraia Sousa Santos, Nuno Capela e colaboradores. A equipa comparou teoricamente a quantidade de acetamiprido necessária para atingir 140 mil ninhos com a utilização agrícola, chegando a um total próximo de 100 g, da ordem do aplicado num hectare. O trabalho estudou outros insecticidas e não valida o fipronil nem o seu uso cuticular. Ainda assim, mostra que comparar estas escalas tem lugar na discussão científica. Os 140 mil ninhos referidos pelos autores são um total histórico acumulado até 2023, não uma contagem de ninhos activos num único ano. [3]
É neste sentido que considero a contradição mais aparente do que real. Ter defendido restrições a uma utilização agrícola com exposição das abelhas é compatível com querer estudar uma intervenção dirigida a um invasor, envolvendo quantidades globais muito diferentes. A coerência está no objectivo de proteger as abelhas e o funcionamento dos ecossistemas, acompanhando aquilo que sabemos sobre cada utilização.
Naturalmente, uma quantidade pequena de um insecticida muito tóxico pode continuar a causar danos. A comparação em gramas esclarece a escala do consumo; o impacto depende também de onde fica a substância, da sua persistência e dos organismos que lhe ficam expostos. É precisamente por isso que me parecem insuficientes tanto a rejeição automática como a garantia de inocuidade. Interessa conhecer o resultado ambiental concreto de uma intervenção eficaz e compará-lo com o que acontece quando a pressão da velutina se mantém.
Essa outra dimensão também tem números. Rome e colaboradores estimaram que uma colónia de Vespa velutina, ao longo do seu ciclo, necessita de cerca de 97 mil presas equivalentes a abelhas, correspondentes a aproximadamente 11,32 kg de insectos. Trata-se de uma estimativa construída a partir das necessidades alimentares e do desenvolvimento colonial. Se 140 mil colónias completassem um ciclo comparável, a extrapolação aproximar-se-ia de 1 585 toneladas de insectos. A predação correspondente às cerca de 1 600 toneladas de insectos estimadas neste cenário merece também ser considerada nas suas consequências para a rede alimentar: parte dessas presas deixa de estar disponível para aves, aranhas e outros predadores nativos. [4]
No apiário, o prejuízo também passa pelas abelhas que deixam de sair. Foi essa mudança que o meu amigo descreveu no segundo telefonema: voltou a vê-las trabalhar. A redução do forrageio, a dificuldade em manter a entrada de alimento e o definhamento das colónias fazem parte do problema que o apicultor enfrenta. E a discussão interessa igualmente a quem depende da polinização, a quem trabalha nos pomares e lida com vespas nos frutos e durante a colheita, ou a quem encontra um ninho perto de casa.
Gostaria, por isso, que voltássemos a olhar para esta questão com sensibilidade para as duas escalas e para os dois lados do impacto. Que consequências teria para o ecossistema uma utilização dirigida de quantidades tão reduzidas de fipronil, caso se confirmasse a sua eficácia? E que consequências tem a permanência de uma população de velutinas desta dimensão para os insectos, para a apicultura e para as restantes actividades afectadas? O telefonema daquele apicultor não resolve estas perguntas. Dá-me, porém, uma razão concreta para desejar que sejam discutidas sem respostas demasiado fáceis.
Documentos oficiais e estudos
- Comissão Europeia (2013). Regulamento de Execução (UE) n.º 781/2013, de 14 de Agosto de 2013, relativo às condições de aprovação do fipronil e à proibição da utilização e venda de sementes tratadas com produtos fitofarmacêuticos que contenham esta substância activa. Jornal Oficial da União Europeia, L 219, 22–25.
- EFSA (2013). Conclusion on the peer review of the pesticide risk assessment for bees for the active substance fipronil. EFSA Journal, 11(5), 3158. DOI: 10.2903/j.efsa.2013.3158.
- Souto, P. M., Santos, S. S., Sarmento, A., Ronsani, A. L., Tomaz, A. L., Azevedo-Pereira, H. M. V. S., Leston, S., Ramos, F., Sousa, J. P., & Capela, N. (2025). Assessing the oral toxicity of acetamiprid, spinosad, cypermethrin, and pyrethrins in the invasive hornet Vespa velutina nigrithorax. Scientific Reports, 15, 45112. DOI: 10.1038/s41598-025-31988-x.
- Rome, Q., Perrard, A., Muller, F., Fontaine, C., Quilès, A., Zuccon, D., & Villemant, C. (2021). Not just honeybees: predatory habits of Vespa velutina (Hymenoptera: Vespidae) in France. Annales de la Société entomologique de France, 57(1), 1–11. DOI: 10.1080/00379271.2020.1867005.