A minha experiência com quadros iscados terá ocorrido por volta de 2012–2013. Foi também por essa altura que comecei a ler sobre as vantagens que lhes eram atribuídas e sobre os problemas que poderiam colocar. Chamava quadros iscados aos quadros onde, em vez de colocar uma lâmina completa de cera estampada, colocava apenas uma pequena tira de cera junto à travessa superior, deixando às abelhas a construção do restante favo. Experimentei-os em pouco mais de uma dezena de colónias. A experiência não se prolongou: aquilo que observei levou-me logo depois a deixar de utilizar esta técnica.

Só bastante mais tarde, em 21 de janeiro de 2019, escrevi sobre o assunto neste blogue, em «Quadros iscados: vantagens e desvantagens» [1]. Nessa altura já não os utilizava. A publicação recuperava a experiência feita cerca de seis anos antes e as leituras que tinha iniciado nesse período e continuado entretanto. Havia boas razões para experimentar: utilizar menos cera laminada, introduzir menos resíduos eventualmente presentes nessa cera, permitir às abelhas escolherem a dimensão dos alvéolos e deixá-las construir um favo mais próximo daquele que fariam sem a matriz imposta pelo apicultor.

O que encontrei nas colónias foi outra coisa que também fazia parte dessa liberdade. Quando introduzia quadros iscados em colónias fortes, sobretudo durante a época em que estavam fisiologicamente orientadas para a reprodução, uma parte muito importante do novo favo era construída com alvéolos de zângão. Na publicação de 2019 referi situações em que estes representavam 25 a 50% da nova construção [1]. Foi sobretudo esse resultado que me levou a abandonar a prática logo depois daquela experiência em cerca de dez colónias.
Hoje consigo olhar para essas observações com bastante mais informação. Dez colónias, num determinado território e sob o mesmo maneio, não constituem um ensaio científico. O que me parece mais interessante, mais de uma década depois, é verificar até que ponto aquilo que observei localmente aparece também quando o problema é estudado experimentalmente.
No projecto Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control, as colónias que construíram sem a matriz imposta pela fundação apresentaram 33 ± 3,5% de favo de zângão [2]. O resultado aproxima-se bastante daquilo que eu próprio tinha encontrado nos quadros iscados. Seeley e Morse encontraram nos ninhos naturais cerca de 17 ± 3% da área de favo constituída por alvéolos de zângão [3]. Os trabalhos clássicos de Allen mostram, por outro lado, que a quantidade de criação de zângão é fortemente influenciada pela disponibilidade de favo apropriado [4]. Randy Oliver, apoiando-se no trabalho de Allen, utiliza cerca de 5% da área de criação como valor habitual de referência, referindo que, quando existe abundância de favo de zângão, esta componente pode aproximar-se dos 20% [5]. Os estudos não medem exactamente a mesma variável — nuns casos área de favo, noutros área de criação —, mas em todos aparece a mesma tendência: quando se dá liberdade de construção às abelhas aumenta a componente destinada aos zângãos.
Produzir zângãos faz parte da estratégia reprodutiva de uma colónia. Allen e posteriormente Free e Free & Williams mostraram ainda que essa produção é regulada pela quantidade de favo de zângão que já existe no ninho [4,6,7]. Quando a colónia dispõe de favo deste tipo, diminui a construção adicional de alvéolos de zângão noutros locais. A época, a força da colónia e a disponibilidade prévia de favo adequado entram nesta regulação. Aquilo que eu via nos quadros iscados durante a época reprodutiva era, afinal, uma manifestação bastante previsível dessa biologia.
Há um custo produtivo associado. Produzir e manter milhares de zângãos exige recursos. Seeley comparou durante três anos colónias às quais disponibilizou aproximadamente 20% de favo de zângão com colónias onde essa disponibilidade era muito menor. As primeiras aumentaram em média 25,2 kg de peso durante a estação, enquanto as segundas aumentaram 48,8 kg [8]. Não transformaria estes números numa regra de conversão entre quantidade de zângãos e quilogramas de mel, mas a diferença encontrada por Seeley é demasiado grande para ignorar o investimento que a produção de machos representa para a colónia.
Há depois a Varroa. A criação de zângão constitui o substrato reprodutivo preferencial de Varroa destructor. O período de desenvolvimento mais longo permite ao ácaro produzir mais descendentes viáveis e esta criação é desproporcionalmente infestada quando está disponível. Se os quadros iscados aumentam a quantidade de favo e de criação de zângão, aumentam também a disponibilidade do substrato onde a Varroa consegue reproduzir-se mais eficazmente.
Randy Oliver permite visualizar a dimensão deste efeito no seu simulador de dinâmica populacional da Varroa. Utilizando cerca de 5% de criação de zângão como situação de referência, quando aumenta esse valor para 10% a população de ácaros cresce apreciavelmente mais depressa [5]. Os 10% são um cenário introduzido na simulação, e não uma média medida nas colónias. A diferença entre as duas curvas ao longo da estação ajuda a perceber por que razão passei a olhar de outra forma para a quantidade de criação de zângão que encontrava nos quadros iscados.
Mas havia vantagens que me tinham levado a experimentar esta técnica e vale a pena regressar a elas. Uma das que mais me interessava era reduzir a quantidade de cera laminada introduzida na colmeia. A preocupação com a qualidade dessa cera não era infundada. Em 2016 comecei a escrever neste blogue sobre resíduos de acaricidas em «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas» [9] e «Mudança do princípio activo do acaricida» [10], regressando posteriormente várias vezes ao assunto. A cera funciona como reservatório de diversos compostos lipossolúveis utilizados dentro e fora da colmeia e a sua reciclagem permite que alguns regressem às colónias através das novas lâminas. Se em vez de uma lâmina completa utilizarmos apenas uma pequena tira, introduzimos obviamente muito menos dessa cera.
A questão mais difícil é saber o que isso representa para a colónia. Um trabalho de Payne e colaboradores, publicado em 2019 e que apresentei neste blogue em julho de 2023 [11], permite colocar o problema num terreno experimental particularmente útil. Os autores constituíram colónias sobre cera laminada sem pesticidas ou sobre cera contaminada, em concentrações consideradas representativas das encontradas no campo, com amitraz, com uma mistura de tau-fluvalinato e cumafos, ou com clorotalonil e clorpirifos. Acompanharam a construção dos favos, a quantidade de criação, as reservas alimentares, a população adulta e a sobrevivência durante o inverno. Não encontraram diferenças significativas no crescimento das colónias nem na sobrevivência invernal entre os diferentes tratamentos com cera contaminada e o controlo [12]. Encontraram, pelo contrário, uma associação particularmente importante com a Varroa: as colónias que entraram no outono com uma infestação superior a 3% apresentaram menor probabilidade de sobreviver ao inverno [12].
O estudo de Payne não resolve a questão das exposições crónicas, das concentrações mais elevadas ou das misturas complexas que podem resultar de sucessivos ciclos de reciclagem da cera. Mas, nas condições testadas, a vantagem aparentemente óbvia de começar com cera menos contaminada não se traduziu numa diferença mensurável no desenvolvimento ou na sobrevivência das colónias.
Também a possibilidade de as abelhas escolherem livremente a dimensão dos alvéolos fazia parte das vantagens que encontrava nas minhas leituras daqueles primeiros anos. Esta questão acabou por se cruzar com a hipótese de que alvéolos mais pequenos poderiam dificultar a reprodução da Varroa. O favo natural apresenta diversidade de dimensões e zonas de transição que uma lâmina industrial não reproduz, mas os ensaios controlados com alvéolos pequenos não demonstraram um controlo suficientemente consistente de Varroa destructor para que esta possa ser considerada uma técnica sanitária [13].
Há ainda a questão da cera que as próprias abelhas têm de produzir. As estimativas clássicas apontam para vários quilogramas de mel equivalente por cada quilograma de cera produzido, embora esta relação seja muito mais variável do que a conhecida fórmula dos seis ou oito quilogramas por quilograma de cera faz supor. A idade das abelhas, a temperatura, a força da colónia, a entrada de néctar e a necessidade de espaço interferem nesse custo. E uma lâmina estampada também não entrega às abelhas um favo acabado: é necessário levantar as paredes dos alvéolos e acrescentar cera. Ainda assim, num quadro iscado praticamente toda a estrutura terá de ser produzida pela colónia.
O balanço que hoje faço é diferente daquele que me levou a experimentar a técnica em 2012–2013. A construção natural reduz a quantidade de cera reciclada que introduzimos na colmeia, mas as vantagens sanitárias que frequentemente lhe são atribuídas não têm a demonstração científica que por vezes se supõe. A escolha natural da dimensão dos alvéolos também não demonstrou controlar eficazmente a Varroa. Construir praticamente todo o favo tem um custo. E aquilo que mais me chamou a atenção na minha pequena experiência — a quantidade de favo de zângão que as colónias construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem — encontra hoje confirmação em trabalhos realizados muito longe dos meus apiários.
Hoje já não tenho colmeias, mas continuo a acompanhar regularmente apiários através dos meus serviços de apoio técnico. Nesses apiários não recomendo a utilização de quadros iscados no ninho. Prefiro utilizar cera laminada para orientar a construção de favo de obreira e dar à colónia um espaço deliberadamente escolhido onde possa satisfazer a sua necessidade sazonal de construir favo de zângão.
Para isso recomendo a colocação de um quadro de meia-alça na posição 9 do ninho. Abaixo desse quadro fica um espaço livre que, durante a época em que a colónia apresenta forte impulso para produzir machos, tende a ser ocupado com construção natural de favo de zângão. Em vez de deixar essa construção aparecer de forma dispersa em vários quadros iscados, concentra-se num local conhecido, facilmente observado e facilmente removível.

É aqui que os trabalhos de Allen, Free, Free & Williams e Seeley voltam a ser particularmente úteis [4,6,7,8]. A quantidade de favo de zângão já disponível influencia a quantidade adicional que a colónia procura construir. Dar-lhe um espaço próprio para essa construção pode ajudar a concentrá-la nesse local. E há uma diferença relativamente a colocar simplesmente um quadro completo de fundação de zângão: com a meia-alça são as abelhas que decidem quando ocupar o espaço inferior. A construção aparece quando o impulso para produzir machos é forte e tende a desaparecer quando esse impulso diminui. O próprio quadro fornece assim informação sobre o estado sazonal da colónia.
Depois de a criação de zângão estar operculada e antes da emergência, o favo construído abaixo da meia-alça pode ser cortado. Retiram-se os zângãos em desenvolvimento e, com eles, as varroas que entraram nesses alvéolos para se reproduzir. O corte de criação de zângão é uma técnica complementar de controlo da varroose e não substitui a monitorização da infestação nem os tratamentos quando estes são necessários.
Há alguma ironia neste percurso. Uma das razões pelas quais abandonei os quadros iscados foi a quantidade de favo de zângão que as abelhas construíam quando lhes dava liberdade para o fazerem. Hoje continuo a dar-lhes essa liberdade, mas apenas num espaço escolhido para esse efeito. O que antes aparecia espalhado pelo ninho e aumentava a criação disponível para a Varroa fica concentrado num local onde pode ser retirado antes da emergência.
Quando comecei a ler sobre quadros iscados, em 2012–2013, as vantagens atribuídas ao favo natural pareceram-me suficientemente plausíveis para as testar. Fi-lo em cerca de dez colónias e os resultados foram suficientes para me levar a abandonar rapidamente a prática. Continuei, contudo, a ler sobre o assunto. Mais de uma década depois, algumas das vantagens então anunciadas continuam sem a demonstração experimental que seria desejável, enquanto aquilo que me levou a abandonar a técnica — a forte tendência para aumentar a construção de favo de zângão quando se dá liberdade às abelhas para o fazerem — revelou-se bastante mais universal do que a minha pequena experiência poderia demonstrar.
Foi precisamente a observação daquilo que as abelhas faziam com a liberdade dada pelos quadros iscados que me levou a deixar de os utilizar e, agora, anos mais tarde, a recomendar aos clientes dos meus serviços técnicos que também não os utilizem.
Referências — Abelhas à Beira
[1] Gomes, E. (2019). «Quadros iscados: vantagens e desvantagens». Abelhas à Beira, 21 de janeiro de 2019. — Ler
[9] Gomes, E. (2016). «Varroacidas e seus resíduos em produtos apícolas». Abelhas à Beira, 28 de março de 2016. — Ler
[10] Gomes, E. (2016). «Mudança do princípio activo do acaricida». Abelhas à Beira, 31 de julho de 2016. — Ler
[11] Gomes, E. (2023). «A exposição a agroquímicos na cera laminada causa efeitos insignificantes no crescimento e na sobrevivência no inverno de colónias de abelhas melíferas (Apis mellifera)». Abelhas à Beira, 8 de julho de 2023. — Ler
Referências — literatura científica e técnica
[2] Wilson, M. E. et al. Natural Comb Management of Honey Bees for Varroa Control. Sustainable Agriculture Research and Education, Project FS07-221.
[3] Seeley, T. D. & Morse, R. A. (1976). The nest of the honey bee (Apis mellifera L.). Insectes Sociaux, 23, 495–512.
[4] Allen, M. D. (1965). The effect of a plentiful supply of drone comb on colonies of honeybees. Journal of Apicultural Research, 4(2), 109–119.
[5] Oliver, R. (2017). The Varroa Problem: Part 13 — Using the Mite Model. Scientific Beekeeping.
[6] Free, J. B. (1967). The production of drone comb by honeybee colonies. Journal of Apicultural Research, 6(1), 29–36.
[7] Free, J. B. & Williams, I. H. (1975). Factors determining the rearing and rejection of drones by the honeybee colony. Animal Behaviour, 23, 650–675.
[8] Seeley, T. D. (2002). The effect of drone comb on a honey bee colony’s production of honey. Apidologie, 33, 75–86.
[12] Payne, A. N., Walsh, E. M. & Rangel, J. (2019). Initial exposure of wax foundation to agrochemicals causes negligible effects on the growth and winter survival of incipient honey bee (Apis mellifera) colonies. Insects, 10(1), 19.
[13] Ellis, A. M., Hayes, G. W. & Ellis, J. D. (2009). The efficacy of small cell foundation as a Varroa mite (Varroa destructor) control. Experimental and Applied Acarology, 47, 311–316.